Sobrevivido Por
Direitos autorais © 2021: Por Richard Gerald
Teddy, o spaniel marrom, estava sentado esperando perto da porta. Durante toda a manhã, o homem triste chamado Parker estivera se movimentando pela casa geminada de quatro andares com um propósito. Iam a algum lugar. Parker arrumara uma mala na noite anterior e passara a manhã, depois de passear e alimentar Teddy, fechando e trancando todas as janelas e portas. Essas ações indicavam uma viagem, e Teddy se resignara a uma longa viagem no carro grande e preto.
Nem sempre fora assim. Teddy era feliz com Ann. Tinha apenas uma vaga imagem de qualquer existência antes de Ann. Ela estivera lá enquanto ele crescia de filhote a um cão adulto. Moravam no apartamento na cidade grande ao sul. Quando iam passear, andavam de elevador. Não havia escadas para subir. A casa geminada era toda de escadas, e o homem subia e descia constantemente. Teddy explorava cada andar, exceto o último. Nunca iam ao quarto andar. Cada andar da casa geminada era tão grande quanto o apartamento de Ann, mas eram espaços frios e solitários. Teddy sentia falta de Ann e de seu apartamento quente e ensolarado.
Teddy vivera com Ann por seis anos, embora ela estivesse ausente na maior parte do último ano. Iam juntos a todos os lugares, companheiros inseparáveis. Se andavam de carro, era um táxi amarelo. Ann sempre no banco de trás com Teddy. Ele ficava aos pés dela, e ela o envolvia com o braço. Parker tinha um carro grande e preto chamado SUV, e Teddy era jogado no banco de trás sozinho. Achava aquilo inquietante, especialmente depois que perdeu Ann.
O problema veio com o cheiro. Teddy acordou certa manhã no canto da cama de Ann com o odor estranho. O nariz de Teddy era muito sensível. Sua raça é conhecida por sua capacidade de farejar o que está escondido, o que está encoberto sob outros cheiros. Estava lá, um odor fraco, um cheiro fétido. Ele não conseguia dizer a ela. Não tinha como avisá-la do perigo, mas se tornou mais afetuoso para compensar.
O tempo passou, e o cheiro cresceu em Ann. Um dia, ela deixou Teddy aos cuidados de Liz, no apartamento ao lado. Ann disse a Liz: "Teddy não está acostumado a ficar sozinho. Volto amanhã. É só para passar a noite fazendo exames."
Liz tinha um gato chamado Simon, que não deixava Teddy em paz. Insistia em se esfregar no cão marrom e amigável. Por causa do gato de Liz, o spaniel teve que ficar sozinho no apartamento de Ann. Liz era uma pessoa legal, mas não era Ann.
Quando Ann voltou, estava abatida. Teddy fez o possível para animá-la. No entanto, isso deu início ao período em que Ann ia embora, sempre dizendo que voltaria logo. Quando ela saía, o odor fétido ficava forte, e menos quando voltava. Mas nunca desaparecia.
Depois da primeira vez que Ann partiu, Liz ou outro vizinho vinha alimentá-lo e passear com ele, mas ele ficava sozinho na maior parte do tempo. Teddy ansiava pela volta de Ann, e por um tempo, as coisas quase voltavam ao normal. Só que Ann ficava cada vez mais fraca, e os passeios, mais curtos. Logo, mal saíam do apartamento.
Ann partiu pela última vez, dando a Teddy um grande abraço, mas não prometeu voltar. Teddy esperou e esperou. O apartamento estava escuro e sem vida à noite. Liz ou alguém vinha uma ou duas vezes por dia, no máximo. Teddy estava sozinho.
Então chegou o dia em que Liz o alimentou e disse, com lágrimas nos olhos: "Seu novo dono estará aqui esta tarde."
Foi o dia em que o homem, chamado Parker, veio. Trazia consigo uma profunda tristeza que Teddy podia ver e farejar. Liz deixou Parker entrar, e eles recolheram as tigelas e brinquedos de Teddy, e o casaco que ele usava no inverno, e a cama e o cobertor em que dormia. Parker colocou a guia na coleira de Teddy e tentou levá-lo para fora do apartamento, mas Teddy puxou para trás. Ele queria Ann. Parker pareceu entender. O homem se ajoelhou e disse: "Ela não vai voltar, garoto, e você sabe disso. Ela morreu no hospital, no quarto ao lado daquele em que minha esposa estava. Elas se foram. Prometi cuidar de você."
O homem acariciou a cabeça de Teddy e deu um leve puxão, e Teddy se levantou e saiu do apartamento. Teddy andou de elevador pela última vez. Sentou-se sozinho no banco de trás do carro grande e preto, e viajaram para longe. Chegaram a esta casa estranha onde agora viviam completamente sozinhos. Teddy podia sentir o cheiro da mulher que se foi e sentir a dor do homem, tão parecida com a sua. Estavam juntos, mas ainda assim cada um sozinho.
