Ressuscitação
Flutuei na superfície parada do vasto oceano que dormia silenciosamente nas cavernas atemporais, infinitas e esquecidas de Xar.
A escuridão me cercava; a escuridão fluía através de mim.
Meus pensamentos eram mais lentos que o gelo, mais lentos que o nascimento e a morte das galáxias, mais lentos que o tempo...
Sempre foi assim?
Não conseguia responder à minha pergunta, mas parecia uma forma estranha de ser; ser este ser — esta criatura estranha, flutuando sem fôlego e imóvel neste mar infinito e sem sol.
Éons vieram e se foram, mas eu permaneci, imutável como as águas imutáveis ao meu redor.
Olhei para cima, lembrando do sonho vagamente recordado de lua e... estrelas.
Um sussurro suave e breve no limite da audição.
Lembrei de nuvens, árvores... uma festa...
O silêncio me reivindicou novamente; o silêncio se estendeu ininterrupto ao meu redor, reconfortante e infinito.
Eu flutuava, um espaço silencioso no espaço silencioso maior que me abraçava.
Mas então — uma mudança.
Uma gota d'água, caindo do teto invisível acima, a primeira que eu conseguia lembrar...
Um suave plinc — suave como seda na escuridão.
E as ondulações infinitesimais se espalharam sobre mim e ao meu redor, mudando o mundo.
A princípio, a mudança foi leve — uma sensação de presença em outro lugar, um saber de que esta realidade presente era de alguma forma irreal.
Então — cores abrasadoras e irregulares pareciam insinuar alguma existência alternativa, escondida logo além do meu campo de visão.
Tomei consciência de uma sirene distante e lamuriante, repetitiva e invasiva.
Fui atraída por ela; compelida a buscá-la. Não sabia por quê.
Ondas lentas de água escura se formaram ao meu redor em um vendaval que crescia rapidamente, inquietando meu corpo, deslocando os membros que eu não lembrava de jamais ter precisado mover antes.
Tomei meu primeiro fôlego nesta eternidade de estase.
E então tomei outro.
O frio se infiltrou em mim. Meu pulso — outra coisa que eu havia esquecido — começou a bater forte nos meus ouvidos. Senti a pressão áspera do tecido me envolvendo, o peso desacostumado dos ossos, dos músculos, da pele, da carne e do sangue...
A existência cambaleou, a luz me perfurou...
E comecei, suavemente, a chorar.
"Aí está você," disse a voz de uma garota. "Aí está você, conseguimos trazê-la de volta. Está tudo bem, está tudo bem, conseguimos trazê-la de volta."
O mundo balançava e rangia ao meu redor; coisas estranhas apitavam e gemiam sob o lamento persistente e fantasmagórico da sirene.
Uma mão agarrou a minha; a pele tão suave e quente quanto os campos do Paraíso, os dedos fortes onde se curvavam ao redor das minhas garras débeis.
"Abby?" disse a voz. "Abby, meu nome é Nell. Você está numa ambulância, estamos levando você para o pronto-socorro, ok, querida? Não se estresse, meu amigo Dave está dirigindo o mais rápido que pode, estamos a poucos minutos... merda. Abby? Abby, meu bem, eu realmente preciso que você foque na minha voz... Dave, ela está desmaiando de novo, precisamos chegar lá agora, pisa fundo nessa porra!"
"Três minutos, amiga!"
Mas ela havia desaparecido, e o mundo havia desaparecido com ela, e senti as ondas do vasto mar sem sol lambendo-me ao redor mais uma vez.
Desta vez, porém — desta vez lutei com tudo o que tinha.
Agarrei-me à ideia dela, ao brilho distante de seu toque. Agarrei-me à pressão vagamente sentida da cinta de contenção ao redor do meu peito, agarrei-me à sensação de dor pairante.
E nadei.
Nadei sem parar na noite sem fim, nunca respirando, nunca afrouxando, impulsionada por uma determinação que teria aterrorizado meu eu desperto... até que minhas mãos arranhando encontraram areia sob mim.
Ouvi portas se abrindo e batendo; senti o solavanco do movimento, e ouvi vagamente as palavras truncadas que imaginei estarem de alguma forma relacionadas a mim.
Ruído distante, luz brilhante — e a voz dela, suave como um sussurro através dos séculos agonizantes...
"Abby, Abby... fique comigo, anjo..."
Tudo desapareceu — mas agora eu estava calma. Sabia que havia conseguido; sabia que, de alguma forma, eu ficaria bem.
Dormi.
.:.Algo frio, duro e doloroso estava no meu braço. Meu peito doía, minhas costas doíam, tudo doía. Eu não conseguia acreditar no quanto tudo doía. Não conseguia falar a princípio, não conseguia me mexer muito. Minha língua parecia grande demais para minha boca; minhas pernas pertenciam a alguma outra garota completamente diferente. Algo desconfortável estava... em mim lá embaixo, algo mais frio e suave pressionava gentilmente contra minha coxa vagamente sentida. Tentei mover a mão, gemendo, para descobrir o que era...
Outra mão pegou a minha e a conteve gentilmente.
"Deixe isso aí, minha querida," disse uma voz. "É um cateter. Abigail, sou Tammy, sou enfermeira. Você está na UTI; estamos com você aqui há algumas horas já. Tem todo tipo de coisa conectada a você, então tome cuidado ao se mover, ok?"
"Ok..." sussurrei. "O que..."
"Você teve uma reação alérgica grave a algo que comeu. Desmaiou e bateu a cabeça, e está entrando e saindo nas últimas horas. Lembra de alguma coisa?"
"Não... realmente. Acho... estava na... festa de aniversário da Kim. Bolo..."
"Bem, você está aqui e nós estamos cuidando de tudo, então pode relaxar, ok? Só descanse um pouco, certo?"
"Ok..."
Consegui abrir um olho e tentei focar nela, mas minha visão estava mais embaçada que o normal. Desisti e fechei o olho novamente.
"Que horas... são?" sussurrei.
"São três da manhã. Eu só vim verificar seus sinais vitais e já terminei, então vou diminuir as luzes para você e tentar descansar mais um pouco, ok? O médico virá de manhã; não se preocupe, você está em boas mãos e vai ficar bem. Se precisar de mim, tem um controle ao lado da sua mão direita com um botão de chamada. Aqui," ela acrescentou, cutucando minha mão para que eu pudesse sentir onde apertar. "Aí está, viu?"
"...k."
Não havia nada que eu pudesse fazer; estava muito fraca para sequer pensar em querer me mover, e tudo doía a uma estranha distância.
Então me entreguei e desapareci de volta em meus sonhos.
Dormi.
.:."Ai, meu Deus, Abby," Kim sussurrou entre lágrimas. "Ai, meu Deus, nunca mais ouse nos dar um susto desses."
Grant me olhava de cima ao lado dela; ele apertava a mão dela firmemente na sua. Isso era bom, pensei comigo mesma. Já era hora de ele tomar coragem e criar vergonha...
"Dizem que acham que foi uma reação alérgica," Kim acrescentou. "Por que você não avisou!"
"Não sabia..." respondi. "Acho que nunca... comi o que quer que fosse..."
"Me sinto tão culpada, eu devia ter escolhido só baunilha!" ela lamentou. Tentou se inclinar para a frente para me abraçar, então percebeu que não podia, e ficou ali parada sem jeito por um momento antes de esfregar os olhos e fungar.
Então ela pegou minha mão direita desajeitadamente na sua e a segurou firme, brincando com meus dedos do jeito de décadas atrás.
Era gostoso, como sempre era quando ela segurava minha mão... mas eu havia sentido uma mão mais gostosa; só não conseguia lembrar onde ou quando agora.
"Desculpa por estragar... seu aniversário..." consegui dizer.
"É, sua egoísta de merda," ela fungou. "Nunca, jamais vou te perdoar por pelo menos uma semana desta vez."
"Desculpa..."
"Não, cala a boca," ela disse, pontuando as palavras com um aperto. "Você está viva, é só isso que importa para mim. Vou ter outro aniversário ano que vem, nunca vou ter a sorte de ter outra você."
Consegui dar um sorriso para ela. Éramos melhores amigas desde o segundo ano, e Kimberly muitas vezes era a única coisa boa na minha vida. Ela tinha vinte e cinco agora. Eu faria vinte e cinco em um mês. Nós nos unimos por causa disso, quando éramos crianças...
Merda. Meus pais!
"Kim?" arfei. "Kim, minha mãe e meu pai... devem estar morrendo de preocupação..."
"Estão, sua mula. Você acha honestamente que eu não liguei para eles? Liguei mais cedo... espera aí, aqui, deixa eu..."
Ela vasculhou a bolsa e puxou meu iPhone surrado. Me ajudou a desbloqueá-lo, e me ajudou a discar para minha mãe, e segurou o fone no meu ouvido enquanto minha mãe soluçava do outro lado e eu tentava não choramingar também.
E quando terminamos, ela desligou para mim e se inclinou para a frente para afastar minha franja dos olhos.
Uma enfermeira passou. "O horário de visita acabou," ela nos lembrou gentilmente. "Vocês podem voltar às cinco."
"Ok," Kim respondeu. Ela se virou para mim. "Estou com sua bolsa, óculos e tudo mais, ok? Trago tudo esta noite, ok?"
"E a gente te leva para casa quando te liberarem," Grant acrescentou. "Sem discussão, sim?"
"Sem discussão," sussurrei. "Obrigada... por tudo..."
"Fique boa e estamos quites," ele disse. "E se você fizer isso de novo, eu mesmo te mato, entendeu?"
Kim deu uma cotovelada nele; ele fingiu um grito, então pegou a mão dela na sua mais uma vez.
"Combinado," concordei, conseguindo dar um sorriso para eles.
Eles eram fofos juntos; fiquei feliz.
Kim se inclinou e beijou minha testa de novo.
"Te amo para sempre," ela disse. "Só descansa um pouco, sim?"
"Vou descansar. Também te amo."
"Dorme, ok? Até mais tarde."
Grant apertou minha mão; e eles me deixaram ali.
Dormi.
.:.Me senti muito melhor com a vida em geral quando me permitiram usar o banheiro — mesmo que uma das enfermeiras tivesse que ficar do lado de fora caso eu desabasse de novo. Kim me trouxe um carregador, e meus óculos, e consegui colocar em dia vários dias de séries no lento Wi-Fi do SUS enquanto as sombras se moviam pela parede e chão da enfermaria. Também descobri rapidamente que era segunda-feira — tinha perdido o domingo inteiro em toda a diversão — e mandei um e-mail de desculpas para minha chefe explicando onde eu estava e o que tinha acontecido.
Camas ao meu redor enchiam e esvaziavam; logo me senti como uma veterana, e passei a julgar cada chegada e adivinhar quanto tempo ficariam.
Mas o jogo cansou rápido, especialmente no final da noite de terça-feira.
Baixei um aplicativo de autoaprendizado de Go; fazia anos que queria aprender e parecia uma boa hora. Mas minha concentração não estava lá, estava achando as várias regras inescrutáveis, e estava prestes a desistir pela noite quando vislumbrei um lampejo verde na minha visão periférica.
Olhei para cima... e derrubei meu celular de surpresa.
"Bem, olá," disse a mulher mais deslumbrante que eu já tinha visto na minha vida.
Ela cruzou os braços e sorriu para mim.
Fiquei olhando para ela, para os olhos azuis celestiais, para o cabelo preto reto preso no rabo de cavalo severo, para as sardas leves que salpicavam suas bochechas perfeitas...
"Você. Eu lembro de você!" de alguma forma consegui dizer finalmente. "Ou pelo menos... acho que lembro..."
"E eu definitivamente lembro de você. Fico feliz em ver que você está quase pronta para sair daqui," ela disse, com os olhos brilhando. "Você me deu um baita susto, sabia. Não tenho muita certeza de como me sinto sobre isso."
"Foi... eu... eu estava..."
"Você tentou com muita força, sim," ela disse, o sorriso diminuindo ligeiramente. "Mas eu sou muito persistente. Como você está se sentindo?"
"Dolorida. Cansada. Avoada. Hã... desculpa, tenho certeza que você me disse, mas... quem é você?"
Ela riu, e sua risada enviou pequenas faíscas de deleite por todo meu interior.
"Sou Nell," ela disse. "E você é Abby. É um prazer conhecê-la direito."
"Hã... sim," eu disse, enquanto de repente lembrava que tudo o que vestia era o fino camisola hospitalar azul-bebê. Puxei meus cobertores para cobrir as pernas por modéstia, consciente de que estava corando ferozmente. "Hã... então... você trabalha aqui?"
"Estou lotada aqui, e passo muito tempo subindo e descendo nos elevadores daqui, então sim. Acho que tecnicamente trabalho aqui," ela disse. Sorriu. "Mas na maior parte do tempo estou lá fora, bancando a heroína. Enfim, só pensei em dar uma passada; estava na UTI e a Tams mencionou que você provavelmente teria alta amanhã, então imaginei que esta seria a última chance de vir ver como você está. Agora eu vi, e agora sei que você está bem, então isso é um bom fechamento positivo para mim. Cuide-se e certifique-se de descobrir o que foi que causou aquele episódio anafilático, sim?"
"Espera!" arfei quando ela se virou para ir embora.
"Mm?"
Estendi a mão, aberta, implorando mudamente.
Ela franziu a testa para mim... então suspirou. Aproximou-se, e pegou minha mão na sua, e abriu a boca como se fosse dizer algo; mas claramente não esperava que eu levasse as costas da mão dela ao meu rosto e a pressionasse na minha bochecha.
"Oh," ela disse, sua voz ficando estranhamente fraca por um momento.
Seus dedos eram tão suaves e quentes quanto eu lembrava. Pareciam perfeitos na minha mão.
De alguma forma consegui encontrar seu olhar — e engoli em seco, engolindo o súbito aperto na garganta.
"Obrigada por salvar minha vida. Obrigada por... estar lá para mim."
"Faço parte de uma grande equipe," ela respondeu, depois de um momento. "Mas fico feliz por poder estar lá para você."
Ela hesitou, então se inclinou para cutucar gentilmente meu nariz. Soltei sua mão relutantemente; ela me deu um sorriso estranho e torto.
"Fique bem, Abby," ela acrescentou.
"Fique segura... Nell," respondi.
Ela se virou e deu alguns passos, então parou e olhou para mim por cima do ombro.
"Até mais ver," ela disse.
"Espero que sim," eu disse, estupidamente.
Outro sorriso, quase agridoce... e ela foi em direção aos elevadores.
Estiquei o pescoço, observando-a até que desaparecesse atrás de alguns biombos. Então desabei, coração batendo forte, me sentindo perdida e estranhamente sozinha.
E quase não consegui pregar o olho naquela noite; estava ocupada demais pensando nela.
.:."Tem certeza que vai ficar bem? Fico feliz em ficar aqui, tiramos o dia de folga..."
Kim estava me tratando como mãe, e por mais que eu apreciasse, imaginei que Grant teria outras coisas que preferiria estar fazendo, a julgar pelo jeito que ele não parava de olhar para a bunda dela.
Então fiz minha típica função de amiga-ala e me sacrifiquei pelo time.
"Tenho certeza que vocês dois têm coisas melhores para fazer do que ser babá para mim," respondi.
Kim corou, Grant sorriu para mim — ele sabia que eu sabia, e eu sabia que ele apreciava.
"É, imaginei mesmo," acrescentei com um sorrisinho. "Cristo, vocês demoraram um bocado."
"Seja boazinha, Abby," Grant disse.
"Não. Sou ruiva, ser boazinha não está no meu repertório," eu disse.
"Mentirosa," Kim declarou. "Você é a mais boazinha de todas."
"E você é uma estraga-prazeres," eu disse.
Ela foi buscar meu edredom e me ajudou a me ajeitar no sofá.
"Tem certeza..."
"Ai, meu Deus! Só vaza logo, pode ser? Estou bem, Kim. Prometo que estou bem. Só estou um pouco dolorida. Vou manter o celular comigo e ligo se começar a me sentir estranha. Os anti-histamínicos que me deram devem ser tudo de que preciso, ok?"
Ela me olhou com desconfiança, então suspirou.
"Você realmente é a pessoa mais teimosa e irritante que conheço," ela declarou.
