Um Sonho Que Posso Chamar de Meu
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Não foram as discussões ou os gritos. Não foram as palavras raivosas ou as declarações rancorosas. Não foram os apelos e o choro, as súplicas.
Foi o som da porta batendo na minha cara. Aquele som explosivo de uma finalidade absoluta. O som de dois meses de uma cacofonia constante de todas aquelas outras coisas terminando abruptamente.
Um estrondo ensurdecedor, que carregava consigo a realização cortante de que a porta da frente da casa da minha infância havia se tornado um muro intransponível de ódio.
Aquele som me atingiu com uma força que eu nunca, jamais vou esquecer. Uma dor mais profunda do que qualquer coisa que eu achava possível.
Um som não deveria ser capaz de deixar uma cicatriz.
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Eu amava os parques durante o dia.
Observar os esquilos no Union Square Park, correr no Hudson River Park. Ler um livro no Bryant Park. Passar um dia ensolarado em um cobertor com um piquenique no Central Park.
Os espaços abertos. Todo aquele verde. Me fazia sentir livre. Me fazia esquecer... outras coisas.
Eu ainda via a escuridão da cidade em todos eles. Os traficantes, os sem-teto, as prostitutas, os garotos de rua.
Eram fáceis de identificar quando você conhecia os sinais. Quando você já havia sido um deles.
Algumas coisas nunca te abandonam.
Desci do metrô na Rua 50, depois de assistir aos trapaceiros do xadrez na Washington Square, e caminhei o resto do caminho para casa. Tranquei a porta atrás de mim e joguei minhas roupas na cadeira no apartamento vazio.
Enquanto escovava os dentes, meus olhos percorriam as cicatrizes nos meus braços e coxas no espelho, lembranças silenciosas de uma época em que ter a porta de um apartamento para trancar e minha própria cama segura para dormir era um sonho distante. Quando um corte de lâmina de barbear parecia a única maneira de sentir. Algo. Qualquer coisa.
Rastejando para debaixo das cobertas, coloquei o alarme do celular para as 8 da manhã. Meu turno começava às 9, mas o pequeno café ficava a uma curta caminhada de distância, então eu teria tempo para um banho rápido e café da manhã com a Liz.
Eu estava aquecida. A porta estava trancada. Eu estava segura.
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Meus olhos encontraram os dela assim que ela entrou pela porta. Ela estava muito longe para eu poder vê-los, mas eu sabia exatamente como eles eram azuis, como os anéis castanhos claros no interior circulavam suas íris. Rapidamente desviei o olhar e voltei minha atenção para o casal na minha frente.
"É só isso então? Obrigada, tenham um bom dia."
Ela era a próxima na fila. Bem, ela era a fila, na verdade, o movimento do almoço estava acabando.
"Oi."
O sorriso dela era meio torto e tão fofo como sempre. Ela tinha uma covinha profunda na bochecha esquerda, mas nenhuma na direita. Sorri de volta, nervosa.
"Oi, o de sempre?"
"Sim, por favor." Ela deu uma risadinha.
"É bom ou ruim que eu venha aqui tantas vezes que você sempre se lembra do meu pedido?"
Senti meu rosto corar.
"Gosto da frequência com que você vem aqui." Me arrependi instantaneamente, sem saber por quê, me afundando no preparo do latte duplo com três bombas extras de caramelo que ela sempre pedia.
A cada dois dias, no final do horário de almoço. Só o café, às vezes um muffin de mirtilo.
Quando levantei os olhos, ela estava me olhando com curiosidade.
"Estou com sorte hoje, sem fila grande."
"Sim, geralmente fica um pouco mais calmo no final do mês." Murmurei.
"É, faz sentido."
Terminei o pedido dela e o entreguei.
"Sem muffin hoje?"
Ela sorriu.
"Não, hoje não. Geralmente almoço com uns amigos às quartas-feiras, não sobra espaço."
"Ah, ok."
Houve um pequeno silêncio constrangedor.
"Bem, ok, obrigada então, te vejo sexta." Ela sorriu e saiu.
Não consegui evitar dar uma espiada nas pernas bronzeadas e sexy dela enquanto ela ia embora.
Eram pernas muito bonitas.
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Às vezes, quando acordava sozinha, a primeira coisa que invadia minha mente era a mala. No chão, jogada para fora com raiva, contendo uma coleção desordenada das minhas roupas e alguns outros pertences.
Arrumada pela minha mãe, jogada para fora pelo meu pai.
Nunca soube qual deles bateu a porta.
Por muito tempo, torci para que tivesse sido ele. Assim, talvez houvesse uma pequena chance de que minha mãe não tivesse realmente falado sério. Que fosse algum tipo de teste. Um ato desesperado para me forçar a negar meus sentimentos. Para voltar a ser a filha deles, não... isso.
Uma pequena chance de que ela ainda me amasse.
Ainda tenho a mala.
Mas perdi a esperança muito tempo atrás.
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Afundei a cabeça nas mãos, gemendo alto em derrota.
Eu não sabia o que diabos estava fazendo.
Nunca conseguiria terminar isso.
Tinha sido uma ideia estúpida, e eu era estúpida demais para fazer isso.
O livro estava no canto onde eu o havia jogado. Papéis com meu dever de cálculo espalhados pelo chão. Olhei de soslaio por entre os dedos.
Suspirei.
Peguei os papéis, fiz a curta caminhada da vergonha para pegar o livro e o coloquei de volta na mesa, aberto na página certa.
"Você consegue!" A voz de Liz veio da cozinha.
"Cala a boca!" Retruquei. Me arrependeria depois. Sempre me arrependia.
Ela sempre perdoava meus acessos de raiva.
Não tinha ideia do porquê. Eu já teria me expulsado meses atrás.
Suspirei novamente, mais alto, e me enterrei em um mundo de sofrimento com cálculo.
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Eu me mantinha firme na maioria dos dias. Controlava meu temperamento. Continuava indo trabalhar. Continuava indo às reuniões. Me mantinha limpa.
Dois anos de um dia de cada vez.
Tentava não complicar minha vida. O simples era mais fácil.
Eu não namorava. Evitava bares e baladas, e não gostava da ideia de conhecer um estranho por aplicativo. Já tinha tido sexo com estranhos o suficiente para uma vida inteira.
Me limitar ao amor-próprio tranquilo no meu quarto era minha escolha.
Eu precisava aprender a me amar novamente, de qualquer forma. Era um processo lento, mas aprender a confiar no meu corpo novamente, a não sentir vergonha do meu próprio prazer, parecia um bom começo.
E parecia suficiente, por um tempo.
Até o dia em que Ava entrou no meu café.
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Seu vestido de verão azul claro abraçava sua figura ao passar pela porta, o tecido balançando a cada passo. A cor era suave, delicada, como se tivesse sido escolhida para combinar com o tom dos seus olhos.
Ela parou logo na entrada, colocando uma mecha solta de cabelo atrás da orelha, a outra mão segurando uma bolsa de couro pendurada no ombro. A luz do sol capturou seus cabelos incrivelmente loiros, fazendo-os brilhar.
Corei imediatamente, atrapalhando-me com a pilha de recibos no balcão como se tivesse algo importante para fazer. Tentando não ficar olhando fixamente.
Ela olhou ao redor do café e deu um pequeno aceno quando seus olhos pousaram em mim. Meu coração tropeçou no peito. Acenei de volta, tentando não parecer tão desajeitada quanto me sentia.
"Oi", ela disse, sua voz calorosa e familiar, embora fôssemos praticamente estranhas. Ela se aproximou do balcão, seu sorriso aumentando enquanto se inclinava um pouco. "Como está seu dia?"
"Uh, bom", consegui dizer, as palavras presas na garganta. "E o seu?"
"Muito bom. É sexta, né? O fim de semana está quase aí."
A voz dela tinha um toque alegre, como se ela carregasse sua própria felicidade consigo, e era impossível não sentir isso.
"Hm... você tem planos?"
"Na verdade, não", eu disse, encolhendo os ombros. "Só trabalho e, sabe... coisas."
"Coisas", ela repetiu, rindo levemente. "Parece misterioso."
Sorri, minhas bochechas queimando.
"Na verdade, não. Só chato."
"Não acredito em você. Você não parece uma pessoa chata."
Corei ainda mais, se é que isso era possível.
"Então, o que você tem planejado que não está me contando?" Ela sorriu e sua covinha piscou para mim.
"Não... eu só... tenho que estudar um pouco."
Assim que as palavras escaparam da minha boca, amaldiçoei internamente. Não sabia por que contei a ela. Eu não a conhecia. Eu não contava coisas às pessoas. E certamente não isso.
O sorriso dela desapareceu, dando lugar a uma expressão de interesse genuíno.
"Ah, o que você está estudando?"
A pergunta inevitável. Desviei o olhar.
"Só..." Suspirei, "Estou... tentando terminar o ensino médio... acho. Tipo, online."
"Oh." Ela pareceu surpresa. Seu rosto se abriu tão lindamente com as sobrancelhas levantadas daquele jeito.
"É." Me virei, me amaldiçoando. Ela provavelmente pensava que eu era uma fracassada agora. Uma garçonete de cafeteria de 23 anos lutando para terminar o ensino médio. Perdedora.
"Bem... isso é ótimo!"
Agora era a minha vez de parecer surpresa. Aquilo não soou como um elogio por pena. O sorriso dela parecia genuinamente feliz.
"Erm... hã... é...?" Ah, inferno, eu nunca sabia como falar com as pessoas.
"Sim, sério." Ela me deu um sorriso genuíno e então olhou para o quadro do menu, embora nunca pedisse nada novo. "Posso pedir o de sempre?"
"Sim, claro", eu disse, já pegando a calda de caramelo.
Enquanto preparava a bebida dela, não conseguia parar de dar olhadelas furtivas. O jeito que ela mudava o peso de um pé para o outro, as sandálias aparecendo por baixo da bainha do vestido. O jeito que os dedos dela tamborilavam levemente no balcão, um ritmo que só ela parecia ouvir.
"Então..." Arrisquei, "Você... está ansiosa pelo fim de semana?"
"Ah, sim. Alguns amigos estão planejando um dia no parque amanhã. Sabe, um piquenique."
Ela fez uma pausa, inclinando a cabeça como se fosse dizer algo mais, mas achou melhor não. Então balançou a cabeça levemente.
"Você deveria tentar algum dia. É bom relaxar lá fora."
"Sim, talvez", murmurei, terminando o latte dela e entregando-o.
Tinha que admitir, por pior que eu fosse falando com as pessoas em geral, eu era muito pior falando com garotas bonitas.
E ela era simplesmente a mais bonita.
Os dedos dela roçaram nos meus quando ela pegou o copo, só por um segundo, mas isso enviou um choque através de mim. Ela não pareceu notar, seu sorriso tão fácil como sempre.
"Obrigada."
Eu não sabia o que era nela. Ela simplesmente tinha esse jeito, como um raio de sol depois da tempestade. Diferente, mas no melhor dos sentidos. Como se carregasse seu próprio pedacinho do céu consigo, e o mundo fosse um pouco mais brilhante onde quer que ela fosse.
Um anjo.
Fiquei ali por um momento, ainda segurando a calda de caramelo, olhando para a porta muito depois de ela se fechar atrás dela.
Ela estava fora do meu alcance. Muito fora. Mas isso não me impedia de pensar nela. Não impedia o pequeno frio na barriga que eu sentia quando pensava nela voltando na segunda-feira.
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Eu me sentei no canto, tentando desaparecer. Minhas mangas escondiam minhas cicatrizes. Minhas mãos tremiam.
A sala cheirava a café velho. Cadeiras raspavam no chão enquanto as pessoas se arrastavam para entrar.
Liz sentou-se ao meu lado, quieta, mas firme. Sua presença me impedia de sair correndo dali.
Um homem falou primeiro. Sua voz falhou enquanto falava sobre perder tudo. Sobre encontrar esperança.
Eu não acreditava que encontraria.
Fiquei olhando para o chão, o peito apertado.
Então foi a minha vez. Meu coração batia forte; minha boca estava seca.
Liz tocou minha mão. "Está tudo bem", ela sussurrou.
Engoli seco. Levantei e olhei para o chão.
"Oi. Meu nome é Charlie", eu disse, minha voz quase inaudível.
As palavras eram pesadas.
"Eu sou... uma viciada."
Mas a sala não julgou.
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Acordei tarde no sábado, aproveitando o fato de que Liz trabalhava a cada dois fins de semana, então eu tinha nosso pequeno apartamento só para mim. Era calmante.
Vesti minhas calças de moletom confortáveis e uma camiseta larga e desbotada do 23 e fiz meu café da manhã. Depois de lutar com cálculo por um tempo, murmurando maldições baixinho, trabalhei um pouco na minha redação de inglês sobre O Grande Gatsby, e então decidi que o resto poderia ficar para amanhã.
Troquei para minha roupa de corrida e saí para fazer minhas 6 milhas de fim de semana no calor do verão. Com Luke Combs e Tracy Chapman nos meus ouvidos e meu cabelo escuro curto escondido por um boné dos Yankees, fiz meu caminho habitual até o Hudson River Park.
Quando voltei, aproveitei ao máximo a chance de um banho demorado e um tempo a sós. Meu corpo ensaboado recebeu uma atenção bem merecida. Imagens do sorriso com covinha e das pernas bronzeadas de Ava flutuavam na minha cabeça enquanto eu deitava de barriga para baixo na cama depois, nua, com a bunda para o ar, e lentamente me excitava à beira do orgasmo com meus brinquedos.
Eu era fissurada em pernas, sempre fui. Gostava de peitos e bundas, ok, mas pernas bonitas faziam meu coração palpitar e minha boceta molhar. A ideia de passar meus dedos sobre elas, subindo por joelhos e coxas, sob saias e shorts, observando os músculos tonificados das panturrilhas se moverem, a forma de suas lindas pernas em meias-calças e saltos altos, seus tornozelos nus desaparecendo em tênis fofos, prometendo pés bonitos e unhas pintadas.
Meu sugador de clitóris me levou a um orgasmo alto e trêmulo.
Fiquei deitada quieta por um tempo depois, apenas me tocando distraidamente, pensando nela.
Era uma fantasia agradável.
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Era uma quarta-feira; o movimento do almoço tinha acabado e apenas algumas pessoas estavam sentadas nas mesinhas perto da janela.
O café estava tranquilo, o leve murmúrio da conversa se misturando com o som da máquina de espresso. Inclinei-me contra o balcão, fingindo me concentrar em limpar uma mancha que não estava realmente lá.
Eu tinha terminado de fazer o café dela, lançando olhares furtivos para ela, admirando como seu rosto estava ainda mais bonito com o cabelo preso. Seus fios loiros platinados estavam presos frouxamente, algumas mechas escapando para emoldurar seu rosto. A luz suave entrando pela janela refletia em sua pele, fazendo-a parecer quase etérea. Como se ela não fosse inteiramente deste mundo.
Engoli seco, tentando manter a compostura. Ela nem percebia o jeito que brilhava. Isso fazia parte. Ela não era apenas bonita, ela era... real. E impossível de desviar o olhar.
Ela se aproximou do balcão, pegando seu café, e olhou em direção à janela. Por um momento, achei que ela fosse embora, como todas as outras vezes, me dando aquele sorriso perfeito e saindo pela porta. Mas então ela hesitou, virando-se de volta para mim, algo incerto cintilando em seus olhos.
"Hm, posso te perguntar uma coisa?" Ela parecia insegura.
"Claro", eu disse. Não havia ninguém esperando na fila, então eu podia conversar. E estava curiosa.
"Você... hm... não quero parecer estranha nem nada, mas eu tenho esse projeto em que estou trabalhando, sabe, tipo, um projeto de fotografia...?"
Ela me olhou um pouco nervosa. Ela estava adorável.
"Sim?" Eu estava imaginando aonde isso ia chegar.
"...Ok, então, é... você, tipo, quero dizer, eu poderia tirar algumas fotos suas?"
Minha guarda subiu.
"Erm..."
Ela percebeu minha apreensão.
"Olha, me desculpe, é que você tem essa energia que seria ótima para o meu projeto."
Eu não disse nada.
"Fotografia sempre foi minha maneira de ver as pessoas", ela acrescentou, sua voz suave.
"Tipo, hm... realmente vê-las, sabe?"
Ela parecia tão adorável quando inquieta com a bolsa daquele jeito.
"...e... mas... se você não está interessada, então, quero dizer..."
Ela estava falando com os sapatos agora. Eu não estava totalmente convencida de que isso era uma boa ideia para mim, mas ela parecia tão linda, e era uma chance de talvez conhecê-la um pouco além de fazer seu café.
"Bem... tudo bem, acho."
"Sim?" Ela levantou os olhos para mim, aquela covinha fofa enfeitando sua bochecha.
"Sim. Embora, quero dizer, não é tipo... para pornô nem nada, certo?"
Ela pareceu horrorizada antes de perceber meu leve sorriso de canto.
"Ah, merda, não, nada disso." Ela riu. "Só um retrato."
"Heh, só verificando." Sorri, aquecida pela risada dela com minha piada idiota.
"Mas, tipo, agora ou...?" Eu nunca a tinha visto carregando uma câmera.
"Não, tipo, talvez... sei lá. Próximo fim de semana?" Ela pareceu um tanto desconfortável novamente.
"Claro." Eu disse, sem ter certeza do que estava fazendo, mas também não era como se eu tivesse algo para fazer de qualquer forma. Meus fins de semana não estavam cheios de atividades fascinantes para escolher.
"Ok, legal!" Seu sorriso voltou com força.
Ela pegou seu café com a mão esquerda e estendeu a direita.
"Sou a Ava", ela riu. "É estranho, sinto que te conheço de te ver tantas vezes, mas nem sei seu nome."
Corei e peguei a mão dela.
"Charlie."
Ela segurou minha mão.
"Prazer em te conhecer, Charlie."
"Prazer em te conhecer também, Ava."
Seus dedos quentes e macios roçaram minha palma quando ela soltou.
"Então... o que é bom para você?"
"O quê?"
"Próximo fim de semana?"
"Ah, erm, domingo provavelmente? Onde você quer se encontrar?"
"Talvez no Highline? Você mora por aqui em algum lugar?"
"É, funciona pra mim, eu tô a umas quatro quadras, na 47."
"Ah, que legal, eu tô lá no Village." Ela sorriu radiante.
Uma garota do Village fazendo projetos de arte. É, ela tava muito, muito acima do meu nível.
Trocamos números e marcamos de nos encontrar.
Quando ela foi embora, não consegui tirar o sorriso do rosto o resto do dia. E eu tinha certeza de que as batidas do meu coração estavam abafando a música no cafézinho.
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Um olhar não deveria doer.
Mas cada olhar que me deram trespassou minha alma.
Pior que todas as palavras.
Depois, com a porta, só ficou o silêncio.
Aqueles primeiros meses sozinha, eu teria dado qualquer coisa só pra ser notada de algum jeito.
Mesmo que fosse com um olhar.
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"Você tem um rosto tão sério," ela disse, quando finalmente perguntei por que ela queria me fotografar.
Ai. Ela viu minha careta.
