Não É o Seu Tipo
Eu ia encontrar meus amigos próximos John e Ryan no clube. Eles iam levar Mark, um amigo de John da faculdade que tinha se mudado para a cidade recentemente. Pode parecer que eles estavam tentando me arranjar alguém, mas eu nunca precisei da ajuda deles. Eles sabiam que eu acabaria a noite com ele de qualquer jeito, desde que ele fosse razoavelmente bonito.
Ele era melhor que isso, mas controlado demais para o meu gosto. Os olhos castanho-esverdeados eram calmos e perscrutadores, tudo ao mesmo tempo, a boca com o lábio superior fino e o inferior cheio não se exercitava muito, como se ele pensasse em cada coisa antes de falar, nem um fio de cabelo loiro fora do lugar. Aquele corpo alto e forte ainda estava preso em roupas formais de trabalho e ele mal bebia. 28 anos e já um velho. Por que todo mundo que trabalhava em finanças era tão certinho e travado?
Ele parecia quase desinteressado na cena ao nosso redor, contente em focar em John e Ryan enquanto eles colocavam o papo em dia. Ele parecia igualmente desinteressado em mim, sem me olhar fixamente ou tentar impressionar. Tive a sensação de que ele se divertia com toda a atenção que eu recebia e não soube como me sentir com aquilo.
Era um pouco perturbador também conversar com alguém cujos olhos focavam tão completamente nos meus, sem a conhecida mudança pelo meu rosto ou corpo.
"O que você faz?", ele me perguntou logo depois de sermos apresentados.
"Modelo", eu disse brevemente.
Qualquer outro teria dito 'ah, você é modelo, que emocionante'. Ele não. O Sr. Finanças apenas assentiu. Eu já sabia que ele era analista de negócios.
"Pago para ficar deitado e bonito enquanto o resto de nós trabalha duro para ganhar a vida", John sorriu com escárnio.
"Vai se foder", eu disse indolentemente. Era um jogo antigo.
Meu rosto provavelmente nunca estaria estampado em outdoors, mas eu estava no estágio em que tinha trabalho regular suficiente para não me preocupar. Houve uns anos difíceis depois que saí de casa, em que tive que ser garçom e até fui atração na barra de clubes como aquele em que eu estava sentado, mas isso ficou muito para trás.
Ryan franziu a testa para mim. "Você vai beber demais de novo se não tomar cuidado."
De nós três, ele era o cara de família, o preocupado.
Eu levantei meu copo com um sorriso zombeteiro e virei o que restava. Estava em um dos meus humores. Inquieto e nervoso. Eu definitivamente tinha que levar alguém para casa naquela noite. Eu não fazia isso com frequência, o banheiro nos fundos do clube era perfeitamente funcional, em mais de um sentido. Mas não hoje.
A noite avançou. Eu ri, diverti, flertei com os esperançosos que vinham atrás. E continuei a ficar alegremente bêbado. Também escutei Mark relembrando os velhos tempos com John ou simplesmente conversando, admitindo a contragosto aquele intelecto afiado.
Estávamos sozinhos na mesa. Ryan e John estavam agora na pista de dança. Era depois da meia-noite, hora de ir para casa.
Eu me virei para ele e coloquei a mão bem no alto de sua coxa. "Quer ir para casa?" Era puramente retórico.
"Não, obrigado", ele disse educadamente.
"Eles vão entender." Um pouco impaciente, indiquei nossos amigos na pista de dança.
Ele sorriu. "Tenho certeza." Eu esperei, mas pareceu que ele tinha terminado.
"Deixa eu adivinhar, você não transa no primeiro dia", eu zombei. Me inclinei para mais perto, meu hálito passando por sua orelha, dando a ele meu melhor olhar de câmera. Nunca falhava. "Eu adoraria fazer você mudar de ideia", eu sussurrei.
Porra, sempre esses malditos rodeios, mesmo quando eles te queriam tanto que estavam babando.
"Não, obrigado." Novamente o tom suave, o desinteresse. E ele falava sério, eu percebia.
Me inclinei para trás de novo, a mente clareando levemente com esses eventos inesperados, removendo minha mão de sua coxa e observando-o, realmente observando-o.
Ele tinha dito a John que era solteiro. Ele mentiu?
"Você está com alguém?"
Ele balançou a cabeça. "Não faz um tempo."
Ele tomou um gole do copo, os olhos voltando a observar a dança, quase me dispensando.
Eu fiquei olhando.
O que mais?
"Por que não?", eu perguntei finalmente. Não estava chateado, apenas curioso. Seja lá o que fosse, nós daríamos um jeito, e se não desse, honestamente eu não me importava, provavelmente levaria muito tempo para soltá-lo na cama de qualquer jeito. Eu queria diversão naquela noite e havia outros dispostos. Eu podia ver a ruiva da semana passada praticamente pulando de energia nervosa enquanto sitiava a porta...
"Você realmente não é meu tipo."
Isso trouxe minha atenção de volta imediatamente. Com licença? Cabelo escuro, olhos azul-meia-noite, abdômen tanquinho não era seu tipo? Um rosto que fez um agente calejado prender a respiração enquanto eu servia bebidas para ele cinco anos atrás não era seu tipo?
Fiquei tão surpreso que deixei escapar um riso incrédulo. "O quê?"
Ele ergueu as sobrancelhas para mim, mas permaneceu em silêncio. Ai meu deus, ele falava sério. Ele realmente falava sério.
Eu podia sentir a raiva começando em um lugar bem fundo, acumulando vapor, correndo pelas minhas veias, preenchendo cada parte de mim, deixando meu corpo quase formigando com a intensidade. Mas maldito se eu fosse deixá-lo ter a última palavra.
"Bem, putas corporativas travadas também não são meu tipo, mas é por isso que teríamos feito no escuro."
Não ganhei nada pelo meu esforço. Nenhuma reação, apenas aquele olhar insosso e mais sobrancelhas erguidas como se ele já esperasse metade daquela reação. Isso doeu mais do que qualquer outra coisa. Quem diabos ele pensava que era, achando que me decifrou em 5 minutos...
