Contos eróticos para ler inteiros.

Lésbicas

Um Sonho Que Posso Chamar de Meu

Caca02121 min

Esta é uma história sobre amor, trauma e cura. ATENÇÃO: Há conversas sobre rejeição, uso de drogas, abuso e automutilação nesta história. Se você acha que esses temas podem te afetar, por favor, leia algumas das minhas outras histórias. Se você enfrenta problemas de saúde mental ou tem pensamentos de automutilação, lembre-se de que você nunca está sozinho e que a ajuda está a apenas um telefonema de distância na sua linha de apoio local. Cuide-se e procure ajuda. Se você gostar da história, considere dar uma avaliação com estrelas no final e, por favor, poste um comentário com suas impressões. Adoro seu feedback, e ele me inspira a tentar escrever histórias melhores.

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Não foram as discussões ou os gritos. Não foram as palavras raivosas ou as declarações rancorosas. Não foram os apelos e o choro, as súplicas.

Foi o som da porta batendo na minha cara. Aquele som explosivo de uma finalidade absoluta. O som de dois meses de uma cacofonia constante de todas aquelas outras coisas terminando abruptamente.

Um estrondo ensurdecedor, que carregava consigo a realização cortante de que a porta da frente da casa da minha infância havia se tornado um muro intransponível de ódio.

Aquele som me atingiu com uma força que eu nunca, jamais vou esquecer. Uma dor mais profunda do que qualquer coisa que eu achava possível.

Um som não deveria ser capaz de deixar uma cicatriz.

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Eu amava os parques durante o dia.

Observar os esquilos no Union Square Park, correr no Hudson River Park. Ler um livro no Bryant Park. Passar um dia ensolarado em um cobertor com um piquenique no Central Park.

Os espaços abertos. Todo aquele verde. Me fazia sentir livre. Me fazia esquecer... outras coisas.

Eu ainda via a escuridão da cidade em todos eles. Os traficantes, os sem-teto, as prostitutas, os garotos de rua.

Eram fáceis de identificar quando você conhecia os sinais. Quando você já havia sido um deles.

Algumas coisas nunca te abandonam.

Desci do metrô na Rua 50, depois de assistir aos trapaceiros do xadrez na Washington Square, e caminhei o resto do caminho para casa. Tranquei a porta atrás de mim e joguei minhas roupas na cadeira no apartamento vazio.

Enquanto escovava os dentes, meus olhos percorriam as cicatrizes nos meus braços e coxas no espelho, lembranças silenciosas de uma época em que ter a porta de um apartamento para trancar e minha própria cama segura para dormir era um sonho distante. Quando um corte de lâmina de barbear parecia a única maneira de sentir. Algo. Qualquer coisa.

Rastejando para debaixo das cobertas, coloquei o alarme do celular para as 8 da manhã. Meu turno começava às 9, mas o pequeno café ficava a uma curta caminhada de distância, então eu teria tempo para um banho rápido e café da manhã com a Liz.

Eu estava aquecida. A porta estava trancada. Eu estava segura.

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Meus olhos encontraram os dela assim que ela entrou pela porta. Ela estava muito longe para eu poder vê-los, mas eu sabia exatamente como eles eram azuis, como os anéis castanhos claros no interior circulavam suas íris. Rapidamente desviei o olhar e voltei minha atenção para o casal na minha frente.

"É só isso então? Obrigada, tenham um bom dia."

Ela era a próxima na fila. Bem, ela era a fila, na verdade, o movimento do almoço estava acabando.

"Oi."

O sorriso dela era meio torto e tão fofo como sempre. Ela tinha uma covinha profunda na bochecha esquerda, mas nenhuma na direita. Sorri de volta, nervosa.

"Oi, o de sempre?"

"Sim, por favor." Ela deu uma risadinha.

"É bom ou ruim que eu venha aqui tantas vezes que você sempre se lembra do meu pedido?"

Senti meu rosto corar.

"Gosto da frequência com que você vem aqui." Me arrependi instantaneamente, sem saber por quê, me afundando no preparo do latte duplo com três bombas extras de caramelo que ela sempre pedia.

A cada dois dias, no final do horário de almoço. Só o café, às vezes um muffin de mirtilo.

Quando levantei os olhos, ela estava me olhando com curiosidade.

"Estou com sorte hoje, sem fila grande."

"Sim, geralmente fica um pouco mais calmo no final do mês." Murmurei.

"É, faz sentido."

Terminei o pedido dela e o entreguei.

"Sem muffin hoje?"

Ela sorriu.

"Não, hoje não. Geralmente almoço com uns amigos às quartas-feiras, não sobra espaço."

