Mas Aconteceu Há Anos
— Alô?
— Jerry! Sou eu.
Era Kelly, a irmã mais velha de Jerry. Ela parecia tensa.
— Oi, Kelly. O que houve?
— É o papai. Ele piorou muito. Tive que ligar para você.
Jerry se encolheu. O pai dele tinha acabado de completar 68 anos quando sofreu um infarto três meses atrás. Ele passou por uma cirurgia de ponte de safena tripla bem-sucedida, ficou uma semana no hospital e depois recebeu alta quando se estabilizou.
— O que aconteceu? — perguntou Jerry. — Ele estava bem quando estive aí.
— Eu sei. Mas é que... ele entrou em depressão. O médico disse que ele teve um derrame.
— Um derrame! Puxa vida. — exclamou Jerry. — Mas na semana passada o médico tinha certeza de que ele estava indo bem. Achei que ele tivesse se recuperado e estivesse bem em casa.
— Ele está em casa. Quer dizer, na casa do tio Tony, claro. O derrame foi supostamente leve, mas com a saúde dele debilitada, até um derrame leve é grave.
— É mesmo... ainda bem que não foi pior. — respondeu ele. Ele sabia que os pais tinham se mudado para a casa dos amigos, os Blaylock, depois da cirurgia.
O pai dele sempre fora o parceiro mais forte no casamento. Era o porto seguro da mãe emocionalmente frágil. Jerry se lembrava de desde pequeno que a mãe nunca lidava muito bem com estresse. Então, quando o marido teve um infarto, não foi surpresa que ela recorresse à velha amiga Agnes Blaylock e ao marido dela, Anthony.
Embora não fossem parentes de sangue, eram amigos da família desde sempre. Jerry, Kelly e a outra irmã, Katie, consideravam os Blaylock quase como parte da família. Todos cresceram chamando-os de tio Tony e tia Agnes.
— É. Está feio, Jerry. Nunca o vi assim. Você pode voltar? Papai precisa muito de nós agora, a mamãe também.
— Sei que precisam. — concordou ele. — Tudo bem, vou resolver as coisas com a Olivia. Mas não sei se ela consegue mais folga no trabalho. Talvez só eu volte.
— Certo. Venha rápido se puder. Papai não está nada bem.
— E a mamãe, como está?
Houve uma pausa antes de Kelly responder hesitantemente:
— Ela está bem.
Isso soou estranho, pensou Jerry. Ele esperava que ela explicasse mais. Em vez disso, houve outra longa pausa antes de Kelly dizer em tom sério:
— Tem uma coisa que eu preciso conversar com você. É bem importante.
— Sério? O que é?
— Não quero falar sobre isso por telefone. Vejo você quando chegar. Só me manda uma mensagem antes de chegar. Preciso falar com você em particular primeiro, antes de vermos o papai.
— Isso soa misterioso. Não pode me dar uma pista?
— Só venha logo. Eu te conto tudo quando você chegar.
— Certo. Te vejo em alguns dias, então.
— Obrigada, Jerry. A gente agradece muito. Mal posso esperar para te ver.
— Eu também, Kelly. Até logo.
Jerry desligou. Aquele fim de conversa foi estranho. Ele não conseguia imaginar o que ela precisava contar que não pudesse dizer por telefone. Teria que descobrir depois.
Jerry sabia que a saúde do pai não andava boa ultimamente. Ele nunca foi muito de ir à academia e não tinha rotina de exercícios. Mas trabalhou duro por muitos anos como mecânico de automóveis. Foi convocado logo depois do colégio, treinado no serviço militar e consertou veículos militares durante sua passagem na Guerra do Vietnã.
Apesar de ter tido uma função não combatente, Frank Kilroy sempre teve orgulho de seu serviço militar. Ele nunca falava disso com ninguém fora da família. Mesmo com a família, só em raras ocasiões mencionava algo. Se perguntassem, ele sempre dizia que era seu dever servir e que tinha orgulho disso.
Uma vez Jerry perguntou se ele alguma vez teve vontade de fugir do alistamento. Ele disse isso como piada para provocar o pai um pouco. O olhar severo e a resposta firme — "Nunca! Nem nesta vida!" — que o pai disparou de volta deixaram claro que aquilo nunca fora uma opção. Jerry nunca mais brincou com isso.
Jerry sabia um pouco sobre o tempo dele no Vietnã. Frank ficou estacionado longe das principais áreas de combate. Mas aparentemente não longe o suficiente, porque depois de alguns anos ele se envolveu em um tiroteio. Foi gravemente ferido quando uma explosão lançou estilhaços em seu pescoço e pernas.
O ferimento no pescoço sarou, mas o da perna foi complicado. Desde então, ele manca visivelmente. Frank terminou seus quatro anos de serviço numa cama de hospital em Saigon, antes de ser enviado de volta aos Estados Unidos. Foi alguns anos depois que ele conheceu Edith, sua esposa. Casaram-se e logo tiveram Kelly. Dois anos depois veio Katie.
Decidiram que duas meninas bastavam. Então Edith passou a tomar pílula e pelos dez anos seguintes foram uma família de quatro pessoas. Foi uma surpresa descobrir que Edith engravidara de novo quando estava com trinta e poucos anos. E assim chegou o acidental bebê da pílula, Jerry, que eles amaram tanto quanto as outras filhas, apesar da surpresa.
