Contos eróticos para ler inteiros.

Coroas

Troca de Desejos

larice_burigo50 min

Outono de 1989

Dando uma rápida olhada em cada casa enquanto corria pelo quarteirão, Neil Tyler tentava lembrar como era a casa que procurava. Já fazia três anos desde que a visitara, e aquilo tinha sido por, no máximo, uma hora. Ele só lembrava que ficava na Rua Franklin, um pouco depois da Sorveteria Frosty Dreams. Não era tanto a casa que importava, mas a mulher que morava nela. Pelo menos, o rapaz de vinte e um anos esperava que ela ainda morasse lá.

Neil tinha acabado de passar do meio do quarteirão quando parou de repente, olhando por cima do ombro para a pequena caixa de correio que ficava na base da escada que levava à varanda da casa pela qual acabara de passar. O metal estava castigado pelo tempo e precisava de pintura, mas ele conseguiu distinguir um grande K na lateral; o resto do nome tinha se desgastado.

‘Pode ser essa’, disse para si mesmo, enquanto voltava e abria o portão de madeira igualmente gasto.

Chegando à caixa de correio, abriu a portinhola e tirou uma das cartas que estavam lá dentro, um sorriso enchendo seu rosto ao ler o nome na janela do endereço. Era essa.

Subindo na varanda, estava prestes a tocar a campainha, mas hesitou ao considerar o que ia dizer. Ele pareceria bem idiota se a pessoa que morasse ali não fosse quem procurava, mas, por outro lado, se sentiria ainda pior se fosse e alguém tivesse chegado antes.

‘Quantas Veronica Kings pode haver em McKinley Falls?’, pensou consigo mesmo ao estender a mão para a campainha de novo, especialmente uma Veronica King que fosse como seu amigo tinha descrito ao telefone.

Longos momentos se passaram enquanto esperava, o suficiente para considerar que ela talvez nem estivesse em casa. Poderia deixar um bilhete, claro, pensou, mas viu-se sem saber como explicar o que estava fazendo ali sem soar um pouco maluco.

O problema se resolveu sozinho, no entanto, quando a porta interna se abriu bruscamente e, através do mosquiteiro, Neil pôde ver uma mulher esguia na casa dos cinquenta e poucos anos, vestindo um vestido xadrez preto e branco, cujas mangas chegavam ao meio do antebraço e a barra logo abaixo dos joelhos. Um palmo inteiro mais baixa do que seus um metro e setenta e oito, seu cabelo castanho curto mostrava consideravelmente mais fios grisalhos desde a última vez que a vira, mas, fora isso, pouco mudara em sua aparência. Ela até ainda usava os mesmos óculos de aro dourado estilo vovó que um dia tinham sido sua marca registrada.

— Posso ajudar? — Veronica perguntou, observando o homem mais jovem através do mosquiteiro.

— Sra. King, não sei se a senhora se lembra de mim — Neil começou a dizer, exibindo seu melhor sorriso —, mas meu nome é Neil Tyler. Eu fui um dos seus alunos na Jackson High.

Diante disso, Veronica abriu a porta externa para ver melhor seu visitante inesperado. Ele tinha cabelo escuro, cortado curto, e vestia uma camiseta esportiva larga e jeans, um conjunto que dificilmente o destacaria entre as centenas de alunos que ela tinha ensinado apenas na última década. Ela estudou o rosto dele com atenção, vasculhando a memória enquanto tentava localizar o rapaz.

— Sim, eu me lembro — disse ela. — Foi há dois, não, três anos. Você estava na minha turma de formandos e no time de beisebol. O ano antes de eu me aposentar.

O sorriso de Neil se alargou ainda mais. O fato de ela se lembrar dele ia tornar o que ele veio fazer ali um pouco mais fácil — ou pelo menos ele esperava que sim.

— Mas o que você está fazendo aqui? — Veronica perguntou.

— Sra. King, isso pode parecer um pouco estranho, mas, por favor, tenha paciência comigo por um instante — respondeu Neil. — Por acaso, a senhora esteve na Armstrong Comics hoje de manhã?

A pergunta parecia mesmo estranha, tanto que ela demorou um instante antes de responder.

— Na verdade, eu passei lá — confirmou ela, hesitante. — Por quê, há algum problema?

— Ah, nada, Sra. King — disse Neil, jubiloso —, nada mesmo.

— Bem, talvez seja melhor você entrar e me contar do que se trata — disse Veronica. — Realmente não tenho o hábito de ter conversas na varanda da frente.

