Duas Metades ou um Todo?
Nota da Autora: Esta história é a segunda parte da saga de Gwyn e Pete. A primeira parte é A Mighty Pen.
* * * * *
"Isso está indo para algum lugar, Pete?"
"Isso?"
"Nós. Nosso relacionamento." Laura estava sentada de frente para ele no bistrô que havia se tornado o lugar deles.
Ele reconheceu a conversa novamente. Pensa que com toda a prática que tinha, já seria melhor nisso a essa altura.
"Eu gosto de passar tempo com você, Laura. Gosto muito de você. De verdade."
"Então por que nunca estamos no seu apartamento? Ou no meu? Estamos namorando há seis semanas. Já sei o cardápio daqui de cor, e só vim aqui com você. Mas você nunca entrou quando eu te convidei, e eu nem sei qual é a sua unidade no seu prédio."
Pete assentiu e franziu os lábios. Começou a dizer algo, depois parou. Olhou nos olhos azul-claros dela, depois baixou o olhar para a mesa. Suspirou. Sentiu os dedos macios dela na sua têmpora. Eles desceram pela sua bochecha até o queixo.
"Alguém realmente acabou com você, não foi?" ela disse baixinho.
Ele tentou respirar de forma constante, devagar para dentro, devagar para fora. Mack o havia ensinado alguns truques diferentes para manter a compostura sob estresse emocional, mas a respiração funcionava melhor.
"Sinto muito, Laura. Tenho umas bagagens."
A risada de Laura geralmente era um ritmo melodioso, mas essa saiu como um bufo. "Percebi. Olha, eu também gosto muito de você, Pete. Você é muito doce, superatencioso, e se comesse um pouco mais preencheria melhor seus ternos. Mas a menos que você me deixe entrar, acho que já fomos o mais longe que podíamos."
Pete assentiu. "Você merece coisa melhor."
"Você é melhor, Pete. Mas um relacionamento precisa de duas pessoas nele. Você pode pelo menos me dizer quem foi ela?"
Ele estremeceu, mas achou que se controlou antes que ela percebesse. Não.
"Uau. Tão ruim assim?"
"Estou, hum, estou vendo alguém." Ele percebeu o olhar confuso dela. "Não! Não desse jeito. Quero dizer um terapeuta. Estou vendo um terapeuta."
"Isso parece uma boa ideia", Laura disse em voz neutra. Ela gostava de Pete, e ele obviamente havia sido tratado mal em um relacionamento anterior, mas essa carga talvez fosse pesada demais para ela. Tinha 27 anos e queria um marido e uma família relativamente em breve, e esse homem doce e atraente, mas muito reservado, parecia um candidato ideal. No começo achou que ele era apenas tímido, mas agora percebia que ele estava machucado. Não tinha tempo para um conserto demorado. "Há quanto tempo você o vê? Ou a vê?"
"Ele. Há um tempo. Quase um ano."
Certo. Laura se levantou, e Pete começou a se levantar junto. "Não, Pete... termine sua refeição. Posso ir para casa sozinha. Se você resolver isso, por favor, me ligue. Eu realmente gosto de você. Quando superar sua dor, você vai ser um partidão."
Ele suspirou e assentiu. Sentiu-se desanimado, claro, mas não realmente magoado ou triste. O resultado parecia inevitável. Seis semanas provavelmente era o limite máximo de um relacionamento com ele do jeito que estava.
Pelo menos o linguado estava gostoso.
* * * * *
Gwyn entrou no restaurante com passos decididos. Andava com propósito. Decisiva. Determinada. Sua prima Jenny e o suposto namorado dela, Mutt, já estavam sentados. A maioria das amigas achava que Jenny e Mutt estavam namorando há mais de quatro anos. Ninguém sabia ao certo quando começaram, e eles não compartilhavam nenhuma informação sobre o relacionamento. Geralmente andavam juntos, e mesmo mantendo apartamentos separados, as pessoas presumiam que eram um casal.
"Ei, pessoal", Gwyn disse, deslizando para o banco ao lado de Jenny. "Quais as novidades?"
"Oi, Gwyn", Jenny respondeu. "Você está ótima! Ainda se castigando na academia?"
"Todo dia." Gwyn era uma morena curvilínea, e no início dos seus 20 e poucos anos, essas curvas eram macias e maleáveis. Seus quadris ainda eram largos e seus seios ainda eram fartos, mas seu corpo todo estava agora em forma, firme e definido. O rosto mostrava maçãs do rosto salientes, o pescoço era fino e elegante, e as clavículas graciosas se destacavam sob a gola aberta da blusa. "Vocês já pediram?"
"Acabamos de chegar." Quase como que por mágica, um garçom apareceu ao lado da mesa.
"Boa noite. Sou Aaden, e vou cuidar de vocês esta noite. Estão esperando mais alguém?"
"Somos só nós, Aaden", Gwyn disse, sorrindo. Virando-se para Jenny e Mutt, acrescentou: "Bebidas?"
"Queria um vodka tônica com limão, por favor", Jenny disse ao garçom.
"Bent Hop Golden", Mutt disse.
"E eu vou querer água com gás com limão", Gwyn disse.
"Então, o que há de novo com meu casal favorito?" Gwyn perguntou depois que Aaden se afastou, erguendo as sobrancelhas para Jenny.
Jenny não mordeu a isca. "Só estou começando minha certificação em gerontologia. Deve levar 32 horas no total, mas isso é para leitores rápidos, então acho que vou demorar mais. Tipo, talvez uns seis anos."
A risada de Mutt explodiu, o que fez Jenny sorrir e corar.
"Vocês são tão fofos", Gwyn disse. "E enquanto a Jenny está ganhando a certificação de seis anos em enfermagem gerontológica, o que você está fazendo, Sr. Paul?"
Paul era o nome de batismo de Mutt, mas com um irmão gêmeo chamado Jeff, o apelido era inevitável.
"O de sempre, o de sempre."
"Tão misterioso!" Gwyn exclamou.
Mutt sorriu e deu de ombros. "Consigo entediar as pessoas mais rápido do que qualquer um que eu conheça." Ele cuidava das operações de retaguarda de uma empresa regional de gestão de patrimônio. Gostava do que fazia e era bom nisso, mas ninguém mais achava o trabalho dele nem um pouco interessante. A parte do patrimônio intrigava as pessoas, mas a parte da gestão, rastrear e relatar investimentos e manter contas de clientes, fazia com que rapidamente procurassem outro assunto para conversar.
"O que há de novo com você, garota?" Jenny perguntou. "Algum homem novo na sua vida?"
Gwyn sorriu. Namorava raramente, e nunca com seriedade, mas não compartilhava isso com ninguém além de Frida. "Nenhum que valha a pena mencionar. Ainda experimentando, procurando a agulha no palheiro."
"'Experimentando' experimentando?" Jenny perguntou, balançando as sobrancelhas e inclinando a cabeça, o que fez Gwyn rir. Mutt também a olhava com mais interesse.
"Tirem suas mentes da sarjeta. Nada disso até eu saber se eles são caras decentes."
"E?"
"Nenhum no horizonte." Ela indicou Mutt com um aceno lateral e sorriu. "Todos os bons já estão comprometidos."
Jenny também sorriu e deu um tapinha no braço de Mutt. "Você sabe que não existe um homem perfeito por aí, querida. Esse aqui ainda me irrita às vezes."
Gwyn suspirou. "Todos nós sabemos que existe um homem perfeito por aí."
* * * * *
O consultório de Mack era confortável, e Pete já havia estado lá tantas vezes que se sentia à vontade. Como sempre, escolheu o sofá.
"Então?" Mack perguntou quando Pete hesitou em começar.
"Laura e eu não estamos mais nos vendo. Ela ficou frustrada com minha falta de abertura."
"Você acha que isso é justo?"
Pete zombou. "Ah, sim. Você disse há três meses: estou travado." Ele passou as mãos pelo rosto e soltou um longo suspiro.
"Você tentou o que conversamos? Compartilhar pequenos fatos pessoais, coisas que são importantes para você, mas não muito vulneráveis? Contar um pouco sobre sua família, onde você cresceu, coisas assim? Você perguntou sobre as escolas, amigos e família dela? Construir devagar a partir de uma base modesta?"
"Não. Nunca me senti à vontade para trazer assuntos pessoais. Talvez ela e eu simplesmente não tivéssemos química, e eu meio que sabia disso instintivamente."
"Você disse o mesmo sobre Justine, Geri, Vi, Charlotte e agora Laura. Você realmente acredita que nenhuma dessas mulheres — mulheres por quem você se sentiu atraído — era interessante o suficiente para explorar uma conexão mais profunda?"
"Sei que sou eu. Só não sei como avançar com os encontros. Quer dizer, o resto da minha vida está indo bem. Estou arrasando no trabalho. Tenho vôlei às terças. Pedalo nos fins de semana. Saio depois do trabalho para happy hour algumas vezes por mês. Mas simplesmente não consigo lidar com a coisa a dois."
"Conversamos sobre várias abordagens diferentes para destravar você, e até agora você não conseguiu executar nenhuma. Pensou mais em falar com Gwyn?"
Pete sibilou ao inspirar rapidamente, depois balançou a cabeça. "Acho que nunca vou conseguir fazer isso."
"Por que não?"
"Essa ferida nunca vai sarar. Cutucar só dói."
"Qual é o pior que pode acontecer?"
Pete se inclinou para frente e pensou por um momento. "Pode simplesmente me matar."
"Falar com Gwyn pode ser traumático. Pode arrancar a crosta de uma ferida muito profunda. Pode ser bem desagradável." Mack hesitou até Pete encontrar seus olhos. "Mas também pode ajudar você a seguir em frente. Pode ser o que você precisa para deixar essa traição para trás. Você foi profundamente magoado por alguém em quem confiava que nunca o machucaria. Mas você nunca disse isso a ela, nunca expressou como as ações dela o fizeram sentir. Isso por si só pode ser curativo. E pode permitir que você coloque seu casamento para trás para poder seguir em frente com novos relacionamentos."
"Tem que haver um jeito melhor."
Como nadar em um tanque de ácido de bateria.
* * * * *
A noite incomodava Gwyn acima de tudo. Durante o dia, ela podia se mover. Sempre gostou de movimento, coisas acontecendo, fazer coisas. Amava falar com pessoas, conhecer gente nova, reconectar-se com pessoas que havia conhecido, ajudar pessoas, trabalhar com pessoas para resolver problemas. Mas no final de cada dia, ainda tinha que voltar para casa, para seu apartamento, onde ficava sozinha. Só ela.
Enquanto o divórcio estava em andamento, ela se mantinha em movimento frenético, mesmo quando estava sozinha. Tentou de tudo para que Pete falasse com ela, mas ele não falava. Até na terapia ela derramava sua alma, implorava para que ele a ouvisse, mas ele estava resoluto. O corpo dele aparecia, mas sua mente estava longe, muito longe. Não só a mente, mas sua alma, sua consciência. Ele parecia vazio. Ela o havia prejudicado, sem dúvida, mas ele não a ouvia. Nem por um único momento. A única pessoa que poderia diminuir sua dor se recusava até mesmo a considerar isso, e isso doía ainda mais. O dia em que ela recebeu os papéis do divórcio foi o pior dia da sua vida.
Só que não foi. Os oito meses que se seguiram à sentença foram um borrão de bebedeira excessiva, imposição às amizades com confissões chorosas, recriminações agonizantes e explosões de ódio. Seu remorso era implacável, punitivo. Ela não se lembrava muito daquela época, exceto que suas amigas aguentaram seus dramas, aliviaram sua dor e protegeram sua vulnerabilidade. Algumas se sentiam um pouco culpadas, mas retribuíram a ela por seus supostos pecados muitas vezes. Suas amigas eram santas.
Conforme saía da névoa pós-divórcio, com o incentivo das amigas, encontrou uma terapeuta que a ajudou a se apropriar de suas ações — passadas, presentes e futuras — e a encontrar aceitação pelo que havia feito, não só a Pete, mas a si mesma também. Frida havia sido uma dádiva dos céus. Exigia a verdade, mas ajudava Gwyn a redescobrir sua compaixão. E depois a usá-la. Ajudou Gwyn a voltar a funcionar, quase como antes. Quase.
Mas a noite ainda era difícil. No silêncio do seu apartamento à noite, Gwyn tinha que enfrentar o que havia feito ao marido no que realmente foi o pior dia da sua vida. E toda noite ela lutava, não para se perdoar, mas para aceitar o que havia feito. E para pensar em como poderia reparar.
A noite era muito difícil.
* * * * *
"Seu pai só faz 55 anos uma vez, e eu quero que todos os filhos dele estejam lá."
"Você quer dizer nós dois."
"E as filhas do Luke. Você sabe que elas também adoram ver o tio."
"Não sei, mãe. Claro que quero estar lá. É só difícil me ausentar."
"Ah, não venha com essa bobagem, Peter Andrew... é o fim de semana do Dia do Trabalho, e até consultores bem-sucedidos têm folga no feriado." Ela sabia exatamente por que Pete não queria ir para casa. Tiveram a mesma conversa em todos os feriados desde que Pete se mudou, e enquanto uma média de 0,300 era boa para o beisebol, parecia anêmica para reuniões de família. "Venha para casa, Pete. Só pelo fim de semana. Sentimos sua falta."
Pete apertou a ponte do nariz e suspirou. "Tudo bem. Mas não conte para ninguém que vou estar lá. Por favor, mantenha como surpresa."
Ambos sabiam o que ele queria dizer.
* * * * *
Não havia nenhuma festa de fim de verão no lago planejada. As pessoas ainda iam ao lago, mas só com a família, e as viagens eram relaxantes, tranquilas. A família de Jenny não tinha casa no lago, e ela não iria com Mutt quando a família dele fizesse a viagem. Mau agouro.
Gwyn atendeu o celular quando viu quem estava ligando. "Oi, Jen. O que manda?"
"Tem algo para fazer neste fim de semana?"
"Nada. Todo mundo que eu conheço está saindo da cidade."
"Nem todo mundo. Estou por aqui. Fim de semana das garotas?"
"Claro! Masu hoje à noite para sushi?"
"Ótimo começo. Sete?"
"Te vejo lá!"
* * * * *
O voo de Pete estava, claro, atrasado. Duas horas atrasado.
Ele alugou um carro de propósito para este fim de semana prolongado, já que não havia como ficar à mercê dos pais ou do irmão para caronas. Queria uma rota de fuga garantida. Não comia há horas, mas depois ganhou uma hora com a mudança de fuso, então era pouco depois das oito quando ele entrou num Hyundai Sonata azul e seguiu para a casa dos pais. Tempo de sobra para pegar algo para comer no caminho.
Abriu o aplicativo do Masu e fez um pedido de um dragon roll, um spicy tuna roll e um acompanhamento de rolinhos primavera fritos. A estimativa de tempo mostrava que talvez tivesse que esperar alguns minutos, mas ele estava de boa com isso. Menos tempo para a inquisição familiar nunca era ruim.
* * * * *
"Essas coisas crocantes de salmão são as melhores!"
"Né? O toque de jalapeño é legal. Faz toda a diferença."
Gwyn e Jenny estavam dando conta de três rolls e edamame quente. O restaurante estava quase lotado, mas havia algumas mesas livres, o que era surpreendente para uma noite de sexta. Mas talvez não para um fim de semana de feriado.
A mesa delas ficava nos fundos, longe da porta e do balcão, e elas estavam sentadas de frente uma para a outra. Enquanto Gwyn negociava uma fatia do Dynamite roll, Jenny notou um homem pelo canto do olho. Ele estava mexendo na tela do celular enquanto esperava de lado, aguardando um pedido para viagem. Os olhos de Jenny se arregalaram e ela inspirou bruscamente.
"Jen? Você está bem, garota? Jalapeño demais?"
Jenny não sabia o que fazer. Não sabia se deveria chamar a atenção de Gwyn para ele ou tentar distraí-la. Gwyn era sua prima, e elas haviam ficado ainda mais próximas nos últimos anos. Ela sabia o quanto a jornada de Gwyn havia sido dolorosa e estava orgulhosa e impressionada com o quanto Gwyn havia progredido. Mas também sabia do arrependimento de Gwyn e do desejo ardente que ela guardava. Então soltou o ar e estendeu a mão sobre a mesa para segurar as mãos de Gwyn.
Os olhos de Gwyn vasculhavam os de Jenny em busca de algum sinal. Jenny estava claramente perturbada, e Gwyn devia muito à prima pelo apoio durante os últimos anos. Ela estaria lá por Jenny, não importava o que acontecesse.
"Jen? Fala comigo, querida."
"Pete está aqui."
Gwyn não poderia ter ficado mais chocada se Jenny tivesse lhe dado um tapa forte no rosto. Duas vezes. Ela virou a cabeça para a porta, e com certeza, lá estava seu marido. Seu ex-marido. Parado, ereto como sempre, o peso distribuído igualmente nas duas pernas, concentrado no celular. O coração dela se contraiu com força, e lágrimas correram para seus olhos. Ela não desviou o olhar. Tinha conquistado cada gota dessa agonia e a aceitaria toda. Com juros, se fosse preciso.
Foi tomada por uma alegria ao vê-lo. Pete. Aqui. Ficou surpresa que o feixe de amor que disparou dela não o tivesse derrubado. Parecia tão poderoso, irradiando, pulsando pelo salão. Mesmo enquanto seu coração se debatia em dor, sentia-se atordoada de excitação. Estava devastada. Estava eufórica.
O cabelo de Pete estava igual ao de sempre, castanho médio, curto dos lados e atrás e um pouco cacheado em cima. Vestia uma camiseta de manga comprida, cinza mesclado, com as mangas puxadas até os antebraços porque não gostava de nada ao redor dos pulsos. Calças para atividades ao ar livre, azul-marinho, leves e respiráveis, fáceis de limpar, e sapatos de lona sem meias. Parecia solene, como sempre ficava quando estava concentrado em algo. O rosto estava liso. Não gostava de pelos faciais, então se barbeava todo dia.
Ela o conhecia tão bem. Sentia tanto a falta dele.