"É por isso que você me ama tanto."
"Às vezes questiono por quê."
"Hah. Vá aproveitar o sol. Ficarei bem. Vou caminhar até a biblioteca ou algo assim, e mando uma mensagem para avisar que estou bem. Certo?"
"Ok então, senhorita mal-humorada. Até mais tarde, sim?"
"Até mais," eu disse, acenando.
Minha porta fechou com um clique. Bocejei e me espreguicei. Meu lado ainda doía de onde aparentemente bati na mesa, e minha têmpora ainda estava sensível de onde bati no chão apesar da tentativa desesperada de James de me segurar. Eu tinha bons amigos, pensei comigo mesma. Eles tinham feito a coisa certa, e eu tive... sorte.
Tão completa e inexplicavelmente sortuda, dadas as alternativas.
Peguei uma das canetas de epinefrina que a farmácia do hospital havia me dado e olhei para a pequena janela transparente na lateral. Abri desajeitadamente o folheto, li, e então encontrei e assisti a um vídeo instrutivo sobre como evitar me espetar com ela.
Depois passei alguns minutos divertidos me sentindo vagamente enjoada e com pena de mim mesma antes de sacudir tudo e me arrastar até minha pequena cozinha.
Liguei minha chaleira e peguei um saquinho de chá do meu estoque escasso.
Me perguntei qual teria sido o gatilho para minha emergência. Não podia ser nozes, pensei — praticamente vivia de pasta de amendoim. Idem para laticínios, idem para ovos. Algo na cobertura, talvez? Tinha um gosto estranho... novo... Eu tinha uma consulta na clínica de alergia; já tinham me colocado no topo da lista porque tive uma reação tão grave. Então suponho que era alguma coisa; pelo menos teria uma resposta mais cedo ou mais tarde.
Meu chá ficou pronto.
Afundei meu traseiro em um dos meus dois banquinhos baratos e fiquei olhando para o líquido escurecendo enquanto minha mente divagava para o espaço estranho e vagamente lembrado onde estive quando estava... bem, onde quer que estivesse. Naquele oceano profundo e escuro, tão distante da luz...
Estremeci.
E então meus pensamentos voaram adiante para Nell. Me mexi no banco, e apreciei a pequena pontada dolorida no meu coração.
Meu Deus, que mulher linda. Completamente diferente do meu tipo habitual, mas tão meu tipo. Mais baixa que eu, em forma em vez de esbelta, pelo que suas roupas de trabalho tinham sugerido...
Observei os suaves redemoinhos de vapor que subiam da minha xícara.
Pensei no cabelo dela. Nas mãos. Na voz. E, ah, meu Deus, naquele sorriso.
Eu me senti tão... segura. Foi uma sensação tão estranha. Eu levava a vida quase sempre antecipando a próxima catástrofe; estava sempre me precavendo, sempre planejando os piores resultados. Isso... me atrofiou. Eu sabia que sim, sabia que irritava a Kim e sabia que não era saudável. As pessoas sentiam a nuvem de melancolia; o pessimismo intencional que me protegia de altos e baixos...
Mas com ela... com a Nell, só por um breve momento...
Eu me senti calma, e segura, e... livre.
Suspirei.
Me perguntei onde ela estava.
Provavelmente recolhendo outra pessoa do chão, pensei, fazendo careta. Eu sabia o suficiente para saber que você não virava paramédica se quisesse uma vida tranquila. Não no centro de Londres.
Tomei um gole de chá.
Os olhos dela tinham um azul de porcelana tão perfeito...
Não, pare com isso.
Eu sabia que estava ficando inquieta. Minhas dores e incômodos eram só isso, e o apelo do sol brilhante de maio e de uma manhã de dia de semana livre para aproveitar estava ficando difícil de resistir. Verifiquei o tempo no celular, e dei uma olhada no trabalho para ter certeza de que ninguém estava me procurando, então me decidi. Peguei minha mochila pequena e surrada e enfiei água, anti-histamínicos e minhas novas canetas de Epipen lá dentro. Após um momento de reflexão, acrescentei um suéter.
Vesti o moletom Canterbury herdado do meu pai e fechei a porta do meu pequeno e espartano apartamento atrás de mim.
Estava frio, mesmo com o sol brilhante. Puxei as mangas do moletom do papai para cobrir as mãos. O mundo estava movimentado; esquadrões de aposentados faziam suas caminhadas matinais, e as mães descoladas estavam por aí com seus carrinhos de bebê como armas. Eu sabia que os jardins do Arsenal estariam cheios, mas suspeitava que ainda conseguiria encontrar um canto abrigado em algum lugar do lado norte.
Passei pelos portões e entrei no pedaço de área verde cuidadosamente mantido que havia sido enfiado nessa parte do cinza onipresente de Londres.
Serpenteie pelos caminhos sinuosos, olhando para os brotos frescos que começavam a aparecer em todas as árvores acima de mim.
A vida fervilhava por toda parte.
Pensei nas palavras de Nell, na sua insinuação de que eu quase... não tinha sobrevivido. Esfreguei meus braços, arrepiada pela ideia de tamanha finalidade.
As enfermeiras, pensei de repente. Eu deveria levar chocolates ou algo para as enfermeiras da UTI para agradecer. Os noticiários estavam sempre cheios de histórias sobre o quanto elas trabalhavam demais, as longas horas, as condições terríveis... Sim. Eu faria isso. Chocolates, e um cartão bonito ou algo assim.
Talvez eu pudesse deixar algo para a Nell também... algo pequeno que ela pudesse aproveitar em um intervalo entre as missões de resgate.
Talvez ela sorrisse. Eu esperava que sim.
Seus olhos lindos voltaram à tona da minha memória; seus lábios lindos e a curva do seu sorriso.
Suspirei de novo.
Eu sabia que tinha um caso grave de adoração pela heroína. O melhor que podia fazer era tentar deixar passar. De qualquer forma, nunca mais a veria. E ela estava totalmente fora do meu alcance, e provavelmente era hétero, caso o mundo precisasse de mais uma maneira de esfregar sal na ferida...
Que pena.
Atravessei o velho portão de ferro no canto noroeste dos jardins, encontrei um ponto de ônibus na rota que eu precisava e comecei a voltar para a cidade. Peguei um ônibus, e depois um segundo, e desci em frente ao grande edifício de vidro e tijolos do Borough Hospital. Entrei rapidinho no Co-op local e encontrei um pote ridiculamente grande de chocolates Quality Street, papel de embrulho, uma caixinha de trufas de champanhe realmente chiques e dois cartões.
Preenchi o primeiro cartão com um genérico "Obrigada por cuidar de mim" e embrulhei o pote de chocolates. Coloquei cuidadosamente as trufas numa caixa de origami complexa e agonizei sobre a mensagem que queria deixar no cartão que a acompanharia.
Por fim, optei por um simples "Obrigada por tudo", e estava prestes a selar o cartão no envelope quando uma loucura repentina me levou a rabiscar uma segunda linha embaixo da primeira - um terrivelmente horrível "Você tem os olhos mais lindos."
Fiquei olhando para as palavras e pensei em comprar um cartão substituto para uma mensagem de agradecimento adequada e contida...
E de repente me vi me perguntando por que eu me importava?
Foi como se um peso tivesse caído. A vida era curta, como eu tinha acabado de descobrir... e eu perderia cada chance que não aproveitasse. Quem saberia desse momento de suprema e sublime inutilidade além de mim, afinal? Então acrescentei os dígitos do meu número de telefone e um único e pequeno x de despedida para dar sorte.
Com as bochechas ardendo ferozmente, selei o cartão. Respirei fundo para ganhar coragem e entrei furtivamente no hospital. Fiquei pacientemente na fila e expliquei minha missão para a senhora extremamente adorável e bastante solidária da recepção, que pediu a uma enfermeira que passava para subir comigo até o andar da UTI e, sorrindo, me acompanhar para dentro. A Tammy não estava de plantão, mas uma das outras enfermeiras que cuidou de mim estava; ela ficou absolutamente encantada ao ver os chocolates e prometeu que os compartilharia.
Ela também sorriu quando perguntei se poderia deixar algo para a Nell.
"Ela estará de plantão esta noite. Vou me certificar de que ela receba, querida", ela disse. "Se cuide, viu!"
Saí sob o sol da primavera me sentindo muito desconfortável e quase... abalada.
Eu tinha tomado tantas liberdades. Tinha sido uma idiota tão imprudente.
Ela provavelmente riria.
Mas... eu tinha feito, e tudo o que acontecesse a partir de agora estava fora do meu controle.
Fui para casa.
.:."Você fez o quê?"
Kim estava horrorizada. Grant, por sua vez, estava com o rosto roxo e tentando desesperadamente conter as gargalhadas que tão claramente precisava soltar.
"Abby, puta merda, você não pode sair por aí dando seu número de telefone para desconhecidos!"
Dei de ombros e cutuquei meu cheesecake.
"Pare de rir", Kim gritou para Grant. Ela chutou a panturrilha dele por baixo da mesa e acenou com a cabeça em satisfação quando ele gritou. "Pare de incentivá-la", acrescentou com fúria crescente. "Ela... isso é... quero dizer..."
E então ela deixou cair o rosto nas mãos e simplesmente ficou sentada ali.
Grant e eu trocamos olhares divertidos; balancei as sobrancelhas e ele mostrou a língua para mim. Estávamos acostumados com as encenações de Kim. Ela era uma criatura extremamente expressiva, e algumas das minhas lembranças favoritas envolviam seus "momentos".
"Você é impossível, Abby", ela disse, por fim, sem se dar ao trabalho de levantar a cabeça das mãos.
Dei de ombros novamente e comi deliberadamente outra fatia de cheesecake.
"Então ela respondeu?" Grant perguntou, quando conseguiu falar sem tremer.
"Não."
"Ah", ele disse. Ele respirou fundo, tentou colocar uma cara corajosa para mim. "Bem, acho que..."
"... era uma chance remota", eu disse, terminando a frase para ele como às vezes gostava de fazer. "Mas era algo que eu precisava fazer."
Grant se inclinou para frente, curioso.
"Por quê?"
"Porque ela era..."
Fiz uma pausa, procurando a palavra certa.
"Ela era o quê?" ele sugeriu, depois que eu fiquei em silêncio por um bom tempo.
"Arrebatadora", eu disse, por fim.
Kim ergueu os olhos e depois jogou a franja para trás abruptamente. "Você nunca disse isso antes, Abby. Você nunca usou essa palavra para ninguém."
"Não", concordei. Ela estava certa, eu nunca tinha. Nunca houve necessidade.
Dei um suspiro dramático. "Foi um... sonho bonito, acho. Um interlúdio agradável. Além disso, quais são as chances? Há três por cento ou menos de probabilidade de ela ser gay. São chances estúpidas; ninguém aceitaria essas. E mesmo que fosse, ela estaria em um relacionamento de longo prazo. Ninguém tão deslumbrante quanto ela é solteira. Simplesmente não é assim que as coisas funcionam. Não no meu mundo, de qualquer forma..."
Minha meia-irmã me lançou um olhar longo e sombrio.
"Abby, não perca a esperança", ela disse. "Você é adorável. Olhe para mim..."
"A diferença é que eu sei que você é hétero, e sei com certeza que ele é pelo jeito que sempre olha para sua bunda", eu disse. Grant ficou vermelho, mas não negou. "Além disso, ele é lindo e é o seu tipo e sempre te adorou, mesmo que você fosse cega demais para ver ou admitir."
Grant se remexeu; Kim estendeu a mão e segurou a dele.
"Sim, acho que ele é mesmo", ela concordou. "Mas... Abby, tenho certeza de que há muitas garotas que seriam bem legais. Existem aplicativos e coisas agora..."
"Eu não quero aplicativos e coisas, eu quero um raio do céu azul bem acima de mim. Não quero ter que me contentar, Kim", eu disse. "Já me contentei com tantas outras coisas. Não quero ter que me contentar com isso... também..."
E de repente o nó estava de volta na minha garganta e o mundo estava embaçado.
E Kim se arrastou e me envolveu em seus braços e simplesmente me segurou até que a vontade de chorar passasse e seguisse rio abaixo até o mar.
"Desculpe", sussurrei. Funguei e limpei os olhos.
"Você vai encontrar alguém", ela sussurrou de volta. "Você vai. Eu sei que vai. Você é a garota mais doce e gentil que conheço. Sempre foi. Há alguém por aí desesperado para te conhecer; só ainda não sabe, só isso."
Apertei os olhos com força e escondi o rosto em seu pescoço.
"Obrigada", sussurrei por fim. "Estou bem agora."
"Eu sei que está, meu amor", ela respondeu. "Eu sei que está. Mas eu amo seus abraços mais do que quase qualquer coisa no mundo, então vou roubar um pouco mais de tempo para mim de você, se você não se importar."
E eu deixei.
Eles me flanquearam enquanto me levavam para casa, Grant de um lado, Kim do outro, e o amor deles suavizava as bordas irregulares da minha solidão como sempre fazia. Sorri para os dois, prometi a Kim que ficaria bem, abracei Grant com toda a força que achava apropriada, que era muita, e beijei minha melhor amiga e gêmea do lado da luz na bochecha.
"Obrigada por me escolher", eu disse a ela, e ela me deu seu sorriso perplexo de sempre. Mas dessa vez ele desapareceu e ela me encarou, olhos escuros e cheios de alma, enquanto me observava por um longo momento.
"O quê?" eu disse.
"Só... preocupada com você", ela disse. "Não fique estranha comigo, ok?"
"Eu já sou estranha."
"Bem... não fique mais estranha."
"Não vou."
"Vou cobrar isso de você", ela disse. "Me ligue se precisar de nós, ok?"
"Vá se divertir. Eu vou ficar bem."
"Te amo", ela disse, enquanto se virava.
"Tenha uma boa trepada", eu disse.
"Obrigada", ela disse, "Nós pretendemos."
E Grant riu e colocou o braço em volta dela enquanto eles se afastavam.
Esperei até que eles chegassem à escada, então entrei no meu apartamento e fechei a porta atrás de mim. Preparei uma caneca de chá e fiquei na janela enquanto esfriava, olhando para os subúrbios escassamente iluminados. As luzes de um avião piscaram no crepúsculo enquanto ele se aproximava de Heathrow; observei-o piscar entre as linhas de nuvens finas.
Me perguntei onde Nell estava, e se ela sequer tinha recebido meu presente de agradecimento e o cartão.
Ela provavelmente tinha comido os chocolates e jogado o resto no lixo. Eu duvidava que fosse a única esquisita que se fixava na primeira pessoa que via depois de uma... escapada.
Rolei a tensão para fora dos ombros.
Fiz uma refeição barata e alegre, comi e me perdi na internet por um tempo.
Um banho rápido, meu pijama rosa macio e um sono praticamente sem sonhos.
Meu telefone apitou em algum momento da noite, mas eu estava com muito sono e preguiça para acordar o suficiente para verificar. Provavelmente alguma notificação idiota de aplicativo que eu simplesmente ainda não tinha silenciado, ou algum meme do nosso círculo de amigos idiotas.
Dormi.
.:.A mensagem estava esperando na minha tela de bloqueio quando acordei.
Olhei para ela, tentando entender por que eu estava recebendo carinhas sorridentes de números de telefone aleatórios.
Então meu cérebro se ligou.
"Merda", sussurrei.
Tateei meu telefone, entrei nas minhas mensagens e olhei fixamente.
Adivinho que essa é a Abby. Os chocolates estavam deliciosos e a caixa era linda. Receber números de telefone é um vício novo, no entanto... então, como você está? :)Meu coração foi de zero a louco sem tocar o chão. Respirei fundo, e então dei várias respirações rápidas para tentar me acalmar. Me ajeitei contra os travesseiros e semicerei os olhos para o texto borrado.
Era a Nell. Ela tinha respondido! E... informalmente também! Nada de "Pare de me perseguir, sua bruxa louca", nada de "Não entre em contato comigo de novo..."
Era claramente um convite para eu responder.
Pensei, e então desisti de pensar. Pensar não resolvia nada, agir era a resposta adequada.
Abby: Estou bem. Só... queria te agradecer com algo mais físico do que palavras.Olhei para o meu telefone por um momento, esperando que ela respondesse quando pudesse.
