Contos eróticos para ler inteiros.

Lésbicas

Eu Ainda Te Odeio

iane.918 min

A Lexi tem uma lista.

Claro que ela tem, porra.

Caixas organizadas por cor. Roupa de cama combinando. Uma foto emoldurada dela e da Marisol com vestidos de formatura do último ano (cortada rente; sem espaço para fantasmas). Ela é perfeita. Impecável. Curada. Ela checa três vezes a lista de mudança que a mãe imprimiu e plastificou porque esse é o tipo de família de onde ela vem. Do tipo em que listas plastificadas são normais. Esperadas. Lei divina.

Tudo tem um lugar. Uma gaveta. Uma etiqueta. Um perfil de fragrância, porra.

E na primeira hora de faculdade, funciona. O lado do quarto da Lexi floresce em rosas suaves, dourados pálidos, o brilho de luzinhas de fada que ela pendurou com precisão cirúrgica. Cheira a baunilha, ambição e negação.

Então a Morgan entra.

Sua nova colega de quarto. Caos num coque. Uma estudante de cinema com um tênis meio amarrado, uma mochila cheia de carregadores embolados e uma bolsa de lona que diz "Safo te odiaria pessoalmente".

Ela joga tudo na cama, se joga de costas e diz: "Então. Você é das que gritam ou sofre em silêncio?"

Lexi pisca. "Como é?"

Morgan joga um pacote de minhocas de goma nela. Atinge o ombro de Lexi e cai no chão. "Você parece do tipo que internaliza. Reprime. Provavelmente chora em banheiros individuais e depois retoca o rímel como se um crime de guerra nunca tivesse acontecido."

Lexi pensa em fingir que não ouviu. Então diz, fria e seca: "Eu sou a Lexi."

Morgan sorri como se tivesse ganhado algo. "Morgan. Ela/dela. Desastre queer. Prazer em te conhecer, Barbie."

Lexi não responde. Só se inclina, pega as minhocas de goma e as coloca na mesa de cabeceira da Morgan. Arrumadinho. Como se fosse a oferenda de paz que são.

Morgan desfaz as malas com a violência casual de uma garota que já se mudou vezes demais para se importar. Luminária de lava. Pôsteres de filmes antigos dos quais Lexi nunca ouviu falar. Um ukulele meio quebrado. Ela cantarola desafinada enquanto vasculha suas coisas.

Lexi termina de organizar seu material de papelaria.

Morgan coloca música.

É uma playlist. Daquelas playlists artísticas, sem gênero, onde o tempo não existe. Uma música começa -- vocais baixos, batida lo-fi arranhada -- e Lexi congela. Só por um suspiro. Só pela lembrança.

Sylvia, no carro dela. Tocando "Red Wine Supernova" no último volume. Cabelo voando pela janela. Mão na coxa da Lexi, sorrindo com malícia como se fosse dona do sol. "Essa agora é nossa", ela disse. "Sem devolver."

Lexi se levanta rápido demais.

"Vou ligar para a minha mãe", ela diz. Já está na porta.

Morgan levanta uma sobrancelha. "Claro."

Lexi não liga para a mãe.

Ela se senta na escada do dormitório. Concreto frio sob as coxas. Mãos enfiadas nas mangas do cardigã, embora estejam fazendo trinta graus lá fora.

Ela respira.

Como se o mundo pudesse desmoronar de novo.

Porque às vezes ainda parece que vai. Como se ela ainda estivesse naquele carro. Ainda agarrada ao volante. Ainda ouvindo a voz da Sylvia no meio da frase, e então--

Silêncio.

Aquele momento vive nela. Atrás das costelas. Cada respiração luta para passar por ele.

Ela esfrega os pulsos. Depois os olhos. Depois se levanta, como se isso fosse resolver.

De volta ao quarto, Morgan está deitada na cama, de cabeça para baixo, lendo Sylvia Plath.

Claro, porra.

A semana passa num borrão de ementas e quebra-gelos e Lexi fingindo. Fingindo ser alguém sem uma cova no peito. Ela sorri quando precisa. Entra para dois clubes. Responde a todas as perguntas em Teoria Política com autoridade suficiente para lembrar às pessoas que ela não é novata em vencer.

Morgan a observa.

Não de um jeito assustador. Só... percebe.

Às vezes, faz perguntas que Lexi não quer responder.

"Você sempre se esforça tanto assim ou é só uma resposta ao trauma?"

Lexi nem pisca. "Os dois."

Morgan assobia. "Eita. Brutal. Quer uma minhoca de goma?"

Lexi pega uma.

Elas comem em silêncio.

Uma noite, Lexi tem um sonho.