Quando chegou do trabalho, Jerry contou à esposa Olivia sobre a saúde debilitada do pai. Como esperado, ela já tinha usado todos os dias de férias na última visita para ver o sogro. Não podia se dar ao luxo de tirar mais folgas. Então Jerry tirou alguns dias de folga na semana seguinte, saiu de casa na sexta-feira à noite depois do trabalho, colocou as malas no carro e deu um beijo de despedida na esposa. Era uma viagem de quatro horas até sua cidade natal, mas ele estava com pressa e tentou chegar mais rápido.
A alguns quilômetros do destino, ele mandou uma mensagem para a irmã.
Uma resposta chegou: "Me encontre na lanchonete Kasson's. Você sabe onde é, né?"
Jerry respondeu: "Sim. 20 minutos."
Kelly já estava sentada num reservado e acenou para ele. Os cabelos castanho-claros e as feições claras lembravam a mãe deles, que era loira natural. Katie também puxara a ela, com cabelos claros e pele clara.
Jerry sempre sentiu que puxava ao pai, embora fosse mais alto que ele e tivesse cabelo mais escuro. Também era mais musculoso que o pai, tinha cabelo escuro, quase preto, e conseguia deixar a barba crescer em algumas semanas. Mesmo quando se barbeava de manhã, tinha uma sombra de barba bem visível quando voltava do trabalho.
Kelly pulou do assento e eles trocaram um abraço caloroso e um beijo.
— Que bom que você veio, Jerry.
— Claro. Quero ajudar.
Jerry notou a preocupação no rosto dela. Algo sério a estava incomodando. Pediram café e cada um comeu um doce. Quando a garçonete saiu, Kelly lançou um olhar sóbrio ao irmão mais novo e baixou rapidamente o olhar.
— Não sei como te contar isso... — disse ela, olhando para a mesa e mordendo o lábio.
— Fala logo, Kelly. Sei que está te incomodando.
— Tá bom. — Ela respirou fundo e soltou o ar. — Jerry, tem uma coisa que você não sabe sobre a nossa família. Envolve o tio Tony.
— Certo...
— Você lembra que a mamãe e os Blaylock são amigos desde a faculdade.
— Isso eu sabia.
— Mamãe e tia Agnes moravam juntas. Todos estudaram na mesma faculdade e foi lá que conheceram o tio Tony.
— Isso eu também sei. Uns dois anos depois da faculdade, mamãe conheceu papai numa festa, e aqui estamos nós. E daí?
— Bem, eles são amigos desde então. Mamãe e papai se casaram, e alguns anos depois Tony e Agnes também se casaram.
— Sim. Mamãe foi madrinha da Agnes.
— Isso. Não sei se você sabe disso. Antes de você nascer, papai teve que sair da cidade por alguns meses para fazer um curso numa escola de mecânica. Ele era novo na empresa e as aulas eram bem longe de casa. A empresa disse que ele só poderia voltar para casa uma vez durante o treinamento, e só por alguns dias. Ele usou o benefício de veterano para pagar. Durante esse tempo em que esteve fora, parece que mamãe ficou deprimida e pirou um pouco.
— Pirou? Como assim?
Kelly balançou a cabeça e soltou:
— Ela fez uma besteira, Jerry. Teve um caso com o Tony.
— O QUÊ? — ele gritou alto demais. Outros clientes olharam, então ele tentou controlar a voz e disse em tom mais baixo: — A mamãe? Teve um caso? Com o tio Tony? Que diabos!
— Sim. Mamãe é uma idiota, isso sim. Agora eu sei.
Jerry se recostou no assento e tentou se recompor da notícia inesperada. A mãe dele traiu o pai com Tony Blaylock? Inacreditável.
— Quando você descobriu? — perguntou a ela.
Kelly desviou o olhar, parecendo culpada.
— Eu soube disso quase desde o começo.
— Como é possível?
— Eu sabia que ela estava saindo com ele quando papai estava naquele curso. Ela arranjava uma babá para nós e ele passava para buscá-la em casa. Ela dizia que iam jantar fora ou ao cinema. Papai e Tony eram amigos e ele vivia lá em casa de qualquer jeito. Na época, eu só achava que ele estava sendo gentil, tentando animar ela porque mamãe estava tão triste com papai longe.
— Você não achava estranho ele buscá-la e levá-la para jantar? E a Agnes, onde estava?
— Na época não achei nada demais. — disse Kelly, tentando sinceramente fazê-lo entender. — Agnes estava com eles algumas vezes. Então ela sem dúvida sabia o que estava acontecendo. Eles apareciam em casa para buscar mamãe, e todos saíam rindo e tagarelando alegremente. Parecia bem inocente. Outras vezes, ele ia lá em casa sozinho e fazia algum pequeno serviço que mamãe precisava. Eu achava que era só um amigo ajudando enquanto papai estava fora. Era só isso que eu pensava na época, e mamãe me deixou pensar assim. Só fui perceber que ela estava traindo ele com o Tony quando eu já estava no ensino médio.
— Demorou tanto para você perceber?
— Me desculpe, Jerry. Eu devia ter contado antes. Mas acho que eu era bem ingênua naquela época. Agora eu sei melhor.
— Não se preocupe, Kelly. Você era só uma criança e não tinha como saber.
Houve uma pausa antes de Jerry perguntar:
— Então a Katie também sabe, presumo?
Ela lançou um olhar triste.
— Não posso ter segredos dela. Você sabe, irmãs.
