Cortado ou, Quintas-Feiras no Starbucks
QUINTA-FEIRA
"Que porra é essa, Nick?" Susan sibilou. "Isso é algum tipo de piada idiota?"
Ela parecia absolutamente furiosa. Estávamos sentados ao sol, do lado de fora de um Starbucks em Dunlap, a algumas cidades de distância, e, felizmente, as mesas ao redor estavam todas vazias.
Levantei as mãos em um gesto apaziguador. "Susan, parece que estou brincando? Meu rosto está sinalizando 'oba, estamos nos divertindo aqui'?"
Ela só me encarou por um minuto, ficando gradualmente mais calma e mais pálida. Finalmente, disse, baixinho: "Como você sabe?"
Contei a ela o que eu sabia — ou a versão resumida, pelo menos. Depois, toquei para ela alguns minutos da gravação.
***** *****
TERÇA-FEIRA, DOIS DIAS ANTES
Você não pode saber como vai reagir. Quer dizer, como poderia? Se recebesse um telefonema dizendo que sua mãe morreu de ataque cardíaco, você saberia o que faria primeiro? Ou se visse seu filho ser atropelado? Jesus, não quero nem pensar nisso — mas você gritaria, mataria alguém ou ficaria paralisado? Como dá para saber?
Não posso dizer que fiquei atordoado, porque não fiquei — não nos últimos minutos antes de encontrá-los. Entrei na Appletree Court, planejando fazer uma parada rápida para pegar uma pasta que deixei por engano no meu escritório em casa. Era quase meio-dia, e eu estava pensando distraidamente em passar no restaurante indiano na Cheviot Road no caminho de volta para o trabalho.
Deixei o carro na rua, sem me preocupar com a garagem. Ao me aproximar da porta da frente, de repente me senti estranho — quase como um arrepio esquisito — e, em vez de simplesmente entrar, destranquei e abri a porta silenciosamente, e fiquei no corredor por um instante, ouvindo. Merda.
Os sons de sexo, vindos do andar de cima. Tinha que ser a Renee, embora ela tivesse me dito que ia dar aula naquele dia — ela é professora substituta em New Baltimore, alguns dias por semana.
Tirei os sapatos e subi silenciosamente os degraus acarpetados, pelo corredor, até a beira do quarto de hóspedes. A porta estava aberta e eu dei uma rápida espiada cuidadosa. Renee estava cavalgando o cara, de costas para mim, fazendo muito barulho — embora não mais do que fazia comigo.
Não gritei. Não chorei, nem xinguei, nem corri para o quarto batendo em ninguém. Fiquei parado no corredor, imóvel, por talvez um minuto.
"Vamos, ME FODE, estou quase lá!" A voz de Renee, mais áspera que o normal, do jeito que ela às vezes soava comigo quando estava prestes a gozar. Tudo que eu ouvia do cara debaixo dela eram grunhidos.
Eu simplesmente fiquei parado ali, caralho. E então andei rápido, silenciosamente, pelo corredor até meu escritório. Peguei o gravador que uso para ditar memorandos, liguei-o e o escondi cuidadosamente em cima da mesa do corredor ao lado do quarto de hóspedes. Depois peguei o arquivo que vim buscar em casa e saí da casa. Eles nunca souberam que estive lá.
Olhei na garagem antes de ir embora. O carro da Renee estava lá, assim como um Camry azul que pertencia a Danny e Susan, um casal da vizinhança que fazia parte do nosso grupo de amigos quando nossos filhos estavam todos na pré-escola juntos.
Então Renee abriu a porta da garagem, deixou-o entrar e fechou de novo. Não era a primeira vez que eles faziam isso.
*****
Eu nem estava com raiva, isso que é louco. Ou melhor, ainda NÃO estava com raiva. Almocei no restaurante indiano praticamente sem sentir o gosto, e depois voltei e tive uma tarde produtiva no escritório — terminei duas moções pré-julgamento e me preparei para um grande depoimento na próxima semana. Como é que isso faz algum sentido?
