O Hacker
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Caixas de correio tinham sido coisas inócuas durante a maior parte da minha vida. O último ano fez a minha se tornar algo a temer. Era uma simples caixa de metal branca, apoiada sobre uma travessa de madeira branca. Esta, por sua vez, estava montada num poste vertical branco de quatro por quatro, cimentado firmemente no chão na beira da entrada da garagem. Três rosas vermelhas desabrochadas estavam pintadas na lateral da caixa, unidas por uma videira verde artística. Lembrei-me de tê-la escolhido tantos anos atrás. Achei-a bonita e agora só via os espinhos não representados das rosas.
A morte do meu marido, há um ano e meio, tinha removido a maior parte da cor do mundo. Câncer foi o assassino, uma luta que enfrentamos com dinheiro que não tínhamos. Ele o vencera uma vez antes, quando éramos recém-casados, com radiação e quimioterapia agressivas. Pensei que o venceríamos de novo. Quando o seguro acabou, pegamos emprestado. Quando atingimos o limite do crédito, mentimos e pegamos mais emprestado. Tom não estava aqui para ver o rio de lama financeira deixado no rastro da sua doença. Ele soube no final e recusou tratamento, tentando diminuir o fardo. Eu teria assumido a dívida nacional se isso significasse mais um dia. Meus argumentos caíram em ouvidos surdos e amorosos. Ele morreu nos meus braços, em casa, onde pertencia.
Abri as mandíbulas da caixa de correio e enfiei a mão em sua garganta. Retirei um pequeno maço de cartas, a maioria coberta de tinta vermelha. Meu coração se contraiu como sempre fazia. Ainda não estava acostumada a estar completamente sem dinheiro. Eu tinha aplacado as sanguessugas financeiras por mais de um ano, distribuindo o dinheiro do seguro de vida em parcelas conservadoras. Agora, aquela torneira secara. A culpa era minha. Eu sustentara Tom na faculdade, nunca buscando um diploma para mim. Meu emprego de contadora, para o qual eu não era qualificada, dado por uma amiga querida, não chegava nem perto de prover os fundos de que eu precisava. Involuntariamente, uma lágrima correu pela minha bochecha. A vida tinha me estuprado.
Fiquei parada no final da entrada da garagem, separando as contas por prioridade. Uma fatura vencida da companhia hipotecária me tirou o fôlego. Eu me esquecera de que a tinha adiado. Olhei para a pequena casa térrea, tijolos marrons salpicados até a metade da frente com revestimento bege por cima até o telhado. Era para ser nossa casa inicial. Agora, eu teria sorte se continuasse sendo minha única casa. As contas de luz e telefone juntaram-se à hipoteca no topo da pilha. As três contas médicas persistentes, MasterCard e a conta do chaveiro foram para o fundo.
"Mãe, o jantar está pronto", Natalie gritou da porta da frente. Coloquei as cartas ao meu lado, escondendo as odiosas letras vermelhas. Dezesseis anos, com todos os problemas do ensino médio sobre os ombros, ela crescera rápido demais sem o pai. Fora o anjo de Tom, quase a ponto de gerar meu ciúme quando ela podia desviar a atenção dele de mim apenas entrando no quarto. Levei uma semana para fazê-la voltar à escola após a morte do pai. Agora, ele era uma lembrança querida, e o pensamento em garotos que Tom não aprovaria se tornara o mundo dela.
"Estou indo, querida", disse com um sorriso forçado. Tentar esconder de Natalie o quão pobres tínhamos nos tornado era exaustivo. Ela já tinha problemas suficientes com o dever de casa e o cruel rito de passagem do ensino médio. Limpei os olhos depois que ela se enfiou de volta na casa. Enquanto eu subia a entrada da garagem, percebi, pelo canto do olho, meu novo vizinho, Jared Thompson, me observando. Olhei para ele, ajoelhado, aparando a borda do gramado com tesouras. Seus olhos voltaram ao trabalho como se eu não fosse notar. A aba do seu boné de beisebol cobria qualquer necessidade de me cumprimentar. Um homem estranho. Eu o conhecera brevemente quando ele se mudou, dois meses atrás. A conversa foi difícil, já que ele nunca formava frases completas. Respostas de uma palavra que me impediam de educadamente descobrir qualquer coisa sobre ele. Além de alguns ois e acenos, não tínhamos conversado desde então.
Jared era igualmente enigmático com outros vizinhos. Era um mistério para a vizinhança. Deduzimos que ele morava sozinho simplesmente pela falta de ver outras pessoas e nenhum carro adicional. Alguns dos móveis que ele trouxe pareciam ter um toque feminino, mas nenhuma mulher apareceu. Suas costeletas grisalhas distintas contrastavam com seu rosto jovial. Supunha-se que ele estivesse no início dos quarenta, possivelmente divorciado. Eu supunha viúvo, já que imaginava que os móveis teriam acompanhado a esposa num divórcio. Havia uma sombra de tristeza ao redor dele que criava uma barreira para qualquer um que tentasse se aprofundar. Eu sabia que a morte faz isso com uma pessoa. Jared não levantou a cabeça de novo, então abortei meu aceno amigável e entrei em casa.
"Está cheirando bem." Sorri para Natalie. Ela assumira a função do jantar, eu o café da manhã. Isso facilitava a vida, e eu precisava desesperadamente de mais facilidade. Depois de um dia inteiro de trabalho, cozinhar não era exatamente uma tarefa que eu ansiava. Foi a fome de Natalie que a fez oferecer seus serviços. Não estaríamos comendo antes das seis se ela esperasse eu fazer o papel de chef. Ela, claro, morreria de fome até lá.
"A Pizzaria do Suggi me ofereceu um emprego", Natalie disse, sem me olhar. Eu prendi a respiração, colocando as cartas viradas para baixo no balcão da cozinha. O ano letivo mal começara. Um emprego de verão era uma coisa, mas isso poderia prejudicar suas notas. Ela sabia que eu não aprovaria. Era por isso que ela estava concentrada em mexer o macarrão.
"Querida, eu não acho que..."
"Eu vou aceitar", Natalie me interrompeu. Ela se virou para mim, quase uma mulher. "Eu sei o que está nessas cartas que você tenta esconder. Eu posso pelo menos comprar minhas próprias roupas e gasolina." Minha garganta inchou.
"Isso não é problema seu", eu engasguei, apontando para as cartas. "Seu trabalho é tirar boas notas e construir um futuro." Ela se virou de volta para o macarrão. Percebi que eu não tinha dito não.
"É sexta à noite e oito horas no sábado; possivelmente outra noite se alguém ligar dizendo que está doente", Natalie continuou, "já tenho idade, então está decidido." Meus olhos começaram a ficar marejados.
"Eu não quero isso para você", eu disse firmemente, com autoridade de mãe.
"E eu também não queria que o papai morresse", Natalie disse suavemente. Vi seus ombros tremerem quando ela disse aquilo. Fui até ela enquanto eu perdia o controle das minhas lágrimas. Ela se virou para mim, suas próprias lágrimas apenas começando. Eu a abracei, minha filha, minha vida, uma mulher em tudo menos na idade.
"Vai ajudar", eu concedi entre soluços. Tivemos um choro há muito necessário. Um pouco do macarrão queimou no fundo da panela.
Natalie insistiu em saber o quão profundamente endividadas estávamos. Passei o jantar contando a ela metade, o que era o dobro do que eu deveria ter contado. Na idade dela, as somas pareciam astronômicas. Ela devia estar pensando em milhares, não em centenas de milhares. Eu fazia ligações diárias para evitar uma falência que nos faria perder a casa. Oscilava constantemente entre ceder e me mudar para algum apartamento decrépito, mas Natalie já tivera perturbações suficientes em sua vida.
"Por que você não me contou antes?" Natalie perguntou. Seus olhos estavam mais arregalados do que os de uma garota de dezesseis anos deveriam estar.
"Eu sou sua mãe", respondi, como se isso explicasse tudo. Recorri ao clichê inútil. "Você vai entender quando tiver seus próprios filhos." Ela entenderia, mas isso estava, esperançosamente, a muitos anos de distância.
"Mas você comprou aquela assinatura idiota de revista", Natalie disse incrédula. Era para uma arrecadação de fundos da escola dela.
"Eu não queria que você fosse a única que não vendeu nenhuma", respondi fracamente. Foi vaidade estúpida. Alguma ideia de que Natalie seria diminuída se não vendesse uma assinatura.
"Isso é bobagem...", Natalie disse, então inclinou a cabeça ligeiramente, "obrigada." Eu sorri. Era a intenção que contava. "Vamos ter que nos mudar?"
"Talvez", eu disse baixinho. Com o tempo, a resposta seria sim. Eu não tinha certeza de quanto mais eu conseguiria adiar o inevitável. Na verdade, era melhor ter isso às claras. Eu me sentia uma fracassada, mas não vi isso nos olhos de Natalie. "Sinto muito", acrescentei debilmente. Ela me abraçou de novo. Pelo menos a verdade teve o benefício de nos fazer concordar pela primeira vez.
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Ouvi a gravação e decidi continuar em inglês. O menu foi disparado, e eu escolhi três para o atendimento ao cliente. Um ano pagando coisas atrasadas, e você aprende os sistemas. Nem todas as multas por atraso são iguais. Você pode remover a maioria com apenas uma simples ligação. A TriDeed Mortgage era uma dessas empresas. Essa ligação seria bastante embaraçosa, já que seria minha terceira tentativa de remover uma multa. Eu tinha o mercado imobiliário deprimido a meu favor. Executar uma hipoteca não era um empreendimento lucrativo para as companhias hipotecárias quando o patrimônio líquido do devedor era quase inexistente. O meu estava nessa categoria.
"TriDeed Mortgage, aqui é a Monica. Como posso ajudar?" A voz era agradável. Sempre eram. Decidi que a verdade estava em ordem. Eles não podem tirar sangue de uma pedra.
"Oi Monica, aqui é Linda Henderson", comecei, retribuindo o tom amigável. "Recebi ontem uma notificação de pagamento atrasado com uma multa de US$ 78."
"Pode me dar seu endereço, por favor?" Monica interrompeu antes que eu começasse minha súplica. Ditei o endereço e esperei enquanto ouvia ela digitando no teclado. Não era um bom sinal. Meu histórico de pagamentos ia aparecer na tela antes que eu pudesse defender meu caso. "Um momento, por favor", ela disse antes de me colocar em espera. Música ambiente genérica começou. Esperei alguns minutos e, pensando que eu tinha me perdido no sistema telefônico deles, quase desliguei para tentar ligar de novo.
"Sra. Henderson?" Monica voltou.
"Sim." Uma longa espera nunca é um bom sinal.
"Parece que houve um erro de sincronia. A fatura foi gerada antes do processamento do seu pagamento. Pode destruir essa fatura com nossas desculpas." Monica soava contrita. Fiquei estupefata.
"Ah... me desculpe", gaguejei, "estou um pouco confusa. Eu estava ligando para pedir a remoção da multa."
"Como eu disse, Sra. Henderson", Monica repetiu, "os computadores às vezes se adiantam e faturam erroneamente. Pedimos desculpas. O departamento de títulos está finalizando a hipoteca, e a senhora pode esperar receber a escritura em um ou dois dias." Deixei o telefone cair. Betty, minha colega de cubículo, olhou. Rapidamente peguei o fone.
"Minha escritura?" perguntei estupidamente.
"Sim", Monica continuou, "recebemos o saldo do empréstimo em 7 de abril. Leva até dez dias para ser compensado e verificado pelo nosso departamento de títulos. Mais uma vez, pedimos desculpas pelo erro. Eu sei como uma fatura dessas pode fazer a gente se sentir – especialmente quando é indevida." Quase desliguei. Eu tinha uns dez anos, jogando Banco Imobiliário, a última vez que tive um erro bancário a meu favor. Minha fibra moral entrou em ação. Tive que forçá-la.
"Ah... lá... eu não", respirei fundo e comecei de novo. "Monica, eu não quitei o empréstimo." Honestidade é dolorosa às vezes.
"Oh." Monica fez uma pausa por um segundo. "Um momento, por favor." De volta à música ambiente. Betty olhou para mim. Ela sabia algo dos meus problemas financeiros. A meia conversa a intrigou. Cobri o fone com a mão.
"Eles dizem que minha hipoteca está quitada", eu disse a Betty baixinho.
"E você está discutindo?" Betty retrucou. Dei de ombros e balancei a cabeça. Betty riu. "Honestidade nem sempre é a melhor política." Sorri com o humor dela.
"Eles vão encontrar o erro mais cedo ou mais tarde", eu rebati. No mínimo, eles se sentiriam obrigados a remover minha multa pela minha honestidade.
"Sra. Henderson?" Dessa vez era uma voz masculina.
"Sim." Eu me virei de Betty.
"Sou Rick Carlson, do departamento de títulos. Entendo que a senhora acredita que cometemos um erro."
"Sim", eu ri, "parece que vocês acham que eu quitei minha hipoteca. Por mais adorável que isso soe, temo não ter esse tipo de dinheiro."
"Verifiquei novamente a aplicação dos fundos, e tudo parece em ordem. Estou olhando para uma imagem do cheque. Ele veio acompanhado de uma carta que nomeia explicitamente sua hipoteca pelo número e endereço." Meu rosto estava corando e eu começava a suar. Eu não conhecia ninguém com esse tipo de dinheiro.
