Contos eróticos para ler inteiros.

Corno e Traição

O Quarto Oculto

taianabrilhante36 min

Deixe-me contar sobre aquela manhã — porque se eu não contar, nada do que vem depois vai parecer real. Aquela foi a última manhã em que acreditei que éramos inteiros.

A cozinha brilhava com um dourado suave, aquele tipo de luz filtrada da manhã que faz tudo parecer perdoado. As persianas cortavam o sol em fitas nítidas no chão. Eu as vi se dobrar sobre o formato da mesa, sobre a coxa nua dela, onde tinha dobrado a perna sob o corpo, e por um instante pensei: isso é paz.

O cheiro de manteiga na torrada ondulava no ar, doce e denso. O café estava passando, lento e escuro. Eu ouvia pássaros cantando em algum lugar lá fora, perto da janela entreaberta da cozinha. A torneira pingava uma vez a cada dez segundos. Eu reparei nisso.

Amy estava cantarolando. Não era uma música — só um som que vivia no peito dela, sem timidez. Ela se movia pela cozinha como se pertencesse a ela de novo, como se o corpo dela se lembrasse do lugar onde costumava se encaixar ao lado do meu. Ela vestia uma das minhas camisas velhas, aquela com um furinho perto da gola. As pernas estavam nuas. Fios úmidos de cabelo grudavam na nuca. Ela passou atrás de mim para pegar algo no armário, e ao fazer isso, os dedos roçaram a base das minhas costas. Eu não recuei. Não me afastei. Deixei acontecer.

Eu queria acreditar que estávamos bem.

Ela se sentou à mesa com o café, envolveu as mãos na caneca como se fosse a única coisa que a mantivesse ancorada. Não olhou para mim. Só olhou pela janela, a luz do sol cortando seu rosto.

E naquele silêncio, naquele calor, pensei que tínhamos conseguido. Estávamos perdidos, mas havíamos voltado. Ou perto o suficiente para que eu me permitisse respirar de novo.

Parecia que estávamos virando uma esquina. Como se o que tínhamos perdido tivesse sido apenas extraviado — enterrado sob o peso do trabalho, dos anos e da distância. Mas ali estava de novo. Nós.

Eu não sabia naquela hora, mas me lembraria daquela manhã não como um momento de paz — mas como a última vez em que ainda estava dentro da ilusão.

Aquela foi a manhã em que tudo deveria parecer seguro. E por cerca de cinco minutos, eu deixei que fosse.

---

Ela tomou um longo gole da caneca, e algo no jeito como a segurava — apertado, como se as duas palmas precisassem do calor — chamou minha atenção. Os olhos dela estavam na janela, mas não realmente. Uma quietude se formava ao redor dela, quietude demais.

Então ela falou.

"Posso te perguntar uma coisa?"

Ela não se virou para me olhar. Apenas manteve a voz suave, como se tivesse medo de acordar algo.

"Claro", eu disse. Ainda de pé no fogão, ainda sorrindo, ainda idiota.

"Você acha que estamos melhor? Nós?"

Eu ri. Não porque fosse engraçado, mas porque estava aliviado. Achei que sabia o que ela estava perguntando. Achei que ela queria garantia.

"Sim", eu disse. "Melhor do que nunca."

Eu acreditava naquilo. Teria apostado tudo. E por um segundo, achei que era isso que estava acontecendo — um momento para dizermos em voz alta. Para nomear a coisa melhor que reconstruímos juntos. Desliguei o fogão, enxuguei as mãos num pano de prato e caminhei para a mesa.

"Por quê?", perguntei, sorrindo. "Você não acha?"

Ela não respondeu. Não imediatamente. Ainda estava olhando pela janela como se isso lhe oferecesse uma saída. Ou talvez como se não quisesse ver como eu ficaria quando ouvisse o que ela estava prestes a dizer.

E eu — Deus, eu ainda achava que estávamos bem.

Ela assentiu, lento e pequeno. Quase para si mesma. O olhar dela finalmente se descolou da janela e pousou em algum lugar na mesa entre nós, como se o contato visual a fizesse engasgar.

"Isso me deixa feliz", ela disse. "Eu tenho trabalhado muito para melhorar as coisas."

Havia um leve tremor na voz dela. Não era medo. Não era tristeza. Algo mais próximo de cautela, como alguém pisando com cuidado sobre um lago congelado.

Ocupei a cadeira à frente dela, ainda morna de onde ela estivera. Minha mão se estendeu até a metade da mesa antes de perceber que ela não estava estendendo a dela de volta. Deixei-a cair na madeira.