Não é violento. Nem barulhento.

É só a Sylvia. Sentada aos pés da cama do dormitório, dedos traçando o cobertor como se estivesse memorizando a textura. O cabelo está mais comprido. Os olhos estão suaves.

"Fico feliz que você conseguiu", a Sylvia do sonho diz.

Lexi quer tocá-la. Não consegue. Está congelada.

"Eu não consegui", Lexi diz.

Sylvia sorri. "Eu sei."

Quando ela acorda, o travesseiro está molhado.

Ela não conta para ninguém.

Morgan a convida para um encontro de estudantes queer. Lexi diz não.

Depois sim.

Depois muda de ideia de novo e aparece atrasada.

Todo mundo é tão barulhento. Tão confortável. Eles falam sobre pronomes e ficadas e playlists e drag queens favoritas. Lexi fica perto da mesa de petiscos, fingindo estar interessada em biscoitos veganos.

Uma garota sorri para ela.

Lexi entra em pânico e vai embora.

Morgan a encontra sentada do lado de fora vinte minutos depois.

"Você durou mais do que eu esperava", ela diz, acendendo um baseado.

Lexi não pede um trago. Só fica olhando para o céu.

"Ela foi a sua primeira?", Morgan pergunta.

Lexi se vira para ela. Olhos frios.

"Ela foi a sua última?"

Lexi não diz nada.

Morgan exala fumaça. "É. Foi o que eu pensei."

Elas começam a dormir na mesma cama às vezes.

Não desse jeito. Só que -- a Morgan sente frio. Ou a Lexi tem um pesadelo. Ou nenhuma das duas quer ficar sozinha.

A pele da Morgan é quente. O hálito dela cheira a menta e sarcasmo.

Lexi não a procura.

Mas às vezes, quase faz isso.

Uma noite, Morgan se mexe. Meio adormecida, ela diz: "Você pode chorar, sabia? Não vou contar para ninguém."

Lexi fica olhando para o teto. A garganta dói.

Ela não chora.

Mas também não dorme.

Lexi mal come. Mal fala. Bebe café expresso como se fosse água e estuda como se fosse um ato de violência. A perfeição é a única coisa que ela sabe controlar.

Então, um dia, ela esquece seus flashcards.

Não deveria ser grande coisa.

Mas é.

Ela fica olhando para seu planner impecável. Em branco onde deveriam estar suas anotações. A mão dela começa a tremer.

Morgan a encontra vinte minutos depois, sentada no chão do banheiro, rímel borrado, prendendo a respiração como se fosse a única coisa que lhe restasse.

Morgan não diz nada.

Só se senta ao lado dela. Oferece uma minhoca de goma.

Lexi pega.

Morde pela metade.

Se permite respirar de novo.

Naquela noite, Morgan lê um poema para ela.

Não é dela. Alguma coisa de poesia falada sobre luto e sexo e memória. Lexi ouve de olhos fechados.

Quero lembrar de você em pedaços-- do jeito que o luto ensina: fora de ordem, de trás para frente, de lado, bêbado. Quero te esquecer no mesmo suspiro em que sinto o gosto do seu nome na boca de outra pessoa. Você deixou uma marca em mim. Não uma ferida. Uma marca. Algo permanente e estúpido e com o formato exato do seu sorriso de merda. Ainda durmo do lado direito. Não porque eu goste. Porque você gostava. Minhas coxas lembram das suas mãos. Minha boca lembra do seu suspiro. Meu espelho lembra de quem eu era antes de te deixar entrar e esquecer como se tranca a porta. Dizem que a memória é só eletricidade. Então por que queima? Por que ainda dói nos meus pulsos, na minha respiração, na parte de mim que permaneceu suave por você? Eu não escrevo mais sobre você. Exceto quando escrevo. Que é sempre. Que é agora.

Morgan termina e diz: "Ela teve sorte, sabia? De ter você."

Lexi sussurra: "Ela nunca disse isso."

Morgan estende a mão. Roça os nós dos dedos no braço de Lexi.

"Você ainda pode."

Lexi não se move.

Mas também não se afasta.

Ela sonha de novo.

Dessa vez, Sylvia está rindo. Girando num campo. Vestindo a jaqueta velha de líder de torcida da Lexi.

"Eu te disse que você ficaria bem", ela diz.

Lexi corre para ela.

Mas nunca chega.

Ela acorda ofegante.

Morgan se vira, sonolenta. "Você está bem?"

Lexi acena com a cabeça. "Pesadelo."

Morgan puxa o cobertor mais para cima. "Quer falar sobre isso?"

Lexi pensa em lábios, e faróis, e o momento antes do mundo acabar.