"Ah, não, desculpa, eu não quis dizer de um jeito ruim, Charlie, é só que você tem um visual interessante. Você é tão reservada e séria o tempo todo, mas aí, tipo, seu rosto inteiro se ilumina quando você sorri. É uma transformação incrível."
Eu não sabia o que dizer. Senti o sangue subir para as bochechas.
"Hã... obrigada... é muito gentil da sua parte dizer isso."
"Bem... é verdade." Ela parecia meio sem graça.
Ela pegou uma mecha rebelde de cabelo e a prendeu atrás da orelha. As sobrancelhas eram da mesma cor. Mal dava pra ver.
Andamos e conversamos, bom, ela falou a maior parte do tempo, e me fez posar em alguns lugares ao longo do Highline. Num corrimão, com ar melancólico, no meio do caminho com aquele hotel Standard feioso ao fundo. Eu só rezava pra não ter ninguém transando nas janelas naquele momento. Olhando pro rio. Sempre séria. Ela parecia querer capturar principalmente minha cara de poucos amigos.
O projeto dela eram fotos artísticas de pessoas da cidade, todo tipo de desconhecidos. Ela disse que um dia queria fazer uma exposição, mas por enquanto postava as fotos no Instagram pra ter visibilidade, tentar ganhar seguidores, construir um perfil.
Isso era pra uma série que ela tava fazendo lá. Não era exatamente fotografia de rua, mas retratos de pessoas que ela encontrava aqui e ali.
Eu achava legal ter coragem de pedir pra um estranho fazer algo tão íntimo.
Pelo menos eu achava extremamente íntimo, ficar ali parada enquanto ela me olhava pela lente. Me senti escrutinada, como se a câmera estivesse captando todas as minhas dúvidas e inseguranças e as gravando permanentemente numa foto. Tipo, ela talvez não tivesse notado ainda, mas a câmera tava olhando direto pra bagunça dentro de mim.
"Ok, sendo sincera," Ava disse, apertando os olhos pra câmera.
"Derrubei essa coisa semana passada, e agora às vezes ela desfoca sem motivo. Então, se seu rosto sair esquisito, a culpa é totalmente minha e não sua."
Ela sorriu, torcendo o nariz fofo.
"Mas ei, se ficar muito ruim, a gente pode chamar de 'arte'."
Ela sorriu.
Ela tava tentando me fazer sorrir. Eu sorri, mas minha ansiedade tava aparecendo. A câmera de algum jeito realçava minha timidez.
Ela fazia design gráfico e um pouco de fotografia na agência e tinha diplomas nas duas áreas.
É, muito acima do meu nível.
Era uma delícia ouvir a voz dela no sol, cercada de turistas.
"Eu gosto de conhecer pessoas," ela disse, a voz pensativa.
"Não só as coisas superficiais. Acho que é por isso que tiro fotos. É mais fácil ver as pessoas quando elas não estão se esforçando tanto, sabe? O jeito que alguém fica mexendo na manga ou como os olhos brilham quando falam de algo que amam."
Ela corou.
"O jeito que a personalidade transparece num sorriso pra câmera." Ela me olhou de relance.
Eu tava feliz por ter uma chance de conhecê-la um pouco melhor. Ouvir ela explicar a paixão pela arte, no que tava trabalhando. Caminhar com ela. Admirar seu sorriso fofo e torto. Suas pernas gostosas e curvas sensuais. Curtir a companhia dela.
Eu não tinha ilusões sobre mais nada.
Ela mencionou um ex-namorado e tive a impressão de que o assunto carregava alguma dor. Não forcei. Não falei muito.
"Quase não me mudei pra cá," Ava admitiu, olhando pros pés.
"Queria achar trabalho como fotógrafa nessa cidade incrível, mas a verdade é que eu tava com medo. Meu ex não achava que eu ia conseguir. Ele achava que eu era... muito frágil pra cidade. Ele não acreditava em mim."
Ela riu baixinho, mas o riso não chegou aos olhos.
Eu não achava ela frágil. Achava ela forte e linda e sexy e inteligente e incrível...
"Então, arrumei minhas coisas e me mudei pra cá mesmo assim."
Ela olhou na minha direção.
"Melhor decisão que já tomei."
Eu achava.
"E você, então?" ela perguntou de repente.
"Nada demais, na verdade." eu disse, na defensiva.
"Eu trabalho, corro, e... estudo." Não consegui esconder meu desconforto em compartilhar qualquer coisa sobre minha tentativa vergonhosa de finalmente conseguir o diploma do ensino médio.
"Eu acho legal, sabe."
"O quê?"
"Você terminar o ensino médio. É legal. E trabalhar em tempo integral também. Deve ser difícil."
Eu corei de novo.
"Obrigada. Não é algo de que eu me orgulhe, na verdade."
"Por quê? Você devia!" A mão dela tocou meu braço. Tão quente.
"Não, é... idiota... é só algo que eu tô... parece algo que eu preciso... terminar. Sabe?"
O rosto dela ficou sério.
"Ei, não é idiota. E muita gente larga o ensino médio por todo tipo de motivo, e nunca termina. Acho ótimo você estar retomando."
"Obrigada. É muito gentil da sua parte dizer isso."
Andamos em silêncio por um tempo. Não sabia o que ela tava pensando, mas eu tava feliz por ela não parecer me achar uma fracassada, e preocupada com o que mais ela podia estar pensando de mim.
Mas, principalmente, eu tava só feliz por poder estar ali com ela. Ela tava deslumbrante.
Eu tava perdidamente caidinha.
"Quanto tempo falta, então?"
"Uh, quase dois anos."
"Ah, é tipo, bastante."
"É."
"Posso perguntar o que aconteceu? Tipo, por que você não terminou?"
Eu travei.
Ela viu minha reação e imediatamente percebeu que tinha dito algo errado.
"Ah, não, desculpa, olha, não é da minha conta. Nossa, eu posso ser tão intrometida, você nem me conhece e eu aqui me metendo na sua vida. Sério, por favor, esquece que eu falei qualquer coisa."
Andamos num silêncio constrangedor por um minuto. Minha mente acelerou.
"Minha... hã..." comecei.
O que eu tava fazendo? Eu não conhecia essa garota.
"Minha... família..."
O nó familiar encheu minha garganta.
Ela tava me olhando com um ar preocupado. Eu desejei desesperadamente não ter dito nada.
"Eles... me expulsaram... quando eu tinha 16 anos."
"Ai meu Deus. Sinto muito." Eu vi a piedade nos olhos dela. Odiei.
"Não... não... você não sabia... não se preocupa com isso... é... algo de que não falo muito."
Meu desconforto profundo tava transparecendo. Eu sentia meu coração bater. Sentia lágrimas brotando.
Ela tocou meu braço de novo. Tão suave.
"Ei, me desculpa por ter te chateado, não foi minha intenção."
O toque dela era gostoso, a voz cuidadosa.
"Tudo bem. Não é culpa sua se meus pais são uns babacas preconceituosos." eu disse baixinho.
"Ah..." ela puxou o ar, "...ah! Você quer dizer...?"
"É. Não aprovavam minhas... 'escolhas de estilo de vida'." Eu até fiz as aspas com os dedos. Ouvi a raiva e a dor na minha própria voz. Me senti enjoada.
Eu não sabia por que caralhos tava despejando isso nela. Eu nunca falava dessas merdas. Só trazia a dor de volta e me deixava puta e vulnerável.
A veemência na voz dela me pegou de surpresa.
"Isso é uma bosta. Ninguém deveria passar por isso por causa de quem é."
No silêncio que se seguiu, percebi que tava prendendo a respiração, esperando a reação dela, apavorada com a rejeição.
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Eu devia ter ligado pro Conselho Tutelar.
Talvez fossem forçados a me aceitar de volta ou ser acusados de crime.
Eu podia ter conseguido ajuda.
Eu não sabia. Eu tava em choque.
Só peguei um ônibus.
Tinha que fugir. Cidade diferente. Estado diferente. Qualquer lugar diferente.
Minha mala surrada virou minha casa.
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A Liz já tinha chegado quando eu voltei.
"E aí, Cee, já tá em casa?"
"Uhm, tô."
Ela sorriu de um jeito brincalhão pra mim.
"E aííí, como foi seu encontro então?"
"Cala a boca, não foi um encontro."
"Seeeério? Então por que você se arrumou toda bonitinha, uma camisa legal, cabelo com gel?"
A cabeça dela apareceu na porta da sala, com um sorrisinho.
"Uau, até maquiagem? Admite, Cee, você gosta dessa garota." Porra. Agora eu nunca mais ia ouvir o fim disso.
"Para com isso, Liz, ela é hétero. Foram só umas fotos." eu retruquei.
Ela pareceu magoada.
"Bom, desculpa. Não precisa gritar comigo, sabe. Só achei que você tava bonita."
Baixei a cabeça, arrependida.
"Desculpa, Liz, eu não queria..." me joguei no sofá.
"É que... ela me fez falar e... eu contei umas coisas pra ela." segurei a cabeça com as mãos.
"Coisas?"
Encontrei os olhos preocupados dela.
"É... sobre... você sabe... eles."
Ela piscou surpresa.
"Contou?"
"É."
"Ah."
"Pois é."
"Então... você gosta mesmo dela."
"É," gemi, cobrindo o rosto de novo.
Houve um silêncio carregado.
"O quê?" disparei.
"Hã... não vai me morder, tá, mas... você tem certeza que ela é hétero?"
Pensei nisso.
"Ela tava falando que o ex-namorado foi um babaca, então basicamente sim."
"Ah. Ok."
Silêncio.
"Precisa conversar?"
"Não, obrigada, eu fico bem."
Ela me olhou com ternura.
"Ok. Mesmo assim, vou ficar em casa essa noite, então se sentir necessidade, me avisa, tá?"
"Não precisa ficar em casa por minha causa, Liz."
"É domingo, Cee, eu não ia sair de qualquer jeito. Então, que tal uma pizza e Netflix? Uma noite tranquila de meninas?"
Eu sorri.
"É, parece legal."
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As luzes fluorescentes zumbiam baixinho. O ar cheirava a café e produtos de limpeza. Atravessei a porta do abrigo e pisei num chão de linóleo gasto, mala na mão. Meu coração batia forte, me desafiando a cortar e correr.
Não fiz. Não podia. Não tinha outro lugar. Só a rua.
Mantive a cabeça baixa, o capuz fazendo sombra no rosto. Se eu não olhasse pra cima, talvez conseguisse entrar, sem ser notada.
"Ei, você aí."
A voz me fez parar no lugar. Não era ríspida ou exigente. Não era de pena. Era suave. Gentil.
Ela tava atrás da mesa, cachos escuros emoldurando o rosto. Não parecia surpresa, nem enojada, nem cansada de ver mais um caso entrando. Ela só sorriu, como se tivesse me esperando.
"Você tá no lugar certo," ela disse calmamente. "Vem, senta aqui."
Eu não me mexi. Ela não me apressou. Só ficou ali, atrás da mesa, as mãos levemente pousadas em cima, sem ameaças, como se tivesse todo o tempo do mundo.
"Tá tudo bem," ela disse, a voz ainda mais suave agora. "Você tá segura aqui. Eu prometo."
Segura. Meu peito apertou, e lágrimas arderam nos olhos. Engoli de volta e dei um passo trêmulo pra frente. Sentei dura, agarrando a alça da mala.
Ela saiu de trás da mesa, se agachou na minha frente e encontrou meus olhos. Não olhou de cima pra mim, não se elevou sobre mim. Ela sorriu de novo, como se não fosse grande coisa ser gentil com alguém como eu.
"Meu nome é Liz," ela disse, estendendo a mão. A voz dela era calma, mas firme. "Qual o seu?"
Hesitei. Ela esperou pacientemente.
"Charlie."
"Oi Charlie. Que bom que você nos achou. A gente pode ajudar."
A mão dela continuou ali, esperando. Lentamente, soltei minha mala e a peguei.
Seu aperto era quente. Firme. Como se não fosse soltar.
E não soltou.
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Segunda foi estranha. Ou melhor, eu tava me sentindo estranha.
A Ava veio pro café e pro muffin, mas tinha uma multidão e não deu tempo de conversar. Ela tava absolutamente deslumbrante naquela blusa vermelha, o cabelo super loiro preso bem alto.
Mas quando terminei meu turno às cinco, ela tava esperando do lado de fora.
"Uhm, oi. O que você tá fazendo aqui?" eu disse, surpresa e um pouco brusca demais.
"Oi." Ela parecia insegura. "Só queria te mostrar as fotos, se você quiser?"
Ah.
"É, não, desculpa, isso seria legal. É, beleza. Ok."
Ótimo. Eu só tava tagarelando.
Ela tava de saia lápis preta na altura do joelho com a blusa. Vans preto. Pernas de fora. Tentei não ficar encarando.
Sentamos nas escadas do prédio do outro lado da rua, e ela sacou um iPad da bolsa.
"Adorei como ficaram."
Eu assisti enquanto ela passava por umas dez fotos. Era estranho. Era eu, mas de algum jeito não era eu.
"Ora, vejam só. Você é boa!"
"Obrigada," ela disse, as bochechas ficando rosadas. Juro, ela tava corando um pouquinho.
Parei numa das fotos. A que eu tava olhando pro rio. Gostei de como eu aparecia nela, séria, mas não triste. Pensativa, mas não sofrida.
Era uma sensação estranhamente satisfatória, gostar de mim mesma.
Mesmo que fosse só numa foto.
Ela perguntou se eu importava que ela colocasse algumas nas redes sociais.
Eu disse que não me importava nem um pouco e anotei mentalmente o perfil dela no Instagram enquanto ela me mostrava outros trabalhos que tinha posto lá.
Ela era realmente muito boa.
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Quando perguntei se ela queria se encontrar esse fim de semana, soou totalmente como um encontro. Dessa vez não tinha sessão de fotos pra disfarçar meu interesse.
A gente se encontrou no Pier 45 no Hudson River Park. Levei café e muffins de blueberry com maçã. Muito caramelo pra ela. Ela ficou tão feliz com isso. Me fez sorrir.
Fiz minha corrida de manhã, depois tomei banho e me arrumei um pouquinho.
"Não é um encontro," eu disse a mim mesma, enquanto ajeitava o cabelo por muito mais tempo que o necessário.
"Não é um encontro," pensei, enquanto mexia no estoque da Liz de novo pra umas pinceladas sutis de maquiagem.
Pelo menos ela tava no trabalho, então fui poupada das provocações dela.
"Definitivamente não é um encontro," pensei enquanto fazia questão de comprar o muffin perfeito pra ela.
Andamos, sentamos no sol, conversamos e rimos. Era fácil estar perto dela, calmante. Ela falava mais, e eu ficava feliz em ouvir e conhecê-la melhor.
Contei que morava na cidade há três anos, depois de me mudar bastante. Vaga de propósito. Ela me contou como veio pra cá da Filadélfia pra fazer o curso de Artes Visuais em Columbia. Como amava o trabalho na agência de publicidade, e tava feliz solteira depois de um término ruim. Ela geralmente ia pra casa nas festas de fim de ano encontrar os pais e a família do irmão.
Aí chegou a hora da inevitável pergunta "E você?"
Tentei não parecer tão desconfortável quanto me sentia.
"Não, sou só eu e a Liz aqui. A gente inventa nossas próprias festas em casa."
"Ah, ok." Ela pareceu sem saber o que dizer.
"Vocês duas... são tipo, um casal?"
"O quê? Ah, não, não, somos só colegas de quarto." Pensei naquela frase. Não soou bem.
"Hã... bem, não 'só colegas de quarto'... isso não tá certo... ela, uh..."
De novo, me vi começando uma frase com ela, que não queria terminar. Realmente não queria dessa vez.
"...a Liz, uhm..."
Porra.
Ela pareceu preocupada.
"Ela, uh... ela me salvou."
"Como assim?"
Ah, porra. Definitivamente não era assim que esse não-encontro devia estar acontecendo.
"Ah, não, só... olha, eu realmente não falo sobre isso, ok? Só esquece. Só quis dizer que ela significa muito pra mim. Muito mais que só uma colega de quarto."
Ela olhou pras crianças brincando nos balanços. Senti a mão dela deslizar sobre a minha. Macia. Quente.
"Tudo bem, eu entendo. Você pode me contar quando quiser, se quiser. Eu sou boa de ouvir."
Os sons das crianças se divertindo no playground preencheram o silêncio. Pais conversando por perto, vigiando.
De algum jeito senti vontade de falar, de contar coisas que queria esquecer. O silêncio calmo dela de algum modo fazia parecer certo contar.
"A Liz... uhm... ela tava trabalhando nesse abrigo feminino onde eu fiquei um tempo. Quando eu cheguei aqui." Fechei os olhos e só respirei. Agora o gato tava fora do saco.
Ava puxou o ar, mas não disse nada. Ainda só ouvindo, me deixando ditar o ritmo. Senti a mão dela apertar sutilmente a minha.
"Acho que ela viu algo em mim... a Liz, digo... acreditou em mim." As palavras me fizeram sentir pequena.
Minha mente tava de volta no abrigo, lembrando o estado em que eu cheguei lá. Fechei os olhos, lutando contra as lágrimas.
"Não tenho ideia do porquê."
O silêncio preencheu o espaço entre nós de novo. Eu sentia que ela tava sendo paciente, não distante. Isso me fez sentir um pouco mais segura. Fiquei olhando pras crianças, evitando os olhos dela. Não queria ver a piedade. Sabia que ia estar lá. Não queria isso. Não dela.
"Ela me colocou num programa... pra ficar limpa, virou minha conselheira. E me convidou pra morar com ela."
"Uau. Ela parece incrível."
"É. Ela realmente é."
Silêncio.
"Então... você passou por maus bocados." A voz dela tava baixinha.
Eu suspirei.
"Acho que sim. É... uh..."
Não sei por que continuei indo, só fui. Com ela, eu simplesmente abria a boca, e toda a minha merda feia saía. Falar com ela de alguma forma parecia certo, fácil.
Se eu já tive alguma chance com ela, com certeza foi pro espaço agora.
"...Eu não estaria aqui se não fosse pela Liz."
"Como assim...?"
Ela estava olhando para todas as cicatrizes de corte nos meus braços. Eu não as escondia mais sob mangas largas de moletom. Era parte da tentativa de curar. Algum dia. Talvez.
Ela provavelmente já tinha percebido que eu tinha sido um caso de ansiedade ou depressão em algum momento. A maioria das garotas não se corta assim por diversão. Mas agora ela estava percebendo que as cicatrizes nos meus pulsos eram diferentes das outras.
Dor e susto de repente tomaram seu rosto.
Ah, merda.
"É. Ah... olha, não... não... eu estava... num lugar ruim naquela época."
Silêncio.
"A Liz... ela me encontrou. Foi assim que ela me colocou num programa."
Havia lágrimas nos olhos dela agora.
Desviei o olhar. Odiei o fato de tê-la deixado infeliz falando sobre minha vida de merda. Odiei como ela tinha que sentir por mim. Odiei a pena.
"Olha, desculpa, não foi minha intenção desabafar com você. É que a Liz é muito especial para mim, e eu só queria... que você soubesse disso."