Estar na frente de uma câmera para viver te dá algumas habilidades de atuação. Eu as usei.
"Ah, bem", eu dei de ombros. "Estou a fim de um ménage mesmo."
Eu fui embora, levando o ruivo e seu amigo comigo.
Eu trabalhei ainda mais duro do que o normal para agradar naquela noite, dando uma performance de academia para a plateia de um homem na minha cabeça. Eles estavam delirando de prazer, eu estava mais vazio do que nunca.
Claro que eu o vi de novo. John e Ryan eram meus amigos mais próximos e pareciam gostar dele, então só isso já significava que eu tinha que aturá-lo. Não importava o quanto ele me dava nos nervos. Além disso, ele ia ao clube com a mesma frequência que eu, geralmente na companhia dos meus amigos. Embora recebesse sua cota justa de atenção, nunca o vi fazer mais do que conversar casualmente com alguém. Isso me agradava, especialmente porque ele já devia ter ouvido tudo sobre minha reputação na cama a essa altura. Não era só minha aparência que me dava meus seguidores.
Na maioria das noites, estávamos todos sentados à mesa quando eu recebia uma oferta que não podia recusar. John piscava maliciosamente e Ryan parecia preocupado. Mark me dava um daqueles olhares insossos que eu estava começando a odiar. Eu fazia questão de que minha última oferta voltasse do banheiro com as pernas bambas e olhos brilhantes. Bastardo libidinoso. Não ser seu tipo, o caralho.
Uma noite, várias semanas depois, todos saímos do clube juntos, rindo e provocando uns aos outros. Como de costume, eu tinha optado por ir para casa sozinho. A alguns passos da entrada, havia um pequeno beco onde a luz do poste não alcançava.
Senti o cheiro de Coop antes de vê-lo. Ele estava meio escondido pelas sombras, em seu triste arremedo de casaco, pele encardida de sujeira, cabelo emaranhado para todo lado. Ele não vinha muito ao clube. Quando vinha, significava sempre a mesma coisa.
Ele sorriu para mim agora, mostrando uma boca cheia de dentes amarelados e podres. "E aí, cara."
"E aí, seu filho da puta feio."
Ele sorriu mais, mas ficou a vários passos de distância, reagindo, sem dúvida, à presença dos outros. "Não está tão ruim esta noite." Ele se referia ao clima.
"É. Os hambúrgueres estão bons esta noite também. Bata na porta da cozinha nos fundos se quiser, diga que eu mandei você. Ei," eu fuçei meu casaco, "quer uns cigarros?"
"Você cedeu de novo? Três anos tentando parar."
Eu dei de ombros. "Algum dia, Coop. Não posso deixar meu agente me pegar, no entanto."
Ele guardou os cigarros que eu entreguei, se arrastando cautelosamente mais devagar para pegá-los e se apressando em ir embora com um 'Até mais, Matt.'
"Incentivador", Ryan acusou.
De certa forma, ele estava certo, mas eu preferia muito mais que Coop gastasse o pouco dinheiro que tinha em comida do que nos cigarros que desejava.
Em vez disso, mandei um olhar lascivo para Ryan. "Algum dia você tem que experimentar um cara sem a maioria dos dentes."
Ele estremeceu enquanto John e eu ríamos.
"Então você fuma agora?", Mark perguntou baixinho.
"Você ouviu o homem", eu disse zombeteiramente. "Três anos tentando parar."
Eu me recusei a explicar mais. Não era da conta dele se eu escolhia ter comigo maços de cigarros que eu não precisava. Voltei minha atenção para Ryan e John que estavam se provocando sobre dentaduras. Eu entrei na brincadeira.
O Dia de Ação de Graças estava chegando. A cidade estava pronta para o início da temporada de festas. Eu odiava cada uma delas. John e Ryan sempre faziam questão de que eu soubesse que tinha um lugar à mesa deles, mas eu nunca ficava na cidade para aceitar a oferta. Em vez disso, eu saía de férias levando alguém comigo, ocasionalmente várias pessoas, e voltava apenas quando tudo acabava. Eu também fazia valer a pena para eles. Geralmente era a maior festa de suas vidas.
O tópico na mesa naquela noite, claro, girava em torno de cardápios e convites e a grande palavra com F. Família.
Mark não conseguiria visitar a casa desta vez, então Ryan insistiu que ele fosse à casa deles. A família de John vinha mais para o Natal e Ryan não tinha mais ninguém.
"E a sua família?", Mark me perguntou.
"O que tem eles?", retruquei.
"Eles não vão vir?"
Eu franzi a testa. "Não, a menos que tenham algum tipo de dispositivo de rastreamento em mim em algum lugar", eu disse.
John riu. Ryan fitou seu copo.
"Você não fala com sua família?", Mark perguntou. Isso mesmo, seu babaca julgador.
"Não, você fala?", perguntei diretamente.
"Sim." Ele me observou em silêncio antes de dizer "E eles? Seus pais não te ligam?"
"Vamos ver. Meu pai provavelmente está rezando pela minha alma queer possuída por demônios entre rezar para minha mãe lembrar de seu dever e voltar para casa e minha mãe," eu sorri, "provavelmente não parou de fugir de nós, mesmo depois de 20 anos."
John riu como era esperado, Mark só me olhou pensativamente. Ryan mudou de assunto.
As férias foram um desastre. O cara era musculoso e charmoso, até mesmo doce. Não adiantou nada. A inquietação estava pior. Eu nunca tinha esperado os dias passarem assim antes.
No dia em que cheguei em casa, John e Ryan vieram me ver no meu apartamento. Era tradição.
Quando abri a porta para eles, Ryan ergueu dois grandes sacos de comida.
"Bem-vindo de volta", ele sorriu.
"Eu só vim pelas lembrancinhas", John disse sorrindo para mim. Eu dei um soco de brincadeira em seu braço, então olhei para Mark por cima da cabeça dele, acenando secamente.
