A Morte e a Donzela
Com agradecimentos infinitos a EmilyMiller pela revisão e por dar o empurrãozinho inicial para eu escrever esta.
ΩFechei a porta com um suspiro.
Um hábito difícil de largar, respirar.
Anjos não precisam fazer isso, veja – embora tenhamos tudo o que é necessário para tal.
Ainda não aprendi a não fazer, no entanto. Lucius sempre brinca que ainda sou uma "novata" e que acabarei esquecendo.
Sorri ironicamente para mim mesma e me virei para encarar o corredor.
Ajeitei o xale, acomodando-o mais confortavelmente sobre os ombros, respirei fundo mais uma vez por hábito e soltei o ar novamente.
Velhos hábitos são difíceis de morrer.
Como viver.
Dei uma última olhada na superfície de madeira sem graça da porta, depois fui embora devagar.
Stanley Lee Pearson tinha partido em silêncio, no final. Velho, sozinho – seu único filho vivo, afastado desde que a esposa morrera, sete anos antes. Em... fiz as contas... dois dias, teria sido, na verdade.
Triste, mas não tão triste quanto poderia ter sido. Ele teve uma vida para fazer o que bem entendesse. Nunca enfrentou realmente uma crise grave, se me permite o trocadilho. E, no geral, tentou ser um bom homem. Amou a esposa, embora a tenha traído uma vez com aquela mulher mais jovem do bar em Galveston. Uma ou duas horas de sexo quente e furtivo num motel barato e uma leve pitada de infecção urinária por seus pecados. Uma pequena mancha numa alma, de resto, comum – do tipo geralmente registrada com duas datas e uma anotação concisa na impecável caligrafia de Azrael.
Nem de longe perto do Inferno, com certeza.
Ah, não.
Você precisa se esforçar muito para merecer um buraco lá embaixo.
A maioria dos mortos simplesmente faz a Escolha – quando estão prontos.
O que é a Escolha, você pergunta?
Tecnicamente, suponho, existem três.
Você pode escolher voltar ao Mundo – esquecer tudo e nascer de novo, no sentido mais exato e preciso da frase.
Ou pode, como eu, optar por esperar um pouco e ganhar um par de asas – para fazer o que puder para ajudar da maneira que lhe convier. Ou não, se preferir a não-vida ociosa. Pelo que sei, ninguém parece se importar muito com o que fazemos – Inefabilidade ou alguma bobagem do tipo, imaginei.
A terceira escolha, você pergunta?
Oblívio; o Ômega final. O ponto final definitivo na sua breve historinha.
A boa e velha Trindade de novo – o Chefe adora fazer as coisas em três.
Conheci alguns que escolheram o terceiro caminho, levados pelo Altíssimo imutável e danificados demais para desejar voltar ao Baixo.
Não falamos deles depois que partiram. Uma pedra erguida seria colocada na vasta planície além dos Portões do Crepúsculo, e pronto.
De vez em quando, alguém pode visitá-la.
Mas, na maioria das vezes, não.
Deixe os verdadeiramente falecidos em paz, era o acordo tácito.
Suspiro de novo.
Duas almas feitas hoje. Mais duas para ir. Depois, de volta ao Relicário para a "reunião de balanço", como Azrael insiste em chamar.
Ele nunca me deixa cuidar de mais de quatro viajantes num "turno".
Ele gosta de mim por alguma razão estranha, viu.
Ajudar os mortos a seguir em frente cobra seu preço de todos nós, até de Lucius, que já foi um figurão da igreja copta do século V na Etiópia – ele finge ser elegante e cínico, mas sei que flerta o tempo todo com aquele grande e velho Nada.
Só mais dois para encaminhar. E então eu terminaria – por este ciclo, pelo menos. Daria uma pausa, tiraria um tempo para caminhar pelos campos da Arcádia sob o calor suave do Sol, tempo para conversar com aqueles poucos como eu de quem me tornei amiga em meus cento e cinquenta e sete anos de... ser.
Azrael insistiu para eu dar uma pausa, tirar um tempo prolongado, desabafar. Segundo ele, eu estava com aparência abatida.
Fiz uma careta com a lembrança.
Azrael. Quase tão velho quanto o Céu, mais velho que o Mundo; o guardião dos registros das vidas dos que partiram, não era uma entidade para quem eu ousaria dizer "Não".
Você poderia esquecer quem ele era, ser levado por seu jeito arrumado, meticuloso, ordenado e sua pequena vaidade com o terno Armani bege-claro sob medida...
Mas ele era o Anjo da Morte, e podia ser aterrorizante quando contrariado.
Bem, tudo bem.
Hora de ir.
Parei, me concentrei, transpus... minhas asas batendo para baixo, o impulso poderoso me lançando obliquamente através do sonho da existência da manhã clara de Memphis para o tempo nublado de quase-hora-do-almoço do meu amado País de Gales.
Encolhi as asas, consegui, desta vez, desmanifestá-las, e saí de trás do galpão de lixo que usei para ocultar minha chegada.
Então fechei os olhos, me orientei, respirei o ar limpo de casa.
E franzi o nariz com a fumaça de diesel de um ônibus que passava.
Quase podia imaginar o sorriso debochado de Jezebel.
Olhei para a fachada de tijolos bege do "centro de cuidados paliativos gerenciado".
Não era meu tipo de lugar favorito, de jeito nenhum, mas ainda assim muito melhor do que outras maneiras de morrer...
Guardei esse pensamento. Autopiedade era para mais tarde, quando estivesse no meu próprio tempo.
Olhei de relance para o saguão de entrada através das portas de vidro deslizantes.
Os vasos cheios de narcisos amarelos brilhantes em cada lado da porta eram um toque bonito, embora um pouco piegas. Plantas anuais. Aqui por uma estação, depois se vão.
Como a garota no quarto lá de cima.
Hora de ir.
Ajeitei o xale para parar de arranhar meu pescoço e passei pelas portas que sibilaram lentamente ao se abrir para mim.
Ninguém prestou atenção em mim – nem a recepcionista de meia-idade, nem um médico sombrio, nem os enfermeiros arrumados e eficientes... Não sou invisível, no sentido mais estrito da palavra. É que vocês todos se condicionaram a não me notar; sou uma personagem de fundo, alguém sem importância para sua narrativa... até o parágrafo final da sua história, isto é. Posso interagir com vocês, mas se eu tomar cuidado, provavelmente não vão se lembrar de mim, exceto como uma garota quieta com roupas comuns com quem falaram brevemente, mas não conseguem se lembrar por quê...
Vocês são todos muito bons em ignorar a realidade quando precisam.
Apertei o botão do elevador e entrei na cabine.
Subi um andar, saí, depois virei à direita. Dezessete passos lentos pelo corredor entre suas reconfortantes cenas da natureza, meus adoráveis tênis de unicórnio cor-de-rosa beijando o linóleo limpo.
Era outro quarto privativo em outra ala privativa. Uma pequena misericórdia – morte com alguma medida de privacidade e dignidade.
Andei devagar, mas com propósito. Minha protegida esperava.
Rhiannon Eira Jones.
Ela tinha vinte e três anos, amava cavalos e estava quase no fim com um mieloma estágio quatro.
Eu me voluntariei para ajudá-la a seguir em frente.
Era sempre voluntário, especialmente quando a alma pertencia a alguém tão próximo em "idade" a mim.
A intromissão gentil de Azrael era onipresente no meu trabalho.
Mas eu sempre escolhia estar lá para as Rhiannons do mundo. Mal deixando de ser menina e já terminada desta vez na roda.
Uma prima para mim em tantos aspectos tristes e pequenos.
Às vezes me pergunto se o Chefe sabe o que diabos está fazendo, ou se está apenas improvisando.
Suspiro, chuto uma pedrinha imaginária, finjo que ela quica pelo corredor longo e limpo.
Benevolente não precisa significar bondoso, lembrei a mim mesma. Os rolamentos não amam o eixo e provavelmente sequer sabem da roda.
Parei na porta e inclinei a cabeça brevemente – outro hábito meu, uma marca de respeito pela garota que estava prestes a morrer.
Então toquei a porta e a empurrei suavemente para abrir.
Esta era sempre a pior parte para mim – eu sabia quem estaria aqui, na maioria das vezes, era um conhecimento intrínseco que vinha com o trabalho.
Mas há um oceano de distância entre ler sobre o fogo e ser consumido por ele.