Foi um final ruim para uma conversa de merda.
Mas ela ainda estava me olhando, com uma expressão séria, os olhos brilhando. A mão dela apertava a minha agora.
"Obrigada por confiar em mim com isso, Charlie. Dá pra ver que não é fácil."
Ela hesitou.
"E... eu estou... ah," ela enxugou uma lágrima da bochecha, "desculpa por isso. Eu só queria dizer que estou muito feliz que você esteja aqui... comigo."
Eu a olhei, um pouco surpresa.
"Hm... eu também estou feliz de estar aqui... com você." Me atrapalhei para salvar aquela gafe. "Você... você é muito legal de conversar."
Porra, isso foi horrível.
Ela apertou minha mão de novo, e sua covinha fofa apareceu enquanto ela sorria um pouco.
Eu estava tão perdida, caralho. Me apaixonando por uma garota hétero, despejando minha vida nela.
"Então, você mora com ela agora?"
"Sim... ela me fez uma promessa: se eu conseguisse terminar o programa, ficasse limpa por três meses e arrumasse um emprego, ela me deixaria morar com ela. Já faz mais de dois anos agora."
Dois anos, três meses e 16 dias.
"Uau. Isso é tipo, incrível."
"É."
"E não tem... tipo... romance...?"
Sorri apesar de tudo.
"Não, a Liz é hétero como qualquer uma. Além disso, ela é 13 anos mais velha que eu e não é meu tipo."
Isso arrancou uma risadinha. Eu amava a risada dela. Fazia sua boca se curvar naquele sorriso torto e fofo.
"Você não gosta de mulheres mais velhas?"
"Eu gosto de mulheres mais velhas, mas não anciãs. Por favor, não conte a ela que eu disse isso. Ela vai me dar uma surra. Menos de 30 para mim, por favor."
"Bom, então ainda há esperança para mim, com 25."
Ela ainda estava sorrindo, mas aquilo me fez parar. Olhei para ela de lado, curiosa. Ela acabou de...
"Vamos andar." Eu me levantei.
"Sim, ok." Ela soltou minha mão e eu instantaneamente me arrependi de ter me levantado.
A acompanhei até a Hudson Street e depois peguei o metrô para casa na Christopher Street.
Quando me despedi dela, ela me fez prometer encontrá-la de novo em breve e me deu um abraço longo e apertado.
Exceto pela Liz, ninguém me abraçava assim há anos.
Foi maravilhoso.
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Mesmo que você vá embora, a vida das pessoas está a um toque de distância.
As redes sociais ofereciam uma tentação difícil que eu tentava resistir.
Às vezes eu não era forte o suficiente.
Foi assim que, algumas semanas depois de chegar a Nova York, descobri que tinha uma irmã. E as fotos de família feliz.
Uma filha substituta.
E então eu não quis mais viver.
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"Por que você está tão mal-humorada hoje?"
Era nosso quarto Sábado de Caminhada.
"Não estou mal-humorada!"
"Sim, está. Você não disse três palavras desde que nos encontramos."
"É que estou preocupada."
"Com o quê?"
Suspirei.
"É besteira."
"Vamos, me conta." Ela gentilmente cutucou meu braço. Eu podia ouvir o sorriso encorajador dela.
"É que... eu tenho uma prova."
"Da escola?"
"Sim."
"Qual a matéria?"
"Maldito cálculo."
Ela riu.
"Não ria. É difícil pra caralho!" gritei, e corei.
"Desculpa, não estou rindo de você, Charlie. Só me lembrei do maldito cálculo." Ela sorriu.
Sorri de volta.
"É a pior coisa. Vou reprovar."
"Não, não vai. Você consegue."
Gemi.
"Não consigo, sou burra."
Ela pegou minha mão.
"Você não é burra, Charlie." Ela pareceu pensativa.
"Que tal..." fez uma pausa, "...que tal se eu te ajudar?"
"O quê?"
"Sabe... às vezes é mais fácil se você tem uma parceira de estudo."
Fiquei sem palavras.
"Mas... você não está no ensino médio?" foi minha resposta ridícula.
"Eu sei disso, só quero dizer que eu poderia, tipo, te ajudar, talvez? Eu não era tão ruim nisso, e lembro de pelo menos alguma coisa."
Uau.
"Erm... você faria isso por mim?"
"Claro. Para que servem os amigos?"
Amigos.
"Eu..."
Senti um nó na garganta.
"O quê?"
"Amigos...?"
"Claro!" O sorriso dela se transformou em preocupação.
"Você está bem?"
Enxuguei rapidamente a lágrima do olho antes que escorresse pela bochecha.
"Sim... sim, estou bem."
Soltei o ar.
"Desculpa, é que não tenho muitas pessoas na minha vida que... se importam... comigo."
Ela colocou o braço em volta dos meus ombros e encostou a cabeça na minha.
"Bom, agora você tem a mim."
Ela apertou meus ombros. Sua voz era baixa, quase um sussurro.
"Eu me importo."
Fechei os olhos e cheirei o cabelo dela discretamente.
Então foi como se ela se sacudisse da conversa e se endireitasse.
"Então, parceiras de estudo? Que tal?" Ela parecia tão sincera e expectante, e naquele momento me senti incrivelmente sortuda por tê-la na minha vida.
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Quando você tem 16 anos e está sozinha, as pessoas se aproveitam de você. É a vida.
Aprendi a usá-las para conseguir o que precisava. Para sobreviver.
Dizia a mim mesma que estava virando o jogo, que eu as estava usando, não o contrário. Mas, no fim, sempre era eu quem saía perdendo. Era jogada fora. Abusada.
Quando cheguei aos 19, sexo havia se tornado apenas mais uma ferramenta para sobreviver.
Sexo com homens me enjoava. Mas eu precisava de dinheiro. Um teto sobre a cabeça. A próxima dose.
E todas as vezes, quando eles estavam... dentro de mim... o mesmo pensamento vinha indesejado para a frente da minha mente.
Se eu pudesse gostar disso, ser isso, minha mãe talvez ainda me amasse.
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"Cee? Você está aí?"
A porta da frente fechou, e sacolas de compras caíram no chão. Chaves tilintaram na prateleira do corredor.
Congelei. Ela não deveria estar em casa ainda. Deveríamos ter mais duas horas.
"Uh..."
"Cee... ah, olá." Liz estava parada na porta da sala, olhando para Ava e para mim.
Fiquei como um animal paralisado pelos faróis. Ava apenas colocou seu sorriso mais encantador e se levantou.
"Olá, Sra. Martin, prazer em conhecê-la. Sou Ava Thomas. Amiga da Charlie."
Liz não perdeu o ritmo.
"Ah, olá, Ava, tão bom ver você... aqui... com a Charlie." Ela sorriu para nós.
"Hm... eu... erm..." eu intervim.
"Estou tão feliz em conhecê-la, a Charlie me falou tanto sobre você."
Liz olhou para mim de modo significativo.
"Falou mesmo?" Liz ergueu as sobrancelhas, "bom, por acaso, ela também me falou muito sobre você."
Senti o rubor subir pelo meu pescoço e bochechas. Meus olhos imploraram para ela calar a boca.
"Só coisas boas, espero." Ava sorriu. Liz olhou para mim de novo, os cantos da boca me provocando com o início de um sorriso.
"Ah, as melhores."
Tentei telepaticamente fazê-la calar a boca.
"O que você está fazendo em casa... uh... tão cedo?" consegui dizer, lançando-lhe um olhar significativo.
Liz estava agora se divertindo totalmente com meu desconforto.
"A Parker precisou trocar o turno, então ela vai cobrir hoje e amanhã. Eu faço terça e metade de quarta em vez disso."
Ela olhou para a mesa.
"Isso é... matemática?"
"Sim," murmurei, derrotada. "Ava está me ajudando com cálculo."
Liz abriu um sorriso genuíno.
"Isso é fantástico! Sério, Ava, isso é muito legal da sua parte. Sei que a Charlie agradece. Eu até tentaria, mas sou um desastre com números."
Ava sorriu radiante.
"Não é nada, realmente, fico feliz em ajudar uma amiga."
Liz desviou seu olhar calmo para ela.
"Não é nada, Ava, com certeza não é nada. Obrigada."
Ela se mexeu na porta e olhou para a porta da frente.
"Bom, tenho compras para guardar na geladeira, vocês continuem."
Nós nos sentamos, e eu tentei focar no livro.
"Ela é muito legal." Ava sussurrou.
"Sim."
Houve um breve silêncio.
"Então... o que você contou para ela sobre mim?" Havia uma voz com um sorriso fofo e malicioso de covinhas.
Eu ainda estava corando.
"Só, sabe, que somos amigas. Tipo onde nos conhecemos, o que andamos fazendo, nossas caminhadas e... coisas."
"Ah. Ok." Não pude deixar de me perguntar se havia um pouco de decepção na voz dela.
Ela voltou nosso foco para o cálculo.
Em cerca de uma hora, ela disse que precisava ir.
Liz nos encontrou no corredor enquanto eu a acompanhava para fora.
"Foi um prazer conhecê-la, Ava. Você é sempre bem-vinda aqui."
"Obrigada, Sra. Martin, foi muito bom conhecê-la."
"Por favor, me chame de Liz."
Ela sorriu, e Ava brilhou feliz. Fiquei aliviada por elas se darem tão bem.
Liz virou para a cozinha e Ava me abraçou para se despedir. E então beijou minha bochecha.
"Até amanhã!" ela disse, enquanto descia as escadas saltitando.
Liz estava no balcão com uma xícara de café para mim quando entrei na cozinha, minha bochecha ainda queimando do selinho amigável.
"Estou feliz por você, Charlie. Você merece uma boa amiga."
Olhei para ela. Ela estava sorrindo para meu rosto corado.
"Obrigada."
"Mas... também me preocupo com você."
"Sim. Eu também."
"Você precisa me contar se ficar demais, ok?"
"Sim, eu conto." Não tinha certeza se ela acreditou em mim.
Eu não tinha certeza se acreditava em mim mesma.
"Preciso te perguntar uma coisa, ok?" Ela estava séria agora, preocupada.
Assenti. Sabia o que estava por vir. Sabia que vinha de um lugar de amor, mas era doloroso mesmo assim. Engoli meu instinto de reagir com irritação.
"Você vai ficar bem, se isso nunca for mais do que amizade?"
"Sim, sim, está tudo bem. É tranquilo. Vou ficar bem."
Honestamente, porém, eu não fazia ideia.
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Não vim para Nova York com nenhum propósito. Só precisava fugir de Baltimore.
Assim como precisei fugir de D.C. antes, e de Richmond antes disso.
Apenas mais uma viagem de ônibus sem rumo para longe das ruínas.
Para longe daquela porta da frente, e das memórias atrás dela.
Fugindo da vida em vez de tentar construir uma nova.
Eu tinha um pouco de dinheiro. Um celular. Uma mala.
Pensei que fosse o suficiente. Não era.
Mesmo cercada por pessoas, eu estava sozinha.
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Contra todas as probabilidades, passei na prova de cálculo. Comemoramos com café e muffins no fim de semana seguinte.
Ela me perguntou se eu queria sair naquele sábado à noite para comemorar, ter uma noite divertida.
Doía ter que dizer não. Queria poder ir a um bar com ela. Mas ainda não estava pronta para me colocar nessa situação.
Ela não reclamou, apenas sugeriu fazermos uma caminhada no Central Park em vez disso.
Fiquei feliz por ela parecer entender. Além disso, se fizesse sol, talvez ela usasse uma saia curta.
Ela continuou vindo estudar comigo todo fim de semana. Primeiro era só para cálculo, mas nos fins de semana em que a Liz estava no trabalho, ela trazia o laptop e trabalhava no projeto dela e nas redes sociais de fotografia enquanto eu terminava minhas outras matérias, dando ideias e conversando.
Adorava tê-la ali, ajudando e simplesmente passando seu tempo comigo.
E conforme nossa amizade crescia, eu me apaixonava mais profundamente.
Eu estava encrencada.
"O que você acha?"
Minha lição de casa estava espalhada por toda parte como sempre, o lado dela da mesa arrumado e organizado. Ela virou o laptop na minha direção e rolou lentamente por dez retratos em preto e branco de pessoas diferentes, todas com ruas ou pontos turísticos obviamente nova-iorquinos preenchendo o fundo desfocado.
"Eles parecem legais," eu disse, genuinamente impressionada. Havia movimento e vida em todas as fotos, e os rostos eram todos interessantes, inusitados de maneiras diferentes.
A rolagem dela parou numa foto minha no Highline, olhando diretamente para a câmera, com um sorriso ansioso e desconfortável no meu rosto, de outra forma desinteressante e sério.
"Hm..."
Eu ia dizer que não achava aquela tão boa quanto as outras, mas ela balançou a cabeça para mim.
"Ah, não, para, eu sei que você gosta mais da outra, mas esta é tão real, você transparece nela. Tipo, quero que as pessoas vejam a verdadeira você."
Franzi a testa.
"O quê, nervosa e desinteressante?"
Ela pareceu magoada. Instantaneamente me arrependi da minha estupidez.
"Não... forte e complexa... e corajosa. Você é uma pessoa linda, Charlie."
Ela estava evitando meus olhos.
Olhei para baixo, envergonhada e maravilhada com suas palavras.
"Desculpa, Ava... eu não sou... não tenho sua confiança."
Olhei para ela.
"...E obrigada, é muito legal da sua parte dizer isso sobre mim."
Ela me olhou nos olhos, um pequeno sorriso voltando a surgir em seu rosto.
"É verdade, sabe. Você é incrível, Charlie. Você só ainda não percebeu."
Corei. Eu não era incrível nem bonita. Eu era uma bagunça.
"Então... o que você vai fazer com elas? As fotos?"
"Hm, ainda não há nada definitivo, mas o David conhece um cara da faculdade que tem uma pequena loja de fotografia e galeria no Brooklyn, que aceita trabalhos de novos fotógrafos em rotação mensal. Não é nada chique, mas seria divertido, sabe, ter tipo, uma exposição de verdade."
David era o irmão mais velho dela, já subindo na carreira corporativa aos 32 anos, com uma família linda e uma casa nos subúrbios da Filadélfia.
Ela parecia animada, mas nervosa.
"Não sei se ele vai aceitar as minhas, no entanto."
"Isso é ótimo, Ava, adorei." Eu não adorava a ideia do meu rosto ampliado numa parede para todo mundo ver, mas adorava como ela estava animada com isso. E o trabalho dela realmente merecia estar em exibição, ela era uma ótima fotógrafa.
"Obrigada." Ela sorriu sinceramente, e seus olhos se iluminaram de felicidade.
Assisti ela trabalhar mais nas fotos, minha lição de casa esquecida.
Forte. Corajosa.
Uma pessoa linda.
Eu queria ser essa garota.
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Quando eu tinha 15 anos, percebi que uma garota na minha aula de história era gay.
Como eu.
Eu não estava na turma popular. Não tinha muitos amigos.
Então, guardei meu segredo.
Mas havia algo nela. Não era uma coisa só; ela era simplesmente... diferente.
Como eu.
Talvez fosse como ela sorria para mim.
Então, fiz um esforço para conhecê-la.
Ainda me lembro da primeira vez que senti uma conexão real com outra mulher. Esperando o ônibus, ela pegou minha mão e olhou nos meus olhos. E de repente me senti vista. Validada.
O nome dela era Kelly.
Ela foi minha primeira paixão de verdade.
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Estávamos sentadas na grama seca do Central Park, observando os esquilos.
O sol tinha saído, e ela estava usando uma saia vermelha curta, fazendo meu short cinza parecer sem graça. Tínhamos tirado os sapatos e suas pernas bronzeadas e nuas e pés fofos pareciam deliciosos contra a grama. O esmalte nos dedos finos do pé combinava com o marrom nos dedos longos das mãos.
Eu a ouvia falar e imaginava como seria gostoso tocar suas pernas. Acariciar lentamente a pele delas. Sentir seu joelho, passar meus dedos pelo arco do pé. Lamber...
"No que você está pensando?"
Desviei o olhar. Pude sentir minhas bochechas e orelhas ficando vermelhas.
"Ah, nada."
Ela se deitou apoiada nos cotovelos.
Houve silêncio. Apenas o vento suave farfalhando as folhas.
"Charlie?"
"Sim?"
"Posso te perguntar uma coisa?"
"Claro."
Ela se sentou novamente ao meu lado e puxou as pernas para cima nos braços, descansando o queixo nos joelhos. Sem me olhar.
"Você..." Ela parou e soltou as pernas, virando os joelhos e o corpo na minha direção.
Eu a observei, me perguntando o que a estava deixando tão obviamente nervosa. Talvez algo que eu tivesse feito? Ela percebeu que eu estava secando ela? Minha ansiedade disparou.
"... olha, não leve a mal, ou, ah, tipo, me diga se eu estiver te deixando desconfortável, ok...?"
"Erm... ok." Eu estava realmente preocupada agora.
"Eu sei que não nos conhecemos há muito tempo, e sei que você tem... hm... questões para resolver... mas..."
Ela fez uma pausa constrangedora.
"...você... gosta de mim?"
Por alguns segundos estúpidos, não entendi. Comecei a dizer algo que soaria como claro que eu gostava dela, que adorava tê-la como amiga, que ela era a primeira amiga de verdade que eu tinha em anos, além da Liz, e que não era a mesma coisa. E então a compreensão me atingiu como uma parede de tijolos, bem quando ela falou de novo.
"Não, quero dizer, tipo... você... gosta de mim?"
Mil pensamentos conflitantes passaram pela minha mente num piscar de olhos enquanto eu tentava desesperadamente conter meu instinto de me levantar e sair correndo, agora mesmo.
Ela estava sentada perto de mim. Eu podia sentir o aroma suave do seu shampoo frutado. Eu podia sentir o nervosismo emanando de suas mãos inquietas, seu rosto sério, mas esperançoso, sua linguagem corporal desajeitada. Havia emoção em seus olhos enquanto eles vasculhavam os meus em busca de uma resposta. Eu não sabia se era expectativa ou preocupação. Pelo menos não era nojo. Eu sabia como aquilo era.
Meu coração batia forte; senti como se algo estivesse esmagando meu peito. Ela obviamente percebeu meu desconforto.
Abri a boca, mas nenhuma palavra saiu.
"Eu..."
Ela começou a recuar, olhos baixos.
"Ah, desculpe, Charlie, por favor, me perdoe. Esquece o que eu disse, tá?"
E a compreensão me atingiu: se eu não contasse a ela agora, provavelmente nunca o faria. Eu nunca reuniria coragem para confessar meus sentimentos por ela. Se eu não pudesse ser honesta agora, provavelmente a perderia como amiga de qualquer maneira, e isso me assustava mais do que qualquer coisa. Respirei fundo e agarrei a mão dela. E então as palavras jorraram.
"Sim, eu gosto de você. Desculpa, mas não consigo evitar. Eu gosto de você... tanto."
Eu estava à beira de entrar em pânico.
Meus olhos fitavam as árvores à frente, evitando os dela. O sol brincava entre as folhas, lançando sombras tremeluzentes no chão. Um esquilo subia sem esforço num galho, parando aqui e ali. Os dedos dela estavam quentes e macios na minha mão.
