Sobre a Simplicidade das Palavras
— Vamos, Rose. Sua professora está esperando.
Baixei a cabeça, agarrada à mão dela.
— Rose — suspirou mamãe com exasperação. Ela se ajoelhou nos tijolos sujos e se inclinou para olhar nos meus olhos. — Já conversamos sobre isso, Rose. Sei que sente falta da sua antiga escola, mas esta é uma escola nova e legal, está bem? Veja todas as crianças felizes. Vamos, meu amor, vai ser ótimo.
Enterrei o rosto no corpo dela, balançando a cabeça.
— Primeiro dia? — ouvi outra mulher perguntar para mamãe.
— Primeiro dia aqui, sim — respondeu mamãe com um suspiro.
— Em qual turma ela está?
— Primeiro ano, com... a Sra. Jackson?
— Ah, minha Lea também está com ela. Lea? Você pode levar...
— Rose — disse mamãe.
— Lea, você leva Rose com você para a sala? É o primeiro dia dela e ela está um pouco tímida.
— Sim, mamãe — disse uma vozinha adorável.
Arrisquei um olhar tímido e incerto para a menina magra e loira que pegou minha mão. Ela sorriu para mim, mostrando os dentes. — Vem comigo, Rosie — anunciou. — Sou Lea. Vou te mostrar onde fica o livro de desenho de pôneis!
Lágrimas e timidez esquecidas, segui-a, sem nem me despedir da minha mãe.
E foi assim que conheci Lea.
O tempo...
... passou.
A mãe da Lea brincava que era melhor arrumar um quarto para mim na casa delas. Minha mãe ria e dizia que era melhor fazer o mesmo. Nossas mães se tornaram próximas como irmãs. A mãe da Lea, ou Mamãe Sarah como eu a chamava, apresentou minha mãe (ou Mamãe Jane como Lea a chamava) ao tênis e às trilhas, enquanto minha mãe apresentou Mamãe Sarah ao seu clube do livro e aos detalhes do Pimm's e da horticultura. Nossos pais entraram no mesmo clube de críquete, depois no mesmo clube de hóquei, e logo já estavam viajando nos fins de semana dos meninos para assistir futebol com os amigos.
E assim começaram os maravilhosos anos dourados da minha infância.
A vida era idílica. A escola era, mesmo nos piores momentos, completamente maravilhosa, e eu naveguei pelo exame eleven plus com minha cara-metade ao meu lado.
Nunca houve qualquer dúvida de que não iríamos para a mesma escola secundária. Acho que isso nem passou pela cabeça dos nossos pais.
Certamente nunca entrou em nossos pensamentos.
O tempo...
... passou.
O pai da Lea foi promovido; eles se mudaram para outra parte da cidade. A viagem para vê-la agora precisava ser planejada com antecedência e coordenada com a possibilidade de mamãe ir me buscar ou de Mamãe Sarah me deixar em casa depois. Já não podia ser toda noite, mas pelo menos três vezes por semana uma de nós estava com a segunda família e dormia lá.
Meus pais amavam Lea. E eu adorava o chão que os pais dela pisavam.
Brincávamos que éramos as garotas mais sortudas do mundo, por ter não uma, mas duas famílias tão dedicadas a nós.
Aos quatorze anos, eu conseguia acertar uma bola de hóquei no canto do gol a quinze metros de distância e havia desenvolvido uma aptidão atlética natural que herdei do pai da minha mãe. Eu conseguia continuar muito além do ponto em que muitas outras cairiam. Quando jogava partidas, sempre ouvia seus gritinhos e guinchos estridentes quando eu corria para o gol, seu êxtase sem filtro quando eu marcava.
Lea tocava clarinete como se tivesse nascido para aquilo e corria cross-country bem o suficiente para ficar regularmente entre as três primeiras na escola. Quando eu conseguia mendigar, pegar emprestado ou roubar uma carona, estava lá nos eventos dela, na lateral, gritando por ela. Ela sempre tinha um sorriso para mim, não importava o quão brutal fosse o percurso ou o quanto precisasse se esforçar para terminá-lo.
E eu esperava por ela na linha de chegada; era eu quem carregava seu corta-vento, quem passava o braço ao redor dela para apoiá-la quando seu corpo desabava pelo esforço que havia feito.
E fui eu quem a segurou naquela tarde odiosa de outono, quando seus olhos reviraram e ela teve sua primeira convulsão.
O tempo...
... passou.
Eu tinha quinze anos. Estava muito mais magra agora; um pequeno resto quebrado de garota, assistindo enquanto a lenta tortura da terapia com radioisótopos devorava a outra metade de nós.
Rasparam seu lindo cabelo para poupá-la de parte do horror; o tratamento também lhe tirara as sobrancelhas. Ela estava esquelética, exausta, quieta como um túmulo. Eu me sentava, segurando sua mão definhada, negligenciando o trabalho escolar, hora após hora, dia após dia. O que ela precisasse, eu trazia. O que ela quisesse, eu fazia. Passava horas lendo para ela e, quando ela estava no fundo do poço, eu rastejava para a cama ao lado dela e a abraçava, minhas bochechas molhadas com nossas lágrimas amargas.
Eu a amava; amava-a com cada átomo patético do meu ser.
E desejava além de todos os desejos que eu pudesse ser a doente para que ela fosse poupada.
Ela nunca se queixou. Ela simplesmente aguentou. Corajosa e indomável como sempre. Mas, afinal, essa era Lea.
Sua craniotomia foi realizada quando a radiação encolheu o tumor, e a cirurgia foi bem-sucedida. Lentamente, ela se recuperou, começou a sorrir novamente, apesar da fraqueza. Mas, apesar da minha determinação obstinada em ajudá-la a se recuperar, ela havia perdido muito do ano letivo para terminá-lo comigo, e os pais dela decidiram que ela precisava de uma mudança de ambiente; um lugar mais tranquilo, onde ela pudesse ter espaço e silêncio para se recuperar.
Uma nova vida, onde seu ano perdido não fosse lembrado toda vez que me visse indo para uma turma diferente da dela.
E onde ela tivesse espaço para se curar da perda de mim.
Lea não se despediu; seus pais não permitiram que eu a visse, com medo da angústia que isso nos causaria. Em vez disso, sua mãe, perturbada e desolada, trouxe para minha mãe uma espécie de carta para mim — uma folha fina e dobrada do papel almaço rosa favorito de Lea, com um de seus bobos pôneis de olhos esbugalhados rabiscado na frente.
Dentro dela, as palavras simples: "Eu nunca vou te esquecer, minha Rosie."
Estava manchada com as lágrimas dela e logo ficou arruinada pelas minhas.
Chorei até perder os sentidos, num desmaio negro — arruinando minha cama com meleca, lágrimas e a bile clara e aquosa do meu estômago vazio e em cãibra. Levei dias até que me obrigassem a comer, e minha mãe nunca mais perdeu a expressão assombrada com que me vigiou dali em diante.
Inútil, na verdade.
Não restava nada em mim que valesse a pena guardar.
O tempo...
... passou.
Pensamentos sobre Lea me acompanhavam onde quer que eu estivesse, e aprendi a guardá-los como velhos amigos. Tornei-me a garota de fala mansa no canto, um fantasma um pouco mais corpóreo. Meus professores aprenderam a me deixar em paz, a não tentar me convencer a participar de atividades 'divertidas'.
Despedacei mais de um deles no potro de tortura da minha indiferença vazia a qualquer suborno ou castigo que tentassem me aplicar. Nada do que pudessem fazer podia se comparar ao que já havia sido feito comigo.
Uma palavra discreta foi trocada com um ou dois dos casos mais persistentes, e depois disso ninguém mais tentou me perturbar. Minhas notas eram boas o suficiente para que eu não representasse risco para a avaliação da escola no Ofsted, mesmo que minha interação com qualquer outra pessoa fosse inexistente.
Então pararam de tentar me consertar.
E eu estava muito bem com isso.
O tempo...
... passou.
Obtive os A Levels necessários para entrar em uma universidade razoável. Estudei discretamente estatística e bioquímica, consegui um 2:1 e saí com um estágio em uma startup de biotecnologia na cidade vizinha.
Depois de poucos meses, eles encerraram meu estágio e me contrataram como funcionária efetiva, principalmente por causa do meu foco quieto e determinado e da total falta de distrações externas.
Voltei ao hóquei para manter a forma, a princípio evitando qualquer competição, mas rapidamente perdi a ferrugem e cheguei ao time principal do clube local. Logo já jogava regularmente pelo condado.
Ganhei reputação de adversária aterrorizante e implacável em campo — já não sentia dor ou cautela reais e simplesmente seguia até o fim da partida, impiedosa como a Morrígan, às vezes com dedos rachados e, uma vez, com duas costelas rachadas. Meu clube me amava e respeitava, mas eu os mantinha a uma distância cordial e cuidadosa.
Delas e deles, lentamente formei um pequeno grupo de amigos mais próximos, tanto homens quanto mulheres, mas nunca nenhum vínculo amoroso. O sexo que eu me permitia era apenas liberação física, e o amor não me interessava.
Não havia mais espaço em meu coração para ninguém.
Gradualmente, passei a perceber que nunca me recuperei de perder Lea. Havia conversas inteiras que eu precisava ter com ela; coisas que eu precisava contar a ela, coisas que eu precisava ouvir dela. Coisas que precisavam ser... resolvidas.
A primeira terapeuta com quem conversei foi inútil.
A segunda tentou, mas falhou.
A terceira, uma mulher jovem com alma antiga — ela me fez falar e então, que Deus a abençoe para sempre por sua maneira gentil, de alguma forma me fez chorar mais uma vez.
Ela disse quatro palavras simples para mim.
— Conte-me sobre Lea.
Quatro palavras simples.
E foram elas que finalmente me derrubaram para que eu pudesse começar a sentir novamente.
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Sentei-me, encarando minha caneca, reunindo coragem para abordar o assunto.
— Mãe, tenho uma pergunta para você — consegui dizer por fim.
Ela ergueu os olhos da massa folhada e afastou o cabelo dos olhos. — O que foi, Rosie?
— Você... você manteve contato com Mamãe Sarah? Depois que eles... foram embora?
Ela me encarou, a massa esquecida. — Ah — exalou. — Ah, esse é um nome que não ouço você dizer há uma eternidade. O que... o que te fez lembrar disso?
— Gemma estava me perguntando sobre Lea.
— Quem é Gemma?
— Ah. É minha... terapeuta.
— Você está vendo... uma terapeuta? Claro. Claro que está. Rosie, você vive nesse mundo fechado de escuridão e sombras e nunca me deixa ver. Uma terapeuta, pelo amor de Deus. Por que não me contou? Meu Deus, sou sua mãe. Você precisa me contar essas coisas, Rose.
— Principalmente porque queria evitar essa reação — falei, suavemente.
Então esperei, paciente como uma rocha, observando-a.
— Eu tentei — disse ela, por fim. — Tentei manter contato. Mas... a situação toda era tão horrível. Lea era como minha própria filha também. As respostas de Sarah sempre pareciam... como se ela estivesse sendo educada. Lendo um roteiro preparado. Senti como se estivesse me intrometendo. Eu... não conseguia continuar tentando. Então... parei.
— Sinto muito. Você perdeu sua amiga também, então — suspirei.
— Sim — sussurrou ela. Fungou. — Ah, essas são lembranças difíceis, Rose.
— Acho... que talvez achei que você simplesmente não quisesse falar sobre elas comigo. Por medo.
— Ah, havia muito medo, Rosie. Mais do que suficiente para durar o resto da minha vida. Mas... aparentemente Lea estava bem. Ela voltou à escola e estava começando a fazer amigos. Eu... não queria te contar porque tinha medo do que isso faria com você. As notas dela estavam melhorando. Ela estava bem. Era o máximo que eu podia esperar por ela. Então... parei de verificar e me concentrei em você.
— Tudo bem. Eu entendo.
Ouvi o sibilo da respiração que ela soltou.
— Morri de medo de te contar isso — sussurrou ela.
— Por que, mamãe?
— Por causa de como vocês duas eram próximas. Vocês duas eram luz e sombra. Ela iluminava as partes escuras de você, e você lhe dava equilíbrio. Pensei... tive medo de que você ficasse furiosa comigo.
— Você estava me protegendo. Nunca poderia guardar rancor disso. Não agora que tenho idade para entender como deve ter sido para você.
Ela lentamente começou a sovar a massa novamente. — Aquela coisa toda foi um longo espetáculo de horror — disse ela entre os socos. — Teve um período de duas semanas em que literalmente não dormi, e seu pai se enrolava num saco de dormir do lado de fora da sua porta caso você tivesse seus pesadelos.
— Para onde eles se mudaram? — perguntei, observando-a.
Ela trabalhou em silêncio por um tempo, dobrando e redobrando, mantendo as mãos ocupadas.
— Bath — disse ela, por fim. — Sarah conseguiu uma vaga lá, e acharam que seria um bom lugar para Lea se recuperar. Acho que Lea foi para a Universidade de Bristol. É para lá que isso está indo, não é? Você quer encontrá-la.
— Sim.
Ela suspirou. — Tem certeza de que isso é sensato? Talvez seja melhor ela não ser lembrada daquela época. Já pensou nisso?
— Tenho que tentar. Ainda a carrego na cabeça. Ela está sempre comigo. É por isso que sou tão...
— Diferente.
— Ia dizer quebrada. Mas... diferente é mais gentil, não é?
Minha mãe emitiu um ruído baixinho e virou as costas para mim.
Levantei e fui até ela, passei os braços ao seu redor e apenas a abracei.
— Não chore, mãe — falei suavemente. — Não é sua culpa.
— Sou sua mãe — sussurrou ela. — Claro que é minha culpa.
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Naquela noite, quando voltei para meu apartamento, abri o laptop e comecei a vasculhar a presença online da Universidade de Bristol, procurando qualquer sinal dela. Ela adorava inglês e era forte em álgebra, e eu esperava encontrar alguma referência a ela relacionada a essas disciplinas.
Mas foi nas páginas de eventos passados do departamento de música onde finalmente encontrei os primeiros vestígios dela. Indícios e menções passageiras sob o nome de solteira da mãe dela, Fergusson. Depois que soube o que procurar, achei grades horárias antigas e então, finalmente, a essência — uma crítica entusiasmada de sua apresentação solo em um recital de música de câmara recente e uma menção de que ela era associada do corpo docente.
Comecei a escavar por ela com uma intensidade alimentada por oito anos de necessidade reprimida.
Uma hora depois, estava sentada, encarando fotos dela. Ela estava mais velha agora, obviamente, e carregava o olhar assombrado de uma sobrevivente por trás daqueles lindos olhos azuis.
Mas ainda era minha Lea, com aqueles longos cachos loiros que caíam em cascata sobre os ombros, com a leve assimetria do nariz que ela sempre odiou e eu sempre amei.
Senti falta dela quase mais do que podia suportar.
Empanturrei-me de sua imagem até as primeiras horas da madrugada.
Quando estava prestes a desligar e dormir, vi uma nova postagem no feed de mídia social dela — alguém perguntara se ela estaria na festa em um pub no sábado à noite seguinte. Mais buscas determinaram que o pub se chamava The Magpie e ficava a um pulo da porta da frente do departamento de música.