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Parker Jones conheceu sua esposa, Lenore, em Chicago, no verão de seu segundo ano na faculdade de direito. Formado em física na graduação, ele tinha ido para a faculdade de direito com a expectativa de se tornar advogado de patentes. No entanto, o único estágio de verão que conseguiu foi em um escritório de arbitragem. Os árbitros estavam precisando desesperadamente de alguém com conhecimento sobre fiação elétrica de fibra de vidro para auxiliar em um importante processo de construção em Chicago.
Precisando de qualquer emprego relacionado ao direito para seu currículo, Parker, que havia passado cabos para a AT&T durante os verões da faculdade, aceitou o trabalho fora do estado. Em Chicago, sem nada para fazer nos fins de semana, ele fez uma visita guiada no Instituto de Arte numa manhã de sábado.
Lenore (Len) Campbell tinha vinte e três anos e era portadora de um mestrado em Belas Artes. Era pintora a óleo e acrílica, mas incapaz de conseguir qualquer emprego remunerado que não fosse como guia de turismo. Parker fez o tour, mas passou o tempo observando a guia bonita, pequena e loira. Ele a seguiu pelas salas decorativas do museu. Nunca teve coragem de falar com a mulher por quem estava apaixonado. No total, fez o tour três vezes em manhãs de sábado consecutivas.
No final de seu terceiro tour, Lenore se aproximou dele e disse: "Oi, sou Lenore, mas as pessoas me chamam de Len. Também sou meio impaciente, então aqui está meu telefone e endereço. Estou livre todas as noites, menos terça."
Tendo Lenore tomado a iniciativa, o relacionamento decolou durante o verão. O introvertido Parker rapidamente ficou encantado com a vivaz e extrovertida Sra. Campbell. A química era perfeita, com os opostos se atraindo numa chama de paixão. Ambos eram virgens e assim permaneceram até meados de agosto. Chegando ao apartamento de Lenore para um encontro de cinema numa sexta-feira, Parker descobriu que a colega de quarto dela estava ausente no fim de semana. O filme seria um DVD da Netflix no quarto de Lenore.
Lenore havia começado a tomar pílula para a ocasião. Eles estavam com muito tesão um pelo outro, mas a primeira vez não durou muito. Felizmente, descobriram que Parker tinha um tempo de recuperação rápido e um pavio muito mais longo após o primeiro evento.
No entanto, a manhã de domingo chegou cedo demais, e Lenore estava pensativa e um pouco distante.
"Arrependimentos?", ele perguntou.
"Não, só que nosso fim de semana está chegando ao fim."
"Haverá outros fins de semana — e dias de semana também —, a menos que esta seja sua maneira de me largar."
"Não! Não!", ela disse, aproximando-se para um beijo. "É que não posso continuar trabalhando como guia de turismo ganhando salário mínimo. Preciso de um emprego de verdade para me sustentar até ter sucesso como pintora. Eu costumava pensar que o sucesso viria rápido, mas não veio."
"Bom, você é muito talentosa, e tenho certeza de que encontrará algo. Gostaria de poder ajudar, mas sou apenas um estagiário de verão. Vou ser dispensado no final do mês."
Ela riu e disse: "É justamente isso. Eu encontrei algo. Começo um programa de formação de professores em Nova York, no Brooklyn College, na próxima semana. Vai me dar um diploma em educação e me qualificar para ensinar arte nas escolas públicas. Planejei nosso fim de semana pensando que poderia ser o último por muito tempo."
Agora era a vez de Parker. Ele riu e disse: "Que engraçado! Volto para a NYU na semana seguinte à sua ida para o Brooklyn."
Eles foram morar juntos naquele outono e se casaram no ano seguinte, assim que ele se formou na faculdade de direito. Ele foi contratado como associado júnior no escritório de arbitragem. Não era seu emprego ideal, mas um que aceitou para sustentá-los. Lenore teve dificuldade em encontrar trabalho como professora. Foi professora substituta em meio período até o nascimento do primeiro filho, Daniel. Passou o ano seguinte cuidando de Daniel e pintando.
Como o funcionário mais novo no escritório, Parker viajava muito. Ele voltou de uma viagem a Buffalo para encontrar sua esposa esperando com uma camisola nova e transparente, segurando uma garrafa de champanhe.
"Qual é a ocasião?", ele perguntou.
"Eu ganhei", ela disse.
"Ganhou?"
"O prêmio Nevis Arts de pintura a óleo."
"Oh? Parabéns!"