"Eu sei que não falo muito, e sinto muito, não queria que isso se metesse entre a gente, mas tipo... eu não... eu nunca... tive sentimentos... assim... por ninguém. É tão assustador... e eu sei que você não, quer dizer, não espero que você... nada... eu só... eu gosto de você."
Respirei fundo, tentando não surtar e fazer algo idiota como ir embora.
A mão dela se mexeu e apertou a minha enquanto eu tagarelava. Finalmente tive coragem de olhar para cima e nos olhos dela. Ela estava com os olhos marejados, mas pelo menos não parecia irritada. Seu sorriso pequeno e torto fez sua covinha parecer mais fofa do que nunca.
"Isso... está tudo bem?" Não consegui esconder a súplica na minha voz. Desespero. Eu odiava aquilo.
"A gente ainda pode... ser amigas?"
Eu precisava que ela dissesse sim. Mais do que eu precisara de qualquer coisa por muito tempo. Eu não podia perdê-la. Simplesmente não podia.
Ela jogou os braços ao meu redor num abraço apertado, enterrando o rosto no meu pescoço.
"Sim! Claro, Charlie, claro que sempre serei sua amiga!"
Toneladas de pressão se ergueram do meu peito.
Ela se soltou e pegou minhas mãos nas dela e me olhou diretamente nos olhos.
"Sempre serei sua amiga, não importa o que aconteça, Charlie. Sempre."
Parecia o sopro da vida. Uma âncora no meu mar de inseguranças.
Senti lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Não tinha mais palavras. Havia apenas um alívio imenso.
E então ela fez meu mundo explodir.
"Mas... será que a gente pode... ser mais?"
Eu só encarei, atordoada.
Ela me encarou de volta, expectante, nervosa.
Amorosa.
Ah.
"Charlie...?"
"Sim...?"
Nossos sussurros mal se registravam sobre os sons do parque.
"Posso te beijar...?"
Um aceno de cabeça atordoado foi tudo que eu consegui.
Ela se aproximou, lentamente, o nariz dela roçando de leve no meu, sua respiração acariciando minha pele.
Senti o calor dos lábios dela antes que tocassem os meus, pairando nervosamente. O primeiro toque de roçar foi todas as cores dos fogos de artifício de 4 de julho, o sabor doce e refrescante de sorvete num dia sufocante, o cheiro adorável de grama recém-cortada na primavera.
Segurei a respiração.
Então os lábios dela finalmente capturaram os meus.
Não foi meu primeiro beijo.
Mas foi meu primeiro beijo.
Minha mente estava girando, adrenalina bombeando.
Os lábios dela eram tão macios, tão quentes.
Os lábios dela se amassaram contra os meus num beijo urgente, apaixonado, depois lento, sensual.
A mão dela segurava minha bochecha. Meus dedos corriam pelo cabelo dela.
Deitamos lado a lado na grama e nos beijamos, o sol abençoando nossa união.
Eu tinha um milhão de perguntas, mas nenhuma delas importava.
Depois de um longo tempo, nossos lábios se separaram.
"Uau" ela disse, olhando para mim.
"Isso foi... incrível."
"...É" foi tudo que consegui.
"Seus lábios são tão macios."
Eu a beijei de novo.
"Meu Deus, você tem um gosto tão bom."
"Você é tão linda."
Nós nos beijamos e trocamos elogios doces por algum tempo, nossas mentes perdidas uma na outra.
Senti as emoções crescerem, se acumularem, empilharem, ameaçando transbordar e desabar. Engoli minhas preocupações. Tentei me concentrar na felicidade. Eu estava beijando a garota dos meus sonhos; ela estava me beijando. Ela estava me beijando. Eu.
Por quê?
"Espera, Ava, espera."
"O quê, Charlie?"
"Como...? Eu não achei que você...? Você é hétero... ou... o quê?"
Ela pareceu envergonhada.
"Hmm, não... eu... eu nunca escolhi, tipo... um rótulo... se isso faz sentido?"
"Ah... ok. Eu só pensei... tipo... você só falou sobre seu namorado, nunca disse nada sobre..."
"Eu só gosto... de pessoas, sabe? Já fiquei mais com homens, mas... nunca tive nada sério com uma mulher."
Ela estava corando vermelha como beterraba.
"Quer dizer, eu já tive... hmm... você sabe... com mulheres... mas... nunca houve uma garota de quem eu gostasse, assim... até... você."
Ela estava corando furiosamente agora. Isso a fazia parecer ainda mais fofa, o que deveria ser impossível.
As palavras dela pairaram no ar, suaves e incertas. Eu a encarei, tentando entender, meu coração batendo tão alto no peito que eu tinha certeza de que ela também podia ouvir. Tudo nesse momento parecia frágil, como se uma palavra errada pudesse fazê-lo desmoronar.
"Até... eu?" eu finalmente disse, minha voz um sussurro.
Ela assentiu, os dedos brincando com a barra da saia. "É... você."
Não podia ser real. Balancei a cabeça levemente, minhas palavras saindo antes que eu pudesse detê-las.
"Mas... por que eu?"
Minha voz falhou, e eu odiei como soei pequena, como se estivesse dando a ela um vislumbre de cada pedaço quebrado dentro de mim.
Ava me olhou, as bochechas ainda vermelhas, mas havia ferocidade em seus olhos.
"Você é... você é tão incrível, Charlie. Você é forte. Mesmo quando não pensa que é. Você passou por tanta coisa... mas... ainda está lutando. Isso é... é incrível. Você é incrível."
A mão dela alcançou a minha, os dedos roçando meus nós dos dedos tão levemente que pareceu uma pergunta.
"E seu sorriso... Meu Deus, Charlie, seu sorriso. É como se você não... como se não viesse facilmente, mas quando vem, é a coisa mais linda que eu já vi."
Minha garganta se apertou, e não consegui olhar para ela. As palavras me atingiram em algum lugar que eu não tinha certeza se alguém já havia alcançado antes.
"Ava, eu não..."
Ela se inclinou mais perto, a testa quase tocando a minha, seu sussurro só para mim.
"Você não precisa dizer nada. Só... me diga se estou estragando as coisas. Não quero perder o que temos, Charlie. Vou parar se você quiser."
As palavras dela me envolveram como uma rede de segurança, mas tudo em que eu conseguia pensar era em como era bom tê-la tão perto. Como beijá-la tinha sido a melhor coisa que me aconteceu. Deixei escapar uma risada trêmula.
"Não... não... claro que não..."
Ela sorriu então, os lábios se curvando naquele jeito torto que fazia meu coração sentir como se fosse explodir.
"Bom," ela disse suavemente, afastando um fio de cabelo solto do meu rosto. "Porque eu não consigo parar de pensar em você."
Eu não tinha palavras, então a beijei em vez disso. Não foi hesitante dessa vez, nem cuidadoso. Foi cru e cheio de todas as coisas que eu não sabia dizer. E quando ela me beijou de volta, eu me permiti acreditar, só por um momento, que talvez eu não precisasse dizer nada. Não agora.
Eu estava atordoada. Isso era... real. Muito real.
Eu podia sentir em seus beijos, uma paixão real.
Eu amei aquilo, ah, como eu amei.
E isso me assustava. Tanto.
Mais tarde, pegamos o metrô para o Village juntas. Eu não queria deixá-la ir. Segurar a mão dela estava me mantendo inteira.
Eu me segurei até ela me dar um beijo de despedida na entrada da estação Christopher Street e seus dedos deslizarem dos meus. Ela seguiu para seu apartamento, olhando para trás sorrindo, acenando, feliz.
Então ela desapareceu na esquina, e eu encarei a viagem de metrô para casa sozinha, e pude sentir aquilo vindo, avançando sobre mim como um furacão. Tropecei até um banco de praça do outro lado da rua e peguei meu celular.
O tom de discagem encheu minha cabeça.
Atende. Atende. Por favor, atende.
"Oi Cee, o que foi?"
"Liz? Liz, eu preciso de você. Por favor, eu não consigo... eu não consigo..."
"Ei, Cee, calma, querida, respira fundo, só respira comigo, ok? Respira."
Eu respirei fundo algumas vezes, seguindo o exemplo dela, o pânico imenso ainda estava lá, mas só ouvir a voz dela me fez sentir que talvez eu pudesse lutar contra ele.
"Ok querida, agora me diz onde você está. Onde você está?"
"...Eu estou... Christopher Street. Stonewall. O parque."
"Ok querida, estou indo, chego aí em 20 minutos."
Respirar estava um pouco mais fácil. Eu precisava de algo... só... só para me acalmar... só...
"Charlie? Você ainda está aí?"
"Sim."
"Ok, fica no telefone, querida, não desliga. Me conta o que aconteceu. Você está machucada?"
"Não. Estou bem. Só não consigo... lidar..."
"Ok querida, tudo bem, estou indo. Você fez algo de que se arrepende?"
Eu ri através das lágrimas.
"Não, Liz, não fiz, sem arrependimentos. Estou limpa. Estou feliz. Tão feliz... só... preciso de ajuda. Só... é bobagem... bobagem. Eu preciso... só preciso... de ajuda."
"Ok, isso é bom, tenha orgulho, querida, você está indo muito bem só por me ligar e não ceder. Tenha orgulho de si mesma, querida. Ok? Lembra do que conversamos. Tenha orgulho."
"É, eu sei. Obrigada."
"Agora, estou no metrô, só continue falando comigo. Pode me contar o que aconteceu?"
"É a Ava. Ela... ela..."
"Ava? O que ela fez, querida? Você pode me contar?"
"Ela me beijou, Liz," eu deixei escapar, "Ela me beijou. Ela gosta de mim." Eu estava chorando. Sussurrando no telefone, me segurando no banco com a outra mão como uma âncora.
"Ela gosta de mim. Ela gosta de mim, Liz. Ela gosta de mim..."
"Ah, querida, ah, isso é ótimo, Charlie, isso é tão bom, não é?"
Eu suguei uma respiração profunda, me segurando com todas as minhas forças. O desejo gritante e familiar de entorpecer minhas emoções rugia através de mim, travando uma guerra com minha felicidade.
"Sim! Ah, é incrível, é, eu só... é demais, demais... sabe? Demais. Só demais. Estou com medo, Liz. Por favor."
Ela me encontrou ali no banco, uma figura solitária, segurando meus joelhos, encolhida ao lado dos casais orgulhosos.
Ela me abraçou, conversou comigo, secou minhas lágrimas. Me levou para casa.
Eu só precisava de uma mão para segurar. Uma voz calmante. Eu não precisava de mais nada. Não precisava. Eu não precisava. Eu não arruinaria isso.
Fazia sete anos desde que eu me sentira feliz.
Eu nunca tinha experimentado a euforia do amor recíproco verdadeiro.
Era aterrorizante.
---
Quando finalmente transei com uma garota, eu estava chapada.
A maioria das minhas experiências sexuais tinha sido com álcool ou drogas.
Elas tinham ajudado a enterrar minhas inseguranças corporais, minhas autocríticas, minha falta de confiança.
Eu frequentemente precisava esquecer.
Eu ficava acordada à noite, pensando em como seria amar alguém.
Olhar nos olhos dela e saber que ela me amava de volta.
Segurar a mão dela em público, dizendo ao mundo que estávamos apaixonadas.
Beijá-la, fazer amor com ela, acordar ao lado dela.
Durante meus piores momentos, era apenas um sonho distante.
Mas, às vezes, esse sonho era tudo que me mantinha em frente.
---
"Eu amo sua covinha."
Estávamos no sofá no apartamento dela. As colegas de quarto dela tinham saído.
Dois dias desde meu colapso. Dois dias desde nosso beijo.
Ela fez beicinho.
"Não gosto do meu sorriso. É torto. Parece que tive um derrame de um lado."
"Cala a boca, você é linda. É o sorriso mais fofo de toda a terra."
Eu tracei o sorriso mais fofo da terra com a ponta do dedo. Então me inclinei e o tracei com a língua.
"Você está lambendo minha covinha?"
"Sim." Eu sorri e movi minha língua para encontrar a dela.
"Eu amo seu sorriso," ela disse quando nossos lábios se separaram. "Seu rosto... simplesmente se ilumina quando você sorri."
"Você não gosta da minha cara de metida de sempre?"
Ela me cutucou na bochecha.
"Agora você cala a boca, você não tem cara de metida. Você é linda." Ela ficou quieta.
"Tão linda."
Eu corei de vermelho.
"Para com isso."
Ela tocou minha bochecha enquanto eu tentava me afastar.
"Vem cá..."
Eu me inclinei no beijo dela, provando a euforia mais uma vez.
Eu estava pronta para isso agora. Eu podia lidar com isso. A felicidade tinha vencido.
Os lábios dela eram quentes e cheios. A língua dela acariciou a minha num beijo lento e quente.
Eu gemi em sua boca.
Eu amava beijá-la. Era intenso. Melhor do que qualquer coisa antes.
Meus dedos correram levemente sobre seu joelho, sentindo sua pele macia.
A mão dela deslizou para meu ombro, acariciando minha clavícula através da camiseta.
Então mais para baixo.
Eu recuei.
"Hmm, a gente pode, er... ir para seu quarto?"
"Tudo bem, ninguém vai chegar em casa até as dez." Ela se inclinou novamente.
Eu a detive.
"Mesmo assim... eu..."
Eu suspirei.
"Desculpa, é bobagem. Só... lembranças ruins."
"Ah, não, não se desculpe, nunca tenha vergonha de me dizer do que você precisa, ok?"
Ela ergueu meu queixo, olhando nos meus olhos, e me deu um beijinho.
"Vem, me leve para a cama."
Eu estremeci com seu sussurro ofegante.
Eu estava nervosa. Assustada. Excitada. Com tesão. Feliz.
Ela acendia todos os meus fogos.
Ela pegou minha mão e me levou para seu quarto. Fechou a porta atrás de nós e a trancou.
O cabelo dela brilhava na luz da janela.
Eu fiquei ali grudada no chão enquanto ela desabotoava a blusa, expondo seu peito pálido.
Ela deu um passo em minha direção completamente desabotoada e me beijou, suas mãos deslizando sob minha camiseta.
Lentamente a levantando.
Suas mãos quentes na minha pele, deslizando pelas minhas laterais.
Eu levantei os braços, e ela puxou a camiseta sobre minha cabeça, então passou as mãos lentamente sobre meus ombros, traçando minhas clavículas, a tatuagem sobre meu coração.
Nossos beijos ficaram mais quentes, mais urgentes.
Minhas mãos deslizaram sob sua blusa desabotoada, encontrando seus seios nus.
Macios, pequenos, perfeitos.
Mamilos firmes fazendo cócegas em minhas palmas.
A respiração dela falhou.
Eu os peguei entre meus dedos e os rolei levemente.
Ela estremeceu e gemeu e me beijou mais profundamente.
As mãos dela abriram meu sutiã, deslizando-o de meus ombros.
Ela quebrou o beijo e olhou para meus seios nus.
"Jesus, você é tão sexy."
E então meu mamilo estava na boca dela.
Eu gemi e empurrei a blusa de seus ombros, passando minhas mãos sobre suas costas, agarrando a parte de trás de sua cabeça e a empurrando contra meus peitos.
Minha mente estava em chamas, prazer inundando meu corpo.
Ela se livrou da blusa e lentamente me empurrou para trás até eu afundar em sua cama.
Ela ficou de joelhos diante de mim e continuou lambendo e chupando meus peitos, mordiscando meus mamilos inchados, me fazendo contorcer.
Ela tomou seu tempo explorando meus peitos, apreciando todos eles, sem pressa.
Eu passei meus dedos pelo cabelo dela enquanto ela chupava e lambia e mordiscava em mim.
As mãos dela desabotoaram meu short. Ela se levantou e gentilmente me empurrou para baixo de costas, agarrando o cós, então parou e me olhou, questionando.
"Está tudo bem?"
Eu amei que ela estava verificando comigo. Isso me deu conforto, me validou como tendo controle sobre meu corpo e suas ações. Uma parceira igual. Isso me disse que ela entendia que eu precisava daquilo.
"Sim." eu sussurrei. "Por favor."
Eu levantei a bunda, e ela puxou meu short pelas pernas, levando minha calcinha junto. Os olhos dela encontraram minha boceta famintos. Eu automaticamente fechei minhas pernas, autoconsciente do meu clitóris estranhamente grande e lábios pendentes. Era uma parte de mim que eu nunca tinha aprendido a amar.
Ava colocou as mãos sob meus joelhos e os ergueu separados.
Eu olhei nos olhos dela, tentando não pensar se ela me achava estranha ou feia. Ela me encarou de volta e passou a língua lentamente sobre meus lábios pela primeira vez, separando-os.
Eu pulei quando ela tocou meu clitóris.
"Aah, por favor, devagar, muito sensível."
Eu podia sentir ela sorrindo, seus lábios amassados contra minha boceta, e então ela gentilmente sugou todos os meus lábios para dentro de sua boca, girando a língua em volta deles. Foi intenso.
"Ah!!! Sim! Ah, porra, sim!"
Ninguém tinha chupado minha boceta assim antes. Era incrível, os lábios dela beijando os meus profundamente, a língua dela me penetrando, lambendo e sondando, puxando meus lábios para longe do meu corpo o máximo que podiam e os sugando fundo em sua boca.
Ela estava empurrando minhas coxas para longe com as mãos, contra meu instinto de esmagá-las juntas enquanto o prazer ficava mais intenso.
Então ela soltou meus lábios com um som de sucção e se afastou, olhando para eles enquanto passava os dedos levemente sobre mim, me abrindo, sentindo a espessura, cutucando meu clitóris duro.
Eu a observei me inspecionando lentamente, minhas inseguranças explodindo novamente.
"Deus, eu amo sua boceta."
Alívio, alegria, minha respiração falhou com emoção.
Ela mostrou a língua e tocou suavemente meu clitóris exposto, afastando meus grandes lábios com as mãos. Agarrei os lençóis enquanto a língua dela brincava com ele delicadamente, sem nunca perder o contato, me empurrando lentamente para um estado mental em que nada existia exceto meu clitóris e a língua dela e o prazer profundo, crescente, urgente e intenso que ela estava construindo em mim.
Eu gemia, me contorcia, prendia a respiração e respirava rápido e superficial entre um gemido e outro. Agarrei o cabelo dela e empurrei, mas ela continuou me lambendo, com a língua plana, rolando lentamente sobre e ao redor do meu clitóris. Parecia que estava me empurrando rápido para um orgasmo, mas ao mesmo tempo era direto demais para eu gozar. Ela me manteve na beirada assim, cada nervo do meu corpo focado no meu clitóris, minha mente em branco exceto pela sensação da língua dela rodando em volta do meu clitóris grande e duro. Eu conseguia senti-lo pulsando sob a língua dela, minha boceta inteira se contraindo, os músculos apertando tentando alcançar aquele limite.
E então, de repente, ela parou e estendeu a mão para cima e beliscou meus mamilos inchados com os dedos molhados, deslocando subitamente meu centro de prazer, criando uma conexão elétrica entre meus seios e meu clitóris.
