Contos eróticos para ler inteiros.

Lésbicas

Sobre a Simplicidade das Palavras

alanangelica97 min

— Vamos, Rose. Sua professora está esperando.

Baixei a cabeça, agarrada à mão dela.

— Rose — suspirou mamãe com exasperação. Ela se ajoelhou nos tijolos sujos e se inclinou para olhar nos meus olhos. — Já conversamos sobre isso, Rose. Sei que sente falta da sua antiga escola, mas esta é uma escola nova e legal, está bem? Veja todas as crianças felizes. Vamos, meu amor, vai ser ótimo.

Enterrei o rosto no corpo dela, balançando a cabeça.

— Primeiro dia? — ouvi outra mulher perguntar para mamãe.

— Primeiro dia aqui, sim — respondeu mamãe com um suspiro.

— Em qual turma ela está?

— Primeiro ano, com... a Sra. Jackson?

— Ah, minha Lea também está com ela. Lea? Você pode levar...

— Rose — disse mamãe.

— Lea, você leva Rose com você para a sala? É o primeiro dia dela e ela está um pouco tímida.

— Sim, mamãe — disse uma vozinha adorável.

Arrisquei um olhar tímido e incerto para a menina magra e loira que pegou minha mão. Ela sorriu para mim, mostrando os dentes. — Vem comigo, Rosie — anunciou. — Sou Lea. Vou te mostrar onde fica o livro de desenho de pôneis!

Lágrimas e timidez esquecidas, segui-a, sem nem me despedir da minha mãe.

E foi assim que conheci Lea.

O tempo...
... passou.

A mãe da Lea brincava que era melhor arrumar um quarto para mim na casa delas. Minha mãe ria e dizia que era melhor fazer o mesmo. Nossas mães se tornaram próximas como irmãs. A mãe da Lea, ou Mamãe Sarah como eu a chamava, apresentou minha mãe (ou Mamãe Jane como Lea a chamava) ao tênis e às trilhas, enquanto minha mãe apresentou Mamãe Sarah ao seu clube do livro e aos detalhes do Pimm's e da horticultura. Nossos pais entraram no mesmo clube de críquete, depois no mesmo clube de hóquei, e logo já estavam viajando nos fins de semana dos meninos para assistir futebol com os amigos.

E assim começaram os maravilhosos anos dourados da minha infância.

A vida era idílica. A escola era, mesmo nos piores momentos, completamente maravilhosa, e eu naveguei pelo exame eleven plus com minha cara-metade ao meu lado.

Nunca houve qualquer dúvida de que não iríamos para a mesma escola secundária. Acho que isso nem passou pela cabeça dos nossos pais.

Certamente nunca entrou em nossos pensamentos.

O tempo...
... passou.

O pai da Lea foi promovido; eles se mudaram para outra parte da cidade. A viagem para vê-la agora precisava ser planejada com antecedência e coordenada com a possibilidade de mamãe ir me buscar ou de Mamãe Sarah me deixar em casa depois. Já não podia ser toda noite, mas pelo menos três vezes por semana uma de nós estava com a segunda família e dormia lá.

Meus pais amavam Lea. E eu adorava o chão que os pais dela pisavam.

Brincávamos que éramos as garotas mais sortudas do mundo, por ter não uma, mas duas famílias tão dedicadas a nós.

Aos quatorze anos, eu conseguia acertar uma bola de hóquei no canto do gol a quinze metros de distância e havia desenvolvido uma aptidão atlética natural que herdei do pai da minha mãe. Eu conseguia continuar muito além do ponto em que muitas outras cairiam. Quando jogava partidas, sempre ouvia seus gritinhos e guinchos estridentes quando eu corria para o gol, seu êxtase sem filtro quando eu marcava.

Lea tocava clarinete como se tivesse nascido para aquilo e corria cross-country bem o suficiente para ficar regularmente entre as três primeiras na escola. Quando eu conseguia mendigar, pegar emprestado ou roubar uma carona, estava lá nos eventos dela, na lateral, gritando por ela. Ela sempre tinha um sorriso para mim, não importava o quão brutal fosse o percurso ou o quanto precisasse se esforçar para terminá-lo.

E eu esperava por ela na linha de chegada; era eu quem carregava seu corta-vento, quem passava o braço ao redor dela para apoiá-la quando seu corpo desabava pelo esforço que havia feito.

E fui eu quem a segurou naquela tarde odiosa de outono, quando seus olhos reviraram e ela teve sua primeira convulsão.

O tempo...
... passou.

Eu tinha quinze anos. Estava muito mais magra agora; um pequeno resto quebrado de garota, assistindo enquanto a lenta tortura da terapia com radioisótopos devorava a outra metade de nós.