Meu alarme começou a tocar; silenciei-o e deslizei para fora da cama. Peguei roupas íntimas limpas e me troquei, então vesti meu jeans azul novo e combinei com uma camiseta azul chiclete que eu tinha comprado na semana anterior. Tomei um café da manhã rápido, me meti no suéter e peguei minha bolsa do laptop ao sair pela porta.
O ônibus estava no horário, pela primeira vez; encontrei um assento no meio, perto da janela, e me espremi contra a lateral. Partimos em movimento, pegando uma jovem que ainda descia o corredor de surpresa. Ela tinha reflexos espetaculares; compartilhamos um sorriso e um homem sorridente lhe deu um joinha por sua recuperação ágil.
Mas meu trajeto logo chegou a uma parada total quando o ônibus tentou entrar na estrada principal.
"Senhoras e senhores", veio a voz do motorista pelo interfone. "Desculpem pelo atraso, mas parece que houve um acidente na estrada mais à frente. Meu despachante está me informando que estamos prevendo um atraso de pelo menos vinte minutos..."
Gemidos irromperam ao meu redor.
"... e isso provavelmente vai piorar antes de melhorar. Se vocês estiverem com pressa, venham até a frente que eu abrirei as portas e todos podem descer aqui e seguir caminhando até New Cross."
Suspirei, levantei e saí para a rua. Coloquei minha bolsa nas costas e comecei a caminhar entre todos os outros pedestres que tinham optado por ir a pé em vez de esperar. Mais adiante havia luzes azuis; pude ver vários veículos de emergência e a grande caixa amarela de uma ambulância. Conforme me aproximava, a cena mudou e ficou nítida - carro contra ciclista, uma história tão antiga quanto o tempo. Fiz uma careta. Nunca era um bom resultado; todos os meus amigos ciclistas já tinham tido muitos quase-acidentes, e eu já tinha ido a mais de uma vigília para outros que tinham ficado sem sorte...
Um paramédico se levantou e se virou.
Olhei fixamente para a curta distância enquanto o choque de reconhecimento florescia entre nós. Nell encontrou meu olhar por um segundo sem fôlego, talvez dois - então seu sorriso perfeito cintilou e ela piscou para mim. Nosso momento passou como um sonho; ela continuou seu giro e caminhou decidida para a traseira da ambulância, onde desapareceu de vista.
O mundo pareceu escurecer quando ela não estava mais visível nele.
Suspirei, respirei fundo e retomei minha caminhada. Não queria ser uma distração.
Cheguei à estação de New Cross, encontrei um ponto de ônibus para outra rota que me levaria vagamente aonde eu precisava e embarquei no primeiro ônibus quando ele chegou. Fui sentada o resto do caminho para Londres, agitada e atordoada, pensando em pouco mais do que nos olhos dela e no jeito como ela tinha sorrido.
Me perguntei se aquilo significava que ela tinha ficado feliz em me ver.
Eu já tinha salvado o número dela nos meus contatos e colocado uma ambulância pequena e fantasiosa como foto, então soube que era ela no momento em que a mensagem chegou, pouco antes do almoço.
Nell: Manhã agitada! Você me deu um baita susto, estando lá e me encarando daquele jeito! Eu gosto desse tipo de surpresa :)Olhei para a mensagem dela, tentando pensar em algo engraçado...
Meu telefone apitou.
Nell: Então, você está me perseguindo ou algo assim? ;)"O quê? Não!" exclamei, instintivamente. Meu rosto queimou de vergonha quando colegas se viraram e olharam na minha direção. Peguei meu telefone e saí correndo para a cozinha em busca de privacidade.
Abby: Hã... não estou perseguindo... bem, não totalmente...Fiz um chá para mim e levei a caneca de volta para minha mesa. Sentei, mexi e então respondi um e-mail como método para evitar ficar olhando para o telefone, mas ainda assim me sobressaltei quando ele soou.
Nell: Hah! Te peguei no flagra! :D foi... legal... te ver lá. Pena que não pude conversar, mas o trabalho é assim Abby: o que você faz é importante Nell: Eu sei. Mas seria bom dar uma respirada às vezes. ttyl :)TTYL... falo com você depois? Deve ser, nada mais se encaixaria facilmente.
Eu imaginei que algo tivesse acontecido e que ela ficaria longe do telefone por um tempo. O que era bom, na verdade, porque eu precisava me concentrar no que estava fazendo e as respostas... animadas... dela tinham tornado isso... difícil.
Terminei meus relatórios diários. Dediquei a maior parte dos meus trinta minutos de almoço a pensar nela, antes de expulsá-la da cabeça pelo resto da tarde. Coloquei em dia tudo o que minha internação não planejada no hospital tinha atrasado. Desconectei às seis e estava guardando meu laptop quando meu telefone apitou de novo.
Nell: Uhu – plantão acabou. Sou uma agente livre. Você ainda está na cidade e come macarrão? Abby: sim, e sim Nell: Itsu, Aldgate, 19h. Estarei esperando. :)Eu nem tive um momento de hesitação.
Comecei freneticamente a enfiar coisas na bolsa. Verifiquei o status do metrô por hábito, mas Aldgate não ficava a mais de oitocentos metros e eu provavelmente conseguiria andar mais rápido do que a Circle Line me levaria até lá. Então saí do nosso prédio, apontei o nariz para o leste e comecei a nadar pelo oceano de passageiros. Até meu monólogo interno sombrio estava otimista pela primeira vez.
Cheguei a Aldgate com dez minutos de sobra e me esgueirei para dentro do restaurante lotado. Avancei sobre dois assentos vazios num canto e os reclamei, depois me retorci no mais próximo da parede para poder vigiar a porta.
Eu sabia que não teria que esperar muito, mas mesmo assim minhas dúvidas estavam se intensificando rapidamente. Eu estava interpretando mal os sinais que achei que ela estava enviando? Isso era só... um check-up amigável?
Simplesmente não tinha como ela gostar de garotas. Mesmo que gostasse, não tinha como eu ser o tipo dela. Coisas assim não aconteciam comigo...
Ela apareceu e fez uma pausa logo depois da porta, ficando na ponta dos pés e examinando o lugar. O sorriso que ela sorriu quando me viu silenciou meu monólogo interno, mas as borboletas no estômago tomaram conta imediatamente e cresceram num crescendo estrondoso enquanto ela serpenteava entre os outros clientes e se juntava a mim no cantinho.
Meu Deus, ela era incrível.
"Bem, olá", ela disse, com os olhos brilhando. "E não vale, chegar aqui antes de mim. Eu tinha toda uma cena roteirizada e agora você me roubou isso."
"Oi", eu consegui dizer. "Desculpa", acrescentei, tentando abandonar minha postura encurvada de sempre, tentando sorrir com um rosto que parecia paralisado pelo pânico crescente.
Seus olhos não perderam nada.
Ela pegou minha mão, e a ergueu, e pressionou as costas dela contra sua bochecha. Ela sorriu com o pequeno suspiro que eu dei, o suspiro trêmulo e idiota que me traiu.
"Você está elegante", ela disse, enquanto se acomodava na cadeira ao lado da minha. "Muito chique."
"Você está... diferente", eu sussurrei, corando furiosamente. Sua gola alta preta e jeans azuis grudavam nela e deixavam muito menos para a imaginação do que suas roupas de trabalho tinham deixado. Ela estava deslumbrante.
"Então..." nós duas dissemos, ao mesmo tempo, e ela riu de prazer.
"Então", ela disse, sendo a primeira a se recuperar. "Olá. É... nossa, é bom ver você desse jeito completamente não relacionado a trabalho."
"Desculpa por ter te perseguido..."
Ela riu de novo, e eu prendi a respiração por um batimento cardíaco quando ela estendeu a mão e a apoiou no meu antebraço. "Não, não, não se desculpe", ela disse, balançando a cabeça. "Foi certamente uma experiência nova que fosse uma garota quem estava fazendo isso, mas até agora parece estar sendo positiva."
"Ah", eu de alguma forma consegui dizer. Eu nunca me senti tão tímida na frente de alguém. Algo nela simplesmente me deixava completamente sem palavras e estúpida.
"Então... você trabalha na City?" ela perguntou.
"Sim", admiti. "Como quase todo mundo aqui, eu acho."
"Menos do que você imagina", ela disse. "Mas mais do que o suficiente para me agradar", acrescentou. "Sou muito superficial em alguns aspectos. Facilmente entretida", ela acrescentou, com um sorriso malicioso.
Eu a encarei, tentando entender o subtexto do que ela estava dizendo.
Será que ela estava...Mas ela já tinha passado para o cardápio, o dedo traçando rapidamente o plástico laminado.
"Certo", ela disse. "Já sei o que vou pedir. Venho aqui com muita frequência. Você?"
"Eu... acho que sim", eu disse. "Gosto do gyosa de frango..."
"Você é alérgica a algo nele?" ela perguntou.
"Er... eu diria que não, mas..."
"Tudo bem, eu tenho superpoderes. Vou considerar isso como um não. Certo. Já volto..."
"Mas..." comecei a protestar.
"Desta vez é por minha conta", ela disse. Ela sorriu e acrescentou "A próxima é por sua conta."
Eu a observei abrir caminho até o balcão, as palavras "próxima vez" perseguindo-se na minha cabeça. Respirei fundo e ponderei sobre ela – esse absoluto furacão humano. Eu me senti perigosamente fora de controle – e uma pequena parte sombria de mim simplesmente adorou isso.
Desloquei minha cadeira um pouco para mais perto da dela – só um pouquinho mais perto – para que, quando ela voltasse, esperançosamente roçasse em mim uma ou duas vezes. Ela teve que se espremer para passar, mas ela não pareceu se importar nem um pouco com espaço pessoal quando colocou minha comida na minha frente.
Enquanto comíamos, percebi que ela estava pressionando a perna contra a minha muito, muito mais do que até mesmo a minha mexida nos assentos deveria ter tornado necessário.
Eu a encarei, e tentei reunir coragem para fazer a pergunta que eu desesperadamente precisava que fosse respondida. Mas falhei.
Em vez disso, conversamos sobre coisas pequenas, sobre meu trabalho e como ela se tornou paramédica e nossos gostos e desgostos e hobbies.
E me vi rindo muito mais do que estava acostumada, e observando-a muito mais do que era seguro, e mais de uma vez eu a encarei, imaginando como seria sentir ela... se movendo... contra mim.
Um rubor suave tinha rosado suas bochechas; seus olhos pareciam ainda mais intensos do que eu lembrava. Me peguei enrolando meu cabelo entre os dedos, e quando parei, irritada comigo mesma, ela pegou as mechas que eu tinha soltado e lentamente as enrolou em seus próprios dedos até que a pele quente e macia de sua palma acariciasse suavemente minha bochecha e eu a encarei, muda por um longo momento sem fôlego.
Uma dor estava crescendo bem no fundo de mim.
Engoli em seco e tentei desviar o olhar, mas fui atraída de volta para ela e aquele sorriso malandro que ela sorria tão, tão bem.
"Você está rindo de mim", eu disse.
"Não. Não de você", ela disse.
"Então do quê?"
"Só... me sentindo com muita sorte", ela disse. "Sorte por ter te encontrado. Sorte por nossos mundos terem se tocado. Sorte por você ter me deixado alguma forma de... te encontrar."
Ela respirou fundo, e pareceu hesitar.
"E... sorte por você ser... interessante", ela acrescentou, suavemente. "E, eu acho... interessada?"
E assim, ela me deu a chave que eu precisava para destrancar as palavras que eu precisava dizer.
"Eu gosto de tocar seu mundo", eu disse, jogando a cautela ao vento e não me importando com o duplo sentido idiota. "Estou... feliz, sabe. Estou feliz que tenha sido você. Quem me encontrou, quero dizer. Hum..."
Minhas bochechas estavam em chamas, eu me sentia estúpida e... viva, tudo ao mesmo tempo.
Ela traçou a ponta do dedo ao longo do meu maxilar; eu olhei em seus olhos e esqueci todo o resto, menos o quanto eu queria que ela me quisesse.
E quão desesperadamente eu esperava que isso fosse real, e que ela me quisesse por mais do que apenas um ou dois momentos de afeto roubado.
"Começo cedo amanhã", ela disse, de repente. Ela suspirou e me soltou enquanto se recostava. "Adoraria ficar aqui com você, ou melhor ainda, ir a outro lugar com você... mas os plantões já são difíceis o bastante, então preciso ir dormir. Não posso decepcionar o Dave e o resto da minha equipe."
"Onde você mora?" eu perguntei.
"Brixton", ela respondeu. "Minha colega de apartamento é enfermeira, então nossos horários são hilários. Certo, anjo – está chegando minha hora de bruxa, preciso ir."
"Você faz tudo o que faz com essa... intensidade?"
"Sim. A vida é curta, e eu planejo vivê-la ao máximo. Vamos."
Ela se levantou e pegou nossas tigelas. Eu vesti minha jaqueta e a observei enquanto ela rápida e eficientemente jogava tudo na reciclagem e limpava as mãos com um lenço de sua mochilinha. Ela se virou, sorriu para mim, e inclinou a cabeça em direção à porta. Eu a encontrei no meio do caminho e por pouco evitei tropeçar quando ela, sem cerimônia, se apertou contra mim e pegou minha mão na sua.
Saímos de mãos dadas. Ela aplicou um pouco de pressão e nos guiou em direção ao sudoeste. "É Monument para mim", ela disse. "Meu ponto de ônibus é lá."
"Ah", eu disse. "Isso é trágico. Preciso pegar o que fica logo ali na rua..."
"Que tal eu te acompanhar até lá, então?"
E é claro que eu não diria não a isso. Então ela me puxou em seu rastro, passando pelas poças douradas de luz lançadas pelos monumentos noturnos e desertos de Londres ao Comércio, e me fez parar num trecho de calçada pouco antes do meu ponto de ônibus.
"Me diverti, Abby", ela anunciou. "Gostei de arriscar essa chance com você. Da próxima vez, você escolhe."
"Então vai ter uma próxima vez?"
"Claro que vai ter uma próxima vez", ela disse, sorrindo para mim. "Vai precisar ser no fim de semana; eu tenho uma folga entre o dia e a noite. Mas eu te ligo antes disso, se tudo bem? Primeiros encontros podem ser espontâneos, os segundos precisam de planejamento."
As palavras dela giraram em mim.
"... encontros? Nós estávamos num encontro?"
"Não estávamos?" ela respondeu, rindo de mim. "Com certeza pareceu um para mim, e eu realmente gostaria de outro."
"Eu... gostaria... também", eu de alguma forma consegui responder.
"Mhmm. Imaginei que sim. Certo, linda... agora... só tem mais uma coisa que precisamos resolver..."
"O que..."
Ela rudemente me interrompeu me empurrando contra a parede mais próxima e se pressionando bem contra mim enquanto me beijava. Eu gemi profundamente e me agarrei a ela, sobrecarregada por ela, arfando forte em seu pescoço quando ela finalmente me soltou.
"Ai meu Deus, ai meu Deus", eu gemi. "Ai meu Deus, isso foi... isso foi injusto."
"Isso", ela retrucou sem fôlego, "foi para te punir por ser tão, tão maravilhosa e perversa."
Ela se inclinou lentamente e me beijou de novo, mas suavemente desta vez, suave como um sopro de ar, suave como sombras, suave o suficiente para me derreter completamente...
E ela me envolveu em seus braços e simplesmente me segurou enquanto eu gemia e tremia em seus braços...
"Ai, ai", eu arfei, desfeita. "Ai, porra, ai meu..."
"E isso, linda", ela sussurrou em meu ouvido, "Isso foi para ter certeza de que você vai esperar minha ligação. Nossa. Nossa, estou toda tonta agora. Meu coração está todo acelerado. Você beija bem. Abby – obrigada pelo prazer da sua companhia esta noite. Foi muito bom. Muito bom. Vejo você em breve, querida."
"Sim... por favor..." eu gemi, ainda tremendo.
Ela sorriu, me deu um beijinho recatado de boa noite, e se afastou elegantemente na penumbra, virando-se apenas uma vez para acenar para mim. Eu permaneci apoiada contra a parede por mais alguns momentos antes de finalmente me sentir firme o suficiente para me mexer.