Acho que simplesmente empurrei tudo lá para o fundo, bem fundo — o supremo ato de compartimentalizar. Precisava saber mais sobre o que estava acontecendo, além do óbvio, e de alguma forma guardei a raiva e a tristeza no porão em algum lugar, deixando-as assentarem até que eu tivesse tempo de lidar com elas.
Quando entrei pela porta, vi Vera e Ben nos balanços do quintal, e Renee colocou a cabeça para fora da cozinha para sorrir para mim.
"Oi, querido!" Ela estava usando o tipo de roupa que sempre usava para dar aula, uma saia e blusa comuns, e estava com um avental colorido que compramos no México.
Quase em uma névoa, entrei e dei o abraço e beijo de sempre, nada mais, nada menos, e ela fez o mesmo. Ela estava alegre e agradável. Estava quase normal — quase. Havia uma tensão minúscula ali, que eu nunca teria notado se não estivesse observando de perto.
"As crianças realmente queriam tacos esta noite — eles estarão prontos em uns dez minutos, se você quiser ir brincar com eles um pouco antes."
Seu carinho, a afeição totalmente típica que eu sentia emanando dela, me entorpeceram absolutamente. Embora eu ache que já estivesse entorpecido. Fui e brinquei com as crianças, empurrando-os mais alto, aproveitando seus gritos; e depois entramos e tivemos o jantar em família mais normal que se possa ter. Limpei a cozinha enquanto Renee dava banho nas crianças, tirava-as da banheira e as colocava de pijama, e assistimos a um de seus filmes de animação por um tempo, e depois os colocamos na cama. Uma noite típica na casa dos Randall, como centenas de noites antes.
E quando saí do quarto de Ben, de repente, não aguentei mais. Não conseguia imaginar passar a noite com Renee, assistindo TV ou conversando ou, Deus me livre, na cama juntos.
"Desculpe, querida", eu disse, antes que ela pudesse falar. "O depoimento dos Connors foi adiantado para amanhã e vou precisar de algumas horas revisando-o esta noite."
"Sem problemas, Nick", ela disse, e me deu um beijo rápido na bochecha. "Vou terminar de maratonar aquela série da França medieval. Não trabalhe até tarde demais!"
Esperei no escritório, navegando na internet distraidamente até ter certeza de que ela estaria dormindo. Você tem ideia de quantos vídeos de gatinhos fofos existem por aí? Jesus Cristo, algumas pessoas realmente têm tempo demais.
Então peguei meu gravador, levei-o de volta ao escritório, conectei os fones de ouvido e escutei. Todos os 46 minutos. Bem, três horas na verdade, mas depois de 46 minutos não havia mais nada na gravação.
Primeiro houve grunhidos e gemidos, os sons do sexo que eu já tivera o prazer de ouvir. Depois alguns suspiros e respiração relaxada. A conversa só começou alguns minutos depois.
"Jesus, isso foi bom." A voz de Renee, profunda e relaxada, do jeito que ela fica depois do sexo.
"Você é gostosa pra caralho, Renee. Só fica cada vez melhor. Nick é um filho da puta de sorte."
"Pare com isso, Danny." Ouvi um som que poderia ser ela dando um tapa leve nele. "Não quero falar dele — preciso ficar repetindo?"
"Tá bom, tá bom, desculpa, gata." Mais alguns minutos de silêncio. Então:
"Sabe o que seria ótimo? Um tesão de verdade, na real. Que tal a gente tentar cortar eles? Sabe, talvez não completamente, mas dar uma reduzida em casa?"
"Espera, o quê?" Sons de Renee se mexendo na cama, talvez se sentando.
"É", disse Danny. "Acho que seria meio excitante. Eu saber que Nick está recebendo menos de você, enquanto eu assumo a folga. E eu faria a mesma coisa com Susan, sabe — diminuir o sexo para tipo uma vez por semana.