"Hum... De quem é o nome no cheque?" perguntei. Abanei-me com uma pasta na minha mesa.
"É um cheque administrativo; não tem nome", eu estava me sentindo tonta. Isso tinha que ser algum tipo de piada. "Apenas a quantia de US$ 127.356,23, que era o seu saldo devedor."
"Eu... eu não enviei isso." Minha voz tremia. Euforia misturada com um medo desconhecido.
"O cheque foi compensado, Sra. Henderson." Acho que ele podia ouvir minhas reservas. "Está tudo em ordem. Alguém deve ter lhe dado um presente." Ele riu. "Eu certamente não brigaria."
"Claro... não... o que isso significa?"
"Significa que sua casa está livre e desembaraçada, eu já autorizei o envio da escritura." Minhas emoções tomaram conta de mim. A tensão dos últimos anos inundou meus olhos. Betty rolou sua cadeira para perto da minha.
"Alguém pagou minha casa", murmurei para Betty, com a boca longe do fone. Ela me passou um lenço de papel da mesa. Limpei os olhos.
"Sra. Henderson?" Rick perguntou, achando que tinha me perdido. Um pensamento horrível me ocorreu.
"Eles podem pegar de volta?" perguntei. Minha voz mais firme.
"Bem, suponho que tudo seja possível", Rick respondeu, "seria terrivelmente difícil a essa altura. Talvez através de uma ordem judicial." Ele fez uma pausa por um momento. "Se a senhora realmente não enviou o dinheiro, então suponho que possa haver implicações fiscais."
"Impostos?" perguntei. Ninguém nunca me dera dinheiro assim antes.
"Estou supondo, não sou especialista em impostos", Rick respondeu, "a senhora teria que falar com um contador para descobrir."
"Então eu não preciso mais enviar dinheiro para vocês?" Eu queria verificação. Queria isso escrito em pedra. Queria ter certeza de que não estava sonhando.
"Não", Rick respondeu claramente, "seu empréstimo foi quitado." Encerrei a ligação ali, agradecendo a ele, enquanto me perguntava se estava sonhando.
"Quem pagou sua hipoteca?" Betty perguntou, quando o fone estava de volta ao gancho.
"Não tenho a menor ideia", respondi. "Seja quem for, é adorável e maravilhoso." Olhei para Betty, "Eu estava perto da falência – que diabos, eu estava falida."
"Você acha que eles querem algo de você?" Betty continuou.
"Não sei", suspirei longamente, permitindo que minha mente percebesse que meu salário iria muito, muito mais longe. Havia uma luz, uma luz abençoada, no fim do meu túnel cheio de dívidas. "Não tenho nada de valor."
"Sexo", Betty brincou.
"Tenho certeza de que eu não valeria tanto", ri. Eu não ficava com ninguém desde a morte de Tom – dívidas demais e todo o estresse que as acompanha. Namoro não estava em alta nos meus pensamentos, não que eu pudesse imaginar substituir Tom de qualquer forma.
"Seus órgãos então", Betty continuou.
"É isso", ri, "eles querem meu rim."
"Estou feliz por você", Betty disse como amiga, "você merece uma folga." Eu assenti e então apontei para o Sr. Brewster, que vinha pelo corredor. Rapidamente voltamos aos nossos terminais e começamos a processar contas a receber. Tive dificuldade em não sorrir. Eu não fazia ideia de por que alguém faria algo assim por mim e percebi que não me importava. Era a melhor coisa que me acontecera em anos. Eu ia me esbaldar nisso enquanto pudesse.
Passei meu horário de almoço com Betty tentando adivinhar quem teria feito tal coisa. As únicas pessoas que conhecíamos com esse tipo de dinheiro não me conheciam de verdade. O dono da empresa para a qual eu trabalhava, Franklin Construction, era uma. Eu só o encontrara uma vez. Ele era um cara legal com uma esposa legal e uma ninhada inteira de filhos. Não havia como eu estar no radar dele. Eu não tinha parentes próximos vivos no mundo. Acreditava que poderia haver uma tia-avó, por casamento, ainda viva. Eu só a conhecia por uma foto antiga. Encontrei-a uma vez quando eu tinha cinco anos. Ela devia estar na casa dos noventa. Eu não conseguia imaginar, se ela tivesse o dinheiro, que o daria a mim anonimamente. Duvido que ela sequer se lembrasse de mim.
Com o tempo, eu descobriria. Prometi a Betty que ela seria a primeira a saber. Tudo parecia mais leve. Eu poderia pagar algumas coisas e começar a colocar em dia as contas médicas. Eu devia muito a alguém. Era um tipo diferente de dívida – sem cifrões.
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Parei na loja do chaveiro no caminho para casa. Era uma loja de um homem só. Randy era esse homem. Sua esposa, ou pelo menos eu supunha que fosse, estava atrás do balcão com ele. Pareciam estar se preparando para fechar.
"Boa noite, Sra. Henderson", Randy anunciou quando eu me aproximei deles. Como ele se lembrava do meu nome, eu não tinha ideia.
— Oi — sorri, minha riqueza recém-descoberta transbordando em felicidade. — Vim colocar minha conta em dia. Desculpe pelo atraso no pagamento. A esposa dele me deu um sorriso forçado. Percebi que ela considerava pagamentos atrasados algo muito ruim. Randy apenas deu de ombros.
— Como está essa fechadura nova? — Randy perguntou. — Chegaram a pegar a pessoa? Ele falava sobre o arrombamento. Alguém usou um pé de cabra na porta dos fundos quatro meses atrás, danificando a fechadura antiga. Aconteceu enquanto a Natalie estava na escola e eu no trabalho. Ficamos assustadas por algumas semanas, mas superamos.
— A tranca nos faz sentir seguras, obrigada — respondi. — Não pegaram ninguém, e ainda não encontramos nada faltando. Acho que tentaram roubar a casa errada. Eu realmente não tinha nada de grande valor. Coisas de venda de garagem, no máximo. Peguei meu talão de cheques. — Deixei a conta em casa. Quanto devo?
— $168,50 — a esposa dele disparou de memória. Dava pra ver que ela não estava satisfeita comigo.
— Sinto muito por ter demorado tanto — repeti para a esposa. Ela abrandou um pouco no olhar. Preenchi o cheque e entreguei a ela. Ela aceitou com elegância. Foi maravilhoso quitar outra dívida, mesmo sendo uma das menores. Ontem, era tão intransponível quanto o Himalaia.
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Entrei na garagem e saí para levantar o portão. O motor quebrou uns seis meses atrás, zombando da minha pouca força nos braços. Sorri, pensando que talvez pudesse pagar o conserto em breve. Sempre podia adiar as contas médicas. Eles entendiam, desde que eu continuasse fazendo pequenos pagamentos. Ainda estava afogada em dívidas, mas agora tinha um bom par de nadadeiras pra me manter na superfície.
— Sra. Henderson? — Jared Thompson me surpreendeu, surgindo do meio do paisagismo. Sua calça jeans tinha manchas molhadas nos joelhos, as luvas manchadas de verde. Devia estar arrancando ervas daninhas.
— Boa noite, Jared. Por favor, me chame de Linda.
— Linda — ele recomeçou. Soou bem saindo da boca dele. Quase como se gostasse de dizê-lo. — Me sinto sem jeito, nunca fui pai, mas achei que devia dizer algo. Sei que gostaria de saber, se fosse pai. — Eu via que ele estava desconfortável, quase se esquivando da própria intenção. Isso tinha a ver com a Natalie. Não tinha certeza se queria ouvir o que ele tinha a dizer.
— O que foi? — perguntei. Com meu sorriso desfeito, ele pareceu ainda menos confiante. Olhou para as mãos por um momento, depois ergueu o olhar. Havia determinação nos olhos quando voltaram aos meus.
— Sua filha, Natalie, não é? — Jared começou. Assenti e cruzei os braços sob o peito. — Ela tem uma visita todo dia depois da escola. — Permaneci sem expressão, imaginando onde aquilo ia parar. Não sabia se a raiva seria apropriada. Sabia que não estava encantada com ele metendo o nariz onde não era chamado. Ele deve ter visto no meu rosto. — Sinto muito, não é da minha conta. Estou invadindo a privacidade da sua família. — Jared se virou com toda a intenção de ir embora.
— O que foi, Jared? — perguntei, tentando controlar o veneno na voz. Ele tinha razão, não era da conta dele, mas já que começou, tinha que terminar. Ele se virou, os lábios franzidos. Percebi que se arrependia de ter começado a conversa.
— É um garoto mais velho — Jared continuou. — Não quero insinuar que esteja acontecendo algo, mas ele sempre vai embora antes de você chegar. — Ele balançou a cabeça, parecendo enojado consigo mesmo. Eu, por outro lado, agora estava interessada. — É só que... achei que você devia saber. O garoto dirige um Lexus. Um garoto rico... todo dia... só achei... olha, já fui jovem. Se eu tivesse sido um garoto rico, suspeito que teria... Sinto muito, acho que realmente passei dos limites.
— Você está vigiando a minha casa? — perguntei. Ele ergueu as mãos até a altura do peito e começou a recuar. Eu tinha colocado ira demais na voz. Não era dirigida a ele, era para a Natalie. Ela só não estava lá para recebê-la.
— Sinto muito, eu só estava tentando cuidar do quintal — Jared confessou. — Vejo coisas. Tentei deixar pra lá e provavelmente devia ter deixado. — O rosto dele estava corado e os olhos arrependidos. — Velho aposentado, com tempo de sobra. Talvez eu devesse arrumar uns gatos. — Ele continuou recuando. Parecia desejar poder sair correndo.
— Não — falei mais calma. — Você estava certo. — Acrescentei um sorriso falso, já que não conseguia achar um verdadeiro. — Não gosto de ouvir, mas é algo que devo saber. Obrigada. — Ele forçou um sorriso e acenou enquanto escapulia rapidamente. Aquilo o tinha envergonhado profundamente. Eu ainda estava de braços cruzados. Deixei-os cair, sem jeito, e lutei para levantar o portão da garagem.
— Quem é o garoto? — perguntei à Natalie. Ela estava tirando frango do forno.
— Que garoto?
— O garoto — falei severamente. Coloquei as mãos nos quadris e fiquei como uma estátua. Natalie ergueu o olhar e quase derrubou a assadeira. Depois de ontem, não gostava de interrogá-la. Criar uma adolescente era assim. Unidas num dia; engalfinhadas no outro. Ela colocou a assadeira em cima do fogão. Sua expressão passou para desafio, depois rapidamente para inocência.
— Dan Sampson; ele é do último ano — Natalie disse com um quê de orgulho. Meus instintos tomaram conta de mim.
— Você está dormindo com ele? — Me odiei quando as palavras saíram da minha boca. Devia ter perguntado como amiga. Soou mais como uma acusação.
— Mãe! — Natalie quase gritou. Fiquei ali, meu olhar fixo e intenso. Ainda queria saber a resposta. O medo da resposta, o medo de uma barreira entre minha filha e eu, e o medo do meu próprio fracasso como mãe passavam pela minha cabeça. — Não — ela respondeu baixinho. Vi suas bochechas corarem. Mas ela queria. Suspirei e deixei os ombros relaxarem.
— Você gosta muito dele — afirmei calmamente.
— Sim.
— Convide-o para jantar neste fim de semana, quero conhecê-lo. — Tentei soar imparcial. Natalie estava crescendo, e ou eu conhecia esses garotos ou ela namoraria com eles pelas minhas costas. A segunda opção parecia terrivelmente horrível. Ela me surpreendeu se jogando nos meus braços.
— Sinto muito por não ter contado — Natalie disse enquanto me abraçava. Ela era tão jovem, e ainda assim tão madura. Tentava desesperadamente não precisar de mim. Eu tentava desesperadamente segurá-la. Odiava o ensino médio, tanto agora quanto na minha própria passagem por ele. Me separei dela e peguei alguns pratos do armário.
— Me fale sobre ele — disse enquanto começava a pôr a mesa. Dan Sampson tinha uma excelente relações-públicas na Natalie. O rosto dela brilhava enquanto cantava seus louvores. Cada atributo que uma jovem deseja estava encarnado no deus grego que era Dan Sampson. Alto, esbelto, rico, tinha carro próprio, dançava bem e todas as outras garotas da escola estavam verdes de inveja. Tive que sorrir. Era o mesmo olhar que ela tinha no Natal, dez anos atrás. Tom comprara um filhote de golden retriever para ela. De algum jeito, ele manteve o cachorro quieto a noite toda e surpreendeu Natalie pela manhã. Scruffy, o cachorro, e Tom agora tinham partido. Eu realmente precisava do Tom de volta agora. Alguém para contrapor o novo Scruffy.
— Não gosto que você e o Dan fiquem sozinhos em casa — falei, depois de ouvir atentamente.
— Você preferiria que a gente fosse a outro lugar? — Natalie perguntou. Ela era esperta. Puxou ao Tom. Sabia que eu imaginava, na minha mente, algum quarto de motel barato ou o banco de trás do carro dele. Eu não podia controlar o que ela fazia depois da escola. Podia tentar, mas sabia que seria uma batalha perdida. Sem reforço, fiz uma concessão.