Ele parou logo na entrada.
"Então, o que você acha?", eu perguntei desafiadoramente porque podia ver seus olhos percorrendo tudo, avaliando, sondando.
Ele olhou para mim. "Combina com você", ele disse enigmaticamente, então entrou na cozinha onde Ryan estava descarregando a comida.
Combina comigo? O que diabos isso significava? Eu o segui fervendo em silêncio porque parecia que eu nunca o venceria nesse jogo.
Minha situação de moradia sempre surpreendia as pessoas que a viam. O bairro estava longe de ser chique. Não era o apartamento de um modelo decorado por designers. Na verdade, eu ainda morava no terceiro apartamento que aluguei depois de me mudar para a cidade. Era um dos dois que estava rangendo nas juntas, bem vivido, com uma varandinha e grades de estilo francês. Eu adorava. Tinha personalidade e tinha o Eric.
Eu podia ver Mark estudando as fotografias e os desenhos colados na porta da geladeira. Alguns eram de Ryan e John, a maioria era de um menininho com olhos pretos e um sorriso tímido.
"Quem é esse?"
"Ele", eu disse e então fiz uma pausa dramática. "Estou esperando ele atingir a maioridade." Na verdade, ele era a razão pela qual eu não trazia caras para casa. Estranhos o deixavam nervoso.
Ouvi John rindo na sala, mas Ryan revirou os olhos. "É o filho dele."
Mark fez a menor das duplas tomadas, olhando para mim com as sobrancelhas erguidas. Eu expliquei com relutância. "Filho do vizinho. Mora no andar de baixo."
Mark estudou as fotos. "Ele é jovem."
"Sete", eu disse, tentando não soar orgulhoso.
John se aproximou e ficou encostado na parede da cozinha. "Pai abusivo", ele explicou brevemente. "Se mandou há alguns anos, graças a Deus. Michele trabalha muito e o Matt aqui", ele olhou para mim com carinho, "intervém pelo Eric quando pode."
Eu fingi modéstia e ele fez um som de ânsia.
"Ninguém vai comer?", Ryan reclamou.
Mais tarde, quando saímos do meu apartamento, Eric veio correndo para fora do dele. Ele provavelmente tinha ouvido os passos na escada pelas paredes e agora parava envergonhado por ser confrontado com tantos rostos.
"Oi, grandão", eu disse sorrindo para ele.
"Oi, eu também tive férias", ele me disse timidamente. Eu tinha me despedido antes de sair de férias.
Estendi a mão e ele deslizou sua mãozinha na minha, apertando com força.
"Oi, Eric", Ryan disse e John se inclinou para bagunçar seu cabelo. Ele aceitava os avanços deles agora, tendo-os visto comigo tantas vezes.
"Esse é o Mark", eu lhe disse e ele murmurou em resposta à saudação gentil de Mark.
"Você vai sair?", ele me perguntou, a expressão um pouco suplicante.
"Só um pouquinho. Volto logo."
Ele se animou. "Você vem e eu posso te mostrar meus brinquedos novos que ganhei do Papai Noel?"
"Não", eu disse. "Você vai me fazer jogar seus jogos chatos e eu tenho coisas interessantes para fazer."
Antigamente, ele se encolhia com qualquer provocação, se fechando. Agora ele puxava meu braço e pulava de um pé para o outro.
"Tio Mattttttttt", ele disse. Então, "Podemos assistir TV?" Isso significava que ele tinha levado bronca por isso.
"Você está de castigo?", perguntei severamente.
"Não", ele arregalou os olhos. Então, com verdadeira astúcia infantil, acrescentou "Podemos assistir TV e você pode pedir sorvete para a mamãe."
"Aí eu levo bronca."
"Diz por favor", ele instruiu seriamente.
Eu fingi considerar. "Então eu fico com a parte maior."
Ele mordeu o lábio inferior. "Talvez você fique cheio e eu tenha que terminar para você", ele disse, esperançoso.
"Pirralho." Eu o agarrei afetuosamente pelo pescoço e ele guinchou, então saiu correndo.
"Eu te disse", Ryan disse para Mark, parecendo divertido. "Filho dele."
Eu olhei para Mark desafiadoramente e para meu espanto ele se aproximou e passou a mão levemente nas minhas costas em um gesto que eu chamaria de carinho vindo de qualquer outra pessoa, sorrindo enquanto fazia isso. Então ele foi na frente, me deixando olhando para suas costas.
Eu tive que sair da cidade para uma sessão de fotos. Frio de rachar e eles queriam sem camisa. O fotógrafo exigia neve recém-caída. Levou três dias para as condições ficarem certas. Cinco centímetros de neve branca e pura contra uma encosta e a obrigatória morena, loira e negra para ajudar a vender perfume superfaturado. Eu mal podia esperar para voltar para casa. Estava tão inquieto que deixava todo mundo louco.
Fui ao clube assim que voltei. Era cedo e eu sabia que levaria um tempo até todos os outros chegarem. Flertar ajudava a passar o tempo muito bem enquanto o clube enchia lentamente. Ryan e John chegaram eventualmente e eu os chamei. Nós conversamos. Eu reclamei dos outros modelos e de como tinha sido frio enquanto bebíamos nossa cerveja.
"Ah, sim, Mark tem um encontro", John disse animadamente.
Eu fiquei olhando. "O quê?", eu disse estupidamente.
"Hmm, saiu com ele agora." Ele riu. "Já estava na hora, eu diria."
Ficou difícil engolir. Ryan fulminou John com o olhar, então me lançou um olhar de soslaio.
"Na verdade, acho que ele não conseguiu dizer não. O cara é do ramo." Ele fez um gesto vago com a mão.
A ideia de Mark ter dificuldade em dizer não era quase histérica. Se ele estava saindo com esse cara, era porque queria.
"Pobre Mark", eu disse zombeteiramente.
Fiquei mais 15 minutos. Contando cada minuto na minha cabeça, então casualmente me virei para eles. "Acho que vou embora."