Rhiannon jazia em paz, com todas as máquinas finalmente desconectadas e cobertas com panos de algodão branco discretos no canto. Ela tinha a família ao redor; a mãe e a avó chorando as lágrimas quebradas e sem esperança de quem perdeu a esperança, o pai tentando ser corajoso por Branwen, de dezesseis anos, que estava lá, de rosto vazio, já insensível demais para sentir qualquer coisa.
Não podemos ler o futuro, mas às vezes há sinais. Eu sabia que alguém como eu encontraria Branwen mais cedo ou mais tarde.
Uma pontada de dor no meu coração; isso. Ela merecia mais do que isso. Ambas mereciam.
Não sou insensível. Ah, não. Não sou nem um pouco. Seria tudo muito, muito mais fácil se eu fosse.
Ainda sinto piedade, e tristeza, e raiva impotente e...
Alguém agarrou meu braço e me arrastou para fora do quarto.
Me vi presa contra a parede por uma garota furiosa de vestido preto de algodão e jaqueta jeans índigo, uma garota cujo cabelo preto azulado caía em cachos desordenados como um véu sobre seus olhos quase esmeralda.
Olhos que estavam vermelhos e em carne viva, bochechas molhadas de lágrimas, rosto pálido com a fúria do próprio Inferno...
"Quem diabos é você?" ela exigiu, sua voz áspera como cascalho de tristeza e raiva.
ΩSou uma de talvez mil.
Lucius tentou nos contar uma vez e acabou com uma enxaqueca. Sim, ainda temos enxaquecas. Sim, elas ainda são uma droga. Não, não podemos fazer milagres para sumir com elas. Milagres são inventariados e, se você quer ser técnico, são da alçada exclusiva dos Arcanjos e Santos para cima.
Jezebel – já a mencionei, creio, ela é uma demonia lindíssima e muito próxima... amiga... que passa o tempo na Cidade nos seus dias de folga – de qualquer forma, Jezebel diz que lá Embaixo é um pouco mais laissez-faire. Ela teve que me explicar o que significava laissez-faire; acho que ela sentiu um pouco de pena de mim no começo. Agora somos mais próximas que irmãs – bem, mais do que a maioria das irmãs, pelo menos.
Ela também está de folga hoje, combinamos de nos encontrar para jogar cartas e beber tequila e, talvez, outras coisas.
Você está chocado?
Não deveria estar – como eu disse, ninguém pestaneja por aqui, e todo mundo precisa de um pouco de conforto de vez em quando.
Sinto que posso ter me adiantado, e que alguma exposição é necessária.
Aqui está o que Azrael sempre chama de Organograma. Ele sempre faz aspas irônicas com os dedos também; é realmente bastante insuportável...
De qualquer forma.
Preste atenção.
No topo, há o Criador. Nós o chamamos de Chefe, o Cara Lá de Cima, e outros nomes menos apropriados. Aparentemente, só Jeshua, Gabriel e Miguel veem muito dele, embora haja um boato corrente de que os quatro jogam cartas duas ou mais vezes por semana com Lúcifer.
(Sim, Lúcifer joga cartas contra o Criador. Não, eles não jogam por almas. Não, não é pôquer. As pessoas erram tanto nisso que é engraçado. É Rummy e eles apostam palitos de fósforo. Longa história.)
Então. De qualquer forma... o Chefe, os Arcanjos, os Santos (na maioria completamente pirados, mesmo depois de quase dois milênios em alguns casos), Serafins, Querubins, todas as fileiras da Hoste Celestial...
E nós.
Os Revenantes. Aqueles que estão De Alguma Forma Não Tão Mortos Quanto Deveriam Estar. Anjos na maioria dos aspectos, mas... não criados assim. E também não permanentes; somos um pouco como convidados desajeitados que ficam por um tempo, se servem da bebida cara e depois se mandam para outro lugar. Sempre tenho a sensação de que os Querubins estão fofocando sobre nós, os pestinhas atrevidos.
É tudo muito burocrático. Nenhuma harpa à vista, a menos que você seja inclinado a isso.
É o máximo em trabalho autônomo. Uma feira renascentista em grande escala. Faça o que vem naturalmente porque ninguém realmente se importa.
E meu lugar nessa pantomima?
Estou no departamento de Mortalidade. Se há uma coisa que sei, é como pode ser horrível morrer. Então... então, uma vez que cumpri meu tempo no Limbo e... não vou dizer que fui curada, porque isso seria uma mentira descarada, em vez disso... uma vez que aprendi a parar de gritar e...
Não.
Isso está tudo dando errado. Estou estragando tudo.
Típico.
Vamos tentar outra abordagem.
Meu nome é Gwenhwyfar Carew – isso é mais ou menos Jennifer para aqueles de vocês que não têm a bênção de ser uma compatriota minha. Nasci no vilarejo de Kilryden no ano do seu Senhor de 1793. Tinha dezoito anos quando chegou minha hora de partir – esfaqueada duas vezes (entre outras coisas menos agradáveis) e enterrada viva (brevemente) numa cova rasa na floresta. As únicas flores que já cresceram para mim foram celidônias. Nenhuma pedra jamais me marcou, nenhum pai pôde chorar sobre meu cadáver amortalhado e absolvido – eu era uma menina enjeitada, uma tutelada da Igreja Metodista, de quem talvez só o padre local, que me amara e me criara o melhor que pôde em seu jeito imperfeito, sentiu falta.
Acordei aqui. Me deixaram fermentando por algumas décadas, como Lucius dizia de forma tão leviana. Acordei numa camisola branca limpa numa cama de penas branca imaculada num apartamento simples, o corpo livre das marcas de varíola e da perna muito mal quebrada e pior curada e das perfurações eventualmente mortais das facas dos meus assassinos.
Eu tinha roupas de qualidade totalmente estranha para mim, e comida que parecia digna de um rei, e vinho suficiente para me banhar. E um espelho, no qual contemplei pela primeira vez minhas aterrorizantes, mas no fim bastante atraentes, asas cinzentas de gaivota.
Todo mundo grita e se caga (metaforicamente, na maioria das vezes) a primeira vez que vê suas asas. É assim que é.
Além disso, asas são terrivelmente inconvenientes, então a maioria de nós nem se incomoda em manifestá-las.
E às vezes elas parecem ter vontade própria.
Mas são muito bonitas...
De qualquer forma, então, eu estava curada no corpo.
Minha mente, é claro, não estava totalmente pronta para tudo isso.
Não há terapeutas na vida após a morte. Anjos "verdadeiros" não precisam de terapia, Demônios se mijam de rir com o conceito, e Revenantes como eu são, em sua maioria, quebrados demais para serem ajudados pelos outros.
Tudo o que realmente ajuda é o tempo. Tempo, álcool (sim, ainda funciona em mim, e a incapacidade de ter cirrose é um bom bônus), humor negro...
E um senso de propósito, se você conseguir encontrar um.
Ou um senso de "purpoise", como Lucius está sempre rápido em trocadilhar.
Muito poucos se tornam como nós – e ninguém nunca se preocupou em me dizer os critérios. Se é que existem.
Não tenho certeza nem se Azrael sabe.
Então... somos isso. Trabalhamos por um tempo – ajudamos, organizamos, consertamos, guiamos, remendamos. A escolha está sempre lá para nós – podemos escolher continuar como estamos, ou esquecer e voltar ao Mundo e tentar de novo... ou dar o passo final e nos apagar para sempre.
Não é lá grande escolha, quando você para pra pensar. Não tenho bem certeza qual é o ponto.
Mas... eu fiquei. Por enquanto.
É melhor do que o País de Gales do século XVIII, com certeza.
Então...
Sou Jennifer Carew. Sou quase, mas não totalmente, uma hemi-demi-semi anjo da Morte. Escriturária da Morte é uma descrição tão boa quanto qualquer outra; Azrael, de forma bastante leviana, me chama de sua Recepcionista.
Eu e aqueles como eu somos gentis. Chegamos, quase nunca quando somos desejados, mas estamos quase sempre lá no fim.
Somos a primeira pessoa que você pode encontrar, depois, às vezes.
Se tiver sorte, no entanto, você pula nossa parte. De novo, não tenho certeza de como funciona. E nunca me importei o suficiente para investigar.
O importante é que não é para você realmente perceber que estamos lá até nos ver esperando por você, e aí já acabou tudo de qualquer jeito.
Então você provavelmente pode imaginar o quão chocada eu fiquei quando um metro e setenta e cinco de garota incandescente me deixou escancarada contra uma parede sem nem me pagar uma bebida antes.
Ω"Eu... eu..." gaguejei, totalmente pega de surpresa.