Eu estremeci e gemi. Ela me deu uma pequena pausa, me deixando recuperar o fôlego, e eu podia senti-la me observando. Abrindo os olhos, vi o sorriso molhado e satisfeito dela me encarando de volta.
"Ai, ai, meu Deus, uau..."
Não tive chance de terminar o pensamento porque os lábios dela se fecharam ao redor do meu clitóris e ela me chupou suave mas firmemente, com os olhos encarando diretamente os meus.
Foi a coisa mais intensamente sexy que eu já tinha visto, o jeito como os olhos dela mostravam o quanto ela obviamente amava me chupar. Tentei manter contato visual, mas perdi para as ondas de prazer que tomavam conta do meu corpo, fazendo minha pele, meus dedos, até meu couro cabeludo formigarem.
Eu podia sentir o prazer aumentar rápido, ela segurava meus pequenos lábios longe do meu clitóris e o chupava diretamente, me fazendo gemer continuamente. Eu podia sentir os dedos dela brincando comigo, deslizando um pouco para dentro de mim, e então traçando um rastro molhado até meu ânus, provocando-o suavemente, me fazendo tremer e me contorcer contra ela.
Eu podia sentir como uma onda imparável, crescendo, crescendo até que meu corpo inteiro ficou tenso esperando pela liberação inevitável, um pouco mais, um pouco mais forte, um pouco mais, e...
"Isso! Isso! Assim mesmo! Ai, Deus, Deeeeeeeus!! Hhhnnnnnnnnnnngggggggghhhh!!!!"
A onda desabou sobre mim, explodindo do meu clitóris, pulsando pelo meu corpo, músculos em espasmo me fazendo esmagar a cabeça dela entre minhas coxas. Continuou e continuou enquanto ela continuava me chupando, segurando meu clitóris pulsante na boca, provocando meu ânus com a ponta do dedo, conduzindo o orgasmo, garantindo que durasse o máximo possível.
Finalmente, consegui empurrá-la para longe, juntando as pernas e virando de lado, respirando irregularmente, recuperando o controle do meu corpo.
Desabei do êxtase incrível, e comecei a chorar com a liberação emocional.
"Shhh, Charlie, você está bem?" Ela estava me segurando, com a voz marcada pela preocupação.
Consegui acenar com a cabeça entre soluços.
"Sim... desculpa, é que... é tanta coisa..."
Ela me segurou e beijou minha testa, seu corpo quente me abrigando. As lágrimas pararam e a calma se instalou sobre nós.
Nossos olhos se encontraram. Eu queria poder de alguma forma fazê-la entender tudo o que ela tinha me feito sentir.
Querida.
Desejada.
Amada.
"Obrigada."
Palavras pequenas, contendo uma enormidade de emoções.
---
"Ava... eu sou uma viciada."
Estávamos deitadas na cama dela, corpos nus entrelaçados sob as cobertas depois de fazer amor pela primeira vez.
Fazer amor.
Eu me maravilhei com o quão diferente era de apenas transar. A profundidade da emoção, sentir o amor dela por mim em cada olhar, cada carícia dos dedos, cada beijo dos lábios, cada lambida da língua.
Eu nunca mais queria apenas transar.
Eu só queria fazer amor.
Com ela.
Para sempre.
Era tão difícil dizer essas palavras em voz alta para ela. Mas ela precisava saber. Precisava saber o quão quebrada eu era.
"Eu sei."
Ela me apertou mais forte, me abraçando de conchinha, seu abraço quente me fazendo sentir segura e amada.
"Está tudo bem."
Sua voz e seu toque pareciam calmantes.
"Eu estarei lá por você."
Ela beijou minha orelha e sussurrou.
"Sempre."
---
Eu podia sentir meu próprio gosto nos lábios dela.
Os beijos ficaram mais urgentes, minhas mãos percorreram o corpo dela.
As calças dela foram jogadas fora, e minhas mãos seguraram sua bunda perfeita.
Seus mamilos rosa claro estavam duros, as aréolas quase da mesma cor da pele. Peguei um mamilo na boca e brinquei com ele, aproveitando a sensação do seio macio contra meu rosto.
Ela gemia baixinho.
Belisquei o outro mamilo, depois os dois, beijando-a profundamente enquanto os rolava entre meus dedos.
Ah, ela gostava disso.
Minha mão desceu até sua mata cheia, maravilhosamente loira, só um pouco mais escura que o cabelo e as sobrancelhas. Passei um dedo descendo, encontrando seu clitóris, fazendo-a tremer.
Explorei sua boceta lentamente, mergulhando meu dedo nela e espalhando sua umidade sobre seu clitóris pequeno e sexy, de novo e de novo.
Sua respiração acelerou e suas mãos seguraram meu rosto e boca firmemente contra seu mamilo.
Me afastei e desci até seu monte peludo.
Fazia duas semanas desde a primeira vez que transamos, e eu adorava enterrar meu nariz em seus pelos, senti-los fazer cócegas, a textura áspera contrastando com sua maciez.
Ela era rosa e pequena e linda, tão diferente das minhas dobras escuras e caídas.
Ela disse que minha boceta era linda. Eu estava tentando me deixar acreditar nisso.
Eu achava que sua borboletinha fofa era mais bonita.
Encontrei seu clitóris com minha língua plana, lambendo toda a extensão da boceta, até embaixo, e depois subindo do seu buraco quente e molhado até o clitóris. Ela adorava isso.
Meu dedo deslizou para dentro dela. Eu queria fazê-la gozar. Adorava senti-la tremer e ter espasmos, apertando em volta dos meus dedos, seu clitóris pequeno pulsando sob minha língua. Meti nela com os dedos, sentindo-a se aproximar, ouvindo seus gemidos se intensificarem. Depois ela ficou em silêncio e prendeu a respiração e eu soube que ela estava no limite. Adorava aquele momento, ter controle total sobre se ela gozava ou não. Ter o poder de lhe dar aquele prazer intenso. E então a empurrei para além do limite, fodendo-a até o orgasmo, sentindo seus músculos tensionarem e depois relaxarem com um suspiro profundo.
Dar isso a ela era melhor do que qualquer coisa.
Depois, nos aninhamos juntas na minha cama, acariciando uma à outra distraidamente.
Ela passou um dedo sobre meu ombro, descendo pelo braço. E depois até minha tatuagem.
"Quando você fez isso?"
Fechei os olhos.
"Ano passado."
"É linda. Eu amo as flores, são tão delicadas."
Eu só ouvia, focada em ficar calma.
"Então... quem é Emily?"
Ela sentiu meu desconforto.
"Você não precisa me contar, tudo bem. Só estou curiosa."
"Não... eu quero te contar. Você deveria saber."
Respirei fundo.
"Emily é minha irmã. Ela tem seis anos."
A cabeça dela estava calmamente apoiada no meu peito, mas eu a senti ficar muito imóvel.
"Eu nunca a conheci."
Havia um nó na minha garganta.
"É o meu jeito de... mantê-la perto do meu coração."
De repente pareceu bobo, dizer em voz alta. Estúpido de alguma forma. Apertei os olhos com força.
"Eu acho isso lindo, Charlie."
Eu a segurei forte.
"Obrigada."
"Você sabe que pode me contar qualquer coisa, né?"
"Sim."
Qualquer coisa. Uma palavra muito grande.
"Eu... eu quero, Ava... mas... tem coisas que... eu fiz."
"Eu sei."
"Estou machucada, Ava. Eu estou... quebrada."
"Você não está machucada, Charlie. E qualquer coisa que você teve que fazer para sobreviver, te trouxe aqui... para mim. Eu... eu te amo... do jeito que você é. Nada vai mudar isso. Nunca."
"... você... me ama?"
"Sim."
Era tão simples, tão direto. Tão confiante. Não havia dúvida na voz dela, apenas convicção firme. Aquele simples 'sim' era absoluto.
"Eu também te amo, Ava, ah, eu te amo tanto!"
Ela se virou para mim, e nos beijamos, sussurrando nosso amor uma para a outra.
Ela olhou nos meus olhos.
"Charlie, eu sei que você teve coisas ruins na sua vida, mas isso não é tudo o que você é. É só uma parte de quem você é. Você é uma pessoa incrível, e eu te amo. Toda você." Ela beijou as lágrimas da minha bochecha.
"Eu quero te conhecer, Charlie, quero que você saiba que pode me contar qualquer coisa, o que você precisar me contar, quando quiser, tudo, e eu nunca vou te julgar, nunca vou sentir pena de você, vou só ouvir e tentar entender e te ajudar quando você precisar. Tá?"
Eu estava chorando agora. Ava só me segurou e me confortou, pacientemente me ajudando a tirar as emoções do meu sistema. Depois de um tempo ficamos deitadas em silêncio, sentindo o calor do corpo uma da outra, aproveitando o toque fácil de alguém que amávamos.
"Você quer... me falar sobre ela? A Emily?"
Eu queria.
"Ela se parece muito comigo. Cabelo escuro, mesmo nariz arrebitado e sardas. É como olhar para mim mesma quando eu tinha a idade dela. Tão pequena, e... frágil..."
A mão de Ava passava lentamente pelo meu cabelo enquanto eu falava.
"E eu consigo ver que ela é cuidada, que... eles..."
Que meus pais a amavam. Não consegui dizer em voz alta.
"Ela provavelmente nem sabe que eu existo. Mas... não estou pronta para desistir dela."
Ela era minha família.
"Eu quero conhecê-la. Um dia."
"Você vai, amor, você vai. Nós vamos dar um jeito."
O jeito como ela disse era tudo o que eu precisava ouvir. Ela acreditava.
---
A porta do banheiro rangeu ao abrir, vapor se enrolando para o corredor enquanto eu saía, toalha enrolada em volta do corpo. O apartamento cheirava a café e baunilha; as velas que Liz gostava de acender no parapeito da janela tremulavam na luz do fim da tarde. Eu estava prestes a chamar, dizer que tinha terminado, quando ouvi meu nome.
"Ela é incrível," a voz de Ava, baixa e sincera, flutuou para fora. "Nunca conheci ninguém como ela."
Meu estômago se embrulhou. Me pressionei contra a parede, prendendo a respiração. Eu não deveria estar ouvindo. Isso era privado. Mas não consegui me mexer. Não consegui me impedir.
"Ela é," Liz respondeu, sua voz familiar e firme. "Mas ela passou por um inferno, Ava. Você sabe disso."
"Eu sei," Ava disse baixinho. "Consigo ver nos olhos dela. É como se ela estivesse se preparando para algo desmoronar. Mas Liz... tem tanta força nela também. Tanto coração."
Eu cerrei os punhos, meu peito apertando. Ela via isso em mim? Ou era só algo que as pessoas diziam quando não conheciam a verdadeira eu?
"A Charlie é especial, mas... ela é complicada," Liz disse, sua voz mais baixa agora. "Ela ainda está se curando. Tem muita coisa que ela ainda carrega."
"Eu sei," Ava disse rapidamente. "Eu não espero que ela seja outra coisa, Liz. Não quero isso. Eu só... quero ela, sabe? Exatamente do jeito que ela é."
"Você realmente a ama." Não era uma pergunta.
"Sim, amo. Ela me mudou, Liz. Estar com ela, ver o jeito como ela luta tanto só para acreditar em si mesma... isso me faz querer ser melhor também. Por ela. Com ela."
Minha respiração falhou. As palavras dela eram tão suaves, tão sinceras. Mas o medo roía minha mente. E se ela me quisesse agora, mas mudasse de ideia depois? E se minha bagunça fosse perturbada demais?
Liz suspirou calmamente.
"Estou feliz por você, Ava. De verdade, estou. Nunca vi a Charlie sorrir como sorri perto de você. Só seja paciente. Ela é uma lutadora... mas às vezes ela luta contra si mesma."
Sua voz suavizou.
"Ela está apaixonada por você, você sabe disso, né?"
"Sim. Eu sei. Eu só... queria que ela pudesse entender como eu me sinto. O quanto ela merece ser feliz."
Eu podia ouvir o leve tinido de uma xícara de café sendo posta na mesa, o arrastar de uma cadeira quando Liz se mexeu.
"Ela vai chegar lá," Liz disse depois de um breve silêncio. "Estou impressionada com o quanto ela já se abriu para você. Mas dê tempo a ela. Conexão emocional não é fácil para ela."
"Não tenho medo do difícil," Ava disse, sua confiança e coração teimoso transparecendo.
Liz riu com carinho.
"Bom. Porque a Charlie vale totalmente a pena."
Minha garganta ficou apertada. Eu não deveria ter ouvido isso... mas não podia desouvir.
Ela acreditava em mim.
Recuei para o banheiro, fechando a porta silenciosamente atrás de mim. Meu reflexo me encarava no espelho embaçado.
Ava acreditava em mim. Liz acreditava em mim. Talvez eu pudesse começar a acreditar em mim mesma.
---
Foi três meses depois, pouco mais de três semanas antes do Natal, que ela me mostrou um gatinho de pelúcia fofo na FAO Schwarz.
"Aaaah, é fofo," eu disse, sem entender por que ela parecia tão nervosa por causa de um gato de pelúcia.
"Hm... é... então... eu estava pensando... tipo, a gente não precisa... mas... eu tive essa ideia de que... talvez você pudesse mandar para a Emily. De Natal."
Ela soltou as últimas palavras de uma vez, e me olhou como se não soubesse se eu ia explodir na cara dela. Eu odiava quando ela ficava assim, mas eu merecia. Eu não era muito boa em controlar minhas emoções.
Eu não sabia o que dizer. Soube instantaneamente que amava a ideia. Amava a ideia de mandar um presente de Natal para minha irmã. Mas ao mesmo tempo, me apavorava.
"Hm, eu... Sim, eu adoraria. Mas... não sei se... consigo." A última palavra foi um sussurro.
Ela sorriu e me abraçou.
"A gente consegue. Juntas."
Compramos um cartão fofo e papel de embrulho. E depois, quando chegamos em casa, eu escrevi para ela. Escrevi para minha irmã.
Era só um simples Feliz Natal, para Emily com amor. Do Papai Noel. Mas no meu coração, parecia que aquelas poucas palavras significavam um começo, uma conexão.
"Por que você não assina com seu nome?"
"Não, é melhor assim. Eu... nem tenho certeza se ela sabe que eu existo. Não quero confundi-la se eles não... contaram para ela... sobre mim."
Eu podia ver a dor que sempre marcava os olhos dela quando eu falava da minha família. Não pena. Nunca pena.
"Tá, amor, você está certa, eu entendo."
Na manhã de Natal eu acordei, e me perguntei se lá em Raleigh, minha irmã estava abrindo o presente que eu mandei.
Isso me fez sentir bem.
---
O cheiro de café pairava no ar, quente e lutando contra o frio de janeiro que se infiltrava no apartamento dela. Ava estava sentada de pernas cruzadas no sofá, o cabelo em uma trança frouxa, mechas emoldurando o rosto. Ela estava trabalhando em novas fotos de Natal no laptop.
Eu fiquei perto do balcão, segurando minha caneca de chá doce.
"Ei," ela disse, erguendo os olhos, capturando meu olhar. Seu sorriso torto e fofo fez meu coração tropeçar.
"Você está quieta. O que foi?"
"Nada," eu disse rápido demais. "Só pensando."
Ela ergueu uma sobrancelha.
"Sei." O tom era provocador, mas os olhos continuavam em mim, estreitando-se um pouco.
"Suspeito."
Tentei rir, mas saiu oco. "Estou bem."
Ela deu um tapinha no assento ao lado. "Vem aqui."
Hesitei, mas atravessei a sala e sentei. Ela virou o laptop na minha direção. Um álbum cheio de fotos novas das férias dela na Filadélfia com a família. Um garotinho de suéter vermelho, rindo enquanto segurava um biscoito. Uma mesa coberta de comida. Uma árvore de Natal brilhando suavemente ao fundo.
"Esse é o Ben," ela disse, apontando para o menino. "Meu sobrinho mais novo. Ele tem quatro anos. É tão fofo." O dedo dela se moveu para um homem e uma mulher em pé ao lado dele com um sorriso grande e caloroso.
"E esse é meu irmão mais velho, David, e a esposa dele, Emily."
A voz dela era suave, cheia de afeto, mas o calor nas palavras só tornava a dor no meu peito mais aguda. A família dela parecia tão... unida. Tão perfeita.
Assenti, sem saber o que dizer.
Ela virou para outra foto, mostrando um casal mais velho ao lado de uma árvore de Natal lindamente decorada. O pai dela tinha os mesmos olhos azuis, e o sorriso da mãe era gentil e meigo. Pareciam felizes, naturais, como se pertencessem a um porta-retrato.
"E esses são mamãe e papai," Ava disse sorrindo.
"Eles perguntaram muito de você."
Eu congelei. "De mim?"
Ela sorriu, as bochechas corando de rosa.
"Sim. Claro. Eu contei para eles sobre você. Nós. Que você é minha namorada."
A palavra pairou no ar.
"E... eles estão de boa com isso?" perguntei, a voz instável.
"Sim," ela riu, balançando a cabeça. "Charlie, eles estão felizes por mim, por nós. Mamãe disse que mal pode esperar para te conhecer. E papai fez um show sobre como vai ter certeza de que você está me tratando bem."
Ela revirou os olhos, sorrindo.
Tentei sorrir, mas meu peito estava apertado. As palavras dela quicavam na minha cabeça, brilhantes demais, altas demais. Os pais dela estavam felizes. Queriam me conhecer.
O que eles pensariam... quando realmente me conhecessem?
"Isso é... legal," eu disse finalmente, a voz mais baixa do que eu pretendia.
O sorriso dela vacilou.
"Charlie," ela disse suavemente. "O que foi?"
"Nada," eu disse rápido. "Estou bem."
Ela estendeu a mão para a minha, seus dedos roçando os meus.
"Você não está bem. Fala comigo."
Balancei a cabeça, desviando o olhar.
"Não é nada. Sério."
Ela não soltou. O polegar dela desenhava círculos lentos e calmantes nas costas da minha mão.
"Charlie, por favor. Se algo está te incomodando, eu quero saber."
Engoli em seco, encarando a mesa de centro. Minha outra mão apertava a caneca. Eu não queria dizer. Não queria falar aquilo.
"Não quero estragar isso", sussurrei.
A mão dela parou.
"Estragar o quê?"
"Isso", eu disse, a voz trêmula. "Nós. Você. Sua família. Vão precisar de um só olhar para mim para se perguntar o que diabos você está fazendo com alguém como eu."
As sobrancelhas dela se juntaram.
"Charlie..."
"Estou falando sério", eu disse, interrompendo-a. As palavras estavam saindo aos tropeços agora, e eu não conseguia parar.
"Você tem essa família de comercial de margarina, e eu sou só... uma bagunça. Vou me destacar que nem um peixe fora d'água. Não vou pertencer."
Ela apertou mais minha mão.
"Você pertence a mim. E é só isso que importa."
Balancei a cabeça.
"E se eles acharem que eu não sou boa o bastante?"
"Então eles vão estar errados", ela disse com firmeza. "Mas não vão. Eles vão te amar."