"Ah, ok."

Houve um pequeno silêncio constrangedor.

"Bem, ok, obrigada então, te vejo sexta." Ela sorriu e saiu.

Não consegui evitar dar uma espiada nas pernas bronzeadas e sexy dela enquanto ela ia embora.

Eram pernas muito bonitas.

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Às vezes, quando acordava sozinha, a primeira coisa que invadia minha mente era a mala. No chão, jogada para fora com raiva, contendo uma coleção desordenada das minhas roupas e alguns outros pertences.

Arrumada pela minha mãe, jogada para fora pelo meu pai.

Nunca soube qual deles bateu a porta.

Por muito tempo, torci para que tivesse sido ele. Assim, talvez houvesse uma pequena chance de que minha mãe não tivesse realmente falado sério. Que fosse algum tipo de teste. Um ato desesperado para me forçar a negar meus sentimentos. Para voltar a ser a filha deles, não... isso.

Uma pequena chance de que ela ainda me amasse.

Ainda tenho a mala.

Mas perdi a esperança muito tempo atrás.

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Afundei a cabeça nas mãos, gemendo alto em derrota.

Eu não sabia o que diabos estava fazendo.

Nunca conseguiria terminar isso.

Tinha sido uma ideia estúpida, e eu era estúpida demais para fazer isso.

O livro estava no canto onde eu o havia jogado. Papéis com meu dever de cálculo espalhados pelo chão. Olhei de soslaio por entre os dedos.

Suspirei.

Peguei os papéis, fiz a curta caminhada da vergonha para pegar o livro e o coloquei de volta na mesa, aberto na página certa.

"Você consegue!" A voz de Liz veio da cozinha.

"Cala a boca!" Retruquei. Me arrependeria depois. Sempre me arrependia.

Ela sempre perdoava meus acessos de raiva.

Não tinha ideia do porquê. Eu já teria me expulsado meses atrás.

Suspirei novamente, mais alto, e me enterrei em um mundo de sofrimento com cálculo.

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Eu me mantinha firme na maioria dos dias. Controlava meu temperamento. Continuava indo trabalhar. Continuava indo às reuniões. Me mantinha limpa.

Dois anos de um dia de cada vez.

Tentava não complicar minha vida. O simples era mais fácil.

Eu não namorava. Evitava bares e baladas, e não gostava da ideia de conhecer um estranho por aplicativo. Já tinha tido sexo com estranhos o suficiente para uma vida inteira.

Me limitar ao amor-próprio tranquilo no meu quarto era minha escolha.

Eu precisava aprender a me amar novamente, de qualquer forma. Era um processo lento, mas aprender a confiar no meu corpo novamente, a não sentir vergonha do meu próprio prazer, parecia um bom começo.

E parecia suficiente, por um tempo.

Até o dia em que Ava entrou no meu café.

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Seu vestido de verão azul claro abraçava sua figura ao passar pela porta, o tecido balançando a cada passo. A cor era suave, delicada, como se tivesse sido escolhida para combinar com o tom dos seus olhos.

Ela parou logo na entrada, colocando uma mecha solta de cabelo atrás da orelha, a outra mão segurando uma bolsa de couro pendurada no ombro. A luz do sol capturou seus cabelos incrivelmente loiros, fazendo-os brilhar.

Corei imediatamente, atrapalhando-me com a pilha de recibos no balcão como se tivesse algo importante para fazer. Tentando não ficar olhando fixamente.

Ela olhou ao redor do café e deu um pequeno aceno quando seus olhos pousaram em mim. Meu coração tropeçou no peito. Acenei de volta, tentando não parecer tão desajeitada quanto me sentia.

"Oi", ela disse, sua voz calorosa e familiar, embora fôssemos praticamente estranhas. Ela se aproximou do balcão, seu sorriso aumentando enquanto se inclinava um pouco. "Como está seu dia?"

"Uh, bom", consegui dizer, as palavras presas na garganta. "E o seu?"

"Muito bom. É sexta, né? O fim de semana está quase aí."

A voz dela tinha um toque alegre, como se ela carregasse sua própria felicidade consigo, e era impossível não sentir isso.

"Hm... você tem planos?"

"Na verdade, não", eu disse, encolhendo os ombros. "Só trabalho e, sabe... coisas."

"Coisas", ela repetiu, rindo levemente. "Parece misterioso."

Sorri, minhas bochechas queimando.

"Na verdade, não. Só chato."

"Não acredito em você. Você não parece uma pessoa chata."

Corei ainda mais, se é que isso era possível.

"Então, o que você tem planejado que não está me contando?" Ela sorriu e sua covinha piscou para mim.