"Não pararíamos completamente, isso poderia deixá-los desconfiados. Mas menos para eles, e mais para nós?" Ele riu. "Isso seria excitante pra caralho!"
"Danny", ela disse, a voz tensa. Eu podia ouvir a raiva. "Me escuta. Eu amo meu marido, e não vou negar sexo a ele só para jogar um joguinho idiota com você. Só para você se sentir ainda melhor consigo mesmo, passando a perna nele."
Ela parecia estar fora da cama agora, andando, talvez pegando suas roupas.
"Já me sinto culpada o suficiente, sabendo o quanto ele me ama. O quanto ele confia em mim. Merda!" Ela sibilou isso, alto o bastante para me assustar, ouvindo ali no meu escritório.
"Sabe, talvez seja hora de simplesmente acabar com... com o que quer que seja isso. Eu amo o Nick e não amo você, e isso nunca ia ser nada além de uma diversãozinha suja por fora. Acho que terminamos."
"Gata, gata, calma aí." A voz de Danny era suave, calmante. O cretino. "Ok, foi uma ideia ruim. Esquece. Vamos continuar como estamos. Tem sido ótimo, não tem?"
"Quer saber, Danny? Não. Cansei. Foi excitante e foi divertido, mas cansei. Não me sinto bem mentindo para o Nick e para a Susan; estou pronta para ser a esposa fiel dele de novo, e amiga dela. Quer café?"
E com isso ela deve ter saído do quarto, com ele ainda para trás tentando convencê-la. Ele a seguiu escada abaixo, e ouvi mais uns 20 minutos ou mais de discussão na cozinha, sem conseguir ouvir o que era dito.
Finalmente, houve sons de portas abrindo e fechando — duas vezes — e então nada. Silêncio.
***** *****
QUINTA-FEIRA
Desliguei o gravador e ficamos apenas sentados. Em silêncio, ao sol.
"Aquele DESGRAÇADO." Susan estava sibilando. "Aquele IDIOTA, aquele BASTARDO."
Ela me olhou, muito séria. "Nick, você vem lá em casa segurar ele enquanto eu corto as bolas dele?"
Eu ri alto. Certamente a primeira vez que ria nos últimos três dias, ou mesmo sorria. Susan e eu sempre fomos melhores amigos do que Danny e eu; eu gostava da alegria dela e do humor, um pouco sarcástico mas brincalhão, não maldoso. Danny sempre me pareceu um babaca egocêntrico — mesmo antes de tudo isso.
"Estou tentado, Susan, mas não tenho certeza se é a solução mais prática."
"Prática, o caralho — por que ele merece continuar andando na terra com os testículos intactos?" Ela estava chorando, mas rindo ao mesmo tempo. Estava arrasada, como eu estava desde terça-feira, mas estava sendo feroz e engraçada ao mesmo tempo. Eu a admirava.
"Jesus, Nick, o que vamos fazer? O que VOCÊ vai fazer? Você teve alguns dias para lidar com essa coisa de merda."
"Tenho algumas ideias", eu disse. "Mas primeiro quero saber se realmente acabou. Isso faria diferença para mim — o quanto, não sei."
Ela assentiu. "Mas como você vai fazer isso?"
Eu disse: "Coloquei uma escuta no telefone e gravadores na nossa cozinha e no andar de cima. Eles não podem se encontrar na sua casa, então imagino que tudo que acontecer vai ser na nossa casa."
Susan assentiu de novo. Ela tocava seu pequeno negócio de importação têxtil de casa, então nossos cônjuges adúlteros não iriam lá.
"Vamos nos encontrar aqui de novo daqui a uma semana. Vou fingir que não sei de nada — não vai ser fácil, mas quero saber se a vadia está realmente terminando. Depois disso, podemos decidir o que queremos fazer, ok?"