O prêmio era apenas quinhentos dólares, mas, mais importante, vinha com uma exposição em uma galeria para os artistas vencedores. O The New York Times fez uma crítica da mostra e destacou o trabalho da artista emergente Len Campbell. Seguiu-se uma série de mostras em galerias, com uma boa crítica após a outra. Len tinha reconhecimento do nome, mas isso não se traduzia em muito dinheiro.
Daniel completara cinco anos e estava prestes a começar a escola, levantando a questão de educação pública ou privada — e, até então, ele tinha um irmãozinho, Derick. Enquanto os pais tentavam decidir se e como poderiam pagar a educação privada, a Universidade Estadual de Nova York ofereceu um cargo de professora assistente a Len Campbell em Albany. Parker era então sócio júnior, mas não hesitou em fazer as malas e se mudar com a esposa. Era o melhor para sua família, embora não avançasse sua carreira.
"Vou encontrar algum trabalho", ele disse a Lenore, e encontrou, como árbitro autônomo em pequenas disputas de construção. Os Jones compraram uma casa geminada dilapidada em uma das antigas cidades industriais no lado leste do Hudson e se instalaram. Len transformou o andar superior da casa em seu estúdio. Eles tinham rendas respeitáveis para o interior do estado de Nova York. Mesmo assim, a artista Len Campbell sonhava em um dia fazer uma exposição no Instituto de Arte de Chicago.
O sonho de Parker era ter uma vida tranquila e feliz. Quando seu segundo filho foi para a faculdade, ele pensou que havia atingido esse objetivo. Mas o destino não foi gentil. Lenore não estava se sentindo bem. Depois de muita discussão, ela seguiu o conselho dele de usar os benefícios de saúde do estado e fazer um check-up. Isso deu início ao longo ciclo de exames que terminou em uma conversa tranquila no consultório do oncologista.
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Teddy se acostumou à sua nova existência. Havia um parque chamado commons bem em frente à porta. Muitos cachorros brincavam lá, e as pessoas eram amigáveis, mas não era a mesma coisa. Ele sentia falta de Ann, e, à medida que esfriava em novembro, os outros cães e pessoas se tornavam menos frequentes. Fazia muito mais frio do que na cidade, e eles tinham poucas visitas, apenas o jovem e sua esposa. O jovem não era ruim. Era Dan, filho de Parker. Era alto, como Parker, e parecia um pouco com ele. Mas a mulher, esposa de Dan, não gostava de cachorros. Teddy conseguia perceber. A mulher irritava Parker. Ela criticava a casa dele por ser velha, e o bairro deles por ser pobre.
"Hora de ir", Parker disse, pegando a guia com uma mão e a mala com a outra.
"A família estará esperando. E agora que minha Lenore se foi, estamos à mercê de nossos parentes no Dia de Ação de Graças."
No entanto, quando estavam prestes a sair, o telefone tocou. Parker atendeu.
"Alô", ele disse. "Ah, sim. Desculpe, eu pretendia ligar de volta. O fato é que preciso de mais tempo.
Parker fez uma pausa, ouvindo a pessoa ao telefone. Teddy se deitou no chão. Essas ligações só faziam Parker parecer mais triste.
"Sim, sei que é uma grande honra, e certamente Lenore merece, mas ainda não posso me desfazer das pinturas dela. Preciso de mais tempo."
Mais uma vez, Parker fez uma pausa ouvindo, e então disse: "Prometo que tomarei uma decisão em breve."
Parker desligou o telefone e, virando-se para Teddy, disse: "Vamos, garoto, hora de ir."
Com isso e um cair de ombros do homem, eles saíram da casa e atravessaram o pequeno jardim dos fundos, agora escuro e sem flores, até o carro preto. Teddy foi para a parte de trás para outra longa e triste viagem. No final, Teddy se viu em um lugar de gramados perfeitos e casas notavelmente similares. Pareciam estar no campo, mas havia menos árvores do que na cidade, e nenhuma das ruas seguia reta; pareciam curvar-se interminavelmente sobre si mesmas.
Dan cumprimentou o pai e Teddy na porta. Ele deu um abraço no homem mais velho. Olhando por entre os homens, Teddy pôde ver uma expressão de desagrado passar pelo rosto da mulher, sendo substituída por um sorriso artificial. Eles foram conduzidos a um quarto nos fundos da casa. Parecia quase não haver escadas ali, pois tudo estava no mesmo nível. No entanto, havia uma gata chamada Samantha. Uma gata amarela malhada grande que sibilou para Teddy e então saiu andando com arrogância.