Estudou-o, faminta, seus olhos devorando os detalhes, empanturrando-se enquanto podia. Ele parecia mais magro, mas isso não lhe caía bem. Sua boca estava dura, tensa, rangendo. Os olhos que focavam no telefone não tinham luz, nem brincadeira, nem alegria. E então os olhos dele se ergueram do telefone, mas não para olhar para Gwyn, e sim para uma mulher atrás do balcão que lhe entregou um saco de papel pardo dobrado e grampeado no topo. E em vez de exibir seu habitual sorriso brilhante e feliz de agradecimento, ele simplesmente acenou para ela. Pegou o saco, guardou o telefone no bolso da frente e deslizou porta afora na noite.
As lágrimas de Gwyn irromperam com um soluço, e Jenny estava ao seu lado num instante, abraçando-a, acalmando-a com palavras e toque. Levou apenas alguns minutos para Gwyn recuperar a compostura, o que deixou Jenny radiante. Dois anos atrás, Gwyn teria ficado um caco o fim de semana inteiro. E provavelmente a semana seguinte também. As duas foram juntas ao banheiro, para Gwyn lavar o rosto, depois voltaram para terminar a refeição. Jenny esperou que Gwyn começasse a conversa.
"Não esperava por isso quando acordei hoje de manhã", ela finalmente disse. Jenny riu de alívio.
"Pete é a última pessoa que eu imaginaria encontrar esta noite. Você está bem, Gwyn?"
"Estou. Estou mesmo. Quer dizer, estou completamente despedaçada, mas me senti tão feliz por vê-lo também. Foi como se parte de mim tivesse sido cortada até o âmago, mas outra parte estivesse tão grata por ele estar ali. Me dilacerou, mas também pareceu me costurar de novo. Não sei o que teria feito se ele tivesse me visto, mas eu vê-lo? Simplesmente foi bom."
Jenny sorriu. "Ele continua com a mesma cara. O mesmo Pete de sempre."
"Não, ele está diferente", Gwyn disse, balançando a cabeça devagar. "Quer dizer, ele parece quase igual. Acho que está com essas roupas desde antes de eu conhecê-lo. Mas ele parece... sei lá, um pouco quebradiço talvez. Tem algo estranho, como se ele tivesse se fechado profundamente em si mesmo. Ou talvez se afastado de si mesmo. Mas ele não é o mesmo Pete de sempre."
"Você acha que ele se mudou de volta?"
"Não sei. Tomara que sim, mas duvido um pouco. Eu nunca te perguntei, mas você ainda fala com ele?"
Jenny balançou a cabeça. "Tentei. Ele não atende quando eu ligo, mas responde se eu mando mensagem. Só que ele só responde o que eu pergunto, nunca pergunta nada sobre mim, e nunca manda mensagem primeiro. Não tive notícias dele desde que dei feliz aniversário."
"Pode mandar uma mensagem agora?"
"Por quê?" Jenny perscrutou os olhos de Gwyn. Ela não queria que Gwyn desfizesse alguns anos de progresso.
"Eu preciso vê-lo de novo. Quero falar com ele. Por favor, Jen."
"Não acho uma boa ideia, querida. Não quero que você se machuque de novo."
"Não vou me machucar de novo. Quer dizer, talvez sim. Provavelmente vou. Mas tudo bem. Eu só quero falar com ele. Nem que seja um minuto."
"Não vamos nos precipitar. Você também não sabe como ele se sente. Ele ainda pode estar puto com você."
"Eu ainda estou puta comigo. Mas entendo o que você está dizendo. Olha só — manda uma mensagem dizendo que viu ele aqui hoje à noite, e que está se perguntando o que ele está fazendo na cidade. Isso vai nos dar uma pista do que está acontecendo."
Jenny sorriu. Isso parecia seguro. "Tá. Vamos fazer isso."
* * * * *
A mensagem chegou justo quando a mãe dele abriu a porta e abriu os braços para um abraço. Ela segurou o filho firme, balançou de um lado para o outro por alguns instantes, depois deu um passo atrás para um olhar avaliador.
"Você não come quando está longe de casa?"
Pete sorriu com ironia. O abraço por amor, a provocação para mantê-lo humilde. Código de família. Ele estava definitivamente em casa.
"Estive de dieta para poder me empanturrar às custas do pai enquanto estou aqui."
"Eu ouvi isso", seu pai disse do corredor. Ele caminhou até Pete e o agarrou para um abraço rápido, completo com dois tapas nas costas. "Aquela empresa metida a besta não te paga? Ainda bem que temos a assinatura do Sam's Club."
"Bem, eu não tinha certeza se ia conseguir chegar, então parei para um sushi no caminho. Querem se juntar a mim?"
Sushi jamais seria uma opção de comida para seus pais, então Pete riu com os velhos e levou a sacola para a mesa da cozinha. Sua mãe providenciou guardanapos e talheres, mesmo que o Masu tivesse incluído ambos. Ela sentou de um lado de Pete. O pai trouxe três garrafas de Molson, entregando uma para a esposa e uma para o filho, depois sentou do outro lado.
Pete não precisou dizer uma palavra enquanto comia e bebia. A mãe o atualizou sobre todas as andanças do irmão e da cunhada e das sobrinhas, os históricos médicos recentes dos parentes mais velhos, as transações imobiliárias na vizinhança, as aberturas e fechamentos de pequenos negócios locais, e algumas novidades sobre seus poucos amigos de infância que eram seguros de mencionar. Ou seja, ninguém que tivesse participado da festa do Dia da Independência dois verões atrás. O pai acrescentava informações e fazia comentários irônicos quando achava pertinente.
Quando Pete terminou sua refeição — seus pais comeram um rolinho primavera cada um por insistência dele — ele embrulhou tudo na sacola e colocou na lixeira embaixo da pia da cozinha. Tomou o último gole da cerveja, depois enxaguou a garrafa e a colocou no balcão ao lado da geladeira.
"Estou acabado. Ainda estou no meu quarto antigo, ou vocês já adotaram alguém de quem gostam mais?"
"Ah, deixa de bobagem. Sempre vai ser o seu quarto. Nós só gostaríamos que você o usasse mais. Os lençóis estão limpos, e tem toalhas novas no banheiro."
Ele deu um beijo na bochecha da mãe e seguiu para o quarto. Esvaziando os bolsos, viu a mensagem de Jenny Ortega.
► Te vi no Masu. Quanto tempo vc fica?
Droga. Que sorte a dele.
Mas Jenny tinha sido uma boa amiga por muitos anos, e só ela fazia o esforço de manter contato. Ele digitou rapidamente.
► O fds. Aniversário do meu pai.
Ele descarregou os artigos de higiene e os levou ao banheiro. Quando voltou, viu a resposta de Jenny.
► Feliz aniversário pro seu pai!
► Tem tempo p uma velha amiga?
Ele suspirou. Não se importaria de ver Jenny, supôs, mas isso poderia ser um caminho escorregadio. Tinha quase certeza de que Jenny não armaria uma emboscada, mas ainda estava cauteloso.
► Talvez. Ainda não sei os planos.
► Ok. Me avisa. Estou livre o fds todo
► Ok
Ele lidaria com isso de manhã.
* * * * *
Jenny dormiu com Gwyn na cama queen-size de Gwyn. Conversaram um pouco sobre o que o dia seguinte traria, mas ambas perceberam que o que quer que acontecesse precisaria evoluir organicamente. Estavam pisando em águas profundas e desconhecidas, então cautela extrema era necessária.
Gwyn pensou que estaria agitada, mas na verdade ver Pete de novo teve o efeito oposto. Era difícil explicar, mas era como se toda a introspecção, a autoflagelação, as dolorosas rememorações desde que ela destruíra seu casamento a tivessem ancorado. Ela sabia o que tinha feito, sabia quem ela era — antes e agora — e estava pronta para aceitar seu destino. Dormiu profundamente.
As duas se levantaram mais cedo do que esperavam, e Gwyn fez um Nespresso primeiro para Jenny e depois para si mesma. Sentaram-se à mesa de Gwyn dividindo um muffin inglês torrado com geleia.
"Quando podemos mandar mensagem para o Pete de novo?" Gwyn perguntou.
Jenny deu de ombros. "Vamos dar a ele até umas dez horas. Não queremos que ele pense que foi a primeira coisa que pensei quando acordei."
"É. Mas o que vamos fazer nas próximas duas horas e meia?" Gwyn disse com um sorriso largo.
"Você já pensou no que vai dizer para ele se tiver a chance?"
"Não pensei em outra coisa por mais de dois anos, amiga."
"E?"
Gwyn sorriu. "Você já ouviu tudo de uma forma ou de outra. Primeiro, eu vou sentir para sempre ter machucado ele tanto. Sempre vai ser meu maior arrependimento, e se houvesse alguma maneira de desfazer aquele fim de semana, eu faria. Como não posso, só posso dizer que examinei a mim mesma por dentro e por fora para entender como pude ser tão impensada, tão levianamente cruel. Não gosto do que vi, mas estou decidida a ser uma pessoa muito melhor do que fui para ele naquela época. E se houver algo que eu possa fazer para ajudá-lo de qualquer forma, estou disposta a fazer, não importa o quão doloroso, não importa o custo pessoal. Não estou pedindo nada a ele, mas espero que um dia ele me perdoe e me deixe ser parte da vida dele de novo."
Os olhos de Jenny se encheram de lágrimas. Ela estendeu a mão para segurar a mão livre de Gwyn.
"Eu sei o que você passou para chegar até aqui, prima. Estou tão orgulhosa de você. Você fez uma coisa terrível. Eu vi o quanto isso te machucou, e eu vejo você agora. Você não é a mesma mulher que era, e isso é só porque você se esforçou para ser diferente. Não importa o que aconteça com Pete, você ainda é uma pessoa linda."
"Não me sinto linda, Jenny. Pessoas lindas não fazem o que eu fiz com Pete, o que fiz com meu casamento." Gwyn ergueu a mão para silenciar as objeções de Jenny. "Mas me sinto uma pessoa diferente, e agradeço a você por sua parte em me ajudar a chegar aqui. Agora, quanto tempo até podermos mandar mensagem para ele?"
"Duas horas e vinte minutos."
Gwyn balançou a cabeça e riu. "Vamos dar uma caminhada."
* * * * *
Pete também acordou cedo, graças à diferença de fuso horário e a uma vida inteira de hábito. Sua mãe ainda assim chegou à cozinha antes dele.
"Bom dia, querido! Como você dormiu?"
"Bem. Muito bem, na verdade." Esta casa realmente parecia um lar. Ele percebeu que sentia falta de estar por perto. Era um ponto de referência, e ele negara seu toque pela maior parte de dois anos.
O rosto da mãe se abriu num sorriso satisfeito. "Senta, senta. Vou deixar seu café da manhã pronto em alguns minutos. O café está quente. Você sabe onde estão as canecas."
Ela fez presunto, ovos mexidos com queijo, batatas fritas com cebola e pimentão, e torradas, e de novo ele não precisou dizer uma palavra enquanto comia. A mãe contou tudo sobre os jantares de verão da vizinhança, incluindo quem vinha e o que traziam, assim como os terríveis acidentes que haviam acontecido com algumas pessoas que conheciam. Ele sorriu enquanto comia.
Começou a limpar os pratos, mas a mãe não permitiu, mandando-o para a sala de estar com seu laptop para ler o Journal do fim de semana. Ele respondeu a alguns e-mails que tinham chegado desde que saíra do trabalho na tarde anterior. E então o dia se estendia à sua frente com apenas duas opções de distração: esta casa com os pais, ou a casa do irmão com a esposa e filhos de Luke. Sem amigos para moderar o tempo em família, o fim de semana de repente pareceu interminável.
Então ele não ficou infeliz ao ver a notificação de mensagem surgir no telefone.
► Acordou?
Ele sorriu. Jenny geralmente tinha esse efeito.
► Sim
► Tem planos hj?
► Mais ou menos. Nada certo
► Vou almoçar no Bunny's. Vc vem?
► Talvez. Só vc?
► Só eu. A não ser que vc queira mais?
► Não. Só vc
► Ok. 13h?
► Ok. Te vejo lá
Deus, ele esperava que sua confiança em Jenny não fosse equivocada.
* * * * *
Jenny ia se encontrar com Pete!
Os nervos de Gwyn faiscavam. Era apenas um primeiro passo — bem, talvez um segundo passo depois das mensagens — mas ela ia saber mais sobre Pete. E esse pensamento a emocionava.
Gwyn estava sentada no Dusty's, um bar a alguns quarteirões de onde Jenny e Pete estavam. Havia apenas alguns outros clientes, a maioria mais velhos, a maioria homens, a maioria bebedores sérios. Ela pediu água com gás e limão, e deixou o olhar do barman a fazer se sentir culpada o suficiente para acrescentar uma porção de fritas. Esperava ficar ali por um tempo. Quanto mais Jenny e Pete conversassem, mais ela saberia sobre seu marido. Seu ex-marido.
E quanto mais soubesse sobre Pete, mais certas ela e Jenny estariam sobre os próximos passos que poderiam, se tivessem sorte, levar a ela falar com ele de novo.
E depois disso? Bem, isso já seria suficiente, pelo menos por enquanto, mesmo que ela pudesse sonhar com mais.
* * * * *
Pete saíra mais cedo do que precisava, porque seus pais tinham saído para as tarefas do fim de semana. O Bunny's não estava lotado, então ele deu uma rápida volta, mas não viu Jenny. Ela chegou um minuto depois, exatamente como ele se lembrava, com um sorriso e um abraço sincero.
Ele sentira falta dela. Cresceram juntos, então sua história era profunda. As milhares de conversas e atividades que compartilharam desde o jardim de infância criaram primeiro familiaridade, depois confiabilidade, e finalmente confiança. Ele também sentira essa mesma confiança com Jeff. Mas Jenny não era um babaca traidor como Jeff, e abraçá-la o acalmou, lembrou-o de que indivíduos sobem e caem por seus próprios méritos, e que as falhas de uma pessoa não mancham ninguém mais.
Jenny se inclinou para trás para olhá-lo, os braços ainda segurando seus ombros.
"Você está bem, Pete. Um pouco magro, mas fora isso bem."
"E você está ótima, Jenny. Você claramente está vencendo na vida."
A recepcionista os levou a uma mesa alta com banquetas e deixou os cardápios, um de comida e outro de bebidas. Uma garçonete veio logo depois e anotou os pedidos.
Jenny hesitou, dando a Pete a chance de direcionar a conversa, mas sua testa se franziu em confusão. Ele não sabia como começar, e se sentia desconfortável. Jenny sorriu para ele, esperando ajudá-lo a relaxar, mas percebeu o quanto Gwyn estivera certa na noite anterior: este não era o mesmo Pete de sempre. Aquele homem nunca se sentira desconfortável perto de ninguém. Então ela tomou a iniciativa.
"Isso não precisa ser estranho, Pete. Eu só sinto sua falta. E quero saber o que você tem feito."
Pete assentiu. "Obrigado, Jenny. Não percebi o quanto eu também sentia sua falta até vê-la."
"Onde você está morando agora?"
"Nova York. Nos arredores de White Plains."
"Ainda naquela coisa de consultoria?"
"Sim. Desenvolvimento corporativo. Fusões. Aquisições. Coisa chata."
Jenny riu. "Não parece chato. Quer dizer, eu não entendo, mas com certeza é bem interessante."
"Você ainda está na enfermagem?"
"Sim. Comecei minha certificação em gerontologia."
"Gerontologia?"
"Envelhecimento. Muitos Baby Boomers estão envelhecendo e precisam de cuidados de enfermagem."
A garçonete deixou a sidra de Jenny e a IPA de Pete e avisou que a comida sairia em breve. Os velhos amigos conversaram mais sobre seus trabalhos, suas famílias imediatas, viagens recentes e outros tópicos inócuos até as refeições chegarem. Ficaram contentes em comer sem muita conversa, mas então, como sempre acontece quando se pisa leve, eles ficaram sem tópicos seguros e se sentaram em silêncio.
Desde que Jenny o conhecia, Pete era quem dava voz ao não dito, quem rompia o constrangimento. Ele nunca buscou confronto ou conflito, mas também não os temia. Vendo a incerteza em seus olhos, o desconforto em suas mãos e braços e ombros, Jenny soube o que precisava fazer. Ainda sentia um pouco de apreensão.
"Não temos que falar sobre ninguém de quem você não queira falar, Pete. Mas eu vejo toda a velha turma. Todos eles te consideram amigo. Eu conto qualquer coisa que você queira saber."
Pete enrijeceu ainda mais. Começou a dizer algo, depois parou. Cobriu a boca com uma mão e a esfregou nas bochechas e no queixo. Coçou a base do crânio.
"Acho que não posso ir por aí, Jenny."
Ela estendeu a mão para a outra mão dele, cobrindo-a com a sua. Tomou como um bom sinal que ele não a afastou.
"Não estou falando da Gwyn." Ela disse o nome de propósito, e ele estremeceu. Ela pensou que ele pudesse, e isso lhe disse o que ela suspeitava. "Tem um monte de gente que adoraria te ver."
"É. Só não sei se posso abrir essa porta."
"Mutt e eu ainda estamos juntos, você sabe."
Pete ergueu o olhar. Sorriu para Jenny. "Fico feliz em ouvir isso. Embora isso meio que atrapalhe nossos planos de casamento."
Jenny riu, com algum alívio, mas principalmente bom humor. E isso ajudou Pete a relaxar. Eles tinham uma piada corrente desde o fundamental de que se casariam se nenhum dos dois encontrasse outra pessoa, mesmo nunca tendo considerado namorar. Ela apertou a mão dele, mas não a soltou. Sabia que toque físico ajudava na conexão.
"O que o Mutt anda fazendo esses dias?"
"Merda chata." Pete ergueu as sobrancelhas, e Jenny riu de novo. "São palavras dele. Ele cuida do setor administrativo da Gray Duck Advisory Services. Ele gosta, e eles parecem gostar dele. Sabe-se lá por quê."
Pete riu de novo. "Gosto não se discute. Ele tem sorte de você ter um fraco por vira-latas."
Ela riu. "Mutt. Saquei o que você fez aí."
Jenny contou tudo sobre os amigos que estavam casados. Angie e Tom tinham uma menininha fazendo um ano em novembro, e estavam pensando em se mudar para um subúrbio mais afastado e mais familiar. Tony e Deb estavam tentando um bebê, mas talvez tivessem que adiar porque Deb tinha a chance de gerenciar o departamento de banho e cama na Von Maur, e ela não queria que uma iminente licença-maternidade afetasse a decisão deles. Pete se viu absorvendo as notícias, fazendo perguntas e os mesmos tipos de comentários que seu pai fazia quando sua mãe o atualizava na noite anterior. Ele sorriu com isso.