— Sim, entendo.
A mente de Jerry girava com a notícia. Ele nunca esperava algo assim. Observou a irmã mais velha se remexer no assento, os olhos vagueando enquanto respirava fundo de novo. Isso era um mau sinal.
— Tem mais, não é?
— Sim. Infelizmente. — respondeu ela com tristeza. — Isso é muito difícil. Odeio ter que te contar. Mas não vou dourar a pílula. Já houve segredos demais.
Ela olhou diretamente para o rosto dele e declarou com franqueza:
— Jerry, não tenho certeza se o papai é seu pai biológico.
— O quê? Eu? Meu Deus! Sério?
— Sim. Sinto muito. Acho que você pode ser filho biológico do tio Tony.
A voz de Kelly embargou ao fazer a declaração. Então ela desabou e levou as mãos ao rosto. Começou a soluçar um pouco enquanto olhava para o irmão de cabelo escuro, que estava estupefato.
— Você está brincando. Só pode ser. Meu Deus. — Uma lágrima veio aos olhos dele, e ele a enxugou rapidamente antes que ela visse.
— Não. Mas queria estar. — respondeu ela, fungando. — Mas não tenho certeza. Espero estar errada. Falei com a mamãe sobre isso outro dia. Ela disse que também não sabe ao certo. Mas acha que foi o Tony que a engravidou naquela época. Você nasceu um pouco mais de 9 meses depois que eles começaram o caso. E a sua semelhança com o Tony é difícil de negar. Papai nunca mencionou nada, então acho que ele não percebeu a possibilidade até...
Kelly levou um momento para parar de fungar e falar.
— ...até que mamãe deixou escapar há algumas semanas. Que burra ela é. Ele ainda estava se recuperando do infarto quando ela contou sobre o caso. Desde então, papai está super deprimido. Provavelmente foi por isso que ele teve o derrame, porque a notícia o abalou muito.
— Merda. — disparou Jerry, com raiva. — Sei que ele está arrasado. Maldita seja. Depois de todo esse tempo, por que diabos mamãe tinha que abrir a boca grande dela, ainda mais com ele num estado tão frágil?
— Provavelmente foi uma confusão de remédios. — disse Kelly. — É o que todos nós achamos. Mamãe toma antidepressivos há um tempo. Você sabe como ela é. Mas ela trocou de médico recentemente. Acho que conheceu ele no hospital quando papai estava fazendo a cirurgia.
— Um médico novo? Para quê?
— Ah, sei lá. Mamãe sempre foi hipocondríaca. Ela estava rondando o hospital e com certeza conheceu um monte de médicos lá. Deve ter convencido um a aceitá-la como paciente. Imagino que ela não contou a ele todos os remédios que estava tomando na época, porque ele receitou um novo medicamento para os nervos dela, e infelizmente entrou em conflito com alguns que ela já tomava. Isso a deixou meio delirante e ela soltou a história toda para o papai durante uma discussão.
Jerry recostou no assento, atordoado, a mente trabalhando a mil para absorver toda aquela nova informação perturbadora.
— Então ele pode não ser meu pai de verdade? — suspirou Jerry, pensativo.
— NÃO! Ele É seu pai de verdade! — exclamou Kelly. — Meu Deus, Jerry, nunca pense diferente, por favor!
— Eu sei, eu sei. Claro que ele é. — respondeu ele, encabulado. — Você está absolutamente certa, Kelly. Ele é meu pai e eu o amo. Sendo meu pai biológico ou não, sei que ele me ama, sempre me amou. Ele sempre será meu pai de verdade.
— Obrigada. — fungou Kelly, estendendo a mão sobre a mesa para segurar as dele. Por alguns momentos comoventes, irmão e irmã ficaram de mãos dadas, compartilhando a dor. Kelly odiou contar a verdade ao irmão. Mas ele precisava saber.
Depois de alguns instantes, Jerry disse, balançando a cabeça:
— Mas que confusão. Tony é um cretino por se aproveitar dela, e mamãe é uma idiota. Pobre papai. Só imagino como ele se sente com a traição dela. A família é tudo para ele. Não acredito que mamãe pôde ser tão incrivelmente burra. Um segredo que ela guardou por décadas é revelado de repente quando papai está lutando pela vida. Qual a chance disso?
— Ele não reagiu nada bem.
— Então qual é a situação agora? Ele ainda está na casa dos Blaylock?
— Sim. Por enquanto, pelo menos. Só imagino que ele odeie isso, viver sob o mesmo teto que o antigo amante da esposa. Mas ele está bem indefeso, e mamãe não vai para casa cuidar dele. Ela disse que está chateada e precisa da ajuda do Tony...
Kelly acrescentou em tom amargo:
— ...e claro que o velho tio Tony está mais do que feliz em ajudar.
Ela engoliu em seco para conter a amargura e continuou:
— Mas, como você pode imaginar, papai agora o odeia. Ele deixou isso bem claro para o Tony. E não deixa mamãe ajudá-lo em nada, nem Agnes.
— Então como ele está se virando?
— Nada bem, claro. Ele precisa de ajuda. Sem mamãe assumir, não tinha mais ninguém, então ele foi levado para a casa dos Blaylock. Tony deu a ele um quarto próprio em sua casa e contratou uma enfermeira para cuidar dele. Ele também tem um fisioterapeuta. Claro que o Tony pode bancar.
