Contos eróticos para ler inteiros.

Lésbicas

Encontro Duplo às Cegas

jacieleneves124 min

Caros Leitores: Recebi algumas críticas (merecidas) sobre minhas histórias lésbicas por falta de conteúdo emocional e foco excessivo na estrutura em detrimento do conteúdo. Embora eu me orgulhe das minhas outras histórias, decidi fazer algo diferente. Esta é uma história simples de descoberta emocional e espero que agrade pessoas que talvez quisessem algo diferente de mim. Ela se desenvolve devagar, mas o resultado vale a pena. Aproveitem!

A porta do restaurante tinha uma qualidade vagamente espelhada e parei para olhar meu reflexo antes de entrar. Meu estômago revirava e eu estava nervosa demais até para tentar avaliar minha aparência. Fazia muito tempo desde meu último primeiro encontro (ou qualquer encontro, na verdade) e eu nunca tinha tido um encontro às cegas. Estava tão nervosa que apoiei uma mão na parede para me manter firme enquanto me inspecionava.

Infelizmente, vi exatamente o que esperava ver. Uma bagunça. Tinha andado vinte quarteirões do meu apartamento (“está uma noite agradável!”, pensei, “e estou adiantada, bem que posso andar.” Idiota) e meu cabelo não tinha resistido bem. Mantinha meu cabelo preto comprido e o tinha alisado antes de sair, mas estava ficando frisado com a umidade do ar. Minha sombra nos olhos, que parecia esfumada quando passei no apartamento, agora estava meio borrada ao redor dos meus grandes olhos verdes, lembrando um guaxinim. Tenho a pele excepcionalmente pálida, então, no apartamento, tentei dar um tom avermelhado às bochechas. Agora, com a luz natural, percebi que tinha passado demais, ficando um pouco vulgar. De alguma forma, a cor vibrante fazia meu nariz aquilino parecer ainda maior que o normal. Pelo menos meus dentes eram brancos.

Abaixo do pescoço, a situação era ainda pior. Tinha debatido por muito tempo o que, exatamente, deveria vestir. Experimentei vários vestidos, variando de conservadores a vulgares. Mas, no fim, decidi que nenhum funcionava. Coloquei um terninho que costumava usar no trabalho porque gostava de como ele valorizava minha bunda. Mas agora, olhando meu reflexo, percebi que estava formal demais para um jantar à noite. O terninho era justo, com um casaco curto e calças apertadas, mas ainda parecia que eu ia me encontrar com clientes. Meus pés pequenos calçavam sapatilhas que não exatamente gritavam “estou pronta para namorar”. Pior, por algum motivo, tinha abotoado a camisa até o pescoço.

Rapidamente, peguei uns lenços e diminuí a maquiagem do rosto, dando um aspecto mais uniforme aos olhos e bochechas. Também usei a ponta do lenço para ajeitar o batom vermelho-escuro. Não queria sacar uma escova no meio da rua, então só ajeitei o cabelo o melhor que pude. Por fim, sem jeito, desabotoei os dois primeiros botões da blusa, expondo o topo dos meus seios 34-C. Olhei de novo para o semi-reflexo da porta e vi, mais uma vez, o que esperava ver: uma mulher desesperada de 1,60 m, 62,5 kg, 34 anos, que não tinha um encontro há seis meses e não transava há quase um ano. Mas, ei, pelo menos a maquiagem estava melhor.

Respirei fundo e empurrei a porta. O restaurante tinha iluminação baixa, com o que pareciam ser lâmpadas nuas penduradas em fios do teto de uns 4,5 metros. Olhei ao redor e vi que o salão era muito fundo e estreito. No fundo, havia um bar em forma de onda encostado na parede dos fundos, também com luz baixa e um tom meio esverdeado. Havia mesas encostadas nas duas paredes laterais, de modo que uma pessoa sentava numa cadeira de frente para a parede e a outra num banco acolchoado do outro lado. Um corredor estreito passava pelo meio, entre as costas das cadeiras. A porta ficava do lado direito da frente do salão, e o balcão da anfitriã ficava logo à frente. Ao entrar, olhei para a esquerda e vi um reservado encostado no grande vidro da fachada. A anfitriã sorriu para mim.

“Boa noite, bem-vinda ao Apple. Vocês têm reserva?”, perguntou docemente. Aquele era, de longe, o restaurante mais moderninho que eu frequentava desde os trinta anos. Olhei em volta e vi uma multidão de gente descolada conversando baixo. Como Kim e Eric acharam que este lugar combinava comigo? Se eu ia sair com alguém que gostasse daqui, como essa pessoa poderia se encaixar comigo?