"Eu disse... quem diabos é você? Eu gaguejei? Você é surda porra? Quem diabos você pensa que é, entrando assim no quarto da Annie, sua... sua desgraçada! Ela... ela está nos deixando, e você vem e... e mete o nariz... e... e..."
E então ela começou a soluçar; lágrimas duras, horriveis, de fim de mundo, do tipo com as quais eu estava familiarizada demais.
Ela me soltou e enterrou o rosto nas mãos e fez barulhos que doeram até em mim.
Eu a observei por um momento, desprevenida, confusa com o intenso conflito que sentia dentro de mim.
A necessidade quase avassaladora de fugir, de correr.
E a compulsão ainda mais forte de oferecer conforto...
Não devemos incomodar os vivos mais do que o absolutamente necessário. As pessoas não conseguem lidar com nossos verdadeiros Aspectos, isso fode com elas num grau absurdo e os resultados finais são, aparentemente, espetaculares.
Então, é claro, fiz a coisa instintiva.
A coisa errada.
Enrolei meus braços em volta dela e a segurei perto.
Tomei fôlego para dizer a ela o quanto sentia muito...
E alguém gritou no quarto atrás de nós — o som inesquecível que só uma mãe faz ao testemunhar o último suspiro do filho.
Eu soube que Rhiannon havia partido.
Eu deveria estar lá para segurar sua mão metafísica e ajudá-la a dar o primeiro passo.
Mas também sabia que não era necessário; o processo aconteceria estando eu lá ou não. Não era obrigatório que eu estivesse presente para ela deixar o Abaixo. Eu era apenas um pequeno conforto extra, um agrado.
E pela primeira vez na minha própria pós-vida, abandonei meu dever autoimposto para com os mortos e dediquei toda a minha atenção aos vivos.
Porque se eu achava que a garota em meus braços estava destruída antes...
Bem.
Eu só tinha estado tão espetacularmente errada uma vez antes.
Ela se dobrou sobre si mesma como se algo tivesse acabado de arrancar suas entranhas e as jogado fora.
O som suave e baixo de desolação que ela fez me arrepiou as costas e me fez — a ajudante de Azrael, vítima de assassinato, durona, a tal da 'Garota Durona' — lacrimejar como uma criança de cinco anos com o coração partido que acabou de apanhar pela primeira vez.
E eu a segurei e a embalei contra mim e a balancei suavemente e acariciei suas costas e não senti vergonha nem qualquer desejo de soltá-la.
Nem muita coisa além disso, na verdade — apenas um vazio horrível.
Não estou admitindo que chorei.
Mas também não vou tentar negar.
ΩEla deu um soluço, e depois outro.
Eu a observei atentamente do outro lado de uma das mesas de melamina cinza do café do Hospício.
Mal se aguentando, pensei miseravelmente. Mal presente no agora, afundada no que foi e no que poderia ter sido.
Felizmente, não havia indícios de uma... visitação... em seu futuro próximo.
Fiquei eternamente grata por isso.
De alguma forma, duvidava que seria capaz de aceitar aquilo, com ou sem plano Inefável.
Eu tinha comprado chá para ela; parecia apropriado. Até chá de marca boa — caro, ou teria sido se eu não tivesse alguns truques injustos na manga etérea.
Dinheiro era fácil de conseguir se eu precisasse por algum motivo.
Então, tomei um gole do meu próprio Arábica e a protegi de todas as criaturas, grandes e pequenas.
"Quem é você," ela sussurrou, por fim. "E por que pelo menos não... bateu..."
"Sou... Jen," eu disse, baixinho. "Eu... ajudo por aqui. Me deram o número do quarto errado; eu deveria ter verificado, mas estava atrasada."
"Malditos idiotas," ela engasgou. "Ninguém nessa porcaria de SUS consegue acertar as coisas."
"O que você quer dizer..."
Suas mãos se fecharam espasmodicamente em punhos pequenos e miseráveis.
"Eles deixaram passar o diagnóstico dela, é isso que quero dizer! Deixaram passar! Estava bem ali, na porcaria da página, olha eu aqui, sou a porcaria do câncer da Annie, suas vadias, iu-huu, bem aqui!"
As pessoas ao nosso redor a encararam. Uma ou duas me lançaram olhares estranhos antes de desviar o olhar rapidamente.
"As pessoas cometem... erros. Você é apenas humana, afinal," eu disse, calmamente. Me mexi, desconfortável por estar me tornando claramente mais aparente ali.
"Eles a mataram," ela rosnou. Então fez um som, enfiou o punho na boca, mordeu...
Eu me encolhi, hesitei, então estendi a mão.
"Pare," eu disse, gentilmente. "Não faça isso. Você está se machucando. Não ajuda."
"Ela se foi. E... e eu... não."
Ela envolveu os braços em si mesma e começou a se balançar lentamente para frente e para trás.
Mas apenas um soluço seco e patético escapou dela.
A ficha caiu, enfim.
Aquela não era uma amiga.
Não.
Aquilo era algo muito pior.
Nem sempre sou rápida para entender as coisas, não costumo captar nuances, mas os sinais estavam mais claros agora.
"Você a amava," eu disse. Não era uma pergunta.
Ela apertou os olhos com força.
"Você a amava mais que a vida, mas nunca contou a ela," acrescentei.
As pessoas eram tão boas em se machucar, pensei tristemente.
Ela esfregou furiosamente os olhos, tentou encontrar palavras, mordeu o lábio até provavelmente sangrar.
"Pare," eu a repreendi gentilmente. "Isso realmente não vai ajudar..."
"Você é tão fria," ela sibilou. "Ela está morta e... e você... você nem tem porcaria de simpatia alguma!"
"Sim. Você está certa. Ela está morta. Essa parte do que você disse é verdade. E parece que você está morrendo. E você quer atacar. Quer sentir dor porque está com medo de não estar sentindo o suficiente. Porque ela se foi, e você não, e como isso pode estar certo quando ela era o centro da sua vida e você a amava tanto quanto ama?"
Ela me encarou por um momento, então inspirou para dizer algo que, sem dúvida, pretendia ser cortante.
"O que ela faria se visse você se machucando assim?" perguntei.
Aquilo a parou no ato; seu rosto se desmanchou e ela se agarrou novamente.
Eu suspirei, tomei outro gole do meu Arábica. Café de máquina — plástico quente e um gosto residual de água sanitária. Delicioso. O Kaffa de Lucius era muito melhor, pensei. Empurrei minha xícara de lado; não tinha mais estômago para aquilo.
"Faço muito isso," continuei. "Estou presente para... para muitas pessoas nesse momento. Vejo muita Morte. Quase todo dia, na verdade. Me escute: eu queria que você tivesse tido mais tempo com ela, de verdade. Acredite quando digo que sei como é. Seu mundo acabou. Tudo bem ficar com raiva. Tudo bem sofrer. Mas não barateie a memória dela... chafurdando em dor desnecessária. Ela nunca iria querer isso..."
"Ela era minha luz," ela sussurrou. "Era tudo que eu tinha de bom..."
"Acho que ela também te amava, sabe," eu disse. Eu não sabia se era verdade ou não, claro, Rhiannon não estava por perto para perguntar. Mas... às vezes é uma gentileza dizer às pessoas o que elas precisam ouvir. Não chega a ser mentira, nem verdade também.
"Como você saberia?" ela gemeu.
"Às vezes, eu simplesmente sei. Talvez não no sentido que você queria, mas era amor, ainda assim."
Eu a observei por um momento.
Seu cabelo era tão escuro quanto os espaços entre as estrelas, seus olhos...
Uma pontada de consciência quando meu despertador interno me cutucou. Eu tinha outro lugar para estar.
Eu suspirei.
"Preciso ir," eu disse, subitamente odiando o dever que eu tinha deixado que me impusessem. "Você vai ficar bem?"
"Sim. Claro," ela sussurrou. Fungou, limpando o nariz na manga da jaqueta, e evitou meus olhos resolutamente.
Eu puxei meu xale mais apertado sobre os ombros e deslizei da cadeira.
"Te vejo por aí, talvez, Caitlyn Iona Monroe," eu disse, suave e estupidamente.
Ela pulou, derramando seu chá.
"Como... como você sabe meu nome?" ela ofegou.
Merda.Eu sorri para esconder meu pânico, e me virei, e me afastei rapidamente.
"Espere!"
Eu a ouvi chutar a mesa enquanto lutava para se levantar.
Merda dupla.Aquilo tinha sido uma péssima ideia. Monumentalmente insensata...