— Sim. O desgraçado é cheio da grana. Todos sabemos disso.
— É tão triste, Jerry. Tenho ido visitá-lo regularmente. Mas ele não quer falar comigo nem com a Katie. Acho que ele descobriu que a gente sabia, mas não contou a ele. Agora ele sente que a família inteira o traiu. Ele está tão deprimido que quase choro quando o vejo.
— Posso imaginar. Pobre coitado. Que recompensa doentia por todo o trabalho duro dele. Ele foi um marido fiel e um ótimo pai a vida toda. Honesto, trabalhador, um grande provedor, e olha no que deu. Merda.
Irmão e irmã ficaram sentados olhando para a mesa, imersos em pensamentos. Depois de um tempo, Kelly olhou para o outro lado da mesa para fitar o irmão.
— Eu sei que isso é um choque para você. Odeio ter que contar. — admitiu ela. — Mas eu te amo, Jerry. Todos nós amamos. Não pense que isso muda alguma coisa entre nós. Katie sabe que estou falando com você e diz o mesmo. Ela não pôde estar aqui agora. Vai aparecer amanhã. Ela manda lembranças, a propósito.
— Obrigado, Kelly. Você sempre será minha irmã, não importa o que aconteça, Katie também.
Kelly chamou a garçonete para a conta e perguntou a ele:
— Você está pronto para visitar o papai?
— Sim. Preciso muito vê-lo e ajudá-lo se puder. Só espero que ele não leve isso tão a sério. Você sabe como ele é.
— Sim. Ele sempre teve um senso de justiça muito rígido. É tudo certo ou errado para ele, sem meio-termo. Por isso ele está tão magoado. Ele não consegue aceitar o pedido de desculpas de mamãe nem as razões dela para ter agido assim. Ele é um homem arrasado, Jerry. Acho que ele não disse três palavras para mamãe desde que tiveram a briga. E ele só fulmina o Tony com o olhar.
"Não posso culpá-lo, mesmo depois de tanto tempo." Ele disse, "A mamãe sabe do caso dela há décadas, mas para o papai ainda é uma ferida recente no coração. O amor que ele achava que a mamãe sentia por ele agora está manchado para sempre."
"Hmph. A mamãe com certeza não pensa assim." Kelly disse com sarcasmo. "Ela age como se tivesse contado que bateu o carro. A mamãe diz que o caso dela é coisa do passado e que não fica com o Tony há anos. Ela não entende por que ele está levando tão a sério. Eu falei que o fato de o caso ter terminado há um tempo não torna menos doloroso para o papai. Isso caiu em cima dele há pouco tempo e ele ainda está sofrendo. Ele ainda está super chateado."
Jerry e Kelly foram em carros separados. Ao entrarem na longa entrada da garagem, Jerry contemplou a visão familiar da grande casa dos Blaylock. Era uma mini mansão de dois andares, com um enorme quintal ajardinado, uma piscina e um jardim de flores circular. O Tio Tony era dono de três concessionárias de carros e alguns outros negócios. Sua casa era um símbolo de riqueza naquela pequena comunidade.
Frank Kilroy e Anthony Blaylock formavam uma dupla improvável de amigos. O sucesso nos negócios de Tony, contrastando com a situação financeira modesta dos Kilroy, tornava a amizade deles ao longo dos anos algo improvável. Claro, agora que Jerry sabia do caso de Tony com sua mãe, fazia muito mais sentido.
Jerry e Kelly foram recebidos na porta por uma Tia Agnes de semblante sombrio. Kelly e Agnes se abraçaram e beijaram, depois Jerry abraçou a mulher mais velha. O abraço foi rígido e ficou estranho quando se afastaram. Ela ainda era uma mulher bonita, esbelta, bem vestida, com o cabelo prateado perfeitamente arrumado.
"Obrigada por vir, Jerry." Agnes lhe disse com sinceridade. "Espero que ver você aqui anime seu pai."
"Também espero."
Enquanto eram conduzidos à sala de estar, o Tio Tony apareceu. Ele tinha mais de um metro e oitenta e sua figura robusta estava vestida com um terno de seda caro. Nos pés, sapatos de verniz que pareciam caros. Sorrindo confiante, o homem mais velho deu um passo à frente, abraçou Kelly e apertou a mão de Jerry. Jerry notou seu cabelo preto penteado para trás, salpicado de grisalho. Isso lhe dava um ar distinto.
"Bom ver você de novo, Jerry." Tony disse com um sorriso. "Queria que as circunstâncias fossem melhores. Mas estou muito feliz que você está aqui."
"Eu também... Tony." Jerry estava prestes a chamá-lo de Tio Tony, mas se conteve.
"Alguém aceita uma bebida?"
"Não, obrigada." Kelly respondeu e Jerry apenas balançou a cabeça.
"Onde está o papai?" Ele perguntou.
"No escritório." Tony disse, apontando orgulhoso para uma sala grande. "Arrumamos tudo especial para ele quando teve alta. Cama hospitalar completa, cadeira de rodas motorizada, tudo. Qualquer coisa que ele precisar, é só pedir."
"Pode deixar."
Jerry e Kelly deixaram o homem alto e foram para o antigo escritório. Jerry ficou chocado com o quão pequeno e indefeso seu pai parecia. O homem robusto e confiante que ele admirou a vida toda era uma casca encolhida do que costumava ser. Sua cabeça pendia para o lado enquanto olhava apaticamente para os visitantes. Ele estava na cadeira de rodas perto da janela. Jerry se aproximou e o abraçou. Frank levantou o braço que ainda funcionava e deu ao filho um aperto de mão fraco.