Era o empurrão que eu precisava, o chute no traseiro que me colocou em movimento. As chances eram de que, se eu tivesse alguma oportunidade de encontrá-la, seria lá.
E comecei a traçar meus planos. Reservei um quarto no Radisson Blu para o sábado à noite, depois de me certificar de que ficava a uma curta caminhada do pub. Reservei minhas passagens de trem e fiz uma lista detalhada das coisas que precisaria colocar na minha pequena mala de mão.
Criei mil reencontros diferentes na minha mente; mil maneiras diferentes de implorar seu perdão por não tê-la encontrado antes. Mil cenas em que as feridas eram magicamente curadas, em que ela me envolvia nos braços e me abraçava como costumava fazer. Onde seríamos apenas Rosie e Lea de novo, duas garotinhas, sem a sombra da Morte pairando negra e impiedosa entre nós.
Não contei a ninguém o que estava fazendo, por um medo supersticioso de que isso azarasse tudo.
E então fiz a contagem regressiva dos dias, e depois das horas.
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Tinha vagueado pelo café do Radisson até as sete horas, querendo dar tempo para ela chegar ao pub. Depois atravessei lentamente a curta distância, no máximo uns oitocentos metros, e tentei com muito afinco não pensar no que estava prestes a acontecer.
Eu, claro, falhei miseravelmente nisso.
Oito anos de arrependimentos. Oito anos de tempo nunca a ser recuperado.
Encolhi-me dentro da jaqueta, encarando o pub e a multidão de foliões que se aglomerava do lado de fora da porta.
Parecia quente, convidativo e tão maravilhosamente simples. O tipo de lugar para onde eu naturalmente gravitaria. Um santuário acolhedor.
Estava mais aterrorizada do que me lembrava de ter estado alguma vez.
Eu não tinha nada que estar ali.
Era uma intrusa. Não pertencia àquele lugar.
Não tinha ideia se ela estava ali sequer.
Ou se ela iria me querer. Ou até me reconhecer.
Provavelmente passaria a noite inteira enfiada num canto, esperando em vão por um golpe de sorte relâmpago, só para ir embora numa decepção negra e esmagadora e no desespero familiar.
Isso era estúpido. Era insano.
Meu coração doía, e engoli a súbita onda de náusea.
Mas a chance de vê-la de novo era grande demais para abandonar.
Eu tinha que tentar.
Devia isso a ela. A mim mesma.
A nós.
Era hora.
Esperei um táxi passar, então endireitei os ombros e pisei resoluta na faixa de pedestres. O barulho aumentou, os gritos e a folia mais presentes, mais opressivos.
Eu estava louca. Isso era loucura.
O que eu estava fazendo?, a parte sã de mim gritava enquanto eu empurrava a porta.
O barulho dobrou e redobrou de novo.
Era isso.
Eu fui abrindo caminho no meio da multidão, com um educado "Com licença, perdão, desculpa, perdão." quando necessário.
Sorrisos e risadas ao meu redor, homens e mulheres de bom humor abrindo espaço para mim, me deixando passar, um ou dois me lançando olhares curiosos ou especulativos.
Eu os deixei escorregarem de mim. Eu só tinha um objetivo ali. Só uma coisa importava para mim.
Ela.
Olhei ao redor, ficando na ponta dos pés, esticando o pescoço em desespero, tentando ver um lampejo de seu cabelo dourado, tentando ouvir um trecho de sua risada líquida.
Mas era inútil.
Estava escuro demais, apertado demais, barulhento demais. Homens altos demais, garotas loiras demais que não eram ela.
Fechei os olhos, dei um soluço ofegante, me preparei contra a punhalada da decepção, me aprontei para lutar até um canto para poder lidar com a tristeza que eu sabia que não demoraria a chegar.
Eu era uma criança idiota.
O que eu esperava? Que tudo que tinha se quebrado há tanto tempo e caído em tanta ruína fosse magicamente se recompor?
Eu devia saber que não. A magia tinha morrido com a partida dela. O mundo agora era mundano; não havia mais espaço nele para sonhos.
"Idiota. Idiota idiota do caralho," eu me amaldiçoei. "Idiota, infantil, imatura..."
Engoli o soluço.
Respirei fundo, um ar agonizante.
Dei mais uma olhada lenta ao redor para me lembrar de que eu tinha tentado. Uma lembrança para guardar quando eu fosse velha. O dia em que percebi que ela tinha, finalmente, partido.
E então, como naqueles filmes clichês idiotas que eu tanto amava odiar, a multidão de pessoas ao meu redor se abriu só um pouquinho.
Não muito, mas... o suficiente.
Eu vi o jeito que os olhos dela deslizaram por mim, o jeito que o franzir de testa súbito e perplexo substituiu seu sorriso, o jeito que o corpo inteiro dela se sacudiu quando ela se virou para me encarar. O jeito que sua taça de vinho caiu de sua mão sem força, pintando um rasgo líquido escuro no ar enquanto o reconhecimento florescia entre nós.
"Lea," eu sussurrei. Eu cambaleei.
O rosto dela passou de rosado para branco.
Fechei os olhos, incapaz de suportar a mágoa nos olhos dela. Gemi por um fôlego, e depois outro, e então ela colidiu comigo, me esmagou em seus braços, e por um momento tudo que eu sentia era a sensação dela contra mim mais uma vez.
Ela já estava soluçando, e agarrou meu braço e me puxou às cegas pela multidão, nos empurrando para fora das portas duplas do pub e então me arrastando para uma viela estreita na esquina, longe do barulho e dos olhos curiosos que nos seguiram.
"Você!" ela gritou em meio às lágrimas. "Você! Depois de oito anos! Você! Você não pode simplesmente aparecer aqui assim! Você não pode simplesmente voltar para a minha vida e virar tudo de cabeça para baixo assim! Não é justo! Por quê! Por que você está aqui! De todas as épocas que você podia ter escolhido, por que agora!"
Eu fiquei olhando para ela, incapaz de formar palavras, incapaz de fazer qualquer coisa exceto ficar parada, grunhindo em agonia como uma besta atordoada e mortalmente ferida.
"Me responda! Me responda!" ela gritou histericamente, enquanto me sacudia violentamente de um lado para o outro. "Onde você estava? Onde você estava! Eu esperei e esperei e esperei por você mas você nunca veio! Eu precisei de você e você não estava lá! Onde você estava!"
Então ela se curvou para frente, a cabeça apoiada no meu ombro, arfando. Suas mãos se agarraram a mim em espasmos, e ela fez ruídos pequenos e entrecortados de dor.
Mas ainda assim eu não conseguia responder. Ainda fiquei lá, tremendo, tentando encontrar a fala que simplesmente não vinha.
"Diga alguma coisa, Rosie, pelo amor de Deus," ela arfou.
"Me... desculpa," eu consegui articular as palavras por fim, com uma língua seca que não queria funcionar de jeito nenhum. "Por tudo. Por não ter estado lá para você. Por não ter procurado você antes. Sinto muito. Eu queria ver você. Eu precisava. Mas. Mas você está certa. Eu não devia ter vindo aqui. Foi idiota. E. E egoísta. Me... desculpa. Por... tudo. Desculpa. Adeus. Lea. Eu... eu vou embora. Não se preocupe. Eu vou agora. Sinto muito. Por tudo."
Eu me soltei dela e me virei, apertando meus braços em volta de mim contra a agonia, ofegando por ar enquanto as mandíbulas brutais e denteadas da rejeição se fechavam com força sobre meu coração.
O mundo ficou embaçado e eu cambaleei para longe, sem me importar para onde, só precisando estar em outro lugar, qualquer outro lugar, algum lugar onde eu pudesse tentar esquecer a mágoa desconcertada nos olhos dela, algum lugar onde eu pudesse deslizar para a escuridão e finalmente, de uma vez por todas, morrer.
"Rose! Rosie, espera!" ela gritou. "Não! Por favor! Volta! Sinto muito!"
O leve peso dela me atingiu mais uma vez. Ela travou os braços ao meu redor, me segurando firme, me parando no meio do caminho. Eu podia sentir o jeito que os soluços silenciosos a sacudiam, e sua força escassa mal dava para nos manter de pé enquanto eu desmoronava.
Eu me virei, me puxei para ela pelas lapelas de seu casaco de lã bordô enquanto tentava me arrastar para perto. Enterrei meu rosto sob o queixo dela como tinha feito tantas vezes no passado, e chorei como a coisinha quebrada que, de tantas maneiras, eu ainda era.
De algum jeito acabamos enroscadas nos degraus imundos da escada de incêndio do pub, bochecha contra bochecha salgada, meus braços ao redor dela e os dela trancados como um torno atrás do meu pescoço.
Pés passaram por nós; eu podia ouvir murmúrios de preocupação de um grupo de mulheres, perguntas gentis, ofertas para nos acompanhar até em casa, mas nenhuma de nós conseguia parar de chorar por tempo suficiente para responder, e eu, por mim, não conseguia suportar soltar a outra metade de mim.
Não ainda.
Não quando eu só tinha acabado de encontrá-la de novo.
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Nós nos sentamos uma de frente para a outra numa mesa de canto em um pequeno café, cercadas por um monte de lenços usados, xícaras de café pela metade e migalhas de bolo de cenoura. A coisinha adorável que nos recebeu tinha nos olhado uma vez e nos sentado no recanto mais abrigado que ela tinha; ela pairou mas não se intrometeu, reabasteceu nossos lenços conforme precisávamos, e pegou mais de um punhado para si mesma para lidar com sua própria reação impotente à supernova emocional que nós tão descuidadamente a sujeitamos.
Lea estava um desastre. Eu nem queria pensar com o que eu parecia; minha garganta estava em carne viva e minha franja idiota não parava de cair sobre meus olhos ardentes e lançar um véu escuro sobre o mundo. Eu agarrava as mãos dela nas minhas, de nós dos dedos brancos, trêmula e atordoada, com medo demais de soltar caso ela desaparecesse de mim.
Ela me encarava, o olhar percorrendo minhas feições como se estivesse tentando gravar cada uma delas na memória para sempre.
"Você furou as orelhas," ela conseguiu dizer, depois de um tempo. Sua voz estava estranhamente rouca, e ela teve que pigarrear duas vezes para terminar a frase breve.
"Só uma," eu sussurrei.
"É... bonito. Essa pedra combina muito com você. Vai com seu cabelo. Ó Deus, eu tinha esquecido o quanto amo seu cabelo," ela respirou, enquanto erguia a mão para tocá-lo.
"É lápis-lazúli. É o azul que eu lembrava dos seus olhos. Eu... eu comecei a usar por... por você."
O rosto dela se contraiu e ela baixou a cabeça. Ela tomou fôlego, fungou forte. "Cristo, Rosie. Eu estou um desastre. Você me destruiu. O que você estava pensando? Aparecendo assim? Sem nem tentar entrar em contato antes? E se eu estivesse numa apresentação, ou numa palestra? Eu tinha um lugar para ir. Algo importante. Eu já devia estar lá agora."
"Me desculpa," eu disse de novo, tentando encontrar o olhar dela. "Eu não pensei. Eu não consigo pensar direito nas coisas há oito anos. Eu simplesmente faço as coisas. E... às vezes, se eu tiver muita sorte... elas dão certo como... isso deu..."
As mãos dela apertaram as minhas com força.
"Deus, eu senti tanta saudade de você," ela disse, com a voz embargada. "Eu fui ao inferno e voltei. E dessa vez eu não tinha você para me salvar."
Eu estremeci, funguei de novo. "Você sempre esteve comigo. Sempre teve uma parte de você, parada bem atrás do meu ombro, sempre me observando. Nos meus momentos mais escuros eu imaginava você e o que você teria feito. E então eu fazia. Foi isso que me fez superar tudo... isso."
"Queria ter tido isso. Por quê? Por que, Rosie? Por que você nunca veio me encontrar?"
Eu encarei as mãos dela, as veias azuis aparecendo sob sua pele pálida.
"Porque eu sou completamente fodida da cabeça," eu gemi, por fim. "Levei anos para perceber o quão completamente quebrada eu sou. Foram precisos três terapeutas para me fazer chorar de novo, Lea. Três. Eu não senti nada por anos. Eu estava morta demais por dentro para sentir qualquer coisa depois que você partiu. Nada conseguia me fazer chorar quando eu não tinha mais você. Então... eu só estava fazendo as coisas no automático. Só existindo. Não vivendo de verdade. Não por anos..."
Os olhos dela estavam arregalados e escuros na meia-luz do canto do café; seu lábio inferior tremia. Ela recolheu minhas mãos nas dela, as ergueu até seu rosto, as aconchegou contra sua bochecha.
Eu tossi, então engoli o ácido quente e amargo na minha garganta.
"Rosie?"
"Estou bem. Estou bem," eu arfei. "Ó Deus. É só demais para lidar de uma vez. Você. Eu. Isto."
Eu baixei a cabeça enquanto lutava por um fôlego. "Sinto muito, Lea. Eu nunca quis abandonar você. Você era a minha vida."
Ela pegou um lenço, enxugou os olhos pela tricentésima milionésima vez.
"Eu tentei aguentar. Consegui terminar a escola sem você. Ainda não sei como. Raiva. Fúria, talvez. Eu consegui um diploma. E um emprego, apesar de tudo isso," eu disse, acenando uma mão desdenhosa para mim mesma.
"Eu também. Tal como está."
"Eu sei. Eu te encontrei na página do Facebook do seu departamento. Vocês são péssimos em manter as coisas privadas," eu disse, fungando.
Ela deu uma risada engasgada e enxugou os olhos de novo. "Malditas redes sociais. É o playground do diabo. Ainda assim. Parece que te trouxe de volta para mim. O que mais. Me conta o que mais."
"Eu voltei a jogar hóquei," eu sussurrei. "Jogo pelo Condado de novo, às vezes."
"Isso é bom. Muito bom. Fico feliz. Você sempre foi brilhante nisso. Fico feliz que ainda tenha isso em você."
"Você voltou a correr?"
"Não. Eu tentei no começo. Mas... não mais," ela disse. Ela desviou o olhar. "A quimio destruiu meus músculos."
"Quimio...terapia? Ah... ah Jesus, não, não, não não não" eu sussurrei, balançando a cabeça violentamente, tentando negar o que ela estava dizendo.
"Sim. Eu ganhei outro presentinho adorável."
Eu fiz algum tipo de som horrível; ela estremeceu e apertou minhas mãos de novo.
"Rose. Tudo bem. Tudo bem. Eles pegaram cedo, Rosie. Estou limpa há quatro anos. Estou bem agora. Você não precisa me olhar assim. Por favor... Rose, para com isso," ela implorou. "Por favor, não me olha assim. É demais. Você está me destruindo. Por favor."
Ela engoliu em seco, baixou o olhar de novo.
"Eu devia ter escrito para você," ela sussurrou. "Mas... eu estava magoada demais. Amarga demais. Amarga por você ter tido uma infância normal e eu ter tido... isso. Aí eu cresci, e passou a ser sobre... proteger você disso. Eu não podia fazer mais nada, mas ao menos podia fazer isso. Pouco a pouco... acho que eu... comecei a acreditar que você estava melhor sem mim. Que você ia se curar e seguir em frente."