Eu ansiava por ela.
Não, eu queimava por ela.
Uma mulher de meia-idade estava esperando no ponto de ônibus; eu me esgueirei para perto dela. Ela me deu um pequeno sorriso e um aceno divertido, mas não disse nada, e eu fui profundamente grata por isso.
Todas as minhas palavras tinham sido roubadas pelos beijos de Nell. Meu centro de linguagem tinha entrado em combustão espontânea. A pele dos meus dedos dos pés e a parte inferior das minhas costas ainda estavam formigando com réplicas.
Meu coração não se acalmou até bem depois que cheguei em casa, e eu não dormi até que Nell tivesse respondido com um coração à minha mensagem bobinha de carinha sorridente.
Eu dormi, mas foi um sono agitado, e acordei longe de estar descansada.
Eu a queria ao meu lado. Eu a queria apertada contra mim. Eu queria aqueles beijos. Eu queria que aquele sorriso fosse a primeira coisa que eu visse ao acordar.
Eu a queria.
.:."Você só pode estar de brincadeira comigo. Um encontro? Com ela? E você nem me ligou para contar? Sua vaca sem coração", Kim guinchou. "Me conta tudo! Imediatamente! Rápido ou eu vou explodir!"
Eu sorri, me virei, andei os cinco metros de largura da minha sala antes de virar de novo.
"Ela é... incrível", eu suspirei. "Ai meu Deus, ela é incrível."
"Então... vocês se beijaram?"
"Sim", eu disse, corando muito com a lembrança.
"Ai meu Deus! Abby! E aí?"
"Eu perdi as palavras", eu disse.
"O quê?"
"Eu... perdi qualquer capacidade de pensar, de falar, de... tudo."
"Nossa. Tão bom assim?"
"Totalmente bom assim."
"E... além da aparência e dos beijos... como ela é?"
"Ela é... barulhenta. Ousada. Determinada. Hilária. Deslumbrante. Muito acelerada. É... intoxicante."
"Mm. Fico feliz. Espero que se transforme em mais do que uns encontros. Não faz a Eeyore com ela!"
"Vou tentar não fazer."
"Abby?"
"Mm?"
"Esquece tudo que eu já disse. Esquece cada vez que eu te disse para ter cuidado ou ir devagar ou tomar cuidado. Tá? Seja corajosa. Vai fundo."
"Hum... Kim? Você tá sofrendo de algum tipo de problema neurológico..."
"Ah, cala a boca, sua vaca idiota. Eu só... eu... porra, Abby, eu só quero que algo dê certo para você pela primeira vez, tá?"
Eu engoli em seco, com os olhos embaçados.
"Eu não mereço você", eu sussurrei, depois de um tempo.
"Eu digo o mesmo. Mas eu tenho você e vou te manter, mesmo que a fulaninha te tire do chão, tá? Te amo, querida, tenho que ir, meu chefe tá me olhando com olhos assassinos."
"Te amo. Mwa."
Kim cortou a ligação e eu desabei contra a parede.
Abri minhas mensagens; verifiquei o "Bom dia x" que eu tinha mandado para ela e que ela ainda não tinha respondido.
Eu esperava que ela estivesse tendo um plantão tranquilo.
Meu trajeto foi normal e eu estava no escritório cedo, como sempre preferia estar. Fiz todas as minhas coisas de sempre para agregar valor – café com o pequeno grupo de outras mulheres jovens para nossa caminhada de sanidade no meio da manhã, almoço com a Gemma da administração que estava de olho num cara e estava louca para me contar os detalhes picantes, e uma barragem de reuniões no meio da tarde sobre mudanças nas prioridades dos projetos para nossa pequena agência, nenhuma das quais afetaria diretamente meu dia a dia.
Meu telefone permaneceu em silêncio, e o silêncio começou a me incomodar.
Eu me perguntava como era um plantão típico para ela. A que horas ela acordava, se o sol já tinha nascido antes de ela sair para seu primeiro chamado, quantas pessoas ela tinha perdido, quantas ela tinha salvado...
Parecia uma existência alucinante. Eu sabia que algumas pessoas eram chamadas para isso, mas... tinha que ser difícil. Eu tinha assistido a séries e documentários suficientes – especialmente nos últimos dias – para saber que era uma vocação difícil, muito difícil.
Eu queria que ela tivesse respondido minha mensagem. Esperava que ela estivesse segura.
Mas eu não estava mais informada quando fiz meu caminho mal iluminado de volta pelas escadas do meu pequeno prédio de apartamentos, nem a situação mudou enquanto eu preparava um jantar espartano.
você está ocupada? eu mandei para Kim. não neste segundo, ligo? sim, por favorE eu sorri quando meu aparelho imediatamente começou a vibrar com a chamada recebida de Kim.
"Ei, amor", ela borbulhou. "Você está bem?"
"Só sem ter o que fazer. Dia longo e lento, nenhum contato dela, então..."
"Ela provavelmente está ocupada."
"Eu sei. É só..."
"Você não é a pessoa mais paciente, às vezes, né?"
"Sim", concordei. "E... e acho que estou preocupada que talvez tenha sido tudo um sonho."
"Mm", Kim murmurou. "Não pareceu um sonho. Não começa com o Eeyore, eu sei que você está prestes a."
"Só estou cansada, Kim."
"Cansada... de estar sozinha?"
"Sim."
"Então... por que você está esperando que ela entre em contato com você?"
"Desculpa?" eu disse, surpresa.
"Eu te conheço, Abby. Te conheço como a palma da minha mão. Você está pensando nela constantemente desde ontem, certo?"
"... sim", admiti.
"Então liga para ela, boboca!"
"Mas..."
"Abby, ai meu Deus. Sério, se controla. Ela te beijou! Ela está obviamente afim de você..."
"Eu só queria..."
Meu telefone apitou, e começou a vibrar. Eu o afastei do ouvido e o encarei.
"Hum... merda. Kim, ela está tentando me ligar. Merda! O que eu faço?"
"Atende, boboca! Estou desligando, me manda mensagem depois, te amo!"
Ela desligou na minha cara. Eu encarei a segunda chamada, esperando. O botão verde e pulsante "Atender" me provocava.
Eu respirei fundo... e atendi.
"Oi", consegui dizer. "Oi. Como você está?"
"Oi", veio a voz dela, depois de um momento. E depois um suspiro. "Desculpa. Oi. Hum..."
"O que foi?" eu disse, me mexendo. Me virei, andei até minha janela, olhei para a escuridão que se acumulava. "O que há de errado?"
Uma pausa.
"Hum... sinto muito por não ter respondido antes, é que foi uma loucura, e aí..."
Outro suspiro, outro silêncio.
"Você está em casa?" ela perguntou, hesitante.
"Sim, já faz uma hora mais ou menos. Você?"
"Ah. Isso é... legal. Hum... eu não estou. Em casa, quero dizer. Ainda estou num ônibus, chegando na London Bridge. Meio que típico para o dia de hoje, na verdade..."
Eu me inclinei contra o batente da janela e franzi a testa.
"Nell? O que há de errado? É... é sobre ontem à noite?"
"Não. Bem. Não exatamente. Eu estou..."
Mais um silêncio. Eu esperei. Eu era muito boa em esperar.
"Na verdade", ela disse por fim. "Na verdade, isso é mentira. É por causa de ontem à noite. É por causa de ontem à noite que estou... te ligando agora."
"O que foi?" eu respondi suavemente, esperando a bomba inevitável cair.
— Eu estava torcendo que você não estivesse... ocupada agora. Estava torcendo para poder ir... te ver — ela continuou. — Não posso ir para casa agora. Ficaria sozinha e não posso ficar sozinha agora. Não depois de hoje. Sei que nos conhecemos há pouco e sei que estou... abusando da sorte. Mas... mas não tenho mais ninguém a quem pedir isso agora, e...
Meu coração deu um salto; senti que podia respirar de novo.
— Estou na Collett Road, em Bermondsey — respondi. — Vou te mandar o código postal e a localização. Claro que você pode vir. Por favor, eu... eu adoraria te ver. E... pelo seu tom, imagino que você precise de um abraço, né?
— Sim. Preciso. Guarda esse pensamento — ela sussurrou. Ouvi-a fungar e ficar em silêncio por um instante.
— Obrigada, Abby — acrescentou, com a voz estranhamente embargada. — Você é um anjo.
— Não, esse é o seu trabalho — respondi, o coração apertado de preocupação. — Se você descer perto da estação London Bridge, ao lado dos Correios, tem um ponto de ônibus que traz para cá. Procure o número 47. Eu vou te esperar.
— Eu... te vejo já — ela disse, e desligou.
Soltei o ar, girei e olhei o cenário. Meu apartamento estava uma zona de desastre, mas teria que ficar assim. Eu tinha um vinho, chá e comida suficiente para preparar algo simples para ela... ela chegaria em quinze, talvez vinte minutos. Não dava tempo, teria que servir.
Peguei o moletom do meu pai e o vesti, depois saí para o corredor e fechei a porta atrás de mim. Desci correndo os dois lances de escada e me lancei na noite ventosa. Eram uns cem metros até o ponto de ônibus; andei ligeiro até o pequeno refúgio iluminado e me encolhi no canto, tremendo.
Pareceu levar uma eternidade. Dois ônibus 47 vieram e passaram, surgindo grandes e vermelhos da escuridão, e lutei contra a vontade de checar o celular.
Ela disse que vinha, eu me recusava a ceder aos meus hábitos e ficar obcecada...
Um terceiro ônibus apareceu e pareceu se arrastar pelo mar de trânsito. Conforme se aproximava do ponto, eu a vi lá dentro. Observei-a se levantar e caminhar até as portas dianteiras.
Elas se abriram com um chiado, ela saiu e desceu.
Ela não disse uma palavra, apenas me encarou por um instante.
Abri os braços e esperei, oferecendo-me.
Seu queixo começou a tremer e ela se aproximou de mim, deixando que eu a envolvesse.
Ela estava tremendo. Ouvi-a fungar forte, senti-a engolir seco.
E eu respondi instintivamente; cruzei os braços atrás de seu pescoço e simplesmente a segurei contra mim o mais apertado e suave que pude, enquanto o barulho e o burburinho ao redor desapareciam em silêncio.
Era só ela, e eu, e o coração dela era tudo que importava.
Finalmente ela se soltou, afastando-se um pouco.
— Desculpa — sussurrou, engolindo seco. — Foi... foi um dia absolutamente horrível, e eu... eu só...
— Shh, shh — respondi, balançando a cabeça. — Você não precisa explicar. Não aqui, não agora, e não para mim. Vem, meu apartamento é logo ali, vamos entrar e sair desse vento, nos aquecer. Tudo bem?
— Tudo bem — concordou. Ela não protestou quando peguei sua mão, e uma parte de mim notou e se animou com a rapidez com que ela entrelaçou seus dedos nos meus. Eu a puxei comigo, a guiei até a porta surrada do mal-nomeado condomínio Manor Gardens, onde eu ocupava o número 201B, e a conduzi escada acima até meu covil.
— Seus sapatos — eu disse. — Tire-os se quiser, e me dê a jaqueta para pendurar. O aquecimento está ligado porque odeio o frio, então...
E ela silenciosamente tirou a jaqueta e a pendurou no gancho, depois chutou os tênis para o canto. Virou-se, fechou os olhos e respirou fundo, lenta e trêmula, antes de soltar o ar.
— Desculpa — disse, baixinho. — Desculpa aparecer assim...
— Você não apareceu, e não tem do que se desculpar. Eu quero você aqui. Eu estava preocupada com você... você já comeu?
— Não. Eu... não estava muito a fim.
— Tenho macarrão e um pouco de missô. Vou preparar e, se você quiser, é todo seu.
— Isso é... muito doce da sua parte.
— Também tenho vinho — acrescentei. — Não é grande coisa, mas...
— Você toma um pouco também? Não bebo sozinha. É... uma das minhas regras.
— Sim, tomo um pouco com você, se quiser que eu tome. Vem. Senta. Aqui — falei, pegando seu braço e guiando-a até um dos meus banquinhos. — Senta — repeti, cutucando-a e só soltando seu braço quando ela se acomodou.
— Você tem um lugar legal aqui — disse baixinho. Olhou ao redor, notando as fotos e as poucas pinturas que eu me permitira ao longo dos anos. — É... calmante. Melhor do que o meu canto, pelo menos.
— Preciso que seja assim — respondi, enquanto começava a vasculhar a geladeira e meu pequeno armário de despensa. — Preciso que seja organizado, senão fico demente.
— Demente? De alguma forma duvido.
— Ah, a Kim poderia te contar histórias.
— Quem é Kim? — ela perguntou, a voz se achatando e esticando.
Olhei de volta para ela.
— Ah, minha melhor amiga e praticamente irmã — eu disse, notando como ela pareceu relaxar um pouco quando expliquei quem era Kim. — Você provavelmente gostaria dela. É fácil de lidar.
— E, por implicação... você não é?
— Ruiva — falei. Peguei uma mecha da minha franja e a balancei para ela. — Está no manual de regras.
— Ahã. Sou intensamente cética, baseada em experiência subjetiva. Acho você muito fácil de lidar.
Sorri e peguei minha panelinha. Coloquei-a no fogão e liguei a chaleira para ferver. Peguei duas taças de vinho e retirei da geladeira uma garrafa meio cheia de um branco australiano genérico.
E o tempo todo estava consciente do jeito que ela me observava.
— E então, como está a vista? — perguntei, enquanto servia sua taça.
— É uma vista bonita — murmurou. — Dentro do que se pode esperar.
— Mm — eu disse, tentando ignorar o rubor que sabia que logo se espalharia. — Você disse que se contentava fácil.
— Eu disse, mas isso... você... não é um prazer fácil — respondeu. Desviou o olhar e se remexeu. — Essa sou eu no meu momento mais... carente e imprudente.
Coloquei sua taça de vinho na frente dela, mas antes que pudesse pegá-la, me inclinei para dar-lhe um beijo suave nos lábios. Ela fez um som, mas não se afastou, e eu julguei... não, eu esperava, na verdade, que isso fosse algo mais... real... do que uma situação de "qualquer porto numa tempestade".
Perdi-me em seus olhos por um instante, depois me afastei para uma distância mais... sensata.
— Então — eu disse, enquanto procurava um assunto seguro —, vai ser missô com tofu, infelizmente. Não fiz compras esta semana, espero que tudo bem.
— Só se você sentar ao meu lado e comer comigo. Com suas pernas encostadas nas minhas, como ontem à noite. Você fez minha semana, aliás, meu mês, fazendo aquilo, só pra você saber. Não recebo muita... atenção. Não de garotas, de qualquer forma — acrescentou baixinho.
— Eu adorei te dar atenção, caso não esteja claro.
— Considere esclarecido — ela disse. Conseguiu esboçar um sorriso frágil.
Ela bebericou seu vinho e depois deixou a taça de lado. — Faço a maioria das minhas refeições sozinha. A não ser que Dave e eu estejamos de plantão e vivendo de delivery, como sempre parece acontecer. Somos frequentadores assíduos de todos os drive-thrus. Seria bom... quebrar esse ciclo...
Sua expressão ficou estranha, e um espasmo pareceu tomar seu maxilar e bochecha. Ela tossiu, pegou o vinho e deu um gole selvagem.
— Merda — sussurrou quando pôde. — Merda, eu não devia ter vindo, não estou bem... desculpa, eu... sou um lixo...
Lágrimas tinham manchado minha bancada. Fiquei olhando para elas por um batimento cardíaco... e então eu estava ao seu lado, envolvendo-a em meus braços enquanto ela começava a soluçar.
Levou um bom tempo para ela parar de chorar. Nunca me senti tão impotente em toda minha vida como ali, parada de jeito desajeitado, o braço sobre ela, a umidade pegajosa de suas lágrimas encharcando minha camisa e fazendo o tecido grudar desagradavelmente na minha barriga.
Finalmente, ela pareceu chegar a um fundo do poço; estremeceu, fungou e se afastou para limpar os olhos.
— Estou um caos — conseguiu dizer, a voz rouca e sufocada. — E agora estou aqui, sendo uma idiota, fazendo da minha incapacidade de lidar com meus problemas a sua...