"Oi, pai. Sinto muito que você teve uma recaída." Jerry disse tentando puxar conversa.
Frank assentiu debilmente. Seu rosto não mostrava emoção, mas seus olhos estavam fixos no rosto do filho. Ele tentou dizer algo, mas as palavras saíram embaralhadas.
Jerry se inclinou para ouvir a fala fraca do homem. Começou a se afastar, assentindo como se tivesse entendido. Mas Frank segurou determinado a mão do filho, lutando para se repetir várias vezes até ver um pouco de reconhecimento nos olhos de Jerry. Durante a conversa truncada, Tony e Agnes tinham saído da sala para lhes dar privacidade.
Jerry finalmente entendeu que ele estava dizendo que o amava e que sempre seria seu filho. Jerry sentiu lágrimas vindo aos olhos. Ouviu um fungado ao lado e olhou para Kelly. Ela ouviu o que Frank disse e começou a chorar, cobrindo o rosto com as mãos. Jerry também começou a se emocionar.
"Você também, pai." Jerry disse ao velho, com a voz trêmula. "Eu te amo. Sempre amarei. Fiquei sabendo do problema com a mamãe. Mas isso não importa nem um pouco para mim. Nada muda entre nós. Nunca vai mudar, pai."
Frank levantou um braço. O outro não funcionava muito bem. Jerry finalmente entendeu que ele queria outro abraço. Ele se inclinou de novo e o braço do pai o segurou com uma força surpreendente. Ele não soltou logo.
Sua boca estava perto do ouvido de Jerry e ele tentava sussurrar algo. Jerry teve que ouvir com atenção para entender. As palavras de Frank estavam arrastadas, mas ele dizia algo que claramente considerava muito importante. Yules, ou moves, ou rules, algo assim. Talvez Frank também estivesse emocionado, porque suas palavras estavam tão arrastadas que ele não conseguia ter certeza do que queria.
Jerry percebeu que seu pai estava ficando frustrado. Então se afastou, envergonhado por não conseguir entendê-lo. Eles ficaram com Frank um pouco mais, enquanto Jerry falava sobre a esposa e vários detalhes triviais sobre o trabalho e a família. Quando mencionou que queria ver a mãe, a expressão de Frank ficou amarga. Ele desviou o olhar do filho e ficou em silêncio.
"Volto daqui a pouco, pai." Frank não deu sinal de que o ouvira.
Edith estava na cozinha grande e decorada com requinte, tomando café. Havia pratos vazios na mesa, então ela devia ter acabado de comer. A mãe dele usava um roupão colorido estampado e chinelos nos pés. Seu cabelo estava bem arrumado e ela tinha um pouco de maquiagem. Ela viu o filho entrar na sala e seu rosto se abriu num sorriso. Ela se levantou quando Jerry entrou e o abraçou forte.
"Ah, Jerry." Ela disse efusiva. "É tão bom ver você. Estou tão feliz que você veio."
"Kelly ligou. Então eu tinha que vir ver o papai." Jerry lhe contou. "Nós nos encontramos há pouco. Ela me contou umas coisas interessantes sobre você e o Tony. É uma história e tanto."
"Sinto muito por ter te mantido no escuro, querido." Edith explicou com um pouco de tristeza nos olhos. "Mas eu não queria chatear você ou seu pai. Você pode ver como ele está levando isso mal. Queria nunca ter dito uma palavra."
'Nem me diga', pensou Jerry. Ela, porém, não parecia muito chateada, e ele ficou um pouco surpreso com o quão bem ela estava lidando com a situação. A admissão de culpa dela é provavelmente a razão pela qual o marido teve um derrame. Jerry pensou que ela ficaria envergonhada pela infidelidade, ou pelo menos mais arrependida, considerando que foi tudo culpa dela.
"Não sei o que deu em mim." Ela continuou com um suspiro. "Eu sabia que machucaria Frank saber do meu caso. É por isso que nunca contei a ele. Era algo só entre Tony e eu, e Agnes, claro. Nunca interferiu no meu casamento e não afetou Frank por todos esses anos."
"Quanto tempo durou?" Jerry perguntou num tom neutro.
"Ah, por um tempo, indo e voltando." Sua mãe lhe contou com indiferença. "Tony e eu namoramos um pouco na época da escola, antes de ele casar com Agnes. Nada sério. Todo mundo namorava naquela época. Agnes tinha uns caras que ela via de vez em quando enquanto Tony e eu namorávamos. Éramos todos tão amigos, mesmo depois que terminamos e Tony começou a namorar Agnes. Continuamos próximos e nós três sempre saíamos para festas e coisas assim..."
Enquanto contava sua história, seu olhar se desviou do rosto preocupado do filho para um ponto vago na parede. Era óbvio que ela estava relembrando uma época muito agradável de sua vida.
Com uma expressão nostálgica, ela admitiu: "Mesmo depois que Frank e eu nos casamos, ainda víamos muito Tony e Agnes. Saíamos sempre, eles foram ao nosso casamento e nós fomos ao deles. Foi uma época tão divertida. Quando tivemos Kelly e Katie, era uma grande família feliz, todos nós seis, quero dizer. Queria que nunca tivesse acabado."