Parker os instalou no quarto dos fundos e então levou Teddy para um longo passeio. Quando não estava fora passeando, Teddy ficava confinado ao quarto dos fundos, mas, ao que parecia, Parker também; ou, pelo menos, ele preferia ficar lá com Teddy em vez de passar tempo com seus parentes. Parker, Teddy entendia, compartilhava a mesma tristeza profunda. Ambos haviam perdido a única pessoa que tornava a vida suportável.
No dia seguinte, houve muita atividade, e os convidados começaram a chegar no final da manhã. Teddy foi trazido para conhecê-los. O cachorro marrom e bonito, com um temperamento amigável e afetuoso, tornou-se instantaneamente popular entre os convidados.
No início da tarde, Parker levou Teddy para passear pelas ruas sinuosas e estreitas do condomínio. Quando voltaram, Dan, filho de Parker, estava conversando com um casal no hall de entrada enquanto recolhia os casacos deles.
"Ah, pai", Dan disse, "deixe-me apresentar o professor Stevenson e sua esposa."
"Olá, Jean", Parker disse à mulher ruiva.
Ela se virou para o marido e disse: "Frank, este é Parker Jones. A esposa dele estava no hospital na mesma época que você."
"Prazer em conhecê-lo finalmente", Parker disse, estendendo a mão.
Frank Stevenson era um homem muito alto e magro, com a palidez acinzentada de quem está se recuperando de uma longa doença. Também era evidente que ele era quase duas décadas mais velho que a esposa, uma mulher no final dos trinta. Stevenson pegou a mão de Parker com relutância e um ressentimento que Teddy conseguia sentir. Talvez fosse a boa saúde de Parker, ou o sorriso caloroso que sua esposa deu ao homem que era uns bons doze anos mais jovem que seu marido.
"Ah, este é o Teddy?", Jean Stevenson exclamou.
Jean se agachou para acariciar Teddy, e quando ele respondeu com um abraço, ela riu de prazer. "Ah, ouvi tanto sobre você pela Ann. Ela era uma mulher magnífica, e sei que você deve sentir falta dela. Mas agora você tem um dono maravilhoso."
Levantando-se, ela disse: "Estou tão feliz que você ficou com o Teddy. Você realizou o último desejo de Ann. Sei que ele tem um bom lar com você."
Jean fez uma pausa e disse: "Sinto muito pela Lenore."
"Talvez tenha sido melhor assim. Nova York era nossa última esperança. Lenore lutou até o fim, mas chega um ponto em que a luta é pior que a doença. Sei que ela e Ann estão juntas em algum lugar, cuidando de Teddy e de mim."
Dan, filho de Parker, interveio então. Apertando o braço do pai, ele disse: "Isso aí, pai. Continue positivo. E, aliás, você e o professor Stevenson têm muito o que conversar. Ele foi meu professor de contratos na Albany Law. Contei a ele como o senhor era árbitro na indústria da construção."
Frank Stevenson fez um aceno de cabeça para Parker enquanto se movia em direção à esposa, passando o braço possessivamente em volta da cintura dela. O movimento de Frank o aproximou de Teddy, que captou o cheiro sutil e pulou para longe do estranho, se escondendo atrás de Parker.
"Qual é o problema, garoto?", Parker perguntou, acariciando a cabeça de Teddy.
"Todas essas caras novas podem estar sobrecarregando ele", Jean ofereceu.
"É, estamos ficando com muita gente para um cachorro só", Dan observou, enquanto acenava para os Stevenson em direção à sala de estar. Enquanto se afastava, Jean disse a Parker: "Precisamos nos falar mais tarde."
Jean lançou um sorriso triste e contido a Parker por sobre o ombro, enquanto o braço do marido a impelia para a frente. Quanto a Parker, foi inundado por uma torrente de recordações.
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O ensaio clínico oncológico experimental era em Nova York, no Sloan Kettering. Era uma longa viagem, mas era a melhor esperança de remissão do câncer que estava matando Lenore. Eles fizeram check-in às cinco da manhã na data da avaliação inicial. Levaram Lenore embora em uma cadeira de rodas e deram a Parker instruções superficiais sobre onde ele devia ir esperar.
Parker perambulou sem rumo, procurando a sala de espera, perguntando a vários voluntários onde deveria ficar. Eles tentavam ser prestativos, mas pareciam não saber ao certo. Por fim, uma enfermeira que saía do plantão o apontou na direção certa, e ele encontrou a sala de espera. Era um lugar tranquilo, com uma única TV sintonizada em uma programação adequadamente monótona. Felizmente, ele se acomodou com um livro que havia trazido.
A área de espera estava relativamente vazia nas primeiras horas da manhã. Eram apenas Parker, uma senhora idosa com um jovem que podia ser seu neto, e uma atraente mulher ruiva que folheava as revistas velhas da sala. O tempo passou. A sala encheu e depois esvaziou outra vez. Só a ruiva continuava constante.