Eu a puxei de volta para mim e beijei o topo de sua cabeça. Ela estremeceu e se aninhou contra mim.
— Não — eu a corrigi gentilmente. — Para. Eu me ofereci. Às vezes, a gente só precisa de alguém que... segure nossa mão e nos diga que vai ficar tudo bem. Como você fez — acrescentei.
— Você é... segura — sussurrou, algum tempo depois.
— Você estava lá por mim — eu respondi. — Nell? Vou completar nosso vinho e ferver a chaleira de novo, e tentar fazer comida para nós. Adoraria comer com você para você começar a quebrar esse tal ciclo seu, e vou sentar e ouvir se você quiser falar, e vou ficar quieta se você só quiser silêncio, e vou te abraçar se tudo que você precisa é ser abraçada. Estou... aqui por você, do jeito que precisar que eu esteja. Pelo tempo que precisar. Não tenho outro lugar para estar esta noite. Não tenho mais nada para fazer esta noite. E não há nada que eu preferisse fazer do que isso, com você, agora. Tudo bem?
— Tudo bem — sussurrou. — Hm... onde fica seu banheiro? Preciso... me limpar.
— Primeira porta à direita. Fique à vontade para usar o que quiser.
— Obrigada, Abby — sussurrou. Ela se levantou e cambaleou pelo curto arremedo de corredor, e eu suspirei quando a porta se fechou com um clique atrás dela.
Ela não estava bem. Ninguém chorava daquele jeito se estivesse bem. Eram o tipo de lágrimas que eu chorava quando as coisas estavam ruins. Eu as conhecia, intimamente.
Fiquei imaginando o que exatamente tinha acontecido com ela hoje... e ontem, e anteontem, e antes disso...
Me virei e me ocupei com o jantar, porque se havia uma coisa que eu aprendera sobre ela até agora esta noite — era que a garota que eu pensei ter conhecido era apenas uma máscara que ela usava para sobreviver.
Como eu, de certa forma.
Deve ter sido preciso muita coragem — ou muita dor — para baixar essa fachada na minha frente.
E eu não tiraria dela essa breve sensação de segurança — não por preço algum.
.:.Acabamos na minha cama. Parecia o lugar mais lógico, dado meu sofá de pobre e a dor nas costas que ele causava. Nell comeu quieta, bebeu uma segunda taça de vinho comigo, e então silenciosamente concordou quando eu a levantei e a guiei até meu quarto.
Acendi meu abajur e apaguei a luz principal. Tirei o moletom e afastei as cobertas. Ela se sentou, virou, levantou as pernas cobertas de jeans antes de rolar para o lado, de frente para a parede, deixando um espaço óbvio atrás de si.
Com o coração martelando, me enfiei ao lado dela. Puxei o edredom e cobri nós duas, e então fiquei ali por um tempo antes de me arriscar a pôr a mão em seu quadril.
Ela soltou um suspiro longo e dramático.
E então se remexeu para ficar de frente para mim.
Então agora estávamos deitadas ali, nos encarando, ambas provavelmente esperando a outra falar primeiro. Seu dedo brincava distraidamente com uma mecha do meu cabelo; meus dedos descansavam na curva de sua cintura e eu resisti à tentação de movê-los dali.
Finalmente, ela respirou fundo.
— Você é muito doce — disse, baixinho. — Fazendo isso. Ficando quieta aqui assim comigo. Você mal me conhece. Eu poderia ser uma louca, até onde você sabe.
— Foi você que veio para casa com uma garota estranha — retruquei. — Acho que provavelmente vou ficar bem. Mas não tenho tanta certeza sobre você — acrescentei.
Ela estendeu a mão e tocou minha bochecha. Eu me aninhei contra sua mão.
— Mm. Gosto disso. Você pode falar comigo, sabe — acrescentei. — Sou uma boa ouvinte.
— Honestamente... foi só um dia terrível — sussurrou depois de um tempo. — Não costumo ser assim. Normalmente eu consigo... compartimentalizar. Mas hoje... não quero entrar em detalhes porque... mas... foi simplesmente horrível e sinistro, e...
— E você não está bem, está?
— Não estou nem remotamente bem — concordou. — Eu... vejo muita coisa, Abby. Muita coisa horrível. Há muito de bom, como... como ajudar você, mas ainda tem tanta coisa...
Suas palavras se apagaram. Ela fechou os olhos e pareceu quase prender a respiração por um ou dois instantes.
— Foi uma ocorrência ruim? — soprei.
— A pior em que já estive — sussurrou, depois de um longo silêncio. — Vi alguns policiais chorando hoje — homens grandes, durões, com quem trabalhei em situações realmente cabeludas e que eu não achava que podiam ser quebrados. Então... é. Eu... precisava ser abraçada. Precisava poder desabar um pouquinho. E... bem...
— Você veio para mim.
— Você era a pessoa para quem eu precisava vir. Você era a pessoa de quem eu precisava estar perto esta noite. Eu precisava esquecer toda a escuridão e ter um pouco de luz, por uma vez.
Cheguei mais perto e aninhei meu rosto no dela. Ela fez um som suave quando eu a puxei para mais perto, moveu a mão do meu quadril para o meu ombro.
— Fico feliz que você tenha vindo para mim.
— Você tem um cheiro tão bom — ela gemeu. — Ai, Deus, como você tem um cheiro tão bom? Mesmo quando... nos conhecemos. Você tinha um cheiro tão bom.
— Você me perseguiu por causa do meu cheiro, é isso? — provoquei de leve.
— Não. A culpa é sua, na verdade — eu estava sendo uma boa garota até você me mandar aqueles chocolates.
— Eu suspeito que ser uma boa garota não é algo que você faz muito — eu disse, enquanto me arriscava a deslizar meus dedos lentamente para cima e sobre suas costelas, apreciando o jeito primoroso como ela se contorcia.
— Eu sou sempre boa. Bem... na maioria das vezes — acrescentou. Senti sua perna se mexer, a curva firme de sua coxa pressionar levemente a minha. Cheguei mais perto de novo, o coração martelando nos ouvidos enquanto me apertava contra ela. Ela soltou meu cabelo e deslizou os dedos pelo meu ombro para me segurar junto a si.
— Abby?
— Mm.
— Posso... passar a noite? Sei que nos conhecemos há pouco, mas...
— Eu gostaria disso. Gostaria que você ficasse aqui. Eu realmente gostaria.
— Desculpa antecipar o segundo encontro — sussurrou.
— Para de me pedir desculpas. Você está aqui. Estou feliz que você esteja aqui. E quanto a encontros... bem, espero que da terceira vez seja de vez.
— Acho que vai ser — soprou, depois de um silêncio.
Ela se mexeu, ergueu o queixo, procurou meus lábios com os seus.
O beijo foi lento, e suave, e perfeito de todas as formas possíveis.
— Por que você está rindo? — ela exigiu, tentando não sorrir.
— É que... não consigo... — respondi, lutando para retomar o controle das minhas extremidades. — É que... tem sido tão...
Ela me beijou de novo, mais forte desta vez. Pressionou-se, então rolou sobre mim, parcialmente. Tateei para cima, segurei seu rosto, curvando meus dedos ao longo de sua mandíbula enquanto ela se apoiava acima de mim.
Abri os olhos de novo e olhei para cima, tentando pensar em algo a dizer, em alguma forma de deixá-la experimentar mesmo a menor parte das minhas emoções...
— Você é tão linda — ela disse, e meu coração pareceu parar de bater por um instante.
Ela se abaixou sobre mim; depositou vários beijos suaves em meus lábios, me provocando, me instigando, antes de se mover e beijar — agonizantemente devagar — a linha da minha garganta.
Eu me arqueie para cima, empurrando-me para longe do colchão, gemendo do fundo da garganta enquanto minhas pernas se contorciam e serpenteavam.
— Ai... Deus... — gemi. Então congelei quando a senti deslizar os dedos para cima e por baixo da minha camisa. Para cima, mais e mais para cima, até a concha macia do meu sutiã, sobre a curva do meu seio direito, até que encontrou o bico coberto pelo tecido do meu mamilo.
— Você é... ousada.
— Você não está reclamando — ela observou. Mordiscou meu pescoço de leve, eu estremeci.
— A maioria das pessoas... hã... pediria permissão...
— Preciso pedir?
Ponderei aquilo por um batimento cardíaco.
— Não. Faça o que quiser, eu vou... amar...
Seu dedo deslizou para baixo da lycra de algodão macio que me protegia; gemi quando senti o calor de seus dedos me encontrar e me agarrar. Ela me beliscou, mas gentilmente, e beijou minha garganta em chamas para suavizar a ardência. Seus dedos buscaram para a esquerda, sobre meu esterno, deslizaram para cima e por baixo, encontraram meu seio esquerdo, e repetiram sua breve mas primorosa exploração de mim.
— Isso é... tão gostoso — gemi.
Ela se ergueu e me olhou por um instante. Então sorriu maliciosamente, veio me beijar, e se afastou.
— Espera! Não! Aonde você vai? — protestei. — Eu estava adorando...
Ela tirou a camiseta larga e a jogou de lado. O sutiã veio logo em seguida, e ela passou a perna sobre mim para me montar. Observei maravilhada enquanto ela erguia os braços e soltava o cabelo do rabo de cavalo.
— Oh. Oh, uau — eu disse.
Ela sorriu para mim.
— O que foi que você perguntou antes... ah, sim. Apreciando a vista?
— Ah, sim — respondi, sonhadora. — Deus, você é... uma deusa.
Ela sorriu e se abaixou lentamente de volta para mim.
— Os peitos estavam doendo um pouco — ela disse. — E... bem, eu gosto de você me olhando desse jeito. É muito... intenso. Me faz pensar em todo tipo de coisas maravilhosamente distrativas...
Eu me estiquei para poder beijá-la de novo, e segurei a nuca dela para puxá-la comigo enquanto caía de costas. Eu estava doendo agora, quente de desejo por ela, e comecei a tentar me livrar da camisa sem pensar direito na logística. Ouvi sua risada suave enquanto eu me embolava, e ela esperou até que meu rosto estivesse coberto e eu estivesse lutando para me soltar antes de puxar o tecido do meu sutiã para longe e tomar meu mamilo entre seus lábios quentes, macios e perfeitos.
Eu congelei enquanto cada nervo da minha espinha sobrecarregava. Devo ter feito algum tipo de barulho, porque ela suavemente fechou os dentes em mim e me provocou com a ponta da língua.
Uma eternidade de prazer agonizante... e ela me soltou. Ela se ajoelhou e gentilmente me ajudou a me livrar da camisa e do sutiã. Fiquei deitada, ofegante, olhando para ela.
— Malvada — sussurrei, finalmente. — Tão malvada.
— Eu sei — ela concordou. — Mas pareceu que você gostou, e não ouvi nenhuma reclamação. Ah, me fode, você é deliciosa...
Ela respirou fundo, depois suspirou.
— Abby — ela disse.
— Sim?
— Eu sou insistente. Sou... barulhenta. Posso ser impulsiva — incuravelmente, às vezes. Mas eu gosto muito de você. Quero te beijar até você ficar tonta; quero te cavalgar até você ver estrelas, mas...
— Mas... — consegui dizer, encantada por ela e sua honestidade.
Ela esboçou um sorriso irônico.
— Não quero te afugentar. Ou ir rápido demais com você. Eu... tenho o hábito de quebrar as coisas, sabe — ela disse. — Não quero quebrar isso.
— Sou uma garota grande — respondi. Sentei-me, estendi a mão e segurei a mão dela. Puxei-a para mais perto. Ela colocou as mãos nos meus ombros, depois grunhiu e se curvou quando beijei seu estômago e barriga. Recuei e olhei para cima enquanto abria o botão do jeans dela e dobrava o tecido para trás. Ela mordeu o lábio e estremeceu quando beijei logo acima da linha de sua calcinha lilás desbotada. — Eu quero você — acrescentei, olhando para cima novamente. — Só para deixar claro. Quero te ter. Quero que você me foda até eu ficar tonta, do jeito que quiser. Você pode fazer qualquer coisa que seu coração desejar. Qualquer coisa. Prometo que vou adorar.
Lentamente, deslizei o tecido do jeans pelas coxas dela. Ela levantou primeiro um joelho, depois o outro, e me deixou libertá-la. Apertei o nariz contra sua barriga e inalei o cheiro quente dela que subia até mim.
E então enfiei os dedos nas tiras finas de tecido simples em seus quadris e puxei sua calcinha para baixo.
Ela estava quase completamente depilada, notei. Contemplei a curva nua de seus lábios, a umidade reluzente que estalou de volta quando o tecido se soltou dela. Ela estremeceu. Olhei rapidamente para cima.
— Frio? — perguntei.
— Não. Não frio. Estou pegando fogo — ela gemeu. — É... muito excitante. Ver você, saber que você está olhando para minha boceta.
— Ah, estou fazendo mais do que olhar — eu disse. — Quero passar a... tocar. Posso tocar você?
— Sim.
Ela afastou os joelhos; eu estendi a mão e passei a ponta do dedo ao longo da linha escorregadia e meticulosamente nua de seus lábios. Ela gemeu profundamente e se arqueou para frente enquanto eu a abria, ela choramingou sem palavras enquanto eu provocava seus lábios molhados e úmidos, separando-os minimamente para sentir sua entrada encharcada e o pequeno nódulo firme que a coroava.
Ela parecia o paraíso, e eu estava cativada pelo calor macio dela.
Meu próprio corpo ansiava por toque. Estremeci e me esfreguei contra o colchão em frustração. Beijei sua barriga mais uma vez e lambi meus dedos limpos, depois desabei lentamente de volta na cama. Levantei a bunda e empurrei meus leggings e o fio dental rosa velho para baixo e para longe. Ela mordeu o lábio enquanto olhava para mim.
— Ai, meu Deus — ela sussurrou.
— Não me depilei faz um tempo. Desculpe. Está...
— Você é deslumbrante, Abby — ela disse. — E, francamente, um pouco de pelo extra nunca fez mal à raposa.
— Acho que o termo correto é raposa fêmea — eu disse. Sorri para ela e me abri para que ela pudesse me ver. — Estou encharcada — eu disse. — Estou tão excitada por você. Pare de ficar distante. Volte aqui e me beije direito de novo.
Ela puxou os leggings e minha calcinha arruinada dos meus pés e os jogou de lado. Chutou as pernas para se livrar do próprio jeans. Depois se abaixou na cama, se ajeitou mais perto e montou na minha perna. Ela moveu lentamente o joelho entre minhas coxas para me abrir, e então — dolorosamente devagar — se abaixou sobre mim.
Um beijo, um segundo beijo mais suave — e então ela colocou os dedos no meu corpo, encontrou minha fenda encharcada e se enfiou em mim — sem pedir, sem anunciar o que ia fazer, sem me avisar de nada.
Eu me arquei contra ela, cabeça jogada para trás, ofegante por um ar que não parecia querer vir enquanto ela tomava um mamilo entre os lábios. Ela estava me abrindo em si, girando o dedo dentro de mim, acrescentando um segundo, sem me dar chance de protestar, de me ajustar, de... duvidar deste momento.
Gemi profundamente, agarrei a mão dela, seu cabelo, seus ombros enquanto tentava recuperar o fôlego. Era tão intenso, tão inesperado, tão certo. Eu queria, eu precisava ser tomada, ser usada assim, não ter nenhuma escolha...
Ela começou a se enfiar em mim. Lentamente. Lentamente, no começo, o primeiro pouquinho de consideração gentil que ela ofereceu. Minhas pernas tremiam, meu pulso e respiração uma cacofonia estrondosa nos meus ouvidos. Eu sabia que estava gemendo, tentei cobrir a boca, uma parte pequena e recatada de mim de algum modo com medo de que algum vizinho — ou todos eles — me ouvisse e reclamasse. Ela estava sussurrando agora, palavras que eu não conseguia acompanhar, quentes e ofegantes, arfadas no meu ouvido, dentes no meu pescoço, no meu lóbulo, e o tempo todo ela me abria e me fodida de um jeito que eu nunca soube que precisava até este momento...
Eu precisava dela.