De repente, sua expressão se endureceu. "Mas quando seu pai me deixou para fazer aquele maldito curso, eu fiquei tão sozinha. Estava cuidando das suas irmãs sozinha e fazendo todas as tarefas da casa. Era demais. Tony me ajudou a superar aquele período difícil. Eu teria enlouquecido sem o apoio dele. Quando seu pai voltou para casa, parei de ver Tony com tanta frequência. Ainda conseguíamos nos encontrar, só que não tantas vezes. Ele foi tão legal com tudo. Me levou pela cidade toda e me apresentou a muita gente. Ele é realmente um grande homem, sabe."
"Espero que não tenha dito isso ao papai." Jerry respondeu irritado.
Edith se sobressaltou com a exclamação dele e deixou escapar: "...dizer o quê?"
"Que o cara com quem a esposa dele traiu ele é um cara tão ÓTIMO?" Jerry disse asperamente. "Um cara ÓTIMO que ele considerava amigo? Um amigo que basicamente apunhalou ele pelas costas? Não é uma boa coisa para dizer a um velho doente."
"Ah, não aja assim, Jerry." Ela retrucou com uma carranca. "Claro que eu sei disso. É fácil me julgar agora." Ela fez um gesto de descaso para ele. "Não sou burra, sabe. E eu não contei a ele assim. Só o fiz saber a verdade do que aconteceu naquela época. Ele deveria agradecer por eu ter sido tão honesta."
"Tenho certeza de que o papai está muito feliz em saber a verdade." Jerry disse secamente.
"Ele pode não estar feliz com isso." Ela respondeu com rispidez. "Mas agora que ele sabe, vai ter que superar. É tudo passado e é tarde demais para se preocupar agora. Além disso, Frank tem problemas muito maiores para se preocupar do que um caso bobo que eu tive anos atrás. Vou tentar ajudá-lo a lidar com isso o máximo que puder, mas ele também tem que se ajudar."
"Tenho certeza que vai." Jerry cuspiu com raiva, enojado pela atitude blasé da mãe sobre algo tão sério.
Ele girou rapidamente nos calcanhares e foi embora antes que explodisse com sua mãe tola e seu comportamento imprudente. Ele queria perguntar sobre sua paternidade, mas estava muito chateado no momento. Essa discussão teria que esperar outro dia.
Kelly estava por perto e deve ter ouvido sua réplica raivosa. Ela entrou e sentou-se com a mãe, lançando um olhar estranho para ele quando ele saiu do cômodo.
Jerry foi para a biblioteca pensar. Ele viu Agnes através das portas de vidro de correr no pátio nos fundos da casa, sentada a uma mesa tomando café. Ele saiu e sentou-se à mesa com ela. Ela o abraçou e serviu uma xícara de café enquanto começavam a conversar.
"Nunca achamos que fosse algo ruim." Agnes lhe contou honestamente. "Edith e eu éramos tão próximas naquela época. Éramos colegas de quarto, sabe. E costumávamos fazer tudo juntas."
Ao dizer 'tudo', ela deu a Jerry um olhar significativo.
"Ela namorou Tony antes de mim. Mas quando comecei a namorá-lo, ela ainda se juntava a nós nos encontros. Acho que Tony ainda tinha sentimentos por ela. Então era natural tê-la por perto. Ela era uma garota tão bonita, todos a amavam e eu gostava tanto da companhia dela. Tony também. Não achávamos que fosse ruim."
"Então, quando o papai foi embora para aquele curso," Jerry perguntou hesitante, "Você e Tony simplesmente começaram a levá-la para jantar?"
"Sim. Jantar e dançar e beber e rir..." Ela suspirou, olhando pensativa para o vazio, revivendo a memória. "Ah, Jerry, nós nos divertíamos tanto naqueles dias. Edith, Tony e eu éramos como os três mosqueteiros. Seu pai não gostava muito de sair. Ele era meio caseiro e não dava muita vida social para a sua mãe."
"Ele provavelmente estava trabalhando duro demais... pela família."
"Provavelmente." Agnes concordou prontamente. "Acho que ele não ganhava muito dinheiro naquela época. Mas você está certo, ele trabalhava duro. Quando ele foi embora para a escola, era normal Tony e eu incluirmos sua mãe nos nossos planos, como nos tempos da faculdade. Nós nos divertíamos tanto."
"Então você consentiu com o caso do Tony?"
"Acho que sim." Ela disse com indiferença. "Tony é um cara bonito, mais forte que a vida, sabe. Sempre fomos sociáveis. Eu sabia que havia uma chance de ele me trair. Sentia que, se ele fosse ter um caso, seria melhor que fosse com Edith do que com qualquer outra. Ela não tentaria tirá-lo de mim, e já éramos muito próximas. Foi um encaixe natural. Como eu disse, não considerávamos que fosse ruim."
Ela olhou para Jerry e notou sua expressão abatida. Ela se inclinou e deu um tapinha na mão dele. "Ah, não fique chateado, querido. Ninguém se machucou. Quero dizer, ninguém teria se machucado se Edith não tivesse falado outro dia. E não culpe muito sua mãe. Ela estava sozinha e Tony a pegou num momento de fraqueza. Ele pode ser bem convincente, sabe."
Ela soltou uma risada estridente: "Ele é um encantador, sim. Sempre foi, e sempre será."
"Tenho certeza que sim."