Enquanto eu saía, Pete veio até mim. Passando um braço pela minha cintura, ele me lançou um olhar sensual daqueles lindos olhos pretos. "Me leva com você?"
"Não", eu balancei a cabeça, sorrindo para não doer.
"Vamos lá", ele adulou.
Eu rosnei na garganta e dei um tapa naquela bunda firme, fazendo-o guinchar. "Não. Você vai me exaurir e eu preciso descansar para amanhã", eu menti.
Ele sorriu, então saiu com um aperto atrevido na minha bunda. Quase me arrependi de tê-lo mandado embora, mas sabia que não ia mudar de ideia. Fui para casa e me embebedei.
No dia seguinte, eu andei. E andei. Era como se eu mal pudesse suportar estar dentro da minha própria pele. Não havia trabalho para me distrair também. Eventualmente, minha inquietação me levou ao clube novamente.
Sentei no bar sozinho, olhando para minha bebida. Era só o final da tarde, cedo demais para a multidão habitual, o que me servia perfeitamente. Eu planejava ir embora bem antes que eles chegassem para não ter que puxar conversa.
Em algum momento, levantei os olhos para o espelho à minha frente e vi Mark e seu acompanhante sentados em uma cabine atrás de mim. Fiquei observando.
O cara era mais velho, por volta dos trinta e cinco talvez. Não era um rosto bonito, mas certamente tinha personalidade. Um corpo um pouco alto e largo demais, e nem tudo bem musculoso. Roupas que falavam sutilmente de poder e riqueza. Eles claramente tinham muito o que conversar. Negócios, sem dúvida.
Vi Mark se levantar para pegar mais bebidas. Ele veio ficar ao meu lado. Eu tinha que dizer algo.
"Então esse é o seu tipo?" perguntei, sorrindo com malícia.
Ele me lançou um olhar ameno e depois foi embora, levando as bebidas com ele. Voltei a encarar meu copo. Não podia ir embora agora. Teria que ficar mais um pouco.
Vinte minutos, disse a mim mesmo. Comecei a contá-los mentalmente, bem devagar. Quando cheguei a 18 na minha cabeça, os vi se levantando para ir embora. Droga!
Acrescentei mais 10 minutos à contagem.
Eles saíram. Imaginei-os lá fora, chamando um táxi ou talvez tivessem ido de carro. Eles entrariam, o carro partiria, se afastaria cada vez mais do clube. Talvez quando chegasse à esquina, eu pudesse ir embora.
22........23.......
Mark voltou e veio direto até mim. Ele tirou o copo das minhas mãos, colocou-o no balcão.
"Vá para casa", ele disse.
"Não posso", respondi. "Me prometeram um sexo incrível."
Ele não pareceu muito divertido. "Você precisa dormir", ele me disse. "Vá para casa, durma um pouco."
Eu não tinha dormido bem, mesmo com todo o álcool. Juro que, quando ele disse aquilo, tive vontade de encostar a cabeça no balcão e dormir ali mesmo. Ficamos nos encarando e ele fez um som áspero na garganta.
"Chamei um táxi para você, está lá fora. Agora vá para casa."
Dei uma risada curta. "Porque Deus me livre de você vir comigo." Procurei meu copo às cegas.
Ele afastou minha mão com um tapa. "Tenho uma grande reunião para encerrar."
"Hmm", eu disse, "eu vi. Bem grande." Tive um estalo. "Combina com você", eu disse, sorrindo. Me senti muito orgulhoso de mim mesmo.
Os olhos dele ficaram violentos de um jeito que eu nunca tinha visto. Ele jogou um dinheiro em cima do balcão, agarrou meu braço com força e me arrastou da cadeira, atravessando o clube até o táxi. Pude ver o Senhor Cheio da Grana nos olhando com curiosidade. Ele não esperou quando eu entrei. Eu o vi entrar em um carro com sua grande reunião enquanto o táxi ia embora e fechei os olhos. Deus, como eu queria dormir.
Depois disso, fiquei longe do clube. Era o que eu deveria ter feito desde o começo. Toda vez que Ryan ligava, eu inventava trabalho e desligava rápido. Minhas noites eu passava com Eric, o que o deixava encantado. Durante o dia, eu trabalhava ou caminhava. Aleatoriamente, decidi adotar uma política de zero álcool. Não adiantava nada, nunca adiantava de verdade.
Duas semanas se passaram. Meu aniversário estava chegando. Geralmente eu dava uma festa para mim mesmo, convidava todo mundo que eu conhecia, dizia para trazerem amigos. Era a mãe de todas as festas, corpos por toda parte. Este ano eu só queria me esconder. A ideia de fazer 25 anos me deixava enjoado. Sou modelo. 25 anos é estar ficando velho em uma indústria que idolatra pele firme. E eu não tinha exatamente me privado dos vícios. Mais cedo ou mais tarde, todo aquele abuso começaria a aparecer nas câmeras. Pelo menos eu tinha sido esperto o bastante para ficar longe das drogas.
Naturalmente, eu não podia dar minhas festas no meu apartamento, então sempre era no apartamento de Ryan e John. Se eu não ligasse logo para combinar os detalhes, eles ligariam.
Escolhi um horário em que eu sabia que ninguém estaria em casa e deixei uma mensagem dizendo que ia viajar. Para uma festa particular, eu disse. Eles provavelmente pensariam que era uma das minhas férias com acompanhante. Disse que ligaria quando voltasse e a gente comemoraria.
Depois liguei para meu agente e pedi para usar a cabana dele. Já tínhamos feito isso antes, então o pedido não surpreendeu J.C., mas ele me disse que eu era louco de querer ir para lá nessa época do ano. Quando eu disse que estava pensando em dar um jeito na minha vida e precisava de um lugar para pensar, ele não falou mais nada. Era só uma mentira parcial.
Fui sozinho. Foi muito difícil, sem álcool nem um corpo quente, nenhuma das muletas de sempre. A cabana era bem mobiliada e bem abastecida. Ficava isolada, cercada por uma mata densa, e havia uma pequena cidade a vários quilômetros morro abaixo. Andei muito naqueles dois dias. Eu já tinha vindo ali vezes o suficiente para ter lugares favoritos. Visitei todos eles, às vezes ficando horas.