Já passava do meio-dia quando seu celular tocou. Uma enfermeira ligou avisando que estavam internando sua esposa e que ele poderia visitá-la após as cinco da tarde.
— Tem um bom lugar para almoçar a poucas quadras daqui — disse a ruiva, agora de pé ao seu lado.
Seu nome era Jean Stevenson e seu marido, Frank, estava no mesmo ensaio clínico de câncer que a esposa de Parker.
— Ele luta contra o câncer há quase cinco anos — Jean comentou, diante de uma pequena salada verde na lanchonete a duas quadras do hospital.
— Para nós faz dois anos — Parker disse, encarando o wrap de peru, ainda sem se convencer a dar uma mordida. — Mas parece mais, quase uma eternidade. Ainda assim, há tão pouco tempo — refletiu Parker.
Jean tinha trinta e sete anos, casada havia doze anos com seu antigo professor de direito, um homem quinze anos mais velho. Não tinha filhos e era a única sobrevivente de sua família. Era o segundo surto de câncer de Frank — ou o terceiro, dependendo de como se contasse. Ela oferecia os detalhes da própria vida; era uma pessoa desesperada por alguém com quem conversar, alguém que pudesse compreender.
Era o grande dom de Parker como árbitro: as pessoas instintivamente sentiam que podiam confiar nele. Parker sempre mostrava sua empatia natural. Contudo, nesse caso, ele e Jean Stevenson compartilhavam uma experiência comum e uma necessidade desesperada semelhante.
— Você não pode dizer o que sente e não ousa deixar o medo transparecer — Parker admitiu.
— É preciso manter-se sempre otimista — Jean respondeu.
Sorriram um para o outro, duas pessoas presas em seus papéis de cuidadores. Esse foi o primeiro encontro deles. Dois indivíduos ali para apoiar seus cônjuges, unindo-se para mútuo apoio. Estavam sós porque, ao cuidar de outro, tinham se separado do fluxo do mundo vivo ao seu redor. Era natural que se aproximassem para compartilhar os fardos.
O hospital mantinha listas de restaurantes e hotéis que ofereciam tarifas especiais às famílias dos pacientes. Jean e Parker logo começaram a compartilhar jantares tardios após o fim do horário de visita. Frequentemente se hospedavam no mesmo hotel.
Foi no final de dezembro, pouco antes do Natal. A cidade de Nova York estava iluminada para a festa. Havia alegria por toda parte, mas eram tempos sombrios para Jean e Parker. Lenore estava dividindo o quarto com Ann Cummings, uma editora de livros cuja família consistia em um cachorro marrom chamado Teddy. Parker foi ao hospital naquela manhã e descobriu que Ann e Lenore haviam sido transferidas para quartos individuais. Já estava no hospital havia tempo suficiente para saber que aquilo não era um bom sinal. Ambas as mulheres estavam perdendo a luta contra a doença.
Jean estava em estado ainda pior que Parker naquela noite, no jantar.
— A gente brigou — ela disse. — As notícias hoje não foram boas, e acho que Frank não tinha outro saco de pancadas por perto para atacar.
— É difícil — Parker consolou. — A dor é ruim, mas o medo é pior. Lenore agora está num quarto individual.
— Pode não significar o que você imagina — Jean falou, estendendo as mãos para cobrir as dele.
— Não sou o único a pensar assim. Mudaram a companheira de suíte dela, Ann, também, e ela me pediu para levar o cachorro quando ela se for. Eles transferem você para um quarto individual quando acham que o fim está próximo. Ann sabe, e Lenore também sabe.
Jean desviou o olhar, duramente atingida pelo pesar do homem do outro lado da mesa.
Percebendo que o garçom rondava visivelmente, Jean disse: — Ah, acho melhor a gente ir.
Estava perto das onze horas. A equipe do hotel aguardava para fechar o restaurante. Caminharam juntos até o quarto de Jean. Normalmente, ele a deixava na porta e ia para o seu, mas naquela noite ela o convidou a entrar.
Para Jean Stevenson, fazia cinco anos com pouco sexo. Em épocas melhores, era Frank que a pressionava por sexo. Como a maioria das mulheres, mesmo depois de casada, ela tivera dificuldade de entrar em contato com a própria sexualidade. Mas, à medida que a intimidade sexual foi aos poucos se esmaecendo e depois desaparecendo com o avanço da doença, Jean experimentara uma sensação profunda de perda. Ansiava pela intimidade que vinha com a relação sexual.
Parker estava celibatário havia quase dois anos. Ocasionalmente satisfazia as próprias necessidades, mas na maioria das vezes chorava — não visivelmente, mas na alma. Lenore era geralmente tímida na cama, mas sempre perdia a timidez na emoção do prazer mútuo. Lenore era uma artista, e Parker, um homem prático e apegado à terra. Contudo, na cama com Lenore, aprendera a ser um artista brincando com todas as cores dos desejos sexuais dela. Desenvolvera uma paleta com a qual pintar o retrato do amor conjugal deles.