— Você vai me mandar mensagem quando ele chegar e de novo quando for embora. — Eu estava com minha cara de Mãe. Natalie sorria como se tivesse acabado de ganhar uma medalha de ouro. — Você vai avisar o Dan que eu sei que ele esteve aqui e quero conhecê-lo. — Ela assentia, concordando. Aquilo não era concessão, era pura capitulação parental. Como uma mãe pode lutar contra o primeiro namorado de verdade? Tom teria colocado o temor de Deus no garoto. — A gente conversa antes de ficar sério — acrescentei. Perdi minha virgindade aos dezessete. Não lembrava de ter consultado minha mãe sobre isso.
— Prometo — Natalie disse, colocando a mão suavemente no coração. Acho que ela falou sério. Pelo menos falou sério quando disse. Malditos hormônios. Um pensamento estranho entrou na minha cabeça.
— Quão rica é a família dele? — perguntei. Pegou Natalie de surpresa.
— Não gosto dele por causa do dinheiro — Natalie insistiu. Claro que não, nenhuma mulher se impressiona com um homem que tem dinheiro. Quase ri, embora não fosse minha intenção questionar a moral dela.
— Alguém pagou a hipoteca. — Qualifiquei minha pergunta. — Não sei quem. Você acha que poderia ter sido a família dele?
— Acho que os pais dele não gostam de mim — Natalie respondeu.
— Alguém pagou a hipoteca? — Tudo que ouvi foi os pais dele não gostarem da minha menina. Aquilo doeu.
— Como assim eles não gostam de você? — perguntei rapidamente. — Você chegou a conhecê-los? — acrescentei. Por que eles puderam conhecer Natalie e eu não conhecia Dan? Que tipo de mãe sou eu?
— Sou muito nova e não tenho título de nobreza — Natalie disse sarcasticamente. — Dan me disse para não me preocupar. A mãe dele acha que ninguém está à altura. — Não gostei da mãe de Dan, embora ela estivesse certa, Natalie era jovem demais.
— Não deixe ninguém dizer que você não é boa o suficiente — falei firmemente. Natalie sorriu. Eu entrei em pânico. — Isso não significa que você deva... quer dizer, isso não é permissão para...
— Eu sei o que você quis dizer — Natalie sorriu. — Prometo, vamos conversar se ficar sério. — Ela estava ficando velha demais. Eu estava ficando senil. — Alguém pagou a hipoteca?
— Toda ela — respondi. — Não sei quem nem por quê.
— Isso é bom, não é?
— Sim, mas é muito dinheiro. Não conheço ninguém com esse tanto de dinheiro. — Dei de ombros. — Nem sei a quem agradecer, ou se é algum tipo de piada ou golpe.
==========
Natalie cumpriu sua palavra. Recebi um par de mensagens a cada dois dias, mais ou menos. Dan chegou. Dan acabou de sair. Eu esperava que Dan, pelo menos, achasse que eu estava por perto.
Conheci Dan no sábado. Para meus olhos maduros, era um garoto desajeitado; para os de Natalie, um Apolo. Educado na minha presença e não parecia pairar demais sobre minha filha. Não era um garoto de aparência ruim, mas ainda assim um garoto. Graças a Deus. No geral, fiquei desconfortavelmente satisfeita. Era o melhor que eu podia fazer. Ela ainda era meu bebê.
Foi na quinta-feira que mais revelações apareceram. Minha já não mais temida caixa de correio regurgitou dois cheques em envelopes sem tinta vermelha. Eram duas empresas médicas devolvendo meus últimos pagamentos parciais. A fatura gerada por computador alegava que eu havia pago a mais; meu saldo devedor foi reduzido a zero. Eu sabia que devia sentir alegria. Em vez disso, o medo me encheu.
Disquei para o sistema de computador da MasterCard e solicitei meu saldo. Não me surpreendi ao descobrir que eu estava cheia de crédito por pagamento a maior. Fiz uns cálculos rápidos de cabeça. Mais de um quarto de milhão de dólares em novos presentes. Eu estava tremendo quando Natalie entrou no quarto.
— Está tudo pago? — Natalie perguntou, depois que contei por que eu estava assustada.
— Acho que sim — respondi, ainda em choque.
— Quem está fazendo isso? — Natalie perguntou. Balancei a cabeça. Isso parecia pior do que quando encontramos a porta dos fundos arrombada. Eu devia estar pulando de alegria; em vez disso, sentia que estava perdendo o controle. Era alguém que sabia tudo sobre mim, sobre nós. Eu estava sendo 'desestuprada' contra a minha vontade. Era um anticrime.
Passei a hora seguinte revistando a casa. Procurava câmeras escondidas que não existiam. Acho que Natalie pensou que eu estava surtando. Eu sabia que estava. Não conseguia nem ir ao supermercado sem pensar que alguém podia estar me seguindo. Quem quer que fosse tinha substituído minhas dívidas por medo.
==========
— Tudo? — Betty perguntou.
— Tudo, e está ficando realmente assustador.
— E ninguém apareceu? — Betty continuou sendo a Srta. Óbvia. Balancei a cabeça. — Linda, você precisa simplesmente deixar acontecer. Não parece haver nenhum lado negativo.
— Sempre há um custo — respondi. Eu não sabia qual era, mas ninguém faz algo assim sem um propósito. Meu telefone tocou.
— Sra. Linda Henderson? — uma voz feminina perguntou.
— Sim.
— Sou a detetive Mary Adams, do departamento de polícia de Maryville. — Encolhi-me com as palavras dela. Visões horríveis entraram na minha mente. — Em primeiro lugar, todos estão bem. Houve um incidente em sua casa envolvendo sua filha. Ela está bem, como eu disse, mas seria melhor se a senhora viesse para casa.
— O que aconteceu? — perguntei, minhas mãos tremendo novamente.
— Ainda estamos tentando juntar as peças. Uma briga ocorreu entre um rapaz e seu vizinho — a detetive falava calmamente, como se eu fosse uma vítima. — Sua filha está muito chateada.
— Mas ela está bem? — perguntei. Senti meus olhos lacrimejarem.
— Fisicamente, ela está bem.
— Vou levar vinte minutos para chegar em casa, já estou saindo.
— Dirija com cuidado, estarei aqui quando a senhora chegar. — A detetive já tinha lidado com pais angustiados antes. Ignorei os limites de velocidade.
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Natalie estava com os olhos vermelhos quando a vi no sofá. As lágrimas recomeçaram quando ela me viu. Minhas lágrimas seguiram as dela. Minha menina estava sofrendo. Uma mulher pequena, com o coldre da arma na cintura, levantou-se do sofá e se afastou enquanto eu puxava Natalie para meus braços. Choramos e eu nem sabia por quê.
— O que aconteceu? — perguntei, tentando ajeitar o cabelo de Natalie. Ela tinha dificuldade para falar, os soluços atrapalhavam. Ela desabou de volta em meus braços, então a segurei mais um pouco. Ela se acalmou depois de um tempo.
— Dan e eu estávamos conversando e... — Natalie obviamente omitiu uma parte. — Eu disse que não estava pronta. — Ela começou a chorar de novo. Eu odiei Dan. Odiei a família toda dele. Segurei minha filha. — Ele disse que estava cansado de esperar. Achei que ele fosse terminar comigo. — As lágrimas começaram a fluir pesado de novo. Deus, como eu odiava Dan. — Então ele me agarrou. Doeu e eu gritei. — Natalie não conseguiu continuar.
— Pelo que entendi — a detetive interveio —, seu vizinho, Sr. Thompson, ouviu o grito, entrou na casa e separou os dois. Ocorreu uma briga entre o Sr. Thompson e o Sr. Sampson. O Sr. Sampson precisou ser levado ao hospital. — Senti uma súbita e profunda gratidão pelo meu vizinho intrometido.
— Achei que ele fosse matar o Dan — Natalie chorou. — Tive que puxá-lo quando Dan parou de se mexer. — Natalie estava tremendo mais do que eu. Se eu estivesse em casa, Dan estaria morto. Eu sabia onde ficavam as facas de cozinha. Puxei Natalie para mais perto.
— Está tudo bem agora — menti, como qualquer mãe faria. Estava prestes a acrescentar 'estou aqui agora', mas teria saído falsamente da minha boca. Eu não estava lá quando aconteceu. Nunca devia ter deixado ela tê-lo em casa sozinha.
— Onde está Jared agora? — perguntei à detetive.
— Ele recusou atendimento médico e foi para casa — ela respondeu.
— Ele ficou ferido?
— Nada sério — a detetive insistiu. — Principalmente um olho roxo. — Eu teria que agradecê-lo. Ele salvou minha menina. Senti-me fraca por não estar aqui para ela. Pelo menos eu tinha um vizinho que era forte. Agora, Natalie precisava de mim.
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Esperei na porta de Jared. Passava um pouco das sete, mas não esperava que ele já estivesse deitado. Natalie finalmente se acalmou, o que, por sua vez, me acalmou. Eu não sabia bem o que dizer ao salvador da minha menina. Algo tinha que ser dito. 'Obrigada' simplesmente não parecia suficiente. Quando a porta se abriu, fiquei sem palavras.
Jared estava descalço, de calça jeans e camiseta branca. Seu olho esquerdo estava inchado; a pele ao redor, de um vermelho vívido. O olho não estava roxo agora, mas ficaria de manhã. Havia um fiozinho seco de sangue que escorria da orelha esquerda dele. Levava a uma pequena mancha marrom no ombro da camiseta. Não me contive. Abracei-o.
Jared ficou chocado a princípio, as costas enrijecendo. Lentamente, ele cedeu e seus braços me envolveram. Senti-me segura. Por alguma razão, chorei de novo. Ele puxou minha cabeça para seu ombro e me segurou na soleira da porta. Deixou-me chorar.
Me afastei, não porque não estivesse confortável, mas porque já tinha passado do tempo. Ele salvou minha filha; não precisava salvar a mãe dela. Enxuguei as lágrimas com as costas da mão.
— Você jantou? — perguntei, ignorando todos os ois e obrigadas que achei que o abraço cobriu bem.
— Não, não cheguei a tanto — Jared respondeu. Estendi a mão.
— Vamos pedir pizza — falei. — Não vamos conseguir dormir, então vai ser uma noite de cinema. — Jared me olhou com olhos questionadores. Gostei do jeito que os olhos dele, até o inchado, me olhavam. Eu já tinha visto olhos como aqueles antes, em algum lugar. Eu confiava naqueles olhos. Ele se esticou até a mesa do hall de entrada e pegou um molho de chaves. Tomou minha mão, e eu guiei meu herói descalço até minha casa.
Era bom ter um homem em casa. Tudo parecia mais equilibrado, do jeito que deveria ser. Jared ficou hesitante no começo, parecendo que estava se intrometendo. Natalie acabou com isso ao mimá-lo. Tudo desabou sobre ela quando Dan ficou agressivo. Jared colocou tudo de volta no lugar ao protegê-la. Jared relaxou e pareceu se divertir. Todos nós descalços, dividindo um sofá, assistindo filmes românticos com uma pizza grande de pepperoni. Parecia que fazia muito tempo que Jared não relaxava com amigos. Talvez todos nós precisássemos uns dos outros.
Estávamos vidrados em 'Doces Surpresas do Amor', um dos meus filmes cafonas favoritos, quando minha mão encontrou a dele. Foi sem querer. Eu tinha me inclinado para colocar meu copo na mesa. Quando me ajeitei de volta, nossas mãos ocupavam o mesmo espaço entre nós. Deixei minha mão ali, em cima da dele, por mais tempo do que normalmente faria. Comecei a puxá-la de volta, relutante, quando senti os dedos dele se abrirem e se entrelaçarem nos meus. Não lutei contra aquele abraço suave; encorajei-o acomodando minha mão mais fundo na dele. Foi a primeira mão que segurei desde que Tom faleceu. Eu precisava de toque humano mais do que imaginava.
Jared olhou para mim, seu rosto demonstrava preocupação, um olhar quase desolado de um garoto que tinha ido longe demais. Eu não queria perder sua mão. Sorri. Ele relaxou e retribuiu meu sorriso. Ele apertou minha mão com confiança e se acomodou confortavelmente no sofá. Meu sorriso foi toda a permissão que ele precisava. O sorriso que ele me devolveu queimou mais fundo do que ele jamais saberia. Eu estava sem alguém por tempo demais.
"Sou tão grata por você ter estado aqui para Natalie hoje," eu disse quando Natalie se desculpou para ir ao banheiro. Nossas mãos ainda estavam entrelaçadas no calor uma da outra.
"Não gostei da cara daquele garoto," Jared admitiu, "algo nele parecia errado." Ele me lançou seu olhar sem graça de novo. "Eu meio que trabalhei no seu lado da minha casa quando ele estava por perto." Ele era intrometido e protetor.
"Você sabia que algo assim aconteceria," eu disse. Puxei a mão dele para o meu colo e a envolvi com minha outra mão. Eu queria ficar com ela. "Queria ter ouvido quando você me avisou."
"Garotos serão garotos," Jared disse, dando de ombros, "aquele moleque só parecia confiante demais, arrogante, como se não aceitasse a palavra não." Não sei o que deu em mim. O jeito que ele falava, o jeito que tinha protegido minha filha, sua lógica analisando uma situação que eu tinha estragado. Sua força relutante me dominou. Minha agressividade foi completamente fora do normal. Eu me inclinei nos lábios dele e o beijei, rezando para não parecer tão desesperada quanto me sentia. Os lábios dele foram da confusão ao desejo em um piscar de olhos. A mão dele se soltou da minha, subiu pelo meu braço para embalar meu pescoço. Eu me inclinei nisso enquanto minha paixão me surpreendia. Ele me queria. A campainha tocou.