Na manhã do meu aniversário, J.C. ligou. Eu poderia pegar um pacote para ele na agência dos correios da cidade? Precisava de uma assinatura e eu poderia trazer quando voltasse, o que seria em dois dias. Lembrei a ele que eu era um de seus modelos mais importantes, não um office boy, e ele me disse que nenhuma dessas coisas me transformava em diva, o que me fez rir. Sinceramente, fiquei feliz com a atividade. A viagem de carro aliviaria minha inquietação, e uma visita ao único bar da cidade saciaria minha sede por companhia, se não por álcool.
Não havia pacote nenhum. Imaginei que tivesse havido algum engano e fui para o bar. A companhia não era ideal, consistindo principalmente de velhos com velhas histórias, mas depois de dois dias sozinho, eu estava disposto a fazer concessões. Ouvi sobre como eram os bons e velhos tempos antes de o país ir para o brejo, fui repreendido por responder de forma atrevida, mas quando saí, várias horas depois, eles me deram tapinhas nas costas e disseram para eu não deixar de aparecer no dia seguinte.
Já avistando a cabana, vi o carrão beberrão de J.C. e o SUV de John estacionados lado a lado. O carro de Ryan estava mais atrás. Eu ri, balançando a cabeça, e senti uma onda de gratidão. Quem realmente quer passar o aniversário sozinho?
Senti o cheiro da comida assim que saí do carro. John apareceu na janela e revirou os olhos para mim através do vidro. Empurrei a porta, um comentário espirituoso na ponta da língua que morreu instantaneamente quando vi a cena.
"Maaaattttttt!" Ryan gemeu. "Por que você voltou? Você não deveria estar de volta!" Ele segurava algumas serpentinas nas mãos e mais enfeites de festa pendiam desordenadamente das paredes.
"Tio Matt!" Eric se jogou contra mim gritando, quase fora de si de tanta empolgação. "Nós trouxemos bolo!"
"Eric!" Michele disse rispidamente. Ela sorriu para mim, o rosto cansado, mas alegre como sempre. "Desculpe, você não deveria saber disso até mais tarde."
Eu só fiquei boquiaberto, completamente sem palavras. Não eram apenas John, Ryan e JC como eu tinha pensado. Mas outros também. Michele com Eric, Pete, que piscou para mim de forma atrevida, os colegas modelos Guy e Travis, Shawn do clube. Mais gente do que eu teria imaginado, mais do que eu teria esperado, todos parecendo muito satisfeitos consigo mesmos. Isso explicava os carros separados.
"A gente tinha tanta certeza de que o bar ia te ocupar por horas", John estava dizendo.
"Quem diria que você estava falando sério quando disse que não ia mais beber", JC disse.
Ele soou meio repreensivo, como se tivesse levado para o lado pessoal o fato de a minha festa surpresa ter sido um fiasco. Enquanto isso, Eric ainda corria em círculos animados ao meu redor.
Como que por compulsão, meus olhos encontraram os de Mark, onde ele estava encostado na porta da cozinha, me observando. Eu soube onde ele estivera o tempo todo, tinha sentido como se tivesse desenvolvido um sexto sentido para ele. Tentei ao máximo manter meu rosto impassível, mas tive a sensação de que ele, mais do que qualquer outra pessoa na sala, sabia o quão perto eu estava de perder a compostura.
"Muito bem", ele disse preguiçosamente. "Já que o aniversariante está aqui, vamos começar a festa."
Como se ele tivesse rompido a confusão que caíra com minha chegada inesperada, todos correram para a frente com abraços e felicitações.
Depois de um tempo, as coisas se acalmaram um pouco. Ryan me levou para a mesa da cozinha enquanto os outros se espalhavam pela cabana para se divertir.
"O que você estava pensando, sumir sozinho no seu aniversário?" ele me repreendeu. "Nunca fiquei tão chocado quando o JC me contou."
Ele se ocupou esquentando o que parecia ser um pouco de seu delicioso molho para macarrão. "Todo ano você dá uma festa..."
Só porque eu tinha medo de que ninguém mais se lembraria ou se importaria. Melhor nem testar os relacionamentos que se tem.
"...e aí, justo este ano, você some... mentindo para a gente..."
Ok, então eu tinha problemas de abandono. O medo de ser, de alguma forma, impossível de amar era um monstro na escuridão da minha vida. A picada da rejeição em mim era o fio afiado de uma faca.
"E se Mark não tivesse sugerido fazer uma surpresa..."
Minha cabeça girou na direção de Mark. Ele tinha sugerido essa coisa toda?
Ele estivera parado na outra ponta do balcão da cozinha, preparando uma salada. Ele encontrou meu olhar de forma inexpressiva. Meus olhos desviaram, de volta para Ryan.
"...a gente nunca saberia que você estava sozinho!" Ele colocou a concha no balcão com mais força do que talvez fosse necessário.
"O que já deveria ter dito alguma coisa a vocês", eu observei.
"Hmph."
Mas ele parecia mesmo bastante magoado, então me inclinei e o abracei desajeitadamente por cima do balcão.
"Desculpe", eu disse baixinho.
Ele fez "hmph" de novo, depois olhou para a sala atrás do meu ombro antes de me encarar um pouco ansioso. "Desculpe por nem todo mundo ter podido vir, eu sei que não é o que você está acostumado..."
Ah, francamente!
Fiquei olhando para minhas mãos. "Está perfeito", interrompi meio bruscamente.
Quando John chamou Ryan, fiquei sozinho com Mark.
"Obrigado", eu disse abruptamente. Ele assentiu sem dizer nada.
"Cadê a grande reunião?"
"Eu realmente não me importo." Ele soou exasperado. Comigo, imaginei, e calei a boca.