Rasparam seu lindo cabelo para poupá-la de parte do horror; o tratamento também lhe tirara as sobrancelhas. Ela estava esquelética, exausta, quieta como um túmulo. Eu me sentava, segurando sua mão definhada, negligenciando o trabalho escolar, hora após hora, dia após dia. O que ela precisasse, eu trazia. O que ela quisesse, eu fazia. Passava horas lendo para ela e, quando ela estava no fundo do poço, eu rastejava para a cama ao lado dela e a abraçava, minhas bochechas molhadas com nossas lágrimas amargas.

Eu a amava; amava-a com cada átomo patético do meu ser.

E desejava além de todos os desejos que eu pudesse ser a doente para que ela fosse poupada.

Ela nunca se queixou. Ela simplesmente aguentou. Corajosa e indomável como sempre. Mas, afinal, essa era Lea.

Sua craniotomia foi realizada quando a radiação encolheu o tumor, e a cirurgia foi bem-sucedida. Lentamente, ela se recuperou, começou a sorrir novamente, apesar da fraqueza. Mas, apesar da minha determinação obstinada em ajudá-la a se recuperar, ela havia perdido muito do ano letivo para terminá-lo comigo, e os pais dela decidiram que ela precisava de uma mudança de ambiente; um lugar mais tranquilo, onde ela pudesse ter espaço e silêncio para se recuperar.

Uma nova vida, onde seu ano perdido não fosse lembrado toda vez que me visse indo para uma turma diferente da dela.

E onde ela tivesse espaço para se curar da perda de mim.

Lea não se despediu; seus pais não permitiram que eu a visse, com medo da angústia que isso nos causaria. Em vez disso, sua mãe, perturbada e desolada, trouxe para minha mãe uma espécie de carta para mim — uma folha fina e dobrada do papel almaço rosa favorito de Lea, com um de seus bobos pôneis de olhos esbugalhados rabiscado na frente.

Dentro dela, as palavras simples: "Eu nunca vou te esquecer, minha Rosie."

Estava manchada com as lágrimas dela e logo ficou arruinada pelas minhas.

Chorei até perder os sentidos, num desmaio negro — arruinando minha cama com meleca, lágrimas e a bile clara e aquosa do meu estômago vazio e em cãibra. Levei dias até que me obrigassem a comer, e minha mãe nunca mais perdeu a expressão assombrada com que me vigiou dali em diante.

Inútil, na verdade.

Não restava nada em mim que valesse a pena guardar.

O tempo...
... passou.

Pensamentos sobre Lea me acompanhavam onde quer que eu estivesse, e aprendi a guardá-los como velhos amigos. Tornei-me a garota de fala mansa no canto, um fantasma um pouco mais corpóreo. Meus professores aprenderam a me deixar em paz, a não tentar me convencer a participar de atividades 'divertidas'.

Despedacei mais de um deles no potro de tortura da minha indiferença vazia a qualquer suborno ou castigo que tentassem me aplicar. Nada do que pudessem fazer podia se comparar ao que já havia sido feito comigo.

Uma palavra discreta foi trocada com um ou dois dos casos mais persistentes, e depois disso ninguém mais tentou me perturbar. Minhas notas eram boas o suficiente para que eu não representasse risco para a avaliação da escola no Ofsted, mesmo que minha interação com qualquer outra pessoa fosse inexistente.

Então pararam de tentar me consertar.

E eu estava muito bem com isso.

O tempo...
... passou.

Obtive os A Levels necessários para entrar em uma universidade razoável. Estudei discretamente estatística e bioquímica, consegui um 2:1 e saí com um estágio em uma startup de biotecnologia na cidade vizinha.

Depois de poucos meses, eles encerraram meu estágio e me contrataram como funcionária efetiva, principalmente por causa do meu foco quieto e determinado e da total falta de distrações externas.

Voltei ao hóquei para manter a forma, a princípio evitando qualquer competição, mas rapidamente perdi a ferrugem e cheguei ao time principal do clube local. Logo já jogava regularmente pelo condado.

Ganhei reputação de adversária aterrorizante e implacável em campo — já não sentia dor ou cautela reais e simplesmente seguia até o fim da partida, impiedosa como a Morrígan, às vezes com dedos rachados e, uma vez, com duas costelas rachadas. Meu clube me amava e respeitava, mas eu os mantinha a uma distância cordial e cuidadosa.

Delas e deles, lentamente formei um pequeno grupo de amigos mais próximos, tanto homens quanto mulheres, mas nunca nenhum vínculo amoroso. O sexo que eu me permitia era apenas liberação física, e o amor não me interessava.