"Eu nunca fiquei bem sem você. Nunca."
"Eu... eu posso ver isso agora. E... ah, parece tão tolo. Mas... uma parte de mim sempre teve esperança de que algum dia eu me virasse e... você estivesse lá. E a gente se abraçasse, e você sorrisse para mim como está sorrindo agora, e tudo ficaria bem. Só não imaginei que seria hoje," ela terminou com um soluço estranho e engasgado.
Eu assoei o nariz. Ela enxugou os olhos de novo.
"Não acredito que você está realmente aqui," ela disse. "Depois de tanto tempo."
"Queria ter me organizado antes. Devia ter vindo antes."
"Você veio. É isso que importa. Quanto..." Ela pigarreou. "Quanto tempo você vai ficar aqui?"
"Só... esta noite. Tenho que ir embora amanhã. Trabalho. Não planejei nada além de chegar aqui. Tenho que sair de manhã."
"Ah, puta que pariu," ela suspirou, enojada. "Onde você está hospedada?"
"Um hotel perto da estação. O Radisson Blu."
"Não. Nem fodendo. Eu tenho um quarto vago. E... e eu... eu preciso muito, desesperadamente, que você venha ficar comigo. A gente precisa conversar, Rosie. Tem tanta coisa que eu preciso te dizer antes de você ir embora de novo."
"Ok."
"Assim, simples? Foi fácil." ela disse, com um pequeno sorriso. "É como... como nos velhos tempos."
Eu dei de ombros, impotente. "Como eu posso colocar qualquer coisa em palavras agora? Isso é quem eu sou. Nunca me importei com mais nada além de estar perto de você."
Ela corou e desviou o olhar.
Eu paguei nossa conta e discretamente coloquei cinquenta libras na mão da garota adorável que nos protegeu quando saímos. Era até o último centavo do meu estojo de emergência "Ai-meu-Deus-perdi-minha-carteira" do bolso interno da minha jaqueta, mas eu não me importava. Ela olhou em descrença estupefata para as notas amassadas, e então guinchou e ficou vermelha e quente quando Lea a agarrou, a abraçou forte, e a beijou na bochecha.
"Você é um anjo," eu declarei a ela, enquanto fechava gentilmente a mão dela sobre o presente. "Nunca, jamais perca de vista a pessoa adorável que você é."
Lea enfiou o braço no meu daquele seu jeito de sempre, e me arrastou para a noite.
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"Onde você era para estar?" eu disse, elevando a voz sobre o rugido do motor atrás de nós.
"Depois do pub? Um colóquio sobre música antiga. Meu... chefe... reservou ingressos. Ele vai ficar furioso. Tão furioso. Ah, mal posso esperar."
"Você não vai ter problemas?"
"Muitos problemas. Acho que não existem palavras para descrever adequadamente a quantidade de problemas. Mas eu não dou a mínima," ela sussurrou. Ela se mudou para mais perto de mim, se inclinou contra meu ombro, e eu combati o nó na garganta enquanto o cheiro dela evocava memórias meio esquecidas de nossa juventude.
"Você está tão bonita," eu respirei, quando pude. "Tão chique nesse casaco. Apesar de tudo que aconteceu com você. Estou tão feliz de te ver com tão boa aparência."
"E você parece que não está se cuidando nada," ela sussurrou de volta. "Você precisa consertar isso. Rose... me desculpa. Me desculpa por ter ficado tão brava, por ter desmoronado. Eu... foi um choque tão grande te ver ali parada. Isso destampou tudo de uma vez. Eu não estava pronta. Eu nunca estaria pronta. E eu não tinha certeza se você era real. Deus, que dupla nós fazemos," ela suspirou.
"Eu ainda não tenho certeza se sou real."
"Você é real o bastante para mim," ela disse, enquanto colocava gentilmente a mão no meu joelho e o apertava.
"Sinto muito por não ter procurado você. Se eu tivesse..."
"Você tinha seus próprios demônios para lidar."
O ônibus fez uma rotatória, e ela se sacudiu contra mim. Eu me mexi, tentando encontrar um lugar mais confortável no assento sem perturbá-la.
"Como estão... seu pai e sua mãe?"
"Mamãe está triste, Papai seguiu em frente."
"O quê? Não! Quando!" eu engasguei.
"Eles se divorciaram logo depois que nos mudamos," ela disse, suave e objetiva.
"Divorciaram. Ah. Ah, graças a Deus, achei que você quis dizer..."
"O quê? Ah. Não. Ainda não. Ainda restam alguns quilômetros no velho gorila."
"Sinto muito."
"Você não tinha como saber," ela disse baixinho. "Como você poderia saber? Mamãe nunca manteve contato. Ela está destruída demais. Seus... seu pai e sua mãe estão bem?"
"Sim. Mais velhos, mais lentos, ainda os mesmos na maioria dos sentidos. Mamãe sente falta da Mamãe Sarah como nada que eu consiga realmente colocar em palavras."
"Tal mãe, tal filha," ela suspirou. "Vou dizer para minha mãe parar de se fechar e entrar em contato. Vai fazer bem para ela. Talvez a tire da concha."
Ela balançou a cabeça e me deu um sorriso cansado.
"Somos realmente os espelhos de nós mesmas agora. Você foi tocada pela luz, eu fui mergulhada na sombra."
Ela apertou minha mão de novo. "Pelo menos você se desenvolveu bem," ela disse, objetiva. "Você sempre seria uma mulher deslumbrante. Fico feliz que isso aconteceu com você."
Eu corei, olhei para o meu colo.
"Você está... vendo alguém?" eu perguntei.
"Não... exatamente. Você?"
"Não. Não romanticamente. Já tive minha cota de desilusões amorosas."
"Ah, Rosie," ela suspirou. "Você tem que viver também, querida."
"Disse o fantasma ao vampiro," eu retruquei baixinho.
"Eu chutei a bunda do câncer duas vezes. Não sou fantasma e você não é vampira. E você é maravilhosa demais para passar a vida sozinha."
Eu virei o rosto, tentei encontrar algum controle.
Ela se aconchegou mais em mim. "Eu tinha esquecido como você cheirava," ela disse. "Como lar. Como segurança. Não consigo acreditar o quanto senti falta disso. O quanto senti falta de nós. De você."
"Passar cada dia como se a melhor metade de você estivesse faltando," eu sussurrei.
"Pegando vislumbres de relance, pelo canto do olho", ela concordou. "Sabe o que me fez continuar? Lembrar de como você se enfiava na minha cama e me abraçava e lia para mim quando a dor estava no pior."
"Você estava tão frágil, e parecia tão pequena sem o cabelo. Me partia o coração."
"Eu queria te dizer para não chorar. Mas nunca fui forte o suficiente. E sempre fui muito egoísta para te dizer para não vir e para cuidar de si mesma."
"Você poderia muito bem ter me dito para cortar minha própria perna", eu disse. "Teria sido mais fácil para mim fazer isso do que não ir até você."
"Eu sei."
.:.
O telefone dela começou a tocar quando ela abriu a porta descascada da frente.
Ela ignorou.
"Você não deveria atender?"
"Eu sei quem é. Não é mais importante."
"Lea, pode ser seu chefe."
"É meu chefe. É o toque dele."
"Você deveria atender."
"Não", ela disse, com um travo no queixo que eu lembrava tão bem.
Ela fechou a porta atrás de nós, acendeu uma luz. "Não é grande coisa", ela disse baixinho, "mas é meu lar."
O telefone dela tocou de novo.
"Atenda isso", eu disse a ela.
"Não."
"Ele pode estar preocupado."
"Ele não está preocupado. Ele está furioso."
"O quê?"
"Ele quer gritar comigo por não estar na palestra. Por fazê-lo parecer mal, por envergonhá-lo na frente dos colegas de novo. Infelizmente, estou destinada a ser sempre uma vergonha para ele. A frágil Lea, a noiva encantadoramente vulnerável que ele pode exibir para mostrar como ele é gentil e atencioso e normal. Olhem para a Lea, pessoal, a vítima de câncer com quem vou me casar porque sou uma pessoa tão boa. Contemplem e admirem e aqueçam-se na minha generosidade!"
Ela posou dramaticamente, e então se curvou sobre si mesma.
"Essa noite seria quando ele anunciaria nosso noivado. Me pergunto se ele anunciou. De alguma forma, acho que não, o maldito narcisista."
Sua voz era suave, mas não menos amarga por isso.
"Você está... noiva", eu disse, focando em filtrar o que me parecia ser o fato principal. Minha voz soou estranha e vaga mesmo para os padrões já ferrados do meu dia. "Do seu chefe", acrescentei.
"Sim."
Eu me recostei contra a parede, me perguntando quantos mais golpes eu teria que aguentar. Me perguntando quantos mais eu poderia aguentar.
"Você não parece... muito feliz com isso."
"Não estou. É uma transação comercial. Meu sorriso e minha habilidade musical e um pouco de bajulação fotogênica em eventos — uma cortina de fumaça que ele barganhou por segurança e espaço para respirar para mim."
"Ah, Lea", eu sussurrei.
"Não. Não se atreva", ela disse, a voz embargada. Ela bateu o pé e se virou para longe de mim, esfregando furiosamente as lágrimas. "Não consigo fazer isso sóbria. Não consigo fazer isso de jeito nenhum. Jesus. Jesus, dentre todos os dias para ter que lidar com isso. Se controle, Lea, se controle", ela terminou em um sussurro.
Eu me aproximei sorrateiramente e toquei seu ombro com hesitação.
Ela não se virou para me encarar.
"Eu precisei", ela sussurrou. "Preciso da rede de segurança. Não há ninguém que vá me ajudar. Mamãe está mal se mantendo de pé, papai está bêbado metade do tempo e furioso no resto. Não tenho quase nada de meu. Vivo de mão para a boca. Esse era o único jeito de sair disso para mim. E, de qualquer forma, não é como se ele me quisesse pelo meu corpo. Ele tem seus próprios... gostos."
Meu coração se partiu. "Ah, meu Deus, Lea..."
"Por favor, não me julgue", ela sussurrou. "Posso aguentar de qualquer outra pessoa. Mas não de você."
Ela respirou fundo, trêmula, e soltou o ar. Chutou os saltos, pendurou o casaco em um gancho. "Certo. No topo da lista curta de coisas sobre as quais posso realmente fazer algo está minha sobriedade. Vou abrir um vinho", ela disse. "Vou beber até ficar em estupor. Não consigo lidar com mais nada essa noite. Agora não. Pode tudo queimar em cinzas, pelo que me importa."
Ela saiu em passos firmes.
Eu lentamente desabotoei meu casaco e o pendurei ao lado do dela, então olhei ao redor para as paredes vazias e o papel de parede descascando com horror crescente.
Isso não era um lar.
Era uma prisão.
Minha Lea estava em uma prisão.
"Rose, você vem ou o quê?", ela chamou.
Eu limpei os olhos e colei um rosto corajoso para ela.
.:.
Ela serviu seu segundo copo e completou o meu primeiro. Eu a observei enquanto ela tomava um gole, enquanto colocava a mão na ponte do nariz no velho gesto de inquietação que eu lembrava tão bem.
"O que foi?", eu disse, suavemente.
Ela bufou. "Esqueço como você me conhece bem."
"Você não mudou muito. Ainda consigo te ler como um livro."
"Você sempre conseguiu. Senti falta disso."
Ela se recostou, olhou ao redor da cozinha apertada e sombria. "Ele vai ficar tão puto comigo. Ah, meu Deus. Estou encrencada agora."
"Por que..."
Eu tossi, limpei a garganta, continuei. "Por que você se colocou nessa posição com ele, Lea?"
"Não tive escolha. É isso ou dividir apartamento. Não consigo, Rose. Não consigo viver com pessoas aleatórias no meu espaço. Esse... esse ato de prostituição pelo qual vou me submeter por ele. Eu... é o único jeito de me agarrar ao pouco que tenho. Consigo um lugar para morar, acesso a eventos e à sociedade, o espaço para respirar e tocar minha música. Tempo que não vou conseguir de outro jeito. Ele vai me dar uma mesada; mais do que suficiente para garantir que eu mantenha as aparências. Ele vai me usar como peça de exibição. Um atrativo para o departamento e a Universidade — um pilar do pequeno império que ele está construindo. É melhor que a alternativa."
"Mas certamente..."
"Certamente... o quê? Você acha que há algum benfeitor por aí que vai me ajudar pela bondade do coração? Alguém que pode magicamente conjurar uma vida melhor para mim onde eu não esteja trabalhando como serva contratada de um homem sedento de poder? Isso não é um conto de fadas, Rose. Isso é a vida real. Minha vida. É brutal, e dolorosa, e... provavelmente será curta. Se você encontrar uma pessoa que possa mudar isso, por favor, mande ela para mim."
Eu fechei os olhos, me curvando sobre mim mesma enquanto a ponta afiada da raiva dela me arranhava. Ela viu, estendeu a mão, agarrou meu pulso com força.
"Me desculpe. Ah, Deus. Me desculpe, Rosie. Me desculpe. Por favor. Estou amarga. Não quis dizer isso. Não quis te machucar, justo você..."
"Está... está tudo bem. É só... isso é tão injusto."
"Eu sei. Mas essa é a minha vida. Tenho um teto sobre a cabeça, o suficiente para comer, dinheiro para dar para minha mãe para garantir que ela esteja bem. É melhor do que muitas pessoas têm."
Ela suspirou.
"Meus sonhos eram só sonhos, no fim das contas. Eles começaram a desvanecer quando eu tinha quinze anos. Eu... aceitei isso. Isso é o que eu tenho agora."
"Você merece um palácio", eu sussurrei. Eu reprimi o soluço, forcei-o para baixo e para longe, para o lugar escuro e sombrio onde eu escondia todas as Coisas Terríveis.
"Você é a única pessoa que já pensou isso", ela disse, sorrindo tristemente para mim. "Todo mundo só vê... bem, eu."
Eu balancei a cabeça, negando veementemente as palavras dela, mas incapaz de falar além da escuridão entorpecedora.
"Não fique triste, Rose. Às vezes as coisas simplesmente não terminam como você achava que terminariam. Pelo menos eu tive você na minha vida. Eu tive algo bom."
"Queria que você nunca tivesse ido embora", eu consegui dizer.
"A vida acontece. Podemos deixar ela nos quebrar ou... dar um passo para o lado até conseguirmos ficar de pé de novo."
Eu virei meu copo de vinho de uma vez, e tossi quando o vinho barato queimou minha garganta em carne viva. Ela o encheu de novo para mim.
"Então me conte sobre você", ela disse, gentilmente. "Me conte algo legal. Deixe-me ouvir que você pelo menos está melhor do que isso", ela acrescentou, olhando ao redor da cozinha espartana.
Eu engoli em seco, limpei a garganta. Olhei para ela do outro lado da mesa, tentei encontrar forças para falar em algo além de frases curtas.
"Trabalho em Biotecnologia. Perto de casa. Desde logo depois da faculdade. Estatística e Bioquímica. Estou indo bem. Carreira razoável, alguns amigos."
"Mas nenhum amor? Ninguém para te manter aquecida à noite?"
"Não."