Enquanto ele e Ryan cuidavam da comida, sentei-me observando os outros. Shawn estava tirando Eric da casca com truques de mágica, enquanto Michele observava de perto, e Pete estava jogando charme para cima de Travis.
John voltou e ficou ao meu lado. "A gente faz uma festa de verdade quando voltar para a cidade", ele disse, enquanto seu olhar seguia o meu.
Eu o olhei. "Você só está com saudades dos strippers."
Ele riu. "Se não é verdade!" ele disse. Depois, ainda olhando para o resto da sala, perguntou baixinho: "Você está bem?"
"Estou com tesão."
"Claro que está." Nós sorrimos um para o outro. Eu o vi hesitar.
"Você nos contaria se algo estivesse..."
"Não enche o saco", interrompi, tocando seu braço de leve por um breve segundo.
Ele sorriu de novo. "Sei, sei."
Nada mais era necessário.
Eles nunca chegaram a decorar o resto da sala e ninguém se lembrou de trazer música. Comemos uma mistura de comidas de festa muito doces e calóricas e comidas que poderiam facilmente ser o jantar. Abri meus presentes, exceto aqueles que poderiam exigir alguma explicação para um menino de 7 anos, conforme me foi comunicado por gestos frenéticos e muitas trocas de olhares. O bolo veio por último. Tudo foi ao contrário, acabamos usando as serpentinas em nós mesmos, não havia um stripper à vista. Eu não tinha mentido, foi perfeito.
Quando Eric desabou bem no meio do carpete várias horas depois, completamente exausto, deitei-me ao lado dele, olhando para o teto e ouvindo o zumbido preguiçoso das vozes ao meu redor.
Minha vista foi subitamente obstruída pela cabeça de Mark. De cabeça para baixo, ele me ofereceu a mão em silêncio. Eu não queria aceitar, eu o tinha evitado o máximo que se pode em uma cabana no meio de uma festa. Eu o segui para fora da sala de estar.
Ele foi na frente até um cestinho coberto no quarto, longe dos outros. Sem laços nem nada na alça, o que confirmava minhas ideias sobre ele. Havia sons baixinhos de choramingo vindos de dentro.
"Eu odeio animais", eu disse imediatamente.
Ele descobriu o cesto, expondo uma bola branca de pelo mais ou menos do tamanho da minha palma. Pegando-a, ele pressionou a bolinha agora se remexendo contra meu peito.
"Esquece", eu avisei.
"O nome dela é Floquinho."
"Você deu nome para a minha gata?" eu exclamei indignado. Eu a peguei, mas só para ela parar de lamber meu queixo.
Olhei para Mark, embalando a Floquinho em meus braços. Então agora ele gostava de mim? Me preocupei com o porquê. Eu não tinha dado a ele motivo algum.
Sexo era um bom motivo, sexo fazia as pessoas voltarem. Mas ele não queria sexo, o que mostrava que ele não gostava de mim DESSE JEITO, só DE ALGUM JEITO, o que era totalmente ok porque eu não queria realmente que ele gostasse de mim de JEITO NENHUM.
E ainda assim ele ficava me dando gatos e festas surpresa de aniversário. Eu não conseguia entender. Ele estava me virando de cabeça para baixo.
De volta em casa, a Floquinho ganhou sua própria cama e almofadinhas fofas e, quando à noite ela insistiu em invadir a minha, eu resmunguei. Não porque me incomodasse, era uma questão de princípio. Mas eu tinha que admitir que era bom ter um corpinho minúsculo, quente e ronronante aconchegado ao meu lado que não exigia nada de mim. Me ocorreu então que Mark era mais perigoso do que eu imaginava. Ele tinha me lido bem o suficiente para suprir necessidades que eu nem sabia que tinha.
Ele ligou na manhã seguinte e perguntou se eu queria ir ver o estúdio de um amigo/barra/cliente. Um tipo muito rico, com inúmeros interesses comerciais, tantos investimentos em ações e um colapso nervoso em um passado não tão distante, que agora dedicava suas horas a lembrar a si mesmo e aos outros sobre a importância de se divertir.
Seu meio preferido era argila e não era tanto um estúdio, mas sim um ESTÚDIO, como descobri quando chegamos lá na tarde seguinte. Ridiculamente espaçoso, não era nada pretensioso, o que facilmente poderia ter sido. Os números nas etiquetas eram igualmente ridiculamente baixos. O lugar era inesperado em todos os sentidos. Greg, o artista, era caloroso, gregário e entusiasmado. E descalço. Era esse tipo de lugar.
O trabalho em si era divertido e vívido, nada pretensioso, que é o que eu tinha aprendido a esperar da maioria da arte. Na verdade, havia uma mesa inteira de lado que tinha argila para os frequentadores mexerem.
E foi para lá que Mark me arrastou. Várias pessoas já estavam sentadas no chão em almofadas elevadas, mesas baixas na frente delas, trabalhando com as mãos e a imaginação.
"Isso é ridículo, é uma perda do meu tempo", reclamei.
Por dentro, porém, eu já estava pensando em coisas para fazer. O Empire State Building? Uma cidade? Talvez algum tipo de símbolo fálico, para irritá-lo.
Ele me ignorou, sentando-se em uma das almofadas num canto mais afastado e começando a enrolar um pouco de argila entre as palmas das mãos. Eu fiz o mesmo, sentindo a argila nas mãos com uma sensação de euforia infantil, a mente fervilhando de ideias à medida que eu ficava cada vez mais absorto.
Minhas primeiras tentativas foram todas elaboradas, mas rapidamente percebi que era muito mais difícil do que eu pensava trabalhar em detalhes do tipo que eu tinha em mente. Logo eu estava só brincando, fazendo montes de coisas sem importância, mas me divertindo imensamente de qualquer jeito.
A dor no meu pescoço e nas costas ficou intensa demais para ser ignorada. Levantei os olhos com uma careta, colocando o pedaço de argila que estava moldando de volta na mesa.
"O que...?" Eu olhei em choque.