Ela disse, lentamente: "É, acho que vai funcionar. Vai ser difícil não dar um chute nas bolas dele assim que ele entrar pela porta, no entanto." Ela riu, um pouco amargamente, e disse: "Não tenho certeza se sou tão boa atriz quanto você, Nick."
"Apenas tente, se puder. Agora pelo menos sabemos o que está acontecendo, e eles não sabem que sabemos. Vantagem, Nick e Susan."
***** *****
QUINTA-FEIRA, SEMANA SEGUINTE
Susan e eu nos abraçamos, e nos sentamos com nossos cafés. Seu rosto estava tenso, contraído, e imaginei que eu devia estar mais ou menos igual.
"Eles terminaram", eu disse de imediato. Não havia necessidade de fazê-la esperar para ouvir.
"Ah é?"
"É, ela ligou para ele na sexta no trabalho, disse que era isso, para não incomodá-la mais."
Ela se recostou na cadeira, digerindo aquilo. "E ele insistiu, imagino?"
Eu ri. "Ah, sim. Disse que foi o sexo mais maravilhoso de todos, blá blá blá. Ficava dizendo que nunca saberíamos. Pediu desculpas de novo por aquela besteira de 'cortar eles'. Mas ela não quis nem saber. A conversa durou só uns três minutos.
"E aqui está a coisa mais louca." Inclinei-me para a frente. "Ela realmente confessou para mim."
"Espera aí — sério?" Ela riu asperamente. "Aquela vadia. Acho que antes tarde do que nunca, né?"
Ela pensou por um minuto. "Danny certamente nunca me disse uma palavra, aquele babaca. O que ela disse?"
"Foi há duas noites. Ela esteve estranha o fim de semana todo — quieta, sabe, mas também mais carinhosa que o normal. Toquezinhos no ombro quando passava por mim, um abraço e beijo rápidos depois que eu fazia algo como descarregar a lava-louças.
"E aí na terça à noite cheguei em casa e ela tinha feito frango Sorrento — ela faz isso tipo duas vezes por ano porque sabe que eu adoro, é minha coisa favorita que ela cozinha. E ela deu banho nas crianças cedo e as colocou para dormir — e depois deixou claro que íamos para o quarto.
"Eu não tinha muita certeza do que queria fazer, sabe? Eu não tinha tocado nela — bem, transado com ela, desde... desde a terça passada, quando descobri. Então foi uma semana, o que é mais tempo que o normal para nós.
"Então fizemos amor — ou fudemos, na verdade não tenho certeza qual. Talvez ela tenha feito um e eu o outro. E depois que terminamos ela simplesmente se agarrou a mim, apertado, beijando meu pescoço e dizendo 'te amo' sem parar. E depois de alguns minutos ela simplesmente estremeceu, e caiu em lágrimas, e disse 'precisamos conversar'."
Parei por um minuto e peguei meu gravador, colocando-o sobre a mesa.
"Aqui está só um pedacinho — eu te disse que tinha um gravador no quarto."
*****
Havia sons de roupas de cama se mexendo, e o choro de Renee.
Ela disse: "Nick, eu ferrei tudo. Eu (soluço), eu fiz a pior coisa que podia fazer, a pior coisa que eu poderia fazer — e você vai me odiar." Ela começou a chorar mais forte.
"E a culpa é toda minha, e você vai me jogar pra fora — e eu mereço!"
Mais barulhos dela fungando, assoando o nariz — e então:
"Eu tive um caso estúpido, barato, de merda com Danny Rudenko. A gente transou quatro vezes. Começou há umas três semanas — e já acabou. Eu disse para ele me deixar em paz."
Mais silêncio, mais fungadas. "Foi barato e egoísta, e eu simplesmente não acredito que fiz isso. Eu me olho no espelho e pergunto 'como me transformei nessa vadia egoísta, desonesta e traidora?'"
Depois a minha voz: "Você transou com ele aqui? Na nossa cama?"
"Sim", ela disse, com a voz sufocada. "A Susan trabalha em casa, então não podíamos fazer lá."