Aumentei o passo. Não podia me deslocar dali, muitas pessoas ao redor que surtariam de verdade...
Merda tripla...Ela conseguiu me alcançar logo do lado de fora da porta da frente.
"Espere, espere, espere, oh Deus, por favor, espere," ela estava ofegante e chorando. "Como... me diga como..."
"Preciso ir, querida," respondi. "Tenho outra pessoa que preciso visitar antes de terminar."
"Espere, por favor," ela gritou, "Por favor, me diga que porcaria está acontecendo..."
"Não, amor," eu disse, tristemente. "Não posso. Sinto muito. Adeus, agora."
Ela agarrou meu braço novamente, puxou desesperadamente minha manga de linho puída com a outra mão.
"Como vou te encontrar!" ela gritou. "Por favor! Preciso saber..."
Eu parei, e me virei, e a encarei de frente.
Senti meu Aspecto tomar conta de mim.
Asas cinzentas de gaivota, efêmeras e intangíveis, se abriram de cada lado de mim, distorcendo o mundo ao nosso redor com as linhas de intenção que cortavam através da Realidade.
Ah, isso era timing perfeito, veio o pensamento amargo.Sua boca se abriu, então se fechou novamente.
"Ai, Jesus," ela sussurrou.
"Não," eu disse. Me inclinei, beijei sua testa em bênção e despedida gentis e benevolentes. "Mas o vejo por aí de vez em quando. Caitlyn, está na hora de eu ir agora. Pare de se machucar. Por favor. Rhiannon está em um lugar melhor. Confie em mim. Eu sei."
E me concentrei e me desloquei para longe de seu lamento suplicante "Espere!"
Coloquei a mão contra uma parede de tijolos encardida.
E reprimi as lágrimas súbitas de autocomiseração.
Uma ou duas respirações, e endireitei os ombros novamente.
Me concentrei intensamente, xingando baixinho, então desisti. Seriam asas para essa, então. Malditas coisas traidoras de merda.
E tomei mais um momento para apenas respirar um pouco mais do meu jeito estúpido e desnecessário.
Esfreguei os olhos ferozmente, sem querer desmoronar. Ainda não.
Então olhei para a ruína de favela caindo aos pedaços nesse trecho fétido do submundo de Marselha.
No andar de cima, sob papelão e merda de pombo, Jeanne-Marie Bardet estava quase terminando de morrer dos efeitos de heroína de alcatrão preto misturada com veneno de rato — um golpe de misericórdia desnecessariamente cruel de algum idiota intermediário em algum ponto do caminho.
Fora agonizante para ela, e ninguém ouvira seus gritos e, depois, gemidos lamentáveis.
A mesma velha história.
Mas a dor estava quase no fim, agora.
Ela estava em meio a um sonho de morte de sua irmã mais nova, e estaria sorrindo em meio às lágrimas se sua mente ainda controlasse algo.
Ela precisaria de uma mão gentil e um ombro para soluçar.
A pobre garota não tivera chance alguma nesta vida. Não de verdade.
Eu carregaria o fardo de ser ambos para ela e a levaria em segurança.
E então voltaria para o Acima e enfrentaria a música.
Ou, como se viu, a sinfonia.
Ω"Porra," disse Azrael.
Eu me encolhi.
Ele me encarou por um momento.
Então balançou a cabeça novamente.
"Porra," repetiu.
Não ficou mais engraçado na segunda vez.
"Eu estraguei tudo," admiti.
"Essa é uma... maneira sucinta de colocar. Você disse a ela o que era?"
"Quer dizer... com palavras? Não. Mas..."
Seus olhos se estreitaram.
"Mas o quê, Gwenhwyfar?"
Eu me encolhi. Ele nunca me chamava assim a menos que estivesse realmente irritado.
"Meu Aspecto tomou conta de mim."
"Porra! Gwen! Já conversamos sobre isso!"
"Não consigo controlar essa porcaria, por... porra de merda!"
(Sem Blasfêmia no Acima — você leva uma bronca de um dos Santos, geralmente São Gregório, e ele é tedioso além da conta. Embora quase valha a pena quando você o vê dar sermão em um Serafim furioso sobre linguagem apropriada.)
Azrael colocou a cabeça entre as mãos e esfregou as têmporas.
"Sem chance de ela não as ter visto, suponho?"
"Asas mágicas cinzentas de gaivota mística retroiluminadas do tamanho de um ônibus?" respondi, sarcasticamente.
"Suponho que tenha sido uma pergunta estúpida," ele admitiu, ironicamente.
"Por que... por que eu não podia ter... asas de canário, ou asas de borboleta, ou uma porcaria... sei lá... fita de purpurina num palito ou algo assim?"
"Fale com o Chefe," ele murmurou.
"Inefável?"
"Acertou em cheio."
Ele suspirou.
"Azrael?"
"Sim?"
"Como ela me viu tão claramente? Achei que deveríamos nos misturar..."
"Acontece às vezes. Alguns deles são simplesmente muito bons em notar coisas que estão... fora do lugar."
"Com que... frequência?"
"Às vezes é a melhor resposta que posso te dar. A culpa é minha, eu deveria ter te avisado. Não acontecia há um tempo."
"Quanto tempo é um tempo, Azrael?"
Ele ergueu os olhos; engoli em seco, nervosa, enquanto encarava aquelas órbitas infinitas, vendo o lampejo das asas estreladas da Eternidade por trás delas.
Às vezes ainda esquecia quem ele era; sua gentileza afável era uma camuflagem muito eficaz.
Ficar insolente com o Anjo da Morte era por sua própria conta e risco.
"Desculpe," murmurei. "É que... estou realmente assustada."
Ele assentiu.
"Duzentos e quarenta anos, mais ou menos," ele disse.
"O que... aconteceu?" sussurrei.
"William Blake aconteceu."
"Porra."
"Sim," ele ecoou. "Seu efeito sobre essa garota provavelmente será extremamente... perturbador, Gwenhwyfar. Mas, em sua defesa... bem, não foi realmente sua culpa, foi?"
Ergui os braços, então os deixei cair.
Impotente.
"Eu... deveria ter..."
"Se desejos fossem cavalos, mendigos montariam."
"Posso... posso fazer algo..."
"Sim."
"O quê? Diga! Qualquer coisa! Farei qualquer coisa!" eu disse, desesperada para consertar as coisas de qualquer jeito.
"Nunca mais a veja."
As palavras foram frias, monolíticas, o equivalente conversacional de uma lápide de pedra polida com um nome e alguns números gravados.
Estremeci, e me agarrei a mim mesma, e me virei.
"Jenny."
A abreviatura carinhosa dele para mim era suave, e cheia de calor.
Eu me virei parcialmente de volta para ele, e tentei sub-repticiamente limpar meus olhos traidores.
"Não seja dura consigo mesma. Você não sabia. Vá, descanse um pouco. Você merece."
"Está bem," respondi de forma inflexível.
E então desci tropeçando da cúpula central no grande Relicário e fui até a porta.
Lucius estava esperando do lado de fora; ele não disse nada, mas sua mão escura, gentil e enrugada foi um conforto breve, mas bem-vindo, nas negras nuvens de tempestade de culpa que rodopiavam ao meu redor.
Ω"Bem, enfia um punho na minha bunda e gira minhas amígdalas," Jezebel disse, em seu jeito profano de sempre. "Aqui," ela acrescentou, enquanto servia uma dose dupla extra de Don Julio no meu copo já bem lubrificado. "Vamos precisar disso."
A garrafa tilintou quando ela a pousou; a chama da vela da mesa tremeu com a vibração.
Eu a encarei — sensual, curvilínea, pele cor de canela, e no fundo bastante gentil — totalmente diferente do horror que a palavra Demônio normalmente evocaria.
Também embaçada — tequila sempre me batia forte.
Ela pegou minha mão e a apertou. Sua mão era sempre tão agradável e quente; eu sempre gostava de suas carícias.
"Eu estraguei tudo tão feio," consegui dizer. Recostei-me numa das mesas gastas e levemente pegajosas do "Flutterin's" e olhei para o líquido dourado-claro enquanto ondulava.
Ela se ajeitou no banco acolchoado semicircular até que sua coxa quente, coberta de algodão, estivesse pressionada contra mim. Ela se inclinou, instável e conspiratória.
"Não, Penas, eles estragaram tudo. Ninguém te contou sobre os potenciais efeitos colaterais de ajudar lá embaixo."
"Ela tinha acabado de ver o amor da vida dela morrer e aí eu fui e dei a ela um..."
Fiz uma pausa, tateando por uma palavra.