"Não... eu só... tenho que estudar um pouco."

Assim que as palavras escaparam da minha boca, amaldiçoei internamente. Não sabia por que contei a ela. Eu não a conhecia. Eu não contava coisas às pessoas. E certamente não isso.

O sorriso dela desapareceu, dando lugar a uma expressão de interesse genuíno.

"Ah, o que você está estudando?"

A pergunta inevitável. Desviei o olhar.

"Só..." Suspirei, "Estou... tentando terminar o ensino médio... acho. Tipo, online."

"Oh." Ela pareceu surpresa. Seu rosto se abriu tão lindamente com as sobrancelhas levantadas daquele jeito.

"É." Me virei, me amaldiçoando. Ela provavelmente pensava que eu era uma fracassada agora. Uma garçonete de cafeteria de 23 anos lutando para terminar o ensino médio. Perdedora.

"Bem... isso é ótimo!"

Agora era a minha vez de parecer surpresa. Aquilo não soou como um elogio por pena. O sorriso dela parecia genuinamente feliz.

"Erm... hã... é...?" Ah, inferno, eu nunca sabia como falar com as pessoas.

"Sim, sério." Ela me deu um sorriso genuíno e então olhou para o quadro do menu, embora nunca pedisse nada novo. "Posso pedir o de sempre?"

"Sim, claro", eu disse, já pegando a calda de caramelo.

Enquanto preparava a bebida dela, não conseguia parar de dar olhadelas furtivas. O jeito que ela mudava o peso de um pé para o outro, as sandálias aparecendo por baixo da bainha do vestido. O jeito que os dedos dela tamborilavam levemente no balcão, um ritmo que só ela parecia ouvir.

"Então..." Arrisquei, "Você... está ansiosa pelo fim de semana?"

"Ah, sim. Alguns amigos estão planejando um dia no parque amanhã. Sabe, um piquenique."

Ela fez uma pausa, inclinando a cabeça como se fosse dizer algo mais, mas achou melhor não. Então balançou a cabeça levemente.

"Você deveria tentar algum dia. É bom relaxar lá fora."

"Sim, talvez", murmurei, terminando o latte dela e entregando-o.

Tinha que admitir, por pior que eu fosse falando com as pessoas em geral, eu era muito pior falando com garotas bonitas.

E ela era simplesmente a mais bonita.

Os dedos dela roçaram nos meus quando ela pegou o copo, só por um segundo, mas isso enviou um choque através de mim. Ela não pareceu notar, seu sorriso tão fácil como sempre.

"Obrigada."

Eu não sabia o que era nela. Ela simplesmente tinha esse jeito, como um raio de sol depois da tempestade. Diferente, mas no melhor dos sentidos. Como se carregasse seu próprio pedacinho do céu consigo, e o mundo fosse um pouco mais brilhante onde quer que ela fosse.

Um anjo.

Fiquei ali por um momento, ainda segurando a calda de caramelo, olhando para a porta muito depois de ela se fechar atrás dela.

Ela estava fora do meu alcance. Muito fora. Mas isso não me impedia de pensar nela. Não impedia o pequeno frio na barriga que eu sentia quando pensava nela voltando na segunda-feira.

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Eu me sentei no canto, tentando desaparecer. Minhas mangas escondiam minhas cicatrizes. Minhas mãos tremiam.

A sala cheirava a café velho. Cadeiras raspavam no chão enquanto as pessoas se arrastavam para entrar.

Liz sentou-se ao meu lado, quieta, mas firme. Sua presença me impedia de sair correndo dali.

Um homem falou primeiro. Sua voz falhou enquanto falava sobre perder tudo. Sobre encontrar esperança.

Eu não acreditava que encontraria.

Fiquei olhando para o chão, o peito apertado.

Então foi a minha vez. Meu coração batia forte; minha boca estava seca.

Liz tocou minha mão. "Está tudo bem", ela sussurrou.

Engoli seco. Levantei e olhei para o chão.

"Oi. Meu nome é Charlie", eu disse, minha voz quase inaudível.

As palavras eram pesadas.

"Eu sou... uma viciada."

Mas a sala não julgou.

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Acordei tarde no sábado, aproveitando o fato de que Liz trabalhava a cada dois fins de semana, então eu tinha nosso pequeno apartamento só para mim. Era calmante.

Vesti minhas calças de moletom confortáveis e uma camiseta larga e desbotada do 23 e fiz meu café da manhã. Depois de lutar com cálculo por um tempo, murmurando maldições baixinho, trabalhei um pouco na minha redação de inglês sobre O Grande Gatsby, e então decidi que o resto poderia ficar para amanhã.