Eu estava sorrindo. Lembro disso. Como um idiota. Estava sorrindo porque achava que aquilo era uma história de amor.

"Você trabalhou", eu disse. "Eu senti. Tudo isso. Tudo tem estado—"

"Eu sei", ela interrompeu. "Eu também."

Aquele foi o momento.

Não as palavras que vieram depois. Não a confissão. Só aquele instante — o batimento antes de tudo se romper. Quando tudo ainda soava verdadeiro.

Eu tenho trabalhado muito para melhorar as coisas.

Ela acreditava naquilo. De verdade.

E é por isso, acho eu, que doeu tanto mais.

Ela baixou o olhar. Os dedos traçaram a borda da caneca de café. Houve uma pausa — longa o bastante para meu coração bater uma vez, com força, sem saber por quê.

"Parte do que me ajudou...", ela disse lentamente, "é que eu tenho visto alguém."

As palavras saíram leves. Como se devessem pousar macias. Mas não pousaram.

Eu pisquei. Processando.

"Tipo... um terapeuta?", perguntei, me agarrando — buscando algo que eu conseguisse entender.

Amy soltou uma risada curta. Não debochada. Não nervosa. Só — vazia. "Talvez você possa dizer isso. Tem sido como terapia. De certa forma."

Ela manteve os olhos baixos enquanto dizia. A luz da janela pegava sua maçã do rosto, seu maxilar. O resto do rosto era sombra.

"Eu tenho um amante", ela disse.

Não foi registrado de imediato. Não era uma palavra que eu ouvia há anos — pelo menos fora de romances ou filmes. Um amante.

Ela ergueu o olhar então. Encontrou meus olhos. Disse de novo, mas com silêncio dessa vez. Como se a primeira versão fosse para ela, e a segunda fosse para mim.

Então, como para suavizar o golpe — como se precisasse ser alisado — "Não era para significar nada", ela disse rápido. "Não é tipo — romântico. Eu só — eu precisava sentir algo. Algo em mim tinha ficado... quieto. E isso acordou. Eu trouxe isso de volta para nós. Fiz isso por nós."

Houve um som nos meus ouvidos como vento. Do tipo quieto, aquele que você ouve antes de uma porta bater.

"Você sentiu, não foi?", ela disse, a voz mais leve agora, como se tivesse acabado de admitir ter comprado o tipo errado de leite. "Como eu estava viva de novo?"

Eu não respondi. Não consegui.

Ela se inclinou ligeiramente para frente. O ar entre nós ficou mais tenso.

"Os últimos seis meses foram incríveis. Nós estivemos melhores. E isso veio disso. De eu finalmente me sentir livre, viva. E eu trouxe tudo isso para nós. Você se beneficiou."

Lembro do jeito como a palavra ficou no ar. Beneficiou. Como se fosse um acordo financeiro. Como se eu tivesse sorte de estar rio abaixo do despertar dela.

Eu pisquei. Uma vez. Duas vezes.

"Beneficiei?", ecoei.

Ela assentiu como uma terapeuta, calma e profissional. "Sim. E até agora, não houve dano. Eu não fui desonesta. Só... não disse em voz alta."

Ela deve ter visto algo mudar no meu rosto, porque a voz dela escorregou. Mais suave. Quase suplicante.

"Não torne isso feio, Sam", ela disse. "Não era para ser feio. Eu trouxe de volta para nós. Esse é o ponto todo."

Então ela continuou. Me conduziu por aquilo. Ponto por ponto. Nossa vida sexual. Nossa comunicação. O jeito como eu tinha dito que ela parecia feliz de novo. O jeito como eu tinha dito que também estava feliz.

E eu estava. Deus me ajude, eu estava.

A cada exemplo que ela dava, eu sentia como se estivesse encolhendo. Não porque não fosse verdade. Mas porque agora era algo completamente diferente. Algo remarcado e devolvido para mim como se ainda devesse servir do mesmo jeito.

Eu ouvia o relógio tiquetaqueando atrás dela. Aquele acima do fogão. Não tinha importância um minuto atrás, mas agora cada segundo caía como um alfinete. Cada tique mais alto que o anterior.

Eu não gritei. Não chorei. Fiquei sentado ali enquanto a mulher que eu amava explicava como foder outra pessoa a tinha tornado uma esposa melhor para mim. E ela acreditava naquilo. Ela realmente acreditava.

A voz dela tinha mudado. Havia orgulho nela agora. Como se tivesse descoberto algo. Resolvido algo.

"Foi por nós", ela disse.

E talvez ela até acreditasse mesmo. Essa pode ter sido a pior parte.