Com isso, ela se afastou e deixou o rapaz entrar, fechando as duas portas atrás dele. O pequeno hall de entrada mal tinha espaço para uma pessoa ficar de pé, então Neil imediatamente se viu na sala de visitas. A decoração estava uns trinta anos ultrapassada, o que corresponderia à época em que a Sra. King se mudara para a casa com seu falecido marido. Ele, o adolescente lembrava de ter ouvido na escola, morrera depois de uma doença repentina no ano anterior ao dele ter sido seu aluno.

— Por que não se senta? — disse Veronica, acenando na direção do sofá. — Acabei de fazer chá. Aceita uma xícara?

Neil não era muito chegado a chá, mas, pensando que deveria se comportar da melhor forma possível, disse que adoraria uma.

Como a chaleira já estava pronta, levou apenas um minuto para ela pegar outra xícara no armário e colocá-la na bandeja que já trazia sua própria xícara e um pequeno prato de biscoitos; tudo ela colocou na mesinha baixa em frente ao sofá. Depois se sentou na poltrona reclinável do lado oposto. Esperou Neil provar a bebida antes de perguntar de novo o que ele estava fazendo ali.

— Então me diga, Neil — disse ela depois de tomar um gole de sua própria xícara —, por que o fato de eu ter estado na loja de quadrinhos hoje de manhã é tão importante para você?

Neil respirou fundo, esperando não ter vindo em uma caça aos gambozinos. Afinal, ele estava agindo com base em informações passadas por Billy Tomlinson, que não era a ferramenta mais afiada do galpão, como dizem.

— Sra. King, a senhora disse ao dono da Armstrong's que tinha uma edição número um da Ultra Woman e Mega Girl que queria vender? — perguntou Neil.

— Meu Deus, é sobre isso? — perguntou Veronica.

Aquilo não era nem sim nem não, mas Neil achou que seria rude repetir a pergunta. Felizmente, uma vez superada a surpresa, ela pareceu mais do que feliz em responder.

— Na verdade, o que eu disse a ele foi que eu tinha vários livros que queria vender e queria saber se ele poderia se interessar — disse ela. — Meu marido era colecionador, entende. Eles estão num dos armários dele desde que ele, bem... De qualquer forma, finalmente decidi que era hora de desocupar o espaço.

— E um deles era Ultra Woman #1? — perguntou Neil, afinal, incapaz de esperar mais.

— Sim, esse foi um dos títulos que mencionei — ela confirmou por fim. — Eu não tinha realmente nenhuma lista comigo. Parar na loja foi uma ideia meio de impulso depois de sair do banco na rua de baixo. Esse e mais alguns outros foram os únicos títulos de que lembrei.

— E o que o Sr. Armstrong disse? — perguntou então o rapaz.

— Os outros títulos não pareceram interessar a ele, bem, pelo menos não tanto, mas ele pareceu bem interessado no livro da Ultra Woman — ela continuou. — Tanto que me fez uma oferta em dinheiro ali na hora, sem nem ver o estado.

Neil se perguntou por um segundo quais seriam os outros livros, mas decidiu que era melhor focar naquele por que tinha vindo.

— A senhora aceitou a oferta dele? — perguntou Neil, com preocupação no tom.

— Não, eu disse a ele que teria que pensar no assunto — disse Veronica, para alívio de Neil. — Para ser honesta, ele pareceu ansioso demais.

— Posso perguntar quanto ele ofereceu? — inquiriu Neil, tentando fazer a pergunta soar como mera curiosidade.

— Ele disse que estaria disposto a pagar até vinte e cinco dólares se o livro estivesse em boas condições — ela respondeu.

— Vinte e cinco dólares... — repetiu Neil, quase engasgando com o valor.

— Pela sua reação, presumo que o livro valha mais do que isso?

— Pode ser — confirmou Neil, cautelosamente —, dependendo do estado de conservação e tal.

— Também tive essa impressão — disse Veronica. — Por isso passei na Woodland Books depois que saí da Armstrong's e consultei um guia de preços. Eu vi um exemplar sobre o balcão na loja de quadrinhos e me perguntei por que o Sr. Armstrong não o tinha consultado antes de fazer a oferta.

— Ah — disse Neil, vendo suas próprias chances de fazer uma oferta baixa pelo livro se desvanecendo.

— Pelo visto você também esperava fazer uma matança, por assim dizer, me oferecendo menos do que vale — afirmou Veronica.