"Você não sabe disso."
"Sim, eu sei", ela disse, a voz suave mas certa.
"Porque eu os conheço. E, mais importante, eu conheço você. E eu te amo, Charlie."
Minha respiração prendeu. As lágrimas que eu vinha segurando embaçaram minha visão, e eu as pisquei para afastá-las.
"Ava..."
Ela ergueu a mão, segurando meu rosto, o polegar roçando minha pele.
"Tudo bem ter medo", ela disse gentilmente. "Mas não deixe esse medo te contar coisas que não são verdade. Você não é uma bagunça. Você é incrível. E eles vão ver isso."
Eu não consegui mais segurar as lágrimas. Elas transbordaram, quentes e bagunçadas. Eu odiava como me sentia fraca. Mas ela só me puxou para os seus braços, me segurando, como se pudesse manter todos os meus pedaços juntos. Me manter inteira.
"Tudo bem", ela sussurrou, a mão correndo para cima e para baixo nas minhas costas de forma calmante. "Você está bem. Nós vamos ficar bem."
Por um longo tempo, eu só me deixei ser abraçada. Quando me afastei, os olhos dela buscaram os meus, e seu sorriso era suave, hesitante.
"Melhor?" ela perguntou.
Assenti, enxugando o rosto com a manga do meu moletom.
"É. Acho que sim."
"Bom", ela disse, e se inclinou para me beijar.
Foi um beijo suave e quente, me ancorando de um jeito que palavras nunca conseguiriam. Seus lábios acariciaram os meus gentilmente, e eu me deixei afundar no beijo dela, me deixei acreditar que ela estava certa. Que nós íamos ficar bem.
Quando ela se afastou, sua testa descansou levemente contra a minha. "Você não está sozinha, Charlie", ela sussurrou. "Estamos juntas. Aconteça o que acontecer."
---
A rodoviária cheirava a concreto molhado e café velho.
Eu estava sentada no banco de plástico rachado, abraçando minha mala.
A passagem na minha mão parecia pesada, mesmo não pesando nada.
Eu não sabia para onde estava indo. Só para longe.
O motorista chamou para o embarque. Minhas pernas não se mexiam. Um nó cresceu na minha garganta, me sufocando.
Olhei para trás, para as portas da estação, esperando contra toda esperança ver a mãe, ou alguém, vindo atrás de mim.
Ninguém veio.
Meus pés finalmente obedeceram. Subi os degraus, enfiei a mala debaixo do banco e me sentei.
E deixei minha infância para trás.
---
Era começo de fevereiro.
Ava tinha acabado de sair do banho quando a campainha tocou.
"Eu atendo", gritei e afastei meu dever de casa.
Destranquei e abri a porta com um sorriso satisfeito no rosto, imitando a voz irritada da Liz.
"Liz, quantas vezes eu tenho que te falar para não esquecer sua ch..."
O mundo parou.
Minha respiração parou.
Tudo simplesmente... parou.
Havia um torno apertando meu peito. Uma tonelada de tijolos me empurrando para baixo.
Eu estava congelada no chão.
"Charlie, quem é?" Ava veio pela porta do meu quarto, vestindo minha camiseta 23 desbotada e shorts, o cabelo ainda molhado. Era como se tudo estivesse acontecendo em câmera lenta, como se cada detalhe estivesse nítido. E ainda assim, eu não conseguia pensar, não conseguia me mexer... não conseguia...
"Ah, olá. Hã, podemos ajudá-la?"
"Charlotte? Ah, meu Deus, Charlotte!"
A mulher do outro lado da soleira estava olhando para mim. Olhando diretamente nos meus olhos. Ela tinha cabelo escuro na altura dos ombros, um nariz fino e reto, olhos bondosos.
Do jeito que eu lembrava.
"Desculpe, quem é você?"
Ava tinha percebido. Ela parecia consternada. Eu tateei pela mão dela e a segurei com toda a força, esmagando seus dedos.
A mulher olhou para Ava, um tanto surpresa.
"Quem sou...? Eu sou a mãe dela!" Ela olhou de volta para mim, os olhos arregalados.
"Charlotte, graças a Deus, achei que você estivesse morta!"
Ela se moveu como se fosse passar pela porta.
Eu recuei e me afastei.
Ava rapidamente se colocou na minha frente, mantendo um aperto firme na minha mão.
"Eu não me importo com quem você pensa que é, senhora, mas você não pisa um pé aqui a menos que Charlie diga que pode. Entendeu?"
A voz dela vibrava com uma raiva furiosa.
A mulher no corredor parou, claramente insultada.
"Com licença? Eu sou a mãe de Charlotte, quem você pensa que é?"
"Mãe?" Eu podia sentir a raiva de Ava explodir dela como uma onda de calor.
"Você perdeu o direito de se chamar de mãe dela quando a expulsou para ser estuprada por traficantes de drogas. Você perdeu esse direito quando decidiu que não se importava se ela vivia ou morria na rua. Uma mãe não joga seu filho fora como lixo de ontem quando não se encaixa na sua visão de mundo preconceituosa e idiota. Uma mãe ama e protege seus filhos não importa quem eles sejam e quem eles amem. Você não é mãe nenhuma!"
Ela estava gritando, cuspindo as palavras com desprezo.
Minha mãe parecia atordoada. Meu coração estava martelando, minha boca seca. Eu ainda estava congelada, só olhando para ela. Eu me sentia como se estivesse assistindo a tudo de fora do meu corpo.
Ava respirou fundo, como para se acalmar, e sua voz assumiu um tom gelado.
"OK... é assim que vai ser. Eu vou fechar esta porta, e você vai embora, ok? Eu vou conversar com Charlie, e ela vai decidir se e quando está pronta para falar com você. E aí a gente te liga mais tarde hoje. Ok?"
Minha mãe recuperou a voz.
"Quem diabos é você?"
"Eu sou a mulher que vai casar com a sua filha. Eu sou a mulher que a ama, incondicionalmente."
Eu suguei o ar, e a compreensão de que isso estava realmente acontecendo começou a surgir. Depois de todos esses anos, era realmente ela.
"Este é o único jeito de você falar com Charlie hoje, entendeu?"
"Você não pode..."
"Charlie, você concorda comigo?"
Ava me olhou nos olhos, e eu pude ver a dor, a raiva e o amor, misturados com uma incerteza terrível. Ela tinha explodido com a minha mãe.
Mas ela tinha me protegido.
Eu dei um aceno curto.
Eu confiava nela. E eu estava entrando em parafuso, rápido. Caindo. Desabando. Sua mão firme parecia minha única tábua de salvação.
Ava se virou para ela de novo, a voz mais contida.
"Eu preciso que você entenda que não pode simplesmente aparecer aqui e esperar sol e arco-íris, ok? Você estragou a vida dela seriamente. E isso? Isso tem que ser nos termos de Charlie, não nos seus. Você entende?"
"...mas..."
"Por favor? Ela precisa de tempo para processar isso. Você deve isso a ela." Ava estava mais calma agora, mas ainda não cedia nem um centímetro.
Minha mãe olhou entre ela e eu. Eu estava tremendo agora, mal conseguindo conter o ataque de pânico, respirando superficialmente e com os olhos bem abertos, fixos nos dela. Minha mão estava esmagando os dedos de Ava.
Ela pareceu finalmente perceber que eu não estava bem. Que havia algo muito, muito errado que ela não entendia. Seu olhar de indignação se transformou em pura preocupação.
De todos os olhares que eu esperava dela, preocupado nem estava na lista.
"Ok... eu vou..." Ela parecia confusa. Preocupada.
"Você vai ligar? Você ainda tem... meu número...?" Ela ainda estava olhando para mim. Eu consegui acenar que sim. Eu estava tão perto de desmoronar agora.
"Sim. Nós ligamos. Obrigada." Ava fechou a porta.
E eu perdi o controle. Desabei contra a parede e deslizei até o chão. Ela me segurou e afundou comigo e me puxou para um abraço apertado, me ancorando contra seu corpo enquanto o pânico dominava meus sentidos e eu chorava, descontrolada, mais forte do que em anos, meus dedos se agarrando a ela.
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"...é, ela simplesmente surtou completamente e depois apagou..."
A voz de Ava me alcançou como um sussurro no fundo de um barril.
"...não sei... ela estava hiperventilando... estou apavorada, Liz, não sei o que fazer... isso é tudo culpa minha..."
Eu estava na minha cama. A parede me encarava de volta. Eu não me mexia.
"...não, só dormindo... tipo meia hora mais ou menos... sim... sim ok... ok... o quê? Sim, estou no quarto dela... Você acha que ela pode... ai, Deus... ok, sim, não vou sair daqui. Por favor, venha rápido..."
Era real. Não um pesadelo. O pânico rondava as bordas do meu cérebro. Eu podia senti-lo pressionando, gritando para eu pular e correr, porta afora, escada abaixo, fugir. Só fugir. Qualquer lugar.
Era fácil. Minha mala estava no armário. Eu tinha dinheiro. Poderia pegar o metrô até a rodoviária. Poderia estar longe daqui em uma hora... longe de... dela... disso...
Um som pequeno e horrível se infiltrou na minha consciência, pressionando insistentemente contra meu pânico.
Soluços quietos.
Por um tempo eu só escutei e deixei aquele som horrível me dar um propósito. Pouco a pouco, deixei que ele me convencesse.
Eu não fugiria. Eu não iria embora.
Eu não a machucaria daquele jeito. Eu não arruinaria a melhor coisa da minha vida.
Eu rolei na cama para olhar para ela. Ela estava no chão, de costas contra a parede, a testa descansando nos joelhos encolhidos, braços ao redor das pernas. Seu celular estava na mão.
Seus ombros tremiam enquanto ela chorava, assustada e sozinha.
Eu a observei, e meu pânico foi finalmente afastado por um sentimento avassalador de amor.
Meu anjo. Minha rocha.
"Ava..."
Ela rapidamente ergueu os olhos, arregalados e vermelhos de chorar.
"Ai, Deus, Charlie, amor, você está bem?"
Ela enxugou as lágrimas enquanto se levantava e vinha até minha cama.
"Você pode me abraçar... por favor?" Eu me virei para a parede de novo e deixei ela curvar seu corpo ao redor do meu, sentindo seus braços me segurando forte.
Ficamos deitadas lá em silêncio por um tempo. Ela acariciava meu cabelo e beijava de leve a nuca do meu pescoço.
"Ela..." eu sussurrei.
"O quê?"
"Ela veio me procurar..."
Ava ficou em silêncio.
"Ela veio..." eu sussurrei de novo.
"Sim... como você se sente... sobre isso?" Sua voz parecia assustada.
Pensei sobre aquilo. Parecia que o pânico tinha queimado e me deixado dormente. Pelo menos por enquanto. Seu abraço era reconfortante, seu corpo quente contra o meu.
Fechei os olhos.
Eu estava nos seus braços. Eu era amada. Eu estava... segura.
"Eu não sei..."
"Está tudo bem, amor... você não precisa..."
"Eu tentei odiá-la... eu tentei tanto..."
Soava horrível. Mas era verdade. Ava não disse nada.
"...mas... ela é... minha mãe... Ava. Ela é minha mãe."
E aí as lágrimas vieram.
"Shhh, amor, está tudo bem. Você vai ficar bem. Nós vamos fazer isso juntas. Você e eu, amor. Você e eu. Vai ficar tudo bem. Eu te amo. Nós vamos ficar bem."
Ela me segurou e me acalmou enquanto eu chorava.
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Depois que me mudei para a casa da Liz, às vezes eu deitava na cama no escuro e planejava o discurso que ia fazer para minha mãe quando voltasse para encontrar Emily.
Na minha mente, eu estava sempre calma e controlada.
Eu diria a ela que estava bem, que tinha terminado o ensino médio, que tinha um bom emprego e uma namorada linda, e que não precisava dela.
Que eu não tinha voltado por ela ou pelo pai, só pela Emily. Que ela era minha irmã, e eles não podiam me impedir de vê-la.
Nunca pensei que seria ela quem viria me procurar.
Por que ela viria?
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Quando ela voltou naquela noite, dava para ver que Ava estava quase tão tensa quanto eu. Estávamos sentadas à mesa da sala, nossas mãos entrelaçadas em cima dela.
Liz calmamente abriu a porta e se apresentou. Calma. Controlada. Fria.
E então minha mãe entrou na sala.
Seu rosto estava marcado pela preocupação, e ela estava claramente desconfortável. Seus olhos piscavam entre Ava e eu.
"Olá, Charlotte."
Ava apertou minha mão, e descobri que podia respirar de novo.
"Oi, mãe." O nó na minha garganta ameaçou se transformar em um acesso de choro, mas eu me segurei.
Ela ficou parada lá, sem jeito, por um momento.
"Eu queria falar com você sozinha, mas a Sra. Martin disse... que você... não quer."
"Eu quero Ava aqui. Ela é minha namorada." A provocação na minha voz era óbvia, desafiando-a a objetar.
Ela só se aproximou e sentou-se à mesa, oposta a nós.
"Sim, eu percebi isso... esta manhã."
Ava endireitou as costas, mas não disse nada, como se estivesse preparada para qualquer coisa, pronta para expulsar minha mãe do apartamento de novo, se necessário.
Minha mãe, por outro lado, parecia muito desconfortável. Ela olhou para os dedos inquietos.
"É bom ver você... Charlotte. Eu... eu..."
Eu não disse nada. Não estava pronta para dizer... o que quer que fosse que eu ia dizer. Eu não sabia. O que você diz para sua mãe depois de quase oito anos de rejeição e silêncio? Eu não sabia por que ela estava aqui. Para se desculpar? Para gritar comigo pelo presente da Emily? Para me dizer para deixá-los em paz? Podia ser qualquer coisa.
Mas ela parecia hesitante. Nem um pouco como pela manhã.
"Charlotte... aquilo..."
Ela olhou para mim e fiquei surpresa ao ver dor nos seus olhos.
"Aquilo era verdade... o que ela disse... sobre você ter sido... abusada...?"
Por anos, pensei que ela não se importava comigo. Não se importava onde eu estava ou o que acontecia comigo. Não se importava se eu vivia ou morria. E agora, de repente, eu podia ver que ela se importava. Ela parecia preocupada. Dolorida. Eu estava atordoada.
E aí, de repente, fiquei com raiva. Tanta raiva. Cerrei os dentes.
"Estuprada?"
Ela visivelmente se encolheu com a palavra.
"Sim, mãe, eu fui estuprada."
Ela estava me encarando agora, olhos arregalados, o horror estampado no rosto. E eu estava sentindo uma satisfação terrível em ver seu desconforto. Era horrível e delicioso ao mesmo tempo.
"Eu fui abusada, e fui usada. Eu usei outros. Eu fui uma prostituta, mãe; fiz o que tinha que fazer para sobreviver. Sou viciada. Deixava pessoas usarem meu corpo por drogas. Eu não tinha para onde ir, ninguém com quem falar. Minha vida inteira era uma merda. Eu me odiava! Se não fosse a Liz, eu teria morrido no chão de um banheiro sujo por cortar meus próprios pulsos."
Ela estava segurando as mãos na frente da boca agora, lágrimas brotando nos olhos. Ava estava sentada rígida ao meu lado, a mão esmagando a minha.
"Foi para me perguntar isso que você veio até aqui, mãe? É por isso que você está aqui? Só uma checagem rápida para ver se eu fiquei bem vivendo na rua todos esses anos? Para aliviar sua consciência? Só para ter certeza de que eu estava ótima dormindo em um estacionamento enquanto você e o pai viviam felizes para sempre?" Minha voz falhou.
"O que caralho você achou que ia acontecer comigo?!"
"Ai, meu Deus, Charlotte, ai, meu Deus. Sinto muito, eu sinto tanto, eu não sabia, juro, eu nunca quis... sinto muito... eu nunca... eu nunca..."
Suas palavras saíam rápidas, atropeladas. Esse não era o jeito que eu tinha imaginado este momento. De jeito nenhum. E eu não me lembrava de tê-la visto chorar antes. Tudo aquilo parecia irreal. Mas eu estava furiosa.
"...eu te procurei, sinto muito... por que você não voltou... você podia ter voltado... eu não queria..."
"Você não queria!? Vai se foder, mãe! Você me disse que não queria me ver de novo até eu mudar meus modos... você me disse que não teria uma maldita lésbica vivendo sob seu teto. Você me disse que eu te dava nojo, que me ver beijando a Kelly era nojento e antinatural! VOCÊ ME DISSE QUE EU ERA ANTINATURAL, MÃE!"
Eu podia sentir o aperto de Ava na minha mão aumentar a cada frase, enquanto minha voz subia para um grito.
"VOCÊ MESMA FEZ MINHA MALA, MÃE! E AÍ JOGOU NA RUA E ME MANDOU CAIR FORA DA SUA CASA! E AÍ BATEU A PORTA NA MINHA CARA! O QUE CARALHO EU DEVERIA FAZER!?"
Eu estava de pé, gritando com ela, enquanto ela só me encarava, chorando.
"Charlie..."
Eu a fuzilei com o olhar.
"Charlie... amor...?"
A voz trêmula de Ava me trouxe de volta. Olhei para seu rosto lindo, marcado por tanta dor e preocupação, e todo o vento me deixou. Desabei na cadeira, me sentindo cansada de repente. Tão cansada.
"Não me diga que não queria. Você queria, mãe, você quis tudo aquilo, caralho."
Liz estava de pé na porta, nos observando calmamente. Ela já tinha ouvido tudo antes.
Mas Ava parecia consternada. Eu nunca tinha contado a ela exatamente o que tinha acontecido. Odiava que ela tivesse que ouvir daquele jeito.
Mamãe parecia devastada.
"Você está certa" ela finalmente soluçou, baixinho. "Eu quis."
Ava sugou o ar. Eu podia sentir sua raiva inflamando.
— Mas... então... eu perdi você. Perdi minha menina. Minha menina linda... Achei que você estivesse morta. Achei que tinha te matado, Charlotte. Achei que tinha...
Os soluços dela eram a única coisa que se ouvia.
— Você quase conseguiu.
A voz de Liz era gelada, e suas palavras caladas quebraram o silêncio.
— Ai, meu Deus... Sinto muito, Charlotte, sinto muito, por tudo...
Ela olhou para minha mão na de Ava.
— O que você disse esta manhã... eu mereci. Você tinha razão.
Ela não conseguia encarar os olhos de Ava. Parecia pequena e derrotada.
— Eu sei disso... há muito tempo...
Ela olhou para mim.
— Sinto muito, Charlotte. Eu devia ter te protegido. Devia ter sido... uma mãe... melhor...
Ela desviou o olhar.
— Não há desculpa para o que fizemos. Para o que eu fiz.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu odiava aquilo. Não queria chorar. Queria sentir raiva. Queria ser a vingança furiosa, a revanche fria.
Mas... não consegui.
Porque, apesar da raiva, do ressentimento, do trauma, apesar de tudo...
...apesar... de tudo...
... eu ainda queria que minha mãe me amasse.
E ela veio. Até mim.
Ela estava sentada bem ali.
Eu sabia que devia odiá-la pelo que fez comigo. Queria odiá-la. Mas simplesmente não conseguia.