“Eu... estou encontrando alguém aqui. Meus amigos disseram que vocês saberiam...”, falei. Deus, havia algo mais humilhante que isso? “Olá, sou uma mulher adulta indo a um encontro às cegas; me disseram que este restaurante tinha uma seção separada para ‘desesperados’ com sistema de ventilação próprio...”

“Ah, você é amiga da Kim”, disse a anfitriã, e eu corei. “Como ela está?”

“Bem”, respondi sem graça. Feliz por ser o centro das atenções ali.

“Ela trabalhava aqui como bartender há uns dois anos. Fazia tempo que não ouvia falar dela até ela ligar para fazer essa reserva”, explicou. Eu tinha esquecido que minha amiga próxima Kim tinha virado bartender por uns meses depois de largar o magistério e antes de se tornar contadora.

“Ah, é...”, falei. Sem saber o que deveria acrescentar.

“Então você é a Ash ou a Riley?”, perguntou.

“Ah, hum...”, fiz, sem esperar por aquilo. Eu não sabia o nome do meu par. Só me disseram o horário e o que dizer à anfitriã. Mas era curioso que nós duas tivéssemos nomes andróginos. Acho que tanto Ash quanto Riley podiam ser nomes de homem ou de mulher. “Sou a Ash.”

“Bem, você é a primeira a chegar. Vou lhe mostrar sua mesa”, disse a anfitriã. Ela pegou dois cardápios e uma carta de vinhos. Rápido, saiu de trás do balcão e me chamou com um gesto. Levou-me direto ao reservado da vitrine. Apontou o assento onde eu ficaria de costas para a porta, e eu me sentei.

“Obrigada”, agradeci, nervosa.

“Quando seu par chegar, eu a trarei até a mesa”, ela disse, virou-se e saiu. Afundei no banco e olhei o relógio. Já eram 21h05. Pensei que fosse chegar atrasada. Talvez “Riley” estivesse me dando bolo e eu pudesse ir para casa assistir tevê de pijama, como numa sexta-feira normal e feliz.

Como foi que deixei Kim e Eric me convencerem disso? Kim e eu cursamos a faculdade juntas, fomos colegas de quarto no primeiro ano, aliás. Ela era praticamente a única pessoa da faculdade com quem eu mantinha contato. Continuava sendo minha melhor amiga na cidade, talvez no mundo. E Eric era o marido dela; eles se conheceram no terceiro ano. No começo, eu não gostava muito dele, mas ele foi me conquistando. Tudo isso para dizer que ambos me conheciam havia uns 15 anos. Sabiam que eu tinha ficado mais aliviada do que qualquer coisa quando decidi desistir de namorar, seis meses atrás. Kim, e suponho que Eric, tinham ouvido todas as minhas histórias de terror sobre namorados imprestáveis e encontros horríveis.

E, no entanto, ali estava eu, sentada num reservado esperando um tal de “Riley”, do escritório do Eric, aparecer. Eu tinha resistido a esse encontro por três semanas inteiras. Lembro da primeira vez que o assunto surgiu. Kim e eu estávamos no sofá da casa dela, Eric ainda não tinha chegado do trabalho.

“Então, o que você vai fazer neste fim de semana?”, ela perguntou, e eu bufei.

“Trabalhar. Achou que eu tinha fins de semana?”, respondi. Trabalhava umas 70 horas por semana, normalmente dez horas por dia, todo dia.

“A previsão é de tempo bom esta semana. Você devia tirar um dia de folga, relaxar”, Kim disse. Manteve os olhos na tevê, mas a vi me olhar de canto, me avaliando.

“Não tenho tempo”, falei. Agora foi a vez de Kim bufar.

“Você está nesse escritório desde que se formou na faculdade de administração e nunca tirou um dia de folga. Deve ter um mês inteiro de licença pessoal e um mês de licença médica acumulados”, disse. Na verdade, era bem mais que isso. Mas eu gostava de estar ocupada e gostava de trabalhar. Além disso, o que ela tinha a ver se eu não tirava minhas licenças médicas?

“É, bem, tem muito o que fazer esta semana. Eles realmente não podem ficar sem mim neste fim de semana”, falei num tom que indicava que não queria mais falar daquilo.

“Disse todo escravo de escritório!”, Kim retrucou. Virei-me para olhá-la e ela também se virou.

“O quê?”, perguntei.

“O quê o quê?”, ela perguntou.

“Por que você quer que eu saia do escritório no sábado? Não é outra festa surpresa de aniversário malfadada, é?”, perguntei, me referindo a um evento notório de dez anos antes, em que ninguém além de Eric apareceu para minha festa surpresa. Nem eu. Todo mundo preso no trânsito. Kim riu, provavelmente lembrando daquele dia.