Não havia mais espaço em meu coração para ninguém.

Gradualmente, passei a perceber que nunca me recuperei de perder Lea. Havia conversas inteiras que eu precisava ter com ela; coisas que eu precisava contar a ela, coisas que eu precisava ouvir dela. Coisas que precisavam ser... resolvidas.

A primeira terapeuta com quem conversei foi inútil.

A segunda tentou, mas falhou.

A terceira, uma mulher jovem com alma antiga — ela me fez falar e então, que Deus a abençoe para sempre por sua maneira gentil, de alguma forma me fez chorar mais uma vez.

Ela disse quatro palavras simples para mim.

— Conte-me sobre Lea.

Quatro palavras simples.

E foram elas que finalmente me derrubaram para que eu pudesse começar a sentir novamente.

.:.

Sentei-me, encarando minha caneca, reunindo coragem para abordar o assunto.

— Mãe, tenho uma pergunta para você — consegui dizer por fim.

Ela ergueu os olhos da massa folhada e afastou o cabelo dos olhos. — O que foi, Rosie?

— Você... você manteve contato com Mamãe Sarah? Depois que eles... foram embora?

Ela me encarou, a massa esquecida. — Ah — exalou. — Ah, esse é um nome que não ouço você dizer há uma eternidade. O que... o que te fez lembrar disso?

— Gemma estava me perguntando sobre Lea.

— Quem é Gemma?

— Ah. É minha... terapeuta.

— Você está vendo... uma terapeuta? Claro. Claro que está. Rosie, você vive nesse mundo fechado de escuridão e sombras e nunca me deixa ver. Uma terapeuta, pelo amor de Deus. Por que não me contou? Meu Deus, sou sua mãe. Você precisa me contar essas coisas, Rose.

— Principalmente porque queria evitar essa reação — falei, suavemente.

Então esperei, paciente como uma rocha, observando-a.

— Eu tentei — disse ela, por fim. — Tentei manter contato. Mas... a situação toda era tão horrível. Lea era como minha própria filha também. As respostas de Sarah sempre pareciam... como se ela estivesse sendo educada. Lendo um roteiro preparado. Senti como se estivesse me intrometendo. Eu... não conseguia continuar tentando. Então... parei.

— Sinto muito. Você perdeu sua amiga também, então — suspirei.

— Sim — sussurrou ela. Fungou. — Ah, essas são lembranças difíceis, Rose.

— Acho... que talvez achei que você simplesmente não quisesse falar sobre elas comigo. Por medo.

— Ah, havia muito medo, Rosie. Mais do que suficiente para durar o resto da minha vida. Mas... aparentemente Lea estava bem. Ela voltou à escola e estava começando a fazer amigos. Eu... não queria te contar porque tinha medo do que isso faria com você. As notas dela estavam melhorando. Ela estava bem. Era o máximo que eu podia esperar por ela. Então... parei de verificar e me concentrei em você.

— Tudo bem. Eu entendo.

Ouvi o sibilo da respiração que ela soltou.

— Morri de medo de te contar isso — sussurrou ela.

— Por que, mamãe?

— Por causa de como vocês duas eram próximas. Vocês duas eram luz e sombra. Ela iluminava as partes escuras de você, e você lhe dava equilíbrio. Pensei... tive medo de que você ficasse furiosa comigo.

— Você estava me protegendo. Nunca poderia guardar rancor disso. Não agora que tenho idade para entender como deve ter sido para você.

Ela lentamente começou a sovar a massa novamente. — Aquela coisa toda foi um longo espetáculo de horror — disse ela entre os socos. — Teve um período de duas semanas em que literalmente não dormi, e seu pai se enrolava num saco de dormir do lado de fora da sua porta caso você tivesse seus pesadelos.

— Para onde eles se mudaram? — perguntei, observando-a.

Ela trabalhou em silêncio por um tempo, dobrando e redobrando, mantendo as mãos ocupadas.

— Bath — disse ela, por fim. — Sarah conseguiu uma vaga lá, e acharam que seria um bom lugar para Lea se recuperar. Acho que Lea foi para a Universidade de Bristol. É para lá que isso está indo, não é? Você quer encontrá-la.

— Sim.

Ela suspirou. — Tem certeza de que isso é sensato? Talvez seja melhor ela não ser lembrada daquela época. Já pensou nisso?

— Tenho que tentar. Ainda a carrego na cabeça. Ela está sempre comigo. É por isso que sou tão...

— Diferente.

— Ia dizer quebrada. Mas... diferente é mais gentil, não é?

Minha mãe emitiu um ruído baixinho e virou as costas para mim.