Fechei os olhos e engoli as lágrimas.
— Como você me encontrou?
Eu sabia a resposta. Só podia haver uma explicação. Mas tinha outra coisa que eu precisava saber.
Mamãe olhou para mim.
— O presente da Emily. Tinha um endereço de remetente. Eu torci... só podia ser... tinha que ser... você. Eu tinha que vir...
Olhei para Ava.
— Me desculpa — ela sussurrou. — Achei que talvez se ela respondesse... então quem sabe a gente pudesse... Sei lá... Não imaginei que ela fosse... Me desculpa, Charlie.
Apertei a mão dela.
— Não precisa. Tá tudo bem, amor.
Encostei a testa na dela.
— De verdade, tá tudo bem.
— Eu te amo.
— Também te amo.
Levantei o olhar do nosso breve instante e vi minha mãe nos observando.
Não havia nojo. Nem olhar feio. Só tristeza.
E então era hora de saber.
— Ela sabe de mim? A Emily?
— Sabe. Seu pai não queria... mas... sim, ela sabe.
Ao ouvir falar do meu pai, senti meu corpo enrijecer de novo.
— Meu pai ainda me odeia, então? — Foi doloroso dizer aquilo, e doloroso vê-la ouvir.
— Ele... ele não... hã... não... ele não sabe que estou aqui...
Não foi o que eu perguntei, mas acho que respondeu à pergunta.
— Ele me deixou... ano passado.
Ah.
— E você?
— Eu te amo, Charlotte. Sempre te amei. Mesmo quando nós... mesmo naquela época. — Ela enxugou as lágrimas do rosto.
— Não espero que você acredite em mim, mas é verdade. Quando tive a Emily... prometi a mim mesma que seria uma mãe... melhor.
Ela olhou para Ava, e depois para mim.
— Sei que nunca vou poder compensar... o que fiz... nunca... mas estou tentando.
Agora eu não conseguia mais segurar o choro.
Ava soltou minha mão e passou o braço ao meu redor. Recostei nela e chorei.
— Não espero que você me perdoe. Entendo se não quiser falar mais comigo.
Os olhos suplicantes me olhavam de viés.
Não consegui encará-los.
Por fim, ela se ajeitou um pouco e enxugou as lágrimas do rosto.
Depois olhou para Ava.
— Cuida da minha menina. Fico feliz que ela tenha encontrado você. Dá pra ver que você a ama muito.
Ela se levantou e se virou para ir embora. Liz se afastou do vão da porta.
E de repente eu não podia simplesmente vê-la partir.
— Mãe?
Levantei e senti o toque de Ava se desfazer. Minha tábua de salvação desconectada. De repente me senti sozinha. Exposta. Com medo.
— Mãe, espera.
Ela se virou para mim.
Olhei para Ava. Ela sorria triste para mim, e eu sabia que ela me apoiaria, fosse qual fosse o futuro. Eu era amada.
Me virei para minha mãe. Não sabia aonde aquilo ia dar, nem achava que era uma boa ideia.
Só sabia que precisava.
Uma coisa simples.
Por anos eu tinha dito a mim mesma que perdi a esperança. Mas a esperança não morre de verdade. Ela só hiberna.
E agora, numa caverna escura e esquecida, no fundo da minha alma, a esperança despertou de seu sono.
Dei alguns passos ao redor da mesa. Ela estava perto o bastante para tocar.
Não consegui pedir. As palavras morreram na garganta.
Então, com um único passo, fechei a distância entre nós e envolvi meus braços ao redor dela. Meu corpo contra o dela, minha bochecha na dela.
E então os braços dela me envolveram, e ficamos ali juntas, chorando no ombro uma da outra.
Só um abraço.
Um abraço da minha mãe.
---
Eu estava sentada num banco do Central Park. A mão de Ava descansava na minha.
— Você tá bem?
Pensei a respeito.
— Não... nem tanto. Tô com medo.
— Vai ficar tudo bem, Charlie.
— Você não sabe disso. E se ela me odiar? E se... — Não consegui dizer.
— Ela não vai te odiar, amor. Você é incrível, e ela vai amar a irmã mais velha.
Olhei para aquele sorriso torto e a covinha mais fofa do mundo. Os olhos dela brilhavam com confiança suficiente para nós duas.
— Eu sou uma bagunça, Ava. Não sou exatamente o que se pode chamar de bom exemplo para ninguém.
— Para com isso, tá? Você é corajosa e honesta, e luta pelo que acredita. Você ama com todo o coração, e você brilha, amor, ah, como você brilha...
A intensidade dela me pegou de surpresa. Corei com a descrição que ela fez dessa garota que eu mal reconhecia.
— Eu não... — comecei.
— Por que você acha que eu pegava o metrô de Midtown até um café aleatório no Hell's Kitchen para almoçar dia sim, dia não, durante três meses?
— Hã... eu...
Ela olhou para um esquilo a poucos passos dali.
— Você não lembra, mas eu entrei lá um dia para tomar um café, e vi uma garota incrível no balcão.
— O quê?
— É. E fiquei sentada uma hora só te olhando. Você parecia tão séria, tão linda.
Eu só ouvia e corava.
— Aí, eu voltei, e toda vez ficava tentando criar coragem para te chamar pra sair. Mas... sempre amarelava. Tinha sempre uma fila de gente, e você parecia tão descolada, tão sexy. E eu não tinha... experiência, na real... em namorar mulheres.
Eu era burra. Sabia que o escritório dela não era no meu bairro, mas nunca juntei as peças.
— Então... você vinha... para me ver?
— Claro! — Ela sorriu para mim. — Eu te quero desde o primeiro dia que te vi.
Olhei para os pés e corei furiosamente.
— Mas e se ela não gostar de mim...?
Minha cabeça se ergueu de chofre ao ouvir a vozinha. Subindo pelo caminho vinham minha mãe e uma garota que parecia eu aos sete anos.
— Quieta, Emily, querida, olha, lá estão elas.
Esmaguei a mão de Ava na minha, e nos levantamos para cumprimentar.
O clima entre nós ainda era muito estranho, mas o breve abraço fez bem, ainda assim.
— Ava.
— Sra. Miller.
"Estranho" nem começava a descrever a relação entre minha mãe e minha namorada. Ava tinha deixado bem claro o que pensava dela. Me disse que estava guardando o rancor por nós duas até eu decidir aonde queria que aquilo fosse.
— Emily, querida, diga oi para sua irmã.
— Oi...
Eu me ajoelhei, nervosa.
— Oi, Emily...
Ela parecia desconfiada.
— Eu sou sua irmã, Charlotte. Estou tão feliz em te conhecer... — Mordi as lágrimas. Não queria que a primeira lembrança dela de mim fosse de uma chorona.
— Charlotte?
— É, pode me chamar de Charlie, se quiser.
Ela pareceu pensar no assunto. Depois me pegou desprevenida.
— Por que você não mora com a gente? Você não gosta da gente?
Ouvi o suspiro agudo da minha mãe. Olhei para Emily. A pergunta estava estampada no rosto dela.
— Eu... tive que... ir embora... mas é importante que você saiba que não foi por sua causa. Eu te amo, Emily. Mesmo que você nunca tenha me visto antes, você é minha irmã e está sempre comigo.
Abri a gola da blusa para mostrar a tatuagem abaixo da clavícula.
— Viu? É o seu nome. Porque mesmo que a gente esteja separada, e não importa onde eu esteja, você está sempre aqui, no meu coração, Emily. Sempre.
Ela olhou para aquilo. Eu estava extremamente nervosa.
— Gostei das flores. São bonitas. — Ela olhou para a mãe.
— Posso ter o nome da Charlotte no meu coração?
Mamãe não conseguiu segurar o sorriso.
— Talvez quando você for mais velha, querida, tatuagem é só para adulto.
Emily pareceu decepcionada.
— Quem sabe... a gente tira uma foto da Charlotte? Uma que você possa colocar num porta-retrato e guardar no seu quarto? Você gostaria?
Emily finalmente sorriu.
— Sim! Mas também quero flores assim.
— Tá bem, querida, a gente vê o que pode fazer. — Agora todas sorríamos. Aquilo estava indo melhor do que eu ousara esperar.
Ficamos sentadas por uma hora, Emily e eu na toalha de piquenique que trouxemos, Ava e minha mãe no banco, para nos dar privacidade e tempo de nos conhecermos.
Enquanto eu ouvia Emily falar das amigas, captei uma conversa abafada no banco.
— Obrigada por isso, Sra. Miller.
— Ah, não, por favor, não me agradeça, Ava, eu devia ter... Eu nunca devia...
— Sim, Sra. Miller, de verdade. Obrigada. Acho que a senhora não faz ideia do quanto isso é importante para a Charlie. Para nós.
Olhei para elas por cima do cabelo escuro de Emily.
Minha mãe estava nos olhando.
— Acho que talvez eu esteja começando a entender.
Quando elas foram embora, Emily me deu um grande abraço e minha mãe tirou uma foto nossa juntas.
Enquanto as víamos se afastar, senti como se uma porta tivesse se aberto.
Estendi a mão para a de Ava.
— Ela é um amorzinho.
— É.
— Você era assim tão fofa com sete anos?
Sorri.
— Mais fofa ainda.
— Sem chance. — O sorriso torto e fofo dela estava de volta com força total.
— Com certeza! Você devia saber, é você quem diz que vai casar comigo.
Ela começou a falar algo, mas então se conteve e olhou para nossas mãos entrelaçadas. Depois levantou os olhos para mim, toda corada, com amor no olhar.
— Sim, eu vou casar com você, Charlotte Miller.
Me inclinei e a beijei. Não estávamos longe de onde demos nosso primeiro beijo. Lembrei-me dele com carinho enquanto meus lábios encontravam os dela.
Depois de um tempo, me afastei e descansei a cabeça no ombro dela, num abraço silencioso.
— Eu te amo, Ava. Obrigada por isso.
— O beijo?
— Não, você sabe o quê. Isso. A Emily. Tudo.
— Eu não fiz nada.
— Fez sim. Você estendeu a mão. Escreveu um endereço de remetente num pacote. Arriscou algo que eu não consegui.
— Ah, Charlie, eu não devia ter feito aquilo. Não pensei direito.
— Isso me trouxe minha irmã. — Sussurrei. — Então, obrigada.
---
Lambi desde os dedos do pé dela, passando pelo arco do pé bonito até o tornozelo, subindo ao joelho, acariciando sua panturrilha sexy com os dedos enquanto ia em direção à coxa.
— Ah, eu adoro isso, amor, isso mesmo, adora minhas pernas.
Ela sabia exatamente como apertar meus botões.
Estávamos com o apartamento dela só para nós, as colegas de quarto no trabalho. Ela estava sentada na beirada do sofá da sala, a saia curta subindo pelas coxas expondo a calcinha de renda úmida, as pernas bronzeadas e sexy escarrapachadas diante de mim.
— Lambe, amor — ela sussurrou, os olhos me desafiando a obedecê-la. — Lambe minhas pernas, beija meus pés. Ah, caralho, me excita ver você de joelhos assim.
Beijei a parte de trás do joelho dela. Isso sempre a fazia tremer. Meus dedos subiram por suas coxas macias, encontrando a calcinha molhada entre elas.
Ela gemeu quando rocei os dedos sobre a renda, com só um pouquinho de pressão no alto da boceta.
— Hnnnnngggggg iiiiisso...
Olhei ao redor.
— Talvez seja melhor ir pro seu quarto...
Ela abriu os olhos, queimando de desejo.
— Eu falei pra elas ficarem longe hoje. Ninguém vai voltar antes das oito.
— Mesmo assim...
— Amor, ninguém vai aparecer, e eu quero que você me foda bem aqui, agora.
Ela se inclinou para a frente na beira do sofá e me beijou com as mãos no meu rosto.
— E mesmo que apareçam... — ela disse entre beijos, — vão ter que ficar olhando... — beijo — ... eu ser fodida... — beijo — ... pela minha sexy... — beijo — ... linda... — beijo — ... namorada.
Ela me olhou nos olhos.
— Tá bem?
Eu já estava tão excitada depois desse discurso sexy que só queria ela. Aqui ou ali, não importava.
— Sim. Tá bem, amor.
Ela sorriu e me beijou de novo. Depois se soltou e se recostou no sofá, as mãos caídas sobre as coxas logo abaixo da barra da saia. Ela estava sexy pra caralho.
— Agora, tira a roupa pra mim, amor, quero ver seu corpo gostoso. — Ela sorria maliciosamente. Eu adorava quando ela ficava nesse clima. Um pouco mandona. Isso me excitava demais.
Ela sempre checava comigo, sempre se certificava de que eu estava bem. Mas gostava de dar as cartas.
Dei a ela o meu sorriso mais sexy e me levantei.
— Quê, você quer ver meus peitos?
A mão dela deslizou sobre a calcinha, os dedos roçando a renda molhada.
— Siiiim, amor, você sabe que eu adoro eles.
Tirei a camiseta num movimento rápido e a joguei longe. O sutiã foi em seguida.
Ela me olhava com fome.
Apertei meus peitos modestos com as mãos e belisquei meus mamilos grandes, escuros e inchados. Os dedos dela esfregavam lentamente o clitóris através da calcinha enquanto ela me observava.
— Deus, você é tão sexy, amor. — Ela pressionou a mão no clitóris e estremeceu.
— Tira essa calça.
Baixei a calça jeans e a calcinha, revelando minha boceta depilada e os lábios pendentes.
— Ai sim, amor, caralho, sim. — Os dedos dela serpentearam para dentro da calcinha e a empurraram coxa abaixo.
— Vem cá, amor... — A calcinha caiu do tornozelo quando ela abriu as pernas para mim.
Me ajoelhei e beijei seu tornozelo, depois a panturrilha, o joelho. Tracei a língua pela coxa, até chegar ao meu prêmio.
Ela gemeu alto quando enterrei o nariz em seus pelos sexys, inalando seu cheiro de excitação. Eu adorava o monte dela, como ele se erguia do corpo esguio, os pelos loiros e cacheados tão bonitos na pele clara.
Minha língua serpenteava ao redor do capuz, à direita e à esquerda do clitóris, tocando-o brevemente em volta. Os dedos dela passavam pelo meu cabelo curto, agarrando-o de leve. Ela adorava ser provocada assim.
Mas não por muito tempo.
O aperto no meu cabelo se intensificou e ela me empurrou para baixo, esmagando meu rosto contra sua boceta. Deslizei a língua para dentro dela, fazendo-a gemer e empurrar contra minha boca.
Me masturbei, de joelhos com o rosto enterrado em minha amada, os dedos entre as pernas, espalhando minha umidade pelos lábios, esfregando o clitóris.
Chupá-la era minha coisa favorita, sentir que ela se entregava a mim, poder dar esse prazer a ela, colocar todo o meu amor em cada passada de língua, cada toque no clitóris, cada chupada nos lábios.
Fazer amor com ela.
— Ai, Deus, você é tão boa, amor. Aaaai, sim.
Enfiei o dedo fundo nela, procurando seu ponto de prazer.
Ela reagiu quase instantaneamente, segurando minha cabeça com mais força, ondulando os quadris.
Gemi em sua boceta, achatando a língua no clitóris enquanto a dedilhava com propósito. Construindo o orgasmo, massageando-a por dentro devagar.
Ela gemia e arrulhava, me elogiando, me guiando, eu sentia que ela estava chegando mais perto.
Então, de repente, ela puxou meu rosto para longe do clitóris.
— Aaaai, amor, vem cá, me beija, por favor, por favor...
Ela estava ofegante, o rosto brilhando de desejo.
Sentei-me sobre as coxas dela, os joelhos de cada lado. Meus lábios se esmagaram nos dela num beijo apaixonado, espalhando os fluidos dela do meu rosto para o dela.
— Eu te amo — ela gemeu entre beijos, — te amo tanto, Charlie.
Ela segurou minha bunda com as duas mãos, agarrando minhas nádegas, apalpando, como se bebe-se seu formato e maciez.
Atrapalhei-me com a blusa de botões dela, libertando seus belos seios claros. Ela gemeu na minha boca quando apertei seus mamilos com força.
— Aaaai, sim, amor... — ela enterrou o rosto no meu pescoço e chupou aquele ponto onde o pescoço encontra o ombro, me fazendo tremer de desejo. Ela parecia conhecer meu corpo melhor do que eu hoje em dia.
Suguei o ar e passei uma mão pelos cabelos dela, agarrando e empurrando sua cabeça para meus mamilos.
Ela abocanhou meu peito com avidez, chupando fundo, todo o meu mamilo inchado desaparecendo em sua boca. Os dedos dela beliscavam o outro e eu gemi alto.
Ela brincou com meus peitos por um tempo, até estourar um mamilo para fora da boca e me empurrar para eu me levantar.
— Quero te chupar, sobe, amor, Deus, quero chupar seu clitóris...
Quando me levantei, ela deslizou a bunda do sofá para o chão num movimento fluido, as omoplatas agora apoiadas na borda do sofá. Ela puxou meus quadris em sua direção. Eu sabia exatamente o que ela queria. Coloquei a mão na testa dela para que não pudesse vir até mim, e abaixei minha boceta sobre sua boca, balançando meus lábios sobre os dela. A língua dela serpenteou para fora, tentando lamber meu clitóris inchado.
— Não me provoca, amor!
Sorri para ela e afundei em sua boca. Imediatamente meus lábios grossos e meu clitóris duro e protuberante foram engolidos pela umidade quente de sua boca, sua língua girando ao redor deles, seus lábios se esmagando contra meus grandes lábios em um beijo profundo. Era incrível. Ela amava meus grandes lábios e mostrava isso toda vez que tinha a chance.
"Ai, Jesus, Ai, porra, Ava, Ai, porra! Ai, pooorra...!!!"
Esfreguei minha boceta em seu rosto, me contorcendo em êxtase, estremecendo com seus ataques ao meu clitóris sensível, me deleitando na glória de sentir a mulher que eu amava me fazer amor com todo seu coração. Seus gemidos entusiasmados eram mais altos que meus gemidos de prazer, sua paixão queimando intensamente.
Eu podia sentir o orgasmo se aproximando, meus dedos e pescoço formigando, meu clitóris sobrecarregado. E então ele veio, se aproximando lentamente enquanto eu prendia a respiração, focando em cair sobre aquele limite, até que senti que nada poderia detê-lo e então o prazer veio trovejando do meu clitóris, subindo pelo meu corpo, até meus braços e pernas. Meus joelhos cederam e deixei todo o meu peso cair sobre ela, esmagando seu rosto, segurando seus cabelos enquanto eu tremia e estremecia, o tempo todo sentindo sua língua me penetrando incansavelmente, tentando prolongar o orgasmo o máximo possível.
Finalmente me afastei dela e desabei em seu colo, descansando minha cabeça em seu ombro, estremecendo com os espasmos pós-orgasmo.
Ela me segurou, apreciando minha felicidade, cobriu meu pescoço com beijos pequenos, acariciou meus cabelos, sussurrou seu amor em meu ouvido.