Troquei para minha roupa de corrida e saí para fazer minhas 6 milhas de fim de semana no calor do verão. Com Luke Combs e Tracy Chapman nos meus ouvidos e meu cabelo escuro curto escondido por um boné dos Yankees, fiz meu caminho habitual até o Hudson River Park.

Quando voltei, aproveitei ao máximo a chance de um banho demorado e um tempo a sós. Meu corpo ensaboado recebeu uma atenção bem merecida. Imagens do sorriso com covinha e das pernas bronzeadas de Ava flutuavam na minha cabeça enquanto eu deitava de barriga para baixo na cama depois, nua, com a bunda para o ar, e lentamente me excitava à beira do orgasmo com meus brinquedos.

Eu era fissurada em pernas, sempre fui. Gostava de peitos e bundas, ok, mas pernas bonitas faziam meu coração palpitar e minha boceta molhar. A ideia de passar meus dedos sobre elas, subindo por joelhos e coxas, sob saias e shorts, observando os músculos tonificados das panturrilhas se moverem, a forma de suas lindas pernas em meias-calças e saltos altos, seus tornozelos nus desaparecendo em tênis fofos, prometendo pés bonitos e unhas pintadas.

Meu sugador de clitóris me levou a um orgasmo alto e trêmulo.

Fiquei deitada quieta por um tempo depois, apenas me tocando distraidamente, pensando nela.

Era uma fantasia agradável.

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Era uma quarta-feira; o movimento do almoço tinha acabado e apenas algumas pessoas estavam sentadas nas mesinhas perto da janela.

O café estava tranquilo, o leve murmúrio da conversa se misturando com o som da máquina de espresso. Inclinei-me contra o balcão, fingindo me concentrar em limpar uma mancha que não estava realmente lá.

Eu tinha terminado de fazer o café dela, lançando olhares furtivos para ela, admirando como seu rosto estava ainda mais bonito com o cabelo preso. Seus fios loiros platinados estavam presos frouxamente, algumas mechas escapando para emoldurar seu rosto. A luz suave entrando pela janela refletia em sua pele, fazendo-a parecer quase etérea. Como se ela não fosse inteiramente deste mundo.

Engoli seco, tentando manter a compostura. Ela nem percebia o jeito que brilhava. Isso fazia parte. Ela não era apenas bonita, ela era... real. E impossível de desviar o olhar.

Ela se aproximou do balcão, pegando seu café, e olhou em direção à janela. Por um momento, achei que ela fosse embora, como todas as outras vezes, me dando aquele sorriso perfeito e saindo pela porta. Mas então ela hesitou, virando-se de volta para mim, algo incerto cintilando em seus olhos.

"Hm, posso te perguntar uma coisa?" Ela parecia insegura.

"Claro", eu disse. Não havia ninguém esperando na fila, então eu podia conversar. E estava curiosa.

"Você... hm... não quero parecer estranha nem nada, mas eu tenho esse projeto em que estou trabalhando, sabe, tipo, um projeto de fotografia...?"

Ela me olhou um pouco nervosa. Ela estava adorável.

"Sim?" Eu estava imaginando aonde isso ia chegar.

"...Ok, então, é... você, tipo, quero dizer, eu poderia tirar algumas fotos suas?"

Minha guarda subiu.

"Erm..."

Ela percebeu minha apreensão.

"Olha, me desculpe, é que você tem essa energia que seria ótima para o meu projeto."

Eu não disse nada.

"Fotografia sempre foi minha maneira de ver as pessoas", ela acrescentou, sua voz suave.

"Tipo, hm... realmente vê-las, sabe?"

Ela parecia tão adorável quando inquieta com a bolsa daquele jeito.

"...e... mas... se você não está interessada, então, quero dizer..."

Ela estava falando com os sapatos agora. Eu não estava totalmente convencida de que isso era uma boa ideia para mim, mas ela parecia tão linda, e era uma chance de talvez conhecê-la um pouco além de fazer seu café.

"Bem... tudo bem, acho."

"Sim?" Ela levantou os olhos para mim, aquela covinha fofa enfeitando sua bochecha.

"Sim. Embora, quero dizer, não é tipo... para pornô nem nada, certo?"

Ela pareceu horrorizada antes de perceber meu leve sorriso de canto.

"Ah, merda, não, nada disso." Ela riu. "Só um retrato."

"Heh, só verificando." Sorri, aquecida pela risada dela com minha piada idiota.

"Mas, tipo, agora ou...?" Eu nunca a tinha visto carregando uma câmera.

"Não, tipo, talvez... sei lá. Próximo fim de semana?" Ela pareceu um tanto desconfortável novamente.