“Não, ainda falta um mês pro seu aniversário.”

“É isso que a torna surpresa”, respondi.

“Não”, Kim disse, ficando um pouco mais séria agora. “Com toda honestidade, Eric comentou que tem alguém no escritório dele que ele acha que seria absolutamente perfeito para você e...”

“Não, obrigada, mas não”, eu disse.

“Qual é”, Kim insistiu, chegando mais perto de mim no sofá. “Considere um favor para o Eric.”

“Eric já me deve seis favores, lembra? Três caronas pro aeroporto, duas vezes de babá do seu filho e uma vez de babá do seu cachorro”, observei.

“Então, como um favor para mim. Ele disse que essa pessoa seria perfeita para você. Pode ser divertido”, ela disse.

“Não”, repeti.

“Vamos, só me ouve”, ela suplicou. Achei aquilo meio desagradável e decidi dar um basta.

“Não quero falar sobre isso”, falei, alto e grosseiro, e então voltei a olhar para a tevê, deixando bem claro que a conversa tinha acabado. E, com isso, ela desistiu. Mas todas as noites, nas duas semanas seguintes, quando eu a via ou falava com ela por telefone, ela abordava o assunto de leve outra vez. Ficava quieta quando eu mandava parar, mas sempre dava um jeito de trazer o tema de volta. Estava realmente me deixando louca.

Fazia mais ou menos duas semanas que eu finalmente cedi, mas não sem luta. Estávamos no sofá de novo, mas ambas tomando café e batendo papo sobre nossos dias. De repente, Kim ficou quieta. Estava claro que não estava mais ouvindo o que eu dizia. Parecia estar reunindo forças para algo. Kim respirou fundo e soltou um suspiro.

“Ash”, ela disse, e eu a olhei. Ela se recusava a fazer contato visual. “Você sabe que eu te amo e sempre vou te amar”, falou. Senti meu coração acelerar. Minha boca ficou seca e minhas mãos suaram. Fiquei nervosa. Aquilo soava como o início de uma conversa ruim. O que ela ia dizer?

“O quê? Alguma coisa errada?”

“Estou preocupada com você”, ela disse, por fim. “E não posso mais ficar parada deixando isso acontecer. Eu te amo e quero que você faça o que te faz feliz, mas não posso ficar aqui enquanto você escolhe ser infeliz”, explicou. Senti como se tivesse levado um tapa. Não esperava por aquilo. Ergui as mãos e balancei a cabeça.

“Estou feliz, Kim, de verdade. Mais feliz do que jamais estive quando namorava”, expliquei, me sentindo na defensiva. Kim nunca tinha questionado minhas escolhas de vida, assim como eu não questionava as dela. Se ela queria casar e ter um monte de filhos, problema dela. Se eu queria ficar sozinha e focar no trabalho, era escolha minha.

“Ash, eu te conheço. Você não está feliz. Não está feliz há muito tempo”, ela disse. Vi lágrimas no canto dos olhos dela e senti minha defensiva diminuir. Mesmo que ela estivesse errada (e eu dizia a mim mesma que estava totalmente, TOTALMENTE errada), pelo menos ela estava sendo sincera.

“Estou mais feliz do que quando estava com Todd”, falei, me referindo ao meu namorado sério mais recente (e a última pessoa com quem transei).

“Bem, é, isso não quer dizer muito”, Kim falou. “Acho que você sempre namora... o tipo errado de pessoa... e fica infeliz, e aí você acha que a ausência de infelicidade é felicidade.” Agora ela ergueu os olhos, um pouco vermelhos. Senti uma pontada; Kim tocara num ponto sensível. Um arrepio me percorreu.

“Estou bem”, falei, minha voz soando fraca e embargada.

“Ash, com que frequência a gente se vê? Com que frequência a gente se fala?”, ela perguntou, parecendo mudar de assunto de repente.

“Todo dia, acho”, respondi, encabulada, e ela assentiu.

“Pelo menos uma vez, normalmente duas ou três por dia. Você está aqui quase todo santo dia, mesmo que falemos ao telefone duas vezes enquanto você está no trabalho”, ela disse.

“Somos melhores amigas; é o que melhores amigas fazem”, falei, imaginando aonde ela queria chegar.

“Nós não somos melhores amigas”, ela disse, e senti o ar me faltar. Não somos melhores amigas? O que diabos isso queria dizer? Num minuto estávamos falando de um encontro às cegas idiota e, no seguinte, falando de... o quê? Não sermos amigas.