"Ah, Rosie. Seu coração é grande demais para ficar vazio."
"Não está vazio."
"Você não pode passar a vida nunca deixando mais ninguém entrar."
"Você não pode fazer essa escolha por mim", eu respirei, baixo e feroz, e ela corou e desviou o olhar.
"Me conte mais", ela sussurrou. Ela tomou um gole de vinho.
"Tenho um apartamento pequeno. Dá vista para o... parque onde costumávamos caçar borboletas. Mas colocaram um campo de futebol... lá onde costumava ser o lago. Então isso... é uma droga."
"Ah. Isso é uma pena. Eu amava aquele lago. Tinha muitas lembranças boas dele. Fizemos muitas coisas lá."
"Ainda colho amoras no bosque atrás dele. As campainhas ainda crescem sob o velho carvalho. Há uma coruja na árvore de novo."
Os nós dos dedos dela estavam brancos no copo de vinho. "Isso é legal. A coruja."
"Hoje em dia passo a maioria das noites no clube de hóquei. Não suporto ficar... sozinha com meus pensamentos, então persigo os membros do meu time para treinar. Ou mesmo só para estar perto de gente. Ajuda. Ah, esqueci, quebrei algumas costelas. Ainda dá para ver a marca nos ossos."
"Como", ela respirou.
"Taco de hóquei", eu disse, com uma risada baixa, e ela se encolheu em simpatia. "Não se preocupe, tiveram que carregá-la do campo numa maca."
Ela bufou o vinho, e me deu um sorriso pálido. "Você sempre foi um terror. Sempre senti tanta pena das garotas do time adversário."
"Carrego muita... raiva esses dias", eu disse, suavemente. "É o único lugar onde posso extravasar. Quando estou correndo tão forte que sinto que meu coração vai explodir. Isso é tudo que torna tudo... tudo isso... suportável."
"Minha música", ela suspirou. "Minha música é para onde vou quando não consigo mais me esconder disso. Nunca perdoei meus pais por me levarem embora. Preferia ter ficado — mesmo que fosse um ano atrás, só para poder te ver entre as aulas ou depois da escola. Eles tomaram a pior decisão que podiam com as melhores intenções."
"Eles estavam exaustos. Você esteve doente por tanto tempo. Sua mãe... nunca vi nada tão horrível quanto o jeito que ela estava chorando quando veio dizer... adeus."
"Foi tudo em vão, de qualquer jeito. Duraram seis meses antes do papai traí-la com alguma vadia do trabalho."
"Eu... sinto muito."
"É a vida, Rose. A luz do sol que brilhou tão intensamente na sua lançou sombras negras na minha. Só estou feliz que algo bom tenha saído disso no final."
"Que bem saiu disso?"
"Isso."
Ela apertou minha mão.
"Ver você", ela continuou. "Saber que você está bem. Saber que... que apesar de todo o tempo que passou, você ainda me ama do jeito que costumava amar."
"Nunca parei", eu sussurrei. "Esse foi o problema. Nunca consegui deixar para lá. Nunca consegui tirar você da minha cabeça. Não importa o que eu fizesse. Não importa o que acontecesse. Você estava sempre... sempre lá."
Seus olhos estavam escuros e tristes.
"Ah, Deus", eu disse, enquanto respirava fundo e devagar. "Esse foi um dia infernal. Tinha esquecido como era me sentir assim."
Ela estendeu a mão para acariciar suavemente minha bochecha. "Você sempre fez as coisas ao extremo, Rose."
O telefone dela tocou, e eu me endireitei e esfreguei os olhos, grata pela breve interrupção. Ela olhou feio para ele, então o virou para não ver a tela.
"É, estou encrencada", ela respirou. "Esse foi o último. Ele sempre telefona três vezes quando está furioso. Depois vai emburrar e foder com ódio um dos prostitutos dele. E então vai remoer por um tempo e descontar tudo em mim logo na segunda-feira."
"Sinto muito."
"Por quê? Nada disso é culpa sua."
"Se eu não tivesse vindo..."
"Então agora eu seria publicamente conhecida como a futura Sra. Saunders. E os comentários maldosos aumentariam dez vezes."
"Prefiro Lea Fergusson", eu disse baixinho.
E ela sorriu o seu velho sorriso só-para-mim com isso.
"Eu também", ela disse.
.:.
Eu me sequei com a toalha puída e encarei meu rosto no espelho. Minhas bochechas e nariz ainda estavam horrivelmente vermelhos. Eu parecia um desastre completo. Mas o banho pelo menos lavou o pior do estrago de mim. Eu estava em carne viva e ensanguentada, mas ainda de pé.
Eu deslizei de volta para minha meia-calça e vesti o moletom que Lea tinha encontrado para mim. Dobei o resto das minhas roupas para a ida de manhã de volta ao hotel.
Lea estava sentada em seu sofá velho e manchado, olhando para o nada. Ela voltou a si quando eu apareci e me deu um sorriso. "Melhor?", ela perguntou.
"Sim."
"Água conserta muita coisa. Comecei a nadar. A universidade tem uma piscina aquecida, era o único exercício que eu conseguia fazer que não doía muito."
"Me sinto tão culpada que você teve que passar por isso sozinha."
"Não se sinta. A culpa é minha. Eu poderia ter estendido a mão a qualquer momento. Orgulhosa demais, e amarga demais. Mas está feito. Venha sentar aqui comigo."
Eu me acomodei no sofá; ela esperou até eu estar acomodada, então se mexeu e deitou ao meu lado com a cabeça no meu colo. A sensação do peso dela sobre mim me fez estremecer e eu respirei fundo, trêmula, enquanto tentava me acalmar. Estudei a linha do queixo dela, as curvas tão familiares de seu olho e orelha. Hesitante, estendi a mão para passar os dedos pelo cabelo dela como eu fazia todos aqueles anos atrás.
A cicatriz de sua craniotomia estava menos proeminente agora, mas ainda tão visceral e perturbadora quanto sempre tinha sido. A ideia de alguém perfurando e mexendo no cérebro da minha Lea nunca pareceu aceitável — por mais necessário que tenha sido para salvar a vida dela. Tracei a linha dela, então estremeci, respirando um pequeno e quieto "não" de abjuração.
"Ainda te incomoda, não é?", ela disse, suavemente. Ela ficou deitada quieta, composta e angelical, olhos fechados, respirando suavemente.
"Sim", eu sussurrei. "Ainda é minha Coisa Mais Terrível."
"Fico feliz por não ter visto."
"Sim. Eu também. E fico feliz que seu cabelo tenha permanecido loiro e você não tenha ficado grisalha ao redor dela."
"Idem. Minhas sobrancelhas escureceram quando cresceram de novo, no entanto."
"Combina com você. Mais sombra, mais definição. Elas emolduram seus olhos tão maravilhosamente agora."
"Eu costumava amar isso. Mesmo quando estava em agonia, isso me acalmava e aliviava. Seus dedos, só me tocando assim. Você sempre foi a pessoa que conseguia me fazer sentir melhor."
"Você me centrava."
Ela puxou as pernas para mais perto de si, e suspirou de novo. "Queria que você estivesse aqui por mais tempo."
"Eu também."
"Obrigada por ser corajosa. Obrigada por me encontrar."
Eu acariciei sua bochecha; ela fez um pequeno som e segurou minha mão para mantê-la no lugar.
"O que você vai fazer agora?", eu disse.
"Bajular."
"Odeio isso."
"Eu também. Mas... não tenho escolha."
Eu olhei para ela enquanto ela travava o queixo por uma respiração, por duas."
"Me passe aquele cobertor, por favor", ela sussurrou. "Estou congelando. Não sobrou mais carne nos meus ossos."
Eu a ajudei a se cobrir, e ela relaxou de volta contra mim. Senti a tensão lentamente deixá-la enquanto eu começava a brincar com seu cabelo de novo; ela estendeu a mão e curvou a mão possessivamente sobre meu joelho.
"Por que você não colocou nenhuma foto, Lea?"
"Simplesmente nunca pareceu importante", ela disse. "Só venho aqui para me esconder e dormir. Todo o resto do meu tempo estou no departamento ou... fazendo as coisas que ele precisa que eu faça. Sem descanso para os perversos."
"Eu sou a perversa."
"Verdade", ela sussurrou, sorrindo. "Sou pura como neve fresca."
"Isso é uma mentira."
"Não estou falando da minha mente", ela disse."
"Ahã."
Eu puxei minhas panturrilhas para debaixo do meu traseiro, e a rearrumei levemente para que ela ficasse mais confortável.
Ela alcançou e pegou minha mão de novo, então rolou levemente de costas para poder olhar para mim. "Tão séria, tão intensa", ela sussurrou, enquanto brincava com meus dedos em outro gesto nostálgico. "O que você está pensando que te fez franzir a testa assim?"
"É minha cara fechada de repouso."
Ela bufou. "Até parece. Ah, bem, conte essa mentira para quem acreditar. Eu sei a verdade."
"O que aconteceu? Onde foi, dessa vez?"
"Meu seio."
"Ah, pelo amor de Deus. Você tem a pior sorte."
"Por sorte eu estava paranoica. Vi meu oncologista no momento em que suspeitei de algo. E o cirurgião plástico realmente era bom; quase não há cicatriz. Era só um pequeno nódulo, então não foi muito dano. Não precisei de nada drástico dessa vez. Eu mostraria, mas seria estranho."
"Hum. É. Seria."
"Estou brincando, Rosie."
"Desculpa."
Ela riu baixinho. "Seus botões sempre foram divertidos de apertar. Deus, como senti sua falta. Mude para Bristol, sua puta."
Eu bufei, sabendo que ela estava só meio brincando. "Me peça com jeitinho e talvez eu mude."
"Não seja boba. Parece que você está feliz e estabelecida aí. Talvez... talvez eu vá visitar algum dia."
"Eu... eu gostaria disso."
Ela olhou para mim. "Mantenha a vela acesa para mim, então", ela sussurrou. Ela bocejou. "Deus. Estou exausta."
"Sim."
"Rose? Temos um pequeno problema. A cama de hóspedes não está arrumada. E eu realmente não tenho muita roupa de cama, sinto muito. Hum. Você sempre pode dividir a minha comigo? É de casal, então não é enorme, mas pelo menos ficaremos quentinhas."
"Você ainda ronca?"
"Receio que sim."
"Ah, tudo bem. Ok, mas não prometo que não vou te dar uma cotovelada se ficar muito insuportável."
Ela saiu de cima de mim e eu me levantei. Peguei a mão dela e a ajudei a se levantar, e ela me conduziu pelo minúsculo apartamento até o quarto principal nos fundos.
Ali, finalmente, havia um toque de sua personalidade — os típicos índigos e borgonhas que ela amava quando menina, agora em tecidos mais maduros, uma estante de partituras, e uma janela que dava para um pouco de verde nos jardins lá embaixo.
Ela se despiu completamente sem nenhum sinal de autoconsciência, depois vestiu uma camisola simples de algodão creme por cima da cabeça para uma fina camada de modéstia. As linhas de suas costelas eram dolorosamente visíveis sob a pele; ela estava magra demais e eu não aprovava nem um pouco. Mas segurei meu silêncio enquanto ela subia na cama.
Ela olhou para mim depois de se ajeitar. "Prometo que não vou morder, Rose", disse.
Ela observou enquanto eu tirava o moletom. "Você não quer uma regata ou algo para esconder essas coisas?", perguntou, com um sorrisinho estranho.
"Não. É assim que durmo. Mas vou poupar você e manter a meia-calça. Desculpe, sou uma vadia."
"Não se desculpe. Quero dizer, não precisa", acrescentou, com uma risada suave.
Ela se deitou e rolou para o outro lado, esperando. Eu me enfiei atrás dela, puxei o lençol e os cobertores baratos sobre nós, e então me aconcheguei contra ela para compartilhar meu calor, tentando ao máximo ignorar o fato de que apenas uma fina camada de algodão separava o corpo dela do meu.
Não foi nada fácil.
"Você ficou muito bem torneada", foi tudo o que ela disse, com um tremor na voz.
Suspendi, afastei qualquer pensamento de responder. "Boa noite, Lea", sussurrei. Enfiei o rosto no ombro dela, sentindo-me estranhamente confusa.
Ela estendeu a mão sobre si mesma, encontrou a minha, e a puxou ao redor de si, colocando-a entre seus seios e segurando-a ali, sobre o coração.
"Doces sonhos, minha sombra", ela sussurrou de volta.
.:.
Acordei; intrigada por um momento com os ruídos estranhos, a roupa de cama desconhecida, o som totalmente estranho da respiração tranquila e lenta de alguém. Então me lembrei onde estava.
Abri um olho sonolento e tentei focar.
Ela jazia em silêncio, me observando. Quando me mexi, ela suspirou; ergueu a mão e a passou suavemente pela minha bochecha. "Desculpe", sussurrou. "Acho que posso ter te acordado."
"Que horas são?", resmunguei.
"Ainda é cedo. Sete e pouco."
"Mm. Preciso estar no hotel às dez para fazer o check-out."
Ela se mexeu. Fechei os olhos novamente quando ela encostou a testa na minha.
"Desculpe", sussurrei.
"Tudo bem. É a vida. Todas nós temos lugares onde precisamos estar."
Deslizei a mão para a nuca dela, segurando a cabeça dela contra a minha. Ela emitiu um pequeno ruído, virou a cabeça ligeiramente, tentando se aproximar mais. "Queria que você pudesse ficar."
"Eu também. Há quanto tempo você está acordada?"
"Uma hora mais ou menos." Ela se afastou, rolou ligeiramente para longe de mim.
"Você deveria ter me acordado, Lea."
"Não. Eu estava contente só te observando. Me trouxe paz. Certo. Os ônibus são pouco frequentes aos domingos, então vamos precisar estar prontas para sair às nove. Tem um ponto descendo a rua, o ônibus deve passar por lá por volta das nove e dez."
"Eu deveria ter reservado uma noite extra. Mas o trabalho..."
Ela sorriu gentilmente. "Isso foi o suficiente. Eu poderia sobreviver outros oito anos só com isso, Rose."
Então ela rolou e me abraçou novamente; eu inspirei lenta e profundamente o perfume dela e o segurei o máximo que pude.
"Então. Café da manhã? Tenho muesli e um pouco de fruta."
"Ok." Não me movi.
Ela riu baixinho. "Você parece entusiasmada."
"Estou cansada", resmunguei. "De ressaca. Emocionalmente esgotada. E quentinha. Mas principalmente cansada."
"Provavelmente adrenalina, mais do que o vinho."
"Mm. Provavelmente."
Gemi e rolei de costas, puxando os joelhos para aliviar os isquiotibiais como sempre fazia ao acordar. Os cobertores caíram de mim, e Lea emitiu um pequeno ruído. Olhei para ela; ela corou.
"Desculpe", sussurrou. "Não queria ficar estranha. É que você tem seios lindos."
"O quê? Ah", eu disse. "Sim, esqueci que eles estavam aparecendo."
"Você quer uma regata ou uma camiseta?"
"Parece meio inútil a essa altura", eu disse.
"Bem. Os garotos devem adorá-los."
"Com certeza adoram, mas nenhum jamais ousou admitir na minha cara. E de qualquer forma, não é como se algum deles já tivesse visto meus seios. Não assim."