Precisava que ela me tomasse, que... me possuísse.
Precisava que ela me tivesse e consumisse e usasse e quisesse e nunca, nunca parasse de fazer nada disso...
Eu não conseguia ver, não conseguia falar, não conseguia fazer nada além de gemer e me contorcer e arquear e suar, rebolando de volta nela enquanto ela enfiava seus dedos perfeitos dentro e fora de mim.
Durou segundos. Ou talvez minutos. Ou talvez séculos. Quem poderia dizer, e quem realmente se importava?
Eu não.
Porque eu senti Aquilo chegando — lentamente, como nuvens de trovoada se acumulando sobre as colinas distantes, distante e fraco no início, mas aumentando rapidamente...
O suor brotou em mim, nos tornando escorregadias, escorrendo em gotas quentes e salgadas pelos seios, flancos e coxas...
O cheiro de mim, de almíscar pungente, encheu minha mente enquanto o impulso animalesco da loucura nos tomava.
Sonhei com a completa falta de qualquer senso de eu além daquilo que nos impelia...
Ouvi os sons líquidos dos meus lábios nela, os gemidos que ela arrancava entre sussurros, mordidas, beliscões, beijos...
Senti os mamilos duros e salientes que roçavam em mim enquanto ela se esfregava na curva insatisfatória da minha coxa...
Provei a dor, a agonia, a pressão crescente, a necessidade desesperada de...
LibertaçãoEla me apertou contra si, balançando comigo enquanto eu gozava nela, enquanto eu chorava, enquanto eu esquecia até meu próprio nome na glória do corpo dela no meu, bem onde eu precisava, profundamente em mim, perfeitamente em mim, perfeita para mim...
E então, o silêncio quente, pegajoso, suado e delicioso enquanto ela me recolhia contra si e me segurava, com apenas os movimentos mais suaves de entrar e sair com os dedos para me manter preparada, ofegante, sedenta por mais do que ela havia me dado.
Finalmente ela me soltou. Caí para trás, estripada e sem ossos. Ela se acomodou, colocou os dedos molhados no meu seio esquerdo e aninhou a cabeça no meu ombro enquanto desenhava círculos lentos em mim.
— Helen — ela sussurrou no meu ouvido. Virei a cabeça e olhei sem palavras nos olhos dela.
— Meu nome é Helen — ela repetiu, suave como a noite. — Eu só uso Nell por hábito. Queria que você soubesse. Queria que você conhecesse a verdadeira eu.
— Helen — sussurrei. Apertei o rosto contra ela e a inalei, tentando fixar este momento em mim para sempre. — Helen — repeti, mais baixo, mais profundo, deixando o som do nome dela preencher os espaços escuros dentro de mim.
— Gosto quando você diz meu nome assim — ela sussurrou, algum tempo depois.
Aninhei-me em seu pescoço, apreciando o modo como ela estremecia. Plantei um beijo, depois outro, deliciando-me com o leve gosto de sal em sua pele.
— Isso é tão bom — ela murmurou. — Você beija tão suavemente. É tão bom.
Beijei descendo até sua clavícula, e ao redor, e mais para baixo, lentamente, a cada terceiro toque uma pequena mordida com os lábios, até encontrar seu mamilo.
Ela soltou um ruído suave, nem mesmo uma palavra, mas eu sabia o que ela precisava. Então fiz como ela havia feito comigo; tomei suavemente seu mamilo entre meus lábios e aumentei a pressão, rolando lentamente o maxilar de um lado para o outro, como se a estivesse triturando suave e inexoravelmente.
Ouvi o estalar dos dedos de seus pés e ri baixinho para mim mesma.
— Abby — ela choramingou. — Ah, ah, meu Deus...
Ela emaranhou os dedos no meu cabelo e puxou minha boca com mais força contra ela. Mordi, depois beijei a ardência para longe, amando o modo como eu conseguia fazê-la se contorcer contra mim. Mudei, cutuquei, movi para o outro seio, e enquanto a tomava na boca, eu provocava meus dedos pela curva firme e lisa de sua barriga e sobre seu monte quase perfeitamente liso.
Ela estava encharcada, e puxou os joelhos para cima para se abrir, choramingando, para mim enquanto eu provocava a ponta do meu dedo ao longo dela mais uma vez.
Então soltei seu mamilo, e beijei descendo pelo seio, pelas costelas, pelo abdômen, e para baixo, baixo, baixo, ouvindo e amando o modo como o tom de sua respiração mudava enquanto eu ia para o sul.
— Abby — ela arfou. — Abby, amor, não, você não... oh... oh, nossa...
Eu a abri com a língua, ansiando por ela, amando o gosto dela, o cheiro dela, a sensação de seus lábios perfeitos sob a pressão suave da minha língua. Acomodei-me sobre um cotovelo, contente em lambê-la, em provocá-la apenas com a ponta de mim, ouvindo com deleite como ela começava a arfar e gemer a cada lambida.
— Abby, Abby, você está... isso é...
Provoquei a ponta do meu dedo ao longo dela novamente. Senti-a ceder ao meu redor, senti o calor dela, senti-a começar a se entregar e pulsar contra mim enquanto soltava uma longa e monótona sequência de palavrões e meias palavras.
Deslizei meu dedo uma curta distância para dentro dela. Senti-a contrair em mim, ela gemeu alto e longo e se arqueou para cima enquanto cravava as unhas no meu couro cabeludo.
Um tom ofegante e desesperado havia se infiltrado nas palavras que ela ainda conseguia formar, um engasgo a cada arquejo que dava.
Eu sabia que ela amava isso.
Mas eu queria explodir a mente dela. Queria capturá-la, enredá-la, prendê-la...
Hora do meu truque especial, então.
Aninhei-me contra ela, posicionei seu clitóris entre meus lábios e apliquei uma sucção suave, puxando-o para cima e para dentro da minha boca quente e ansiosa. Lambi o nódulo gentilmente enquanto o sugava, e ela cobriu a boca para tentar abafar os sons que começou a fazer.
Uma pontada percorreu meu corpo, um frisson profundo e perfeito. Eu havia acertado. Ela amava isso. E agora eu mostraria o que podia fazer.
Encontrei um ritmo. Uma puxada suave — língua — soltura, repetida em um passo lento que parecia combinar perfeitamente com o que ela precisava, e a cada movimento para dentro de sua pele sobre meu lábio inferior eu deslizava meu dedo mais fundo nela, depois o retirava, curvando-o gentilmente ao sair dela.
Ela começou a tremer, coxas apertando e soltando espasmodicamente em minhas orelhas e bochechas.
Comecei a cantarolar baixinho, e a senti convulsionar contra mim. Os ruídos que ela começou a fazer fizeram meus dedos dos pés se curvarem de prazer.
Ela enrolou os dedos no meu cabelo e empurrou meu rosto com força contra ela. Começou a sacudir e se esfregar contra meus lábios, se lambuzando em mim, quase me machucando com a urgência de sua necessidade; acrescentei um segundo dedo nela e comecei a fodê-la forte e fundo enquanto meu pulso doía pelo ângulo horrível.
Mas eu não me importava. Eu sabia que a estava mandando para o céu, e tudo que me importava era tornar isso tão bom quanto eu pudesse.
Ela merecia.
Porque... eu a adorava.
Adorava o gosto dela, o som de sua voz, o cheiro de sua pele, o calor de seu corpo contra mim e em mim e sobre mim.
Adorava o modo como ela ria, o modo como beijava, a gentileza em como me segurava junto a si, a sensação calma de segurança que me envolvia com suas palavras, a luz que ela trazia ao cinza.
Ela havia me salvado. Ela foi feita para mim. Eu mostraria isso a ela.
Suas coxas tensionaram e tensionaram novamente, uma intensidade crescente enquanto seus dedos cavavam meu couro cabeludo.
— Abby, Abby — ela arfou. — Abby, isso é tão bom, oh Deus, isso é tão bom, nunca é... é... não, por favor, não, por favor, não... oh...
E ela gritou, um som curto e gutural antes de travar a mandíbula para se silenciar. Eu a contemplei, deleitada, por cima da curva obstruente de monte e barriga e seios, a cor alta em suas bochechas, o olhar vago e desesperado... e lentamente aliviei os movimentos frenéticos, abrandei minha língua frenética, deixei que ela diminuísse lentamente pelo outro lado de qualquer altura que eu a ajudara a escalar.
E então, quando ela desabou para trás, ofegante e rindo, eu a montei, rastejei sobre ela, enquadrei suas bochechas com meus dedos encharcados e a beijei, a reclamei, a silenciei, me rendi completamente a ela.
O silêncio nos encontrou; um silêncio quente e exausto de suor e lençóis amassados e sexo e necessidade brevemente saciada. Os dedos dela desenhavam pinceladas lentas e abstratas na base das minhas costas, os meus brincavam suavemente com a pele de sua bochecha. Minha testa pressionada contra sua têmpora, e eu observava o modo como seus olhos se moviam atrás das pálpebras fechadas, o modo como ela continuava tentando encontrar palavras para falar, o modo como continuava falhando em expressar o que quer que estivesse tentando me dizer.
— Você é importante para mim — sussurrei, algum tempo incognoscível depois.
E ela apertou o braço ao meu redor, e fez um som suave — mas ainda não conseguiu dizer nada.
Ela não me soltou; me segurou a noite toda.
E eu estava mais do que contente em ficar ali pelo tempo que ela me permitisse.
.:.— Abby? Acorda, linda.
Um beijo, suave como uma pluma.
Eu choraminei.
— Ei, dorminhoca.
— Mm — consegui. Meu corpo doía, eu não estava pronta para me mexer ainda.
— Abby, linda — por mais que eu ame estar aqui assim, preciso começar a me mexer. Vamos.
— Por quê? — sussurrei, queixosa. — Por que você não pode simplesmente ficar aqui toda linda e pelada?
Uma risada suave, e o rosto dela pressionado ao meu.
— Meu turno começa logo, meu anjo.
— Não quero que você vá.
— Eu sei. Nem eu. Mas preciso.
— É injusto. Você devia ligar e dizer que está doente. Dizer que pegou um caso grave de... alguma coisa.
— Certamente peguei um caso grave de alguém — ela sussurrou, e beijou a pele nua do meu seio. Eu gemi.
— Para. Você vai me deixar molhada de novo e aí eu vou te amarrar mmfh...
O beijo dela me silenciou, e eu rolei em direção a ela e a envolvi em meus braços, segurando-a contra mim.
— Queria que você não tivesse que ir — sussurrei finalmente. — Não é justo. A noite passada foi curta demais.
— Eu sei. Mas... bem, o que você vai fazer hoje à noite?
— Você — declarei, emburrada.
Ela riu e me beijou de novo.
— Claramente causei uma boa impressão — acrescentou.
— A melhor — concordei. Bocejei, me espreguicei e deixei meu braço cair dramaticamente sobre ela. Fingi um ronco, e sorri quando ela riu de novo.
— Gosto da sua risada — eu disse. Era verdade, eu gostava. Era facilmente a risada mais bonita que eu já ouvira.
— Gosto do seu sorriso — ela respondeu. — E da sua língua — acrescentou, maliciosa. — É uma língua muito hábil. — Ela se ergueu até os joelhos, e eu apreciei o modo como seus seios balançavam suavemente enquanto ela se espreguiçava e puxava os dedos pelo cabelo desalinhado.
"Quer uma ducha rápida?" eu disse. "Receio não ter roupas que sirvam em você."
"Tudo bem, tenho algumas peças de emergência no meu armário."
"Para o caso de mulheres estranhas arrastarem você para casa?"
"Você foi a primeira a fazer isso", ela disse, após uma pausa. "É... divertido. Diferente. Eu deveria tentar mais vezes."
O sorriso malicioso dela era contagiante, e eu aproveitei aquilo muito mais do que uma mulher mais sensata teria feito.
"Então... sem ducha? Sua criatura suja."
"Uma de trinta segundos, mas depois tenho que dar o fora."
"Tá bem. Vou fazer chá. Para a esquerda é morno, você precisa girar até o fim para algo escaldante, se é isso que você gosta."
"Obrigado, anjo."
Ela se inclinou para me beijar, depois passou por cima de mim e foi pisando forte até o banheiro. Eu me sentei, bocejei e me levantei. Revolvi minhas gavetas, encontrei um suéter surrado e vesti. Ele caía o suficiente para cobrir minha bunda, então eu não assustaria nenhum vizinho enquanto cambaleava até a minha cozinha minúscula.
Ainda estava escuro lá fora. Eu escutei Nell cantarolando e, por um instante, cogitei a ideia de entrar sorrateiramente para espiá-la. Em vez disso, tirei um elástico de cabelo da minha tigela de quinquilharias e prendi minha bagunça. Liguei a chaleira e procurei o chá.
Era maravilhoso sentar, observando o vapor ondulante enquanto escutava os ruídos suaves que ela fazia ao se mover pelo meu espaço. Ela se encaixava no meu mundo como se tivesse sido feita para ele. Eu me certificaria de que ela soubesse disso.
A xícara dela já tinha infusionado quando ela se juntou a mim. Seu cabelo estava encharcado e escorria pelos ombros; ela riu quando eu me opus a isso e prendi para ela com meu elástico azul fluorescente favorito. O aroma do meu xampu de óleo de melaleuca me envolveu quando ela se aproximou de mim e me abraçou.
"Pare com isso", murmurei. "Pare com isso ou vou atacar você."
"Você fica linda quase sem nada", ela disse. "Estou adorando a forma como seus mamilos estão me olhando."
Senti-me corando, mas não pude evitar dar-lhe um sorriso. "Fico feliz que você aprecie o efeito que causa em mim."
"Ah, confie em mim, eu aprecio."
Ela engoliu o chá escaldante e se certificou de que estava com toda a sua parafernália. Então fez uma pausa.
"Abby?" ela disse, suavemente.
"Sim?"
"A noite passada... foi boa?"
Percorri várias respostas teóricas possíveis, que variavam do sarcasmo ao riso incontrolável, antes de me decidir por uma. Coloquei as mãos nos quadris dela e a beijei com força nos lábios – lento e sensual, como se fôssemos amantes por toda a vida. E quando me afastei, a encarei com aquele olhar ensaiado que Kim sempre chamava de meu olhar de "Venha aqui e me foda".
"Foi perfeita", eu disse. "Mal posso esperar para ver você hoje à noite."
A cautela que eu achava ter sentido no humor dela se apagou. Ela soltou um suspiro alto e trêmulo.
"Graças a Deus", ela sussurrou. "Estava preocupada de ter... interpretado mal."
"Interpretado mal o quê?"
"Que você queria mais do que apenas... a noite passada."
"Helen?" eu disse.
Ela encontrou meu olhar diretamente, por fim.
"Você está prestando atenção?"
"Hum... sim..."
Eu a beijei novamente, minha vagabunda interior se deleitando com o modo como era eu quem a fazia gemer dessa vez, enquanto empurrava minha coxa com força entre as dela e me esfregava contra ela.
Ela se agarrou a mim, ofegante. Eu a apertei contra mim, feliz da vida com a reação dela... e com a minha própria.
"Vá fazer seu turno. Fique segura. Terei algo gostoso pronto para o jantar quando você terminar. E prometo que a sobremesa vai ser... memorável. E só para ficarmos absolutamente, totalmente claras – eu não quero apenas a noite passada, ou uma semana, ou um ano. Eu quero tudo."
O canto da boca dela se contraiu para cima, e ela me abraçou forte.
"Provocadora", ela sussurrou. "Agora vou ficar doendo por você o dia todo."
"Bem feito", eu disse. "Eu brigo sujo. Você vai se acostumar. Vá andando."
E bati na bunda dela quando ela se virou. Ela olhou para mim por sobre o ombro, com um sorriso que ia quase de orelha a orelha.
"Vejo você em breve, anjo", ela disse.
"É melhor que veja."
Escutei os passos dela sumirem pelo corredor.
Observei o mundo lá fora clarear lentamente, do preto ao cinza.
Preparei uma xícara de chá fresco e simplesmente... me regalei... por um tempo.
.:."Sua vadia!"
"Eu sei."
"Foi divertido?"
"Foi... inacreditável. Ela é... muito, muito habilidosa."