Abri a boca, mas nada saiu. Meu estômago se revirou — súbito e agudo. O tipo de torção que você sente antes de uma queda. Minha pele ficou fria.

Eu me levantei rápido — rápido demais — e cambaleei em direção à pia.

"Sam?", ela disse, a voz se elevando atrás de mim, confusa, já defensiva.

Apoiei as duas mãos na borda da cuba e vomitei.

Veio em uma onda forte. Amargo, azedo, violento. Meus olhos arderam. Meus joelhos fraquejaram.

Atrás de mim, ouvi a cadeira dela raspar. "Sam — Jesus. Você está bem?"

Ela parecia alarmada. Genuinamente alarmada. Como se minha reação não combinasse com a história que ela achava que estava contando.

"Eu melhorei as coisas", ela disse. Não era uma pergunta. Era incredulidade.

Enxaguei a boca, limpei com as costas da mão. A pia fedia a bile e café da manhã.

Virei. Olhei para ela — realmente olhei. Essa mulher que tinha acabado de desmantelar nosso casamento em seis frases e queria um agradecimento por isso.

Meu café estava intocado ao lado do dela. A torrada no fogão tinha esfriado.

Não peguei o casaco. Não peguei nada.

Dei um passo em direção à porta. Peguei as chaves.

Ela se moveu como se quisesse seguir. "Sam, onde você—"

Eu a cortei.

"Vou descobrir se sou louco", eu disse, "ou se você é."

Então saí.

O ar estava cortante, mais frio do que eu esperava para o meio da manhã. Bateu nos meus pulmões com força. Honesto.

Atrás de mim, a cozinha ainda estava quente e dourada. Mas aquela luz? Não me alcançava mais.

---

O cascalho estalou sob os pneus quando parei. O crepúsculo tinha se instalado como um hematoma sobre a linha das árvores — roxos profundos, luz plana, sem mais calor. Desliguei o motor e fiquei ali sentado com as mãos ainda no volante, não agarrando, só descansando. O ar lá fora estava mais frio do que eu esperava. Não um frio — algo mais cortante. Algo que dizia a verdade.

Saí. Minhas botas atingiram o cascalho com um estalo que soou alto demais no silêncio. Pinheiros se inclinavam uns nos outros no alto, sussurrando como se soubessem que era melhor não falar claramente. Não olhei para o céu. Não olhei para o celular. Já sabia o que ele diria.

A cabana estava imóvel. Curvada sobre si mesma, como se estivesse esperando tempo demais para ser necessária de novo. Eu não vinha aqui há mais de um ano, mas nada tinha mudado. A mesma tinta descascando, a mesma fresta de luz no trinco de latão. Girei. A porta rangeu ao abrir, lenta e relutante.

Lá dentro, o ar não me recebeu. Ele pressionou. Úmido de seiva e poeira, um fio fino de fumaça velha ainda preso nas vigas. Havia algo mais também — tênue, mas inconfundível. O apodrecimento do desuso. Não decomposição. Só... esquecimento.

Larguei a mochila perto da porta. Chutei-a para fechar atrás de mim.

Meu celular vibrou no bolso — uma vez, depois de novo. Não precisei olhar para a tela. Claro que ela estava ligando. Claro que estava mandando mensagem. Ela tinha melhorado as coisas. Por que eu não iria querer falar sobre isso?

Ela me contou a verdade dela. Agora tenho que encontrar a minha.

Se é que ainda está aqui em algum lugar.

Tirei o celular, encarei o nome brilhando na tela. Então o desliguei e o coloquei com a face para baixo no balcão.

Sentei no chão, costas contra a parede, joelhos dobrados, braços sobre eles.

O fogo não estava aceso. A luz lá fora já começava a desbotar.

E pela primeira vez desde que saí, deixei aquilo me atingir — completamente. O que ela havia dito. O que ela acreditava. O que significava.

A quietude não respondeu. Mas também não mentiu para mim.

Tentei acender o fogo. Precisava do estalar. Do calor. De algo para preencher o silêncio.

Me ajoelhei diante da lareira e empilhei gravetos com dedos dormentes. Casca seca. Papel amassado da gaveta ao lado da geladeira. Os fósforos eram velhos — meio usados, a caixa mole nos cantos. Risquei um. Ele flamejou, depois crepitou e apagou.

Tentei de novo. E de novo. No quarto, minhas mãos tremiam, embora eu não estivesse com frio.

O quinto fósforo pegou.

Dançou por um momento no berço escuro de gravetos, provocando a chama. Inclinei-me rápido demais e a soprei para longe.

Fiquei olhando as cabeças enegrecidas das tentativas fracassadas.