A conversa deles chegou a uma pausa natural. Jenny sabia que era hora. Ela respirou fundo e seguiu em frente.
"Você sabe que ela sente sua falta como louca."
Pete enrijeceu novamente, mas de forma menos perceptível desta vez. "É, bem, não tem o que fazer, eu acho."
Jenny suspirou profundamente. "Dá pra ver que você ainda está muito magoado, Pete. Nem imagino o que você teve que enfrentar. Você era a parte inocente e levou a pior. Não é justo."
"Não, não é. Mas aconteceu, e eu preciso lidar com isso."
"E como você está lidando?"
Ele deu de ombros. "Não muito bem, para ser sincero."
"Dá pra ver. Está estampado em você. Em negrito."
"Poxa, obrigado por isso, Jenny," ele disse com um sorriso. "Você vai me chutar quando eu já estou no chão também?"
"Você não é quem eu chutaria, Pete. Mas também não preciso chutar a Gwyn. Ela se chuta o dia todo, todos os dias desde que aconteceu."
"Talvez ela mereça isso."
"Ah, ela merece. E ela sabe disso. Ela está diferente agora, Pete. Quer dizer, ela ainda é a Gwyn. Extrovertida, cheia de energia, linda, engraçada, inteligente. Mas ela está melhor em muitos aspectos também. Muito focada, super atenta às outras pessoas e ao que elas precisam, responsável. Ela nunca tenta se safar de nada. Nem das menores coisas. Sem desculpas, sem atalhos. Nunca."
"Você me perdoe se eu não vou entrar na onda do Time Gwyn," Pete disse com uma amargura nada pequena.
"Claro." Jenny apertou a mão dele de novo. "O que ela fez foi horrível. Você nunca mereceu. Mas eu estou te dizendo, Pete, ela também passou por um inferno. Ela fez isso consigo mesma, mas o que a corrói todo santo dia é que ela fez isso com você. Ela sempre te amou, Pete, e ela nunca vai se perdoar pelo que fez com você. Ela não é a garota com quem você se casou. Ela é muito mais madura e centrada. Mas ela também está incrivelmente triste, não pela perda dela, mas pela sua dor. Ela quer fazer as pazes com você."
Pete escarneceu. "Isso exigiria uma máquina do tempo."
"Ou talvez apenas uma conversa honesta." Ela fechou a mão livre sobre as que já estavam unidas. "Eu amo a Gwyn. Ela é minha prima. Mas eu também amo você, Pete. Nós nos conhecemos desde os cinco anos. Eu não te via há mais de dois anos, mas estive com você por quarenta e cinco minutos hoje, e posso ver que você está sofrendo muito. Você não a superou, ela não superou você. Talvez apenas conversem, ouçam um ao outro. Tenho certeza de que você tem coisas a dizer para ela. Eu sei que ela tem coisas a dizer para você."
"Você está igualzinho ao Mack."
"Mack?"
"Um cara que eu conheço. Lá em Nova York."
"Cara esperto." Jenny sorriu.
"Ele parece achar isso." Pete fez uma pausa. "Ele geralmente está certo."
"Você quer falar com a Gwyn?"
"Não." Pete suspirou. Ele soltou as mãos de Jenny e passou as palmas sobre os olhos. "Eu não quero falar com a Gwyn. Eu não quero que esse pesadelo todo tenha acontecido. Eu não quero me sentir tão malditamente solitário a cada maldito minuto de cada maldito dia. Eu não quero nada disso."
Jenny se encolheu por dentro, mas apoiou a mão no cotovelo de Pete. Ele precisava de conexão. Agora tudo dependia dele. Ela prendeu a respiração.
Ele ficou quieto por um longo tempo, a cabeça enterrada nas mãos. Ele só conseguia ouvir um zumbido constante em sua mente. Ele não sabia que estava vibrando de tensão. Jenny estava quase em lágrimas pela agonia dele. Finalmente, ele soltou um suspiro profundo e se endireitou.
"Se a Gwyn tem coisas a dizer, por que ela não me ligou para dizê-las?"
"Sério, Pete? Ela quer te poupar de mais dor, não acrescentar. Ela se pergunta se ouvir falar dela do nada te machucaria ainda mais. Mas se você quiser que ela ligue, ela explode seu telefone em dois minutos. Você deveria saber que ela faria qualquer coisa para te ajudar a se curar. Não importa o custo para ela."
"Ah, tá."
"Estou falando sério, Pete. Ela não é a mesma mulher. Ela passou por um crisol e sabe o que é importante para ela. E isso é o seu bem-estar. Ponto final. Ela sacrificaria qualquer coisa por você. Ela não se importa se doer nela, ela quer que você volte a ser você. Mais do que tudo."
"Eu simplesmente não acredito, Jenny. Eu não posso confiar nela. Simplesmente não posso. A consciência culpada dela não vale esmagar meu coração de novo."
"Então não confie nela. Não faça isso por ela, Pete. Faça por você. Diga a ela o que você precisa dizer. Vocês nunca mais precisam se ver se não quiserem. Mas você está morrendo por dentro, e ela também. Nenhum de vocês merece ser tão infeliz."
Pete tentou chamar a atenção da garçonete, mas ela estava andando na direção errada.
"Sinto muito, Jenny. Eu tenho que ir. Obrigado por arrumar tempo para mim. Eu, ah, eu te aviso quando estiver de volta na cidade e talvez a gente possa se ver de novo. Eu cuido da conta."
Os olhos de Jenny se encheram de lágrimas quando ele se levantou para sair. Ela pulou do banco e abraçou Pete com força. O corpo dele ficou rígido, mas ela se recusou a soltar, e ele finalmente relaxou um pouco.
"Não desista de si mesmo, Pete. Você tem tantas pessoas que realmente se importam. Deixe-nos te ajudar."
"Obrigado, Jenny." A voz dele tremeu. Ele fechou os olhos para se concentrar na compostura. "Se cuida."
* * * * *
Jenny se sentiu esgotada. Seu segundo vodka tônica suava no balcão à sua frente. Gwyn sentou-se ao lado dela, pensativa, mas resoluta.
"Eu sou um monstro, Jen. Como eu pude destruir um homem tão bom, gentil e generoso?"
"Você não o destruiu, querida. A carreira dele está indo muito bem. Ele já foi promovido uma vez e será sócio em mais alguns anos. Ele tem um apartamento próprio, fica ocupado com os amigos. Ele só não está inteiro."
"Ele correu milhares de quilômetros para longe de todo mundo e de tudo que conhecia por minha causa. Eu suguei a vida dele. Eu o deixei oco."
"Então o que você vai fazer a respeito?"
Gwyn olhou bruscamente para Jenny. "Como assim?"
"Você fez uma coisa de merda, Gwyn. Uma coisa realmente de merda. E você está se punindo desde então. E essa punição te deu clareza sobre como você se sente e o que é importante para você. Então agora o que você vai fazer a respeito?"
Gwyn pensou por alguns instantes. "Não tenho ideia. Eu tenho que falar com ele. Alguma ideia de como?"
"Ligue para ele."
"Talvez eu devesse mandar uma mensagem primeiro."
"Não. Ligue para ele. Não dê a ele chance de te desviar. Peça para ele te encontrar em algum lugar público só por alguns minutos."
"E se ele não atender?"
"Ligue de novo."
"E se ele não quiser me encontrar?"
"Ligue de novo. Mas ele vai atender sua ligação e vai te encontrar."
"Você acabou de me dizer que o homem é uma casca do que era e não quer me ver."
"Foi o que ele disse. Ele não quer te ver. Mas ele precisa te ver, e ele sabe disso. Ele só não consegue dar o primeiro passo. Ele está paralisado, querida. Ele está machucado e aterrorizado que o menor movimento traga uma avalanche de mais dor. Quando você estender a mão para ele, quando ele começar a conversar com você, acho que ele vai ver que não é tão ruim quanto ele pensava."
"Espero que você esteja certa, Jen. Eu odeio pensar nele sofrendo. E estou enojada por ser eu quem fez isso com ele."
"Então faça o que puder para consertar."
Gwyn respirou fundo e assentiu. "Sim. Termine sua bebida e depois vamos para casa ligar para o homem que eu amo."
* * * * *
Os pais de Pete tinham voltado de seus afazeres. O pai dele estava na garagem, no porão ou no galpão do quintal, e a mãe dele estava zanzando pela casa, guardando coisas e mudando coisas de lugar. Pete já a vira fazer isso por horas antes, e ainda assim nada na casa parecia mudar.
"Aonde você foi, mocinho?" ela disse, passando rápido por ele enquanto ele assistia a um jogo de futebol na televisão.
"Almocei com a Jenny Ortega."
A mãe de Pete parou de repente. Nas poucas visitas que fizera a casa, ele nunca vira nenhum dos velhos amigos. "Ah, é? E como está a Jenny?"
"Ela está ótima. Parece que o trabalho vai bem. Ela disse que ela e o Mutt ainda estão namorando."
Outra surpresa. Pete evitara categoricamente falar de qualquer um dos velhos amigos desde que partira para Nova York. Ela tentou manter a voz neutra. "Achei que eles nunca admitiam isso. Ela mencionou mais alguém?"
E lá estava. Pete sabia exatamente o que a mãe queria dizer, e ela sabia que ele sabia, mas ela não ia perguntar diretamente. Ele poderia ter se esquivado com um simples "Não", mas, primeiro, ela era sua mãe, e segundo, ele não mentia a menos que não houvesse alternativa.
"Ela disse que a Gwyn mudou muito. Ela achou que eu deveria falar com ela."
A mãe de Pete lutou para manter o controle das emoções. Ela era uma americana do centro-oeste de ascendência nórdica, então tivera muita prática. Mas o coração dela ainda batia forte.
"O que você disse?"
"Eu realmente não quero falar com ela."
"Mas?"
"Mas o quê?"
"Peter. Eu sou sua mãe. Eu sei quando você está escondendo alguma coisa."
Ele suspirou pesadamente. "Não sei, mãe. O Mack acha que eu deveria falar com ela também. Só não sei se consigo."
"Pete Patterson, você é um homem forte. E um homem bom. Seu pai e eu temos muito orgulho de você. Você sempre fez a coisa certa, o que precisava ser feito. Não importa o que fosse. Tenho certeza de que você fará isso aqui também."
"E se isso me matar?"
"Não seja dramático. Se você pensar, vai saber exatamente o que fazer."
Droga. Ele conhecia o código da família para isso. "Onde está o pai?"
"Acho que está lá nos fundos." A mãe dele deu um tapinha no antebraço de Pete e depois o apertou. Ele sorriu, porque sabia que o tapinha era o código da mãe para afeto e o aperto para encorajamento.
Pete passou pela porta do pátio e, como esperado, viu a porta do galpão aberta e seu pai curvado sobre o cortador de grama, mexendo nele.
"Você sabe que não pode ficar mexendo nessa coisa para sempre. Uma hora você vai ter que cortar a grama."
O pai de Pete virou a cabeça com um sorriso. "Fico esperando um filho que realmente ama os pais fazer isso."
"Acho que o Luke está ocupado. Qual parece ser o problema?"
"Acho que o filtro de combustível está nas últimas."
"Assim como outra pessoa por aqui," Pete disse, sorrindo.
O pai soltou uma gargalhada, e Pete sorriu com isso também. "Ainda tenho alguns bons anos pela frente, filho. Posso até durar mais que você."
"Espero que sim." Pete fez uma pausa por um momento e tentou pensar em como queria dizer a próxima parte. O pai esperou pacientemente apoiado em um joelho, observando o rosto de Pete, o corpo relaxado. "Estou pensando em falar com a Gwyn."
"É mesmo? O que motivou isso?"
"Não sei. O Mack acha que seria bom. Almocei com a Jenny Ortega, e ela diz que a Gwyn quer falar comigo também."
"O que você quer?"
"Eu quero que nada disso tivesse acontecido."
O pai assentiu. "Eu sei que sempre te disse que nada na vida é impossível, mas acho que você acabou de me provar o contrário."
"É. Agora só preciso descobrir a melhor maneira de engolir essa merda." O pai ergueu uma sobrancelha com o palavrão. Pete deu de ombros em desculpa. O pai assentiu para aceitar. "Não sei se consigo lidar com falar com ela."
"E como você está lidando com não falar com ela?"
"Como assim?"
"Filho, sua mãe e eu te amamos. Não tanto quanto o Luke, claro, porque ele nos deu netos." Pete sorriu para o pai. "É evidente para todo mundo o quanto Gwyn te machucou. Você mal vem nos ver, e nunca vê ninguém com quem cresceu. Você está magro. Quase não sorri mais, e não me lembro da última vez que ouvi você realmente rir. Quão pior você acha que se sentiria se conversasse com a mulher?"
Esse era o cerne. A vida dele tinha sido uma droga enorme desde que ela traiu o casamento deles, então quão pior ele poderia se sentir? O que era exatamente o medo dele. Ele mal conseguia lidar com a dor agora. Se ela o machucasse nem que fosse um pouquinho mais, ele se despedaçaria.
"Não acho que aguento mais."
"Então pense na chance de se sentir melhor. Você não acha que há coisas que precisa dizer, coisas que precisa saber, só para deixar toda essa bagunça para trás?"
Pete pensou sobre aquilo por um tempo, mas o medo ainda dominava sua esperança. "Talvez."
O pai assentiu de novo. Ambos sabiam que não precisavam dizer mais nada sobre o assunto. Bem, exceto uma coisa que raramente diziam em voz alta.
"Obrigado, pai."
O homem mais velho sorriu. "Se você realmente quisesse me agradecer, cortaria a grama."
"Você não ajudou tanto assim."
* * * * *
Gwyn respirou fundo e soltou o ar lentamente. Ela olhou para Jenny, que sorriu e deu dois polegares para cima. Gwyn pressionou o número de Pete. Ela entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.
"Alô?" A voz de Pete estava aguda, interrogativa. Ela sentiu a ansiedade dele através do telefone.
"Oi, Pete. É a Gwyn."
"Oi, Gwyn."
"Como você está?"
"Bem. Você?"
"Eu também estou bem, acho. Eu te vi ontem à noite no Masu. Estava com a Jenny."
"Ah, é?"
"É. Ainda com aquela camiseta cinza velha, pelo visto."
"A melhor camiseta que já tive."
"Eu sei. É super confortável. Eu costumava roubá-la às vezes."
"Eu sabia disso?"
"Eu costumava usar suas camisetas sempre que a gente não podia ficar junto à noite."
"É mesmo? Eu nunca fiz isso com suas roupas."
Gwyn riu apesar da tensão. Pete sempre conseguia fazê-la rir. Ela hesitou, mas ele não preencheu o silêncio.
"Você acha que eu poderia te ver? Só por alguns minutos?"
"Como assim?"
Lágrimas vieram aos olhos dela e sua voz ficou embargada, mas ela não iria recuar. Ela não podia. Não agora.
"Eu preciso pedir desculpas. Pessoalmente. Eu preciso..." Não, ela pensou, não assim. "Eu simplesmente preciso."
Era a vez dele ficar quieto. Gwyn só esperou.
"Não sei, Gwyn."
"Por favor, Pete. Eu odeio pedir. Eu não tenho direito nenhum de pedir. Mas eu tenho que pedir. Por favor."
Ele ficou quieto de novo. Ela nem conseguia ouvir a respiração dele. E continuou. Ela ficou tentada a ver se a ligação havia caído, mas não cederia. Ela precisava esperar até ele responder. Ela esperaria para sempre se fosse preciso. Então ela esperou, imaginando-o em sua mente, ele segurando o telefone no ouvido, suas emoções se estampando no rosto enquanto ele lutava com a pergunta que poderia reduzi-la a lágrimas ou elevá-la a picos de alegria.
"Por quê?"
"Por que eu quero te ver? Ou por que... eu fiz o que fiz?"
"Só por quê."
"Por favor, posso te ver? Só uma vez. Não vou te incomodar mais."
O silêncio dessa vez pareceu durar uma eternidade. Ela estava ficando tonta esperando pela resposta dele.
"Tá."
Ela soltou o ar que nem sabia que estava segurando, mas manteve rédea curta em suas emoções. Ela precisava terminar a ligação inteira primeiro.
"O parque? Amanhã de manhã?"
"Tá. Nove horas está bom?"
"Quando você quiser. Estarei lá então, Pete."
"Tchau, Gwyn."
* * * * *
A ligação deveria tê-lo surpreendido, mas não surpreendeu. Tudo o que acontecera nas últimas semanas parecia pressagiar aquilo. Foi quase anticlimático, embora certamente não isento de dor. Ainda assim, antecipar o que ela poderia dizer era mais angustiante do que o que ela realmente disse. E embora ele temesse o encontro na manhã seguinte, sentiu paz já que a incerteza agora estava removida. Não haveria encontro surpresa, nem emboscada.
A noite de Pete foi agradável. Ele levou os pais de carro até a casa do Luke, e eles fizeram um churrasco em família. Hambúrgueres e salsichas, um milho verde meio passado e uma melancia grande para finalizar. Ele passou um tempo cuspindo sementes com as sobrinhas, para o falso horror da mãe delas. Ele não achava que estava cansado, já que não fizera nada físico o dia todo, mas pegou no sono imediatamente quando apagou a luz.
Seu último pensamento foi de Gwyn. Ele a viu numa noite de verão, pouco depois de se casarem. Tão linda, e o jeito como ela ajeitou uma mecha de cabelo que o vento soprou no rosto era tão suave e ainda assim tão sexy. Ele era sólido naquela época, e ela também.
Deus, como ele sentia falta daquilo.
* * * * *
Gwyn também ficou surpresa por seus nervos não estarem completamente em frangalhos. Ela estava contente por ter visto Pete na sexta-feira à noite, porque agora a aparência dele não a chocaria.
Ela e Jenny de fato ficaram obcecadas com a roupa de Gwyn para o encontro. Ela deveria se vestir do jeito que sabia que ele gostava? Ou isso provocaria a dor e a raiva dele? Ela deveria tentar atrair a atenção dele ou minimizar seus atributos físicos e se apresentar sem distrações? Ela deveria caprichar na maquiagem ou apenas prender o cabelo?