"Claro." Eu disse, sem ter certeza do que estava fazendo, mas também não era como se eu tivesse algo para fazer de qualquer forma. Meus fins de semana não estavam cheios de atividades fascinantes para escolher.

"Ok, legal!" Seu sorriso voltou com força.

Ela pegou seu café com a mão esquerda e estendeu a direita.

"Sou a Ava", ela riu. "É estranho, sinto que te conheço de te ver tantas vezes, mas nem sei seu nome."

Corei e peguei a mão dela.

"Charlie."

Ela segurou minha mão.

"Prazer em te conhecer, Charlie."

"Prazer em te conhecer também, Ava."

Seus dedos quentes e macios roçaram minha palma quando ela soltou.

"Então... o que é bom para você?"

"O quê?"

"Próximo fim de semana?"

"Ah, erm, domingo provavelmente? Onde você quer se encontrar?"

"Talvez no Highline? Você mora por aqui em algum lugar?"

"É, funciona pra mim, eu tô a umas quatro quadras, na 47."

"Ah, que legal, eu tô lá no Village." Ela sorriu radiante.

Uma garota do Village fazendo projetos de arte. É, ela tava muito, muito acima do meu nível.

Trocamos números e marcamos de nos encontrar.

Quando ela foi embora, não consegui tirar o sorriso do rosto o resto do dia. E eu tinha certeza de que as batidas do meu coração estavam abafando a música no cafézinho.

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Um olhar não deveria doer.

Mas cada olhar que me deram trespassou minha alma.

Pior que todas as palavras.

Depois, com a porta, só ficou o silêncio.

Aqueles primeiros meses sozinha, eu teria dado qualquer coisa só pra ser notada de algum jeito.

Mesmo que fosse com um olhar.

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"Você tem um rosto tão sério," ela disse, quando finalmente perguntei por que ela queria me fotografar.

Ai. Ela viu minha careta.

"Ah, não, desculpa, eu não quis dizer de um jeito ruim, Charlie, é só que você tem um visual interessante. Você é tão reservada e séria o tempo todo, mas aí, tipo, seu rosto inteiro se ilumina quando você sorri. É uma transformação incrível."

Eu não sabia o que dizer. Senti o sangue subir para as bochechas.

"Hã... obrigada... é muito gentil da sua parte dizer isso."

"Bem... é verdade." Ela parecia meio sem graça.

Ela pegou uma mecha rebelde de cabelo e a prendeu atrás da orelha. As sobrancelhas eram da mesma cor. Mal dava pra ver.

Andamos e conversamos, bom, ela falou a maior parte do tempo, e me fez posar em alguns lugares ao longo do Highline. Num corrimão, com ar melancólico, no meio do caminho com aquele hotel Standard feioso ao fundo. Eu só rezava pra não ter ninguém transando nas janelas naquele momento. Olhando pro rio. Sempre séria. Ela parecia querer capturar principalmente minha cara de poucos amigos.

O projeto dela eram fotos artísticas de pessoas da cidade, todo tipo de desconhecidos. Ela disse que um dia queria fazer uma exposição, mas por enquanto postava as fotos no Instagram pra ter visibilidade, tentar ganhar seguidores, construir um perfil.

Isso era pra uma série que ela tava fazendo lá. Não era exatamente fotografia de rua, mas retratos de pessoas que ela encontrava aqui e ali.

Eu achava legal ter coragem de pedir pra um estranho fazer algo tão íntimo.

Pelo menos eu achava extremamente íntimo, ficar ali parada enquanto ela me olhava pela lente. Me senti escrutinada, como se a câmera estivesse captando todas as minhas dúvidas e inseguranças e as gravando permanentemente numa foto. Tipo, ela talvez não tivesse notado ainda, mas a câmera tava olhando direto pra bagunça dentro de mim.

"Ok, sendo sincera," Ava disse, apertando os olhos pra câmera.

"Derrubei essa coisa semana passada, e agora às vezes ela desfoca sem motivo. Então, se seu rosto sair esquisito, a culpa é totalmente minha e não sua."

Ela sorriu, torcendo o nariz fofo.

"Mas ei, se ficar muito ruim, a gente pode chamar de 'arte'."

Ela sorriu.

Ela tava tentando me fazer sorrir. Eu sorri, mas minha ansiedade tava aparecendo. A câmera de algum jeito realçava minha timidez.

Ela fazia design gráfico e um pouco de fotografia na agência e tinha diplomas nas duas áreas.

É, muito acima do meu nível.

Era uma delícia ouvir a voz dela no sol, cercada de turistas.

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