"Estou quase com inveja", Kim riu. "Não me entenda mal, Grant é muito dedicado. Mas tem uma pequena parte de mim que sempre vai se perguntar, você sabe. Como são as garotas, quero dizer..."
Eu sorri maliciosamente. "Você não é nem remotamente bi, Kim. Você só está excitada."
"Hum. Talvez. Talvez eu convença Grant a me encontrar para o almoço."
"Você vai quebrar ele", eu disse. "Ugh, falando nisso, estou toda dolorida."
"Parece que foi uma farra e tanto", ela riu.
"Hum. É mais que estou muito fora de prática. Ela me abraçou a noite toda, Kim. Ela nunca me soltou."
"... oh, querida. Você está muito apaixonada, hein."
"Sim", suspirei. "Estou."
Observei os prédios passarem pelas janelas. Uma sirene soou em algum lugar na distância abafada, e pensei em Nell.
Suspirei, mas não foi meu suspiro de sempre.
"Você está bem, querida?"
"Eu... acho que sim. É estranho. Dói, mas não dói. Eu... não consigo colocar em palavras direito, sabe o que quero dizer? É só que... foi tão bom acordar ao lado dela. Faz tanto tempo, Kim. Eu tinha esquecido como era essa sensação. E é bom ser... desejada."
"Devíamos sair em um encontro duplo", Kim disse. "Para Grant e eu conhecermos ela."
"Eu preferiria enredá-la completamente antes que vocês dois a assustem, se estiver tudo bem para você."
Kim gargalhou. "Nós não somos tão ruins assim... somos?"
"Vocês são como irmãos hipervigilantes – não machuquem nossa frágil irmãzinha ou vamos matar vocês até que peçam desculpas."
"É porque amamos você, você sabe", ela disse.
"Eu sei", respondi, sorrindo. "Algum dia vou contar quantas noites esse conhecimento me ajudou a superar."
"Hum. Tá, preciso ir. Falo com você depois?"
"A menos que eu esteja com a língua enfiada..."
"Eca! Deus, Abby, a imagem. Mwa, mwa, amo você."
Ela desligou, e eu sorri para mim mesma.
Então levantei meu celular, tirei uma selfie e a enviei para Nell.
Abby: A caminho do trabalho, com saudades. Tenha um ótimo dia, mal posso esperar para te abraçar de novo. x Nell: Deus, como eu queria ainda estar nos seus braços Abby: Foi muito bom acordar ao seu lado Nell: foi a melhor manhã de que consigo me lembrar <3Sorri para mim mesma, enviei um coraçãozinho pulsando de volta e observei a luz do sol no Tâmisa enquanto meu ônibus avançava lentamente sobre a Tower Bridge.
O dia passou como de costume; uma névoa de reuniões e tarefas administrativas cortando os minutos da minha vida lasca por lasca. Mas pequenas gotas de mercúrio agora começavam a chover na minha vida; beijos soltos, sorrisos e outros símbolos variados que piscavam na tela do meu celular quando e se Nell tinha um momento para respirar.
E cada um deles me deixava agitada – fazia anos que eu não tinha romance, anos desde que alguém mostrava que estava pensando em mim da maneira como eu desesperadamente desejava ser pensada. Eu havia me acostumado com quase-encontros – beijos roubados em baladas, encontros que se transformavam em obrigações, faíscas que não acendiam, uma ou duas fodas rápidas e sujas com anônimos que semeavam campos cheios da papoula do arrependimento. Eu estava acostumada a ficar sozinha. Mas isso não significava que era o que eu queria.
Nell acendeu cada faísca moribunda em mim em um único e furioso inferno.
Quase tudo que eu conseguia fazer era pensar nela e no quanto eu gostava dela.
Comi meu almoço em algum lugar tranquilo e ensolarado, e mandei para ela uma dica do meu decote para mantê-la aquecida.
Me infiltrei numa sala de reunião e gravei um suave e sensual "Coloque esses lábios em mim", que enviei voando para ela.
E, com o rosto queimando, parte de mim horrorizada comigo mesma... tirei uma selfie em um dos pequenos banheiros privativos. Tirei a roupa, posei e fotografei... então cortei a foto para que ela visse que eu estava nua, mas não visse nada... revelador demais sem merecer com beijos primeiro.
Meu próprio corpo estava em chamas. Eu nunca me senti tão subindo pelas paredes por ninguém – algo nela simplesmente funcionava para mim de um jeito que ninguém mais na minha experiência limitada sequer insinuou ser capaz.
Tudo em que eu conseguia pensar era sentir os lábios dela em mim novamente. Tudo que eu queria era sentar no colo dela, minhas coxas abertas sobre ela, e beijá-la enquanto ela brincava comigo e me tomava e me reivindicava.
Saí mais cedo, alegando um compromisso. Passei na Marks and Spencers e escolhi duas garrafas de vinho realmente boas para nós e uma terceira para cozinhar, depois entrei rapidamente em um açougue independente para pegar dois pedaços de filé mignon bem caros.
Eu demonstraria minha habilidade na cozinha, decidi. Eu a impressionaria com minhas capacidades – as lições de muito tempo atrás nas quais investi para mim mesma quando precisava de algo, qualquer coisa, que me fizesse sentir bem comigo mesma.
E então eu a levaria para a cama novamente e, provavelmente, a algemaria lá para que ela não pudesse fugir...
Alimentá-la, então fodê-la, e depois foder de novo, pensei, corando.
A noite foi chegando. Eu me ocupei com o preparo da comida, tomando muito cuidado para ser precisa e caprichosa em tudo. Preparei o gratinado de batatas e cortei as chalotas para o molho. Servi uma taça de vinho e a sorvi cuidadosamente; eu não podia me dar ao luxo de ficar tonta quando ela chegasse sóbria, porque queria me exibir para ela e não afastá-la. Para isso, desenterrei meu vestidinho preto favorito com lingerie combinando, e alisei meu cabelo com minha confiável GHD. Um toque de batom ameixa e eu me senti pronta para arrasar; uma olhada no espelho confirmou que eu estava pelo menos nota sete esta noite. Sorri, animada pela camada de armadura que eu havia me dado, e limpei o que precisava ser limpo.
Nell: no seu ônibus. Chego em quinze minutos, mal posso esperar para censurado censurado vocêEu ri.
Abby: ah, então é só censurado censurado? Bem, eu planejo censurado censurado e depois censurado, com um censurado censurado também. Nell: Você é estranha. Nell: e eu adoro issoE eu sorri, feliz por conseguir fazê-la entrar na minha provocação.
Abby: ocupada com o jantar, você precisa que eu vá te encontrar ou você consegue me achar? Nell: mais do que capaz de te achar, anjo. Vejo você em breve xoxoColoquei o gratinado no forno. Coloquei as chalotas para dourar na manteiga. Abri a porta da frente do prédio para ela e corri para a minha porta quando ela bateu. Escancarei a porta e praticamente pulei nos braços dela, arrancando um "Ufa" abafado e um abraço imediato enquanto eu me aninhava contra ela.
"Senti saudades", suspirei.
"Ai, meu Deus, Abby, você está incrível! Isso tudo é... para mim?"
"Uma parte é para mim", admiti. "Eu... precisava do impulso. Para me sentir mais bonita para você..."
"Mais bonita! O quê? Você não precisava. Realmente, realmente não precisava", ela disse. Ela emoldurou minhas bochechas e me beijou, depois me beijou de novo.
"Oi", ela acrescentou, sem fôlego. "E pare de se preocupar, acho você a garota mais bonita que já conheci, e isso não vai mudar. Uau. Você não faz ideia do quanto eu quis fazer isso o dia todo."
"Alguma ideia, eu acho", consegui dizer. "Vamos. Você precisa de vinho."
Peguei a mão dela desajeitadamente e a arrastei pela soleira, chutando a porta para fechar atrás dela. Ajudei-a a tirar a jaqueta e a pendurei para ela; a abracei forte e lhe dei mais um beijo, e então a rebouquei até o balcão da cozinha e a instalei lá.
"O dia foi bom?" perguntei, hesitante.
"Tranquilo, graças a Deus. Nada grave hoje – só umas velhinhas tropeçando e alguns acidentes de carro e... ai, meu Deus, Abby, isso é... filé?" ela perguntou, esticando o pescoço.
"Não exatamente. Quando estiver pronto, vai ser Chateaubriand."
"Você está brincando comigo?" ela exigiu. "Você cozinha também?"
"Um pouco, para as pessoas realmente especiais..."
"Ah, minha alma fodida. Devo ter sido uma garota muito boazinha em minhas vidas passadas."
"Não me elogie até que esteja pronto", eu a avisei. "Faz um tempo desde que cozinhei isso e requer um toque delicado."
"Como se você tivesse qualquer outro tipo de toque", ela disse, sorrindo.
Corei, sorri e servi vinho para ela. Batemos os copos, e eu a encarei sobre a borda do meu enquanto ela dava um gole lento.
"Certo", eu disse. "Hora de eu ganhar meu sustento."
Toquei no meu celular e a música cresceu. Os olhos dela se arregalaram, então ela sorriu e se acomodou contra o balcão.
"Vou só ficar aqui sentada e observar você por um tempo", ela disse, suavemente. "Admirar você está rapidamente se tornando meu lugar feliz."
"Isso", declarei, "estará muito bem para mim."
O Chateaubriand foi um sucesso, a julgar pela maneira reverente como ela deu a segunda e as mordidas seguintes.
A ducha quente que insisti que ela tomasse depois de relaxarmos um pouco também foi muito bem recebida.
Mas foram as pantufas fofinhas lilases que eu tinha deixado para ela que, acho, foram o ponto alto da noite.
Ela ficou parada por um momento, contorcendo os dedos dos pés nelas e se regalando, com o sorriso mais perfeito e inocente no rosto. Então ela se arrastou até mim e se derreteu contra mim.
"Você é muito ruim para mim", ela sussurrou, com um estranho nó na voz.
"Não. Acho que você vai descobrir que eu sou muito, muito boa para você", respondi. Sorri para ela, me empurrei contra ela e a beijei.
.:."Abby?"
"Hum."
"Você vem para a minha casa amanhã?"
"Tá bem."
"É que... eu preciso de roupas e outras coisas. Estou sem nada no trabalho, então preciso ou ir para casa bem cedo ou então amanhã à noite..."
"Tá bem. Já disse que sim."
"Ah", ela disse. Ela riu, suavemente. "Isso foi fácil."
"Mhmm."
Me aconcheguei mais perto dela, enterrando o rosto em seu pescoço. Inspirei e expirei.
"Adoro o seu cheiro", sussurrei. "Adoro como me sinto segura aqui, nos seus braços. Adoro como tudo o mais para de importar. Não me lembro de jamais ter me sentido assim."
O braço dela se apertou ao meu redor.
"Você me aquece", ela rosnou. "Você aquece cada pedacinho de mim. Esses últimos dias... Dave sabe que algo está acontecendo, vou ter que contar a ele sobre você. Ele vai gritar como uma garotinha. Vou gravar para você ouvir também."
Sorri para mim mesma. "Então isso significa que estamos... oficiais?"
Ela se moveu para poder me lançar um olhar imperioso. "Alguma vez não estivemos?" ela perguntou. "Eu fui... bem direta sobre isso."
"Hum. Sim, você foi. Mas... bem..."
"O que foi?"
"Eu não sou... quero dizer, eu nunca... hum..."
"Esteve.... com alguém?"
"Não de longo prazo, não."
"Por que diabos não?" ela sussurrou. Ela ergueu os dedos até meu rosto e tocou suavemente minha bochecha. "Perda deles então – você é... maravilhosa."
"Ninguém nunca me quis", eu disse, me esforçando para manter as palavras leves e brincalhonas.
"Até agora", ela me corrigiu. "Porque eu quero isso – e você. E sim, isso me faz soar realmente desequilibrada e obsessiva e provavelmente há muitas razões muito boas pelas quais você não deveria estar considerando nada comigo, mas... mas... Abby, eu honestamente acho que parte de mim se apaixonou por você na primeira vez que a vi. Você estava lá deitada, e eu estava fazendo tudo ao meu alcance para mantê-la aqui, e... e tinha esse pedacinho louco em mim que simplesmente não se calava sobre como você era linda, e como eu queria poder conhecer alguém como você de um jeito normal. Eu sou mais do que só um pouquinho desequilibrada", ela acrescentou ironicamente.
"Só não se transforme em uma daquelas esquisitas que sentem prazer em dormir com garotas adormecidas", eu a provoquei.
"Ah, isso eu nunca faria", ela protestou. "Você faz os melhores barulhos quando está acordada."
"Que barulhos seriam esses... oh... oh por-hra..." eu gemi, enquanto ela lentamente enfiava dois dedos fundo dentro de mim.
"Esses barulhos", ela respondeu, antes de me beijar e me tomar.
Ela foi embora enquanto os pardais ainda roncavam; me beijando até eu acordar o suficiente para conseguir algo parecido com um aconchego de volta.
"Preciso pelo menos pegar calcinhas sobressalentes", ela riu, enquanto eu fazia o possível para mantê-la comigo. Resmunguei e escorreguei da cama, acompanhando-a nua até minha porta e me escondendo parcialmente atrás dela enquanto a beijava para se despedir, e se despedir de novo.
"Esta noite, na minha casa", ela sussurrou sem fôlego. "Eu cozinho, pelo que isso vale – minha vez. Tenha um dia incrível, anjo, e se mantenha quente, vai ser um dia ventoso."
"Você também", respondi sonolenta. "Já estou com saudades."
Ela me apalpou; eu me contorci sem muita convicção, e lhe dei mais um beijo para dar sorte. Então me inclinei, observando até ela chegar nas escadas, antes de fechar minha porta e me esgueirar de volta para a cama.
Me mudei para o lugar dela e afundei o rosto no travesseiro. Eu podia sentir o cheiro dela ali, e isso ajudava com o súbito vazio do meu apartamento. Cochilei, e sonhei acordada, e lentamente o mundo ficou claro novamente, embora as nuvens baixas e velozes vindas do oeste significassem que a claridade seria abreviada.
E então tomei um banho quente, lavei o cabelo e depilei minha mata rebelde, reduzindo-a ao menor dos triângulos... até que me irritei e a rapei completamente.
Passei os dedos sobre mim mesma. Fazia anos desde a última vez que estivera tão lisinha; anos desde que a linha dos meus lábios se destacava tão orgulhosa e clara para o olhar de uma amante esperada.
Era diferente saber que era para ela. Que ela me despiria e suspiraria ao ver o que a aguardava. Eu já quase podia ouvir o gemido, sentir o calor da língua dela em mim...
Um tremor me sacudiu. Combati a tentação de me tocar, de me abrir, de me penetrar.
Eu não faria isso. Agora eu era dela; e ela era tão melhor nisso do que eu jamais fora.
Então redirecionei minha energia para depilar minhas pernas, deixando-as lisas como seda e pálidas como nuvem. Dei leves batidinhas em um corte até parar de sangrar, e então me limpei.
Envolvi-me no meu roupão. Vasculhei meus armários, decidindo-me por fim por um vestido de lã de mangas compridas até o tornozelo, cujo verde-floresta profundo sempre valorizara minha forma e minha pele pálida. Escolhi um sutiã preto macio do tipo que Nell parecia adorar tirar de mim, e calcinhas transparentes para combinar. Adicionei meias-calças pretas finas para acompanhar e manter minhas panturrilhas e tornozelos aquecidos.
Sequei o cabelo com secador e o deixei cair solto; a onda natural parecia apropriada para minha nova sensação de centramento - e Nell admitira (entre beijos) que adorava o jeito como ele caía sobre meus ombros quando eu o soltara.
Por fim, vesti-me e escolhi um batom discreto e uns brincos de pingente de prata que não usava havia um tempo. Peguei um par de botas marrons simples e me avaliei.
Quase perfeita. Só um cachecol de cashmere creme, e voilà.
Tirei uma foto minha e a enviei para ela.
Abby: para você me reconhecer quando eu chegar... Nell: meu Deus, anjo <3 tão lindaSatisfeita, saí e fechei a porta atrás de mim.
O dia poderia se arrastar, mas não importava o quanto, eu sabia que o terminaria nos braços dela.