Depois de quase uma hora de discussão e de avaliar uns noventa por cento do guarda-roupa, decidiram que o simples e confortável era o melhor. Gwyn precisava mostrar sinceridade, precisava ser autêntica, então qualquer coisa remotamente manipuladora tinha que ficar de fora. Ela escolheu uma camiseta básica, uma calça capri e tênis branco. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo, passou só base com protetor solar e um batom clarinho para hidratar.
Jenny parou na frente de Gwyn, avaliando. "Você é tão linda, amiga. E está um tesão também!"
"Valeu, prima." Gwyn estendeu a mão e abraçou Jenny. "Te devo mais do que posso pagar."
"Você foi tão forte. E agora vai consertar o seu pior erro. Quero ser igual a você quando crescer."
"Não me faz chorar! Já vou fazer isso mais tarde."
"Nada de lágrimas. Você trabalhou por esse momento por muito tempo. Faça com que seja tudo o que você deseja. Pronta para ir?"
Gwyn assentiu e usou as pontas dos dedos para enxugar os olhos.
"Sim. Vamos."
* * * * *
A mãe de Pete já tinha o café da manhã pronto quando ele entrou na cozinha. O pai estava à mesa, lendo o jornal. Pete deu um beijo de bom-dia na mãe e tentou pegar a seção de esportes da pilha na frente do pai.
"Essa pilha é a errada, filho. Você pode escolher daquela ali", o pai disse, indicando a pilha de folhetos de supermercado, anúncios de imóveis e cadernos de entretenimento que ele já tinha descartado.
Pete bufou e puxou o celular, balançando-o. "Você sabe que eu consigo ler o jornal inteiro nesse aparelhinho, né?"
"Não é a mesma coisa que virar as páginas. Toma." O pai entregou a seção de economia que tinha acabado de ler. Pete pegou, e os dois homens sorriram sem se olhar.
O café da manhã era rabanada francesa e salsicha, e o café estava fresco e forte. Pete beliscava o prato, o apetite prejudicado pela distração.
"Está tudo bem, querido?" a mãe perguntou.
"Sim." Pete assentiu, tentando se convencer. "Só muita coisa, sabe." Ele respirou fundo. "Eu, hã, vou ver a Gwyn daqui a pouco. No parque."
Os pais trocaram olhares. Esperança, medo, alívio, compaixão, tudo passou entre eles num instante. A mãe apertou o antebraço de Pete e deixou a mão ali.
"Você vai ficar bem, meu amor?"
"Sim. Acho que sim. Já era hora, eu acho."
O pai assentiu. "É a coisa certa, filho. Você sabe o que quer dizer para ela?"
"Não muito. Foi ela quem me ligou e pediu para a gente se encontrar. Acho que vou ver quando chegar lá."
"Bom, pense um pouco antes. Isso vai ajudar a não dizer coisas que você não quer."
A mãe apertou o braço dele de novo. "Você é um homem bom, Peter Andrew. Gwyn te machucou muito, mas ela também foi boa para você por muito tempo. Lembre de tudo, tá?"
"Sim. Obrigado, mãe. E obrigado, pai."
"Você ainda tem que esperar pela seção de esportes."
* * * * *
Jenny deixou Gwyn vinte minutos adiantada e foi para um Starbucks a alguns quarteirões dali. Fez uma oração rápida pelos dois, Gwyn e Pete.
Gwyn caminhou até um dos bancos espalhados pelo parque. Era o banco que usavam quando saíam do apartamento para tomar um ar fresco. Ela se lembrou daquelas caminhadas com nostalgia. Tanta destruição desde então. Sentou-se e cruzou as pernas, depois abraçou a si mesma. O dia estava lindo: nuvens altas e finas, sem vento, e quente o suficiente para a camiseta, mas não a ponto de se preocupar com manchas de suor.
Ela esperou, calma.
Fazia apenas 36 horas desde que Gwyn vira seu marido -- ex-marido -- de novo, mas desde então sentia que o universo tinha coreografado aquele encontro. Sabia o que precisava dizer. Seu arrependimento pelas próprias ações era total. Preparou-se para a raiva dele, a fúria, a ira. Talvez recuasse com as palavras, mas não fugiria delas. Ele teria a chance de falar, e ela receberia o castigo de cada sílaba. Responderia às perguntas dele com honestidade e sem omitir nada. Ela o amava e lhe devia, e o único objetivo era curar um pouco do sofrimento dele.
"Oi, Gwyn."
Gwyn se assustou. Não o vira se aproximar. Pete se empoleirou na ponta do banco, o mais longe possível e ainda assim dividindo o assento. Gwyn teve que apertar as mãos para não se estender até ele. A presença dele -- o cheiro limpo, o som da respiração mais rápida, a visão da pequena cicatriz no queixo, a pulsação do corpo tão próximo -- a excitava, ao mesmo tempo que a presença dele a acalmava. Nunca se sentira tão confortável quanto perto dele.
"Oi, Pete. Obrigada por vir." Ele deu de ombros em resposta. "Como estão seus pais? Seu pai faz 55 amanhã, não é?"
"É. Estão bem. Como sempre."
"Dê parabéns por mim, por favor. Como estão Luke, Mandy e as meninas?"
"Indo bem. Crescendo rápido."
"Eu sei. Vi Mandy com as crianças um par de meses atrás, e não acreditei como estão altas agora."
Pete assentiu de novo. Não olhou para Gwyn. Os olhos dele vasculhavam a calçada. O coração de Gwyn se apertou. A dor dele pulsava.
"Sei que já disse antes, Pete, mas sinto muito, muito mesmo, por ter te machucado como fiz." A voz dela engasgou, mas continuou. "Foi devastador para mim ver que não sou a pessoa que pensava ser. Fiz uma coisa horrível com você. Você é a pessoa mais importante da minha vida, e te machuquei tanto. E sempre vou me arrepender por ter feito isso."
Pete assentiu de novo, mas os olhos estavam vazios.
"Removi muitas camadas. Não foi bonito, mas me mostrou coisas sobre mim. Fui fraca, autoindulgente e displicente, e isso se transformou em crueldade. Com você. E sinto muito, muito mesmo por isso.
"Quero ser uma pessoa melhor. Estou humilhada. Na maioria dos dias, não me sinto merecedora de nada. Mas tento ser melhor. Todos os dias. Estou tentando reconquistar meu respeito próprio.
"Mas não quero falar de mim. Quero saber de você. Como você está?"
Pete exalou devagar, mas não olhou para Gwyn.
"Estou bem."
"Mentira." Gwyn deu um sorriso tímido. Ela raramente xingava, e esperava que aquilo pudesse chocá-lo um pouco, mas pareceu não ter impacto. "Você esquece que eu te conheço, Pete. Você não está bem. Percebi na sexta à noite, do outro lado do restaurante, que você não está nem perto de bem."
Pete fez uma careta. "Bom, acho que você sabe por quê."
"Ah, eu sei. Não posso voltar e mudar as coisas. Mas talvez possa fazer algo para ajudar você a se curar. Não precisa ser estoico comigo. Não quero nada mais do que ajudar você a encontrar o caminho de volta para o homem maravilhoso, generoso e forte que sempre foi."
"Acho que você é a última pessoa de quem quero ajuda. Você destruiu nosso casamento."
Gwyn conteve um soluço na garganta. Forçou-o para dentro. Não merecia chorar na frente de Pete. "Sei que destruí. E vou me arrepender disso todos os dias até morrer."
"E agora quer ajudar?"
"Quero. Minha terapeuta chama isso de reparação. Eu quebrei. Eu quebrei a gente. Não posso consertar como era antes, mas posso fazer as pazes. E como te conheço tão bem, talvez possa ajudar de maneiras que mais ninguém consegue."
"E o que você pode fazer, Gwyn? Além de arrancar minhas entranhas de novo."
Lágrimas escorreram dos olhos de Gwyn. Ela se endireitou, enxugando as lágrimas das bochechas com força. Estava sendo tão difícil vê-lo em tal agonia. Mas estava resoluta. Merecia aquela reação e qualquer outra coisa que ele tivesse a oferecer.
"Vou fazer qualquer coisa que você precise para se curar, Pete. Quer gritar comigo? Tudo bem, grite. Me xingar? Sim, pode. Se precisar me bater, então me bata. Se precisar que eu te escute, que segure sua mão, eu faço. Vou te dar tudo que tenho se isso significar que você supere sua dor."
Pete zombou. Ainda não olhava para Gwyn.
"Não acho que isso vá acontecer nunca."
"Por favor, não diga isso, Pete. Por favor, não desista da sua felicidade."
Pela primeira vez, Pete se virou para olhar Gwyn nos olhos. Os dele estavam vermelhos e marejados de lágrimas não derramadas. Gwyn sentiu mais uma pontada profunda no coração. Ela o machucara tanto, mas tanto.
"Minha felicidade? O melhor dia que posso imaginar é um dia sem..., bom, sem pensar em você." Ele suspirou. "Ainda não tive nenhum."
O coração de Gwyn bateu mais rápido. Ele ainda pensava nela! Mas afastou essa esperança. Até que ele estivesse curado, cada momento era o tempo dele. O dela viria depois. Se viesse.
Ela esperava ouvir raiva de Pete, até vitríolo, mas ele ainda estava em choque. Dois anos e ele continuava nos primeiros estágios crus do luto. O que ela fizera com aquele homem?
Pete se levantou de repente, interrompendo seus devaneios.
"Isso não foi uma boa ideia. Desculpa."
Antes que ela pudesse responder, ele saiu a passos largos. Os ombros tremiam, encurvados e tensos, mas ela não soube dizer se ele estava chorando. Ficou surpresa demais para chamá-lo, mas pensando bem, talvez tivesse sido melhor.
Merda.
* * * * *
Pete dirigiu para a casa dos pais num torpor. Acostumara-se a funcionar usando apenas parte da atenção. Desde que deixara Gwyn depois da infidelidade, ele era um homem dividido entre tocar a vida e proteger-se da própria dor. Mas ver e ouvir Gwyn hoje cobrara um preço tão alto que ele precisou de mais do que suas reservas habituais para dar conta.
Sabia que ela o afetaria. Pete não mentira; ele realmente pensava nela todos os dias. E todos os dias isso o machucava. Mas pensar nela em abstrato empalidecia diante da experiência da presença real dela. A Gwyn em pessoa era mais do que ele conseguia absorver e processar.
Jenny tinha razão. Passara apenas alguns minutos sentado ao lado dela, e mal conseguira coragem para olhá-la diretamente, mas ela não era a mesma mulher que ele conhecera. Estava forte, de olhar claro, definida. Polida.
De novo ele sentiu a injustiça, e isso o enfureceu e angustiou. Gwyn o traíra, e ainda assim encontrara um eu melhor depois. Ele só tivera cinzas e um senso opressivo e duradouro de inadequação, fracasso e perda.
Ao virar para a garagem da casa dos pais, reconheceu que o pai também tinha razão. Pete deveria ter pensado no que queria dizer a Gwyn antes de encontrá-la. Preparara-se para a reação emocional e esperava que a resposta verbal surgisse no momento. Mas o bombardeio emocional que sentira sentado ao lado dela foi tão chocante que sua mente desligou e ele teve que fugir. Nem conseguira conter as lágrimas enquanto se afastava.
Passou as mãos pelo rosto, soltou o ar e entrou.
Os pais não fizeram perguntas. Não precisavam. Bastou um olhar para perceber que não tinha corrido bem. Então fizeram o que as famílias do Meio-Oeste fazem.
"Já que você está em casa, vai se arrumar. Daqui a pouco vamos para a casa do Luke, e você sabe como seu pai fica na hora de sair."
Pete sorriu com amargura e assentiu. "Vou ficar pronto."
A mãe deu um abraço rápido no filho e um beijo na bochecha. "Eu sei. Você sempre fica."
Pete se sentiu agitado durante o churrasco com Luke, Mandy e as sobrinhas. Não conseguia evitar comparar o casamento, os filhos e o lar do irmão com a bagunça vazia que era sua vida. Queria filhos, um casamento com uma parceira forte e leal, um lar cheio de ruídos que sinalizassem alegria. Que sinalizassem amor. Será que algum dia veria isso? Gwyn despedaçara seu sonho doméstico em pedacinhos minúsculos?
A família notou seu humor e o deixou remoer. Quando as sobrinhas vieram brincar com ele, ele se animou, correndo atrás delas até gritarem, mas quando terminaram, voltou a ficar quieto. Pete foi embora com os pais logo depois de comer. Ninguém se demora num velório.
* * * * *
"Não sei o que fazer agora, Jen. Ele ainda está completamente destruído."
Jenny assentiu. "Eu sei. Ele precisa de atenção intensiva e muito carinho. Mas duvido que deixe alguém se aproximar para dar isso."
"Você descobriu se ele está saindo com alguém?"
"Não. Não quis tocar nesse assunto. Mas olha para ele, Gwyn -- impossível que esteja vendo alguém."
"O que posso fazer? Não vejo como posso ajudar."
"Talvez passar na casa dos pais dele amanhã para dar parabéns pro pai."
"Não posso. Eles não disseram uma palavra para mim desde que souberam."
"Você sabe que não tem jeito indolor de fazer isso, né?" Jenny perguntou. "Vai ser ainda mais difícil do que se reconstruir."
"Eu sei disso," Gwyn retrucou. "Sei melhor do que ninguém."
"Sabe mesmo?"
"O que quer dizer com isso?"
"Você diz que faria qualquer coisa, mas fica hesitando em ir na casa dos pais dele porque podem dizer coisas ruins ou bater a porta na sua cara. Se quer ajudar Pete, vai ter que esperar que sua vida vai ser sobre dar, dar e dar sem receber nada de volta. E vai ser difícil, vai doer, e vai durar até que ele te expulse de vez ou se recomponha."
Gwyn ficou em silêncio. Viu que Jenny tinha razão. Por fim assentiu.
"Talvez eu tenha sido respeitosa demais. Tenho sido deferente com Pete, esperando que ele me diga do que precisa. Mas talvez ele também não saiba."
"Ele parece mesmo perdido. O que você fazia quando eram casados e ele ficava para baixo?"
"Pete quase nunca ficava para baixo. Ele era tão equilibrado. Por isso está tão desamparado agora. Nunca passou por isso antes."
"O que você fazia quando ele ficava irritado ou grosseiro com algo?"
"Eu só dava amor para ele. Abraçava, beijava e me aconchegava. Levava para a cama e mimava com boquetes. Ou montava nele e cavalgava devagar e docinho." Gwyn olhou para o nada por um instante, um sorriso suave curvando seus lábios. Depois balançou a cabeça. "Mas não posso mais fazer isso."
"Por que não?"
"Você não está prestando atenção, Jenny?"
"Talvez você precise forçá-lo a lidar com você. Olha, ele está machucado. Muito. Você conhece ele melhor do que ninguém. Entra nessa com ele. Do jeito que você o conhece e o quanto quer o melhor para ele, vai descobrir como ajudá-lo."
Gwyn pensou muito por alguns instantes. Um caminho completamente diferente surgiu em sua mente. Talvez não trouxesse Pete de volta para ela, mas poderia trazer Pete de volta para si mesmo. E era isso que ela tinha prometido fazer. Respirou fundo e exalou devagar. Estava resoluta.
"Ele vai odiar."
"Sim. Mas é para o bem dele."
"Ele vai me machucar."
"Sim. Muito."
Gwyn assentiu. "Tudo bem."
* * * * *
A primeira sessão de Pete com Mack depois de voltar de Minnesota o enfureceu.
"Então ela te disse que quer ajudar. Você teve a chance de dizer como se sentia e não disse?" Mack sondou.
"Eu disse que estava machucado. E que não queria que ela me machucasse de novo."
"Isso é bom. Mas você vê que teve a oportunidade de falar mais?"
Pete deu de ombros. "Mas por quê? Nunca mais vou voltar com ela."
"E quanto a resolver sua dor? Pode ajudar você a seguir em frente se conseguir dizer a ela como se sentiu depois das ações dela. Ainda nem estamos falando de perdão."
"Como posso perdoá-la?"
"Se você algum dia for seguir em frente, vai precisar largar a mágoa e a raiva. O que é uma grande parte do perdão."
"Não sei se consigo."
"Também não sei se você consegue. Claramente você ainda não está pronto. Só você pode dizer quando o peso da sua dor e da sua raiva não valer mais a pena carregar. Mas até lá, você vai se sentir assim. Mas não precisa perdoar Gwyn ainda. Só diga a ela o que você sente por causa das ações dela. É um passo rumo ao seu destino final."
"Então ela me estripou, e eu tenho que consertar," Pete disparou.
Mack hesitou e respondeu simplesmente: "Sim."
Era uma tremenda besteira. Pete remoeu o resto da semana e até cancelou a visita seguinte com Mack. Na sessão seguinte, Mack apontou o ressentimento de Pete, o que só o deixou mais amargo. Ele também não estava ansioso pelo próximo encontro.
Pete se obrigou a se concentrar na tarefa do dia enquanto tomava banho e fazia um café da manhã rápido. Uma empresa de ferramentas de precisão com quatro oficinas estava tentando comprar um concorrente, mas os ressentimentos do lado do alvo tornavam o progresso lento. Os números apoiavam a oferta que haviam desenvolvido, mas seria necessário adoçar o negócio para que a transação acontecesse. Pete odiava essas situações. Seu cliente queria o negócio por escala e agora por ego; sua chefe e os sócios queriam o negócio pela taxa de consultoria, mas Pete não recomendaria uma oferta que não fosse do melhor interesse do comprador. E era exatamente para lá que seu instinto dizia que estavam indo. Seria um dia que exigiria muita sutileza. Ele odiava esses dias.
O dia melhorou imensuravelmente quando ele descobriu que alguém havia deixado uma xícara de café em sua mesa. Estava quente e tinha um sabor mais doce do que ele costumava tomar ultimamente. Ele sorriu. Talvez o dia não fosse ser uma droga completa.
— Obrigado pelo café, Mark.
— Que café? — Seu analista parecia confuso.
— Você não me trouxe um Starbucks?
— Não. Você tem um admirador secreto?
— Só no dia em que isso acontecer. Quem será que foi, então?
— Pode ter sido aquela mulher que esteve aqui mais cedo. Mais baixa. Cabelo escuro.