Levantei e fui até ela, passei os braços ao seu redor e apenas a abracei.

— Não chore, mãe — falei suavemente. — Não é sua culpa.

— Sou sua mãe — sussurrou ela. — Claro que é minha culpa.

.:.

Naquela noite, quando voltei para meu apartamento, abri o laptop e comecei a vasculhar a presença online da Universidade de Bristol, procurando qualquer sinal dela. Ela adorava inglês e era forte em álgebra, e eu esperava encontrar alguma referência a ela relacionada a essas disciplinas.

Mas foi nas páginas de eventos passados do departamento de música onde finalmente encontrei os primeiros vestígios dela. Indícios e menções passageiras sob o nome de solteira da mãe dela, Fergusson. Depois que soube o que procurar, achei grades horárias antigas e então, finalmente, a essência — uma crítica entusiasmada de sua apresentação solo em um recital de música de câmara recente e uma menção de que ela era associada do corpo docente.

Comecei a escavar por ela com uma intensidade alimentada por oito anos de necessidade reprimida.

Uma hora depois, estava sentada, encarando fotos dela. Ela estava mais velha agora, obviamente, e carregava o olhar assombrado de uma sobrevivente por trás daqueles lindos olhos azuis.

Mas ainda era minha Lea, com aqueles longos cachos loiros que caíam em cascata sobre os ombros, com a leve assimetria do nariz que ela sempre odiou e eu sempre amei.

Senti falta dela quase mais do que podia suportar.

Empanturrei-me de sua imagem até as primeiras horas da madrugada.

Quando estava prestes a desligar e dormir, vi uma nova postagem no feed de mídia social dela — alguém perguntara se ela estaria na festa em um pub no sábado à noite seguinte. Mais buscas determinaram que o pub se chamava The Magpie e ficava a um pulo da porta da frente do departamento de música.

Era o empurrão que eu precisava, o chute no traseiro que me colocou em movimento. As chances eram de que, se eu tivesse alguma oportunidade de encontrá-la, seria lá.

E comecei a traçar meus planos. Reservei um quarto no Radisson Blu para o sábado à noite, depois de me certificar de que ficava a uma curta caminhada do pub. Reservei minhas passagens de trem e fiz uma lista detalhada das coisas que precisaria colocar na minha pequena mala de mão.

Criei mil reencontros diferentes na minha mente; mil maneiras diferentes de implorar seu perdão por não tê-la encontrado antes. Mil cenas em que as feridas eram magicamente curadas, em que ela me envolvia nos braços e me abraçava como costumava fazer. Onde seríamos apenas Rosie e Lea de novo, duas garotinhas, sem a sombra da Morte pairando negra e impiedosa entre nós.

Não contei a ninguém o que estava fazendo, por um medo supersticioso de que isso azarasse tudo.

E então fiz a contagem regressiva dos dias, e depois das horas.

.:.

Tinha vagueado pelo café do Radisson até as sete horas, querendo dar tempo para ela chegar ao pub. Depois atravessei lentamente a curta distância, no máximo uns oitocentos metros, e tentei com muito afinco não pensar no que estava prestes a acontecer.

Eu, claro, falhei miseravelmente nisso.

Oito anos de arrependimentos. Oito anos de tempo nunca a ser recuperado.

Encolhi-me dentro da jaqueta, encarando o pub e a multidão de foliões que se aglomerava do lado de fora da porta.

Parecia quente, convidativo e tão maravilhosamente simples. O tipo de lugar para onde eu naturalmente gravitaria. Um santuário acolhedor.

Estava mais aterrorizada do que me lembrava de ter estado alguma vez.

Eu não tinha nada que estar ali.

Era uma intrusa. Não pertencia àquele lugar.

Não tinha ideia se ela estava ali sequer.

Ou se ela iria me querer. Ou até me reconhecer.

Provavelmente passaria a noite inteira enfiada num canto, esperando em vão por um golpe de sorte relâmpago, só para ir embora numa decepção negra e esmagadora e no desespero familiar.

Isso era estúpido. Era insano.

Meu coração doía, e engoli a súbita onda de náusea.

Mas a chance de vê-la de novo era grande demais para abandonar.

Eu tinha que tentar.

Devia isso a ela. A mim mesma.

A nós.

Era hora.

Esperei um táxi passar, então endireitei os ombros e pisei resoluta na faixa de pedestres. O barulho aumentou, os gritos e a folia mais presentes, mais opressivos.

Eu estava louca. Isso era loucura.

O que eu estava fazendo?, a parte sã de mim gritava enquanto eu empurrava a porta.