“Nós...”, comecei, me sentindo lenta e desnorteada, mas Kim ergueu a mão.

“Eu sou sua melhor amiga. E você é minha melhor amiga mulher, a pessoa que procuro quando preciso falar com alguém fora do meu casamento. Você foi a madrinha do meu casamento. Temos um laço muito especial, e eu reconheço isso. Tínhamos quando nos conhecemos. Sempre teremos. Mas o Eric é meu melhor amigo”, ela disse, e as palavras saíram embargadas, como se doesse dizê-las. Senti minhas bochechas corarem, envergonhada e irritada comigo mesma. Eu não esperava por isso.

“Nunca quis... me meter no seu casamento; não estava tentando ser vela ou algo assim...”, gaguejei. Percebi que estava chorando agora. Me senti tão idiota. O tempo todo, Eric e Kim estavam me ressentindo, desejando que eu fosse embora. E lá estava eu, alheia ao quanto era irritante e intrusiva.

“Ah, por favor, Ash, você sabe que não é isso que quero dizer”, Kim falou, soando realmente irritada comigo. “Eu te amo, e o Eric te ama. A gente gosta que você esteja sempre por perto, gosta que o Steven tenha uma ‘tia’ que está com ele o tempo todo. Não seja burra. Não estou te mandando se afastar nem nada; não é sobre isso.” Agora eu estava mais confusa que nunca.

“Então o que você está dizendo?”

“Estou dizendo... estou dizendo que você precisa de algo mais na sua vida do que você tem”, disse. Ela se inclinou no sofá e segurou minhas mãos. Olhou profundamente nos meus olhos. Eu estava tão confusa e ainda envergonhada, mas encontrei conforto no toque da minha amiga. Eu podia sentir sua afeição por mim e ver amor em seus olhos. “Não estou falando das minhas necessidades ou dos meus... seja lá o quê. Não estou falando de mim. Você. Percebo, e o Eric percebe, que você não está feliz. Você não está mais infeliz, mas não está feliz. Você está buscando algo aqui, comigo, que minha família e eu simplesmente não podemos lhe dar. Você precisa de intimidade, e não estou falando de sexo. Você precisa... precisa de mais do que posso lhe dar como sua melhor amiga. Você precisa amar alguém e ser amada por alguém num nível que não tem. Você precisa do que eu tenho com o Eric.”

Senti a raiva voltando. Claro que eu já tinha comparado minha vida com a vida de Kim e Eric juntos no passado e a achado... menos gratificante em comparação. E sim, eu queria algo que eles tinham, mas não cabia à Kim me dizer isso. Não cabia a ela esfregar na minha cara que eu era menos completa que ela. Ressenti aquilo e me levantei rápido para ir embora.

“Ash...”

“Não sou uma perdedora patética...”

“Ash, querida, não é isso que...”

“Não preciso do que você tem. Só porque o que você tem te faz feliz, não significa que todo mundo queira ou precise disso...”

“Me desculpa”, ela disse de repente. “Falei tudo errado. Sei disso. Confia em mim, com certeza não estava tentando dizer nada além de... por favor, para e escuta.” Eu estava indo em direção à porta, mas parei.

“Tá”, respondi, fria, decidindo dar a ela uma última chance.

— Não estou dizendo que tenho a chave da felicidade e que você só precisa seguir meu exemplo para consegui-la. Estou dizendo que... acho que você quer um relacionamento amoroso, saiba disso ou não. Acho que você quer algo que nem sabe que quer e não consegue entender. Da mesma forma que você soube que eu estava grávida antes de mim, antes do teste saber, porque você me conhece tão bem. Eu sei disso porque te amo. Estou dizendo isso por causa dessa conexão; quero que você confie em mim. E se você for a esse encontro e se sentir menos feliz com essa pessoa do trabalho do Eric do que se sente aqui com a gente, então você volta e esquecemos que eu disse alguma coisa. Admito que estava errada, e isso acaba. Mas me faça esse favor.

Olhei para Kim no sofá. Ela estava inclinada na minha direção, seu rosto absolutamente sério. Embora eu soubesse que ela estava errada sobre mim, também sabia que ela achava que estava cuidando de mim. Senti minha raiva diminuir, substituída por um pouco de vergonha, mas também um amor intenso pela minha amiga. Ela sempre cuidou de mim, como eu poderia precisar de mais alguma coisa na vida? Mas eu sabia que ela estava sofrendo. Sofrendo por mim, mesmo que não tivesse motivo para isso. Fiquei comovida. E queria acabar com o sofrimento dela.

— Um encontro? — perguntei.