No quarto de hotel de Jean, os dois celibatários involuntários tatearam em direção um ao outro — duas pessoas desesperadas precisando de uma conexão física.
— Aceita uma bebida? — Jean perguntou.
— Não me importaria. Foi um dia difícil.
O beijo veio depois da bebida e teve um efeito muito mais estimulante.
— Não devíamos fazer isso — Jean disse quando os lábios se separaram.
— Você tem razão — Parker respondeu, enquanto ela o beijava de novo.
A simples ideia de deitar com outro homem que não o marido era ao mesmo tempo impensável e imensamente excitante para Jean. Como ocorre com a maioria das mulheres, o excitante no sexo dentro de um casamento de vários anos era o pensamento de sexo com um homem que não o marido. Não é que as esposas sejam inerentemente infiéis, mas nenhum sonho romântico feminino envolve fidelidade.
Jean se rendeu ao momento de fuga da realidade dolorosa de sua vida. Agarrou-se ao homem que também se afogava e, juntos, rumaram para um bote salva-vidas de esquecimento em seu mar de desespero.
Pela manhã, Jean acordou e viu Parker já desperto, sentado na cama. Ele estava muito quieto, olhando pela janela. A vista era para uma rua monótona da cidade e para um prédio de escritórios estéril.
— Sentindo-se culpado? — Jean perguntou.
— Claro — ele disse. — Você?
— O mesmo — ela disse, sentando-se e se movendo para encostar o corpo nu ao lado do dele.
— Mas... não estou arrependido — Parker falou e virou-se para beijá-la.
— Nem eu — ela disse, enquanto seus lábios se encontravam.
E assim começou. Era para ter sido uma coisa única. Jean foi a uma farmácia comprar uma pílula do dia seguinte. Só uma precaução, mas uma que considerara uma semana antes de seu deslize. Logo ela passou a ter um método contraceptivo mais consistente, outra precaução apenas, que se provou necessária.
À medida que o rigoroso inverno nova-iorquino dava lugar a uma primavera úmida, abandonaram todo fingimento e trocaram dois quartos por apenas um. Parker nunca livrou-se da culpa, mas não pensou em interromper o caso. Dividira sua existência em duas esferas. Fazendo isso, conseguia permanecer são enquanto via o câncer levar tudo que tinha significado em sua vida.
Ele supunha que fosse parecido para Jean, mas nunca falavam sobre o assunto. Agora, tornara-se um tópico proibido no mundo em bolha que ocupavam quando estavam juntos. A cada manhã, ele deixava Jean para assumir seu lugar à cabeceira de Lenore. A cada noite, voltava um homem devastado pela dor emocional para a mulher que sofria igualmente. Envolviam-se um no outro, enxugando as lágrimas, e fingiam que aquele mundo era o verdadeiro.
Em junho, tudo mudou. Era apenas uma semana antes do verão, mas estava quente e úmido. Era tão completamente desconfortável quanto Nova York pode ficar. Ele fez a caminhada até o hospital saindo de seu hotel no calor abafado da manhã. Ao chegar, foi capaz de perceber. As enfermeiras não disseram nada, mas seus rostos indicavam que o fim estava próximo.
Lenore passou aquele dia mais lúcida do que estivera em várias semanas. Conversaram sobre pequenas coisas, lembranças dos anos que passaram juntos. Como Dan era aos dois anos, e como Derick era diferente quando criança. Ela dormiu um pouco e acordou à tarde.
— Sinto muito, Ed — ela disse do nada.
Ele estava sentado ao lado da cama, meio adormecido, assistindo à ladainha de notícias deprimentes que emanavam da TV a cabo no quarto.
Levou um instante para ele responder: — Sentir muito? Pelo quê, meu amor?
— Por isto! Por tudo. Por fazer você passar por isso.
Ele segurou a mão dela: — Ei! Não é culpa sua. Coisas acontecem. A gente vai superar isso juntos. Você vai ver.
Ele segurou a mão dela e deu o que esperava ser um sorriso encorajador.
— Não. Não aguento mais. Está chegando ao fim. Sinto muito — ela disse, enquanto as lágrimas corriam pelo rosto.
Ele também estava chorando. Ficaram ali sentados. Ela relembrou mais um pouco da vida que tiveram juntos. Fê-lo prometer que seguiria em frente.
— Você vai encontrar outra pessoa — ela disse. — Não a force a tomar a iniciativa como eu tive de fazer.