"Hm... o quê?"
"Ah. Hm. Eu..."
"Você é... gay?"
"Sim", eu disse baixinho, observando-a, curiosa para ver como ela reagiria. "Sou... estritamente só de garotas quando... preciso de algo", acrescentei, corando enquanto encarava seus olhos arregalados. "Sempre fui, eu acho. Certamente não sinto nem o mais vago interesse em... estar com um homem. Não há complicações com uma mulher, nem riscos. Nada que possa dar errado ou me machucar. E, de qualquer forma... é efêmero. Gozar uma vez, talvez duas, seguir em frente..."
Ela corou um vermelho mais intenso. "Eu... só imaginei..."
"Para ser justa, muitos imaginam. Mas logo aprendem seu erro."
"Bem", ela disse. "As garotas devem te amar, então. Garotas de sorte", acrescentou, suavemente.
"Aquelas poucas que conseguem, sim. Sou... exigente."
"Nunca teria imaginado", ela disse. Suspirou, depois fez uma careta ao balançar as pernas para fora da cama. "Ai. As articulações estão doendo. Então. Muesli?"
"Sim, por favor."
"Vou começar a preparar enquanto você se torna apresentável."
Ela me lançou um olhar longo e inescrutável ao sair, e eu fiquei imóvel por um momento, desejando mais do que tudo não precisar ir embora.
Ou que pudesse levá-la comigo.
.:.
Ela apertou minha mão com força na sua enquanto esperávamos em frente aos portões da plataforma. Meu trem estava programado para partir em poucos minutos, mas nenhuma de nós suportava sacrificar um momento que não fosse necessário. Eu podia ver que ela estava à beira das lágrimas, e meu próprio coração parecia ter virado chumbo no peito.
"Quando vou te ver de novo?", ela sussurrou.
Afastei o cabelo dos olhos dela e tentei sorrir para ela. "Assim que eu puder."
"Não deixe passar outros oito anos", ela disse, com um arrepio engraçado.
"Agora que sei onde você está, você vai ficar absolutamente enjoada de mim."
"Nunca", ela sussurrou. "Nunca, nunca, nunca."
O sistema de som crepitou ao vivo, sua cadência estranha e artificial irrompendo entre nós.
"Atenção, por favor. O trem na plataforma... sete... é o serviço Great Western das onze... quarenta e três... para... London Paddington. Este trem é composto por... oito vagões...""Você precisa ir", ela disse, engolindo em seco. Ela me apertou contra si, e emitiu um pequeno ruído quando a envolvi em meus braços.
"Lea..." eu arfei, a um fio de cabelo de desmoronar.
Ela se soltou e deu um passo atrás, balançando a cabeça.
"Não. Pare. O que quer que você fosse dizer, não diga. Você veio. Venha mais cedo da próxima vez", acrescentou, piscando para conter as lágrimas.
Ela me encarou, depois de repente se lançou para frente mais uma vez, emoldurando minhas bochechas em suas mãos finas para poder me puxar para si e me beijar — não um selinho, nem o duplo beijinho continente de afeto — isso era uma despedida de amante, cheia de paixão crua e anseio e dor e perda que me deixou trêmula, sem fôlego, e horrivelmente perturbada pela forma imediata como meu corpo respondeu a ela.
Gemi de pesar quando ela me soltou e eu olhei para ela, arfando ligeiramente, sem conseguir processar completamente o que ela tinha feito. O que... nós tínhamos feito.
"Vá. Você precisa ir. Agora", ela acrescentou, crua e quebrada. "Eu tenho que ir. Não posso me despedir assim. Não aqui, não assim. Não de você. Fique segura. Eu te amo."
Ela se virou e saiu cambaleando.
E, tola que eu era, eu a deixei ir.
Mas o sabor dela, a sensação dela contra mim. A sensação crua e amarga de ser enganada quando ela se afastou...
Essas eu embrulhei em papel de seda e seda e teias de aranha e raios de luar e me agarrei como a uma relíquia sagrada enquanto passava o resto do dia em minhas terras sombrias e cinzentas.
Duvido que teria conseguido dar um relato coerente de como cheguei em casa.
A única coisa que eu conseguia lembrar era a mensagem que enviei para avisar que estava segura, o pequeno x único com que ela respondeu.
A única emoção que eu conseguia processar era que eu estava categoricamente não bem.
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Era terça-feira à noite. Eu estava curvada no bar surrado do clube de hóquei, lentamente me embriagando com meu terceiro copo de um pinot noir realmente horrível. Ao meu redor fluía a conversa ruidosa dos membros do clube; mas eu tinha apenas a companhia da minha bolha de solidão.
Shane se arriscou. O articulador, agenciador, organizador, casamenteiro e pilar social do clube — e um dos meus poucos amigos próximos — só ele conseguia ver e interpretar minha postura como a agonia que era.
"Rosie", ele me cumprimentou ao se sentar ao meu lado.
"Ei."
"Você tá bem, amor?"
"Não."
"Quer conversar?"
"Não."
"Vai."
"Não."
"Você vai se sentir melhor."
"Não vou."
"Problemas com garota?"
"Mm", sussurrei, curvando-me ainda mais.
"Ah, céus. Não me diga que você conheceu uma que quer manter por perto?"
Shane me conhecia melhor do que a maioria, mas até ele recuou diante do olhar assombrado que lhe lancei antes de me virar.
"Ah", ele disse, baixinho. "Ah, merda. Essa cara conta uma história como nenhuma outra. Dave?"
"Sim, amigo", disse nosso barman.
"Cerveja, por favor. E continue trazendo."
"Claro, Shane."
Ele se inclinou para mim. "Conheço você há cinco anos. Fale comigo."
"Não." Eu estremeci, contive um soluço.
"Rosie, o que está acontecendo? Nunca te vi assim."
E o último resquício da minha força de vontade se consumiu na gentileza de sua compaixão.
"Minha melhor amiga. Minha melhor amiga da escola. A que eu perdi. A que... que... não vejo há anos."
"Essa é a... Lea, certo?"
"Finalmente a encontrei. Eu... a localizei neste fim de semana. Está... ela está... é um inferno, Shane. Ela está vivendo um inferno. E... e..."
"Ei. Ei, calma. Vem aqui."
Ele me envolveu com o braço e eu desabei contra ele, escondendo o rosto em seu ombro.
O silêncio floresceu para fora como ondulações num lago tranquilo, silenciando conversas, deixando pessoas olhando incrédulas.
A ordem natural do Universo tinha acabado de ser desfeita.
Rose estava chorando.
Rose estava chorando."Todo mundo, deem o fora. Rose precisa de espaço", Shane disse, calma e controladamente, sobre meus soluços abafados.
Ouvi cadeiras sendo arrastadas para trás enquanto as pessoas se afastavam.
"Desculpa", sussurrei. Esfreguei o rosto, furiosa comigo mesma por minha fraqueza. "Desculpa. Não devia ter vindo aqui. Agora estou estragando a noite de todo mundo também."
"Você não tem outro lugar, Rose. Nós sabemos disso. Somos sua família aqui. Sempre estaremos aqui por você."
Eu emiti algum ruído idiota, e ele me puxou contra si e beijou minha testa com seus lábios ásperos de barba por fazer. "Nós te apoiamos, amor", ele disse. "Ok?"
"Ok", sussurrei. "Desculpa."
"Então o que você vai fazer? Sobre sua amiga? Sobre Lea?"
Apertei os olhos fechados, tossi, respirei fundo.
"Eu sei o que quero fazer. Mas ela nunca vai aceitar. Vai significar desistir de tudo pelo que ela trabalhou tão duro."
"Tente com ela."
"Não preciso. Eu a conheço."
"Rose, as pessoas mudam. Talvez você não a conheça tão bem quanto pensa."
"Duvido."
Ele suspirou, mas não removeu o braço, e eu fiquei grata pelo peso reconfortante dele em meus ombros.
Percebendo que eu tinha sido desarmada e agora era seguro se aproximar, Dave se aproximou sorrateiramente e entregou a Shane sua bebida. "Diga para aqueles outros desgraçados que eles podem voltar agora", Shane disse a Dave. "A segurança dela está restabelecida. Defcon Cinco."
Dave riu baixinho. "Sim, pode deixar."
E claro que eu tinha acabado de começar a relaxar, acabado de esboçar um sorriso para Shane, quando a mensagem de Lea chegou.
Seu simples, sem maiúsculas, sem pontuação "preciso de você" me assustou muito mais do que tinha qualquer direito de fazer.
Fugi da sede do clube para a privacidade dos campos.
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Eu andava de um lado para o outro, esperando desesperadamente que ela atendesse.
"Lea?", perguntei quando ela finalmente atendeu. "Lea, é você?"
"Ah, Rosie. Eu estou... Ah, Deus. Eu estou... Sinto muito por te incomodar. Mas... mas você é a única... a única pessoa..."
Sua voz estava rouca; eu podia ouvir a mágoa nela que ela tão em vão tentava esconder de mim.
"Lea? O que foi? O que está acontecendo?"
"Nós... nós tivemos uma briga. Sobre a... a coisa que eu perdi..."
"Ah, Deus. Você está bem?"
"Não", ela gemeu.
"O que ele fez? Lea? Ele te machucou? Aquele... aquele monstro te machucou?"
"Não. Ele só... gritou. Muito. Alto. Com isso eu... eu consigo lidar. Mas... ele também me disse que não sou mais necessária..."
"Necessária... onde?"
"No departamento. Que ele encontrou uma... substituta para mim. Que como a futura Sra. Saunders ele... não queria nenhuma impropriedade, nenhum indício de nepotismo. Então ele ia simplesmente... me tornar redundante. Me transformar numa mulher sustentada. Uma figura decorativa. Eu me matei de trabalhar para conseguir esse posto, Rosie. E ele simplesmente tirou tudo de mim sem nem perguntar. Porque ele pode. Não tenho mais nada. Nada."
Eu cerrei minha mão livre em punho. "Vou matá-lo. Vou matar aquele desgraçado."
"Rose. Nem você pode consertar isso", ela disse baixinho. "Desculpe... é que... eu só queria ouvir sua voz... eu precisava falar com você, só isso..."
Agora eu podia ouvir o leve arrastar do álcool em sua voz.
"Lea, por favor, me diga que você está em casa", eu disse, um calafrio repentino descendo pela minha espinha.
"Estou. Por enquanto."
"Por favor. Fique aí esta noite. Por favor, não vá a lugar nenhum? Ok? Por favor. Me prometa. Lea. Por favor. Estou te implorando."
"Eu prometo", ela disse, numa voz que soava horrivelmente cansada e velha. "Não é como se eu tivesse escolha. Sem ter para onde ir agora; todos vão farejar o sangue na água. Rosie... o que eu vou fazer?"
"Quanto tempo você tem?"
"Um mês. Ele me deu aviso prévio de um mês."
"Mas é uma Universidade. Certamente existe algum tipo de..."
"Não para mim", ela disse baixinho. "Eles nunca me adicionaram oficialmente ao corpo docente. Estou apenas associada a eles. Fácil de vir. Fácil de ir. Eu estava esperando que..."
"Eu vou matar aquele desgraçado."
"Sinto muito", ela sussurrou, e minha raiva se apagou como uma vela.
"Você tem dinheiro, Lea? Para as próximas semanas?"
"Até o aluguel vencer. Depois estou ferrada", ela disse. "É tão irônico. Toda essa pantomima, e acaba me rendendo exatamente o que eu não queria."
"Lea, quero que você me envie seus dados bancários."
"Não. Não, Rose, não. Não vou fazer isso. Não posso fazer isso. Não."
"Lea. Por favor. Sou eu. Estou te implorando. Pelo amor de Deus, me deixe te emprestar algum dinheiro até a gente te colocar nos trilhos."
"Não tem como consertar isso, Rosie. Não há outro trabalho para mim aqui. Não há vagas. Eu verifiquei. E mesmo que houvesse, ele as fecharia para mim. Estou presa. Ele me possui agora."
"Não."
"Estou. Não há saída. Vou ter que me casar com ele e desistir do... dos poucos sonhos que ainda me restavam. Eu só... eu precisava ouvir sua voz antes de... me render."
"Não. Isso está errado. Não vou deixar isso acontecer com você."
Respirei fundo, tremendo, e me enchi de coragem.
"Lea. Me escute. Ainda há uma saída para você", eu disse. "Mas... vai significar grandes mudanças para você. Muito maiores e muito mais perturbadoras do que... do que essas que você já está enfrentando aí. Vai te custar tudo. Mas você estará livre dele."
"O quê? Do que você está falando?"
"Venha para cá. Venha para casa. More comigo até você se reerguer. Abandone aquele maldito... aquela coisa e a manipulação dele. Volte para casa, para mim."
O silêncio se estendeu.
"Lea?", eu sussurrei, trêmula. "Por favor. Ah, Deus. Por favor, diga alguma coisa."
"Você não pode me oferecer isso", ela disse, baixinho. "Você não pode balançar isso na minha frente. Você não pode pegar meus problemas para você de novo. Isso não é justo com você, Rose. Eu não posso fazer isso com você."
"Lea. Por favor. Estou te implorando para vir para casa", eu sussurrei.
"Por favor, pare com isso", ela disse, enquanto sua voz se partia. "Por favor, não implore assim. Você está partindo meu coração. Não suporto ouvir você me pedir isso desse jeito."
Eu surtei.
"Para de ser tão difícil, caralho!", eu gritei para ela. "Para, para, para, para! Jesus Cristo, Lea, você não consegue ouvir o quanto eu preciso que você volte para mim! Você está me matando!"
E então eu desabei sobre meus calcanhares, cabeça contra os painéis publicitários, arfando, lutando contra as ondas de perplexidade e raiva e mágoa ao pensar que ela escolheria sua prisão em vez de mim.
"Rose?", ela disse, depois de algum tempo, numa vozinha estranha. "Rose? Rosie? Você ainda está aí? Sinto muito. Sinto muito mesmo."
Eu engasguei, tossi bile, arquei por ar. "Eu... não consigo fazer isso. Não posso... te perder de novo. Eu tenho... tenho que ir. Tenho que... chegar em casa de algum jeito. Não consigo... não consigo lidar com sua rejeição agora. Só me deixe chegar... em casa primeiro para eu estar segura. Aí você me diz. Aí você vai... estar livre de mim."
"Rosie," ela sussurrou. "Não. Espera. Por favor. Para. Por favor. Por favor... só... só seja honesta comigo. Você realmente quer isso? Você... você me quer tanto assim aí?"
"Sim, sua vaca idiota," eu gemi. "Sim. Você precisava mesmo perguntar isso?"
E então ela ficou em silêncio por um momento. Eu limpei minha boca, cuspi mais bile, tentei me acalmar para a caminhada amarga até em casa.
"Ok," ela sussurrou. "Eu vou voltar para casa, para você."
"Você... você vai voltar para casa?"
"Sim. Para você."
E então o pobre Shane teve que enfrentar o frio congelante para vir e me resgatar gentilmente de novo.