O tempo desacelerou e nós nos beijamos. Lentamente, a puxei para cima no sofá novamente e ficamos deitadas nos braços uma da outra por um tempo, nos beijando, confessando nosso amor.
Meus dedos desceram por seu corpo lindo, encontrando seu monte, brincando em seus pelos. Ela levantou o joelho para mim, e eu deslizei para dentro de sua umidade.
Sedosa, macia, quente, escorregadia com seus fluidos. Meus dedos afundaram nela lentamente, fazendo-a gemer baixinho e depois gemer alto quando encontrei seu ponto doce. Nos beijamos enquanto eu a fodia, seus gemidos seguindo a dança dos meus dedos dentro dela, seu clitóris se esfregando contra a base da minha mão. Ela estava chegando lá rapidamente. Seu peito estava vermelho de excitação, e ela estava úmida de suor. Tão linda. Olhei em seus olhos e sorri.
"Goza pra mim, amor... me deixa sentir você apertar meus dedos..."
Sua respiração acelerou e seus olhos se fixaram nos meus.
"Isso, amor, goza pra mim, me dá, me deixa ver você gozar, eu amo ver você gozar, amor, eu amo sentir... eu te amo tanto, quero sentir você, amor, goza pra mim..."
Sussurrei para ela, sabendo quais botões apertar, sabendo que isso a deixava louca de desejo. Quando ela estava prestes a perder o controle, eu a beijei profundamente, segurando seus lábios contra os meus enquanto ela se contorcia em meus braços, meus dedos lutando contra as primeiras contrações em sua vagina e minha outra mão em seus cabelos, mantendo-a no beijo.
Então sua respiração presa explodiu dela, suas coxas esmagaram minha mão, sua vagina apertou e tentou expulsar meus dedos, seus braços tentaram me afastar, mas eu segurei firme, sabendo que os segundos extras que eu pudesse continuar fodendo-a antes de deixá-la ir tornariam seu orgasmo muito melhor.
Seu gemido de prazer continuou até que ela ficou sem fôlego e precisou sugar o ar novamente.
Mais tarde, enquanto estávamos deitadas no sofá, nos recuperando depois de algumas rodadas de prazer, ela olhou para mim e sorriu.
"Charlotte?"
Meu coração se aqueceu. Um dia, eu fugi do meu nome como de tudo o mais. Mas ultimamente, ela o havia recuperado. Eu amava ouvi-la dizê-lo assim, como se seu amor afastasse quaisquer memórias ruins que ele carregasse e o quisesse apenas belo.
"Sim, amor?"
"Sabe, já faz um ano desde que eu disse que ia me casar com você?"
Eu sorri.
"Sim, eu sei."
"Mas eu nunca te pedi."
"Não, você não pediu."
Ela pareceu pensativa.
"Você não precisava, Ava. Quando você disse, eu soube que era verdade. Eu soube que era certo."
Seu sorriso torto e fofo apareceu novamente.
"Mesmo assim..."
Ela rolou para cima de mim, seu corpo nu repousando sobre o meu.
"Charlotte Miller..."
Eu sorri. Parecia que nossa história de pedido de casamento precisaria ser fortemente editada ao ser contada.
"... eu vou me casar com você."
Meu coração se elevou.
"Sim, você vai, Ava Thomas, você vai se casar comigo."
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A luz do sol filtrava-se pelas árvores no Central Park, lançando um brilho dourado e suave sobre tudo. Eu estava em Strawberry Fields, o diploma segurado desajeitadamente em minhas mãos. Ava estava agachada a alguns metros de distância, sua câmera erguida, seus olhos azuis espreitando por trás da lente. Ela sorriu enquanto ajustava o ângulo, sua covinha rindo.
"Ok, levante-o, amor," ela disse, sua voz brilhante mas firme. "Orgulhosa e forte. Este é o seu momento."
Eu me encolhi, ainda me sentindo constrangida posando para fotos em uma saia evasê e paletó bonitos. Tentei rir nervosamente.
"É só um diploma de ensino médio, Ava. Não é exatamente algo para se gabar."
Ela abaixou a câmera e me encarou, sua expressão suavizando-se.
"Não," ela disse firmemente. "Isso não é 'só' nada. Você lutou por isso, Charlie. Você mereceu. E eu estou tão, tão orgulhosa de você."
Suas palavras me atingiram como um peso quente se assentando em meu peito. Engoli em seco.
"Pare," eu disse, balançando a cabeça e sorrindo apesar de mim mesma. "Você vai me fazer chorar."
"Bom," ela disse, erguendo a câmera novamente. "Porque eu quero capturar isso também."
Eu levantei o diploma, tentando sorrir através do nó na garganta. Ela clicava sem parar, ajustando sua posição a cada poucos segundos, sua empolgação contagiante.
"Agora gire!" ela chamou, gesticulando com a mão livre. "Deixe essa saia rodar. Você é uma graduada, Charlie, seja dramática!"
Eu girei, rindo, e a ouvi clicando. Quando parei, ela abaixou a câmera e veio até mim. A luz do final da tarde captava seu cabelo incrivelmente loiro, fazendo-a parecer quase irreal. Quando ela me alcançou, ela segurou meu rosto gentilmente com as duas mãos.
"Você é incrível," ela disse, sua voz mais baixa agora, cheia de emoção. "Você sabe disso, né? O que você fez... tudo que você superou... eu te admiro."
Meu coração falhou, e por um momento, não consegui falar. Eu me inclinei em seu toque, fechando os olhos enquanto seus polegares roçavam minhas bochechas.
"Eu não teria conseguido sem você," eu sussurrei.
"Sim, você teria," ela disse, sua testa encostando na minha.
"Isso é tudo você, Charlie. E ninguém nunca poderá tirar isso de você."
Seus lábios encontraram os meus, macios e quentes, e o mundo pareceu desacelerar ao nosso redor. Os sons do parque diminuíram, o burburinho das pessoas e o farfalhar das folhas se dissolvendo no fundo.
Quando nos afastamos, seu sorriso estava radiante. Ela ajeitou uma mecha rebelde do meu cabelo curto e estilizado.
"Venha," ela disse, pegando sua bolsa e guardando a câmera. "Liz vai nos matar se nos atrasarmos para o jantar."
Eu ri, apertando meu diploma firmemente enquanto caminhávamos de mãos dadas em direção à saída do parque.
"Ela provavelmente já nos mandou mensagem cinco vezes."
"Se não chegarmos a tempo, ela provavelmente vai pedir por nós," Ava brincou, sorrindo.
"Ela está tão orgulhosa de você. É a ela que deveríamos agradecer."
Eu segurei sua mão.
"Eu sei. Eu devo a ela... tudo."
Enquanto caminhávamos, meu coração parecia mais leve do que em anos. Aquilo não era apenas um diploma. Era a prova de que eu podia seguir em frente. Fazer algo da minha vida.
Eu me senti genuinamente orgulhosa de mim mesma.
Era um sentimento novo e bem-vindo.
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Eu estava tremendo, suando no meu vestido.
Velhas inseguranças nadavam em meu cérebro.
Eu não era boa o suficiente. Eu ia estragar tudo. Eu...
Eu pisoteava esses pensamentos. Mas eles continuavam se infiltrando, indesejados.
Então, uma mão pequena deslizou na minha.
Olhei para baixo para ver minha irmã sorrindo para mim.
"Acho que você está linda."
Meu coração derreteu.
"Obrigada, Emily." Eu sorri, meus nervos um pouco mais calmos.
"Acho que você está linda também." Eu apertei sua mão, tão feliz por tê-la aqui comigo.
"Você está com as alianças?"
Ela revirou os olhos exasperada como só uma irmã de 10 anos poderia.
"Você já perguntou tipo dez vezes! Não tenho cinco anos, sabia!?"
"OK, ok..." eu recuei em rendição fingida.
Então a música começou.
Nós duas nos aprumamos. Respirei fundo. Emily apertou minha mão, e trocamos últimos sorrisos nervosos antes que as portas se abrissem. Bem, o meu estava nervoso, o dela apenas parecia feliz.
Enquanto a voz de Etta James entoava as primeiras palavras, eu me engasguei. Isso estava realmente acontecendo.
At last, my love has come along...As portas se abriram e do outro lado do salão eu pude ver as outras portas se abrindo ao mesmo tempo.
My lonely days are over, and life is like a song...Ela estava lá em pé na porta aberta, no braço do pai, em um vestido branco deslumbrante, com um xale de seda branca drapeado sobre os ombros. Uma visão de beleza. Meu anjo.
Eu assisti hipnotizada, enquanto ela dava os primeiros passos para dentro do salão, até que Emily puxou minha mão e sussurrou entre os dentes.
"Vamos!"
Eu dei os primeiros passos em direção ao meu amor, com minha irmã ao meu lado. Isso não poderia ser mais perfeito.
At last, the skies above are blue...Uma única rosa lavanda decorava seu cabelo trançado, seu buquê de casamento um arranjo simples de rosas lavanda e brancas.
My heart was wrapped up in clover, the night I looked at you...O salão não estava cheio de gente. Não era nem um salão grande. A família da Ava compunha a maioria dos convidados. Seus pais, seu irmão, sua esposa e seus filhos, sua avó, tios e tias.
Do meu lado, minha mãe e Liz estavam na primeira fila, e eu encontrei seus olhos brevemente enquanto passava. Eu pude ver o orgulho brilhando nos olhos de Liz, e minha mãe estava sorrindo para mim com lágrimas nos olhos. Eu sorri para elas, grata por ter as duas aqui comigo.
O resto eram amigos e colegas de trabalho, uma pequena reunião das pessoas que queríamos que estivessem lá no dia mais importante de nossas vidas.
I found a dream, that I could speak to, a dream that I can call my own I found a thrill to rest my cheek to, a thrill that I have never known...E então eu estava de pé na frente do amor da minha vida. Emily soltou minha mão, e o pai de Ava colocou a mão dela na minha com uma piscadela e se sentou na primeira fila.
You smile, you smile Oh and then the spell was cast And here we are in heaven For you are mine At lastTudo, exceto o sorriso mais lindo do mundo e seus olhos azuis e castanhos, desapareceu do mundo. Eu estava a sós com meu amor na frente de uma sala cheia de pessoas.
Enquanto a música se dissipava, ela sussurrou.
"Você usou um vestido para mim."
Sua voz estava cheia de amor e um pouco de provocação. O vestido simples, branco e reto era o único que eu tivera em anos.
"Só para você."
"Você está linda. Eu te amo."
"Eu também te amo."
A celebrante começou a cerimônia, e nós passamos pelos primeiros passos. E então chegou a hora. Meus votos. Respirei fundo e tentei lembrar o que eu queria dizer. Como você coloca seu mundo inteiro em algumas linhas?
O salão estava em silêncio, esperando por mim.
"Ava... da primeira vez que você me beijou, você abriu uma porta no meu coração... que eu pensava estar trancada para sempre. Você é minha âncora, minha linha de vida, você é meu mundo. Seu sorriso lindo é minha luz, e seu coração firme é meu guia. Você trouxe..."
Eu me engasguei, as primeiras lágrimas rolando pelo meu rosto.
"... você trouxe... esperança... e amor... de volta para minha vida. Você curou minhas cicatrizes..."
Ela estava chorando comigo agora.
"Por anos, eu... eu sonhei... com amor, sonhei que talvez... algum dia, eu encontraria alguém que pudesse me amar... que me abraçaria, e me faria sentir o que é o amor verdadeiro..."
Não havia palavras que pudessem dizer a ela como eu realmente me sentia, a profundidade dos meus sentimentos por ela. Nenhuma palavra era boa o suficiente.
"Ava... meu anjo... você tornou meus sonhos realidade. Você me mostrou que o amor é real. E... que eu sou digna do seu amor..."
Eu só pude sussurrar isso, olhando para o chão. Mas então eu olhei para ela novamente, essa mulher incrível que pacientemente lutou por anos para me fazer acreditar que eu merecia seu amor.
"Eu te amo Ava, eu te amo com todo meu coração, com cada respiro meu, com todo meu ser. E eu vou te amar para sempre."
Ela se inclinou e tocou sua testa na minha. Por um tempo, ficamos apenas ali juntas, até que ela se aprumou e respirou fundo, suas bochechas ainda molhadas de lágrimas.
"Charlotte... meu amor... minha Charlie... Todos os dias eu agradeço às estrelas que me guiaram para dentro do seu pequeno café quatro anos atrás... me guiaram para seus braços. Eu fui comprar uma xícara de café, e encontrei o amor da minha vida."
Ela sorriu através das lágrimas e a covinha mais fofa do mundo piscou para mim.
"Eu te amei desde o primeiro momento em que te vi. Eu te amei desde o nosso primeiro toque, nosso primeiro beijo, e eu vou te amar para sempre... você é a pessoa mais linda que eu já conheci. Você é a alma mais corajosa que eu conheço..."
Ela respirou fundo, tentando firmar sua voz.
"... Você às vezes me diz que é danificada... quebrada... mas você não é... você é perfeita. Minha perfeita e linda Charlie. Você brilha tanto. Você é meu farol brilhante, minha luz guia na vida. E eu estarei sempre ao seu lado, vou rir com você, vou chorar com você, vou lutar com você, o que você precisar, eu estarei lá. Sempre."
Sua mão foi para o xale de seda branca drapeado sobre seus ombros e ela o afastou.
"Eu te amo... e você estará sempre em meu coração, meu amor, minha linda Charlotte."
Meu nome estava escrito em cursiva sobre seu coração, rodeado por delicadas rosas lavanda, a tatuagem fresca agora em exibição em seu lindo vestido decotado.
Eu não conseguia respirar. Para todos os outros, era talvez uma coisa peculiar e romântica de se fazer, fazer uma tatuagem com o nome do seu amor no dia do seu casamento.
Mas eu entendi. Ava sabia o que exatamente esse tipo de tatuagem, naquele lugar, significava para mim. Ela sabia quando e por que eu tinha feito a minha, e o quão profundamente eu sentia por ela. E ela tinha pegado todo aquele significado e todo o seu amor e colocado em sua própria tatuagem, do meu nome sobre seu coração, rodeado de flores que significavam amor à primeira vista; para me mostrar o quanto ela me amava, o quão profundos seus sentimentos por mim realmente eram.
Eu segurei sua mão e chorei, eu apenas chorei.
Eu chorei quando ela colocou a aliança no meu dedo, e eu no dela, Emily sorrindo de orelha a orelha enquanto as entregava para nós. Eu chorei quando fomos declaradas esposa e esposa, e quando finalmente recebi a palavra para beijar minha linda noiva, eu nunca quis soltar.
Seus lábios estavam salgados, e suas bochechas molhadas de felicidade, e seu beijo prometia um futuro cheio de amor.
Quando finalmente voltamos à superfície para respirar, em meio a aplausos altos e assobios, e encaramos nossa pequena multidão de entes queridos, de mãos dadas, um pensamento permaneceu em minha mente.
Eu estava segura. Eu sempre seria amada. Eu sempre seria dela, e ela sempre seria minha.
E eu nunca estaria sozinha, nunca mais.
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O quarto estava silencioso, exceto pelo zumbido suave das máquinas e o ritmo constante da respiração de Ava. Ela estava dormindo, sua cabeça inclinada para o lado, seu cabelo bagunçado caindo solto sobre seu ombro. Aninhado com segurança em seus braços, envolto em um cobertor rosa pálido, estava um pequeno embrulho.
Nossa filha.
Eu sentei na cadeira perto da janela, observando-as. Minhas mãos descansavam em meus joelhos, paradas e calmas, mas meu peito parecia que ia explodir. Ela era tão pequena, tão perfeita. Seu pequeno rosto se franziu por um momento antes de relaxar novamente, seus lábios se entreabrindo em um suspiro suave.
Minha filha.
As palavras ecoavam na minha cabeça, repetidas vezes. Eu as tinha dito para mim mesma uma dúzia de vezes já, e ainda não conseguia acreditar que eram reais. Ela estava aqui. Ela era minha.
Eu me inclinei para frente, meus cotovelos apoiados em minhas coxas, e me permiti olhar para ela. Olhar de verdade. Seus dedinhos estavam enrolados em um punho, sua pele macia e rosada. Ela tinha o nariz de Ava, as bochechas de Ava. Eu esperava que ela tivesse a covinha de Ava e seu sorriso lindo.
Mas havia algo mais também. Algo que eu não conseguia identificar. Algo que parecia comigo.
Pensei na garota que eu costumava ser. As cicatrizes. Os erros. A escuridão. As noites que pensei que não sobreviveria. A noite em que decidi que não queria.
Pensei em todas as vezes que disse a mim mesma que não era suficiente. Que não era digna de amor ou felicidade.
Olhei para Ava, seus lábios levemente entreabertos enquanto ela sonhava.
Ela tinha me dado tudo: esperança, um lar, um futuro.
Uma família.
Ela tinha me mostrado que os pedaços que eu pensava estarem quebrados sem conserto podiam ser remendados em algo belo.
E agora ela estava aqui. Esta pequena, frágil vida, parecendo tão pacífica nos braços de sua linda mãe.
A partir do momento em que a vi, ouvi seu primeiro choro, senti algo se agitar profundamente em mim. Algo feroz.
Eu não ia deixá-la sentir as coisas que eu tinha sentido. Nunca.
Eu não ia deixá-la duvidar de si mesma, nem por um segundo. Eu seria a mãe que ela merecia. Aquela que nunca pensei que pudesse ser.
Eu estaria lá por ela. A apoiaria. A amaria. Sempre.
Ava se mexeu levemente, a mão ajeitando o cobertor sobre o bebê. Fiquei de pé e me aproximei, tomando cuidado para não fazer nenhum som. Minha mão pairou sobre nossa bebê por um momento antes de me permitir tocá-la, meus dedos roçando sua bochecha macia. Ela não acordou, apenas suspirou e se agitou um pouco antes de se aquietar novamente.
Engoli com dificuldade, o peito apertado. Eu a amava tanto que doía. Meu peito doía de um jeito que parecia pesado e leve ao mesmo tempo, como se esse amor fosse grande demais para meu coração conter.
Minha filha. Nossa filha.
Nunca pensei que mereceria algo assim.
Os olhos de Ava se abriram lentamente. Ela sorriu, sonolenta, a voz suave. "Ei."
"Ei," sussurrei de volta, o olhar ainda em nossa filha.
"Ela é linda, não é?" Ava disse, a voz cheia de uma admiração tranquila.
"Ela é perfeita," eu disse, a voz se partindo um pouco. "Eu vou cuidar dela, Ava. Juro que vou."
A mão de Ava se estendeu, pousando sobre a minha. "Eu sei que você vai," ela disse. "Você vai ser uma mãe incrível."
Fiquei ali por um longo tempo, observando-as, minha família.
Meu coração estava cheio e calmo.
Pela primeira vez, eu não tinha medo de nada.
Estava pronta.
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Obrigada por dedicar um tempo para percorrer esta história. Espero que ela tenha lembrado a você que, mesmo nos momentos mais sombrios, a cura e o amor são sempre possíveis. Se você gostou da história, por favor, considere dar uma nota em estrelas e publique um comentário com suas ideias. Amo seu feedback, e ele me inspira a tentar escrever histórias melhores.