Mais soluços, e depois os sons de eu me levantando, me vestindo e saindo do quarto.
*****
"Isso é o suficiente para ter uma ideia. Voltei algumas horas depois, ela ainda estava acordada, parecendo miserável, e me contou o resto. Como começou, toda aquela besteira idiota de flerte — e a parte sobre nos cortar.
"Ela disse que foi isso que realmente a acordou, tirou a cabeça da bunda. Disse que percebeu o canalha que ele era, e de repente ficou com nojo de si mesma. Ela o expulsou — e depois passou uma semana se destruindo, se preparando para me contar a história."
Susan e eu ficamos sentados um tempo depois disso, apenas bebendo nosso café, pensando nas coisas. Foi realmente bom, meio reconfortante. Esperava que fosse assim para ela também.
Antes de nos levantarmos para ir embora ela perguntou: "E agora? O que você vai fazer com ela, a maldita vadia?"
Fiz uma careta. "Por favor, não fique brava comigo. Nós vamos ver se conseguimos talvez resolver isso. Temos uma consulta com um terapeuta na semana que vem."
Susan apenas ergueu as sobrancelhas. Eu disse: "Eu sei. Eu sei, acredite. Mas você não viu ela, Susan — ela está tão miserável quanto uma pessoa pode estar. Não sei se algum dia vou conseguir confiar nela; mas acho que ela cortaria o próprio braço antes de fazer algo assim de novo. Nós dois amamos as crianças, e caralho, não estou disposto a ser um pai de fim de semana sim, fim de semana não.
"Então vamos tentar."
Esperei, e depois disse: "E quanto a você?"
"É isso — ele está acabado. Na verdade não é a primeira vez; ele teve um caso rápido com uma vadia do escritório dele. Tem uma secretária lá que é minha amiga, e ela me contou. Eu o confrontei antes que ele tivesse transado com ela mais do que algumas vezes — e ele foi tão cheio de desculpas, sabe? Se desmanchou todo me dizendo como se sentia mal, como estava arrependido? Não podia fazer o suficiente por mim por alguns meses: férias no Caribe sem as crianças, um carro novo, assumir mais tarefas em casa, o que você quiser.
"Eu deveria ter jogado ele fora naquela época, mas estava com medo, sabe? Emma e Alice tinham só 5 e 3 anos, e ser mãe solteira me apavorava. Então deixei ele me reconquistar — eu acho. Quer dizer, ele nunca realmente conseguiu; nunca confiei nele desde então, nem baixei totalmente a guarda. Sempre esperando a outra merda de sapato cair."
"Sinto muito", eu disse, e depois ficamos sentados mais um pouco. O sol era gostoso.
— Tá bom então — eu disse, inclinando-me para a frente. — Se você tem certeza de que acabou com aquele babaca, então tenho umas ideias. A Renee e eu conversamos sobre elas. Ela não ficou muito feliz, mas que se foda, né? Ela não tá em posição de reclamar.
Contei para a Susan sobre meus planos para as próximas semanas e fiquei satisfeito ao ver o rosto tenso dela relaxar num sorriso largo — quase um sorriso sarcástico.
***** *****
QUINTA-FEIRA SEGUINTE
Ela nem esperou a gente sentar — a Susan já começou a tagarelar comigo na mesma hora.
— Porra, Nick, como eu gostei daquilo. Ver a cara dela, imaginando se eu ia me levantar e dar um soco bem no meio da fuça dela.
A gente se ajeitou — eu tinha comprado uns muffins para acompanhar o café — e fiz um gesto para ela continuar. Eu já sabia da maior parte, ou pelo menos a Renee tinha me contado a versão dela, mas a Susan claramente queria compartilhar tudo.
— Ela apareceu na segunda às 10:00, certinho como planejado — e claro que ela já sabia que eu tinha ouvido de você, então ela foi poupada de ter que confessar. Mas ela ainda estava com uma cara horrível — que nem uma aluna da segunda série mandada para a sala do diretor, ou algo assim.