Jerry estava ainda mais enojado do que quando saíra de perto da mãe. Nenhuma das duas parecia achar que o caso com Tony era algo para se preocupar. Ele deixou a mulher mais velha sozinha com seus pensamentos agradáveis de dias passados e voltou para dentro da casa.
Seus pensamentos estavam perturbados, até que de repente lhe ocorreu o que seu pai estava tentando dizer antes.
"Ferramentas. Ele quer as malditas ferramentas dele." Jerry exclamou animado, feliz por finalmente ter entendido.
Frank sempre teve orgulho de suas ferramentas. Ele tinha um jogo completo de ferramentas Craftsmen que comprou anos atrás e guardava na garagem. Com pouco dinheiro na época, aquelas ferramentas lhe custaram uma fortuna. Na cabeça dele, sempre representaram um símbolo de seus talentos como mestre mecânico.
Jerry decidiu que era nostalgia, e ele devia querer tê-las por perto para lembrar de seus dias melhores. Ele voltou para o quarto do pai e o viu olhando pela janela.
"São ferramentas, né, pai?" Jerry anunciou orgulhoso. "Você quer que eu traga suas ferramentas antigas da garagem."
O cenho amargo do velho desapareceu instantaneamente. Seus olhos se iluminaram e sua cabeça começou a acenar para cima e para baixo ansiosamente.
"Tá. Eu sei onde estão. Acho que você as quer aqui com você. Vou buscá-las, pai. Volto já."
Jerry dirigiu até a casa dos pais. Não era longe. Ele tinha a própria chave e entrou na garagem, lembrando-se dos muitos dias em que ele se sentava ali e observava o pai trabalhando num carro, tentando ganhar um dinheiro extra para a família que lutava.
Isso era bem típico dele, fazendo bicos para poder bancar algumas coisas extras para a esposa e os filhos. Ele era um ótimo pai. Jerry sentiu uma lágrima triste escorrer pelo rosto e a enxugou. Ele só queria que o pai tivesse sido poupado da dor de descobrir que a esposa tinha sido infiel todos esses anos, com seu melhor amigo.
Jerry levou as ferramentas de volta para a casa do Tio Tony. Tony tinha saído, mas sua mãe, Kelly e Agnes estavam no meio de uma conversa acalorada na cozinha. Elas nem perceberam que ele entrou na casa, enquanto ele foi direto para o quarto do pai.
Mesmo com todas as suas limitações, Jerry não pôde deixar de notar o quanto seu pai estava animado para receber suas ferramentas. Ele acenou com o braço bom no ar, apontando para o canto. Jerry colocou as ferramentas onde ele gesticulou e sentou-se ao lado do pai.
Eles não falaram. Ambos sabiam que era difícil demais entendê-lo. Jerry apenas olhou para o velho com todo o amor que sentia. Ele podia ver os olhos do pai espiando de seu rosto desfigurado, aqueles olhos alertas mais brilhantes do que antes.
Quando ele se levantou para sair, Frank o chamou para mais um abraço. Eles se abraçaram por um bom tempo dessa vez. O velho não queria soltar. Havia lágrimas em seus olhos, escorrendo pelo rosto quando finalmente se separaram.
"Você vai me fazer chorar." Jerry admitiu abertamente, sentindo-se muito emocionado.
Ele disse ao velho: "Volto amanhã, pai. Não se preocupe, vou ajudar você a ficar de pé. Eu não sabia de tudo o que estava acontecendo antes, mas agora sei. Estou aqui por você e vou ajudá-lo. Você vai estar melhor do que nunca num instante. Está me ouvindo, velho!"
Frank assentiu entusiasmado. Ele o observou atentamente enquanto seu filho alto, musculoso e de cabelo escuro saía do quarto. Jerry e Kelly foram embora juntos. Ela estava ansiosa para sair, pois parecia haver tensão entre Kelly e as duas mulheres mais velhas. Ela não contou a ele o que era.
Mas ao passar por Jerry, ela sussurrou: "Mamãe é uma puta."
"O quê?"
Kelly encolheu os ombros, mas não disse nada. Em voz alta, ela disse: "Você vem, Jerry? Pode ficar comigo se não tiver um quarto de hotel. Adoraria ter você."
"Claro, se você não se importa."
Eles voltaram para a casa de Kelly e tiveram uma longa conversa sobre o que a família faria. Quando se sentiu cansado, Jerry foi para o quarto que Kelly havia preparado para ele. Estava se despindo no quarto quando ouviu uma explosão alta vinda de longe. Mesmo àquela distância, foi tão poderosa que fez as janelas da casa tremerem.
Ele correu para fora do quarto e quase esbarrou em Kelly. "Que diabos foi isso?" Ela perguntou com uma expressão preocupada. Ambos olharam para fora e viram um clarão ao longe, como se houvesse um grande incêndio em algum lugar próximo.
"Ah, merda." Jerry praguejou quando um pensamento terrível lhe ocorreu. "Espero, por Deus, que eu esteja errado. Mas acho melhor voltarmos para a casa do Tony."
"Por quê?"
"Só preciso ver como o papai está."
Ela queria saber o motivo, mas ele não quis dizer.
Jerry voltou para dentro e vestiu suas roupas em menos de um minuto. Kelly também se vestiu rapidamente e foi com Jerry, que acelerou de volta para a mansão dos Blaylock. Já fazia cerca de meia hora desde a explosão. Quando ele fez a última curva, eles viram luzes de emergência piscando, com caminhões de bombeiros e carros de polícia em frente à casa dos Blaylock.