"Não", ela diz.

Mas quando volta a dormir, a mão encontra a de Morgan.

E fica lá.

Mesmo no escuro.

Lexi faz tudo certo. Ela vai às aulas. Tira dez em tudo. Entra para o centro acadêmico. Mantém as sobrancelhas feitas e o planner cheio. Seus professores a adoram. As garotas do corredor pedem que ela as ajude a organizar as anotações. Ela faz código de cores na sua agenda com um fervor religioso moderado e escreve listas de afazeres no verso de recibos quando fica sem papel.

Mas ela é uma maldita fantasma.

Ela flutua pelas aulas como um holograma. Ri nas horas certas. Sorri sob comando. Anda com as chaves entre os dedos, não porque está com medo -- mas porque isso a faz se sentir real.

Ela não bebe. Não de verdade.

Ela vai a uma festa uma vez. Uma daquelas bagunças suadas de calouro com cheiro de cerveja, chão grudento e música alta demais e gente que acha que tocar é uma linguagem de amor.

Ela deixa um cara beijá-la. Ele é alto. Largo. Cheira a Axe e arrogância. Ela nem pega o nome dele.

Ele a pressiona contra a parede. Desliza a mão por baixo da blusa dela. Sussurra algo no ouvido dela que ela não ouve porque a voz da Sylvia está mais alta -- cortando sua memória como vidro.

"Você tem gosto de encrenca, princesa."

Lexi empurra o cara para longe. Ele cambaleia. Ri como se achasse que é um jogo.

Ela sai cambaleando. Curvada nos arbustos. Vomitando nada além de nervos e fantasmas.

Ela consegue voltar para o dormitório de algum jeito. Suor frio e rímel borrado. Enrolada em uma toalha, ela se encolhe no piso do banheiro do dormitório, testa pressionada contra a parede, braços abraçando os joelhos.

Morgan a encontra lá.

Descalça. Segurando uma barra de granola meio comida e um olhar que diz que ela já viu coisa pior.

"Você está bem?", ela pergunta, como se isso significasse algo.

Lexi não olha para ela. Não se mexe.

"Só estou cansada", ela diz.

Ambas mentem.

Morgan se senta ao lado dela. Não toca. Não pressiona. Só abre uma garrafa de Gatorade e a coloca gentilmente ao alcance.

Elas ficam lá até as luzes do corredor diminuírem.

Lexi nunca termina a bebida. Mas também não a joga fora.

Ela ainda tem a conversa antiga de texto com a Sylvia. Não apaga. Não abre. Só deixa lá -- fixada no topo, como um hematoma que nunca desaparece completamente. Às vezes ela fica olhando para aquilo por minutos inteiros, polegar pairando. Mas ela não consegue. Porque se abrir, verá a última coisa que Sylvia mandou. Algo bobo. Um meme. Uma selfie com a legenda "vc é obcecada por mim, admite". Algo estúpido e normal e inacabado.

Ela começa a usar o cabelo bagunçado. Só um pouco. Não exatamente como a Sylvia. Mas também não exatamente diferente. Ela diz a si mesma que é porque está ocupada. Está cansada. Não tem tempo para fazer chapinha todas as manhãs. Mas quando ela se vê no reflexo no final do dia -- quando um cacho cai do jeito certo, e sua clavícula está à mostra, e o ângulo está errado -- isso tira o ar dela. Porque por um segundo, ela se parece com elas. Como Lexi-e-Sylvia, aquele mito composto, bonito e condenado.

Ela tem pesadelos. Sempre os mesmos. Clarão de faróis. Música cortada no meio do refrão. O estrondo de metal se dobrando errado. Sangue em suas mãos, seu jeans, o painel. O grito frio e ecoante que pode ser dela ou não. E o pior de tudo --

Aquele momento.

Aquele segundo sem fôlego e sem tempo em que ela percebe que foi ela quem sobreviveu.

Ela acorda engasgada com isso. Seu próprio nome. Sua própria culpa.

Ela escreve poesia agora. Mal. Secretamente. Enche as margens de cadernos com versos que ela nunca diria em voz alta. Coisas como: "Eu a beijei em despedida sem saber que era a última vez." Ou "Minha boca se lembra do que meu corpo não consegue perdoar." Ela nunca relê. Só continua.

Ela não consegue mais ouvir música com letra. É demais. Muito próximo. Muito fácil uma frase despedaçá-la. Então ela ouve loops ambientes. Piano. Tempestades. Qualquer coisa sem voz. Porque ela já tem vozes demais -- fantasmas e memórias e a sua própria, dizendo a ela que você deveria ter morrido também.