Ele permaneceu ao lado da cama dela pelo restante do dia. Às cinco horas, ela fechou os olhos. Entrou em coma. Pouco depois da meia-noite, os monitores soaram o alarme, não um grito. Era uma súplica queixosa e silenciosa. A enfermeira entrou. A ordem de não ressuscitar fora assinada no dia anterior. Lenore, esposa, mãe, amante, se foi.
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Quando Parker retornou ao hotel de manhã cedo, esperava encontrar Jean, mas as coisas dela haviam sumido. Não havia bilhete. Ela não deixou mensagem de despedida. Mais tarde, ele soube que o marido dela recebera alta. Fora uma remissão completa, uma das histórias de sucesso do novo tratamento.
Ele visitou Ann no hospital para se despedir. Encontrou-a em mau estado.
— Sinto muito por Lenore — ela começou. — Não era para eu saber, mas a gente ouve os sussurros.
— Ela simplesmente meio que desistiu — Parker disse.
— NÃO! — Ann exclamou, agarrando a mão dele com toda a força que lhe restava. — Ela aceitou o inevitável. Foi só isso que ela fez. Agora é a minha vez.
— Não diga isso.
— Por quê? Porque não é verdade? Não. Tenho só um arrependimento. Pobre Teddy está sozinho num apartamento escuro. Liz, minha vizinha, tem levado ele para passear e dado comida. Ela não pode ficar com ele por causa do gato. Ele se dá bem com felinos, mas o gato não gosta dele. Pobre Teddy está esperando minha volta, mas acho que ele sabe que é uma esperança perdida.
— Acho que ele sabia que eu estava doente antes dos médicos. Dizem que cães podem farejar o câncer. Spaniels são os melhores. Conseguem distinguir entre aromas muito sutis — meu pobre menino. Ele precisa de alguém, e acho que você precisa dele. Por favor, leve-o.
Parker levou Teddy. Fizeram a longa viagem para o interior do estado. O cão e o homem, ambos de luto. Chegaram à casa vazia. Teddy percorreu os andares. Todos, menos o quarto. O antigo estúdio de Lenore ficava no último andar da casa. Aquele andar era território proibido. Parker não ia lá — não encarava a face última de seu pesar. Como Teddy, ele vivia com uma esperança que era impossível.
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O jantar de Ação de Graças na casa do jovem casal Parker foi um acontecimento estranho. Havia talvez vinte pessoas, alguns familiares, mas também conhecidos sociais e profissionais do casal recém-casado. Foi providenciado por bufê, e ninguém podia reclamar da qualidade ou da quantidade da comida. Ainda assim, o Parker mais velho comeu muito pouco e dividiu a maior parte de sua refeição com Teddy, que ficara confinado no quarto dos fundos durante o banquete.
Após o jantar, Parker escapou da socialização levando Teddy para um passeio. Mal haviam andado um pouco quando Jean os alcançou. Pararam num banco solitário recuado da estrada, ao lado do que parecia ser um ponto de ônibus — um lugar deserto num bairro de casas unifamiliares com garagens para dois carros.
— Podemos conversar? — ela perguntou.
— Claro — ele disse, sentando-se. Teddy se instalou aos seus pés.
— Sinto muito por não ter me despedido — ela começou.
— Não precisa — ele disse. — Nós não tínhamos um relacionamento de verdade. Só dividimos uma cama por conveniência.
Ela deu um pequeno soluço diante das palavras dele e disse: — Eu mereço isso, suponho, mas ambos sabemos que tínhamos algo muito mais.
Ela fez uma pausa. Ambos ficaram em silêncio, e então ela disse as palavras: — Eu amo você. Sei que isso não devia ter acontecido. Certamente, não era minha intenção. Mas aconteceu, e então Frank melhorou. Não soube como contar a você. Não consegui encontrar as palavras para me despedir.
Parker virou-se para ela. Ela estava chorando. — Por favor, não — ele disse. — Eu entendo que ele é seu marido e precisa de você. Deixamos as coisas irem longe demais. Não é culpa de ninguém.
— Me perdoa? — ela implorou.
— Não há nada a perdoar.
— Mas você está sozinho.
Como resposta, ele sacudiu a guia de Teddy e o cão ergueu os olhos para eles. — Você está esquecendo do Teddy — ele disse.
Jean se inclinou e acariciou a cabeça de Teddy. Ele lambeu a mão dela, e ela sorriu em troca. — Ele é um bom companheiro, mas ainda assim.
— Nós dois temos um vínculo que está crescendo. Ele tem uma profundidade de dor que ainda não consigo entender, e ele está tentando me entender. É um trabalho em andamento. Somos os sobreviventes. Publicaram os obituários de Lenore e de Ann no mesmo dia. Foi o que disseram. “Sobreviveu-lhe”.