Neil abriu a boca para dizer algo, mas nenhuma palavra saiu.

— Ah, não se preocupe, não estou ofendida — sorriu a mulher mais velha. — Todo mundo quer algo por menos do que vale. E o preço listado naquele livro só é válido se você encontrar alguém disposto a pagar esse tanto, não é mesmo?

— Posso perguntar quanto a senhora pretende conseguir por ele? — disse Neil, presumindo que a pergunta dela fosse retórica.

— Bem, certamente não o que o guia dizia — sorriu Veronica. — Na verdade, antes de passar na loja de quadrinhos, eu provavelmente teria dado o lote todo para algumas crianças do bairro. Eles eram importantes para meu falecido marido, não para mim. Pessoalmente, eu achava tudo aquilo uma grande bobagem.

O pensamento de que ela quase tinha dado o livro para algum garoto que provavelmente o teria destruído depois de ler fez o rosto de Neil empalidecer. Embora não estivesse na categoria de Action Comics #1 ou mesmo Amazing Fantasy #15, Ultra Woman e Mega Girl #1 ainda era um dos quadrinhos mais procurados dos últimos vinte anos. Foi o livro que transformou a Creative Comics de uma empresa com dificuldades na número três do setor. Com uma tiragem inicial de menos da metade de uma tiragem normal, ainda existiam poucos exemplares. Ah, tinha havido várias reimpressões nos anos seguintes, mas era a primeira tiragem que contava — pelo menos para um colecionador.

— Você é colecionador de quadrinhos, Neil? — perguntou Veronica, a pergunta parecendo supérflua, já que ele estava ali perguntando sobre um gibi.

— Quase desde que aprendi a ler — ele respondeu.

— Preciso dizer que acho isso surpreendente — ela acrescentou. — Nunca imaginei você como alguém ligado em gibis.

— Por que isso? — perguntou Neil.

— Porque você não parecia ser desse tipo — respondeu ela. — Como eu disse antes, você estava no time de beisebol da escola, certo?

— Sim, eu jogava na terceira base — confirmou ele.

— E, como também me lembro, você era bastante popular com as garotas — acrescentou ela. — Pelo menos, sempre parecia estar cercado por um monte delas.

— Acho que era — ele sorriu. — Mas o que isso tem a ver com gostar de quadrinhos?

— Eu só nunca pensei que as duas coisas combinassem — explicou Veronica. — Sempre achei que a maioria dos leitores de quadrinhos fossem rapazes desajeitados e com pouca vida social, não homens jovens populares como você.

Neil balançou a cabeça silenciosamente, mas não o bastante para ser realmente perceptível. Com frequência demais essa era a percepção que os leitores de quadrinhos tinham de pessoas que nunca abriram a capa do que descreviam pejorativamente como ‘gibizinhos’.

— Mas seu marido curtia quadrinhos — rebateu Neil, como se isso invalidasse a teoria dela.

— Sim, e ele era um nerd de primeira ordem — sorriu Veronica. — Eu o amava, mas ele ainda era um nerd.

Neil nunca tinha conhecido o falecido Sr. King, mas pelas fotos que viu no aparador, ele parecia um cara bem comum. Alguém por quem ele passaria na rua sem nem notar. Uma daquelas fotos era do dia do casamento deles e eles pareciam um par combinado.

— Se eu puder voltar ao que a senhora estava dizendo há um instante — disse Neil, tentando reconduzir a conversa ao motivo de sua visita. — Quanto a senhora esperava conseguir pelo livro?

— Ainda não decidi — sorriu Veronica. — Você tinha alguma oferta em mente?

— Acho que teria que ver o livro primeiro — respondeu Neil —, para avaliar o estado e tal.

— Isso parece justo — respondeu Veronica. — Deixe-me ir buscá-lo.

Enquanto ela saía da sala e seguia pelo corredor até o que fora o escritório do marido, Neil teve de repente um pensamento perturbador. Como ninguém tinha visto o livro ainda, podia muito bem ser uma das edições reimpressas. Não sendo colecionadora, dificilmente se esperaria que a Sra. King soubesse a diferença.

— Aqui está — anunciou Veronica, voltando pelo corredor com o livro na mão.

O livro tinha sido guardado em um saco plástico protetor, o que Neil tomou como um bom sinal de que era uma primeira edição genuína.

— Por favor, tenha cuidado com ele — disse Veronica ao entregá-lo. — Raymond sempre teve o cuidado de não deixar ninguém manusear seus livros de qualquer jeito.