Morgan é gentil.

Flerta um pouco.

Não de forma agressiva.

Só o suficiente para que Lexi se sinta vista.

Uma noite, elas dividem uma cama de solteiro -- não sexualmente. Só calor. O pesadelo de Lexi tinha sido mais alto que o normal. Ela acordou ofegante, mãos tremendo, os lençóis enrolados nela como uma corda. Morgan não fez perguntas. Só puxou o cobertor e disse: "Vem cá."

Lexi foi.

Elas ficaram deitadas de costas uma para a outra por um tempo. Então Lexi se virou. Pressionou a testa no ombro de Morgan como se precisasse de prova de que outra pessoa era real. Sua respiração ficou rasa. Seus punhos estavam cerrados sob o queixo.

Morgan disse, suave como chuva: "Você pode chorar se quiser."

Lexi queria. Deus, como ela queria.

Mas ela não chorou.

Ela só sussurrou: "Eu pareço o tipo de garota que chora?"

Morgan não perdeu o ritmo. "Não. Você parece o tipo que queima."

E Lexi riu.

Não porque fosse engraçado.

Porque era verdade.

As provas semestrais chegam como um acidente de avião em câmera lenta.

Lexi não vai mal em nenhuma prova. Não perde nenhum prazo. Seu CR continua imaculado, intocado, admirado. Professores a chamam de brilhante. Colegas a chamam de sortuda.

Mas Lexi se sente como se estivesse apodrecendo sob um vidro.

Ela para de dormir. Seus olhos têm tiques em horas estranhas, e suas mãos começam a tremer quando ela escreve. Seu planner se enche de círculos de tinta cada vez mais apertados, ansiedade com código de cores pressionada nas páginas como hematomas. Ela se esquece de comer. Esquece de mentir. Esquece como sorrir, a menos que esteja numa sala cheia de gente, e mesmo assim, é memória muscular.

Acontece numa terça-feira.

Uma apresentação em sala. Fácil. Ela já fez uma dúzia delas neste semestre. Ela está preparada. Claro que está. Ela sempre está.

Só que -- não está.

Ela abre o laptop e o arquivo não está lá. Sumiu. Desapareceu. Seu roteiro, seus slides, seus tópicos -- desaparecidos. Não deveria importar. Ela conhece o conteúdo. Poderia falar dormindo sobre mudanças políticas pós-reconstrução e o mito da meritocracia.

Mas ela não consegue respirar.

O maxilar dela se tensiona. Suas mãos tremem. O professor pergunta se ela está pronta, e em vez de responder, ela diz, com rispidez demais: "Talvez se você não tivesse jogado isso em cima da gente sem tempo para se preparar."

Há uma pausa.

Todos olham.

Ela já está a meio caminho da porta.

De volta ao dormitório, ela se move como se estivesse se afogando no ar.

Tranca a porta do banheiro atrás de si.

Observa seu reflexo. O odeia. Fica olhando mesmo assim.

Puxa o batom da bolsa -- o mesmo tom que Sylvia uma vez beijou na curva do seu pescoço -- e o arremessa contra o espelho.

Ele explode num arco irregular e gorduroso. Carmim. Brilhante. Um borrão de pintura de guerra e pânico.

Ela desliza para o chão, costas contra a parede, tremendo.

Morgan bate cinco minutos depois.

Suave. Paciente.

"Lexi?"

Silêncio.

"Não vou entrar. Só... estou te avisando que estou aqui."

Lexi não responde. Sua garganta está cheia de estática. Seu peito é porcelana rachada, contendo coisas demais. Seus nós dos dedos estão brancos em volta dos próprios cotovelos. Ela morde a parte interna da bochecha até sentir gosto de metal.

Mais tarde, quando finalmente abre a porta, Morgan está sentada bem ali.

Pernas cruzadas. Moletom vestido. Telefone virado para baixo no colo. Como se soubesse que Lexi sairia mais cedo ou mais tarde e estivesse disposta a esperar.

Ela olha para cima, calma mas séria. "Você não precisa estar bem o tempo todo."

É a gentileza que consegue.

Que desfaz algo.

Lexi desliza para o lado dela. Agacha-se, braços sobre os joelhos. Elas estão cara a cara. Perto o suficiente para sentir a respiração. Perto o suficiente para sentir a possibilidade de algo.

Algo suave.

Algo como segurança.

Morgan se mexe. A mão dela se contrai como se quisesse estender a mão. Em vez disso, ela se inclina para frente só um pouco -- só o suficiente.

E Lexi recua.

Não muito. Não dramaticamente. Só um tique. Só um recuo nos olhos dela.

Morgan para.