— Hmm. Não conheço ninguém assim. — Pete balançou a cabeça, depois deu de ombros. — Vamos mergulhar na Jackson Tool e ver se conseguimos deixar todo mundo feliz.
Eles não conseguiram. A administração pediu sanduíches para o almoço, e já passava das seis quando Pete desistiu pelo dia. Pensou em ir à academia antes de comer alguma coisa, mas estava faminto e bem esgotado. Bocejou ao sair do prédio e seguiu para a garagem.
— Oi, Pete.
Seu cérebro estava lento, e ela não devia estar ali, então demorou bastante até que reconhecesse Gwyn. Ela estava ótima em um terninho azul-marinho e blusa branca. Usava sapatilhas da mesma cor e segurava uma pasta fina.
— O que você está fazendo aqui?
Ela sorriu para ele. — Consegui um emprego novo. Moro aqui agora. Achei que devia avisar para não ser muito chocante quando a gente se esbarrar.
— Não acredito nisso. — Sua mente lutava para acompanhar.
— Não, sério. E lembre-se, se houver algo que eu possa fazer por você, é só falar. Estou aqui para ajudá-lo. Sua felicidade é minha prioridade.
A raiva de Pete explodiu. — Isso é uma merda!
Gwyn deu de ombros levemente. — Isso é expiação.
Pete rangeu os dentes, a respiração forte e rápida. Começou a vibrar de fúria. Por fim, gritou: — Vá se foder, Gwyn!
A expressão dela não mudou enquanto ele se afastava pisando duro. Ela ignorou os olhares de queixo caído das poucas pessoas ao redor que presenciaram o surto. Tinha certeza de que coisas piores viriam.
* * * * *
Para o jantar, Gwyn fez uma tigela de quinoa com couve-flor assada e batata-doce, abacate, molho fresquinho e sementes de girassol. Comeu enquanto assistia a vídeos. Quando ficou tarde o suficiente para Jenny estar em casa, Gwyn ligou para a prima.
— Conversei com o Pete hoje.
— Como foi?
Gwyn deu uma risada. — Ele mandou eu ir me foder.
— Como esperado.
— É. Tenho certeza de que vai piorar antes de melhorar. Se é que vai melhorar.
— Aguenta firme, garota. Você está fazendo a coisa certa.
— É.
— Como está o trabalho?
— Está bem. Vai levar um tempo até eu provar meu valor para a empresa. Embora seja um alívio voltar a ser colaboradora individual. Vai facilitar muito ficar de olho no Pete.
— Como você está ficando de olho nele?
— Não estou perseguindo ele. Deixei um café para ele hoje de manhã. Amanhã vou mandar uma mensagem oferecendo para pegar alguma coisa para ele enquanto estiver no mercado.
— Você vai fazer uma viagem especial, não vai?
— Claro. Embora eu também precise comer, sabe — Gwyn riu baixinho. — Vou só entrar em contato uma vez por dia. Sem pressão, só coisas como ‘Estou pensando em você’ e ‘Posso pegar algo para você enquanto estou fora’. Quero ser inconveniente o suficiente para estar sempre na mente dele, mas não tão inconveniente a ponto de ele me bloquear.
— Boa sorte.
— Obrigada, prima. Vou precisar!
* * * * *
— É ridículo! Eu ouço falar dela todo dia. Todo santo dia!
Pete esbravejou por alguns minutos sobre Gwyn. Mack manteve sua distância profissional, mas estava satisfeito. Gwyn provavelmente não tinha mais do que um senso intuitivo, mas o que ela fizera ao se mudar para Nova York e interagir diariamente com Pete era exatamente o que o ex-marido dela precisava. Sua presença persistente na vida dele o forçava a lidar com seus demônios. E ele estava fervendo.
— O que ela não entende? Eu não quero nada com ela. Se ela quer me ajudar como diz, então precisa me deixar em paz!
Mack ficou em silêncio por um momento. — Você disse que ela se sente culpada pelo que fez ao casamento de vocês. Talvez ela não esteja realmente tentando ajudar você. Talvez esteja tentando ajudar a si mesma.
— Eu sabia! Aquela... aquela vac--, ah, isso é tão... tão egoísta!
Interessante, pensou Mack. Pete não xingaria Gwyn. Ele pressionou um pouco mais.
— O que há de tão ruim no que ela está fazendo? Quer dizer, ela te magoou, e agora está fazendo coisas atenciosas para melhorar.
— Ela nunca pode melhorar isso! Ela precisa simplesmente me deixar em paz!
— Muita gente apreciaria alguém se interessar pela vida dela.
— Não assim! Qualquer outra pessoa estaria bem. Só ela não!
Mack acenou com a cabeça. Definitivamente, ele saiu da estagnação.
— Qual é a desvantagem aqui, Pete? Qual é a pior coisa que pode acontecer por ela fazer pequenas gentilezas para você?
— Isso me lembra o que ela fez!
— Você sabe há mais de dois anos o que Gwyn fez. Você me disse que pensa nisso todo dia. Então o que mudou?
— Ela está aqui! Vê-la só me faz lembrar disso.
— Lembrar do que ela fez? Ou lembrar do tempo que passaram juntos?
Pete ficou subitamente imóvel. Droga, Mack, pensou. Era exatamente esse o problema. O comportamento dela ecoava o tempo em que foram casados, e o lembrava do que haviam perdido. Ele afundou com o reconhecimento.
Mack continuou, mas com uma voz suave e gentil. — Você acha que está com raiva porque ela o lembra do quanto você dói? Mantém sua dor em primeiro plano em vez de enterrada?
Pete ficou completamente imóvel por vários instantes. Por fim, deu de ombros e disse baixinho: — Acho que sim.
— Você acha que ela está se envolvendo com você para te machucar?
— Não. Ela não é assim.
— Então ela não pretende te machucar. Ela está fazendo coisas atenciosas para facilitar seu dia. Qual é a pior coisa que pode acontecer aqui?
— Não posso depender dela. Simplesmente não posso. Ela já mostrou que pode me devastar. Não posso confiar nela.
— Você controla o quanto depende dela. Pode aceitar os cafés, as ofertas para buscar seu almoço ou jantar ou compras, as mensagens de incentivo, a garrafa do seu vinho favorito sem se comprometer em nada com ela.
— Não posso confiar nela.
— Você tem todas as cartas na mão, Pete. Seu relacionamento só vai até onde você permitir. Você acha que pode querer ter um relacionamento com Gwyn?
Pete ficou sentado, taciturno. Ficou mudo.
* * * * *
O micro-ondas apitou. A sopa de Gwyn ficou pronta no mesmo instante em que a fatia de pão saltou da torradeira. Ela levou a janta para a ilha que separava a cozinha da sala principal do seu apartamento de um quarto. Originalmente, pensara em um hotel de estadia prolongada, mas aquele clima era transitório demais. Queria que tudo o que fizesse demonstrasse seu compromisso com Pete.
Ela sentia um prazer sombrio na sua campanha para se conectar com ele.
Fazia uma coisa por ele todo dia, mas apenas uma coisa. Nunca insistia, nunca forçava nada, nunca tornava suas ações óbvias demais. Mantinha-se visível, mas não onipresente. Deixava café para ele algumas vezes por semana, trocando os dias. Mandava mensagem do Wegmans ou do Walgreen's perguntando se ele precisava de algo enquanto ela estava lá. Tirou foto de um pack de seis cervejas Molson e perguntou se deveria deixar no apartamento. Uma vez, viu um post no LinkedIn anunciando um aniversário de trabalho dele, então escreveu: "Parabéns! Quando te contrataram, levaram o melhor de todos!" Mandava memes engraçados sobre ciclistas ou consultores ou gente de Minnesota. Naquele dia, enviou a foto de um penhasco elevado sobre um lago parado, dizendo que a lembrava de casa. Uma ou duas vezes por semana, ela ficava do outro lado da rua do escritório, do condomínio ou da academia dele e esperava até que ele saísse para, então, andar decididamente pela calçada. Não olhava para ele, então nunca sabia se ele a notava.
Geralmente, não recebia resposta de Pete. Algumas vezes, ele disse para ela parar.
Gwyn também estava fazendo amizade com os colegas dele, encontrando-os "por acaso" e guiando a conversa até descobrirem que ambos conheciam Pete. Ela os alertava que era sua ex, e que ele não gostaria de ouvir falar dela, mas mantinha contato, marcava almoços casuais ou encontros em grupo depois do trabalho. Nunca mencionava Pete na conversa, mas, como todos sabiam que ela o conhecia, acabavam contando uma ou duas novidades sobre ele a cada vez. A maioria dos colegas achava que ele era um cara legal, mas muito tenso.
Levou algumas semanas, mas Gwyn tinha uma boa noção da estrutura da vida de Pete. A maior parte era trabalho. E ele realmente estava se destacando ali. Entregava mais projetos do que qualquer outro, incluindo alguns negócios bem grandes. Ajudava o fato de poder dedicar sessenta, setenta, às vezes oitenta horas por semana ao trabalho. Não tinha obrigações conflitantes. Saía para beber depois do expediente de vez em quando, mas, depois de uma hora relaxando, ou voltava ao escritório ou ia à academia. Pedalava com seu grupo de ciclismo na maioria dos sábados, entre sessenta e cento e trinta quilômetros. Gwyn também fizera amizade com alguns dos companheiros de pedal. Nos mais de dois meses desde que se mudara, ainda não ouvira falar de nenhum namoro, o que a deixava um pouco triste e muito esperançosa.
Ela aguardava o momento certo. Paciência não costumava ser uma de suas virtudes, mas, dessa vez, mergulhou nela. Cada dia era sua própria recompensa. E penitência.
* * * * *
— Carro atrás!
Pete nunca viu. Estava pedalando na frente do grupo de oito ciclistas e acabara de sair da ponta quando o SUV desviou para a direita e tocou a roda traseira dele. Ele caiu rápido e feio. O capacete rachou com o impacto, mas cumpriu sua função. Pete recobrou a consciência pouco antes de os paramédicos chegarem na ambulância.
— Como está se sentindo, senhor?
— Minha cabeça dói muito.
— Você provavelmente tem uma concussão. Vou fazer algumas perguntas. Tudo bem?
— Claro, mas minha cabeça dói muito.
O paramédico fez várias perguntas sobre a visão e a audição de Pete, pediu que apertasse a mão dele algumas vezes, que seguisse o dedo com os olhos. Ajudou-o a ficar de pé e observou seu equilíbrio. Era difícil ficar de pé com confiança usando sapatilhas de ciclismo.
— Você quase com certeza tem uma concussão, senhor. Vamos levá-lo ao hospital para avaliação. Eles também vão limpar os arranhões no joelho e no braço. Tudo bem para você?
— Claro. — A cabeça de Pete latejava.
A viagem para o pronto-socorro foi rápida, e uma enfermeira logo lavou e enfaixou as escoriações. Ele teve que esperar um pouco até um médico examinar sua cabeça. O diagnóstico de concussão foi simples e só precisava de uma imagem para confirmar que não havia danos mais sérios.
— Não há necessidade de interná-lo — disse o médico a Pete. — Você tem alguém que possa ficar com você caso sinta náuseas ou tontura?
— Na verdade, não.
O médico ergueu as sobrancelhas. — Ninguém? Só por um ou dois dias?
— Na verdade, não. Minha família está em Minnesota.
— Amigos? Colega de trabalho?
— Deixe eu mandar mensagem para algumas pessoas.
Começou pelo grupo de ciclismo. Eles já haviam explodido seu telefone com perguntas sobre os ferimentos.
► Concussão. Preciso de alguém pra ficar cmg. Alguém se habilita?
As respostas vieram rápidas, mas sem sucesso.
► Desculpa, cara, hj não dá ► Posso te dar carona pra casa. Não posso ficar muito ► Aguenta aí. ► Não posso deixar as crianças. Melhoras! ► Desculpa. Mas que bom que vc está bem
Mandou mensagem para a chefe e a equipe de trabalho. As respostas deles demoraram mais, mas as respostas foram as mesmas. A chefe disse para tirar o tempo que precisasse para se recuperar. Pediu que Pete a mantivesse informada sobre sua recuperação. Mark se ofereceu para levar o que Pete precisasse.
— Alguém? — perguntou o médico quando voltou.
Pete deu de ombros. — Ninguém para ficar. Mas várias pessoas vão checar como estou.
— Então vamos mantê-lo em observação durante a noite. Você não vai para casa sem alguém para monitorá-lo.
— Vou ficar bem. Ligo para o hospital se não estiver me sentindo bem.
— Você não está na melhor posição para avaliar isso.
— Vou ficar bem. Tenho pessoas para checar como estou.
— Desculpe. Você precisa ser monitorado. Vou começar o processo de internação agora.
Droga.
* * * * *
Na segunda-feira, Gwyn deixou um café médio com açúcar e creme na mesa de Pete antes de ir para o escritório. Ao sair, viu Mark entrando pela porta. Seu rosto se iluminou ao vê-lo.
— Bom dia, Mark! Você está começando cedo.
Mark deu de ombros. — Com o Pete fora, vou precisar de cada minuto que conseguir.
— Ele está viajando?
— Só entre a cama e o sofá. Você provavelmente não soube que ele foi atingido por um carro enquanto andava de bicicleta no sábado. Ficou internado no hospital durante a noite, e eu o trouxe para casa ontem. Ele está com uma concussão.
— Ai, meu Deus, não! — Ela passou apressada por Mark, puxando o celular enquanto se afastava rapidamente nos seus saltos baixos. Ligou para a chefe e disse que tinha uma emergência familiar. Sabia exatamente onde Pete morava e, em cinco minutos, estava estacionando em frente ao prédio do condomínio dele.
Pete levou alguns minutos para chegar à porta, e Gwyn ficava cada vez mais agitada. Ele estava no banheiro quando a campainha tocou pela primeira vez, e Gwyn tocou mais três vezes antes de ele abrir.
Seus olhos estavam sem brilho, e ele estava apático mesmo quando reconheceu Gwyn. Suspirou.
— O que você quer, Gwyn?
— Jesus, Pete. Você está horrível. — Ela se espremeu para passar por ele e entrou no apartamento. Uma parte dela vibrava de excitação — jamais sonhara que estaria aqui! —, mas a maior parte estava preocupada com Pete, e ela se concentrou nele. Precisou de todo o seu autocontrole para não espremê-lo num abraço. — O que os médicos querem que você faça?
— Tenho que descansar. O que você quer?
— Eu te disse que estava aqui para ajudar você. É isso que eu quero. E é isso que você vai me deixar fazer até que consiga se virar sozinho.
Ele fechou a porta devagar e se arrastou até a sala. — Estou me virando muito bem.
— Sério? — Gwyn apontou para a cozinha, onde pratos sujos estavam espalhados pela bancada. Ela também viu uma embalagem de leite de meio galão aberta e uma casca de banana misturada. — Você se deita, e eu cuido dessa bagunça rapidinho.
Pete não tinha energia para brigar, então se moveu lentamente até o sofá e se deitou. Colocou o braço sobre os olhos.
Gwyn largou a bolsa no balcão elevado entre a sala e a cozinha. Enxaguou os pratos e os colocou na lava-louças, sentiu que a caixa de leite ainda estava fria e a guardou na geladeira, e jogou a casca de banana e umas caixas vazias de jantar de micro-ondas no lixo. Passou um pano nas bancadas com a esponja que ele deixara secar atrás da pia.
Ela se moveu pelo apartamento com determinação. Era exatamente por isso que se mudara para cá. Ia ajudar Pete a passar por essa crise. Gwyn não sabia se seria o suficiente, mas era pelo menos um começo. Levou quase uma hora, mas trocou os lençóis da cama dele, começou uma lavagem de roupa, trocou as toalhas do banheiro da suíte e passou aspirador nos dois quartos — um usado como escritório — e nos corredores.
Gwyn fez uma rápida vistoria na cozinha, constatando que faltava muita comida. Pegou o celular e fez uma lista de itens básicos, depois sentou-se em frente a Pete, que estava esparramado no sofá.
— O que você gostaria que eu preparasse para o almoço? Você gosta do meu macarrão com legumes, e posso fazer feijão com arroz, sanduíche de queijo quente ou ravióli com pesto.
— Cereal está bom para mim.
— Parece que você comeu cereal no café da manhã. Vou fazer macarrão e feijão com arroz. Aí você pode escolher um para o almoço e o outro para o jantar.
— Não tenho ingredientes para nenhum dos dois.
— Eu sei. É por isso que estou indo ao supermercado. Você também precisa de limpador para o banheiro. A equipe de limpeza precisa melhorar o serviço. Por favor, me empreste sua chave reserva. Deixo na hora que for para casa hoje.
Pete se recompôs e achou uma chave extra. Não disse nada a Gwyn enquanto a entregava com cuidado.
— Obrigada — disse ela. — Volto já.
A caminho do Wegmans, Gwyn ligou para algumas pessoas que conhecia da empresa de Pete. Deu atualizações sobre o estado dele e pediu que organizassem visitas de meia hora dos colegas de trabalho, em esquema de revezamento. Também conseguiu o nome da chefe direta de Pete e ligou para ela.
"Oi, Rachel. Meu nome é Gwyn. Sou amiga do Pete Patterson."
"Como está o Pete? Ele está bem?"
"Para ser honesta, ele não está muito bem. Muito letárgico agora. E parece estar sentindo muita dor."
"Puxa. Odeio ouvir isso. O que posso fazer?"
"Freddi e Gio estão organizando uma escala de visitas para quem conhece o Pete — precisamos mantê-lo entretido sem cansá-lo. Tenho certeza de que ele adoraria te ver. Também queria saber o que posso fazer para ajudá-lo a trabalhar de casa quando ele estiver melhor. Conhecendo o Pete, ele vai querer começar bem antes de os médicos liberarem ele para voltar ao escritório."
"Sem problema. Acho que ele já tem tudo pronto para trabalhar remotamente."
"Ótimo! Só me avise se precisar enviar algum material para ele — eu trabalho por perto e posso dar um pulo aí para pegar a qualquer momento."
"Agradeço muito, Gwyn. Pete tem sorte de ter você."
Gwyn riu amargamente. "Obrigada, Rachel. Fico feliz que pense assim."
Gwyn saiu do apartamento assim que terminou de cozinhar, mas disse a Pete que voltaria na manhã seguinte antes do trabalho. Pete escolheu o feijão com arroz para o almoço e a massa de vegetais para o jantar. Estavam deliciosos.