Eu quebrei o abraço e soltei o ar que estava prendendo. Jared estava sorrindo, seus olhos, inclusive o inchado, perdidos nos meus. A campainha tocou de novo. "É melhor você atender," ele disse suavemente, descendo a mão pelo meu braço. Eu me levantei relutante, sem querer que a vida interferisse.
"É melhor eu atender," eu repeti, e quase tropecei na mesa a caminho da porta. Corei quando vi Natalie sorrindo silenciosamente no corredor. Deus, ela viu aquilo. O que ela deve estar pensando de mim. Eu acabei de dançar no túmulo do pai dela. Uma onda de culpa me lavou. Eu tinha acabado de beijar alguém que não era Tom. O Detetive Adams estava na porta. Olhei para o relógio, eram dez e meia.
"Desculpe incomodar," o detetive disse, "suas luzes estavam acesas, e estou tentando localizar o Sr. Thompson." Atrapalhada, abri mais a porta.
"Ele está aqui," eu disse, convidando-a a entrar com um gesto da mão. O detetive entrou relutante. Pude ver que ela realmente não queria estar ali.
"Desculpe, Sr. Thompson," o detetive disse, segurando um papel, "tenho um mandado de prisão para o senhor."
"O quê?" Eu perguntei mais alto do que pretendia. Natalie saiu do corredor e foi rapidamente para o sofá. Não sei o que ela pretendia, mas derrubar o Detetive Adams poderia fazer parte disso.
"O Sr. e a Sra. Sampson são amigos do promotor público." O detetive soou apologética. Ela não estava gostando daquilo. "O filho deles ainda está inconsciente; eles estão transtornados. Eles não concordam com a versão dos fatos da sua filha. Tenho que levá-lo sob acusações de agressão e lesão corporal." Eu fiquei sem palavras.
"Eles acham que eu menti?" Natalie perguntou, seus olhos enfurecidos. "Aquele bastardo tentou..." Jared se levantou, ainda sorrindo do beijo. Ele deu um tapinha no ombro de Natalie para frear o início do discurso dela.
"Não foi inesperado," Jared disse calmamente, "tenho tempo para fazer uma ligação?"
"Claro," o Detetive Adams respondeu. Sua postura relaxou com a cooperação tranquila de Jared. "Eu mesma vim para tentar facilitar as coisas." Jared puxou o celular.
"Isso não pode estar acontecendo," eu disse, e fechei a porta com força, "é porque eles têm dinheiro?"
"Sinto muito," o Detetive Adams repetiu, "não faço as regras. Só as aplico."
"Mas não é justo," Natalie acrescentou. Eu me aproximei da minha filha.
"Nossos depoimentos impedem isso?" eu perguntei.
"Esta noite não," o detetive respondeu, "tenho certeza de que tudo se resolverá com o tempo."
"Frank, aqui é Jared, desculpe acordá-lo," Jared começou sua conversa ao telefone. "Estou aqui com o Detetive Adams com um mandado." Ele fez uma pausa. "Agressão e lesão corporal." Outra pausa. "Dez da manhã está ótimo." Pausa. "Ok, deixo com você." Ele guardou o celular de volta no bolso e sorriu para o detetive.
"Se esperar alguns minutos," Jared disse calmamente, "acho que podemos evitar a parte da prisão." Sua confiança era inabalável.
"Tenho alguns minutos," o detetive sorriu. Minha confusão deve ter transparecido no meu rosto.
"Tenho bons advogados," Jared me disse, então olhou de volta para o detetive, "agradeço por não ter enviado um uniformizado. Não estava muito ansioso pelas luzes piscando e algemas."
"Você esperava por isso?" eu perguntei.
"Meus advogados sim," Jared respondeu, "embora eles achassem que seria amanhã. Os Sampson agiram rápido." Aquela era a segunda vez que ele usava o plural para advogados. Quem tem vários advogados? Eu tinha me atirado em alguém sobre quem não sabia nada.
Alguns minutos depois, o celular do Detetive Adams tocou. Ela atendeu, ouviu e sorriu. Colocou o celular de volta no coldre. "Bem, Sr. Thompson, o senhor realmente tem advogados muito bons." Havia prazer na voz dela. "O senhor tem um compromisso às dez da manhã amanhã no prédio municipal, sala 316. O mandado foi revogado."
"Agradeço sua tolerância, Detetive," Jared disse com um sorriso. Acho que o Detetive Adams estava corando. Não gostei do jeito que ela olhava para ele. Ela estava usando um maldito anel de casamento. Olhei para a minha própria mão. Eu nunca tinha tirado o meu. Mais culpa.
Acompanhei o detetive até a porta e dei boa noite. Jared veio atrás dela. Eu não queria que ele fosse, mas sabia que ele não devia ficar.
"Boa noite, Natalie," Jared chamou quando se aproximou da porta.
"Boa noite," Natalie sorriu. Jared olhou para mim. Por um segundo, pensei que ele me beijaria de boa noite na frente de Natalie.
"Mais devagar na próxima?" Jared sussurrou. Ele sorriu suavemente quando eu balancei a cabeça. Ele se inclinou para mais perto de mim e sussurrou de novo, "Foi um beijo muito bom." Senti meu rosto corar e só consegui dar outro aceno sorridente. Não ousei abrir a boca. Algo incontrolável teria saído. Deixei-o partir com apenas um aceno sem graça. Eu era uma idiota culpada que queria mais.
"Ah, querida," eu disse a Natalie, "o que você viu... Eu não queria que aquilo acontecesse." Não tinha certeza do que dizer. Já tinha mentido para ela. Eu queria que acontecesse. Sei que queria.
"Papai gostaria dele," Natalie respondeu suavemente enquanto se sentava de volta no sofá. Ela estava certa, ele era o tipo de amigo do Tom. Acho que minha filha estava me dando permissão. Sorri para ela. Depois de tudo que passou hoje, ela estava pensando em mim. Ela pegou o controle para terminar o filme enquanto eu me dirigia ao sofá. Nós duas sabíamos o filme inteiro de cor, era um conforto para a alma. Sentei-me, minha filha ainda olhando para o controle. Ela ergueu os olhos para mim.
"Ele tem advogados, mãe," Natalie observou, "muito bons. Acho que você conhece sim alguém com muito dinheiro." Minha cabeça girou de volta para a porta, como se eu esperasse que Jared ainda estivesse lá. A perda de controle me inundou novamente. "Quem é ele?" Natalie perguntou, enquanto colocava o controle de volta na mesa, o filme ainda pausado.
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Natalie e eu vasculhamos a Internet, pesquisando Jared Thompson no Google. O número de links era impressionante. Eu esperava ter que passar por centenas de links inúteis para encontrar algo remotamente conectado. Eu estava errada. Minha boca se abriu quando a foto dele apareceu, vestido como um banqueiro. Era um artigo da Forbes de cinco anos atrás, intitulado "Mais um Bilionário Nasce."
Jared havia fundado uma empresa de segurança na Internet muito bem-sucedida. Passei por cima dos aspectos técnicos e me concentrei no essencial. Era uma história de superação. Ele vinha de origens modestas, trabalhando em biscates para pagar a faculdade. Havia alguns trabalhos de paisagismo listados, o que ainda parecia combinar com ele. Ele se formou como o melhor da turma e embarcou no sucesso empresarial. Ele tinha vendido a empresa, daí sua riqueza. Outro artigo especulava que a empresa entraria em colapso sem ele. Outros artigos mencionavam que a venda foi forçada, algo sobre um acidente. Pesquisei de novo, adicionando o termo acidente.
"Oh, Deus!" Natalie comentou. Uma foto de um SUV, esmagado até a metade do tamanho do lado do passageiro, estava no topo de um artigo de um jornal de Seattle. O artigo falava mais sobre o cruzamento perigoso do que sobre os ocupantes. Lendo mais a fundo, mencionava que Jared foi hospitalizado e sua esposa foi declarada morta no local. Cobri a boca e tentei não chorar.
O link seguinte tinha a mesma foto. Dizia que Jared estava na UTI e não se esperava que sobrevivesse. As datas dos artigos sobre o acidente eram cerca de um ano antes da venda de sua empresa. Após a venda da empresa, não havia nada sobre Jared. Encontramos um obituário sobre sua esposa, Cynthia. Ela foi enterrada em Seattle. Não havia menção de filhos, apenas pais e uma irmã.
Tentamos encontrar informações adicionais, mas só recuperamos mais do mesmo. Havia alguns artigos antigos sobre o crescimento de sua empresa. Nada parecia existir após a venda da empresa. Pelo menos, nada digno de Internet.
"Por que ele nos daria dinheiro?" Natalie perguntou.
"Não sabemos se foi ele," eu respondi. Natalie me lançou o seu olhar de 'você-é-burra'. O olhar que todos os filhos aperfeiçoam no primeiro ano. "Bem, não sabemos," eu reiterei. Até eu sabia que era um argumento fraco. Jared se tornou, na minha mente, um pouco assustador. Algo não batia. Por que um bilionário compraria a casa ao lado da minha? Por que ele de repente pagaria minhas dívidas antes mesmo de termos nos falado? Ele defendeu minha filha com tudo o que tinha. De acordo com Natalie, ele quase matou Dan. Agora eu o beijei e ele gostou. Eu gostei e isso me aterrorizou.
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Mantive Natalie em casa e liguei para o trabalho dizendo que estava doente. Quase não dormi, minha mente girando com um beijo culpado que eu não conseguia esquecer. Natalie desmaiou no sofá depois da meia-noite, no meio de um filme que nenhuma de nós estava assistindo. Cobri-a com um cobertor e a observei dormir. Dan a teria arruinado. Eu sabia disso no meu coração. Não importavam os motivos de Jared, ele salvou minha filha. Eu devia tudo a ele por isso. Se ele realmente pagou minhas dívidas, eu devia isso a ele. Eu não tinha nada para retribuir. Aquele beijo. Por que eu fiz aquilo? Eu sabia que se Natalie não estivesse em casa, eu teria ido mais longe. Balancei a cabeça. Os pensamentos não iam embora. 'Mais devagar na próxima?' ele me perguntou. Tom, por favor, me perdoe.
Fiz um café da manhã caprichado naquela manhã. Algo que eu raramente fazia. Normalmente sobrevivíamos de cereal ou uma torrada pronta. Eu precisava me sentir mais mãe. Não estive lá quando Natalie precisou de mim, mas eu podia estar aqui agora. Tirei a máquina de waffle; ela não via a luz do dia há uns dois anos. O cheiro que encheu a cozinha era acolhedor, muito caseiro. Trouxe Natalie do sofá.
"Estou atrasada," Natalie disse, movendo-se lentamente.
"Você vai ficar em casa hoje," eu disse, "já liguei avisando." Natalie sorriu, seu cabelo estava todo arrepiado por causa do sofá. Isto era família, embora pequena, mas ainda assim família. Eu não pude deixar de sorrir de volta. Waffles foi uma ideia muito boa.
"Isso cheira bem." Natalie estava praticamente babando. Coloquei um waffle, o segundo que eu fiz, no prato dela. O primeiro ficou um pouco deformado, então guardei para mim. Manteiga, calda e um pouco de suco de laranja. Eu me senti mais maternal.
"Você gosta dele," Natalie disse sem contexto, depois que terminamos de comer. O contexto estava subentendido. Estava na mente de nós duas. Ela estava sendo madura demais.
"Isso me assusta," eu disse honestamente, sem admitir que a afirmação de Natalie era verdadeira e sem negá-la. Comecei a colocar os pratos na pia, permitindo-me não olhar para ela. Uma mãe não deveria discutir tais coisas com sua filha.
"Papai não iria querer que você ficasse sozinha," Natalie disse baixinho. Fiquei olhando para a pia. Tentei parar, mas não consegui. As lágrimas vieram. Tom, me perdoe. Natalie me abraçou por trás. Ela era mais materna do que eu. Virei-me para ela.
"Isso não significaria que eu não amei seu pai," eu tropecei nas palavras.
"Eu sei."
"Ninguém poderia substituí-lo," eu argumentei.
"Eu sei."
"Eu gosto muito do Jared, por mais estranho que tudo isso seja." Eu tinha cimentado meus sentimentos. "Acho que ele gosta de mim. Achei que ninguém gostaria de mim de novo." Eu admiti, em voz alta. Ele me fez sentir desejável. Eu gostei dessa sensação. Precisava dessa sensação de novo.
"Eu estou bem com isso, mãe," Natalie disse, me dando permissão que eu não precisava, mas desejava profundamente. "Ele é rico e nada mal para um cara velho." Vi um traço de sorriso em seu rosto enquanto dizia isso.
"Está chamando sua mãe de velha?" eu disse, um sorriso lutando contra minhas lágrimas. Natalie me deu um grande sorriso. Ela sabia que tinha mudado meu humor.
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Encontrei Jared saindo para sua reunião das dez horas. Eu tinha esperado, como uma colegial, na janela da frente. Amei como ele sorriu quando acenei para o carro dele parar. Ele entrou na minha garagem e abaixou o vidro. Seu olho estava roxo, mas o inchaço tinha diminuído. Gostei muito do jeito que ele olhou para mim.