O lugar inteiro estava vazio. Pela janela à minha frente, pude ver o sol se pondo no horizonte distante. Virei a cabeça e meus olhos encontraram Mark sentado em uma cadeira a alguns metros de distância, só me observando. Seus cotovelos estavam apoiados nos joelhos enquanto ele se inclinava para a frente, os dedos de ambas as mãos frouxamente entrelaçados. Completamente sozinho.
"Onde...?" Eu olhei para ele sem expressão.
"Eu disse ao Greg que trancaria tudo", ele disse simplesmente.
Foi isso, essa foi toda a sua explicação. Eu tinha ficado sentado, por horas aparentemente, brincando com argila enquanto todos ao meu redor foram embora e ele me observou por sabe-se lá quanto tempo, e era só isso que ele tinha a dizer sobre o assunto.
"O que é isso?" ele perguntou, gesticulando em direção à argila que eu acabara de pousar, com uma leve inclinação de cabeça.
"Nada", eu disse, bravo.
Não gostei da ideia de que ele ficou sentado ali me observando. Nem um pouco.
Há quanto tempo ele estava fazendo aquilo? Por que eu não percebi? Olhei para ele inquieto, até um pouco assustado. O que ele tinha visto? O que eu tinha sido naquele tempo em que eu não estava prestando atenção?
Me senti tolo e irritado e desequilibrado com tudo o que tinha acontecido, com o que estava acontecendo, e agora não via a hora de escapar daquela sala, dos olhos observadores dele, dos meus pedacinhos de argila sem importância.
"O que você fez?" ele insistiu.
"Eu já disse", falei, e até para os meus próprios ouvidos soei mal-humorado. "São todos... só... nada."
Ele assentiu uma vez e depois se levantou, um movimento longo e fluido.
Eu também me levantei, indo em direção a ele, preocupado com meus pensamentos. Então, quando ele me agarrou, fui pego completamente de surpresa. Mais ainda quando ele me beijou. Ele me beijou como se tivesse esperado por esse momento a vida inteira e agora que finalmente tinha chegado, ele ia fazer cada segundo valer a pena.
Confuso demais para reagir ou participar do beijo, fiquei parado e deixei acontecer. Deixei que ele separasse meus lábios com a língua, que a deslizasse fundo na minha boca, que sugasse todo o oxigênio dos meus pulmões enquanto eu ficava ali tremendo e inseguro.
Quando ele finalmente se afastou, só consegui encarar seu rosto indecifrável, incapaz de formar uma única frase coerente ou até mesmo um pensamento. Então ele me levou para casa. Não conversamos nada. Eu olhava pela janela do carro, ele cantarolava trechos de canções de amor. Como ele ousava me beijar daquele jeito por causa de uma argila idiota, mas não por sexo? Como ousava me dar uma gata, quando eu nem era o tipo dele? Considerei brevemente começar uma briga, mas voltei a ignorá-lo.
Ele não entrou e eu não pedi.
Na noite seguinte, fui à boate, agarrei o primeiro cara que chamou minha atenção e o arrastei para o banheiro. Ele era bonitinho, de um jeito meio intelectual, e ansioso, mas nada disso importava. Eu me agarrei a ele desesperadamente, mãos e boca por todo o seu corpo enquanto ele gemia e ofegava e logo ficava sobrecarregado.
Depois de vários momentos intensos, parei, encostando a testa no pescoço dele, ouvindo sua respiração arrastada. Não senti nada. Nada daquela fuga que o sexo geralmente me dava, a sensação de sair da cabeça e me perder no corpo com a qual eu sempre podia contar, não importava com quem estivesse ou onde fosse.
Eu não conseguia entender, não conseguia entender essa não-sensação nem meu desespero por esse acoplamento rápido e sem sentido com esse quase estranho em um banheiro apertado e com uma iluminação horrível.
Olhei para o rosto dele, um que eu já tinha visto tantas vezes naquela mesma boate, mas que nunca havia encorajado, apesar dos olhares esperançosos dele.
Esse também não é o seu tipo.
O pensamento flutuou pela minha mente como fumaça cinzenta.
Afundei de joelhos e o terminei, em meio a pontadas de culpa e desespero, determinado a fazer pelo menos ele se sentir bem, esse homem que tinha me seguido até o banheiro, que eu tinha deixado tão excitado, que não era nem de longe o meu tipo.
Quando ele finalmente parou de tremer, deixei-o deslizar para fora da minha boca, levantando-me.
"Te pago uma bebida, bonitão?"
Sua boca se abriu. "Mas... mas... você..."
"Outra hora."
Olhos castanhos de corça me olharam, com uma expressão confusa e magoada. Ele conhecia minha reputação, conhecia meu estilo. Aquilo não era típico.
Passei o braço em volta dele, segurando-o perto e guiando-o para fora da cabine apertada, sussurrando "Você foi tão doce" no seu ouvido, uma espécie de consolo. E eu realmente sentia isso. Ele corou, um pouco sem jeito e mais do que um pouco confuso enquanto voltávamos para o bar.
Paguei uma bebida para ele, fiquei tempo suficiente para alguns goles e então fui até o reservado onde Mark, John e Ryan estavam sentados. Eu tinha notado Mark imediatamente quando voltamos do banheiro, mesmo sem ter dado sinal, e agora deslizei para o único espaço vazio ao lado dele, mantendo distância e meus cumprimentos gerais. Eles evidentemente tinham chegado há um tempinho, já que todos estavam com bebidas pela metade. Não olhei para Mark.
"Se divertindo?" ele perguntou, e não poderia ter soado mais educado.
"Sim", eu disse, ainda mantendo cuidadosamente meus olhos longe dele.
"Desde quando você paga bebida para os seus casos?" John exigiu.
Senti uma súbita vontade de matá-lo. Em vez disso, dei de ombros.
Ao meu lado, Mark disse baixinho "Ele deve ter sido muito bom."
Eu enrijeci.
Ryan estava rindo. "Ou então o Sr. Gostosão foi, por uma vez, muito ruim", ele disse.