“Ela começou a dizer, ‘Susan, eu—’ mas eu a interrompi. Eu disse, ‘nem uma palavra’, e virei as costas e a levei para a cozinha. A gente sentou lá e eu só fiquei olhando para ela por um tempo. Obviamente, eu não ofereci café nem nada, a vadia. Ela só ficou olhando para o chão.
“Finalmente eu disse: ‘tá bom, pode falar’.
“Ela começou a chorar na mesma hora, antes mesmo de abrir a boca. Ela disse algo como, ‘Susan, eu sinto muito — isso é tão horrível, eu fui tão horrível, e eu...’ E aí ela só soluçou por um tempo, não conseguia dizer mais nada, ainda olhando para baixo.
“Finalmente ela se recompôs um pouco, olhou para mim. Ela disse: ‘Eu sei que não mereço o seu perdão, e não espero por ele. Mas eu peço desculpas, do fundo do meu coração. Eu pedi desculpas ao Nick e peço desculpas a você. Danny e eu estávamos — não, que se foda isso. A parte dele é com ele. Eu fui egoísta e estúpida. Eu parei de pensar em você, e no Nick, e em qualquer coisa além do meu próprio ego maldito de adolescente. Foi a pior coisa que eu já fiz, em toda a porra da minha vida.’
— Foi bem menos coerente que isso, Nick, mas você entendeu a ideia. Ela conseguiu mais umas frases, mais do mesmo, sabe. E aí a gente ficou sentado por um tempo. Ela voltou a encarar o chão.
A Susan olhou para mim, quase de forma desafiadora. — E eu tenho que dizer que gostei, de algum jeito. Ainda tô puta da vida com ela, claro — mas ela estava absolutamente miserável, e nós duas sabíamos que ela merecia cada segundo daquilo, e ver ela daquele jeito ajudou — só um pouco, sabe?
Eu assenti. — Acredite, Susan, eu entendo — eu disse. Eu também tinha gostado um pouco da miséria da Renee, nos últimos dias. Não fazia a minha própria fúria desaparecer, mas ajudava.
— Então a gente ficou sentado em silêncio por mais uns dois minutos — a Susan continuou —, e aí eu disse: ‘tá bom, Renee, pode ir agora’.
“Eu a acompanhei até a porta, e quando ela estava prestes a sair eu disse: ‘a gente nunca mais vai ser amiga, você sabe disso, né?’ Ela só assentiu, e murmurou alguma coisa, e eu continuei: ‘mas eu vou ser amiga do Nick. Qualquer tipo de amiga que eu quiser ser.’
“Ela me olhou de relance, meio alarmada, e eu só dei o meu melhor sorriso maldoso, e a empurrei para fora. E aí eu voltei para dentro e comi um pedação bem grande daquele bolo de chocolate maravilhoso da La Boulangerie.”
Eu ri. — “Qualquer tipo de amiga”, hein? Tenho certeza de que isso mexeu com ela.
A Susan e eu sabíamos que qualquer tipo de transa por vingança estava fora de questão. A gente não sentia esse tipo de atração um pelo outro, embora eu gostasse muito dela. A perspectiva de continuar saindo com ela, só como amigos, na verdade me fez sorrir.
Então eu disse: — bom, acho que estamos prontos para o grand finale, né? Semana que vem, bem aqui? Na verdade, tô impressionado que você conseguiu jogar esse jogo por tanto tempo, Susan — não sei se eu teria conseguido.
— É, bem — ela rosnou —, eu precisava ver o advogado, começar toda essa merda. E mentir para ele por três semanas seguidas, mantendo um sorriso de merda colado na minha cara? Eu meio que gostei, sabendo que o bastão de beisebol estava indo na direção da cabeça dele.
Ela se inclinou para a frente. — Muito obrigada, Nick. Obrigada por me contar, por me manter a par de tudo— Ela apertou minha mão. — Por ser um bom amigo, quando Deus sabe que eu realmente precisei de um.