— Relacionaram todas as suas realizações, mas ambos os obituários terminavam do mesmo jeito, “sobreviveu-lhe”. Agora cabe a nós. Precisamos encontrar nosso caminho. Estamos trabalhando nisso, não estamos, garoto?
O olhar de Teddy era triste mesmo para um spaniel, e Jean se perguntou até que ponto o cão podia entender. Será que ele realmente sentia a dor profunda do homem sentado ao seu lado?
— Preciso voltar — ela disse.
— Eu sei. A gente vai indo em breve.
Jean enxugou as lágrimas e retocou a maquiagem no caminho de volta. Fizera a única escolha que podia, mas se arrependia.
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Cedo, na manhã seguinte, antes que a nora se levantasse, Parker aprontou-se para ir embora. Antes que pudesse escapar, seu filho Dan o deteve para um abraço e um pedido.
— Recebi notícias do Instituto de Arte de Chicago de novo. Eles ainda querem fazer aquela exposição das obras da mamãe. Eles têm a maioria dos quadros dela que estão em mãos públicas, e muitos de coleções particulares. Mas eles querem os trabalhos recentes, e você ainda os tem — Dan disse.
— Eu sei — Parker disse. — Recebo notícias deles o tempo todo.
— Qual é o problema, pai?
— É que... — ele começou. — É difícil explicar.
— Você não conseguiu deixá-la partir — Dan pressionou.
— De certa forma, acho que sim. Há uma parte de mim que pensa como o Ted aqui — Parker disse, acariciando o cão. — Ele ainda espera que a dona dele venha buscá-lo e levá-lo para casa. Ele deve saber que não vai acontecer, mas não desistiu de ter esperança.
Ao se separarem, Dan abraçou o pai com força e disse: — Precisamos de você, pai. Por favor, volte logo.
Parker prometeu voltar quando pudesse. Dirigindo para casa, Parker colocou Teddy no banco do passageiro da frente.
— Agora comporte-se, Ted. Fique no chão e faça o favor.
Teddy se acomodou, e no caminho de volta, sempre que podia, Parker se inclinava e afagava a cabeça de Teddy. O cão parecia bem mais feliz com aquele arranjo. Parker percebeu que finalmente estavam se conhecendo.
Quando chegaram em casa, fizeram um almoço tardio do favorito de Teddy, frango com arroz. Depois do almoço, deram uma longa caminhada. Finalmente, subiram juntos as escadas até o alto do prédio pela primeira vez. Ali, Teddy teve seu primeiro vislumbre do estúdio de Lenore. Cheirava a tinta e terebintina, com o odor bolorento de um lugar não usado havia muito. Ao longo de duas paredes, telas estavam empilhadas. Uma parede para trabalhos novos e suprimentos, e a segunda abarrotada de obras terminadas.
Parker acomodou-se numa cadeira posta no meio do cômodo. Teddy sentou-se bem rente a seus pés, a cabeça apoiada no colo de Parker. Um cavalete com uma pintura inacabada, o último trabalho de Len Campbell, estava ali perto, à espera da mulher que não voltaria. Era um retrato do marido. A imagem meio terminada de Parker só vagamente se parecia com ele. Era o retrato de um homem muito mais jovem, um homem feliz, um homem profundamente apaixonado. Era o retrato do sujeito quieto que seguia a bela guia loira no museu de artes. Era o retrato do novo pai e marido amoroso que se contentava com o trabalho que conseguia pelo bem deles. Não era o retrato do sobrevivente. Era o retrato inacabado da vida inacabada.
A luz entrava por uma claraboia. Parker puxou um recorte de jornal amarrotado do bolso.
— Ocorre-me que nunca li para você o obituário de Ann.
Teddy não se mexeu enquanto Parker lia a nota de falecimento de Ann Cummings, proeminente editora de livros. Ao chegar ao fim, ele disse:
— E aqui está a parte sobre você. Deixou saudades em seu amado e fiel cão, Theodore Bear Cummings, o Teddy.
Parker fez uma pausa, e uma lágrima escorreu por sua face. Então, ele se levantou.
— Está na hora de esvaziarmos este quarto, Teddy. Levar essas pinturas ao Instituto de Artes. Somos só nós dois, mas está na hora de seguirmos em frente.
Teddy se espreguiçou, coçou a orelha e seguiu Parker, mas sabia que o homem estava errado. Eles não ficariam sozinhos por muito mais tempo. A mulher chamada Jean estava por vir. Ele farejara o cheiro no marido dela. Era tênue, mas crescente. O focinho do cão não podia ser enganado. O câncer de Frank Stevenson voltara. Em breve, seriam três sobreviventes, unidos por uma dor comum e destinados a buscar a vida depois da tragédia.