Recua.

Não diz nada. Sem desculpas. Sem pressão.

Lexi sussurra, voz despedaçada: "Eu tinha alguém."

Uma pausa.

"Ela se foi."

Outra.

"Acho que eu costumava ser humana."

Morgan fecha os olhos.

Depois os abre de novo e pressiona um beijo -- leve como um sopro -- na testa de Lexi.

É só isso.

Nada mais.

Elas rastejam para a cama naquela noite sem se tocar.

Morgan apaga a luz.

Lexi fica acordada por um longo tempo, olhando para o teto. Contando as próprias batidas do coração. Sentindo o lugar na pele onde Morgan a beijou como uma bênção. Como uma despedida que ela nunca teve.

Lá fora, o mundo continua girando.

Aqui dentro, Lexi não está bem.

Mas ela é vista.

E por enquanto, isso é suficiente.

Chega numa caixa de sapatos.

Sem bilhete. Só o nome de Lexi rabiscado na caligrafia em letras maiúsculas da Marisol e uns corações que mais parecem ameaças do que afeto. A caixa está amassada. A fita está malfeita. Cheira vagamente a incenso e chiclete e rebeldia de segunda mão.

Lexi a abre em sua cama com cautela cirúrgica. Como se pudesse explodir. Como se já tivesse explodido.

Dentro:

Uma camiseta. Horrível. Rosa neon. Gola esticada e descascando no meio. Diz: "Classuda, Atrevida e um Pouco Levada" numa fonte que parece que ficou bêbada e entrou num shopping de beira de estrada.

Lexi bufa antes de conseguir se conter. Um bufo real, honesto.

Porque claro que a Marisol mandou isso.

Claro que mandou.

É horrível. É perfeito. São elas.

Ela a dobra gentilmente. Reverentemente. Como se fosse sagrado, embora seja a coisa mais idiota que ela já segurou.

E então--

Por baixo, enfiado entre um frasco de glitter roll-on e uma caneta dourada velha que definitivamente não funciona mais:

Uma polaroid.

Lexi congela.

É a Sylvia.

No carro. Banco do passageiro. Regata caindo de um ombro. Aquele sorriso selvagem e feroz. A luz do sol transforma o cabelo dela em fogo. Uma mão na coxa nua de Lexi -- descarada, possessiva, casual como se fosse dona do mundo. A outra?

Mostrando o dedo do meio para a câmera.

A respiração de Lexi fica presa na garganta como se estivesse tentando sair à força.

Ela não sabia que essa foto existia.

Não se lembrava de ter sido tirada.

Não sabe quem segurava a câmera. Provavelmente a Marisol. Talvez o destino.

Seus dedos tremem enquanto ela a levanta. É brilhante. Pesada. Real demais.

Ela passa horas só... olhando.

Sem chorar.

Sem gritar.

Só lembrando.

Como foi aquele trajeto.

Como a Sylvia cantarolava junto com uma música sem melodia.

Como os dedos dela traçavam círculos preguiçosos logo acima da barra do short de Lexi.

Como discutiam sobre quais salgadinhos de posto de gasolina eram comida válida para viagem.

Como Lexi tinha ficado irritada na época.

Como ela daria qualquer coisa—qualquer coisa—para se sentir irritada daquele jeito de novo.

Quando o sol se põe e a luz no dormitório fica dourada e melancólica, ela finalmente se mexe.

Ela prega a polaroide na parede.

Não bem no centro.

Só... ali.

Ao lado do calendário.

Ao lado dos horários.

Ao lado da citação motivacional que ela imprimiu e colou com fita adesiva num momento de esperança frágil.

Ela vive entre as ferramentas de sua sobrevivência.

Entre as armas que ela forjou com ambição, precisão e a recusa de desmoronar.

Ela encara a foto.

Por muito tempo.

Morgan está em sua mesa, fones de ouvido, balançando suavemente ao som de algo que Lexi não pode ouvir. O quarto cheira a chá de hortelã e livros de bolso velhos. Seguro. Distante.

E Lexi?

Lexi se inclina para a frente.

Sussurra baixinho. Tão baixo que quase não existe.

"Eu ainda te odeio."

Mas a gente sabe o que isso significa.

Significa eu te amo.

Significa que sinto tanto a sua falta que não consigo respirar quando dou risada.

Significa que, seu bastardo, sua gênia linda e brilhante, por que você não esperou eu dizer de volta?

Significa por favor, volte.

A foto não responde.

Mas Lexi dorme com ela a observando.

E naquela noite, ela sonha com a mão de Sylvia em sua coxa.

Ainda quente. Ainda ali.

Só por um minuto.

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