— Claro — concordou Neil, aceitando o saco e removendo cuidadosamente o livro de dentro, colocando-o na mesinha de centro enquanto virava as páginas com cuidado. Ele já tinha lido várias das edições reimpressas, mas ver o original era realmente incrível.

— Como pode ver, está em excelente estado — comentou Veronica.

E estava, concordou Neil, pensando ao mesmo tempo que aquilo poderia ser a joia da sua coleção.

— Na verdade, se não fosse a assinatura na capa, eu diria que está em perfeito estado — acrescentou Veronica.

‘Assinatura?’, repetiu Neil mentalmente, amaldiçoando em silêncio quem quer que tivesse estragado aquele tesouro rabiscando-o.

Ele fechou o livro rápida mas cuidadosamente enquanto seus olhos percorriam a capa colorida em busca do que Veronica mencionara.

— Puta que pariu! — exclamou Neil de repente.

— Há algum problema? — perguntou Veronica, surpresa por um instante com o palavrão de seu ex-aluno.

— Isso está autografado! — exclamou Neil num tom ainda mais animado.

Ali, no canto inferior direito, estava o autógrafo de Joanna Simon, a criadora da série.

— Isso o torna menos valioso? — perguntou Veronica. — Mais ou menos um ano antes de falecer, Raymond me levou a Nova York para uma daquelas, como é que chamam, ah sim, convenções de quadrinhos. Conhecemos uma jovem adorável que ele disse ter algo a ver com o livro e ela o autografou para ele.

‘Dane-se o que o guia de quadrinhos dizia’, pensou Neil, ‘isso não tem preço.’

— Então, quanto você acha que vale? — Veronica lhe perguntou.

— Mais do que eu jamais poderia pagar — admitiu Neil, surpreendendo a si mesmo com sua honestidade.

— Sério? — ela disse.

— Você encontra o colecionador certo, e estou achando que isso pode valer uns quatro, talvez quinhentos dólares.

— Tudo isso? — disse Veronica, acrescentando à medida que o valor era assimilado. — Isso presumindo que eu pudesse encontrar esse colecionador, claro.

Neil assentiu com a cabeça, pensando que era verdade. Fora a eventual Comic Con, não havia muitos lugares para vender quadrinhos de alto valor como aquele — pelo menos não por preços assim. Por mais que odiasse admitir, o Sr. Armstrong tinha toda razão quando disse a um amigo de Neil que procurava vender sua coleção que os livros que estavam nela não tinham valor até que ele os tivesse; porque era ele quem tinha acesso ao mercado mais amplo.

— Eu diria que até o Sr. Armstrong teria que lhe dar um preço mais justo quando soubesse que está autografado — ofereceu Neil.

— Bem, mesmo assim, não tenho certeza se gostaria de vendê-lo para ele — declarou Veronica —, não depois de ele ter tentado se aproveitar da minha ignorância.

— Eu quase tentei também — admitiu Neil.

— Mas você não o fez — observou ela.

Neil achou prudente não destacar que isso só aconteceu porque ela não lhe dera a chance.

— Eu realmente gostaria de ter o dinheiro — disse Neil, enfiando o livro de volta no saco antes de devolvê-lo a Veronica. — Você não faz ideia do que um gibi como esse significa para um colecionador.

— Posso ver que é tão importante para você quanto era para meu marido — disse Veronica, enquanto verificava se o gibi estava novamente lacrado em sua capa protetora —, mesmo que eu não entenda por quê.

— Acho que você deve achar tudo isso muito bobo — comentou Neil, repetindo o comentário dela de antes —, homens adultos se empolgando com o que a maioria das pessoas considera um livro de criança.

Pareceu estranho para Veronica, pelo menos por um instante, ouvir Neil se referir a si mesmo como um homem adulto, mas, refletindo, era o que ele era. Já fazia anos desde que ele se sentara no fundo da sala de aula dela.

— Sei que disse isso antes — respondeu ela após uma pausa —, mas realmente não deveria. Todo mundo tem suas pequenas paixões, e não cabe a ninguém julgar o valor delas. Você também pode achar algumas das minhas estranhas.

Neil não conseguia imaginar a que ela estava se referindo, mas o grosso do comentário dela o fez se sentir melhor. Mas só um pouco, já que vinha acompanhado da constatação de que, afinal, ele não ia colocar as mãos num pedaço da história dos quadrinhos. Ainda assim, ele tinha conseguido segurá-lo nas mãos, e isso tinha que valer pelo menos alguma coisa.