* * * * *
Conforme sua dor de cabeça e vertigem diminuíam, Pete começou a ferver por dentro.
Gwyn aparecia duas vezes por dia, uma antes do trabalho, muitas vezes com café e uma massa ou bagel para ele, e depois novamente à noite. De manhã, ela se certificava de que ele tinha algumas opções de refeição para o almoço, e à noite fazia o jantar, arrumava a casa e depois o deixava comer sozinho.
Gwyn estava invariavelmente alegre e mais assertiva do que nunca quando eram casados. Ela lhe dava opções, mas nunca um campo totalmente livre. Pete gostava do novo foco de Gwyn; tinha sido uma distração para ele tomar todas as pequenas decisões nos dias de casados. Agora ela assumia mais o controle, mas sem ignorá-lo.
Os fins de semana eram diferentes. Ela ainda vinha de manhã, mas depois de cozinhar um café da manhã completo e limpar tudo, fazia com que ele se vestisse e a acompanhasse em uma caminhada. O ar frio fazia bem à sua cabeça, embora deixasse suas orelhas ardendo porque ele evitava chapéus sempre que possível. Só conversavam quando Pete iniciava, o que não era frequente e nunca sobre coisas importantes. Ela o observava de perto e ficava nervosa se ele diminuísse o ritmo. Geralmente, Pete cochilava depois das caminhadas. Ela lhe servia o almoço e depois preparava o jantar também. Amigos costumavam aparecer no meio da tarde, e Gwyn ia embora quando eles chegavam.
Ver Gwyn todos os dias desconcertava Pete.
Ele ressentia aquilo. Pensava que não queria ser lembrado da traição dela. Na realidade, não queria ser lembrado da ausência em sua vida daquela mulher animada, inteligente, divertida e atraente. Ele sentia muito a falta dela, mas ela o havia destruído. A atenção dela minava sua raiva, o que, paradoxalmente, o deixava ainda mais furioso. Ele se sentia no direito de ter sua fúria — a infidelidade dela era completamente injustificada e ela o ferira profundamente — mas não conseguia reconciliar aquela raiva com a mulher carinhosa e atenciosa que via todos os dias. Ela era uma mulher incrível que havia feito algo indizivelmente cruel. E esse círculo não podia ser fechado, deixando Pete incapaz de articular por que estava tão bravo.
Mas ele fervia.
A represa estourou numa terça-feira de manhã. Ele dormira de mau jeito, então estava com o pescoço dolorido que provocava uma dor de cabeça surda. Gwyn chegou no horário de sempre. Ela tinha uma chave, então, depois de bater rapidamente, entrou.
"Ei, Pete. Trouxe seu café e um muffin."
Pete estava sentado no sofá, em silêncio. Seu mau humor era óbvio, então Gwyn colocou a comida na mesinha de centro à sua frente. Ela foi até o quarto dele e viu a cama desarrumada, o que só confirmava seu estado de espírito. Ele não tinha sido passivo-agressivo antes da separação, o que reforçava o quanto ela o havia marcado. Gwyn arrumou a cama, depois foi para a cozinha e preparou algumas opções de almoço antes de voltar para perto de Pete.
"Deixei sopa com torradas ou salada Caesar de frango para o almoço. Quer alguma coisa antes de eu ir?"
"Você pode parar com toda essa farsa de merda."
Ela tinha visto a frustração dele crescer desde que começara a cuidar dele, a tensão aumentando constantemente, então não se surpreendeu com a beligerância. Ele andava mais irritadiço ultimamente, mas aquilo era uma escalada.
"Sinto muito, Pete. Mas não sei do que você está falando."
"Isso tudo." Ele gesticulou ao redor. "Você 'cuidando de mim'. Isso é só uma merda egoísta para aliviar sua consciência. Até meu terapeuta diz isso."
Gwyn tentou aliviar o clima. "Seu terapeuta deve ser bom para diagnosticar minhas motivações sem me conhecer."
"Vai se foder, Gwyn!" Pete explodiu. "Só vai se foder!"
Isso a deixou atordoada. Ela não sabia o que dizer. Isso deu mais espaço para o veneno de Pete.
"Só que o Jeff já fez isso, não foi? Você é uma maldita — quer saber, não sei o que você é. Você é só... só egoísta e — só, vai se foder!"
Lágrimas escorreram dos olhos de Gwyn. As palavras dele a machucaram. Ela esperava uma explosão de Pete antes disso, mas como não tinha acontecido, se perguntava se viria. Levou alguns instantes para se centrar, mas então encontrou calma. Era isso que ela merecia. Era o que ela estava esperando.
"Sinto tanto por ter machucado você, Pete. Mais do que qualquer coisa."
"Sentiu por ter me machucado? Se sentisse, não teria fodido com ele! Por duas malditas noites! Ou foi mais do que isso? Você e o Jeff estavam fodendo esse tempo todo? Era isso que estava rolando entre vocês? Não podia esperar eu sair para foder o dia e a noite toda?"
"Foi só uma vez, Pete. Só naquela noite de domingo. Não fiz antes, e não o vi desde então."
"Vai se foder! Como se eu acreditasse! Você não estava na nossa cama em nenhuma dessas noites! Você está mentindo!"
"Nós desmaiamos lá embaixo no sábado à noite. Estávamos completamente bêbados. Dormi no sofá-cama com a Roberta. Tanya ficou no sofá pequeno, os caras ficaram espalhados pelo chão ou pela varanda."
"Besteira!"
"É verdade."
"Eu não acredito em você! Você está mentindo pra caralho!"
"Não estou. Eu traí nosso casamento. Mas só uma vez. Domingo à noite. E só uma vez. Ficamos bêbados de novo, mas não tão apagados a ponto de desmaiarmos. Não me lembro de muita coisa. E não vi o Jeff desde que saí de lá no dia seguinte."
"Ah, é mesmo? Que conveniente! Então por que não disse isso antes? Você é tão cheia de merda!"
"Você nunca quis ouvir falar sobre isso. E que diferença fazia quantas vezes? Uma vez já era suficiente. Eu sabia disso. Não havia circunstâncias atenuantes suficientes para cobrir nem mesmo aquela única traição."
Pete olhou furioso para Gwyn. Parte de sua raiva havia se dissipado, mas a enorme ferida se abriu novamente, escancarada, exposta. Ele permaneceu em silêncio.
"O que você precisar fazer comigo, Pete, você pode fazer. Eu mereço tudo o que você jogar em mim. Mas eu não vou embora. Preciso fazer reparação a você. E eu vou. Mas farei tudo o que você me disser."
"Por quê, Gwyn? Por que caralhos você não me deixa em paz?"
"Eu já disse. Preciso expiar." Ela respirou fundo. "Eu te amo, Pete. Eu machuquei você, muito, mas eu te amo. Quero estar com você. Aceito qualquer tipo de relação que você quiser ter comigo. Faxineira, companheira de treino, amigos, amigos com benefícios — o que você quiser. Sonho em um dia ser sua parceira de novo, com tudo que isso significa, mas não posso fazer exigências ou mesmo pedidos a você, dado o que fiz ao nosso casamento. Então farei o que você precisar que eu faça."
"Me deixe em paz, Gwyn. Só me deixe em paz."
"Se é disso que você precisa, então é o que farei. Mas você terá que me convencer de que é o que realmente quer. Voltarei mais tarde, no fim da tarde. Vou perguntar de novo."
Ela saiu em silêncio. Pete ficou amuado por um tempo, mas sua raiva não encontrava foco. Conforme se acalmava, reconheceu como se sentia miserável. Precisava fazer uma escolha. Não podia mais continuar assim.
* * * * *
Gwyn chorou quando chegou em casa. Bem, na verdade, por todo o caminho também. Sabia que merecia a ira de Pete, mas ainda assim doía. As palavras em si ardiam, claro, mas ela também sabia que era responsável pela angústia de Pete. E isso doía mais, mesmo depois de dois anos. O presente que continua dando.
Ela respirou fundo e soltou lentamente, o que a fez se sentir melhor. Aceitou a raiva dele, repetindo um mantra em silêncio.
"Eu amo o Pete. Vou carregar a dor dele como meu fardo. Não pedirei nada em troca."
As palavras ajudaram a centrar seus sentimentos. Aquela era sua penitência por suas ações de dois anos atrás, sua restituição à pessoa mais importante de sua vida.
Ainda assim, Gwyn não podia deixar de se perguntar se Pete algum dia a perdoaria o suficiente para ter um relacionamento com ela. Qualquer relacionamento. Ela aceitaria qualquer papel na vida dele que ele permitisse. Podia ter esperança, podia sonhar, mas no fim ela se colocou nas mãos de Pete. Era confiança, era humildade, era assustador.
Ela esperava que a bondade e decência que uma vez o definiram pudessem afastar a parte dele que exigia vingança. Porque se não, se depois que ela colocasse seu coração nas mãos dele, se ele o despedaçasse, ela talvez nunca se curasse.
Ela respirou profundamente de novo.
"Eu amo o Pete. Vou carregar a dor dele como meu fardo. Não pedirei nada em troca."
* * * * *
"Você pode perdoá-la, Pete? Porque se não puder, vai se sentir assim pelo resto da vida."
"Eu não sei, Mack. Estou exausto. Não quero mais me sentir assim."
"Então vamos falar sobre perdão. Perdoar a Gwyn não te obriga a mais nada. Você nunca mais precisa vê-la. Para deixar a dor ir, para acalmar sua mente, você precisa aceitar — verdadeiramente aceitar — que ela cometeu um erro. Você acha que ela te machucou de propósito?"
Pete deu de ombros. "Eu não sei. Quer ela quisesse me machucar ou não, ela arrancou meu coração."
"Sim, o resultado importa, mas a intenção também. O escoteiro que ajuda uma velhinha a atravessar a rua tem boa intenção, mesmo que a velhinha seja atropelada por um ônibus. O resultado é trágico, mas ele não queria que aquilo acontecesse. Não é uma analogia perfeita, mas espero que faça sentido."
"Acho que sim."
"Você acha que ela pretendia te machucar?"
Pete suspirou e balançou a cabeça. "Não. Ela ficou bêbada e ficou sem pensar. Ela não estava pensando em mim nem em mais nada. Não me machucou de propósito."
"Ela está arrependida? Você acredita que ela sente muito pelo que fez?"
"Sim. Ela disse que sente muito várias vezes, e as amigas dela dizem a mesma coisa."
"Você acredita nela? Acredita nelas?"
"Sim, acho que ela se sente realmente mal com isso."
"Ela pode fazer alguma coisa para compensar o dano que causou?"
Pete balançou a cabeça de novo. "Não. O que alguém pode fazer para consertar isso?"
"Então volta para você. Ela não teve a intenção, se arrepende profundamente e não pode consertar. Ela fez tudo que podia, e isso não aliviou sua dor. Então você precisa liberar isso do seu lado. Você pode perdoá-la?"
Pete ficou sentado, em silêncio, sem piscar. Ele sabia que não podia mais continuar assim, que seu foco na traição de Gwyn consumia tanto de si que não sobrava nada para mais nada. Sabia que precisava deixar tudo ir. Mas não queria.
Por quê? Por que não conseguia liberar sua dor? Um pensamento de repente irrompeu nele.
"Mack? Será que eu posso estar resistente a largar a dor porque não quero largar a Gwyn? A dor é tudo que tenho dela?"
Mack sorriu de leve. Ele vivia para momentos de revelação como esses. Ganhava muito dinheiro, mas o choque emocional quando um cliente descobria a verdade era sua verdadeira recompensa.
"O que você acha?"
"Talvez."
"Só talvez? Parece verdade para você?"
"Parece. Ver ela todo dia tem sido uma agonia. Eu me odeio por ficar esperando para vê-la. E quando a vejo, sinto uma dor cortante no coração que me faz odiá-la. Mas ela está cuidando de mim, fazendo coisas que me lembram do quanto éramos próximos. E me odeio por odiá-la, porque ela está tentando consertar as coisas. Mas ela nunca pode consertar. É uma mancha que nunca vai sair."
"Toda essa situação é muito carregada emocionalmente, Pete. Estou impressionado com você. Você colocou todos os seus sentimentos na mesa. Agora vamos falar sobre o que você vai fazer com eles."
Pete assentiu. "Não faço ideia."
"É para isso que você me paga tão bem", Mack riu. "Primeiro, você acredita que, se largar sua dor e perdoar a Gwyn, você então precisa nunca mais falar com ela? Da mesma forma, se você perdoar a Gwyn, acredita que é obrigado a falar com ela de novo? Perdoá-la pela transgressão significa que você precisa se comprometer a vê-la ou a nunca mais vê-la?"
"Você faz parecer que eu sou um idiota."
"Você não é um idiota. Está lidando com muitos pensamentos inconscientes. Mas você vê que pode aceitar que Gwyn cometeu um erro horrível e ainda ter autonomia sobre decisões futuras sobre um relacionamento com ela?"
"Sim."
"Você está pronto para reconhecer que ela cometeu um erro e que você a perdoa por isso?"
"Acho que sim."
"Então ligue para ela. Agora. E diga a ela."
"Agora?"
"Não há tempo como o presente. É importante dizer as palavras, e é importante que você diga as palavras a ela."
"Não tenho certeza se estou pronto para isso."
"Você quer continuar se torturando, ou está pronto para seguir em frente?"
Pete pensou por alguns instantes. "Ok."
Pete gostaria de ter ficado atrapalhado procurando o número de Gwyn, mas ainda o tinha como a primeira entrada em sua lista de contatos. Olhou para a foto redonda na tela de contato dela, uma foto dela recostada em uma rocha no topo de uma colina com um céu azul glorioso atrás dela. Ele respirou fundo e soltou lentamente. Quando expulsou o último ar, tocou no botão de chamada.
"Pete? Você está bem?"
"Sim, estou bem. Você?"
Ela riu baixinho. O coração dele apertou um pouco. "Sim, eu também. O que foi?"
"Estou com o Mack. Estávamos conversando. Sobre o que você fez."
Gwyn ficou muito quieta. Quando falou, sua voz era muito suave. "Sobre o que eu fiz?"
"Sim. Eu sei que você não fez aquilo para me machucar."
Gwyn ficou em silêncio. Ela nem respirava. Pete podia vê-la claramente em sua mente, parada, imóvel, com os olhos arregalados, a mão pressionada contra a parte superior do peito, os dedos no pescoço.
"Eu te perdoo, Gwyn. Eu te perdoo."
Ele ouviu Gwyn respirar com força, e depois soluçar baixinho, só uma vez.
"Você perdoa? Sério?"
"Sim, sério."
"Obrigada, Pete." Ela ficou quieta por um momento. "Obrigada."
Pete ouviu as respirações irregulares dela enquanto tentava se controlar. Então ela desligou.
"Então como se sente, Pete?" Mack perguntou.
O peito de Pete realmente parecia mais leve, mais livre, quase relaxado. E ele sorriu.
"Muito bem. Muito bem, na verdade. Talvez eu devesse ter feito isso há muito tempo."
* * * * *
Jenny viu que era Gwyn ligando. Elas não se falavam havia alguns dias. "Ei, amiga. Como estão as coisas?"
"Ele me perdoou, Jen! Ele me perdoou!" A voz de Gwyn estava tremendo.
"Quem? Pete? O que ele fez?"
"Ele acabou de me ligar. Bem, meia hora atrás. Estou um caco desde então." Gwyn riu. "Ele me perdoou. Estou tão, tão feliz, Jen. Ele me perdoou. Eu esperava que um dia ele perdoasse, mas ao mesmo tempo simplesmente não acreditava que perdoaria."
"Ah, querida! Que notícia ótima. Você está feliz? Parece feliz."
"Não acredito, Jen. Eu estou— não sei o que estou, na verdade. Me sinto tão... satisfeita, acho. Completamente satisfeita. Aliviada. Tão grata. Ele não precisava me perdoar. Eu não merecia. E não precisava me contar. Mas ele contou. Contou, e estou além da gratidão."
"Eu te amo, prima, e estou feliz por você também. Esse é um enorme passo à frente. O que vem depois?"
"Eu não sei." Gwyn riu de novo. Ela se sentia eufórica. "Não pensei nisso. Sei que preciso me recompor. Nem tudo está magicamente bem só porque ele me perdoou. Mas agora talvez ele concorde em me ver de vez em quando. Pelo menos como amigos. Além disso, ele ainda precisa de ajuda na casa dele. As dores de cabeça estão menos frequentes agora, e a mente dele está mais clara, mas ele ainda se cansa rápido e os níveis de energia não voltaram ao normal. Vou continuar passando na casa dele até ele conseguir se virar sozinho."
Eles conversaram por mais alguns minutos e prometeram se falar novamente em breve.
Gwyn estava sentada no escuro de seu apartamento. Ela não conseguia parar de sorrir, e a cada poucos minutos as lágrimas a dominavam. Ela sabia que não deveria ligar para Pete, mas precisava que ele soubesse o quanto ela o apreciava. Ela pegou o celular.
► obrigada, Pete. vc é mais generoso do q mereço ► sou muito grata a vc ► vc é incrível ► vou ser digna da sua graça
Ela não esperava que ele respondesse, mas explodiu em mais lágrimas quando o celular apitou.
► sem problemas
Ela se despiu e, pela primeira vez desde que compartilhou a cama com Pete, Gwyn foi dormir com um sorriso no rosto.
* * * * *
Pete já havia tomado banho e estava sentado no balcão da cozinha quando Gwyn entrou na manhã seguinte.
"Ah, bom dia, Pete!" Ela colocou o café e o mingau de aveia dele no balcão, bem à sua frente.
"Gwyn." Ele sorriu levemente ao dizer isso. Pete normalmente era pé no chão, mas naquele dia se sentia estranhamente leve, solto, mas de uma forma positiva.
Gwyn encontrou a cama arrumada e o banheiro limpo, a toalha úmida de Pete no cabide em vez de no chão ou na caixa da privada. Ela não viu nenhuma louça na mesinha de centro ou na de canto, e até os controles remotos estavam alinhados com capricho. Pete percebeu que ela parecia desconcertada com a ordem em seu apartamento. Se ele soubesse ontem o quanto isso a incomodaria, teria feito apenas para provocá-la. Ele sorriu com o pensamento. Era estranho que ele não quisesse provocá-la.