Não era o fogo que eu precisava. Era o controle. A prova de que eu podia fazer algo responder. Obedecer. Queimar quando deveria.

Mas o fogo não se importava com o que eu queria.

Nem ela tinha se importado.

Então me sentei nos calcanhares, esfreguei as palmas das mãos como se isso acalmasse o tremor. Minha respiração embaçou levemente no ar.

E eu disse, baixo e sem calor:

"Que tipo de homem agradece a esposa por trair melhor?"

Levantei e caminhei pelo perímetro do cômodo. Sem motivo real. Só movimento pelo movimento. Meu corpo não conseguia ficar parado com o formato das palavras dela ainda dentro de mim. Elas ecoavam, baixas e precisas, como se eu tivesse engolido vidro.

"Eu trouxe essa energia para casa. Trouxe para você."

Falei em voz alta, zombando da cadência dela — suave, comedida, quase orgulhosa. Queria ouvir de novo, mas de fora de mim. Queria saber se soava tão insano no ar livre quanto na minha cabeça.

Soava.

Me apoiei no batente da porta entre a sala e a cozinha, a borda cravando no meu ombro. Meu maxilar doía. Percebi que o estava cerrando desde que saí.

Tudo que ela disse ainda passava em sequência, como uma transcrição ruim rolando na parte interna das minhas pálpebras. Você se beneficiou. Eu melhorei as coisas. Eu não fui desonesta.

Como se não houvesse diferença entre silêncio e verdade. Como se omissão não fosse apenas uma escolha — fosse bondade.

Olhei para o balcão onde meu celular ainda estava virado para baixo. Sentia seu peso do outro lado do cômodo. Como uma mão pressionando a base das minhas costas.

Ela provavelmente achava que eu estava me acalmando. Deixando o choque inicial passar. Ela provavelmente achava que eu voltaria e a agradeceria pela clareza.

A coisa doentia? Uma parte de mim queria. Não por concordância. Por memória muscular. Por hábito.

Passei a mão no rosto, arrastei-a para baixo pela boca. Queria gritar. Em vez disso, sussurrei, quase apologético:

"Ela acha que me deu algo."

E o silêncio — firme, observando, sem piscar — não teve resposta.

Fiquei parado no meio da cabana e tentei fazer com que ela fizesse sentido.

Reproduzi aquilo como um advogado preparando um caso. Tomei-a em sua palavra, só para ver onde dava.

Ela queria mais. Achou um jeito de conseguir. Trouxe para casa. E, segundo ela, eu me beneficiei.

Não fui eu quem disse que as coisas estavam melhores? Não fui eu quem brincou sobre nossa "segunda lua de mel" depois daquele fim de semana em junho? Eu disse a ela que estava radiante. Eu disse a ela que me sentia mais próximo dela do que em anos. Diabos, eu até tinha voltado a escrever.

Então se tudo melhorou — se eu estava mais feliz, mais conectado, mais satisfeito — então qual, exatamente, era o dano?

Ouvi a voz dela na minha cabeça, o jeito como tinha se inclinado para frente sobre a mesa, olhos suaves como se estivesse compartilhando algo íntimo: "Eu não fui desonesta. Só não disse em voz alta."

Meu estômago se revirou de novo.

Porque a parte que ela nunca disse — a parte que eu não conseguia desouvir — era que a única razão de ela ter ganhado vida para mim... foi porque outra pessoa acendeu o pavio.

E o que isso fazia de mim? A linha de chegada? O porto seguro? O boneco em que ela praticou?

Tentei segurar as duas verdades nas mãos. Que eu tinha sido feliz. E que minha felicidade tinha sido construída sobre uma mentira que eu não sabia que estava engolindo.

Elas não se encaixavam.

Afundei no sofá, encarando a lareira fria, e disse em voz alta como um teste:

"Se alguém envenena sua bebida, mas você só sente o gosto depois... importa o quão doce era enquanto descia?"

Comecei a repetir coisas que ela havia dito — baixinho no começo, como se estivesse testando o encaixe delas na minha própria boca.

"Eu tenho trabalhado muito para melhorar as coisas."

"Eu trouxe essa energia para casa."

"Você se beneficiou."

Cada frase soava mais estranha quanto mais eu a dizia. Como um feitiço sendo quebrado.

As palavras não eram benignas. Eram cirúrgicas. Projetadas para remover a culpa e não deixar sangue. Só um espaço limpo e oco onde a responsabilidade deveria ter vivido.

Fiquei de pé de novo, andando de um lado para o outro. Minha voz ficou mais alta. Não gritando — nunca gritando — mas mais afiada.