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Eu entrei em ação. Esvaziei meu quarto de hóspedes, descartando qualquer coisa que não fosse absolutamente essencial no ponto de coleta de caridade no fim da rua, tirando pó e limpando como uma empregada psicótica até cada superfície brilhar. Eu desci sobre as lojas como um dervixe, encomendei uma boa cama de casal e armários da Ikea e os montei com ferramentas emprestadas em uma noite frenética.
Adicionei almofadas no sofá nas cores que ela amava, pendurei gravuras de algumas de suas obras de arte favoritas de Dali e Turner nas paredes, e nos dias antes da nossa data combinada, abasteci a geladeira e fiz uma maratona de compras para garantir que ela tivesse lençóis limpos e fronhas novas de algodão egípcio que ela sempre gostou.
Isso explodiu uma cratera nas minhas economias, mas eu não me importei. Eu vivia frugalmente e poderia me recuperar com o tempo.
Enquanto isso, minha Lea teria um espaço seguro só dela. Espaço para viver, para respirar.
Espaço para curar.
Em Bristol, ela deu aviso prévio em seu apartamento e silenciosamente empacotou os pedaços de sua vida que traria. Ela configurou um redirecionamento de correspondência nos correios, mas não contou a ninguém que estava indo embora.
"Não tenho mais amigos de verdade aqui," ela me disse, em uma de nossas longas conversas telefônicas noturnas. "Ninguém de quem eu realmente sentirei falta, e ninguém que sentirá falta de mim."
Mais uma vez, me vi contando os dias, e então as horas.
Eu a encontrei na plataforma em Paddington. Eu a peguei em meus braços, segurando-a contra mim, dando-lhe algum tempo para recuperar o fôlego. Peguei suas duas malas e coloquei sua mochila pequena no ombro, ignorando seus apelos desesperados para que a deixassem ajudar. Eu a guiei pelas entranhas da rede do metrô, e a escoltei até nosso trem em St Pancras. Eu a instalei no assento da janela, joguei suas malas com força no bagageiro acima de nós, e então me deixei cair no assento ao lado dela. Ela me olhou com os olhos arregalados, então tateou pela minha mão, apertando-a com força enquanto nosso trem sacudia e começava a se afastar lentamente da estação.
"Você é uma passageira assustadora," ela sussurrou. "Deus ajude o resto deles."
"Eu vou fulminar qualquer um que olhar torto para você," eu rosnei, e ela me deu um pequeno sorriso corajoso.
"Rosie..."
"Não. Aqui não. Não em público. Vamos conversar sobre tudo que precisamos quando estivermos em casa. Por enquanto, só respire. Você saiu. Você deu o primeiro passo. Você mudou seu número como eu mandei?"
"Sim. Mas... eu dei o número novo para a mamãe. Eu sou tudo que ela tem."
"Tudo bem. Contanto que o El Fodido não tenha e não consiga, é só com isso que me importo."
"Não consigo acreditar que estou fazendo isso."
Eu apertei a mão dela. "Acredite. Eu cuido de você, Lea. Vou cuidar de você pelo tempo que você me permitir."
Ela estremeceu, virou-se, escondeu o rosto contra mim. "Graças a Deus você voltou para a minha vida quando voltou."
"Como se eu alguma vez deixasse você se amarrar a alguém sem minha permissão," eu sussurrei, e ela deu uma risada engasgada.
Ela observou, com os olhos um pouco arregalados, enquanto Londres dava lugar ao verde. Ela disse pouco, e se agarrou a mim como uma menininha assustada. As únicas vezes que ela soltou minha mão foram quando descarregamos em St Albans, quando subimos no táxi que chamei para nós, e enquanto subíamos as escadas para o apartamento.
Eu abri a porta com o ombro e a segurei para ela. Ela entrou sorrateiramente, hesitante, curvada, olhando ao redor incrédula para as superfícies limpas, a cor e a miscelânia que eu tinha adicionado nas agitadas duas semanas desde que tínhamos tramado nosso plano maluco.
"Bem-vinda ao lar, Lea," eu sussurrei. "Seu quarto está pronto para você." Fechei a porta atrás de nós e carreguei suas malas pelo curto corredor.
"Não tem banheira, receio, mas o chuveiro é decente e o aquecedor de água é a gás, então tem muita água quente. Então... aqui, este é você. Comprei uma escrivaninha para você, e umas mesinhas de cabeceira e aquele abajur que é como o que você costumava ter no seu quarto."
"Ainda estou procurando uma cadeira, mas você pode usar a minha até encontrarmos uma que você goste. Os armários são todos seus, e encomendei um tapete para podermos suavizar o chão um pouco para você, se quiser. Ah, e tem uma pequena vista do parque se você se esticar na janela. Não é muito. Queria que fosse mais."
"Está perfeito," ela respirou. Ela se sentou na cama, e passou as mãos lentamente sobre o algodão vinho escuro da capa do edredom. Ela balançou a cabeça, olhou ao redor do quarto iluminado pelo sol, então para mim. "Oh, Rose. Meu coração. Eu nunca posso..."
"Pare," eu disse. Eu me ajoelhei na frente dela. "Pare. Não. Não se atreva. Você merece isso e muito mais. Só me deixe fazer isso por você. Por favor, Lea."
"Ok," ela sussurrou.
"Vou colocar a chaleira no fogo. Desfaça as malas e se acomode. Ok? Vou fazer algo para comermos também."
"Ok."
Eu a deixei com seus pensamentos e fui para a minha... para a nossa pequena cozinha. Coloquei a chaleira no fogo. Peguei um pouco de pepino e queijo da geladeira. Fatiei-os e encontrei algumas azeitonas e biscoitos que arrumei em um prato. E escutei os sons suaves enquanto ela desempacotava as pequenas partes restantes de sua vida que conseguira salvar.
Então eu só me encostei na janela, olhando para as árvores distantes, consciente de pouco além da estranha tensão entre o estresse de sua presença e a alegria feroz que ameaçava me dominar.
Ouvi passos suaves, e estremeci quando ela deslizou seus braços delgados ao meu redor e se pressionou contra minhas costas.
"Não é um palácio como você merece," suspirei. "Mas vou trabalhar nisso."
"Está lindo," ela sussurrou de volta. "E é muito mais do que eu mereço. Obrigada."
Cobri as mãos dela com as minhas, e as apertei fortemente contra mim.
Lentamente, ela se descontraiu. Ela explorou o apartamento como um animal resgatado dando seus primeiros passos hesitantes rumo à liberdade. Encontrou um canto ensolarado em nosso pequeno sofá que lhe dava uma vista que gostava. Desempacotou e checou e limpou seu clarinete. Tomou um longo banho, vestiu algumas roupas macias e sem forma e meias felpudas e bebeu uma taça de vinho branco comigo. Ligou para a mãe para avisar que estava segura e chorou um choro bom, sólido, cheio de ranho e de partir costelas depois. Eu fiquei por perto, mas não pairei; sabendo que ela precisava desabafar, aliviar a pressão pouco a pouco.
Então, ainda fungando e desgrenhada, ela vasculhou o freezer. Encontrou os ingredientes para um almoço tardio, e rejeitou qualquer tentativa ou oferta de ajuda.
"Eu vou cozinhar para você todos os dias," ela me disse em meio às lágrimas. "Todos os dias. Aceite isso agora. Vai te poupar tempo. Nem pense em objetar."
Então eu sentei e a observei quietamente, e mais um pequeno caco da minha alma despedaçada foi curado.
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"Você tem certeza de que está quente o suficiente?" perguntei a ela de novo.
"Pare de me tratar como bebê."
Eu mostrei a língua, e ela sorriu. "Estou bem. Sério. Este casaco parece horrível, mas é muito quente."
"Ok."
Seguimos andando, seguindo um dos caminhos sinuosos pelo parque, contornando as áreas abertas mais novas, caçando os espaços secretos de que nos lembrávamos de nossa infância. Eu adorava a sensação do braço dela no meu, o jeito natural como nos encaixávamos uma na outra apesar dos anos quebrados entre nós. Adorava o jeito como ela espontaneamente se inclinava contra mim, apoiando a cabeça na minha. Adorava a leve cor em suas bochechas, o jeito simples como enrolara meu cachecol de hóquei em volta do pescoço, prendendo o cabelo em suas dobras de tricô. Ficamos em silêncio, mas não de um jeito constrangedor, apenas presentes uma com a outra, experimentando essa coisa nova entre nós, esse novo capítulo.
"Preciso encontrar trabalho, suponho," ela suspirou, enfim.
"Você tem alguma ideia do que quer fazer?"
"É sobre o que vou precisar fazer. Trabalhos temporários para tapar os buracos, acho."
"Talvez você possa anunciar aulas de música?"
"Não tenho onde ensinar, Rosie."
"Use o apartamento."
"Não. Esse é o seu espaço."
"É o nosso espaço, Lea. Seu e meu."
"Não. Estou só de passagem."
"Você realmente pensa isso?"
"O quê?" ela respirou.
"Você realmente acha que vou deixar você ir tão facilmente?"
"Rosie..."
"Se precisarmos de mais espaço, podemos achar um apartamento com mais espaço. Não vou deixar você se mudar para um buraco, Lea. Simplesmente não vai acontecer. Claro. Talvez quando você estiver estabelecida e quiser seguir em frente e ficar com algum cara e ter os três filhos e meio e um vírgula sete spaniels. Mas não agora. Não até eu ter certeza de que você vai ficar bem. E enquanto isso, o que você precisar, eu farei. Você sabe disso."
Ela tropeçou, parou. Ela se virou para longe de mim.
Dei a ela o momento de que precisava.
"Não mereço você," ela sussurrou, depois de algum tempo.
"Você é a pessoa mais importante do mundo para mim," eu lhe disse. Envolvi meus braços ao redor dela, a segurei. "Nada nunca mudou isso. Se você decidir que quer seguir em frente algum dia, essa é sua decisão. Mas eu nunca, jamais, vou deixar você ir por vontade própria. Nunca mais."
Ela suspirou, olhou para as nuvens altas enquanto se recompunha. Ela recostou a cabeça no meu ombro, rosto colado ao meu. "Você tem certeza sobre... sobre a música?"
"Eu trabalho todo dia, e tenho treino de hóquei quase todas as noites. O apartamento fica vazio. Claro que você deve usar. Você deve fazer qualquer coisa que quiser. Só... se você for trazer garotos para casa, me avise antes."
Ela bufou suavemente. "Ah, isso nunca vai acontecer. Eu sou muito... seletiva."
"Se acontecer, no entanto. Só... me avise para eu não entrar de repente para defender sua honra."
"Vou anunciar aulas de música no apartamento. Mas só até encontrar algo melhor. Ok?"
"Combinado," eu disse, olhando para ela, intrigada pelo jeito como ela tinha ignorado tão diretamente as indiretas, as provocações.
Ela foi a primeira a se afastar.
"Tem muitas startups e pequenas empresas espalhadas por aqui," eu disse, desviando minha linha de pensamento do desvio. "Você se formou em Inglês também, não foi?"
"Sim."
"Eu lembro como você escrevia bem. Você ainda escreve alguma coisa?"
"Um pouco. Às vezes."
"Bom, então isso é algo mais que você deveria considerar. Revisão, redação. Eu sei que não é o que você ama, mas... você seria incrível nisso. Vivemos tendo problemas com as coisas que publicam no trabalho. Se você quiser... eu poderia perguntar se precisamos de um contratado? Poderia ser uma boa entrada para você? Até você ter um fluxo constante de alunos?"
"Eu não sei..." ela disse, insegura.
"Vale a pena investigar. Você tinha um jeito realmente especial com as palavras, Lea."
"Acho... acho que você pode. Por enquanto eu... eu ainda estou tentando me convencer de que não estou sonhando. Que isso é real."
"Você não está sonhando. Você está aqui. Você está em casa."
"E você também," ela sussurrou.
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"Lea?"
Ela ergueu os olhos de seu tablet. "Oh. Uau. Você está maravilhosamente atlética..."
Eu corei. "Pare com isso. Eu tenho treino de hóquei. Escuta... eu sei que é sua primeira noite aqui e você está cansada e provavelmente só quer relaxar, mas eles são um grupo legal, então... hum... você quer vir junto?"
"Você tem certeza? Não quero invadir seu espaço..."
Eu só a encarei, e ela teve a decência de corar pela bobagem que tinha dito.
"Eu não perguntaria se não quisesse que você viesse. Temos um pequeno bar e você pode tomar um vinho ou café na minha conta enquanto estivermos lá, se quiser. Eles vão cuidar de você... então... quer vir?"
"Ok. Isso parece legal. Além disso, eu... eu gostaria de não ficar sozinha. Esta noite, quero dizer..."
"São dez minutos a pé, então não é muito longe. Pegue seu casaco, vai estar frio na hora de voltarmos para casa."
Ela me seguiu escada abaixo; eu segurei a porta para ela, então balancei minha bolsa de equipamento para o ombro oposto. Peguei na mão dela, e ela me deu um breve sorriso. "Ainda sinto que estou sonhando," ela confessou.
"Tenho certeza de que isso vai passar."
"Não quero que passe. Tudo está com essas cores maravilhosamente brilhantes, pela primeira vez."
Caminhamos até a sede do clube em um silêncio confortável e companheiro, cada uma contente em seus próprios pensamentos. Eu a instalei em uma das mesas melhores e ameacei Dave com uma violenta e prolongada mort par Rosie se ele falhasse com ela de qualquer forma.
Ele riu, Lea sorriu, e os dois se deram bem como se tivessem sido separados no nascimento. Eu a observei por um momento, ferozmente orgulhosa de sua adaptabilidade e contente por tê-la trazido. Fui para os vestiários e descarreguei minha bolsa e equipamento extra. Então me dirigi ao campo.
Estava extremamente frio, mas os exercícios de condicionamento logo tiraram o pior. Eu transpirei, entrei no meu ritmo. Jogamos algumas partidas rápidas de cinco contra cinco na metade próxima do campo de grama sintética, e em algum momento percebi que ela estava parada no portão, me observando.
"Vá para dentro, sua maluca," eu ri para ela, enquanto fazia uma breve pausa para água e vinha me aquecer em seu brilho.
"Não," ela disse. "Eu senti falta de ver você fazer isso. Me deixe ter meu tempo como sua fã número um e pare de me dar ordens," ela concluiu, com um sorriso.
"Só não fique com frio, ok?"
"Eu entro se ficar. Juro de mindinho. Estou com meu casaco e seu cachecol. Estou quentinha por inteiro. Agora, vá," ela acrescentou, me dando um tapa brincalhão no traseiro para me apressar.
O conhecimento de que ela estava lá tornava tudo melhor, embora eu tivesse que me esforçar para não ficar constantemente roubando olhares para ela.
E, claro, minhas colegas de time notaram. Notaram ela, e notaram como eu ficava desajeitada e sem jeito perto dela.
Olhares significativos foram trocados. Tosses foram tossidas. Sorrisos foram sorridos.
Eu ignorei todos eles.
Mas depois, na sede do clube, enquanto eu tentava desfrutar de uma bebida tranquila com Lea, meu clube teve um prazer perverso em me torturar vindo um de cada vez se apresentar à nova amiga de Rosie.
Idiotas, todos eles, e eu repreendi a todos enquanto Lea ria de mim com uma luz adorável nos olhos.