"Se precisar de nós, me avise," eu ofereci, "ou podemos ir com você se quiser." Jared estava tão bonito em seu terno. Ele ignorou minha oferta.
"Posso levar você e Natalie para jantar hoje à noite?" Jared perguntou. Por dentro, eu estava pulando de alegria. Tentei não deixar transparecer no meu rosto. Não tinha certeza se consegui.
"Isso seria adorável," eu respondi, as palavras se formaram suavemente. Talvez eu tenha escondido meus desejos.
"Casual, por volta das seis?" Jared acrescentou.
"Perfeito," eu disse, um pouco mais alto do que pretendia. Contive meu entusiasmo. Compus-me para melhor representar minha idade.
"Linda?" Jared perguntou com seu sorriso desejável.
"Sim, Jared."
"Eu também estou animado," Jared disse enquanto dava ré no carro para sair da garagem. Eu me vi saltitando na ponta dos pés. Acenei como uma idiota e não me importei. Eu não era mais velha que Natalie naquele momento. Foi realmente bom. Eu era uma mulher desejável com o coração de uma garota. Eu ia conquistar aquele garoto.
"Ele vai nos levar para jantar hoje à noite," eu disse a Natalie quando voltei da garagem.
"Nós? Por que não só você?"
"Porque ele é um cara legal," eu deduzi. "Porque você precisa de uma noite fora depois de ontem. Porque ele sabe que você é importante para mim." Sorri depois de colocar todos esses pensamentos na cabeça dela. Deixei de fora, 'porque precisamos da sua permissão' e ele sabe disso. "É só casual, então o que você quiser vestir." Fui para o meu closet. Eu só tinha umas nove horas para encontrar algo para vestir. Talvez eu devesse ir às compras.
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Me perguntei se minha saia estava muito curta. Ficava bem na frente do espelho. Agora, sentada no carro, subiu mais do que eu tinha previsto. Uns bons dez ou doze centímetros acima do joelho. Tentei ignorar; era tarde demais agora. Natalie estava no banco de trás do carro, jeans de grife e uma blusa branca cheia de babados que eu não sabia que ela tinha. Era fofa e apropriada para a idade dela. Jared optou por uma polo verde-oliva enfiada em calças cáqui com pregas. Ele não tinha parado de sorrir desde que entramos no carro.
"Matou aula hoje, Natalie?"
"Sim, a mamãe achou que era uma boa ideia. Deixar os boatos acalmarem antes de eu voltar para a escola." Jared estava concordando com a cabeça.
— Como foi sua reunião esta manhã? — perguntei. Jared desviou o olhar da estrada. Seus olhos caíram sobre meus joelhos, depois subiram rapidamente para os meus olhos. Minha saia estava curta demais.
— Acho que todos concordamos que insistir nas acusações de agressão seria um exagero — Jared sorriu. — Dan está consciente e decidiu que talvez não seja sensato. Acontece que ele fez dezoito anos há alguns meses. — Jared olhou de relance para Natalie. — Ele insiste que não estava tramando o que você pensou.
— Ele te deixa em paz, se eu deixar ele em paz? — Natalie perguntou. Ela juntou as peças mais rápido do que eu.
— Não se preocupe comigo — disse Jared —, se você quiser arrastá-lo pela lama, faça isso. Ele merece isso e muito mais. — Natalie não respondeu. Olhei para trás e a vi olhando distraidamente pela janela, pensando. Jared não insistiu mais no assunto.
Ajeitei a saia e tentei deixá-la mais comprida quando saí do carro no restaurante. Jared estava contornando o veículo, então pude esconder meus esforços facilmente. Natalie percebeu, seus olhos sinalizando que ela achava engraçado. Não era engraçado. Minha saia estava curta demais.
Natalie foi na frente, liderando o caminho até a entrada. Jared cuidadosamente passou o braço pela minha cintura. Ele se inclinou ao meu ouvido. — Você tem pernas lindas — sussurrou. O sangue subiu ao meu rosto enquanto eu olhava para seu sorriso. Ele falava sério. Minha saia estava no comprimento certo. Puxei a mão dele mais ao redor de mim e me inclinei contra ele.
— Obrigada — retribuí baixinho. Natalie estava sorrindo abertamente para mim enquanto segurava a porta aberta para nós. Queria limpar aquele sorriso do rosto dela. Era constrangedor e maravilhoso.
Jared passou a maior parte do jantar conhecendo Natalie. Não era um interesse fingido. Ele parecia gostar de ouvir sobre o time de vôlei dela e suas lembranças de acampar com o pai. As escoteiras e por que ela desistiu delas no ensino médio. O que ela planejava depois do colégio. Acontece que Natalie tinha sonhos que ainda não havia me contado. Jared simplesmente parecia arrancá-los dela. Se não fosse minha filha, eu teria ficado com ciúmes da atenção que ele estava dando a ela.
— Posso te fazer uma pergunta? — Natalie questionou Jared quando estávamos chegando ao fim da refeição. Vi aonde ela queria chegar. Eu não estava pronta para ir lá. Lancei um olhar que ela ignorou.
— Você pode perguntar qualquer coisa — Jared disse. Senti a mão dele encontrar a minha debaixo da mesa. Ele estava me segurando ali. Talvez pensasse que eu fosse fugir.
— Por que você pagou nossa hipoteca? — Natalie foi direto ao ponto. Ela nem perguntou se ele tinha feito isso.
— Querida, não vamos entrar nesse... — comecei. Senti Jared apertar minha mão. Foi um aperto de está tudo bem. Ele sabia que isso estava por vir.
— Não tenho uma boa resposta para você — Jared estava falando comigo. Apertei a mão dele de volta. Ele olhou de volta para Natalie — Vi sua mãe indo até a caixa de correio e voltando como se estivesse segurando um punhado da peste negra. Conversei com alguns vizinhos e descobri sobre seu pai. — Ele fez uma pausa por um momento. — Eu nasci pobre. Meus pais conheciam bem as dívidas. Sei como isso pode corroer você. Fiz isso porque podia. Me fez sentir bem.
— Nós pesquisamos sobre você na internet. Por que você se mudaria para o nosso bairro? — Natalie continuou seu interrogatório.
— Natalie! — repreendi. Uma pergunta brutal por noite. Isso era o adequado. Não acredito que ela contou que estávamos pesquisando sobre ele. Jared apertou minha mão novamente e sorriu.
— Ela tem razão, sabe — Jared me disse —, eu realmente pareço um pouco estranho. — Seu rosto ficou solene e ele respondeu. — Presumo que vocês leram sobre o acidente. Cynthia, minha esposa, morreu. Ela era meu norte. A única razão pela qual cheguei tão longe na vida e nos negócios. Quando saí do hospital, nada mais tinha significado. Nunca precisei das casas finas e dos carros. Sempre tínhamos planejado uma família e nunca parecíamos encontrar tempo. Meu único arrependimento. — Ele olhou para o teto, coberto de placas antigas e memorabilia — Queria fugir disso. Uma vida mais pé no chão. — Puxei a mão dele mais para o meu colo. — Me encontrei no bairro de vocês. — Ele sorriu para mim. Por que eu não estava falando? Porque eu tinha pernas lindas, porque me sentia desejada. Minhas palavras poderiam estragar tudo.
— Como você descobriu quanto eu devia? — perguntei aos olhos dele. O medo envolveu a pergunta. Eu desesperadamente não queria que ele pensasse que eu era ingrata. Só não queria me perder completamente. Pelo menos não ainda.
— Eu infrinzi a lei — Jared respondeu. — Um dos meus amigos usou minha antiga empresa para fazer uma consulta de crédito sobre você. Sinto muito pela invasão. Isso... não parecia tão ruim na época quanto soa agora. — Elevei a mão dele até meus lábios e beijei as costas da sua mão. Gostei da verdade. Gostei de como os lábios dele a formavam.
— Acho que você está perdoado — Natalie sorriu.
Acabamos pedindo três sobremesas diferentes e passando-as ao redor da mesa. Eu ia pular essa parte, mas Jared e Natalie insistiram no açúcar. Foi bem divertido dar uma mordida no bolo triplo de chocolate, seguida por uma colherada de sorvete de framboesa e depois fazer biquinho para a torta de limão. Maravilhosamente pecaminoso.
— Eu decidi — Natalie disse, depois de lamber a colher —, não quero que a coisa com o Dan vá adiante. A ida dele para o hospital já foi castigo suficiente.
— Você tem certeza? — perguntei. Eu poderia levar adiante como mãe dela. Dan ainda estava respirando, então eu ainda não estava completamente satisfeita.
— Sim — Natalie continuou —, arrastar isso só machucaria todo mundo. Eu ficaria feliz em nunca mais vê-lo.
— Vocês vão se ver na escola — Jared disse —, pode ser difícil.
— Posso lidar com isso — Natalie sorriu —, vou apenas dizer que terminamos e não estamos nos falando. É bem fácil, já que nunca mais quero falar com ele. — Jared e Natalie olharam para mim.
— Se é isso que você quer — eu disse, relutantemente —, mas se ele chegar perto de você de novo, ou inventar histórias, vou mudar de ideia.
— Meus advogados podem providenciar — Jared acrescentou —, vamos deixar isso passar se Dan mantiver distância sem comentários depreciativos. — Natalie assentiu.
— Tudo bem — concedi. Provavelmente seria melhor colocarmos isso no retrovisor. No máximo, Dan teria levado apenas um puxão de orelha, já que Jared tinha acabado com aquilo antes que fosse longe demais.
==========
— O que ele te disse no estacionamento? — Natalie perguntou, quando já estávamos em casa.
— Nada — eu disse, tentando lembrar se ele disse algo quando saímos do restaurante.
— Ele disse algo sim — Natalie riu —, você estava toda nervosa no carro, depois de repente estava grudada nele com um sorriso bobo. — Ela se referia a quando chegamos ao restaurante. Meu rosto esquentou.
— Ah... ele disse que eu tinha pernas lindas — eu disse, lembrando como foi bom sentir aquilo.
— Você estava suspirando — Natalie sorriu.
— Não estava, não — argumentei. Natalie apenas acenou com a cabeça, usando um sorriso estúpido. — Ele só me pegou desprevenida. — O mesmo sorriso estúpido. — Foi tão óbvio?
— Todo mundo no restaurante percebeu.
— Ai, Deus — suspirei. Eu estava suspirando. Devo ter parecido uma idiota. Jared deve pensar que sou uma boba.
— Aposto que ele achou fofo — Natalie disse. Fofo? Eu era uma mulher, não uma menininha. Não estava tentando ser fofa. O que eu estava tentando ser?
— Preciso me desculpar — eu disse. Não queria que Jared pensasse que eu era uma idiota. Comecei a me dirigir para a porta.
— Por ser fofa? — Natalie perguntou.
— Por suspirar como uma idiota — respondi, com raiva na voz. Fazia tempo demais desde que alguém, um homem, tinha comentado sobre minha aparência. Se Jared pensasse que um elogio me faria implorar, estava redondamente enganado. Marchei até a casa dele. Um amontoado de palavras passou pela minha mente. Só precisava deixar as coisas claras. Nada exagerado, apenas desacelerar tudo. Deixá-lo saber que eu não era fácil, ele era um cara bonito, mas eu precisava de tempo. A porta se abriu antes que eu terminasse de bater.
Meias marrons macias, calças cáqui e uma camisa polo verde-oliva para fora da calça. Olhei para cima, seus lábios entreabertos em curiosidade, seus olhos cheios de... de mim. Todas as minhas palavras me abandonaram. Eu suspirei.
— Não fiquei com ninguém desde que Tom morreu — gaguejei.
— Sua saia está me deixando louco a noite toda — Jared disse. Pulei em seus braços, quase o derrubando. Ele me abraçou, seus lábios e os meus se fundiram à força. Eu o queria. Não queria ir devagar. Separei os lábios e deixei minha língua explorar, provando-o. Ele me apertou mais forte, sua língua dançando com a minha. Ele me arrastou para dentro da casa e chutou a porta fechada.
Jared se moveu para trás, me guiando em direção a um cômodo à direita. Eu atrapalhada tentava tirar sua camisa, tentando levantá-la sem deixar nossos lábios se separarem. Ele riu calorosamente na minha boca enquanto levantava os braços. Nós nos separamos apenas o tempo suficiente para tirar a camisa dele e jogá-la no chão. Nossos lábios se reconectaram, as mãos dele lutando com os botões da minha blusa, as minhas trabalhando em seu cinto. Minha mão encontrou sua ereção através das calças. Senti seu desejo por mim, duro como pedra e latejante. Meu coração se encheu com sua necessidade. Desabotoei suas calças enquanto ele removia minha blusa. Minha blusa encontrou o chão, eu abaixei suas calças e cueca com um único empurrão. Ele lutava para sair delas enquanto minhas mãos exploravam meu desejo. Ele estava tão duro. Eu não sabia que podia estar tão molhada.
Jared encontrou o fecho e deixou meu sutiã cair no chão. Ele agarrou meus seios avidamente, sua boca encontrando meus mamilos. Ele estava me devorando. Eu me inclinei nele, guiando sua cabeça, me entregando a ele. Rapidamente movi minha mão para o zíper da minha saia. A mão dele encontrou a minha ali e ele diminuiu o ritmo.