"Uau", ela disse. "O lugar está ótimo. Alguma preferência para o almoço?"
Pete balançou a cabeça. "Tenho certeza de que posso resolver algo."
"Não seja bobo. Você precisa se alimentar bem. Quero fazer isso por você."
"Você não precisa mais se sentir obrigada, Gwyn. Eu realmente falei sério ontem à noite. Eu deixei isso pra lá. Você também deveria."
Gwyn sorriu, mas seus olhos se encheram de lágrimas.
"Não tenho como te agradecer o suficiente, Pete. Você não tem ideia de como me fez feliz. Mas ainda quero te ajudar. Você não está completamente curado. Até eu me convencer de que você está bem, vou ficar de olho em você. É melhor se acostumar."
Pete deu de ombros. "Do seu jeito. Mas você não precisa ficar no purgatório por minha causa."
"Não se gabe", ela brincou, secretamente emocionada por poder provocá-lo de novo. "Seu lugar é muito mais limpo que o purgatório."
Gwyn olhou dentro da geladeira. "Parece que você terá uma salada de chef modificada -- está sem peru -- ou um wrap de legumes com queijo."
"As duas opções parecem boas. Obrigado, Gwyn."
Ele agradeceu! O coração dela batia mais rápido e ela lutava para impedir que o sorriso iluminasse todo o seu rosto.
"Claro. Tenha um bom dia. Volto depois do trabalho para ver como você está."
"Vou ficar bem."
"Eu sei. Vou garantir isso."
Ele riu consigo mesmo quando a porta se fechou atrás dela. Deus, como era bom se concentrar em algo além de sua ferida emocional. Ele iniciou o computador e se preparou para mergulhar no próximo projeto.
* * * * *
"Ele está namorando, Jen."
"Pete?"
"É."
"Como você está lidando com isso?"
Gwyn suspirou. "Estou odiando."
"É. Mas você está bem?"
"Tenho que estar, né? Eu abri mão de qualquer direito sobre o coração dele."
"Você tem que aceitar, mas não significa que precisa gostar."
"Acho que estou presa na Friend Zone. Ou talvez até na Zona de Conhecidos."
"Ah."
"É. Quer dizer, tem sido tão bom ver Pete sem ranger os dentes e lançar lasers com os olhos para mim. Mas sinto muita falta de poder abraçá-lo, fazer cócegas, beijá-lo e me enfiar no peito dele e envolvê-lo bem apertado."
Jenny ficou em silêncio por um momento. "Aguente firme, Gwyn. Você sabia que isso poderia acontecer, né?"
"Eu sei. Só sinto muita falta dele. E sei que sou a melhor pessoa para ele, mas ele não sabe disso, e tenho tanto medo de que ele se acomode com alguém mais seguro que não o valorize como eu, e aí nunca ficaremos juntos." A voz de Gwyn falhou.
"Lembre-se que ele se apaixonou por você uma vez. E provavelmente ainda há muito daquilo naquele homem. Ele só precisa acreditar que pode confiar em você de novo."
"É."
Ficaram em silêncio por alguns instantes. Jenny finalmente quebrou o silêncio.
"Você sabe que ele seria muito sortudo de te amar de novo."
"Não sei quanto a isso."
"Você não é a mesma pessoa, Gwyn. E será feroz em proteger o coração dele daqui para frente. Continue fazendo o que está fazendo. Ele vai perceber. Ele é um cara inteligente, e realmente te ama. Senão não teria ficado tão magoado."
"Nunca vou superar isso, né?"
"Não. Mas isso não significa que você não pode construir algo maravilhoso com ele. Tenha paciência, amiga. Você merece seu grande amor, e o universo vai garantir que aconteça. Confie nele."
"Espero que você esteja certa, Jen. Não sei como viveria mais cinquenta anos sem ele."
"Você sempre o terá, prima. A única questão é como."
"É. Já está melhor do que estava antes. Só não é tudo o que quero."
"Nem sempre conseguimos o que queremos."
"Nossa, obrigada por essa, Jen", Gwyn riu.
"Mas às vezes conseguimos. Não perca a esperança, e não pare de lutar por isso."
* * * * *
Pete beliscava o linguado. Estava saboroso como sempre, mas ele se surpreendeu por não ter muito apetite.
Este era seu terceiro encontro com Nicole. Eles se conheceram num happy hour -- ela era amiga de um amigo de Mark, e tinha acabado de se mudar para a região por causa do trabalho. Ela era gerente de produto numa fabricante de vidro industrial. Nicole era mais alta que a maioria das mulheres, de cabelo acobreado com olhos castanho-esverdeados e um corpo atlético e esguio. Pete descobriu que ela gostava de andar de bicicleta, então a convidou para pedalar com seu grupo, mesmo que ele ainda não estivesse de volta à bicicleta. Nicole agradeceu a indicação e então sugeriu pagar um jantar para ele pelo incômodo. Depois de trocar contatos, eles se encontraram para jantar e um show num café com uma cantora e compositora local, depois um filme de comédia romântica e sobremesa algumas noites depois. Eles se beijaram timidamente após o primeiro encontro e se agarraram na porta da casa dela por quase cinco minutos depois do segundo. Ela beijava muito bem.
"Então", ela disse, sorrindo enquanto largava a taça de vinho. "Alguma ex-namorada com quem eu precise me preocupar?"
"Dificilmente. De onde isso veio?"
Nicole deu de ombros e sorriu novamente. "Gosto de você. O jeito que você estava atacando minhas amígdalas na outra noite me faz pensar que você gosta de mim. Só estou interessada em saber seu histórico amoroso."
"Bem, eu fui casado uma vez."
"Sério?" Ela se surpreendeu. "Namorada do colégio?"
"Não. Depois da faculdade. Ficamos casados por cerca de três anos."
"O que aconteceu? Se não se importa que eu pergunte."
"Ela ficou bêbada e dormiu com um amigo."
Nicole fez uma careta. "Imagino que isso doeu."
"Você não tem ideia."
"Há quanto tempo vocês estão divorciados?"
"Um pouco mais de dois anos agora."
"Mais alguém na jogada desde então?"
"Eu namorei algumas vezes. Ninguém por muito tempo. Tenho tido dificuldade em confiar."
"Não posso te culpar."
"E você? Algum ex-namorado assombrando seus sonhos?"
"Não. Tive bastante sorte. Meu namorado do colégio e eu terminamos de comum acordo antes de começar a faculdade. Tive alguns relacionamentos na faculdade, mas terminamos amigavelmente. Ninguém sério desde que me formei, no entanto. Ficar me mudando por causa do trabalho não ajuda muito."
"Então o que você procura num cara?"
"Alguém para se divertir. Criar uma boa conexão sem muito drama. Provavelmente esta não será minha última parada, então não estou procurando nada sério."
"Parece perfeito para mim."
De repente Pete sentiu fome novamente. E o linguado estava saboroso.
* * * * *
"Acho que ele pode estar ficando sério com a Nicole."
"A ruiva? Por que acha isso?" Jenny perguntou. Era a ligação habitual de domingo à tarde.
"Eu os vi de novo naquele bistrô que ele gosta."
"Você está seriamente stalkeando ele?"
Gwyn ficou em silêncio por um momento. "Só dói quando fico muito tempo sem vê-lo, Jen."
"Você tem chance de passar tempo com ele?"
"Um pouco", Gwyn suspirou. "Tomamos café algumas vezes por semana quando ele está na cidade, e geralmente sou convidada para os happy hours que ele frequenta. Mas ultimamente a Nicole também vai. Não quero que ele pense em mim como uma vela, então sempre que ela aparece eu vou embora."
"Como ele está quando vocês estão juntos?"
"Está muito bom. Até rimos juntos agora. Tem momentos em que sinto que ele deixa toda a mágoa de lado. Não dura muito, e a guarda volta a subir, mas por um tempinho é exatamente como era. Isso é quase pior do que quando ele estava furioso comigo."
"Você não quer dizer isso."
Gwyn suspirou. "Não, não quero. Estou tão feliz por tê-lo na minha vida de novo. Senti tanto a falta dele, e mesmo que isso seja tudo o que seremos um para o outro, serei grata. Mas você sabe quando quer algo tanto e está ali, mas não totalmente ao alcance? É assim que me sinto."
"Sinto muito, querida."
"Eu também. Só quero que ele encontre o caminho de volta para mim."
* * * * *
Pete já sabia, mas Nicole o lembrou de que ele não era muito do tipo amigo-com-benefícios. Nicole era muito bonita e gostava de sexo, mas sem o toque prolongado da mão no quadril ou um aperto no antebraço ou até uma cutucada de cócegas nas costelas, era só foda. Uma boa foda -- ela era muito ativa, até preferia assumir o controle, e seu corpo ágil rebolava e ondulava das formas mais deliciosas -- mas ainda assim era só foda.
Eles passavam a maioria dos sábados à noite juntos depois dos passeios de bicicleta, mas ele estava começando a procurar razões para pular a diversão noturna, e ela parecia bem com isso também. Depois do passeio de cinquenta milhas numa tarde, ele decidiu abordar o assunto diretamente.
"Jantar hoje, Pete?"
"Acho que não, Nicole. Estou pensando que talvez a gente precise de um tempo."
As sobrancelhas dela se levantaram de surpresa. "Sério? Já cansando dos meus truques?"
"Deus, não! Você é uma ótima amante." Ela não o sacudia de verdade, mas Pete não era maldoso. "Só estou procurando mais uma conexão emocional. Isso não é bem a nossa."
"Ah. Fui sincera sobre o que procurava, e você disse que estava bem com isso."
"E estava. Isso não sou eu sendo ingrato ou te acusando de falsa propaganda. Agora que me sinto um pouco mais confiante, estou procurando algo mais do que um relacionamento físico. Você foi sincera comigo, e eu realmente agradeço."
"Ok, então. Tranquilo. Também agradeço sua franqueza. Você será um bom parceiro para alguém, Pete. Só não estou procurando isso."
"Eu sei. Te vejo no próximo sábado para pedalar?"
"Claro. Aproveite a semana."
E foi isso.
Mas isso o deixou sozinho para o jantar.
* * * * *
Gwyn se sentia inquieta. As noites de sábado eram um desafio particular. Ela tentou se cansar na academia, mas a ideia de Pete estar com Nicole a deixava nervosa, e essa ansiedade dificultava se acalmar. Ela preparou um chili vegetariano para o jantar, e agora tinha limpado a cozinha e ainda não eram nem oito horas.
Ela não via Pete desde o café de quarta-feira à tarde. Tinha sido convidada para o happy hour de quinta-feira com alguns colegas dele, mas quando chegou ao Lilly's viu Nicole sentada ao lado de Pete, então caiu fora. Estava com saudades, mas não queria criar situações estranhas para ele.
Pensando bem, talvez não fosse a pior coisa se ele pensasse nela durante um encontro com Nicole.
► com vontade de sorvete. topa um baskin-robbins? eu pago
Gwyn não esperava uma resposta, então largou o celular e ligou a TV. Pensou em assistir "Doentes de Amor", mas naquela noite estava a fim de algo mais sombrio. Talvez "Nós". Ou "Um Lugar Silencioso". O ding suave do celular chamou sua atenção.
► claro. te encontro lá em 20
Um sorriso imenso explodiu em seu rosto, e ela correu para sair do moletom e vestir o jeans. Enfiou um suéter fino que valorizava os seios e pegou a velha jaqueta que Pete lhe dera antes de se casarem. Seu corpo vibrava, então ela respirou fundo algumas vezes para se acalmar.
Gwyn chegou cerca de cinco minutos antes de Pete e pegou o reservado mais afastado da porta. Ela o viu estacionar, então fingiu navegar no celular até ele entrar, e então não conseguiu conter um sorriso radiante. Ela se levantou e saltitou de leve na ponta dos pés enquanto ele caminhava até ela.
"Ei", Gwyn disse, dando-lhe um abraço rápido com um aperto extra. Ela não conseguiu evitar.
"Oi, Gwyn." Pete tinha um sorriso que beirava um sorriso malicioso. Seus olhos até pareciam divertidos, o que a emocionou ainda mais.
"Amêndoa com chocolate e Jamoca Fudge?"
"Claro."
"Casquinha ou copinho?"
Ele fez uma careta de brincadeira. "Sério?"
"Casquinha então." O sorriso dela deslumbrou. Ela estava tão animada por estarem brincando um com o outro! Correu para pegar o sorvete.
Pete deslizou para dentro do reservado e a observou. Ela estava animada enquanto fazia o pedido, e brincou com a adolescente de uniforme espalhafatoso atrás do balcão. Gwyn era tão cativante que as pessoas tinham dificuldade em resistir a ela. Ele sentiu a atração que ela sempre exercia sobre ele. Poderia observá-la por horas sem que seu interesse diminuísse.
Ela voltou com a casquinha dele empilhada alta e um punhado bagunçado de guardanapos. Ele olhou de lado para a única bola de sorvete no copinho dela. Gwyn deu de ombros. "Iogurte congelado sem gordura."
"Isso mal parece valer a viagem."
"Estou me esforçando demais para abrir mão da minha forma."
"Sempre gostei da sua forma."
O sorriso dela ficou incandescente. Ele estava flertando com ela! Até Pete teve que sorrir diante da alegria sem reservas dela. Ele gostava de fazê-la se sentir bem.
"Por que você não tem um encontro num sábado à noite?" Foi masoquista, mas Gwyn não resistiu a perguntar.
"Talvez eu tenha."
Ela sorriu corajosamente, mas sua confiança foi abalada. "Bem, de qualquer forma fico feliz que você pôde me encaixar."
"Talvez eu esteja encaixando meu encontro em volta de uma saída para sorvete."
Meu Deus, como ele a fazia corar! Ela não conseguiu suprimir uma risadinha. Ele sorriu, plenamente ciente de como ela estava reagindo a ele. Sentiu um pouco de culpa por brincar assim com ela, mas não o suficiente para parar.
"Aonde você vai mais tarde?"
"Para casa."
Os olhos tristes de Gwyn traíram seu sorriso corajoso.
"Netflix and chill?"
"Provavelmente. Pensando em assistir "Hereditário". Você já viu?"
Foi a vez dela de lhe fazer a careta de brincadeira, e ela ainda revirou os olhos para dar ênfase.
Pete riu. "Claro que você viu. Gostaria de assistir de novo?"
"Com certeza. Eu estava inclinada a assistir "Nós" de novo, mas "Hereditário" é uma boa ideia."
Pete sorriu para Gwyn, porque percebeu que eles estavam em comprimentos de onda diferentes na conversa. Ele a observou.
O olhar fixo dele agradou Gwyn. Ela sempre gostou quando ele lhe dava toda a sua atenção. Mas o olhar dele não vacilou, o que a confundiu. Por que ele a olhava como se esperasse algo? Ela repassou a conversa. Falaram sobre filmes. Ambos gostavam de terror. Ele ia para casa com um encontro para assistir "Hereditário". Ela ia assistir "Nós". Ele perguntou se ela tinha visto "Hereditário". Será que ele ficou irritado por ela revirar os olhos? Ele perguntou se ela queria ver de novo. Espera -- o quê? Ele acabou de convidá-la para assistir ao filme com ele? Ele estava sorrindo agora, será que ele quis dizer isso? Melhor ter certeza.
"Você quis dizer que queria assistirmos juntos?"
"A menos que você tenha planos."
"NÃO! Quer dizer, não tenho planos. Adoraria assistir com você."
"Legal. Melhor terminar seu sorvete."
"Iogurte congelado sem gordura."
"Tanto faz."
* * * * *
Quando Pete estacionou na vaga da garagem, Gwyn já o esperava no degrau da porta. Ela estava com os braços cruzados ao redor de si mesma e parecia subjugada. Ele destrancou a porta e a fez sinal para entrar.
"Quer algo para beber?" Pete perguntou.
"Só água, obrigada."
Ela estava empoleirada na beirada do sofá quando ele lhe trouxe um copo com um pouco de gelo e bastante água. Ela sorriu, mas ele percebeu que era forçado.
"Mudou de ideia?" ele perguntou. Ele se sentia mais como seu antigo eu agora, e seu antigo eu nunca deixava as coisas se arrastarem por muito tempo.
Gwyn ficou em silêncio por um momento.
"Isso é uma espécie de vingança, Pete?"
"Uma vingança?"
"Você está sendo legal comigo agora para depois ser cruel? Eu sei que mereço, mas se você está só brincando comigo para se vingar pela minha crueldade, acho que isso vai me destruir." A voz dela falhou. "Como eu destruí você. Mas não sou tão forte quanto você."
Pete sentou-se ao lado dela e segurou uma de suas mãos.
— Você me destruiu, Gwyn. Espero que nunca precise passar por algo tão horrível. Mas não quero te machucar. Eu quis, por muito tempo, mas eu estava falando sério quando disse que te perdoei. Não vou te machucar. Não de propósito.
Lágrimas escorreram pelo rosto de Gwyn, e ela chorou baixinho. Pete não tentou abraçá-la, mas cobriu as mãos unidas deles. Ele apertou e a deixou encontrar o equilíbrio. Por fim, ela apertou o aperto com uma das mãos e então enxugou os olhos com um dedo da outra.
— Desculpa por isso, Pete. Fico tão emotiva perto de você. — Ela respirou fundo e soltou o ar. — Vou melhorar. Prometo que não vou deixar isso estranho. Só sinto muito, muito mesmo, por tudo, e sou tão, tão grata por você ter me deixado voltar para a sua vida.
— Eu sei. — Ele deu um tapinha na mão dela. — Filme?
— Sim. — Ela sorriu seu sorriso radiante, sincero desta vez. — Eu adoraria.
* * * * *
Gwyn estava eufórica. E paralisada de medo.
Nas duas semanas desde que assistiram a “Hereditário”, ela e Pete tinham saído para comer duas vezes, uma espontaneamente depois do trabalho, quando ela garantiu que se encontrassem, e uma no sábado à noite, quando ele ligou à tarde para ver se ela estava livre. Ela também tinha levado café três vezes e comprado algumas coisas para ele no supermercado; ele permitia que ela ficasse por perto por alguns minutos a cada vez. Ela também sentou ao lado dele em um dos happy hours quando a Nicole não apareceu, e passaram mais tempo conversando um com o outro do que com qualquer outra pessoa.