"Crise Existencial Traumática," ela disse, lenta e cuidadosamente. Ela sorriu com presunção.
"Exatamente," eu arrastei. "Gwenhwyfar, a Desajeitada, Anjo Menor das Cagadas."
Jezebel sorriu e deu de ombros; a alça estreita de sua regata rebelde caiu do ombro novamente, expondo mais de seu seio adorável e redondo. Eu olhei lascivamente. Ela percebeu e olhou feio para a alça. "Coisa estúpida," resmungou. "Eu sabia que deveria ter usado a mais apertada."
Eu sorri maliciosamente. "Ela não consegue evitar," brinquei, "só quer sair de você. Não dá para culpá-la. E, de qualquer forma, essa já é bem apertada. Mostra muito bem seus peitos. Você tem os melhores de todas."
Ela se exibiu por um momento, então me fixou com um olhar de olhos âmbar.
"Então o que você vai fazer?"
"Como diabos..."
Ela se encolheu.
"... desculpe."
"Tudo bem, só faz cócegas quando alguém diz isso."
"Inferno, inferno, inferno."
"Pare," ela riu, se contorcendo contra mim. "Na verdade... não pare. Esse é um ponto bem gostoso que está atingindo..."
"Ah, você."
"Mas te fiz sorrir."
Ela se virou de lado, suspirou. "Escuta, peituda. Sou apenas uma destruidora de lares comum..."
"Não há absolutamente nada de comum em você..."
"Isso é doce, mas nós duas sabemos que sou peixe pequeno. Jenny... isso é negócio sério. Essa humana tem uma batalha árdua pela frente. Não acredito que ninguém te contou. Que cagada. Recebemos palestras sobre isso sem parar. Faça o que quiser, menos ser descoberta. Ba'al faz uns discursos enormes sobre o assunto. Nada de manifestar asas, garras, dentes ou Enxofre, ou é o Abismo para você e nada de brincar por pelo menos um milênio. Consegue imaginar um milênio sem sexo? Eu consigo, e é uma ideia aterrorizante."
"Talvez tenham me dito e eu fui burra demais para entender. Não Assuste Os Humanos, Causa Problemas," entoei, numa imitação razoável em contralto de Azrael.
Ela riu com desdém.
"Suponho que também se poderia interpretar isso como, não seja vista. Ah, bem. Tarde demais para fazer algo agora. Como eu disse, burra," suspirei, teatralmente.
Ela se inclinou mais para perto de mim; dei uma olhada furtiva em seu decote perfeito.
Ela sorriu com malícia.
A tequila havia feito seu efeito usual e realçado as chamas bruxuleantes em seus olhos gloriosos e cativantes.
Seu hálito era como ricas especiarias sobre areia quente do deserto, e fui lembrada novamente de uma da longa lista de razões pelas quais eu gostava tanto dela.
"Burra, Gwenhwyfar Carew, não é um termo que eu deixaria alguém aplicar a você," ela ronronou.
Ela estendeu a mão, acariciou suavemente a parte mais alta da minha coxa, um dedo investigando...
Eu suspirei, cobri a mão dela com a minha e a apertei. "Desculpa, Bella. Não estou muito no clima hoje, por mais que eu queria estar..."
"Ah, ok."
"Desculpa..."
"Tudo bem, eu entendo. Vou descontar no meu próximo alvo."
(A especialidade de Jezebel é seduzir homens e mulheres casados. Demônios não prestam muita atenção a gênero, é tudo parte do trabalho, como Bella diz, e ela obviamente não perde muito sono com a moralidade também. Como ela coloca, eles não precisam dizer sim. Ela tem um tesouro de histórias quando está alcoolizada. Realmente a vida da festa... diferente de mim.)
"Desculpa," repeti, ainda me sentindo como se a tivesse... machucado, de alguma forma.
— Ah, querida, não estou chateada — ela disse, com um sorriso caloroso. — Você e eu é legal com um N de neon, mas é só com convite, tá? Não é como se eu nunca tivesse mandado você dar o fora, né?
Eu me inclinei e encostei brevemente a cabeça nela.
— Te amo, você sabe — murmurei.
Ela riu, um som grave na garganta. — Humanos — disse. — Vocês são criaturas tão bobas e sentimentais às vezes.
Mas eu percebi, pelo jeito como ela acariciou minha bochecha, que ela estava completamente satisfeita mesmo assim.
— Não sou humana — protestei.
— Garota nova, você ainda respira. Você não consegue nem mandar essas suas asas prateadas, lindas e bobas, darem o fora. Você nunca vai ser realmente uma de nós; uma parte de você sempre vai estar lá embaixo.
— Você acha? — eu disse.
— É, acho — ela disse, melancólica.
Eu bufei. — E, de qualquer jeito, para de tentar bancar a convencida. Suas asas também têm penas. Umas lindas e iridescentes. Queria que as minhas fossem tão bonitas...
Ela riu, e se inclinou, e me beijou.
Eu podia não estar interessada em mais nada naquele momento, mas um beijo dela era literalmente uma das minhas coisas favoritas.
E ela riu de novo com o jeito que eu gemi, e me levantou e me colocou (aos guinchos) no colo dela.
E eu esqueci meus problemas por um momento temperado com canela.
Tá bom... talvez dois.
ΩA brisa agitava as folhas bem acima de mim, e brincava com uma ou duas mechas soltas do meu rabo de cavalo castanho desgrenhado.
Uma borboleta de algum tipo foi brevemente jogada de um lado para o outro num redemoinho antes de se afastar esvoaçante, irritada.
Eu cravei meus dedos na grama, aproveitando o cheiro verde e fresco do meu jardim.
Arcádia é uma parte estranha do Alto. Pode ser o que você quiser; uma lembrança, uma representação perfeita de um lugar real, um mundo surreal de pastel a óleo e luz dourada... o que você precisar. Pode ser afetada pelo seu humor, com quem você está, o que você comeu...
É uma tela em branco, mas o que acaba te apresentando nem sempre é o que você esperava.
Então eu estava sentada na encosta suave e olhava para o velho carvalho que tinha sido um carvalho jovem quando fui enterrada debaixo dele.
Eu não tinha vindo aqui conscientemente, e ainda assim, aqui estava eu.
À beira do meu túmulo, por assim dizer.
Que estereotipado — um Anjo da Morte rondando um lugar assim.
Embora eu duvide que até o romântico mais chapado teria visualizado minha camiseta da Hello Kitty e meu short de algodão rosa.
Eu pensei em Rhiannon.
E então, claro, meus pensamentos deslizaram adiante como um cardume de peixinhos.
Para Caitlyn.
E como tinha sido estranho senti-la, viva, em meus braços por aquele breve período extremamente imprudente.
Eu suspirei.
Lucius estava em algum lugar, eu de repente soube. Me procurando. Eu precisava me anunciar antes que ele me encontrasse. Arcádia tem regras, veja: nada de voyeurs.
Meu lábio se curvou para cima em algo que alguém que não me conhecesse poderia confundir com um sorriso.
— Estou aqui — eu disse, suavemente.
— Olá, Gwen. Posso me juntar a você?
— Sim, venha.
As árvores e gramíneas da floresta da minha cena se turvaram e ondularam enquanto Lucius mudava para a minha versão de Arcádia. Ele olhou em volta, franziu a testa, então se agachou de cócoras ao meu lado, seu rosto aquilino e de ébano enrugando-se com linhas marcadas de preocupação.
— Eu conheço este lugar — ele disse suavemente.
— Foi aqui que aconteceu. Foi aqui que fizeram aquilo.
Ele franziu a testa para mim.
— Bem ali — acrescentei, apontando para uma pequena mancha de flores silvestres. — Mais ou menos com deslizamento. Duas facas, eu acho, mas foram três homens diferentes. Eu era tão jovem. Tão inocente. Tão... estúpida. Não mudou muita coisa, acho.
— Isso não é sensato — meu amigo disse em sua entonação rica e ondulante das terras altas da Etiópia.
— Eu sei — sussurrei. — Mas... não consigo evitar. Não agora, e não hoje.
Ele estendeu a mão e envolveu-me com seu braço enrugado, puxando-me para perto dele; eu enterrei o rosto em seu pescoço e soltei um único som suave de... bem o quê, não sei. Tristeza? Arrependimento? Algo nessa linha, de qualquer forma.
— Ugh. Você está fedendo a tequila — ele reclamou. — E... ah, a ela também. Garota de sorte.