— O mesmo digo eu — eu disse. — Conspirar com você foi basicamente a melhor parte de toda essa merda, na verdade. “Toda nuvem tem um lado bom”, certo? — Eu dei o meu melhor sorriso de merda, e ela caiu na gargalhada.
A gente conversou mais um pouco. Ela perguntou sobre a primeira sessão que a Renee e eu tivemos com o terapeuta, que tinha sido okay. Basicamente como esperado.
— Eu ainda não acredito que você está dando outra chance para ela, Nick.
— Considerando — considerando dar outra chance para ela. Tem uma grande diferença. Acredite, Susan, ela sabe que está pisando em gelo fino. Mas a confissão fez diferença, e como ela tem agido desde então. E, como eu disse: me tornar um pai de fim de semana de meio período? Nem fodendo, exceto como último recurso absoluto.
— Para você, eu acho que está mais claro, o que é bom. O Danny é um fracassado reincidente — no mínimo. E ele ganha um bom dinheiro, metade do qual logo será seu. E, meu Deus, Susan, quando você estiver disponível de novo, os caras vão cair em cima de você. “Como urubu na carniça”, acho que é a expressão?
A Susan me deu um sorrisão e me deu um tapinha no braço, me dizendo que mentiroso eu era — mas eu sabia que ela gostou de ouvir. E era verdade: ela era linda, e atenciosa, e engraçada pra caramba, e inteligente. Ela teria um monte de caras interessados, assim que a notícia se espalhasse.
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MAIS UMA QUINTA-FEIRA
A gente tinha coreografado tudo. A Susan estava sentada sozinha na mesa redonda do lado de fora, com um café para ela e um para o Danny, quando ele chegou com um sorriso feliz no rosto.
— Que legal isso, amor — ele disse. — Uma fugidinha do trabalho durante o dia, adorei! Qual é a ocasião? Tem alguma coisa especial acontecendo?
Ele se sentou, e nunca nos viu chegando. Não até a Renee estar sentada de um lado da mesa e eu do outro, entre ele e a Susan. Com caras de pôquer. Cada um de nós segurando um envelope pardo.
Ele tentou blefar, tenho que dar o braço a torcer. O rosto dele se contraiu e os olhos ficaram bem arregalados, só por um segundo; e aí ele conseguiu dar um sorriso simpático e disse: — bem, olha só quem está aqui? Oi pessoal, que surpresa legal!
Pensando bem, talvez o próximo momento tenha sido a minha parte favorita. Quando nós todos ficamos ali, em silêncio, sem sorrir, só encarando ele. Vendo ele tentar descobrir o que estava acontecendo, quem sabia o quê, como ele conseguiria jogar.
Ele sabia que não podia deixar o silêncio se prolongar por muito tempo. Ele disse: — vocês também tão matando o trabalho? É o aniversário de alguém ou algo assim?
Nós só continuamos encarando ele, deixando ele se remexer. Porra, como eu estava gostando daquilo.
Ele tentou de novo. — Posso pegar um café para vocês ou algo assim? Nick, você gosta do seu puro, né?
Ele começou a se levantar e a Susan disse: — senta, babaca. — Gélida, sem um pingo de sentimento.
O Danny congelou, encarando ela, e então se sentou de volta, devagar, incerto.
— Susan, querida — ele começou de novo, lentamente. — Tem alguma—
— Só cala a porra da boca, tá bom? — ela disparou. — Essa conversa vai ser curta. A gente vai falar e você vai ouvir. E aí você vai se levantar e ir embora, e eu não ligo se você for direto para o inferno.
— Susan, tem alguma—
— PARA!! — ela gritou. Ele parou. As pessoas nas outras mesas viraram a cabeça por um momento, olhando para a Susan. Ela olhou para mim.