Quando saímos para a noite, Lea tinha sido avaliada, cutucada, sondada, aprovada, abençoada e estava bem encaminhada para ser adorada por todos.
E eu estava ferozmente grata por eles, e ferozmente orgulhosa dela, e incrivelmente feliz.
Era tarde quando finalmente chegamos em casa. Lea estava destruída; ela tropeçou, bocejando, até o banheiro, escovou os dentes e foi para o quarto. Ela puxou a porta quase fechada atrás de si. Eu, enquanto isso, tive um longo encontro com o chuveiro, emergindo rosada e fresca.
Parei na porta dela. "Lea?" chamei suavemente. "Ainda está acordada?"
"Mm. Mais ou menos."
"Ok. Boa noite, docinho. Até amanhã. Grite se precisar de qualquer coisa, ok?"
"Boa noite, Rose. Te amo. Durma bem," ela bocejou.
Eu empurrei a porta do meu quarto parcialmente fechada e me arrastei para a cama, mas demorei um pouco até me acomodar o suficiente para dormir.
Eu continuava tendo que lutar contra o impulso de me enfiar na cama com ela.
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Passos me acordaram de um cochilo leve. Estava escuro. Senti um momento de alívio por poder dormir mais.
Escutei enquanto Lea andava descalça até o banheiro. Houve um silêncio, então o som de água corrente. Esperei pelo rangido suave de sua porta.
Mas, em vez disso, a minha se abriu lentamente.
Ouvi sua camisola roçar na porta e na parede. Ela deu alguns passos suaves. Então senti meu edredom se mexer quando ela o puxou; meu colchão se deformou enquanto ela se deitava gentilmente sobre ele.
Soltei a respiração que estava prendendo; ela congelou por um momento. Então ela lentamente deslizou para perto de mim. Estremeci ao sentir sua pele fria contra mim, e reprimi o ruído que quase fiz quando ela nos cobriu e então passou seu braço sorrateiramente ao meu redor, logo abaixo dos meus seios nus.
"Rose? Eu sei que você está acordada," ela respirou. "Posso sentir seu coração acelerado."
"O que... o que você está..."
"Estou com frio e sozinha. E não consigo dormir."
"E..."
"Então vim caçar calor. E companhia."
"Mm. Sério?"
"Sim. Eu precisava estar perto de você."
Ela se mexeu contra mim, se aninhando mais perto. Tentei relaxar, mas algo no seu cheiro, na sua presença, teve o efeito oposto em mim. Me contorci involuntariamente. Mordi o lábio, com força, enquanto tentava afastar meus pensamentos de como ela era gostosa contra mim.
— Gostei do jeito que as pessoas olhavam para a gente no seu clube — ela sussurrou. — Gostei quando perguntaram se éramos... um casal.
— Eles estão desesperados para encontrar rachaduras na minha fachada — murmurei, tentando ignorar o quanto a proximidade dela estava me perturbando.
— Bem. Encontraram uma. Eu.
— Você não é uma rachadura na minha fachada. Você é minha pedra fundamental — gemi.
Ela suspirou.
— Rose. Você precisa tomar mais cuidado com o que faz comigo quando diz coisas assim. Palavras têm poder.
Rolei em direção a ela.
— O que você quer dizer? É como eu me sinto em relação a você. É como sempre me senti.
Ela suspirou.
— Sim. Mas... quero dizer...
— Lea, você está balbuciando...
— Esquece — ela sussurrou.
— Não. Não vou. Você veio aqui com algo na cabeça e eu sei que você quer falar sobre isso.
Ajeitei a cabeça no braço para poder observá-la.
— Então me diz o que é.
Ela mal era visível na fraca luz ambiente; uma silhueta, a sombra de uma garota. Eu não conseguia ver seu rosto, mas dava para perceber pelo tom da voz que ela estava estressada.
— O que é, Lea?
— Lembra quando eu te disse que trazer garotos aqui não seria um problema para mim?
— Vagamente.
— Eu... eu tenho...
Ela engoliu em seco.
Procurei sua bochecha às cegas, a acariciei suavemente na mão.
— Só respira. Estou aqui.
— Esse é justamente o problema — ela disse, com uma risadinha estranha.
— Por quê?
E então eu estremeci quando ela passou lentamente a mão pela minha espinha, demorando-se brevemente na base das minhas costas.
— Ah... — suspirei, quando a ficha finalmente caiu.
Ela deslizou os dedos mais para baixo, e eu a senti tomar um fôlego trêmulo. Gemi quando seu toque acendeu chamas em mim.
— Eu nunca fiquei com ninguém — ela sussurrou baixinho. — Nunca. Estava me guardando. Porque... porque... sempre foi você, Rosie. Sempre foi só você que eu quis. Então... eu esperei. Por você.
Estremeci, dei um arquejo ofegante.
Ela se moveu em minha direção.
Eu sentia o cheiro suave do seu sabonete, o subcheiro dela por baixo.
Meu coração estava disparado agora; tentei ser adulta, tentei afastar a necessidade.
Eu sabia que ela estava quebrada. Sabia que eu estava quebrada.
Mas conforme ela, lenta e timidamente, começou a se esfregar em mim, o último resquício do meu controle se incendiou.
— Eu te amo — ela sussurrou, e eu me rendi incondicionalmente a ela.
Fechei meus braços ao redor dela, a puxei para mim, por cima de mim para que eu pudesse tê-la mais perto. Seus lábios estavam quentes nos meus, seu corpo leve como uma pluma enquanto ela rolava meio por cima de mim. Ela estava tremendo, arfando por ar enquanto eu a puxava para mim, a segurava contra mim, segurava minha Lea contra mim enquanto as últimas fronteiras frágeis entre nós se dissipavam como fumaça.
Ela jogou a perna por cima de mim e se ergueu para me montar. Ela se arqueou para a frente e me beijou, depois minhas bochechas, depois, hesitante, minha garganta. Gemi. Senti seus dedos deslizarem pelas minhas costelas até meus seios. Tateei por suas mãos, as guiei, mostrei a ela como me provocar. Ela aprendia rápido. Seus beijos eram deliciosos e insistentes. Minha necessidade era quase insuportável. Mas a gente precisava... a gente não devia...
— Devagar... mais devagar — implorei, quando consegui. — Desacelera. Desacelera, você... eu estou...
— Não — ela gemeu. — Esperei tanto por você. Achei que nunca te teria e então, justo quando estava prestes a perder a esperança, você voltou para mim. Não vou esperar mais. Eu preciso de você. Eu desejo você.
Ela se sentou ereta, e se mexeu. Senti o tecido de sua camisola roçar em mim quando ela a puxou para cima e a tirou. Ela desabou para a frente de novo, e dessa vez senti o calor de seus seios contra os meus. Soltei um gemido longo e arrepiado. Puxei-a para mim mais uma vez, as pernas tremendo e espasmando enquanto ela apertava os dedos nos meus mamilos doloridos.
— Me mostra como fazer amor com você — ela implorou. — Me mostra como ser o que você quer. Me ensina a fazer isso. Eu quero ser o que você quer...
— Você é — gemi. — Você sempre foi. Ai, Deus, ai, Deus, só, só me toca do jeito que você está. Beija... mm... ai, Deus... me beija do jeito que... você está... você é perfeita... eu te amo... eu te amo — gritei, e ela estremeceu seu eco no meu pescoço.
Senti-a tateando em mim, e soltei um "sim" fino e esganiçado quando ela conseguiu enfiar a mão por dentro das minhas leggings, me alcançando. Cravei as unhas nas costas dela quando ela me encontrou. Ela gritou, se inclinou para o nosso beijo, então se mexeu para fora de mim, deitando-se ao meu lado, e desajeitadamente provocou meus lábios doloridos abrirem. Eu estava encharcada, e ela soltou outro gemido baixo e ofegante de desejo quando encontrou minha entrada.
— Lea, Lea, por favor, por favor, por favor — implorei, me contorcendo contra ela. — Coloca seus dedos em mim, por favor, por favor, coloca eles... assim... assim...
Tateei para baixo, encontrei sua mão, a segurei, a enfiei dentro de mim, gritando enquanto meu corpo se contraía nela. Encontrei meu clitóris, comecei a me masturbar furiosamente enquanto ela empurrava os dedos mais fundo em mim, arfando no meu pescoço, mordendo minha orelha, esfregando a barriga no meu quadril enquanto me possuía.
Pareceram meros segundos. Seus dedos eram perfeitos em mim, perfeitos, e eu podia sentir meu orgasmo se formando.
— Lea — arfei. — Lea, vou gozar. Vou gozar. Vou... eu vou...
E então meu corpo começou a tremer enquanto ela me quebrava. Me arqueei para cima, as costas travando, e ela se cravou em mim quando comecei a convulsionar contra ela, arfando sem palavras, tremendo incontrolavelmente, total e absolutamente dela.
Ela me segurou apertado contra si, os dedos ainda afundados em mim, me deixando diminuir, me deixando voltar para ela. E então ela simplesmente rolou para o meu lado e descansou a cabeça no meu ombro, apenas estando ali comigo, respirando, enquanto eu tentava lembrar como falar. Estremeci, arfei quando ela lentamente retirou os dedos de dentro de mim, minhas coxas apertando sua mão. Ela beijou meu pescoço, e eu estremeci de novo.
— Esperei muito tempo por isso — ela gemeu. — Ter você como minha.
Enfiei meu braço por baixo dela e a puxei contra mim; ela rolou parte por cima de mim, descansando contra mim, sua mão escorregadia e pegajosa entre meus seios. Eu podia sentir meu cheiro nela, um aroma escuro e pungente misturado ao dela, e meu corpo espasmou de novo.
— Rosie? — ela respirou.
— Ainda... Deus... não consigo...
Ela riu baixinho na garganta.
— Então foi legal, foi?
— Tão... legal. Ai... ai meu Deus... precisava disso...
— Fico feliz. Considere um pequeno algo para equilibrar as coisas.
— Não — sussurrei. — Não. Eu não vou. Não vou deixar você... se usar para mim... de jeito nenhum. Nunca.
Tateei por ela, a puxei para mim, a beijei forte, depois interrompi para respirar. Ela suspirou e enfiou o rosto contra mim.
— Desperdiçamos tantos anos, você e eu — ela sussurrou.
— Eu sei. Mas você está aqui... agora, e eu estou aqui agora. E... eu nunca vou deixar você me deixar de novo.
— Então me faz sua — ela respirou.
— Você tem certeza? Certeza de que quer isso? Não... não tem volta. Se você... se você me deixar fazer isso com você, eu vou...
— Você vai... o quê?
— Nunca mais vai existir mais ninguém. Se você algum dia... for embora... isso... isso seria o fim para mim.
— Rosie — ela suspirou. — Como eu poderia, por vontade própria, te deixar? Eu quero ser sua. Quero cada parte de mim ser sua. Sua e somente sua. Você... você me completa. Então. Vem aqui. Vem aqui e me beija...
E eu silenciei o resto de suas palavras com meus lábios, e a segurei contra mim enquanto seu corpo inteiro estremecia.
Eu a empurrei suavemente para a cama. Beijei sua bochecha, sua garganta, descendo pelos ombros, descendo por seus seios pequenos e firmes e os nódulos duros de seus mamilos.
— Rosie... o que...
Descendo por suas costelas, descendo por sua barriga trêmula.
Ela gemeu, longo e baixo, enquanto meus lábios percorriam sua barriga. Ela moveu a perna, se abrindo enquanto eu mordiscava, provocava mais para baixo, abaixo do umbigo, então mais baixo, mais devagar, sobre a penugem felpuda do seu monte. Ela estremeceu uma vez, moveu a bunda para o meio da cama, e gritou, se contorcendo quando cheguei ao seu sexo.
— Rose — ela implorou —, o que você... o que você está...
— Fazendo amor com você — sussurrei. — Eu vou te tomar. Vou te lamber até você gritar. Vou fazer você esquecer o próprio nome.
E então toquei a ponta da minha língua nela, e ela fez um barulho que eu nunca tinha ouvido antes, um grunhido baixo e primal de desejo. Suas coxas tremeram quando a toquei, ela arranhou a barriga, depois os seios, estremecendo enquanto eu provocava a ponta do meu dedo ao longo dela.
— Lea?
— Uh huhn
— Me diz para parar se você precisar.
— Não. Não. Não. Não para. Por favor. Não. Não para. Por favor.
— Ok.
E então ela soltou um gemido longo, glorioso e rouco de contralto quando a penetrei.
Comecei a lambê-la lentamente, provocando a ponta da minha língua ao redor da base do seu clitóris. Ela tinha um gosto delicioso; sua pele era maravilhosamente suave, sua vagina tão apertada e quente em mim. Suas coxas se fechavam ritmicamente nas minhas bochechas, me apertando no compasso das lambidas lentas e torturantes da minha língua. Eu podia ouvi-la arfando, sentir o cheiro do seu suor, e meu próprio pulso estava alto em minhas veias.
Eu queria que ela gritasse. Queria explodir sua mente, mostrar com meu corpo o quanto eu a amava, o quanto eu precisava dela, o quanto tê-la de volta significava para mim.
Seus músculos se apertaram em mim, e ela gemeu. Seus arquejos ofegantes por ar eram fracos, agudos e desesperados. Ela tinha inclinado os quadris, se abrindo mais para mim. Eu podia sentir o jeito que sua barriga estava espasmando, o jeito que cada músculo que eu conseguia sentir estava tensionando ligeiramente mais a cada segundo que eu a lambia.
— Rosie — ela conseguiu. — Rosie. Não. Não para. Por favor. Ai, por favor. Ai, por favor. Ai... Ai...
Ela parou de se contorcer. Senti suas coxas tensionarem. Empurrei dois dedos fundo nela, e ela convulsionou para fora da cama. Senti suas mãos me arranhando, e ela soltou um arquejo grunhido, estremecendo forte contra mim. Ela caiu para trás, e soltou um gemido profundo, longo e gutural que fez meus dedos do pé se curvarem de prazer solidário.
E então ela simplesmente ficou deitada lá, arfando a cada dois segundos, mole como uma marionete cortada das mãos do marionetista.
Provoquei-a só mais um pouco, então me retirei dela para poder deslizar lentamente meu corpo para cima ao longo de seu peito escorregadio de suor e beijá-la de novo.
.:.
— Rosie? — ela sussurrou, um tempo incalculável depois.
— Sim.
— Aquela coisa que você fez.
— Que coisa?
— Com seus dedos. E sua... língua.
— Uh huh.
— Foi muito legal.
Eu ri baixinho, e depois de um momento, ela também.
Ela se mexeu nos meus braços, empurrou a perna suavemente contra mim.
— Você percebe que vai ter muita presunção no clube. Minha reputação vai ser arruinada.
— Com medo de todos descobrirem que você é na verdade uma manteiga derretida?
— Passei anos cultivando minha imagem de Valquíria. Você a desfez em um dia.
— Tão triste — ela sussurrou. Eu podia ouvir o sorriso maroto em sua voz. Ela se mexeu, esticou o braço mais sobre mim, então se acomodou contra mim com um suspiro.
— É melhor a gente transformar aquele quarto de volta em escritório.
— E comprar uma cama maior.
— Sim. Você tem um cheiro tão bom. E é tão incrível de sentir. Eu não quero dormir separada de você.