— Só precisa se comprometer com um — ela disse, o rosto relaxando, ela sabia que eu tinha aceitado.

— Tá bom — murmurei, e ela sorriu abertamente, me fazendo sorrir de volta.

— Obrigada — ela disse — Mas confie em mim, daqui a alguns dias, você vai estar me agradecendo.

— Duvido — eu tinha dito.

Agora, sentada no reservado do "Apples", mexendo nervosamente na minha faca de pão, descobri que minha previsão estava, infelizmente, extremamente precisa. Se as coisas continuassem assim, eu não estaria agradecendo a ninguém por nada disso. Pelo menos minha obrigação estaria cumprida. Nunca mais precisaria passar por essa bobagem. Olhei para o relógio novamente. Mais dez minutos haviam se passado. Decidi que se Riley não chegasse em três minutos, eu iria embora. Mantive os olhos no mostrador, desejando que avançasse até meu tempo limite. Faltando apenas trinta segundos, ouvi a voz da anfitriã.

— Bem aqui — ela disse, e senti meu coração saltar para a garganta. Tão perto de escapar disso, mas agora meu encontro estava aqui. Olhei para cima quando uma pessoa se jogou no assento à minha frente.

— Sinto muito — ela disse — Eu poderia pegar um... ah... desculpe... deve ser a mesa errada. — Era, para meu choque, uma mulher sentada à minha frente. Claramente, mais de um encontro estava acontecendo esta noite e a anfitriã havia cometido um erro bem óbvio.

— É... hã... — eu disse — Estou esperando um encontro às cegas... — Procurei a anfitriã, mas ela já tinha ido embora.

— Eu também — a mulher disse. Ela era bem mais nova que eu; calculei que tinha cerca de 25 anos. Ela não parecia exatamente preparada para um encontro, embora eu tivesse que admitir que ela estava muito mais bonita que eu. Tinha mais ou menos a minha altura, mas era muito mais magra. Enquanto eu tenho um corpo voluptuoso (ou empastado, se você me perguntar num dia em que não estou me sentindo tão bem comigo mesma), ela era magricela. Calculei que pesava cerca de 48 quilos. Ela usava uma camiseta branca justa com letras pretas dizendo "The Clash" e uma calça jeans preta colada ao corpo. Tinha seios pequenos e empinados que se destacavam na camiseta, uma barriga lisa, quadris um pouco estreitos e pernas finas. Notei (por algum motivo) que ela tinha mãos pequenas e delicadas que seguravam seu iPhone, e as unhas estavam pintadas de preto. Tinha a pele branca e pálida, lábios grossos e rosados, um nariz pequeno de duende e olhos azuis enormes e brilhantes. Sua maquiagem era meio intensa, embora aplicada com habilidade. O mais marcante talvez fosse o cabelo louro-sujo e bagunçado sob um chapéu preto moderno. E quando digo bagunçado, quero dizer que parecia um ninho de rato. Porém, de algum modo, considerando sua aparência geral, até que funcionava.

Dei uma risadinha para mim mesma, não exatamente o par alto, moreno e bonito que eu esperava. — Acho que o restaurante cometeu um erro, vamos resolver isso quando a garçonete vier — eu disse. A garota assentiu. Ela me deu um sorriso sem graça, bonito e cheio de dentes.

— Eu devia imaginar que algo assim aconteceria, minha sorte — a mulher disse e encolheu os ombros. Ela se espreguiçou um pouco, parecendo cansada. Arqueou as costas no reservado, empurrando os seios para frente contra a camiseta apertada, e depois recostou.

— Ah, eu sei, falei para minha amiga que isso ia acontecer. Bom, quero dizer, não exatamente isso, mas algo ruim — eu disse, e a mulher assentiu.

— Sua amiga foi quem te arranjou o encontro? — ela perguntou.

— Sim, e você?

— Ah, um cara com quem trabalho — ela disse. Não parecia haver mais nada a dizer. Olhei para ela por um momento, me senti constrangida, e depois desviei o olhar. Ela também parecia um pouco envergonhada. Embora, para ser honesta, o fato de ela estar na mesma situação me fez sentir um pouco melhor. Ela era uma garota muito atraente, então talvez um encontro às cegas não fosse só para gente velha e patética.

— Talvez nossos encontros estejam sentados juntos em outra mesa — ela disse depois de uma longa pausa constrangedora. Eu ri, um pouco mais forçado do que pretendia, tentando soar casual.

— Acho que você já teria ouvido falar agora — eu disse — Homens seriam... menos compreensivos. Acho que nossos rapazes estão atrasados. — expliquei.

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