"Você se beneficiou."

"Você se beneficiou."

Como se ela fosse a chuva e eu fosse o solo. Com sorte de estar molhado.

Caminhei até a janela e olhei para o lago. Ainda estava parado. Intocado. Refletindo o céu cinzento como se não se importasse com a tempestade que se aproximava.

Pressionei a testa no vidro frio e deixei minha respiração embaçar a vidraça.

Sussurrei mais uma vez:

"Você se beneficiou."

Então balancei a cabeça, soltei algo entre uma risada e um suspiro.

"Isso não é um presente", eu disse. "É um discurso de vendas."

O fogo tinha se apagado de novo.

Não tentei reacendê-lo.

Em vez disso, sentei-me à mesa com uma caneta e o bloco de anotações que guardávamos numa gaveta para listas de supermercado e palavras cruzadas. O mesmo bloco que Amy tinha usado uma vez para me escrever um bilhete antes de viajar: "Volto domingo. Não esqueça o lixo."

Agora escrevi o nome dela no topo da página. Só o nome. Amy.

E esperei sentir algo. Raiva. Tristeza. Qualquer coisa que pudesse romper a névoa.

Mas o que veio foi quietude. Pesada. Assentada.

Escrevi uma lista de perguntas:

-- Quando você deixou de ser minha? -- Você esperava que eu descobrisse ou temia isso? -- Isso era o plano A ou algo que você se convenceu a fazer? -- Quem é ele? -- Você me ligou depois? -- Eu algum dia importei tanto quanto a sua liberdade?

As perguntas não precisavam de respostas.

Não eram para ela. Eram para a parte de mim que ainda tentava sobreviver a ela.

Quando terminei a última linha, larguei a caneta.

E pela primeira vez desde que ela disse as palavras, não senti como se estivesse me afogando.

Eu me senti sozinho. Mas não perdido.

O bloco de notas ficou aberto na minha frente. O nome dela me encarando como um desafio.

E então, sem aviso, minha mente me puxou para trás — com força e rapidez — para uma noite em que mal tínhamos móveis.

Nosso primeiro apartamento. Sem sofá ainda. Só almofadas no chão e um colchão de ar que suspirava sob nós, murchando lentamente conforme a noite avançava. Comíamos comida tailandesa direto das embalagens, bebíamos Riesling morno em canecas descombinadas. Ela vestia meu moletom da faculdade — capuz levantado, mangas amontoadas nos punhos — e nada por baixo.

Fizemos amor como se o mundo estivesse acabando e precisássemos escrever nossos nomes um no outro antes que acabasse. As pernas dela travadas em volta de mim, a voz baixa no meu ouvido. Cada suspiro, uma promessa; cada toque, uma pergunta: Temos mesmo essa sorte?

Depois, mais tarde, ela abriu um biscoito da sorte e me entregou.

“Esse é o seu”, ela disse, sem fôlego, suada, sorrindo. “Não me culpe pelo que o universo te der.”

Li em voz alta: Você encontrará algo que vale a pena guardar.

Ela me beijou antes que eu pudesse fazer piada. Rápido, certeiro. Como pontuação.

Não tínhamos nada. E, de alguma forma, parecia tudo.

Agora eu estava ali, na quietude da cabana, olhando para aquele mesmo nome numa página nova, me perguntando como algo que costumava ser como oxigênio agora era cinzas.

Não continuou doce para sempre.

A memória é gananciosa. Não puxa só o melhor — arrasta o peso também. E a próxima coisa que me deu não foi amor, mas perda.

Um inverno, depois de perdermos o bebê, a encontrei no chão do banheiro.

Ela estava sentada no piso frio com um moletom dois números maior, pernas encolhidas contra o peito, cabelo molhado de um banho que não terminou. Os ombros tremiam como se estivesse congelando, mas quando a toquei, a pele queimava.

Ela não me olhou quando me agachei. Só disse: “Não sei o que fazer com isso. É grande demais.”

Sentei ao lado dela. Sem palavras. Só meu ombro pressionado contra o dela. Minha mão cobrindo o pé onde tinha adormecido contra o piso.

Naquela noite, não dormimos. Ficamos ali, o rejunte cravando na pele. Segurando o silêncio. Segurando um ao outro.

Era isso que eu sempre achei que tínhamos. Não perfeição, nem romance de manual.

Mas presença. A disposição de sentar no escuro, juntos, até o amanhecer.

Mas até a presença tem meia-vida.

E não demorou para eu começar a notar que ela estava em outro lugar.

Ela começou a dormir de costas para mim.

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