Nenhum julgamento em suas palavras; Lucius sabia como o jogo era jogado. Não era como se ele e Jezebel não tivessem tido seus próprios momentos compartilhados e sórdidos antes de eu aparecer.
Um toque de ciúme que reprimi rapidamente; eu não tinha direito.
Eu funguei, esfreguei os olhos.
— Desculpe. Estou... frágil hoje.
— Você deveria deixar este lugar, Gwenhwyfar. Volte para o País de Gales se precisar, mas pare de vir aqui a Kilryden. Isso só te machuca, minha cara amiga. Por que você está aqui, afinal?
— Por causa de Caitlyn Monroe — eu disse. — Esse é o nome dela, sabia. A garota do falecimento... Eu precisava de um lugar para pensar. Para lidar com isso, onde menos olhos estão observando. E... acho que meu subconsciente decidiu que eu precisava estar aqui.
— Você não deveria estar pensando nela.
— Eu baguncei a vida dela...
— Pensar nela não vai mudar isso. Só vai criar problemas novos e maiores...
— Eu deveria verificar...
— Não, não deveria. Gwenhwyfar, minha amiga mais querida. Escute uma voz mais velha e sábia. Não fomos feitos para nos misturar com eles. Lave suas mãos disso e vá embora. Nada de bom virá disso.
— Não consigo parar de pensar nela — sussurrei. — O som da dor na voz dela quando a... quando o amor da vida dela morreu. Ela tem vinte e dois anos, Lucius. Mal é uma mulher.
Os olhos dele eram antigos; escuros e tristes.
— Não podemos consertá-los — ele disse, suavemente, por fim. — Por mais que desejemos, não é nosso lugar.
— Não é certo — sussurrei. — Não foi culpa dela.
— Nem sua. Às vezes... às vezes não há ninguém para consertar, e ninguém para culpar.
— O Chefe poderia consertar...
— Talvez. Certamente está dentro do poder dele mudar tudo, claro — mas quais seriam os efeitos de segunda ordem? De terceira? De nona? Ele é o único que vê tudo. Deve haver uma razão para ele deixar isso acontecer assim. Tenho que acreditar nisso.
Eu desabei para a frente e escondi o rosto nos braços.
Ele ficou ao meu lado, daquela maneira maravilhosamente silenciosa que ele tinha de não se intrometer, mas simplesmente estar ali se eu precisasse.
E então eu falei, e ele ouviu, e ficou sentado ao meu lado enquanto o sol vagarosamente percorria os céus celestiais.
Contei a ele sobre ela, e sobre o jeito que ela estava chorando, sobre como ela desesperadamente puxou minha manga para tentar me impedir de ir embora. Contei a ele sobre a cor dos olhos dela e sobre como ela estava muito mais magra do que deveria estar. Contei a ele sobre tê-la abraçado, e sobre como... foi bom segurar outro ser vivo e tentar, só um pouco, ajudá-lo.
Os olhos dele ficaram muito graves, mas ele manteve silêncio.
Mas eu não contei a ele a coisa mais importante.
Eu estava com muito medo.
Veja... minha habilidade de encontrar pessoas é específica e limitada — só está relacionada à tarefa que estou realizando, e só deveria funcionar enquanto eu precisar encontrar aquela pessoa.
O problema, e para ser honesta, uma grande parte da razão pela qual eu estava tão desorientada era...
Eu tinha conseguido senti-la desde o momento em que ela me tocou de forma tão brusca pela primeira vez.
Eu ainda conseguia senti-la.
Eu sabia onde ela estava.
E eu sabia que ela estava chorando.
E levaria menos de um suspiro para eu estar lá ao lado dela.
Então meu problema não era tentar não pensar nela.
Meu problema era tentar ser forte o suficiente para...
Ficar longe.
ΩO tempo passa igualmente devagar aqui no Alto, e a Noite chega no mesmo ciclo tranquilo para nós como para vocês. O Sol se põe num deslumbre tumultuado de glória e as estrelas brilhantes do Céu Celestial se espalham acima de nós. É o mesmo céu que para vocês, só que... mais brilhante, de algum jeito. Mais óleo, menos pastel.
Anjos não precisam realmente dormir, mas aqueles de nós que já foram humanos ainda dormem, de vez em quando.
É uma coisa de conforto, eu acho.
Eu tinha uma pequena varanda — é conveniente poder chegar de asas às vezes, afinal. Eu tinha cuidadosamente conjurado para mim uma mesinha e duas cadeiras — velhas e rústicas, uma lembrança pungente da mesa onde eu jantava com o velho Padre Dominic por tantos anos. Eu me lembrava de como ele me interrogava sobre meu dia, se eu tinha ordenhado a cabra, trazido água, varrido a sacristia da igreja velha e cambaleante e cuidado dos túmulos que havia para cuidar. E eu sempre respondia sim, mesmo que não tivesse sido tão diligente quanto poderia, porque ele era a única pessoa no mundo que se importava se eu vivia ou morria, e eu o amava sem pensar, sem rima ou razão.
Naquela época eu era cheia de energia, cheia de vida, insaciavelmente curiosa, sempre para fora e por aí apesar da minha perna torta.
Hoje à noite?
Hoje à noite eu estava só taciturna e pensativa.
E então decidi colocar minha calça de moletom de fleece macio e minha camiseta do Ursinho Carinhoso e me empoleirar na minha varanda... remoendo.
Enchi meu bule Le Creuset (outra vaidade tola) e coloquei folhas para infundir. Em algum lugar próximo, alguém tocava piano; eu me perguntei quem era, mas estava com preguiça demais para alçar voo e procurar o músico. A peça que tocava era lenta e mal-humorada. Eu não tinha ouvido para música além de uma apreciação básica, e então não poderia dizer o gênero, muito menos o compositor. Mas as gotas de chuva acústicas e suaves combinavam com minha contemplação melancólica, então eu as abracei como parte da atmosfera e deixei meu interesse se dissipar.
O que naturalmente significou que voltei a pensar nela.
Caitlyn estava dormindo, finalmente. E isso pelo menos ajudou; ela estava acordada há bem mais de um dia.
E eu estava me afligindo.
Caitlyn Iona Monroe.
Os pais dela escolheram nomes lindos para ela.
Cabelo preto azeviche, olhos verdes surpreendentes, um pouco mais baixa do que eu, e mais magra, o que era impressionante, porque eu nunca tive muita carne sobrando nos meus próprios ossos.
Ela cheirava a limpo, com algum leve aroma herbal que eu não soube identificar.
Limpa, e... saudável. Terrosa.
Viva.
Fora tão estranho tomá-la em meus braços.
Eu rezei para que os sonhos dela fossem gentis.
Servi meu chá e olhei fixamente para os redemoinhos enquanto a superfície do líquido lentamente se acalmava e os um ou dois fragmentos de folhas escapados cessavam sua dança.
O aroma me envolveu — Shay, outra influência etíope que eu podia culpar no meu amigo. Lucius tinha um jeito de esfregar em mim; as características de sua terra natal tinham se tornado importantes para mim ao longo de nossas décadas juntos, e o chá que ele tinha feito para mim naquela primeira vez em que nos encontramos tinha se tornado para sempre parte de mim.
Eu inalei, fechei os olhos, fantasiei sobre colinas áridas distantes sob um sol africano brilhante...
Eu me perguntei com o que Caitlyn estava sonhando.
Eu me mexi, cruzei as pernas, tomei um gole lento do meu chá.
Música suave de piano.
Um sussurro gentil de penas quando alguém pousou numa varanda próxima própria.
O suspiro suave do vento noturno sobre os pináculos truncados da cidade Celestial, provocando as flores do meu pequeno arbusto de Alfazema em seu vaso de terracota esmaltado vermelho.
Eu levantei o olhar e contemplei as luzes multicoloridas das janelas dispostas ao meu redor. Eu podia ver outros como eu, talvez trinta no total.
Todos eles, sem exceção, sozinhos.
Solidão é parte da existência aqui em cima. Todos nós temos sombras internas, coisas com as quais lutamos. Aparentemente, é para ser assim; devemos sofrer pelo menos um pouco.
Podemos talvez roubar um momento de êxtase e esquecimento uns com os outros, ou nos braços de um dos visitantes prestativos do Submundo.
Mas amor?
Amor é para vocês. Acho que não temos esse direito.
Larguei meu chá e me abracei enquanto uma necessidade dolorosa e ansiante por companhia me tomava.
Eu me perguntei onde Jezebel estaria, e com quem.