Eu não precisava de mais nada, porque não havia mais nada de que eu precisasse.
.:.Forcei meus nervos a se acalmarem e vesti um sorriso enquanto esperava que ela abrisse a porta. Verificara - duas vezes - se estava no lugar certo, e olhava com curiosidade para a pequena selva de vasos de plantas e treliças de vinhas que decoravam o estreito "jardim" frontal tão típico dos terraços londrinos.
Passos soaram mais próximos, e uma corrente chocalhou. Então a porta se abriu de repente e Nell estava ali, sorrindo. Seus olhos se arregalaram e o sorriso desapareceu por um momento antes de retornar, amplificado.
"Meu Deus", ela disse. "Você parece que acabou de descer do meu próprio paraíso pessoal."
Ela segurou minha mão e me puxou para si, e riu baixinho com o suspiro que soltei ao sentir os braços dela se fecharem ao meu redor.
"Oi", respirei, encantada com a reação dela ao meu embelezamento.
"Oi para você também, anjo. Entre. Está frio aí fora."
Ela me conduziu para dentro e fechou a porta atrás de mim. Entreguei-lhe meu casaco e o cachecol de cashmere, e ela pendurou ambos sobre os dela em um velho cabideiro de latão atrás da porta. "Pam está de plantão à noite esta semana", disse ela, "então somos só você e eu."
"Parece minha ideia de paraíso", eu disse.
Ela pôs a mão na minha bunda e me empurrou por um metro de corredor até a cozinha e área de jantar aconchegante. Uma porta de correr dava para um jardim minúsculo e escuro; vislumbrei mais vasos e treliças.
"Ainda está um pouco frio para sentar lá fora", ela disse, notando minha curiosidade. "Pam é uma jardineira brilhante. Você vai gostar do lugar no verão. É como Kew, só que mais íntimo."
"Acho que vou gostar", concordei com um sorriso. O sorriso dela estava meio bobo (provavelmente como o meu, na verdade) e ela ficou um momento só me olhando.
"Deus, é tão bom ter você aqui", ela disse. "Torna tudo mais real, de algum jeito. Claro, ainda posso estar sonhando..."
Empurrei-me contra ela e a beijei.
"Ainda parece um sonho?" provoquei.
"Poderia ser - só que um muito, muito bom. Talvez outro beijo... quebrasse a ilusão... mmmph..."
Beijei-a até ter que me afastar, rindo. Ela me apertou contra si e encostou o nariz na minha têmpora.
"Não sei o que fiz para encontrar você, mas estou feliz", ela sussurrou. Uma tossida para limpar a garganta e ela me soltou. "É... delivery, receio", disse ela. "Nunca aprendi realmente a cozinhar muito além do básico, então..."
"Delivery parece maravilhoso", eu disse baixinho, tocando os lábios dela para silenciá-la. "Não estou aqui pela culinária; isso é só um dos meus fetiches mais facilmente descobertos. Estou aqui por você."
"Você sempre diz as coisas mais doces", ela disse.
"Aprendo bem", respondi. "Temos vinho?"
"Temos... porra. Sou uma idiota e você é muito distrativa. Dois segundos..."
"Então... o que é?" perguntei.
Ela semicerrara os olhos para a garrafa que tirara de uma pequena estante de vinhos.
"Parece um Beaujolais..."
"Eu quis dizer o jantar, boba", ri.
"Ah. Ah. Certo. Hum... tem um lugar coreano a duas ruas daqui que faz Kimbap e tal..."
"Kimbap? O que é isso?"
"Ah. Hum... tipo rolinhos Maki. Mas com ingredientes cozidos às vezes... hum... olha, posso fazer uma confissão rapidinho?"
"Sim?"
"Eu estava... sem tempo e sem inspiração. Queria fazer algo legal, e como sempre estraguei tudo e..."
"Helen?" eu disse, segurando a mão dela na minha.
"... sim?"
Fitei-a por um momento, arregalando os olhos, deixei que ela me *visse*.
"Comida coreana quase-Maki de última hora parece absolutamente incrível para mim."
"Ah é? Ah. Que bom", ela disse, trêmula. "Tem certeza? Não quero estragar isso, Abby, não quero perder você por algo..."
Tirei a taça de vinho dela e a coloquei em segurança no balcão.
Envolvi-a em meus braços e apenas a segurei contra mim.
"Não se estresse tanto", sussurrei. "Você teria que se esforçar muito para me perder agora."
"Posso... ter isso por escrito, por favor?" ela sussurrou.
"Mm. Talvez mais tarde. Por enquanto, só me abrace."
E ela me abraçou.
A comida coreana aleatória de última hora estava excelente, o vinho era bom, mas foi o brilho nos olhos dela e o sorriso que ela muitas vezes esquecia que estava usando que realmente fizeram a noite para mim.
Olhamos para o sofá dela quando o jantar terminou, então ela sorriu e deu de ombros.
"Minha cama?" ela sugeriu.
E eu desfilei lentamente em direção à escada, cruzando os braços atrás das costas enquanto soltava o fecho do meu colarinho. Lancei-lhe um olhar enquanto descia o zíper parcialmente.
"Vem?" eu disse.
"Em breve, acho", ela respondeu, a voz ficando deliciosa e rouca.
Eu ri e subi as escadas. Ela me seguiu de perto.
"Esquerda", ela disse, e me guiou para um dos dois quartos. Ela me deixou olhar ao redor do quarto enquanto se encostava na parede e me contemplava.
Luzinhas de fada estavam presas no teto, piscando como vaga-lumes suaves de âmbar-dourado. Gaze cor de vinho e dourada drapejava a cabeceira de sua cama, pingentes pendiam das janelas, e um espelho antigo com moldura dourada ficava acima do que funcionava como sua cômoda.
"Eu sempre quis ser uma princesa, sabe", ela disse baixinho.
"É lindo."
"É... vergonhoso", ela discordou. "Mas... ei, sou eu, suponho."
Eu deslizei para mais perto dela. "Me sinto em casa aqui. Você pode ser minha princesa, eu serei seu dragão."
"Preferia que você fosse apenas minha amante", ela disse suavemente.
"Apenas sua amante?" provoquei, antes de girar para longe dela. "Me desabotoe", acrescentei. "Não quero nada entre nós."
Seus dedos estavam quentes nas minhas costas; fiquei imóvel enquanto ela provocava o metal frio do zíper descendo.
"Empurre as mangas para fora dos meus ombros", respirei.
Ela obedeceu, e plantou um beijinho suave no meu ombro esquerdo enquanto o descobria.
Senti o tecido cair até meus quadris e se acumular ali; olhei para ela por sobre o ombro e sorri enquanto ela o incentivava a sair de mim.
"Agora meu sutiã", sussurrei.
E ela me libertou daquilo também. Ela estava franzindo a testa agora, a boca entreaberta enquanto eu lentamente girava e me expunha novamente para ela. Empinei os ombros, apresentando-me, embrulhada para presente.
"Deus, Abby", ela gemeu. "Nunca vou me cansar disso."
"É melhor que diga isso", eu disse enquanto colocava a mão no cós de seu jeans e soltava o botão. Deslizei as mãos para dentro do tecido, passando os dedos pelos quadris maravilhosos dela até o topo de sua bunda, segurando-a ali enquanto começava a roçar contra seu queixo e pescoço.
"Você tem gosto salgado", acrescentei.
"Suando", ela sussurrou. "Você me deixa louca."
"Gosto de deixar você louca", concordei. Libertei minhas mãos e abaixei seu jeans sobre sua bunda e coxas. Ela se remexeu e ergueu primeiro um joelho e depois o outro; chutei a peça de roupa para o canto.
"Tenho uma surpresa para você", eu disse.
"O que é?"
"Feche os olhos e me dê sua mão."
Ela me lançou um sorriso divertido, mas fez como eu pedi; tomei sua mão com a minha e lentamente, provocativamente, lambi seu dedo indicador. Sua boca se abriu, ela gemeu, e eu a beijei uma vez - suavemente - apenas para provocá-la um pouco mais.
"Sem espiar", arfei, enquanto puxava minha calcinha para baixo e colocava os dedos dela em mim.
Eu me curvei para frente quando ela instintivamente deslizou os dedos ao longo dos meus lábios e me abriu, grunhindo asperamente enquanto me puxava contra si.
"Você... se depilou?" ela sussurrou.
"Uhn... huhn..." arfei. "Queria estar... pelada para você. Para que... você pudesse descer em mim... se talvez quisesse..."
"Você é uma provocadora do caralho, Abby."
Ela me empurrou para trás; caí em sua cama com um grito abafado. Antes que eu pudesse recuperar o fôlego, ela estava me beijando, beijando meus seios nus e barriga, descendo, descendo, descendo até mim.
Eu gritei, me arqueei para trás quando ela forçou a língua ao longo de mim.
"Sonhei com isso", ela grunhiu. Ela segurou minhas pernas, ergueu-as sobre seus ombros e retornou a mim, lambendo-me enquanto eu cravava as unhas em seu couro cabeludo e tomava um fôlego desesperado.
Meus dedos do pé estalaram quando ela me penetrou com seu dedo. Eu não conseguia falar, não realmente, estava presa em algum mundo louco de sombras onde eu desesperadamente precisava que ela fosse mais devagar e ainda mais desesperadamente precisava que ela me possuísse.
Sua língua estava quente em mim, quente e dura, quente e hábil, lambendo ao redor do pequeno capuz do meu clitóris que endurecia. Eu não conseguia recuperar o fôlego, não conseguia pensar, não conseguia fazer nada exceto gemer e miar e arranhar enquanto ela... me tomava.
Ela acrescentou um segundo dedo; minha visão escureceu. Ela curvou as pontas dos dedos e aplicou pressão no fundo de mim; eu gritei algo gutural e profano.
O tempo... se esticou.
Luzinhas de fada âmbar dançavam no ar; suor porejava em meus lábios. Minha respiração estava irregular, minha garganta seca de tanto arfar.
Ninguém nunca tinha feito *isso* comigo. Ninguém nunca tinha me deixado indefesa assim.
Ela era tão, tão *boa* naquilo.
Eu podia sentir minhas coxas nuas grudando em suas bochechas. Podia sentir os arquejos desesperados que ela soltava enquanto tentava não quebrar seu ritmo.
Eu podia sentir minhas costas começando a travar, minha barriga começando a enrijecer, minhas coxas começando a pulsar a cada lambida que me levava ao auge.
"Goza para mim", ela arfou. "Goza para mim, anjo, goza para mim..."
Ela acrescentou um terceiro dedo urgente - me esticando muito além da minha necessidade normal, me virando do avesso...
Eu gritei.
Eu me projetei para cima, agarrando a cabeça dela contra mim; esfregando meu clitóris e monte púbico com força contra sua boca, provavelmente machucando seus lábios, mas sem me importar, sem me importar com nada exceto a agonia e êxtase puros e incandescentes do momento, dela em mim, em mim, seus lábios, sua língua, meu corpo em chamas...
O momento passou; flutuando para longe, para longe. Eu desabei, sem fôlego, dolorida...
"Ai", protestei baixinho. "Ai. Meu Deus. Ai."
Ela saiu de dentro de mim e me olhou, sua testa franzida rapidamente se transformando em horror.
"Merda", ela sussurrou. "Abby, eu..."
"Sim", respondi. Ela inspirou - sem dúvida para se desculpar, para implorar... Não lhe dei a chance; agarrei-a, puxei-a para cima, beijei-a com força.
"Mmmph..." ela protestou. Ela se contorceu, tentando se afastar, desesperada para realizar algum ato desnecessário de autoflagelação...
"Pare, pare, pare", arfei. "Pare. Estou bem. Adorei. Não se preocupe. Pare. Vem aqui. Vem aqui..."
E me agarrei a ela, tremendo, deslizando para baixo do meu pico enquanto ela enterrava o rosto no meu pescoço e me segurava.
"Sinto muito, eu não..." ela choramingou por fim. Eu podia ouvir dor crua em seu tom. Eu não podia deixar aquilo criar raízes.
"Não. Não. Eu teria dito para você parar se precisasse. Aquilo foi... intenso. Nunca tive nada assim. Eu não estava totalmente pronta. Uau. *Uau*", repeti. Gemi quando meu corpo estremeceu. "Ai, ai, Deus... Nell, Helen, querida, estou bem, está tudo bem... só... você me pegou de surpresa. Só seja... mais lenta. Da próxima vez. E me avise. Uau. *Uau*. Me fode. Me fode, aquilo foi *especial*."
"Você... tem certeza?" ela sussurrou. "Odeio que eu..."
"Pare", respirei. Eu a beijei, beijei de novo. "Pare. Foi ótimo. Só... não pode ser assim o tempo todo. Às vezes eu preciso de delicadeza também", acrescentei, sorrindo. "Mas... é bom saber que você tem *aquilo* dentro de você."
Eu a olhei, então acariciei sua bochecha.
"É bom ser desejada com essa intensidade", acrescentei. "Sobe aqui."
Eu me afastei um pouco e a deixei se esticar ao meu lado.
Ela se deitou ao meu lado, me encarando.
"Então..." eu sussurrei. "Você gosta de mim assim?"
"Na minha cama?" ela disse, suavemente.
"Pelada, na sua cama."
"Sim."
Nós nos encaramos pelo que pareceu um século, antes que ela piscasse e olhasse para baixo e para longe.
"Me diga o que você quer", eu respirei.
Ela franziu a testa, tomou fôlego, mas não falou.
"Me diga", pedi novamente. "Não seja tímida. É tarde demais para isso agora."
"Quero que você me lamba de novo", ela respondeu de uma vez. "Quero... esquecer meu nome. Por um momento ou dois. Como fiz da última vez. Você me fez esquecer tudo. Me faça esquecer tudo de novo", ela sussurrou.
Eu rolei para ela, e a recolhi para mim. Eu a confortei, e a beijei, e beijei descendo por ela até ela.
E de alguma forma, entre uma coisa e outra... eu fiz o que ela precisava que eu fizesse.
.:.Era cedo.
Eu estava exausta. Ela era minha concha grande, e eu estava no paraíso, envolta em seus braços, cochilando em algo próximo à catatonia.
Ela, no entanto, ainda estava acordada o suficiente para causar problemas.
"Abby?"
"Mmf."
"Tenho outra coisa que quero", ela sussurrou, depois de um longo silêncio.
"Mm", eu disse, meio adormecida novamente contra ela. "Gulosa. Ok. Mm. Me diga."
"Eu quero ser amada."
As palavras foram tão suaves que quase não as captei. Um caco pontiagudo de dor me trespassou; dor por ela, dor que eu conhecia porque a sentira tantas vezes eu mesma.
Eu me remexi, serpenteie, rolei.
Seus olhos estavam fortemente fechados; os músculos de sua barriga tremiam enquanto ela tentava suprimir qualquer ataque de escuridão da calada da noite que a tivesse tomado.
Eu a encarei, a esta criatura linda e frágil que aterrissara na minha vida como um meteoro, destruindo e reordenando tudo que eu um dia pensara reconhecer.
Eu sabia a resposta que lhe daria. Era uma resposta fácil, porque era verdade.
Ela era meu raio, meu golpe do nada.
"Helen?"
"Mm."
"Você está prestando atenção?"
Ela abriu os olhos. Lágrimas brotavam nos cantos; ela conseguiu um sorriso irônico e cheio de auto-ódio.
"Patética, não sou?" ela sussurrou.
"Não. Não é patética", discordei. Beijei uma bochecha, depois a outra. "Só... precisando encontrar a pessoa que está desesperada para encontrá-la. Então... aqui está o que você precisa prestar atenção. Você está pronta?"
"... sim."
"Você é amada", eu disse. "Por mim. Total e irrevogavelmente. Agora vá dormir. Vai amanhecer logo e eu preciso do meu momento de tranquilidade aqui nos seus braços."
Ela empurrou o rosto contra mim.
Ela fungou uma vez.
"Ok", ela sussurrou.
Eu fiquei ali, olhos fechados, imóvel, até ouvi-la começar a roncar suavemente.
Sorri, e me aconcheguei mais perto.
Eu encontrara minha pessoa; eu encontrara meu lugar.
Bocejei, e bocejei de novo, e me instalei contra minha amante.
E dormi.