Fiquei olhando para minha bebida, em silêncio, infeliz sem saber exatamente por quê. Ryan e John saíram para dançar.
"Então", Mark disse, e havia um tom definido de mordacidade em sua voz agora, "ele foi bom?"
"Sim", eu disse desafiadoramente, finalmente olhando para ele. "Muito bom. E vou levá-lo para casa comigo."
Ele me encarou intensamente e de repente vi seus ombros relaxarem. "Não, você não vai", ele disse baixinho.
Então ele se levantou e estendeu a mão para a minha. "Vem", ele disse.
Eu deveria ter dito não. Deveria ter aproveitado a oportunidade para marcar um ponto importante. Em vez disso, fui.
Dentro da casa dele, ele me beijou. Ele segurou meus quadris e se esfregou repetidamente em mim. Ao contrário do beijo, que foi lento e suave, a maneira como ele se roçava em mim não era.
Eu nunca fazia sons desesperados e descontrolados. Nunca. Agora me ouvi choramingar e mordi o lábio para me fazer parar.
Ele me levou para o quarto, me beijando o tempo todo. Qualquer coisa que eu estivesse com medo tinha desaparecido, perdida no turbilhão de sensações; ali estava algo que eu entendia e no qual era bom. Eu me agarrei a ele desesperadamente.
Ele nos despiu a ambos com muita destreza. Eu revirei os olhos, não consegui evitar, e ele sorriu para mim.
Me excitou vê-lo, nada escondendo sua pele. Ele me observava como se eu estivesse brincando com argila de novo. De alguma forma, isso me excitou ainda mais. Era uma sensação inebriante, essa falta de pressão para ser o melhor na cama, para ser o foco uma vez em vez de ser eu a focar. Deixei que ele me apreciasse. Eu nunca tinha sido passivo antes.
Quando ele finalmente rolou por cima de mim com intenção, eu enrijeci.
"Só por cima?" ele questionou. "Ok", e assim, rapidamente, ele estava rolando de volta para suas costas, esperando por mim.
Fiquei atordoado com sua fácil aceitação. Meu estômago se embrulhou.
"Não", eu sussurrei, "eu quero..." e me calei.
Ele apoiou a cabeça em uma mão, me observando de forma avaliadora antes de estender a outra mão para deslizar pelo meu rosto em uma carícia suave como pluma.
"Ok, vamos tentar isso", ele sussurrou de volta, como se soubesse exatamente o grande passo que aquilo era.
Ele se sentou e me posicionou sobre seu colo, me segurando sobre ele para que eu pudesse cavalgá-lo. Eu estava enormemente grato. Assim não me sentia tão vulnerável.
Ele me deixou ditar o ritmo enquanto eu o enfiava em mim pouco a pouco, me beijando e passando as mãos por todo o meu corpo, provocando para me distrair. Mais ou menos na metade, o seu longo pênis levemente curvado acertou o meu ponto. O prazer explodiu por mim e minhas pernas cederam e, conforme eu colapsava completamente sobre ele, senti todo o seu comprimento me penetrar.
"Porra!" eu ofeguei. "Porra, porra, porra!"
"Em um minuto", ele disse, mas seus olhos estavam preocupados enquanto ele se mantinha muito parado e não respirava muito profundamente.
Por alguns minutos houve silêncio enquanto meu cérebro tentava decidir se focava na dor intensa ou no prazer alucinante que eu sabia que pairava por baixo.
Olhei para o rosto dele, onde as sobrancelhas estavam franzidas acima dos olhos. "Está tudo bem agora", eu disse a ele para que o cenho desaparecesse.
Ele suspirou. "Pare de tentar ganhar aprovação o tempo todo. Nós esperamos."
Eu o encarei com raiva. Nós esperamos.
Não muito depois, realmente ficou tudo bem. Eu me remexi um pouquinho, cautelosamente, então gemi. Ele enrijeceu.
"Pare, seu idiota. Só quando você estiver pronto."
Tentei olhar para o rosto dele através dos pontos dançantes que o prazer tinha colocado nos meus olhos. Finalmente consegui fazer minha língua se mexer. "Me fode!"
O desgraçado esperou para ter certeza absoluta antes de seguir minha instrução. Ele me fodeu, me movendo sobre ele e foi a coisa mais fantástica que eu já senti na minha vida. Eu queria que nunca acabasse. Envolvidos em nosso prazer mútuo, todo o resto esquecido, ele me rolou para minhas costas. Eu mal percebi. Bem, exceto pela parte em que ele começou um ritmo frenético.
Quando tudo terminou, fiquei meio surpreso que tudo ainda parecesse igual. Certamente essa coisa que tinha acabado de acontecer, que tinha me unido a este homem como eu nunca estive conectado a ninguém antes, teria causado uma mudança discernível fora de mim assim como tinha causado dentro.
Fiquei deitado ali, em meio a um emaranhado de membros, nossos corpos esfriando e batimentos cardíacos desacelerando enquanto eu tentava descobrir as regras para essa coisa nunca antes experimentada e quais delas eu desejava desesperadamente quebrar.
"Hmm", comecei, tentando um tom casual, "você tem um dia cedo amanhã?"
"Você não vai embora", ele disse, vendo através de mim. Eu ainda não tinha decidido como me sentia sobre isso. Parei de me preocupar com a noite e me acomodei para se preocupar com o amanhã.
Ele bocejou, apertando o aperto em volta da minha cintura possessivamente onde eu estava deitado contra ele, minha cabeça enfiada sob seu queixo. "Sem mais idas ao banheiro."
"A menos que seja comigo", ele acrescentou como um pensamento posterior.
"Mas eu não sou seu tipo", eu disse, querendo ferir. Ou talvez querendo garantia.
"Tudo bem, eu também não sou o seu", ele disse ternamente. Senti seu sorriso enquanto ele roçava o rosto no meu. "Temos anos para mudar a cabeça um do outro."
Ficamos deitados em silêncio por um longo tempo, seus braços ainda apertados em volta de mim. Adormeci vendo ele sorrir amplamente para si mesmo.