— Vamos ter que contar aos nossos pais em algum momento, sabe.
— Em algum momento. Não agora. Vamos só... ter um tempo para nós mesmas, primeiro. Para aprender... nós.
— Ok.
— Eu amo como você simplesmente... me entende.
Beijei sua testa, e sorri ao sentir seu suspiro.
— Que horas você acha que são? — ela respirou.
— Cedo.
— Manhã?
— Ainda não.
— Que bom. Quer dizer que tenho mais tempo com você antes de você ter que ir.
— Estou tentada a ligar dizendo que estou doente. Passar o dia assim com você. Só me mexer para comer.
Ela riu.
— Vai ter muito tempo para isso depois. Vou garantir de estar posada em algum lugar... legal... para você quando você chegar em casa.
Puxei-a mais apertado para mim, saboreando o guinchinho ofegante que ela soltou.
— Obrigada — sussurrei.
— Pelo quê?
— Por voltar.
— Como se eu tivesse escolha. A garota que eu amo me pediu para vir para ela.
Dei um fôlego trêmulo enquanto a emoção subia em mim.
— Rosie? — ela respirou. — O que foi, amor?
— Só... — sussurrei.
— Shh. Tudo bem. Eu... eu sei. Eu sei.
— Desculpa — respirei, enquanto enxugava os olhos. — Sendo toda estúpida e tal.
— Você pode ser estúpida comigo.
— Você me deixa estúpida — sussurrei, e ela riu baixinho mais uma vez.
Comecei a passar os dedos suavemente pelo cabelo dela, e ela fez um barulhinho feliz contra mim.
— Você me derrete — ela murmurou. — Sempre derreteu.
— Sinto muito por não ter estado lá para te proteger de tudo.
— Isso só torna tudo isso ainda mais doce.
Ela bocejou, e se mexeu ligeiramente contra mim.
A acalentei contra mim enquanto ela lentamente adormecia em meus braços, e então eu apenas fiquei deitada lá, testemunhando muda enquanto a luz lenta do pré-amanhecer transmutava suas sombras em cores e a tornava real.
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Lentamente os dias se tornaram semanas. Lea perdeu o olhar assustado por trás dos olhos conforme o medo de o outro sapato cair lentamente a deixava. Eu a administrava implacavelmente às vezes, nunca a deixando questionar a si mesma, nunca a deixando duvidar de seu lugar central na minha existência. Eu a abraçava o máximo que podia, a beijava tantas vezes quanto ela deixava e, sim, a fazia gritar meu nome sempre que ela me queria.
O que era frequente.
E mesmo enquanto eu trabalhava tanto para curá-la, descobri que ela estava fazendo sua própria mágica em mim.
Minha raiva se dissipou, bruxuleou e, finalmente, morreu. Eu sorria, frequentemente e sem motivo. Ela se sentou no meu colo uma noite e pintou minhas unhas, e apesar de meus protestos eu tive que confessar que gostei do mimo e das cores ridículas que ela escolheu para mim.
Ela se jogou na culinária, e toda noite se tornava uma competição para ela tentar se superar no nosso orçamento inicialmente apertado.
Ela ganhou peso. Não muito, mas o suficiente, e eu adorava o jeito que ela começava a ter curvas de novo, o jeito que eu podia sentir sua maciez quando a abraçava.
Eu me encostava na porta do banheiro, observando-a tomar banho, amando o rubor que nunca deixava de se enraizar, o corado que ela nunca perdia totalmente, não importa o quão íntimas fôssemos. Suas costelas ainda apareciam, mas agora eram pontuação em vez de enredo, e as olheiras escuras sob seus olhos tinham sido quase afastadas.
Eu passava menos noites na sede do clube, e comecei a dedicar pelo menos duas noites de semana exclusivamente a ela. Saíamos para caminhar, explorávamos nossa vizinhança imediata, perambulávamos pelas ruelas menores conforme as folhas começavam a mudar.
Ela me ensinou como era ser abraçada, e ser amada — incondicionalmente e sem reservas.
Aprendi que ela adorava ter a base das costas beijada, e que ela iria ao extremo de esconder o último pedaço de uma barra de chocolate para poder, rindo, compartilhá-lo comigo mais tarde.
Ela aprendeu que podia me deixar insensível ao se esgueirar por trás de mim e me beijar na curva onde meu pescoço e ombro se encontravam.
Descobri, totalmente por acidente, que champanhe elevava sua libido ao máximo.
Ela descobriu que podia conseguir o que quisesse de mim apenas com seu sorriso.
Descobri que ela tinha um amor por especiarias do norte da África, e que tagine de cordeiro com damasco era sua ideia de paraíso.
E ela descobriu o quanto eu amava tomar banho com ela.
Eu nunca tinha sido tão feliz.
Dei ao meu chefe minha opinião franca sobre o estado do nosso site e comunicados de imprensa, e mostrei a ele algumas reescritas de amostra que eu a tinha pressionado a fornecer. Menti descaradamente sobre a experiência dela, e ela estava num contrato de meio período conosco dentro de uma semana. Ele deve ter comentado sobre ela com sua rede, porque dentro de um mês ela tinha mais trabalho do que sabia o que fazer.
Ela chorou até ficar sem lágrimas quando viu seu primeiro salário de verdade entrar.
Usamos parte dele para comprar uma cadeira adequada e um laptop razoável, e um mês depois ela conseguiu adicionar um monitor de pedestal de alta qualidade e teclado e trackball ergonômicos.
A recuperação de sua independência foi a peça final que ela precisava.
Ela vinha por trás de mim sempre que podia e me abraçava o mais forte que podia, nunca dizendo nada, apenas encostando sua bochecha fria na nuca do meu pescoço, seu agradecimento felino do qual eu nunca me cansava.
E embora ela às vezes falasse sobre ensinar música, ela nunca deu esse passo.
Então comecei a procurar ingressos para apresentações de orquestra na região e, uma vez por mês, eu a levava para uma noite especial. Eu me obrigava a usar um vestido, maquiagem, e deixava que ela fizesse algo com meu cabelo. Eu me sentava ao lado dela, admirando-a em silêncio enquanto a música a transportava para algum lugar distante que só ela podia ver.
Era sete de dezembro quando tirei um dia de folga do trabalho sem contar para ela, e fui até St Albans para pegar o anel que eu havia encomendado. O joalheiro, um senhor adorável, teve grande prazer em exibi-lo para mim e me mostrar a qualidade da granada central que eu quis na cravação.
"Por que uma granada?", ele perguntou. "Na verdade, espere. Eu sei. Perséfone, estou certo?"
"Sim", confessei, corando, adorando a risada seca que ele deu em resposta.
"É uma pedra linda. Ela é uma garota de sorte", ele disse, enquanto colocava gentilmente o anel de volta na bolsa.
"Não. Eu sou a sortuda. É ela que tem que se contentar comigo."
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Mas aí veio o bloqueio mental.
Eu queria que o momento fosse especial.
Mas não fazia ideia de como torná-lo assim.
E ela, do seu jeito mágico, me mostrou.
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"Rose?", ela disse baixinho, certa manhã, enquanto estávamos deitadas naquele estado de quase acordadas.
"Mm?"
"Estive pensando."
"Ah, não..."
"Shhh. Vou te morder."
"No que você estava pensando?"
"Você acha que a gente conseguiria fazer uma viagem de alguns dias para algum lugar? Eu... eu nunca fui a lugar nenhum."
"Onde?"
"Hum... é... é o meu sonho conhecer Marrakech. Faz anos que é. Você acha que seria... seguro, para nós, sabe?"
Eu rolei de lado. Seu rosto era um estudo de esperança, mas eu podia ver que ela já tinha se preparado para esperar um não gentil.
"Vamos pesquisar. E se for seguro, eu adoraria ir."
"Sério?", ela murmurou, radiante.
"Sim. Claro que vamos. Eu nunca fui e adoraria ir com você."
"Obrigada", ela sussurrou. Ela se aninhou em mim e suspirou.
Eu, enquanto isso, fiquei deitada, o momento Eureca ecoando na minha mente.
Enterrei minha intenção sob camadas de dissimulação, mas nos dias seguintes comecei a fazer os pedidos das várias coisas de que precisava. Mandei entregar tudo no meu trabalho, e implorei por um armário ao nosso simpático gerente do escritório que, sozinho entre todos, eu deixei saber dos meus planos porque eu sabia que ele havia ido para o Marrocos no ano anterior.
Ele fez várias sugestões fantásticas, e depois ficou vermelho como um tomate quando eu o abracei em um completo desvio do meu caráter normal.
Finalmente, eu tinha tudo de que precisava.
Lea teve uma semana ocupada, e foi convocada para uma reunião noturna presencial. Era a minha chance. Fui ao escritório, confessei ao meu chefe, disse a ele que precisava do dia e por quê, e recebi um divertido "vai se foder e não volte a menos que ela diga sim".
Peguei meus pacotes e esperei o táxi chegar.
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Empurrei o sofá contra a parede, e movi a mesa de centro para o meio da sala.
Desenrolei as ondas de tecidos bordô, violeta, índigo e vermelho e comecei a prendê-los no teto; demorei um pouco para descobrir como fixá-los direito, mas consegui e comecei a construir uma tenda de tecido em cascata que caía em ondas suaves. Eu sabia que a luz fraca da noite suavizaria a aspereza e contribuiria para a ilusão, e fiquei feliz que o efeito ficaria como eu queria.
Entrelacei as luzinhas de fada no espaço acima da mesa de centro, e amarrei a caixa de bateria delas na luminária central do quarto.
Cobri a mesa de centro com um tecido escarlate, bordado com arabescos prateados.
Espalhei pétalas de rosa-damascena cor-de-rosa sobre ela e ao redor.
E coloquei a pequena lanterna estilo marroquino bem no centro.
Fechei as cortinas e fiz um teste de iluminação, e era tudo o que eu esperava que fosse – um pequeno oásis de luz e cor, com as quedas de tecido nos protegendo do resto do mundo.
Depois disso, só precisei fazer a refeição que queria preparar para ela.
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Quase em casa. Chego em dez minutos Te vejo já xxx, respondi, agradecendo pelo fato de que uma mensagem de texto não revelaria o estresse que eu sentia.Alisei meu vestido em um gesto impotente de nervosismo, e rapidamente acendi as velas no balcão da cozinha e na lanterna. Abri uma fresta na janela para a fumaça sair. Verifiquei a comida no forno, ainda tinha meia hora. Tempo de sobra.
Abri uma garrafa do seu vinho tinto favorito, e servi uma taça para cada uma de nós. Tomei um gole nervoso da minha.
Eu estava apavorada.
Respirei fundo. Pressionei as mãos nas bochechas, abri mais a janela, tomei alguns goles profundos de ar fresco.
Acendi as velas tea-light nos parapeitos das janelas.
Apaguei as luzes e acendi as luzinhas de fada.
Aumentei o volume da trilha sonora suave que coloquei no meu celular, a seleção de faixas que tinha parecido adequada para esse momento com ela.
E até eu tive que admitir que tinha feito um bom trabalho.
Fechei os olhos, contei até dez.
Ouvi seus passos na escada, os passos suaves enquanto se aproximava da nossa porta.
Tomei meu lugar, e lutei por calma. Toquei meu cabelo para ter certeza de que ainda estava no lugar.
Ela abriu a porta, e então congelou na soleira.
"Rosie?", ela sussurrou. "O que raios..."
Estendi a mão, puxei-a para mim, beijei-a, e a abracei forte. Peguei sua mochila de sua mão frouxa e a deixei cair suavemente ao lado da porta. Empurrei a porta para fechar atrás dela, beijei-a de novo. Tirei seu casaco e o pendurei, e então a conduzi ao espaço que eu havia feito para nós. Ajudei-a a se sentar na almofada que eu havia colocado para ela.
E durante tudo isso ela encarava o apartamento, as velas, as cores, as luzes... e a mim.
"Rosie", ela disse, o lábio inferior tremendo na sua demonstração clássica. "O que está acontecendo? O que é isso?"
"Estou preparando o cenário", sussurrei no seu ouvido. "Para quando formos viajar. Você sempre cozinha para mim. Você faz tudo por mim. Eu queria fazer algo especial para você."
Passei a ela sua taça de vinho, depois vim e me sentei de pernas cruzadas ao seu lado.
"Eu digo muito o quanto você significa para mim", eu disse a ela. "Mas... palavras são baratas. Ações dizem o que um milhão de palavras não podem."
"Você fez tudo isso... para mim?"
"Sim."
"Ah, Rosie", ela sussurrou. "O que eu fiz para merecer você."
"Você pegou minha mão e me mostrou onde estava o livro de desenho de pôneis."
Ela riu, um estranho meio-soluço, e se virou por um momento para recuperar o fôlego.
Bebi minha taça de vinho ao seu lado, e lentamente ela se descontraiu.
Servi a ela sua refeição e comi a minha ao seu lado, e contei a ela sobre a pesquisa que eu vinha fazendo sobre nossa possível viagem, as coisas que precisaríamos fazer para ficarmos seguras, as escolhas que teríamos que fazer sobre onde ir e o que fazer quando chegássemos lá, e que se tirássemos uma folga um pouco mais longa, poderíamos fazer uma viagem ao deserto e ver as estrelas do norte da África.
Ela encostou a cabeça em mim, sem dizer muito, apenas respirando. Seus olhos eram poças escuras de noite líquida, sua respiração suave, sua mão quente onde se curvava na minha coxa.
Às vezes ela sorria, e às vezes eu levantava a mão para enxugar suavemente suas lágrimas.
Minha Lea.
Minha luz, minha sombra, minha alma.
A melhor parte de mim.
Ela se levantou uma vez para ir ao banheiro e lavar o rosto, e eu rapidamente peguei a pequena bolsa preta de dentro da gaveta de cima da mesa de centro.
Escondi-a nas sombras do meu colo, e esperei, doendo, até que ela se ajeitasse de volta ao meu lado.
"Lea", eu gaguejei, suavemente, meu coração batendo forte no peito.
"Sim", ela sussurrou.
"Feche os olhos."
"Não mais, Rosie, por favor", ela engoliu em seco. "Não mais. Você já me mimou tanto. Eu vou desabar se você não parar..."
"Feche os olhos", implorei mais uma vez, enquanto me inclinava para roçar meus lábios em suas bochechas.
Ela respirou fundo, trêmula, e obedeceu. Eu atrapalhei o anel na minha mão trêmula. "Não espie", sussurrei. Peguei sua mão esquerda, beijei-a, e então deslizei lentamente o metal frio do anel em seu dedo anelar.
Ela soltou um gemido baixo – algo primal, algo cru e sem filtro.
Ela abriu os olhos, encarou sua mão, e então para mim. Sua boca se moveu, mas nenhum som saiu.
"Quer casar comigo, Lea Fergusson?", eu de alguma forma consegui ofegar. "Quer ser minha de agora até para sempre?"
Ela estremeceu, uma vez.
Ela me puxou para si.
Ela me beijou.
"Sim", foi a única e simples palavra que ela soluçou em resposta.
E ali, na suave luz das velas, eu beijei as lágrimas do meu amor.
E, finalmente, estávamos inteiras.
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