— Por favor — Jared respirou —, deixa ela. Vou te comprar uma nova quando a estragarmos. — Estremeci com sua voz grave. Garoto pervertido. Eu queria que ele me estragasse. Suspirei profundamente, levantei minha saia e abaixei minha calcinha. Ele sorriu. Eu sorri. Ele me deitou no sofá, levantando meus pés e removendo minha calcinha. Suas mãos correram suavemente ao longo das minhas pernas, ele não tinha mentido, ele as amava.
Jared se ajoelhou diante de mim, seus lábios seguindo suas mãos ao longo das minhas pernas. Ele separou minhas pernas sem hesitação, seus lábios e língua subindo dos joelhos pela parte interna das minhas coxas. Ele brincava com a barra da minha saia, empurrando-a lentamente para cima. O calor queimava entre minhas pernas, eu o queria mais alto, seus lábios, sua língua — tudo dele. Gemi incontrolavelmente quando ele empurrou a parte da frente da minha saia para além do meu sexo. Abri mais as pernas, me expondo mais. Nunca tinha sido tão ousada, tão lasciva. Fazia tempo demais. A vida era curta demais. Usei minhas mãos para instigar a cabeça dele para a frente.
Quase gritei quando os lábios de Jared acariciaram meus lábios vaginais. Deus, eu podia sentir seu sorriso pela forma como meus quadris se sacudiram. Seus dedos encontraram minha entrada, sua língua se moveu para o norte, impacientemente instigando meu clitóris a se destacar. Eu podia sentir o começo, o calor, o formigamento e meus músculos pouco usados se contraindo. Queria que a primeira vez fosse nós dois, não apenas eu. Lutei para me inclinar para a frente, alcançando Jared, puxando-o para cima de mim.
— Em mim — implorei. O homem, transformado em um garoto cheio de luxúria, lutou suavemente contra meu desejo.
— Faz uma eternidade — Jared disse —, não vou durar. — Sorri e puxei mais forte. Ele seguiu.
— Você não vai precisar — gemi. A ereção rígida de Jared deixou um rastro úmido ao longo da minha perna. Sua respiração ficou esporádica enquanto ele se posicionava. A antecipação era gloriosa, o desejo em seus olhos alimentando o meu. Segurei seu membro, direcionando-o para casa, mudando meus quadris para melhor encontrá-lo.
Foi o paraíso. Jared entrou em mim lentamente, lutando com sua própria necessidade. Meus músculos enrijeceram, depois se transformaram em gelatina. Eu o senti todo; meu túnel estava em chamas. Cada sensação, ampliada cem vezes, ecoava pela minha pele, excitando até meus dedos dos pés. Enrolei minhas pernas ao redor dele e pressionei minha pelve na dele. Ele grunhia sons magníficos de luxúria. Seus olhos se abriram nos meus. Eu convulsionei, o prazer disparando por toda parte e minha boceta, ignorada por tanto tempo, anunciou sua breve posse da minha alma. Minhas costas arquearam, forçando meu corpo contra Jared. Um gemido profundo escapou de seus lábios enquanto ele inundava meu interior com jatos de calor líquido. Outra onda me agarrou, lavando toda a dor, deixando apenas o êxtase. Jared era meu paraíso.
— Saia era sexy demais — Jared sussurrou entre respirações pesadas. Eu ri. Meus músculos pareciam de borracha. Meu homem estava desnecessariamente preocupado com seu desempenho. Estendi a mão e limpei o leve brilho de suor que se formara em sua testa. Puxei seus lábios de volta aos meus. Eu tinha um homem em mim. Um homem bonito e maravilhoso. Eu me sentia tão humana, tão desejada. Precisava comprar mais saias.
— Eu vim aqui para desacelerar as coisas — ri fracamente. Passei a mão pela nuca dele. Não o queria fora de mim ainda. Queria que ele ficasse ali deitado, um cobertor humano.
— Bem, acho que não podemos ir mais rápido — Jared disse enquanto gentilmente afastava meu cabelo embaraçado do meu rosto. Ele se inclinou levemente para o lado e começou a acariciar distraidamente meu seio. Ele estava me estudando. Inacreditavelmente, eu não estava correndo para apagar a luz. Eu o apertei dentro de mim. Ele sorriu e de alguma forma contraiu o pênis em resposta. Estávamos brincando da forma mais íntima e adorável. A proximidade era encantadora.
— Queria poder ficar — eu disse, pensando em Natalie. Não queria ir embora, mas não podia ficar.
— Podemos desacelerar as coisas de novo em breve? — Jared perguntou. Ele tinha aquele garoto no rosto de novo. Tive que morder o lábio para não rir. Eu realmente gostava de ele me querer, seu dedo traçando levemente, quase um cócegas, meu seio.
— Espero que sim — eu disse, projetando meu desejo para Jared —, de forma um pouco discreta no começo. Não quero que Natalie saiba o quanto eu gosto de você ainda. — Podia jurar que o senti crescer dentro de mim. Apertei-o de novo. Mais lábios, mais mãos, mais paixão.
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— Você resolveu as coisas? — Natalie perguntou quando cheguei em casa. Eu tentava parecer casual e não mostrar minhas costas. Minha saia tinha uma grande mancha molhada no bumbum. Também não queria chegar muito perto. Eu cheirava a Jared. Era um cheiro maravilhoso que desejava guardar para mim.
— Chegamos a um acordo — respondi enigmaticamente. Tive sorte de o nariz de Natalie estar enfiado em um livro escolar. Ela provavelmente nem percebeu que eu tinha ficado fora por mais de uma hora. — Vou pular no chuveiro — eu disse, recuando pelo corredor.
Examinei minha saia no banheiro. Provavelmente estava arruinada. Sorri para a mancha na bunda. Ia tentar limpá-la, mas tinha pouca esperança de recuperação. Era para ser lavada a seco, mas amanhã estaria na máquina de lavar. Não importava. Eu amava aquela mancha. Queria fazer mais manchas. Droga, ele me deixou excitada.
Liguei o chuveiro e tirei o resto da roupa. Olhando no espelho, me encolhi com a quantidade de pelos entre minhas pernas. Eu não tinha planejado ficar nua. Jared não pareceu se importar. Não importa, haveria menos na próxima vez. Uma aparada de biquíni bastaria. Nada dramático, parece que a saia faz a maior parte do trabalho pesado de qualquer forma. Ri com o pensamento.
Examinei meus seios, adequados. Minha barriga poderia se beneficiar com um pouco menos de sobremesa. Os quadris não estavam ruins para uma senhora da minha idade. No geral, eu estava muito bem. O pensamento me chocou. Eu estava basicamente feliz comigo mesma. Quão superficial sou para permitir que minha autoestima seja definida por um homem? Mas que homem. A forma como ele se perdeu em mim. A forma como eu me perdi nele. Dane-se. Me defina, Jared.
Entrei na água e mergulhei sob o jato. Ele me atingiu com a água morna. Me perdoe, Tom. Eu ia me apaixonar de novo.
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— E ele entrou correndo e a salvou? — Betty perguntou. Ela estava me sabatinando a manhã toda, tentando descobrir por que fui chamada e depois tirei outro dia de folga.
— Ele o espancou até deixá-lo inconsciente — acrescentei. Ele protegeu meu bebê.
— Ele é solteiro? — Betty perguntou. Corei e assenti. — Você não fez isso!
— O quê?
— Olhe para você — Betty comentou —, você está toda radiante. Depois do que aconteceu, só poderia haver uma razão. — Corei mais forte.
— Tire sua cabeça do esgoto — sussurrei, tentando fazê-la falar mais baixo. Voltei ao meu trabalho, ignorando seu sorriso largo. Eu estava radiante. Andando nas nuvens. Isso não significava que todos precisavam saber o porquê.
— Senhora Henderson? — Virei-me para ver um jovem em uniforme de florista. Ele carregava um vaso bastante grande cheio de rosas amarelas e copos-de-leite brancos. Eu não recebia flores há anos. Tenho certeza de que isso transpareceu no meu rosto.
— Obrigada — agradeci, efusiva, levando o vaso para o canto da minha mesa. Aspirei a fragrância, com um sorriso grudado no rosto. Acho que fiquei saltitando na ponta dos pés.
— Esgoto, hein? — Betty sussurrou. Ignorei-a e peguei o pequeno envelope preso à haste de plástico. Continha um bilhete e um cartão-presente de uma loja de roupas cara do centro. O bilhete me fez sorrir.
Não sei seu tamanho... ainda.JT
— O que isso significa? — Betty perguntou, lendo por cima do meu ombro. O sorriso dela era irritante.
— Não é da sua conta — repreendi, guardando o bilhete.
— Bastone Appendiabiti. Essa loja é caríssima, não tenho dinheiro nem pra olhar as vitrines daquele lugar.
— Shh — fiz, indicando para ela voltar ao computador. Tentei retomar meu trabalho. Betty estava segurando minha cadeira, não me deixando rolar de volta à posição.
— Ai. Meu. Deus. — Betty articulou. — Foi ele que pagou sua hipoteca. — Revirei os olhos. Como ela decifrava tudo tão rápido? — Você vai me contar tudo no almoço. — Ela soltou minha cadeira, depois de repente a puxou de novo. — Tudo!
Fiz Betty jurar segredo no almoço. Para ser sincera, foi bom compartilhar tudo. Bem, quase tudo. Mantive os detalhes sobre o sofá em segredo e os substituí por um único eufemismo. Ela ouviu atentamente enquanto mastigava seu sanduíche de salada de frango.
— Tem alguma coisa errada — Betty disse. Eu não queria ouvir aquilo. — Você está me dizendo que esse cara super-rico comprou por acaso uma casa pequena ao lado da sua, decide quitar suas dívidas enormes antes mesmo de dizer oi, salva sua filha que ele estava de olho e depois vocês dois transam como coelhos. — Empalideci com as palavras dela. O raciocínio de Jared tinha soado bem no jantar. A conexão que fizemos pareceu real o suficiente.
— Não é assim — defendi. — você está tirando tudo do contexto. Você precisava estar lá. — Betty sorriu e desistiu de sua análise.
— Foi bom? — Betty sussurrou. O jeito como ela disse 'foi' não deixava dúvidas sobre o que estava falando. Inclinei-me para que as outras mesas não ouvissem.
— Como a primeira vez — sussurrei de volta. — sem o medo, e a gente sabia o que estava fazendo.
— Ooh — Betty suspirou. — agora estou com inveja. — Ela fez uma pausa. — Então, o que o bilhete significava? — Eu não ia contar tudo a ela. Então, desconversei habilmente.
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Jared era perfeito. Mantivemos nossa fisicalidade longe de Natalie, embora ela tivesse visto pequenas demonstrações de afeto. Ele insistia em ir comigo aos jogos de vôlei de Natalie e a qualquer outro evento em que os pais fossem bem-vindos. No começo, ele ficava calmo, decidido a estar comigo e assistir ao jogo. Com o tempo, tornou-se vibrante, torcendo por Natalie e gritando com os árbitros cegos. Natalie e Jared entravam em discussões profundas sobre estratégia e o que ele achava que o técnico deveria estar trabalhando. Jared brilhava quando o time de Natalie vencia e fazia bico quando perdiam.
Natalie estava com dificuldades em matemática. Álgebra era sua nêmesis. Eu entendia a maior parte, mas tinha dificuldade em transmitir o conhecimento. Por alguma razão, acabávamos nos estranhando toda vez que eu tentava ajudar. Tinha sido muito mais fácil no ensino fundamental. Jared, por outro lado, era paciente e sempre parecia saber exatamente a dificuldade que Natalie estava tendo. Ele mostrava maneiras de lidar com os problemas que acionavam algo lindo na mente dela. Ela começava o dever de casa com uma carranca e terminava rindo com Jared. Eu via isso acontecer e incentivava. Ele estava criando laços com Natalie da forma mais maravilhosa. Embora eu não tivesse dito a ele, meu coração já estava ligado ao dele. Meu herói amante de saias e safadinho.
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Eu estava esperando acordada. Não sei por quê, já passava bem das duas da manhã, mas eu esperava junto à janela. Não conseguia dormir e me preocupava com Jared. De algum modo, tinha me metido na cabeça que tudo poderia acabar num piscar de olhos. Era estúpido tentar achar falhas na minha felicidade. Eu sabia disso, ainda assim fiquei sentada olhando pela janela, observando a casa dele.
Um táxi parou, e um Jared muito bêbado saiu cambaleando. Ele tinha ido a uma despedida de solteiro de um velho amigo. Eu nunca tinha visto Jared tomar mais do que duas taças de vinho. Quase ri, vendo-o tentar pagar o taxista. Ele obviamente estava com dificuldade para ler as denominações nas notas. Apressei-me a calçar sapatos. Estava tão feliz que ele estava em casa são e salvo.
Alcancei Jared na calçada. O táxi já tinha ido embora. Percebi que ele estava se certificando de que era a casa certa. Ri enquanto passava o braço em volta dele. O sorriso dele era desajeitado, mas sincero.
— Tive que deixar meu carro — Jared balbuciou, apontando para algum lugar atrás dele, como se a direção pudesse me ajudar a adivinhar onde estava o carro. Ele estava completamente bêbado.
— Precisamos colocar você para dentro — eu disse, beijando sua bochecha. Fiquei tão feliz que ele tinha deixado o carro.