— Acho que devo guardar isto de volta na caixa de armazenamento — Veronica disse enquanto se levantava da cadeira e voltava pelo corredor.

Enquanto ela fazia isso, Neil provou um dos biscoitos que antes não tinha tocado, surpreso ao descobrir que além de serem caseiros, eram extremamente bons.

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Veronica ficou fora um tempo consideravelmente maior para guardar o livro do que o que levara para buscá-lo. Tanto que Neil se perguntou se talvez ela esperasse que ele fosse embora sozinho. Mas pensou também que, se essa não tivesse sido a intenção dela, seria rude sair sem se despedir.

— Desculpe a demora — Veronica falou ao voltar para a sala com uma expressão estranha no rosto. — Eu... eu tive que atender ao chamado da natureza.

Pela hesitação dela, Neil teve a sensação de que tinha sido algo mais do que aquilo, mas depois descartou o pensamento como algo que não era da sua conta. Foi legal, no entanto, descobrir que sua antiga professora era humana, afinal. Algo que ele e seus amigos poderiam ter contestado no passado.

— Acho que devo ir, então — Neil disse depois de terminar um segundo biscoito. — Quero agradecer por você ter dedicado um tempo para me mostrar o livro.

— Ah, você precisa ir tão cedo? — Veronica perguntou, surpreendentemente. — Eu raramente tenho a chance de saber o que aconteceu com meus alunos depois que saem da minha responsabilidade.

— Acho que posso ficar mais um pouco — Neil disse, pensando consigo mesmo que aqueles biscoitos eram realmente bons.

— Você está na faculdade ou trabalha? — Veronica perguntou enquanto se servia de um dos biscoitos também.

— Se a senhora se lembra de mim, deve se lembrar de que eu não era exatamente material para faculdade — Neil riu. — Eu trabalho para o meu pai, ele é empreiteiro geral. Na verdade, faço isso em meio período quase desde que conseguia segurar uma ferramenta na mão.

— Você deve ter mãos talentosas — a mulher mais velha observou.

— É o que meu pai diz — Neil respondeu com outra risada.

— Você se imagina fazendo disso o trabalho da sua vida? — ela perguntou.

— Na verdade, poderia — ele respondeu.

— Então você tem muita sorte — Veronica acrescentou. — Poucas pessoas sabem o que querem fazer na sua idade. Você tem... dezenove?

— Sim, mas faço vinte no mês que vem — ele destacou.

— Bem, mesmo aos vinte, eu ainda não tinha ideia do que queria fazer na vida — Veronica confessou. — Claro, naquela época não havia tantas oportunidades para as mulheres. Basicamente era trabalho de secretariado ou escritório, enfermagem ou ser professora.

Neil se viu tentando imaginar como a mulher ao seu lado era quando tinha a idade dele. A foto de casamento no aparador tinha sido tirada uma década depois, mas dava algumas pistas importantes. Era em preto e branco, então era difícil dizer a cor do cabelo dela, mas definitivamente era mais comprido do que usava agora. O porte dela era parecido o bastante para dizer que sempre tinha sido daquele jeito — magra, com seios pequenos. Ausentes estavam os óculos de velhinha que ele nunca a vira sem, mas isso não significava nada, já que muitas noivas tiram os óculos para as fotos de casamento. Considerando o envelhecimento, os traços faciais também eram consistentes, prova de que ela sempre tinha sido o que costumavam chamar de uma mulher sem graça.

— Neil? — ele ouviu Veronica dizer, trazendo-o de volta das especulações para as quais tinha se deixado divagar.

— Ah, desculpe, me distraí por um momento — Neil disse.

Veronica ficou curiosa sobre o que o tinha distraído, mas em vez disso repetiu a pergunta se ele tinha namorada.

— Ninguém fixa — ele respondeu, acrescentando que não estava procurando se amarrar cedo como os pais dele.

Ela fez mais algumas perguntas sobre a vida dele, o suficiente para que, eventualmente, Neil sentisse que devia fazer uma para ela também. A primeira coisa que lhe veio à mente foi perguntar como ela estava aproveitando a aposentadoria.

— Estou aproveitando bem — ela respondeu —, embora às vezes seja difícil encontrar coisas para preencher o tempo. Ainda dou aulas particulares de vez em quando, mas é só porque gosto. Com minha pensão, minhas economias e o seguro do meu marido, realmente não preciso mais trabalhar.

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