As conversas eram animadas, com provocações e risadas em destaque. Os anos que passaram juntos lhes davam terreno fértil para conversar, e Gwyn, em particular, tentava trazer à tona o máximo de lembranças felizes que conseguia. Ela não conseguia conter a animação sempre que estava perto de Pete, e ele parecia gostar da efervescência dela. Parecia, porque embora ele desse um sorriso divertido quando ela gritava ou se arrepiava enquanto conversavam, ele nunca reconhecia o desejo mal contido dela de agarrá-lo e nunca mais soltar.
Por mais emocionada que ficasse em passar tempo com ele, especialmente momentos tão ricos a sós, ela não sabia como incentivá-lo a tocá-la além de um cutucão casual no ombro ou um tapinha no braço. Ela ansiava que ele a abraçasse, nem que fosse um abraço platônico. Mas, por mais confortável que ele parecesse conversando com ela, nunca fazia um movimento para estender a conexão física. Ela estava apavorada que aquilo fosse o limite do relacionamento deles.
— Eu só quero que ele me toque, Jen. Só um abraço.
— Eu sei, querida. Mas você precisa parar de olhar para frente. Só lembre do quanto já conquistou com o Pete e seja grata pelo tempo que tem com ele agora. Aproveite o momento.
Gwyn suspirou.
— É. Obrigada por esse reset. Eu quero tanto que ele me ame de novo, me ame como eu o amo. Mas só posso aceitar o que ele está disposto a dar. E preciso estar bem com isso.
— Precisa.
— Mas é tão difícil, Jenny.
— Eu sei. Seja forte, seja grata. E seja paciente!
* * * * *
Se não tomasse cuidado, Gwyn o hipnotizaria.
Isso não incomodava Pete a curto prazo. Ele adorava passar tempo com ela, e ela ainda lançava feitiços que liberavam alegria em seu coração. Ele nunca pensava duas vezes sobre o momento a momento que passavam juntos. Ela era tudo o que ele queria, tudo o que ele precisava.
Mas agora podiam se separar sem expectativas. Não tinham compromissos um com o outro, nem promessas. Então ele não sentia estresse quando seguiam caminhos diferentes. Ele não se permitia pensar nela, imaginar onde ela estava ou o que poderia estar fazendo. Não precisava da dúvida.
Seu coração queria passar mais tempo com ela. Conversar com ela era a melhor parte de qualquer dia. Ele ansiava por vê-la. Pegava-se desejando a presença dela sempre que saía; ficava surpreso com a frequência com que seu desejo era realizado. E ela brilhava sempre que o via, ainda mais do que quando eram casados. Ele sentia o amor dela, tudo nela irradiava adoração.
Só não sabia se ela conseguiria sustentar isso quando ele não estivesse por perto. E aí estava o problema. Será que ela se desviaria de novo? Por mais que soubesse que ela o amava, isso não tinha sido suficiente quando ela foi tentada antes. Como poderia ser diferente agora?
— Você já fez essa pergunta a ela?
Mack o enfurecia.
— Não. De que adianta? Ela vai dizer que sim, mas as evidências sugerem o contrário.
— Embora seja verdade que a história ecoa no nosso presente, também é verdade que Heráclito estava certo: você nunca pode entrar no mesmo rio duas vezes. Algo sempre será diferente. A pergunta que você precisa responder é impossível de saber porque envolve o futuro, e até o melhor de nós é cego para previsões. Fazemos suposições educadas, mas ainda são apenas suposições.
— Isso não ajuda nada, Mack.
O terapeuta sorriu.
— Ainda assim, é verdade. Olha, você não sabe se o amor dela é forte o bastante para sustentar o relacionamento de vocês. Também não sabe se o seu amor é forte o bastante. Ele foi enfraquecido pela infidelidade dela? O dela foi fortalecido? Vocês são pessoas diferentes agora por causa do que aconteceu, não só naquele evento crucial, mas também nas outras experiências que cada um teve desde então. Seu novo emprego. O remorso dela. Seu acidente. A mudança dela. Como isso afetou o amor que sentem um pelo outro?
— Você está me dando dor de cabeça — disse Pete, e Mack riu. — Estou tão feliz que você está se divertindo.
Mack deu de ombros.
— O negócio é o seguinte: você pode passar todos os cenários possíveis na sua mente, mas nunca saberá qual vai acontecer. E talvez nem conceba o que realmente vai se passar. No final, você fica com o que todo mundo apaixonado tem.
— O quê?
— Fé.
— Fé?
— Quando algo é impossível de saber, você precisa acreditar em um resultado. Sua cabeça simplesmente não consegue responder à sua pergunta, então seu coração precisa. Ele vai te dizer se você acredita que Gwyn cuidará bem dele. E também vai te dizer se você consegue sobreviver se ela não cuidar. Certifique-se de fazer as duas perguntas a ele.
Pete ficou em silêncio por alguns instantes.
— Isso realmente faz sentido.
— E converse com Gwyn. Mas com o coração. Sua cabeça vai atrapalhar, mas seu coração vai te deixar saber no que você acredita.
* * * * *
— Ele está agindo meio estranho, Jenny. Não sei o que está acontecendo com ele.
— O que ele está fazendo?
— Nas últimas vezes que estivemos juntos, ele esteve muito distraído. Perguntei de algumas formas se estava tudo bem. Ele disse que estava, mas continuava viajando. E se ele não quiser mais me ver? Isso me mataria, Jen! — Gwyn soluçou, e o súbito início das lágrimas a surpreendeu.
— Ah, prima! Você está fazendo tudo o que pode. Agora é com ele. Você sabe disso.
— Eu sei, mas vai me matar se não puder estar perto dele.
— Talvez tenha algo acontecendo no trabalho dele.
— Eles não estão falando nada diferente no happy hour. Não posso perdê-lo agora! Preciso tanto dele.
— Está fora do seu controle, Gwyn. Seja forte. E mantenha-se positiva. Ele ainda fala com você, certo? Não está te evitando ou te ignorando quando você está por perto?
— Não, ele ainda fala comigo tanto quanto antes — Gwyn admitiu a contragosto. — A única diferença é que a atenção dele está dividida. Ele está pensando em algo. A mente dele está trabalhando pesado, e não sobra energia para se envolver comigo ou com qualquer outra pessoa.
— Então ele está pensando. Isso não significa que está pensando em você. Quer dizer, claro que é possível. Talvez até provável. Mas não tire conclusões precipitadas. Continue sendo você, garota. Se você surtar agora, pode assustá-lo. Eu sei que é difícil quando você não sabe o que está acontecendo, mas você sabia que não seria fácil. Então firme-se, mantenha esse sorriso no rosto e deixe que ele veja o quanto você é incrível de verdade.
— Obrigada, Jenny. Eu te amo tanto. Você está me mantendo sã aqui.
— Eu também te amo, Gwyn. Aguente firme. A noite é sempre mais escura antes do amanhecer.
* * * * *
— Oi, Gwyn. É o Pete.
— Eu tenho identificador de chamadas, sabe. — Ela ficava sempre tão feliz quando ele ligava. Ele ouvia isso na voz dela.
Ele riu.
— Pois é, ouvi dizer que isso existe agora. Está ocupada hoje à noite?
— Nada que não possa ser mudado se eu receber a oferta certa.
— A fim de jantar? Tem um bistrô que é muito bom.
— Isso soa como a oferta certa. Que horas?
— Passo aí às seis e meia?
— Uh, vai me buscar. Isso é um encontro?
— Isso muda sua resposta?
— Você já me prometeu jantar, então não.
— Vejo você às seis e meia, Gwyn.
Ele sentiu o sorriso dela ao desligar.
* * * * *
Ela não ligou para Jenny. Não precisava.
Gwyn tinha cerca de seis horas para se preparar para o jantar que mudaria sua vida. Provavelmente. Ela e Pete tinham saído para comer várias vezes nas últimas semanas, mas sempre se encontravam no restaurante. Então isso era diferente.
Diferente no bom sentido? Diferente no mau sentido? Difícil dizer.
Eles iriam em um carro só, mas seria porque ele queria dificultar que ela fosse embora se não gostasse do que ele tinha a dizer, ou porque queria que fossem embora juntos depois de comer?
Ela sabia que o bistrô era o local de encontro preferido dele, mas será que ele o escolheu porque a via como um par romântico, ou só sentia falta do lugar já que não ia lá desde que ele e Nicole pararam de se ver?
E como deveria se vestir para o jantar mais importante da sua vida? Sabia que ele gostava da aparência dela, mas não queria ir provocante se ele não estivesse com tesão. Nem conservadora se ele estivesse pensando em diversão pós-jantar.
Ela se lembrou do que Frida dissera repetidamente durante aqueles dias tão, tão sombrios.
— Descubra o que você quer e depois comunique isso. É o que pessoas saudáveis fazem. Às vezes a gente estraga tudo, mas tentamos. Saiba o que você quer, depois diga às outras pessoas o que é. Faça isso de um jeito gentil e respeitoso, mas você deve isso a si mesma e deve isso a eles: ser completamente honesta.
Então Gwyn respirou fundo e escolheu um vestido azul-marinho que cobria o decote, mas abraçava seu corpo. Ele dizia que ela queria ser vista como mulher, uma mulher vibrante, uma mulher inteira. Não um objeto sexual. Não um corpo. Uma mulher física, mas não apenas uma mulher física. Ela gostou de como a fazia parecer.
Também era um dos favoritos de Pete.
* * * * *
— Uau, você está ótima!
Gwyn corou e sorriu com recato.
— Essa coisa velha? É um dos meus favoritos. Me lembra tempos felizes.
— Eu também.
Ele segurou a porta aberta para ela e a fechou depois que ela deslizou para dentro do carro. Pete sempre fazia isso por ela.
O bistrô estava lotado, mas a mesa deles ficava um pouco afastada do burburinho principal, o que permitia conversarem com facilidade.
— O que é bom aqui? — perguntou Gwyn.
— Eu gosto do linguado, mas acho que vou tentar algo diferente hoje.
— Variando?
— Talvez quebrando alguns velhos hábitos.
— Não sei o que dizer a isso. — Gwyn sorriu, mas era um sorriso ansioso.
— Vamos pedir. Temos muito tempo para discutir velhos hábitos. — Ele tentou dizer de forma leve, mas ainda parecia distraído, um pouco distante.
Gwyn pediu alabote assado e, fiel à sua palavra, Pete foi de mexilhões ao molho de vinho e alho.
— Algo para beber? — perguntou o garçom.
— Para mim, água está bom — respondeu Gwyn.
— Uma taça de sancerre, por favor.
O garçom assentiu e se afastou. Pete olhou para além de Gwyn por um ou dois instantes, depois piscou e voltou a atenção para ela. Houve um tempo em que ela sabia exatamente o que ele estava pensando, mas agora não conseguia ler seu rosto. Estava relaxado, mas ainda resguardado. Ela lamentou mais uma vez o que causara com seu descuido.
Pete lambeu os lábios e então se ajeitou na cadeira. Não estava com medo de começar, mas realmente não sabia por onde iniciar aquela conversa.
— Estou gostando muito da sua companhia de novo, Gwyn.
Ela brilhou. Um grande sorriso se abriu.
— Você sabe que eu amo estar com você, Pete. Sou tão grata por cada minuto que passamos juntos.
— Eu sei. — E ele sabia. Era óbvio o quanto ela o amava, e não só para ele. Mais de um amigo comentara com ele também. — Você realmente me surpreendeu quando se mudou para cá. Nunca imaginei isso.
— Para ser honesta, nem eu. Mas depois do aniversário do seu pai, quando te vi, eu precisei fazer algo. Já disse antes e vou repetir até o túmulo, mas estou tão envergonhada de mim mesma. Tratei você, a pessoa que mais amo, de forma tão cruel, tão impensada... — A voz de Gwyn embargou.
— Não vamos passar por isso de novo — disse Pete, estendendo a mão para cobrir a dela com uma das suas.
Ela fungou um pouco e enxugou os olhos com a mão livre.
— Obrigada por isso. Mas eu precisava ajudar. Você estava tão miserável que me doía.
— Eu sei. — Ele fez uma pausa novamente. — Gwyn, eu gosto de passar tempo com você. Você é minha pessoa favorita no mundo. Você me enxerga e me entende de formas que ninguém mais jamais conseguiu. Não sei dizer melhor do que você se encaixa perfeitamente comigo. É um clichê, mas você realmente é minha outra metade. Senti tanto a sua falta.
Gwyn ouviu as palavras, mas também sabia o que não ouviu. Aquilo não era uma declaração de amor. Era um reconhecimento dele.
— Mas?
Pete soltou o ar.
— Mas você me apavora. Não é um exercício intelectual imaginar o quanto você poderia me machucar. Eu sei o quanto. Vivi isso. Você me destroçou. Levei muito tempo e energia demais para me reconstruir, e ainda não cheguei lá. E não é um pensamento abstrato imaginar se você poderia me machucar. Você machucou.
Gwyn sentiu o fundo do seu coração desabar. Ela tinha feito tudo aquilo. Com ele. Seu único e verdadeiro amor. E não havia outra história que pudesse inventar. Preparou-se para as palavras que nunca queria ouvir: que ele tinha terminado com ela.
— Não sei o que fazer, Gwyn. Realmente não sei. Quero tanto estar com você. Sempre que te vejo me sinto tão leve, tão livre. Fico feliz quando estamos juntos. Você é tão perfeita comigo.
— Mas estou apavorado de colocar meu coração de volta nas suas mãos.
Gwyn se moveu até ele e então se ajoelhou ao lado da cadeira dele. Segurou as duas mãos dele nas suas, olhando para cima, diretamente nos olhos dele, expondo-se completamente.
— Pete, você não tem motivo nenhum para confiar em mim. Mas eu prometo aqui e agora, e para sempre, que você sempre estará em primeiro lugar na minha vida. Não por culpa. Quer dizer, me sinto incrivelmente culpada, mas desde que te traí, aprendi que você é a pessoa com quem quero viver, estar, para sempre. Você também é minha outra metade, e eu fui tão descuidada com você. Mas vejo claramente o que preciso, quem eu quero, e é você, Pete. Sempre foi você, e sempre será você. Então, se você conseguir encontrar coragem para confiar em mim de novo, nem que seja um pouco, me dê só uma chance de mostrar como sou diferente agora. Juro com tudo em mim que vou valorizar seu coração e protegê-lo ferozmente, mesmo que tenha que sacrificar tudo o mais que tenho.
O conflito de Pete estava estampado em seu rosto. Ele queria se entregar a ela de novo, sem reservas. Mas tinha reservas.
— Estou com medo, Gwyn. Muito, muito medo. Esses últimos dois anos e pouco foram horríveis. Eu nunca sobreviveria a algo assim de novo. É inimaginável.
Gwyn soluçou uma vez e então envolveu os braços ao redor da cintura dele e apertou com força.
— Eu nunca, jamais vou te machucar de novo. Nunca.
Pete suspirou e ficou imóvel por um instante, depois dois. Levou as mãos para trás das costas para afastar os braços de Gwyn. Ela olhou para ele com olhos suplicantes para que não a afastasse.
Ele a guiou gentilmente para que ficasse de pé, olhou para o rosto esperançoso e amedrontado dela, então a puxou para baixo, de lado, para o seu colo. Pressionou a testa entre as clavículas dela. Ela ergueu o queixo e apoiou a bochecha no topo da cabeça dele. Envolveu os braços ao redor dos ombros dele.
— Quero confiar em você, Gwyn. Mas você vai me machucar de novo?
— Eu nunca vou, meu amor. Sempre vou colocar você em primeiro lugar.
— Até antes dos filhos.
Ela se afastou e olhou nos olhos dele de novo.
— Não brinque comigo, Pete. Por favor, não tire sarro de mim assim. Isso dói.
Ele deu um pequeno sorriso e então a abraçou contra si, enterrando o rosto no ombro dela, sentindo o aroma floral que ainda fazia seu pulso acelerar. Ela parecia tão sólida em seus braços, segura e certa. O peso dela em seu colo. Não pesada, mas substancial. Real.
Estava ouvindo o coração? Ou só esperando o melhor? E algum dia saberia a diferença?
— Eu só estava brincando. Acho que ambos precisamos reconstruir um pouco a confiança.
"Por favor, me diga que você está disposto, Pete. Porque eu estou. É tudo o que eu quis. Desde que te conheci. Eu me perdi uma vez, mas serei eternamente vigilante de agora em diante."
"Acho que podemos ver como vai ser."
O sorriso de Gwyn explodiu, e logo em seguida ela também explodiu. Ela não conseguiu conter a onda emocional que a percorreu como uma maré, e a onda de lágrimas transbordou de seus olhos. Seus soluços soavam como risadas, e talvez fossem, mas as lágrimas rolavam pelo seu rosto quase como uma cortina.
Pete a segurou e fez shh baixinho, embalando-a levemente.
O garçom apareceu com os pratos deles, mas parou no meio do caminho e ficou boquiaberto olhando para Pete e Gwyn. Pete sorriu por cima da cabeça de Gwyn e indicou com os olhos para o garçom colocar as entradas na mesa. Os soluços de Gwyn foram diminuindo lentamente, e Pete a segurou até que ela conseguisse respirar de forma regular novamente. Ela se afastou do abraço dele relutantemente, enxugando os olhos.
"Não olhe para mim," ela disse envergonhada. "Estou um desastre agora."
"Você está sempre linda, Gwyn. Sempre."
"Não fala isso. Você vai me fazer chorar de novo." Mas a felicidade irradiava do seu rosto manchado de lágrimas.
"Seu jantar está servido."
"Ah, meu Deus! Todo mundo está olhando para a gente?"
"Só porque você está deslumbrante."
"Estou toda bagunçada. Preciso ir ao banheiro feminino."
"Você pode ir se quiser, mas você está maravilhosa."
"Maravilhosa? Tenho certeza que estou com olhos de guaxinim por causa do rímel e da sombra, e marcas na base também."
"Você está honesta."
"Honesta?"
"Você sentiu emoção. E deixou fluir. Você foi honesta."
"Serei sempre honesta com você, Pete."
"Eu acredito em você."
Gwyn se recostou e examinou o rosto de Pete. Nenhum sinal de malícia.
"Você está falando sério mesmo."
"Estou."
"Eu te amo, Pete."
"Você me ama?"
"Amo."