— Não quero mais mentir — Jared disse de forma atrapalhada. — havia strippers lá. — De novo ele apontou para trás. Comecei a guiá-lo para a porta da frente. A palavra 'mais' me incomodou, mas atribuí à bebedeira. — Suas pernas são mais bonitas — ele babou. Sorri com o elogio embriagado, mesmo ele me comparando a strippers.
Manobrei-o pelo corredor até seu quarto. Deitei-o na cama e comecei a tirar seus sapatos. Ele me observava com olhos bêbados, um sorriso feliz no rosto. Seus olhos estavam se apagando; aquelas lindas órbitas que sempre me viam como melhor do que sou. Havia algo tão confortável neles.
— Estou tão feliz por ter encontrado você, Natalie — Jared balbuciou enquanto seus olhos se fechavam. Fiquei parada, chocada, o pé esquerdo dele ainda na minha mão. Ele estava completamente apagado. Estava bêbado. Foi só um deslize. Terminei de tirar o sapato enquanto a frase dele fermentava. Eu não conseguia ignorar. Tentei acordá-lo. Nada coerente saía. Sentei na cama e olhei para ele. As palavras de Betty voltaram à minha mente. Minha mente estava contaminada. Odiei que minha mente estivesse ignorando meu coração.
A paranoia me fez revistar a casa de Jared. Não gostei de mim mesma por fazer aquilo. Não foi a revista tipo o-que-tem-no-armário-de-remédios. Foi uma revista de perda de confiança. Eu tinha lágrimas enquanto fazia. Vasculhando gavetas e armários, olhando envelopes e lendo coisas que eu não tinha o direito de ler.
Revistei o quarto de Jared, a sala de estar, a cozinha e terminei no escritório dele. Na gaveta de baixo da escrivaninha havia um fichário grosso e brilhante, azul. Puxei-o, resignada a não encontrar nada além da minha própria idiotice. Abri a capa. Era um álbum de fotos. Lágrimas escorreram quando vi o tema. Meu estômago embrulhou enquanto eu virava as páginas. Vomitei bile no chão. Minha vida estava em frangalhos.
Peguei o álbum e fugi.
==========
— E você tirou isso da casa dele? — a detetive Adams perguntou. Eu tinha esperado até Natalie ir para a escola. Não a queria nem perto disso.
— Claro que sim! — bradei. — ele é um doente pervertido. Olha, isso é um saco de cabelo. Você tem alguma dúvida de quem é? — A detetive folheou as fotos de Natalie.
— Você nunca deu cópias destas fotos para ele? — a detetive Adams perguntou. Ela estava na página de Natalie bebê. Eram cópias ruins, mas cópias das que Tom e eu tiramos conforme Natalie crescia.
— Não! — Meu coração estava despedaçado e cheio de ódio. — Ele roubou elas. Foi ele quem invadiu minha casa. — Virei a página para acelerar as coisas. — Estas são fotos do quarto dela. Como ele conseguiu isso? Ele nunca esteve nos fundos da casa. — Jared estava me usando para chegar a Natalie, o doente de merda. — Ele mexeu na minha correspondência. — Virei para a última página que continha fotocópias soltas dos meus avisos de cobrança. Tudo que ele me contou tinha sido mentira. Voltei as páginas rapidamente, minha ira crescendo a cada minuto.
— Estas — eu disse, apontando para fotos de torneio de vôlei. — eu nem tenho fotos disso. Foi antes mesmo de ele comprar a casa. — A detetive Adams assentiu com a cabeça. Não era a resposta de sair-correndo-e-prendê-lo que eu procurava. — Ele está perseguindo ela — eu disse alto. — ele deveria estar na cadeia. Ele me usou para chegar na minha filha. — Quase vomitei de novo, lembranças de estar nua com Jared. As mentiras, minha credulidade, doía além da conta. A pior mãe do mundo.
A campainha tocou. Eu sabia quem era. — Prenda ele — implorei. — tire ele de perto de nós. Será que não posso conseguir uma ordem judicial ou algo assim? — A campainha tocou de novo. — Ele não pode estar na minha propriedade se eu não quiser, certo? — perguntei, apontando para a porta. O pânico estava subindo. Eu não tinha dormido a noite toda. A detetive não estava agindo rápido o bastante. A detetive Adams levantou-se para atender a porta.
— Você não pode estar aqui, Sr. Thompson — a detetive Adams disse assim que a porta se abriu. A raiva explodiu.
— Cai fora daqui, seu doente de merda! — gritei. A detetive bloqueou a porta e começou a fazer Jared recuar. — Vou comprar uma arma — continuei, em voz alta. — chegue perto da Natalie e eu atiro. — Vi o medo no rosto de Jared. Ele tinha sido pego. Queria vê-lo sofrer mais. A detetive Adams saiu com Jared, a mão perto do revólver. Talvez ele tentasse algo e ela pudesse atirar nele. Ela fechou a porta.
Corri para a janela. Ela o conduziu de volta à casa dele, aparentemente conversando calmamente. Jared cobria os olhos com a mão. Ele sabia que estava ferrado. Eu esperava que doesse. Doesse mais do que doeu em mim. Nada poderia doer tanto. Esperei na janela a detetive voltar.
Trinta minutos depois, um sedã encostou na casa de Jared e dois homens de terno saíram e entraram na casa. Provavelmente os advogados dele. Ele ia precisar de um milhão deles. Dinheiro nenhum no mundo protegia um pedófilo. Uma hora depois, outro sedã. Este tinha insígnias do FBI. Um homem e uma mulher saíram e entraram na casa. Dez minutos depois, Jared, algemado, foi levado ao carro do FBI e colocado no banco de trás. Ele estava péssimo, com o rosto abatido. Eu esperava que a ressaca dele fosse monstruosa. A detetive Adams retornou alguns minutos depois.
— Ele fez isso com outras, não fez? — perguntei. Feliz em ver os federais levarem ele embora.
— Não exatamente — a detetive disse suavemente. — ele foi preso por crimes de informática. Ele confessou ter invadido alguns sistemas seguros. O FBI o autuou por fraude eletrônica.
— Ele está atrás da minha filha e vocês o prendem por hacking? — perguntei incrédula. Eu queria ele enforcado. A detetive pareceu relutante em responder.
— Ele também confessou ter invadido sua casa — a detetive não tinha confiança na voz. — ele também admite ter feito cópias das fotos e de suas contas. Você pode apresentar queixa se quiser. Quando os federais terminarem com ele, nós vamos processá-lo. Ele não vai contestar. — Ela sentia pena dele. Eu vi nos olhos dela. A vagabunda caiu no papo dele como eu.
— Ele tinha o cabelo dela! — argumentei, lutando contra o mundo.
— O promotor público e eu estamos convencidos de que o Sr. Thompson não é uma ameaça à Natalie — a detetive continuou. Soava ensaiado.
— É isso que ele faz — gritei. — ele envolve você com charme. Você está do lado dele. — A detetive parecia abatida.
— Não tenho liberdade para dizer muito mais — a detetive acrescentou. — ele vai colocar a casa à venda. Não voltará para ela. Nos avise se quiser apresentar queixa. — Eu queria ele enforcado. A detetive Adams moveu-se em direção à porta.
— Sua vagabunda! — minha raiva transbordava. — talvez ele vá atrás dos seus filhos depois. — A detetive parou. Ela balançou a cabeça e continuou até a porta. Fiquei sem palavras. Queria que um abismo se abrisse e sugasse todos para o inferno.
O que eu ia dizer para Natalie? Os últimos dois homens na sua curta vida eram escória. Minha vida estava acabada; a dela só começando. Eu não podia deixar isso arruiná-la como me arruinou. Tinha que lembrá-la do pai dela. Tom era um homem bom. Devem existir outros no mundo. Desabei no sofá. Quase fui uma daquelas mães, daquelas sobre quem a gente lê. Elas negam o óbvio e permitem que suas filhas sejam abusadas por tarados, só para dizer que têm um homem.
Eu o amava. Chorei.
==========
— O que aconteceu com você? — Betty perguntou. Eu tinha decidido voltar ao trabalho naquela tarde. Não tinha ideia do que dizer a Natalie. O trabalho adiaria a conversa por mais algumas horas. Ignorei Betty e fiz login no computador. Tinha uma pilha de contas a receber para lidar.
— Você dormiu alguma coisa noite passada? Tomou banho pelo menos?
— Agora não — eu disse. Peguei o primeiro pagamento e procurei a conta. Digitei o número errado e apertei enter em vez de backspace. Tive que esperar a mensagem de erro. Quase atirei o teclado do outro lado da sala. Em vez disso, respirei fundo.
— Linda, fala comigo — Betty disse baixinho. Eu ouvia a preocupação na voz dela. Cerrei os dentes. Queria sentir raiva, não mais chorar. Virei-me, talvez rápido demais.
— Para! — gritei. Betty recuou assustada. Era demais. Ela se virou de volta ao trabalho. Eu a tinha magoado e, por algum motivo, aquilo pareceu compartilhar a dor. Voltei ao meu trabalho. Processei os próximos vinte ou mais pagamentos em silêncio. Mal via os números, olhos para os dedos, então apertava enter. Ignorar o cérebro, uma ferramenta tão inútil. Não consegue nem diferenciar entre amor e um golpe.
— Você estava certa — eu disse com a voz rouca, virando para Betty. Betty virou para mim, um borrão de maquiagem sob o olho. Eu a tinha magoado. — alguma coisa não estava certa. — Ela não deslizou a cadeira como de costume. Manteve distância. Eu merecia aquilo. — Ele estava atrás da Natalie — acrescentei.
— Ah, Deus — Betty disse, cobrindo a boca com a mão. Ela deslizou a cadeira para perto da minha.
— Sinto muito — desculpei-me. — foi uma noite longa. Encontrei um álbum de fotos cheio de fotos da Natalie na casa dele, até um pouco do cabelo dela. — Betty ofegou.
— O que ele disse?
— Eu não falei com ele — admiti. — chamei a polícia em vez disso. O FBI está com ele agora. Ainda bem, nunca mais vou vê-lo. — Baixei o olhar para o chão. — Ele invadiu minha casa para pegar algumas das fotos. Ele mentiu o tempo todo. — Senti minha garganta se fechar, forcei-a a relaxar.
— O FBI?
— Parece que ele hackeou algumas redes de computador. Fraude eletrônica — completei.
— Tem alguma coisa errada — Betty comentou.
— Eu já sei disso.
— Como ele escolheu a Natalie? — Betty pensou em voz alta. — Ele é bilionário. Não poderia simplesmente comprar uma garota jovem se fosse isso que ele queria?
— Quem sabe o que passa pela cabeça de um homem doente.
— Ele gastou meio milhão nas suas dívidas — Betty continuou. — por que ele faria isso se tudo que ele queria era a Natalie? Teria sido mais fácil resgatá-la de uma mãe falida.
— Ele só estava tentando se aproximar — respondi. Menos confiante. — Mais dinheiro do que juízo.
— Sinto muito, Linda — Betty disse, então me abraçou. Foi um abraço bom. Gostei mais dele do que compartilhar a dor.
==========
— Oi, mãe — Natalie disse, animada. — espaguete para o jantar. — Ela apontou para a panela tampada no fogão. Eu sentia o cheiro do pão de alho assando. — Tentei ligar para o Jared para ver se ele queria um pouco. Ele ainda não me ligou de volta.
Tive a pior conversa da minha vida. Natalie insistindo que eu tinha entendido tudo errado. Ela jogou o álbum do outro lado do quarto. — Ele nunca olhou para mim desse jeito! — gritou. Eu não podia culpá-la. Ele tinha nos enganado a todos. Pensei que já tinha chorado tudo, mas mal tinha começado. Natalie se trancou no quarto, certa de que eu tinha feito algo para afugentá-lo. Joguei fora o pão de alho queimado. O espaguete foi para o triturador. Ninguém ia jantar naquela noite.
Jared Thompson nos arruinou.
==========
Natalie não cozinhava o jantar havia semanas. Não é que eu esperasse que ela cozinhasse minhas refeições, era a participação no 'nós' que eu sentia falta. As amigas dela, sempre importantes, tornaram-se críticas. Eu fui empurrada para algum lugar atrás da professora de matemática que ela odiava.
Não apresentei queixa contra Jared. Ele tinha mantido sua palavra e colocado a casa à venda. A placa apareceu uma semana depois de ele ser preso. Ainda não havia interessados, mesmo o preço pedido estando bem abaixo do mercado. Um dia, apareceram uns carregadores e levaram todos os móveis, as roupas dele e o que mais não estivesse fixo.
Minha vida estava vazia. O buraco que Jared perfurou em mim se encheu de ódio. O desgosto de Natalie transformou isso em vergonha. Eu não chorava havia dias. Teria sido melhor se pudesse. Betty me convenceu a fazer um corte de cabelo novo, mais curto do que eu estava acostumada. Ela achou que me daria uma nova perspectiva. Não me deu nada além de menos cabelo para lavar.
Pelo menos minha caminhada até a caixa de correio não foi um tormento. Era sábado. Eu estava sozinha em casa, já que Natalie tinha passado a noite na casa de uma amiga. Ela estava fazendo isso com frequência. Eu a estava perdendo. A caixa de correio continha contas e propagandas. Contas normais. Nada para chorar. Eu quase esperava receber um dia uma carta dizendo que todas as minhas dívidas tinham sido restabelecidas. Até agora, Jared não mostrava retaliação. Não que ele tivesse qualquer base moral para retaliar.