— Danny — eu disse —, todo mundo nesta mesa sabe o que você fez. O que você e a Renee fizeram, e o que você fez antes disso.
Ele olhou rapidamente para a Renee, alarmado. Ela só o encarou com fúria.
Eu lhe entreguei o meu envelope. — Isso aqui são os papéis do divórcio. Arranje um advogado. A Susan está se divorciando do seu traseiro traidor. As fechaduras da casa foram trocadas e as suas coisas estão na garagem. A gente ajudou a Susan a mudar elas hoje de manhã.
Antes que ele pudesse dizer uma palavra, a Renee lhe deu o outro envelope. — Isso é uma cópia do seu acordo pré-nupcial. Vai ser tudo rápido, fácil e civilizado. Você também vai encontrar aí uma foto do seu sogro, segurando o rifle Winchester favorito dele. Acredito que ele tenha demonstrado certo interesse em lhe mostrar como ele funciona, se houver alguma “complicação”.
— Espera um minuto, eu— você não pode— — O Danny estava gaguejando. Nós só o observávamos.
Depois de um momento, ele se virou para a Susan, o rosto se contorcendo numa tentativa de desculpa.
— Susan, querida, eu sinto muito— quer dizer, eu sei que foi terrível, mas—
Ela pulou de pé, pegou o café dela, e fingiu jogar em cima dele. Ele se encolheu. Então ela disse: — adeus Danny — e foi embora. Ela não olhou para trás.
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UMA ÚLTIMA QUINTA-FEIRA
A Susan sorriu abertamente para mim quando eu disse: — Gostei muito do Andrei.
A gente tinha jantado no começo daquela semana, nós três. A Susan tinha começado a namorar o Andrei uns quatro meses antes, e as coisas pareciam estar indo bem.
— Ele também gostou muito de você. Ele te achou inteligente, e engraçado — boa companhia.
Ela tomou um gole do café. — Quando eu contei para ele a história toda antes — sobre a Renee e o Danny, e tudo —, ele absolutamente não conseguia acreditar que vocês ainda estavam juntos. Ele disse: ‘O Nick é um homem melhor do que eu jamais poderia ser.’ ”
Eu ri. — Não sei quanto a isso. Ela ainda está se matando para compensar, sabe? Quase um ano. Massagens nas costas, fins de semana fora sem as crianças, jantares legais, uns pares de ingressos para os Reds...
Eu fiquei sério por um minuto. — Doeu pra caralho, Susan. Você sabe disso — nem preciso falar.
“Mas dói cada vez menos. E se não temos o casamento que tínhamos antes, ainda temos algo muito bom. Talvez melhorando um pouco. E eu ainda estou na casa com a Vera e o Ben.”
Inclinando-me para a frente, eu disse: — como estão as suas meninas?
— Elas estão bem. Fico um pouco surpresa que não tenha causado mais problemas. Elas não falam muito dele. Outra noite no jantar a Emma disse: ‘é engraçado, mãe. Eu ainda amo o papai, mas na verdade não sinto muita falta dele. Quer dizer, a gente vê ele toda semana ou quase, e tudo bem... mas eu realmente não sinto falta dele estando AQUI. Na casa com a gente.’
“Eu olhei para a Alice e ela só estava assentindo com a cabeça, tipo, ‘é, é mais ou menos isso’. Então, acho que, sabe, não vou procurar problema onde não parece ter.”
A gente ficou sentado juntos por mais um tempo, no sol, só batendo papo. Curtindo nossos cafés. Quando a Susan já estava quase de saída, ela disse: — obrigada, Nick — de novo. Sério, por tudo. Por ter passado por isso comigo, por ser meu amigo... por tudo.
— Sinto o mesmo, Susan. Nós dois recebemos aqueles malditos limões na cabeça, e juntos fizemos uma limonada até que decente com eles.
Eu ergui minha xícara de café para ela, rindo. — Um brinde à limonada!
Ela riu também, e tocou a xícara dela na minha. — Um brinde à limonada.