Uma pontada amarga de ciúme, rapidamente suprimida. Ela era uma Demônia com Benefícios (como ela se autodenominara) — nada mais. Eu não tinha mais direito a ela do que ao sol. Não importa o que eu sentisse por ela, ela não era e nunca seria minha. Ela era uma demônia, uma Súcubo, vagando, fiel à sua natureza. Como eu poderia esperar que ela... mudasse?
Uma solidão negra intensa caiu sobre mim.
Eu contemplei a noite.
E de repente, o desejo de ver Caitlyn novamente corroeu o pouco que restava da minha força.
Era uma ideia estúpida, mas eu não conseguia deixá-la de lado.
Eu sentia uma necessidade física avassaladora de ir até ela.
Eu tinha que pelo menos verificar se ela estava bem.
Eu sabia que depois o inferno viria me cobrar, mas no aqui e agora do meu isolamento horrível isso parecia... sem importância, de algum modo.
Eu não conseguia descansar, não conseguia seguir em frente sem saber.
E... ninguém aqui sentiria minha falta.
Talvez houvesse algum bem que eu pudesse fazer por ela.
Por que mais eu saberia onde ela estava, se não fosse para... ajudá-la?
E, de qualquer jeito, não era como se as coisas pudessem piorar.
Podiam?
Então fechei os olhos, e me concentrei, e... me desloquei... para um quarto pequeno, escuro e abafado num apartamento pequeno, escuro e abafado num prédio insignificante que chacoalhava e sacudia com o barulho da rua lá fora.
E fiquei parada por um momento, me orientando, ouvindo enquanto os redemoinhos de ar da minha manifestação se dissipavam.
Olhei ao redor, e senti uma simpatia profunda ao notar o papel de parede descascando e as cortinas baratas.
As únicas características notáveis do quarto eram uma escrivaninha e uma estante, um prato completo com uma fatia pela metade de torrada amanhecida, um laptop (ainda ligado, ainda exibindo uma foto de Caitlyn e Rhiannon em alguma idade mais jovem, não-quite-adulta)...
E ela.
Caitlyn estava deitada, quase nua exceto por um short, meio dentro e meio fora da cama.
Um braço estava dobrado sob a cabeça, o outro pendia no chão, exibindo sua omoplata delicada.
Ela parecia tão pequena e frágil; uma boneca de porcelana em muitos aspectos.
Um caminhão passou ruidoso lá fora; a janela dela chacoalhou, mas ela não se mexeu.
Eu suspirei.
Eu lenta e cuidadosamente a ajustei para que ficasse confortável, e puxei o lençol sobre ela para mantê-la aquecida. Ela soltou um protesto suave quando me inclinei para beijar sua testa escondida pelos cabelos, franziu a testa brevemente, então relaxou.
Eu a observei.
Ela era tão... bonita.
— Fique em paz — sussurrei, tocando seus dedos na bochecha dela.
Eu me virei, e estava prestes a sair quando notei algo em sua escrivaninha, destacado na luz monótona do sódio que vazava pela pouca escuridão que ela conquistara.
Um bloco de desenho e lápis.
Eu parei, mordi o lábio nervosamente, olhei para ela para ter certeza de que estava dormindo profundamente.
Então cedi à curiosidade.
Abri cuidadosamente a capa, e olhei fixamente.
Um retrato quase realista de Rhiannon, frágil mas sorridente.
vireiUma cena de floresta, maravilhosamente detalhada até as folhas individuais de grama.
vireiUm gatinho brincando com um brinquedo, pelos e bigodes lindamente renderizados com linhas finas e delicadas.
vireiUma garotinha lendo, as dobras de sua saia quase fotográficas.
Eu hesitei, então folheei rapidamente até o desenho final.
E parei, subitamente com medo.
Meu rosto me encarava da página, perfeito em quase todos os detalhes... só que mais bonito do que eu achava estritamente justo.
Voltei uma página... e olhei fixamente.
Ela tinha me capturado com traços rápidos e ásperos de lápis — tudo, das dobras do meu vestido à maneira como minhas tranças tendiam a cair sobre meu ombro direito.
E ela tinha capturado minhas asas também.
— Merda — eu respirei.
Caitlyn se mexeu na cama.
— Quetemhí? — ela murmurou, abafado e indistinto.
Em pânico, eu me desloquei.
Vislumbrei papéis e desenhos se espalhando na minha esteira, e amaldiçoei minha falta de jeito.
E eu estava no meu quarto, me encarando no meu espelho.
E meus olhos estavam escuros e assombrados e os desenhos dela ainda estavam apertados em minhas mãos trêmulas.
— Merda — sussurrei. — Ah, merda, ah, fodeu, ah, porra...
Eu me encarei, então olhei para o meu saque não intencional.
Eu tinha acabado de roubar dela.
E espalhado o pouco que ela possuía por todo lado. Provavelmente estraguei metade também.
Ah, fodeu.
Eu afundei na minha cama, dedos tamborilando na encadernação do bloco de desenho dela.
Lentamente eu o abri, e folheei até o retrato do meu rosto.
Ela tinha capturado meus cachos suaves, e o perfil triangular do meu queixo, e as sobrancelhas altivas e a pequena mancha na minha bochecha direita. Ela tinha dado às minhas íris detalhes intrincados, tornando-as quase reais, e tinha suavizado minha estrutura óssea para uma aproximação de beleza. Ela tinha até, de algum modo, conseguido capturar um vislumbre de cílios...
Ela era uma artista incrivelmente talentosa.
Precisamente o tipo de pessoa que Azrael tinha dado a entender que era o pior tipo de... perturbar.
Pelo amor de Deus.
Agora eu tinha realmente feito besteira.
Eu cerrei meus dedos, então me levantei e enfiei o bloco de desenho na minha estante, tal como era.
Eu cambaleei até um armário.
Encontrei minha garrafa meio vazia de Don Julio.
E comecei o processo de terminá-la.
ΩPodemos não ter cirrose, mas ainda temos ressaca. É Inefável, ou algo assim.
ΩManhã, finalmente, e uma dor de cabeça latejante.
Acordei fosse lá que horas fossem, e me ergui da minha cama amarrotada para me lavar. (Novamente, não é algo que precisemos estritamente fazer, mas... velhos hábitos...)
E então me sentei à minha mesa, esperando meu chá ficar pronto.
Caitlyn estava em movimento.
Eu não fazia ideia para onde ou por qual razão, apenas que a localização dela na existência não era a mesma da noite anterior.
Me perguntei o que ela estaria aprontando.
Provavelmente comprando lápis e papel novos, minha consciência resmungou.
Fiquei vermelha.
Eu poderia... provavelmente... voltar ao quarto dela e devolver o livro.
Mas... parte de mim não queria. Parte de mim queria ficar com ele e com o breve contato que ele representava, o breve toque de algo ilícito e profundamente, profundamente privado.
Mas eu sabia que seria imprudente.
Então resolvi colocá-lo de volta onde o encontrara.
Mas primeiro...
Cambaleei de volta para minha área de dormir.
Tirei minha camisola de algodão.
Me concentrei por um momento, e abri uma gaveta. Ergui a calça jeans preta e a vesti. Não costumava usar jeans, mas me sentia estranha e precisava de uma mudança.
Ajustei meu sutiã, adicionei um bordado a ele por capricho. Então manifestei uma camiseta decotada cor de pêssego desbotada, do tipo que tantas garotas pareciam usar nos dias de hoje. Tanto melhor para me camuflar de qualquer um que pudesse me notar.
Calcei meus tênis cor-de-rosa, e então um momento para me acalmar.
Olhei no espelho.
Eu parecia quase... normal. Uma garota humana um tanto atraente, jovem, mas não notável de nenhuma forma particular. Seios pequenos, quadris estreitos, rosto bonito mas esquecível.
Bem camuflada.
Suspirei.
Peguei o livro de desenho dela da minha estante, então caminhei até a pequena área livre do chão perto da minha mesa.
Me concentrei.
Minhas asas se curvaram, envolvendo as correntes da realidade.
Era difícil visualizar onde eu queria estar, mas consegui no final. É mais difícil para mim quando é um lugar, não uma pessoa.
Papéis farfalharam em seu quarto minúsculo e abafado quando fiz minha entrada. Ela claramente estivera procurando seu bloco de desenho; mentalmente me xinguei.
Fui até a mesa dela e coloquei o bloco gentilmente na frente do laptop. Senti vontade de deixar um bilhete ou algo assim, mas a ideia era ridícula quando vista desapaixonadamente. O que eu poderia dizer?
Melhor fingir que ela só... não o vira.
Como se isso fosse funcionar, minha cínica interior resmungou.