Misturada com as contas, havia uma carta de um escritório de advocacia. Sentei no balcão da cozinha e abri. A carta era cheia de juridiquês. Parecia oficial, então gastei um tempo decifrando-a. Um sistema de laboratórios médicos havia sido invadido. Por lei, eles estavam notificando todos os pacientes sobre a violação. Percy Labs era o nome da empresa. O nome soava familiar, mas não consegui identificá-lo de imediato. Tom teve tantos médicos e fez tantos exames de laboratório.
A carta prosseguia dizendo que a violação havia sido contida e que, até onde sabiam, nenhum dado pessoal foi usado para fins ilícitos. Havia um número para ligar para obter mais informações, e monitoramento de crédito gratuito era oferecido. Foi a parte de baixo da carta que me confundiu.
Pacientes Afetados: Linda HendersonEu não conseguia me lembrar de ter usado a Percy Labs. Meu médico atual enviou um papanicolau para a Tri-County Labs. Comecei a voltar no meu histórico. Todas as nossas coisas médicas pareciam ligadas ao Tom. Eu me lembraria se fosse a segunda rodada de câncer. Eu não teria pagado e teria recebido muitos avisos de atraso. Talvez eu as tenha pago se o valor fosse pequeno o suficiente. Mas era o meu nome, não o do Tom.
Natalie escolheu aquele momento para entrar. Ela olhou para mim, seus olhos ainda felizes da noite que passara fora. Talvez ela falasse comigo, eu esperava desesperadamente.
"Oi, se divertiu?" perguntei. Natalie sorriu. Meu coração se alegrou.
"Sim," Natalie disse enquanto colocava a bolsa perto da porta. "Você não vai acreditar de quem a Candice gosta." Ela se moveu para o outro lado do balcão e se sentou. Fofoca. Fofoca normal do dia a dia.
"Não o David de novo," sorri. Lembrei que Candice tinha um vai-e-vem com ele. Natalie assentiu e ficou animada. Seu rosto se iluminou enquanto compartilhava sua noite com as garotas. Eu estava no céu. Minha filha era humana novamente. Seus olhos estavam me olhando, confortáveis com o que viam. Eu não via olhos assim desde Jared...
Pensamentos me atingiram. Memórias voltaram à tona. Minhas mãos começaram a tremer. Olhei de volta para a carta. Olhei de volta para Natalie. Ela havia parado de falar no meio da frase, me olhando com preocupação.
"Oh, Deus," foi tudo o que saiu da minha boca. Tentei desfazer os pensamentos. Tinha que haver outra explicação. Não, tudo se encaixava. Encarei os olhos de Natalie. "O que eu fiz?"
"Mãe, o que há de errado?" Natalie expressou preocupação. Eu nunca havia contado a ela. Sempre achamos que era melhor assim. Eu precisava do Tom. Oh, Deus, eu precisei do Jared.
"Eu... nós...," gaguejei, olhando para meu bebê. Natalie pegou a carta da minha mão e começou a ler. Pude ver que ela não conseguia entender.
"O que é isso?"
"Eu... acho que essa é a empresa que o Jared hackeou," eu disse. Minha voz ficava mais fraca. Os olhos de Natalie se estreitaram.
"Percy Labs?" Natalie perguntou, "o que é isso?" Minha garganta se apertou. Eu sabia o que tinha que vir a seguir. Sentei-me mais ereta.
"Você sabe o quanto seu pai te amava?" comecei lentamente. "Você era tudo para ele." Por favor, me perdoe, Tom. Natalie se mexeu no assento. Ela sentiu que algo estava por vir.
"Mãe, o que está acontecendo?" Natalie perguntou, tentando ser adulta. Ela me devolveu a carta como se não fosse grande coisa.
"Seu pai e eu mal podíamos esperar para ter um filho," continuei, "você deveria ter visto o rosto dele quando cortou o cordão umbilical." Senti uma lágrima descendo pelo meu rosto. Ainda podia me lembrar daquele dia. Eu havia esquecido a dor, mas não o bebê que colocaram nos meus braços. Os olhos de Natalie se encheram de água em simpatia com os meus.
"Mãe?" Natalie tentou me incentivar a continuar. Sua voz estava embargada.
"Seu pai sobreviveu ao primeiro combate contra o câncer, logo depois que nos casamos," continuei. Respirei fundo. "A quimio e a radiação o deixaram estéril." Natalie olhou para a carta em minhas mãos. Pude ver sua mente trabalhando.
"Então o papai..." Natalie não sabia como dizer. Meu coração doeu.
"A Percy Labs foi usada pela clínica de fertilidade," eu disse, alcançando suavemente a mão dela, "eles forneceram o doador." A mão de Natalie tremia na minha.
"Papai não era meu pai de verdade?" Lágrimas.
"Não," eu disse com firmeza, "nunca diga isso. Ele te amou além da razão. É ele quem trocou suas fraldas e te deu beijo de boa noite. Ninguém jamais pode tirar isso de você."
"Não foi isso que eu quis dizer," Natalie disse, enxugando os olhos, "por que vocês não me contaram?"
"Porque não importava," respondi, com todo o amor que conseguia expressar, "você sempre foi nossa filha. Não importava como isso aconteceu."
"Por que Jared iria querer... Oh, Deus!" A mão de Natalie cobriu sua boca. Ela não era burra. Não como a mãe.
"Você tem os olhos dele," eu chorei. As comportas se abriram. Eu o chamei de doente. Ameacei comprar uma arma. Eu me destruí.
==========
"Agora isso faz sentido," Betty comentou. Eu havia contado tudo a ela. "Você falou com ele, certo?"
"Não conseguimos encontrá-lo," respondi, "parece que se você tem muito dinheiro, pode desaparecer. Fui até a polícia. Aquele detetive sabia. Jared confessou tudo a ela, mas os federais exigiram sigilo."
"Por que diabos eles fariam isso?"
"Tom e eu marcamos uma caixa," respondi, "algo sobre a fertilização in vitro ser mantida em sigilo. Nenhum contato entre o doador e nós. Eles não o deixaram dizer nada. Os federais consideraram isso como lucrar com o crime." Olhei para Betty e a tristeza entrou na minha voz. "Eu disse coisas terríveis. Afugentei o segundo homem que eu amei." Betty sorriu, completamente fora de lugar.
"Ele vai te encontrar," Betty disse confiante.
"Ele está proibido..." Betty balançou a cabeça, seu sorriso aumentando.
"Ele violou leis para encontrar a filha," Betty continuou, "ele fará de novo." Ela agarrou minhas mãos. "Ele hackeou uma empresa, invadiu sua casa e gastou enormes somas de dinheiro para facilitar a vida da filha. Você realmente acha que ele vai parar agora?"
"Mas..."
"Mas nada," Betty disse, havia um esquema por trás de seus olhos, "você só precisa dizer a ele onde te encontrar." Sua confiança era avassaladora. Pela primeira vez, eu a escutei.
==========
Caminhei pelo shopping lentamente. Eram quase três horas. Se Betty estivesse certa, Jared tinha que estar por aqui em algum lugar. Eu parecia ridícula usando óculos de sol e um chapéu floppy dentro do shopping. Completei o quadro com braços cheios de sacolas de compras. Me perguntei se espiões se sentiam ridículos quando tentavam se esconder à vista de todos. O shopping estava lotado, principalmente famílias e muitos adolescentes. Eu me movia lentamente ao redor da praça de alimentação, olhando para cada homem que tivesse altura próxima à de Jared. Talvez Betty estivesse errada.
Exatamente às três, um grupo de adolescentes saltou de suas cadeiras e iniciou uma sequência sincronizada de flash mob. Foi desajeitado, mas divertido. Natalie havia pedido ajuda às suas amigas e anunciado com antecedência no Facebook.
Vi um braço se erguer de repente, câmera na mão. Jared estava dividindo uma mesa com uma família. Ele havia tingido o cabelo de escuro. Um disfarce melhor do que o que eu usei. Eu estava mais nervosa do que imaginava que estaria. Caminhei até a mesa, os olhos de Natalie me seguiam. Coloquei meu chapéu e óculos de sol em uma das sacolas de compras e me sentei ousadamente ao lado dele.
Jared não me notou a princípio. Seus olhos estavam fixos nos de Natalie. Ela era a única que não se movia mais em sincronia.
"Ela sabe," eu disse suavemente. Jared empalideceu quando me viu. Seus olhos, os olhos de Natalie, mostraram medo. Ele começou a se levantar. Agarrei sua mão para mantê-lo ali. "Sinto muito," implorei, "fui uma tola." Ele se recostou na cadeira.
"Você foi uma mãe," ele gaguejou.
"A mãe da sua filha," eu chorei. Não queria as lágrimas. Elas me ignoraram.
"Você armou para mim," ele afirmou. Assenti, com medo de não conseguir formar uma frase coerente. Seu sorriso foi glorioso. Continha todo o perdão do mundo. Não chorei sozinha, chorei em seus braços, em seu ombro. Eu o tinha, meu garoto estava de volta.
A família com quem Jared dividia a mesa havia fugido. Suspeito que a cena era confusa e mais do que a mãe permitiria que seus filhos digerissem. Quando desfiz o abraço, Jared não estava me olhando. Ele olhava fixamente para Natalie, que agora estava sentada do outro lado da mesa.
"Seu pai foi um bom homem," Jared disse. Natalie assentiu.
"Meu outro pai também é," as lágrimas de Natalie eram mais lentas que as minhas. Vieram mesmo assim. Jared era o único com olhos secos. Seu sorriso devia ter forçado os canais lacrimais a se fecharem.
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Os advogados de Jared eram bons. Muito bons. Com minha permissão, a Percy Labs foi ameaçada com um processo por falha em proteger adequadamente dados pessoais. Os advogados insinuaram que havia possíveis implicações de ação coletiva. Tom e eu marcamos aquela caixa. Jared conseguiu encontrar sua filha biológica. Fatos eram fatos. Os advogados deixaram de mencionar que Jared me pediu em casamento, e eu disse sim. A Percy Labs retirou todas as acusações no final.
Jared nunca teve a intenção de se apaixonar por mim. Ele se mudou para perto para ficar de olho em Natalie. Contente, na época, em permanecer separado, mas vigilante. Foi depois do acidente, aquele que tirou sua esposa, que ele se sentiu sozinho e ficou pensativo. Ele se lembrou de quando trabalhava para pagar a faculdade, os bicos, doador de esperma sendo o mais estranho. Especialista em segurança na internet, os servidores da Percy Labs eram brincadeira de criança. Ele havia feito cinco doações, só a da Natalie vingou. Ele invadiu a casa, pegou um pouco de cabelo da escova de Natalie, material para um teste de DNA de paternidade. Foi então que ele encontrou a escassez de contas não pagas. Elas representavam risco para o futuro de Natalie. Ele as eliminou. Ele não conseguiu jogar fora o resto do cabelo dela. Ensacado, ele o guardou no que se tornou o álbum de bebê de Natalie.
Passei todos os dias me desculpando por minhas palavras e ações. Jared passava todos os dias beijando-as para longe. Ele nunca as jogou contra mim, ao contrário do que eu fazia comigo mesma. Tenho certeza de que sua atração inicial por mim foi por eu ser mãe de Natalie. Rapidamente viajamos muito além disso. Para um lugar especial só nosso. Ele era meu e eu era dele.
Jared entrou na sala de estar, direto do banho depois do trabalho no jardim. Um bilionário que corta a própria grama, imagine só. Sorri de trás do balcão. "Encontre um filme ou algo assim, podemos comer na frente da TV," eu disse enquanto cortava a pizza em fatias iguais. O queijo ainda borbulhava do forno. Jared se sentou, pegou o controle remoto e começou a percorrer o guia de canais online.
"Onde está a Natalie?" Jared perguntou.
"Ela vai passar a noite na casa da Traci," respondi. Observei sua expressão se contrair. Seus nós dos dedos no controle começaram a ficar brancos. Eu sabia que ele não estava lendo o que estava escrito na tela. Sorri, decidindo que ele já havia sofrido o suficiente.
"Liguei para a mãe da Traci," acrescentei, indiferente, "ela e o marido estarão lá. Traci está recebendo quatro garotas para uma festa do pijama." A cor voltou aos nós dos dedos de Jared. Pude vê-lo soltar a respiração que estava prendendo. Não consegui suprimir a risada.
"O quê?"
"Você estava preocupado," declarei, sorriso em plena floração. Jared ainda sentia que não tinha o direito de interferir na criação de Natalie. Isso não o impedia de ficar doente de preocupação. Ele a amava tanto quanto eu.
"Eu não estava." Deixei que ele tivesse sua mentira.
"O que você quer beber?"
"Vamos enlouquecer," Jared disse, "cerveja combina bem com pizza." Peguei algumas garrafas da geladeira e tirei as tampas. Dei a volta no balcão e caminhei languidamente em direção ao sofá.
"Que tal Star War..." A boca de Jared se abriu. Seus olhos se encheram de mim.
Saia - R$ 24,95 no Wal-Mart e apenas vinte minutos para subir a barra. A expressão no rosto do meu garoto pervertido - impagável. Não foi a última vez que comemos pizza fria.