O barulho dobrou e redobrou de novo.

Era isso.

Eu fui abrindo caminho no meio da multidão, com um educado "Com licença, perdão, desculpa, perdão." quando necessário.

Sorrisos e risadas ao meu redor, homens e mulheres de bom humor abrindo espaço para mim, me deixando passar, um ou dois me lançando olhares curiosos ou especulativos.

Eu os deixei escorregarem de mim. Eu só tinha um objetivo ali. Só uma coisa importava para mim.

Ela.

Olhei ao redor, ficando na ponta dos pés, esticando o pescoço em desespero, tentando ver um lampejo de seu cabelo dourado, tentando ouvir um trecho de sua risada líquida.

Mas era inútil.

Estava escuro demais, apertado demais, barulhento demais. Homens altos demais, garotas loiras demais que não eram ela.

Fechei os olhos, dei um soluço ofegante, me preparei contra a punhalada da decepção, me aprontei para lutar até um canto para poder lidar com a tristeza que eu sabia que não demoraria a chegar.

Eu era uma criança idiota.

O que eu esperava? Que tudo que tinha se quebrado há tanto tempo e caído em tanta ruína fosse magicamente se recompor?

Eu devia saber que não. A magia tinha morrido com a partida dela. O mundo agora era mundano; não havia mais espaço nele para sonhos.

"Idiota. Idiota idiota do caralho," eu me amaldiçoei. "Idiota, infantil, imatura..."

Engoli o soluço.

Respirei fundo, um ar agonizante.

Dei mais uma olhada lenta ao redor para me lembrar de que eu tinha tentado. Uma lembrança para guardar quando eu fosse velha. O dia em que percebi que ela tinha, finalmente, partido.

E então, como naqueles filmes clichês idiotas que eu tanto amava odiar, a multidão de pessoas ao meu redor se abriu só um pouquinho.

Não muito, mas... o suficiente.

Eu vi o jeito que os olhos dela deslizaram por mim, o jeito que o franzir de testa súbito e perplexo substituiu seu sorriso, o jeito que o corpo inteiro dela se sacudiu quando ela se virou para me encarar. O jeito que sua taça de vinho caiu de sua mão sem força, pintando um rasgo líquido escuro no ar enquanto o reconhecimento florescia entre nós.

"Lea," eu sussurrei. Eu cambaleei.

O rosto dela passou de rosado para branco.

Fechei os olhos, incapaz de suportar a mágoa nos olhos dela. Gemi por um fôlego, e depois outro, e então ela colidiu comigo, me esmagou em seus braços, e por um momento tudo que eu sentia era a sensação dela contra mim mais uma vez.

Ela já estava soluçando, e agarrou meu braço e me puxou às cegas pela multidão, nos empurrando para fora das portas duplas do pub e então me arrastando para uma viela estreita na esquina, longe do barulho e dos olhos curiosos que nos seguiram.

"Você!" ela gritou em meio às lágrimas. "Você! Depois de oito anos! Você! Você não pode simplesmente aparecer aqui assim! Você não pode simplesmente voltar para a minha vida e virar tudo de cabeça para baixo assim! Não é justo! Por quê! Por que você está aqui! De todas as épocas que você podia ter escolhido, por que agora!"

Eu fiquei olhando para ela, incapaz de formar palavras, incapaz de fazer qualquer coisa exceto ficar parada, grunhindo em agonia como uma besta atordoada e mortalmente ferida.

"Me responda! Me responda!" ela gritou histericamente, enquanto me sacudia violentamente de um lado para o outro. "Onde você estava? Onde você estava! Eu esperei e esperei e esperei por você mas você nunca veio! Eu precisei de você e você não estava lá! Onde você estava!"

Então ela se curvou para frente, a cabeça apoiada no meu ombro, arfando. Suas mãos se agarraram a mim em espasmos, e ela fez ruídos pequenos e entrecortados de dor.

Mas ainda assim eu não conseguia responder. Ainda fiquei lá, tremendo, tentando encontrar a fala que simplesmente não vinha.

"Diga alguma coisa, Rosie, pelo amor de Deus," ela arfou.

"Me... desculpa," eu consegui articular as palavras por fim, com uma língua seca que não queria funcionar de jeito nenhum. "Por tudo. Por não ter estado lá para você. Por não ter procurado você antes. Sinto muito. Eu queria ver você. Eu precisava. Mas. Mas você está certa. Eu não devia ter vindo aqui. Foi idiota. E. E egoísta. Me... desculpa. Por... tudo. Desculpa. Adeus. Lea. Eu... eu vou embora. Não se preocupe. Eu vou agora. Sinto muito. Por tudo."

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