A casa do Tony estava quase destruída. Parecia que o andar de baixo havia explodido e o resto da casa desabou, engolida pelas chamas. Os bombeiros puxavam mangueiras, jogavam água e tentavam apagar o fogo. Mas parecia um esforço inútil, já que a maior parte da casa já tinha desaparecido.
"Ah, meu Deus!" Kelly soluçou. "Mamãe e papai! Será que estão mortos?"
"Receio que sim." Jerry disse, abraçando a irmã que soluçava.
Eles disseram à polícia quem eram, e o homem apenas balançou a cabeça.
"Acho que ninguém poderia ter sobrevivido." Ele disse com tristeza. "Quando chegamos, a casa já estava em chamas. Ninguém teria conseguido sair. Parece que houve algum tipo de explosão, talvez de gás. Vamos investigar e encontrar a causa. Mas esta noite não há nada que possamos fazer. Sinto muito pela perda de vocês."
Jerry levou Kelly para casa. Eles ficaram na sala de estar e quase não dormiram.
No dia seguinte, foram até a casa e viram os detetives vasculhando as cinzas fumegantes. Jerry se identificou e foi autorizado a se aproximar. Foi questionado pelos detetives sobre o que sabiam. Jerry não mencionou as ferramentas que havia levado. Mas contou que achava que havia quatro pessoas dentro da casa.
"Encontraram alguma coisa?" Jerry perguntou ansioso. "Algum sinal dos meus pais?"
"Sim. Encontramos quatro corpos." O homem lhes disse. "Três deles pareciam estar na área do andar de cima. O local ficou tão danificado que fica difícil saber. Teremos que identificá-los mais tarde, durante a autópsia."
O homem olhou de soslaio para eles e disse: "Engraçado foi o quarto corpo. Foi difícil dizer, mas achamos que estava no andar de baixo, na cozinha."
"Na cozinha?" Kelly disse. "Mas o papai estava morando no escritório, não é?"
"Sim."
"Bem, esse corpo estava na cozinha." O homem continuou. "Sabemos porque estava perto do fogão, ou o que restou dele."
"O que tinha de engraçado nisso?" Jerry perguntou.
"Bem, não contem a ninguém que eu falei isso." O homem disse se aproximando, falando em confidência. "Mas como vocês são da família... Acho que o problema foi perto do fogão, que foi uma explosão de gás. Na verdade, tenho certeza disso."
"Sério?"
"Sim. A tubulação de gás foi desconectada. Não sei como. A conexão estava danificada, mas sobreviveu à explosão. Pela minha experiência, posso dizer que não foi um vazamento. A tubulação foi desligada de propósito."
O homem se inclinou ainda mais e falou baixinho para os dois irmãos.
"O engraçado foi que o corpo perto da tubulação desconectada estava segurando uma chave de cano na mão."
"Na mão?" Kelly perguntou surpresa. "Não foi arremessada pela explosão?"
"Não. A chave estava amarrada à mão dele. Literalmente presa a ela." O homem disse com uma expressão quase divertida.
Ele limpou a expressão de diversão do rosto e continuou de forma mais sóbria.
"Obviamente, ele ou ela deve ter desconectado a tubulação de propósito, e então explodiu e destruiu a casa. Mas por que o arame? O arame enrolava na mão dele algumas vezes e mantinha a chave em seu punho. Nunca vi isso antes. Por que alguém precisaria amarrar a chave à própria mão com arame?"
"Não sei." Jerry disse. "Talvez quisesse ter certeza de que não a soltaria. Não consigo pensar em outro motivo."
"Tudo bem." O homem concordou com cautela. "Mas por que fazer isso? Com que propósito?"
"Não sei."
Jerry olhou para o rosto perturbado da irmã. Quando ela começou a falar, ele rapidamente a interrompeu para impedi-la e disse ao homem rapidamente: "Está bem então. Obrigado pelas informações, oficial. Boa sorte."
"Aqui está meu cartão, se tiverem alguma dúvida." O homem disse, entregando educadamente seu cartão. "Sinto muito pelos seus pais. Não sei o que aconteceu, mas isso não parece um acidente no momento."
Jerry e Kelly trocaram um olhar enquanto se afastavam.
Agora ele sabia com certeza que seu pai conseguira sua vingança final contra sua esposa infiel e seu amante, ou amantes, se Agnes estivesse envolvida, e Jerry tinha todos os motivos para acreditar que ela estava. Ele tinha certeza de que Frank queria garantir que seu filho soubesse que era ele quem estava se vingando deles. Não foi um acidente.
Jerry sussurrou tristemente: "Mensagem recebida, papai...", enquanto se afastava com o braço em volta da irmã que soluçava.
Jerry se sentiu mal por perder a mãe, e um pouco de tristeza por perder o tio Tony e a tia Agnes. Afinal, eles haviam sido tão próximos dele durante seu crescimento. Mas não pôde deixar de respeitar seu pai, soldado orgulhoso e homem de honra, agora reduzido a um homem frágil, quase indefeso, atormentado pela doença, conseguindo sua vingança final pela pior indignidade que um marido pode enfrentar. Era bem típico de seu pai cabeça-dura e obstinado não deixar isso passar.
"Deus, eu te amo, papai." Jerry se permitiu soluçar. "Vou sentir sua falta."