Dei uma última olhada ao redor da semi-escuridão... sarcófago, parecia. Um lugar onde ela vinha se sepultar no fim de cada dia horrível.
Me perguntei onde ela estava.
O que estava fazendo.
Fingi, brevemente, que não estava prestes a quebrar ainda mais regras.
Porque, é claro, se eu me concentrasse, saberia precisamente onde ela estava.
Precisamente.
Então respirei fundo e fiz exatamente isso.
Ela não estava longe, para os meus padrões. Alguns quilômetros.
Talvez eu pudesse... dar uma passada.
Só... dar uma olhada nela à distância. Verificar se ela estava bem.
Dificilmente pioraria as coisas; elas já estavam tão ruins quanto podiam estar.
E... de qualquer forma...
Eu... precisava vê-la.
Pelo bem dela, fingi apressadamente para mim mesma, ainda inventando desculpas, ainda não preparada para admitir que era na verdade por mim.
Então me concentrei novamente, e me desloquei novamente, cuidadosa dessa vez para me manter no entre-lugar, apartada de tudo até que pudesse encontrar um ponto onde eu pudesse me manifestar sem ser notada.
Uma lufada de vento; ramos de teixo se agitaram e rangeram acima de mim.
Me agachei, saí sorrateiramente de sob os galhos, e me levantei.
E a compreensão surgiu.
Ah.
É claro.
Um cemitério.
Uma versão menos desordenada de mim teria achado graça da ironia.
Eu, contudo, não estava no clima.
Caminhei lentamente por uma estreita trilha de cascalho, serpenteando por amplas seções cônicas, lentamente mais perto de onde eu sabia que a encontraria. O terreno se curvava e inclinava; uma antiga fazenda de encosta comprada e convertida em cemitério quando o solo ficou improdutivo demais e o fazendeiro velho demais para trabalhá-la.
Pedras envelhecidas me cercavam; lembrando-me desconfortavelmente das pedras marcadoras do lado de fora da cidade Celestial.
Para os humanos, este lugar era tão final e tão perturbador.
Senti uma pontada de simpatia — muitos dos túmulos estavam descuidados, mas muitos também tinham flores, ou balões, ou bichos de pelúcia, ou um milhão de outros tipos de lembranças de amor e perda deixados pelos enlutados.
Me esgueirei ao redor de um trecho podado e ordenado de azevinho, as bagas vermelhas brilhantes contra as folhas verde-escuras.
E a vi.
Ela estava parada, enfiada em um casaco preto vários tamanhos maior que ela, curvada, olhando fixamente para uma simples cruz de madeira entre as fileiras de lápides mais novas.
Recuei cuidadosamente até que o azevinho me escondesse, e comecei minha... vigília, por falta de palavra melhor.
Observei enquanto ela começava a falar; as palavras suaves demais para eu ouvir.
Observei enquanto ela tirava uma pequena folha de papel dobrada de um bolso, então a pressionava contra os lábios antes de se ajoelhar e enfiá-la entre os caules de um vaso de narcisos murchando.
Ela se levantou, e esfregou a manga nos olhos antes de se virar e se afastar cambaleante.
Deixei que ela ganhasse alguma distância de mim, esperando até que outro longo braço de sebe a tivesse obscurecido. Então parti em perseguição, me escondendo com a vida vegetal e a topologia.
Ela serpenteou lentamente de volta à boca de ferro forjado do cemitério, e de lá letargicamente pela rua até um ponto de ônibus.
Sentou-se sob o teto de plástico em balanço, e encarou o chão à sua frente.
Me encostei no tronco de um cipreste pesaroso, e a observei até que ela subisse em um ônibus.
Rolei a tensão das minhas costas e pescoço; tomando como um bom sinal que ela tivesse algum lugar para ir.
Não podia mais esperar; precisava voltar para o Alto antes que alguém notasse minha ausência.
Mas eu tinha um breve desvio a fazer antes de partir — de volta ao túmulo de Rhiannon e todos os sonhos derramados que tinham sido enterrados lá com ela.
Parei por um momento, olhando para baixo para a grama úmida e orvalhada. Um costume estranho, realmente. Mas supus que lhes dava algum lugar para vir lembrar.
Ninguém nunca pudera fazê-lo por mim.
O pensamento me doeu.
Então franzi a testa, me concentrei por um momento, e gentilmente coloquei a flor recém-criada de Celidônia sobre o coração de Rhiannon.
Então me virei, reuni minha intenção, e parti.
ΩRetornei ao "trabalho", e Caitlyn se tornou meu pequeno segredo sujo.
Comecei a roubar pequenos momentos para poder "dar uma olhada" nela.
Espiar um vislumbre dela a caminho do trabalho.
Observar de um beco enquanto ela embarcava ou descia de um ônibus.
Avaliar o pequeno círculo de amigos emocionalmente inadequados que ela parecia ter.
Seguir, distantemente, enquanto ela vagava pelas trilhas rurais da região, ou visitava velhas igrejas, ou se sentava, sozinha, em cafés baratos.
Estes últimos eram os piores para mim; ela ficava lá sentada, olhando fixamente para o nada enquanto seu chá esfriava à sua frente.
Ela parecia completamente sozinha.
Visitava o cemitério uma vez por semana, como um relógio. Faça chuva ou sol ela estaria lá, olhando para o túmulo de sua amiga enquanto ele lentamente ganhava uma lápide, uma pedra de pé e bordas chanfradas minimalistas.
Alguns dias ela falava; sem dúvida derramando seu coração para a metade faltante dela.
Outros dias ficava simplesmente em silêncio — fria como gelo, pálida como o luar no mar distante.
Melancolicamente cheguei a perceber que eu era uma perseguidora.
Então tentei ficar longe, por um dia, ou uma semana...
Mas nunca consegui.
Ela me compeliu, e eu era atraída por ela como uma mariposa para a chama.
Pensamentos dela começaram a me consumir; uma obsessão. Eu me sentava, encarando uma parede, pensando em pouco mais que o som da voz dela ou a textura do tecido de seu casaco ou o modo como ela me implorara para ficar e conversar com ela.
A umidade do inverno chegou lá Embaixo, e eu ficava lá, cabelo grudado no couro cabeludo enquanto a seguia por aqui e por ali.
Lucius sabia que eu estava tramando algo, mas como qualquer bom amigo em uma burocracia estabelecida, ele claramente adotara o mantra de Não-Pergunte-Não-Conte.
Ele passou a me visitar quando eu não estava em minhas atividades extramurais.
Ficava sentado em silêncio comigo enquanto olhávamos para o horizonte Celestial, nosso chá ou o bourbon que ele tanto gostava em recipientes ao nosso lado.
Ajudava que eu estava longe de ser a única introdutora esfarrapada em nossa trupe heterogênea, então minha... distração... pareceu passar despercebida por Azrael, exceto por um olhar contemplativo ocasional. Eu fazia o que precisava, era escrupulosamente cuidadosa para não ser notada por outro humano, e reportava de volta após cada turno com um "Nada fora do comum", ou alguma variação disso.
E naqueles preciosos, infrequentes momentos em que podia ver Jezebel, eu me sentia quase... normal.
Quase.
Porque a mentira ficava negra entre nós.
Então eu fingia para ela, e mentia para ela, e mentia para mim.
E minha desolação crescia e crescia e crescia.
Enquanto isso, pelo menos uma vez por semana eu seguia Caitlyn como sua própria segunda pele.
Lenta e estupidamente comecei a tomar liberdades. Eu me esgueirava para fora da cobertura, cruzando terreno aberto e confiando no comportamento aprendido de Caitlyn — ela nunca olhava para cima, nunca olhava para trás ao deixar certos lugares; então eu sentia que era seguro o bastante para voejar mais perto dela, para compartilhar um espaço um pouco menos isolado dela. Estar perto dela era uma necessidade irresistível para mim; estar perto o bastante para ver os detalhes finos de seu cabelo, ou o formato do colar que ela poderia estar usando. Quais roupas ela escolhera. Uma vez ou duas, um sopro de seu perfume...
Eu me sentia tão esperta, tão estupidamente orgulhosa de mim mesma, coração batendo forte com a emoçãozinha culpada de observá-la.
Até que ela me pegou.
Ela se afastara do túmulo de Rhiannon, e caminhara lentamente para dentro da névoa.
E eu não tinha verificado se ela estava fora de vista antes de me esgueirar para ver como estavam as coisas e olhar as flores frescas que ela deixara.
Eu cuidara de túmulos antes, afinal; este era limpo e bem contido. Bordas de pedra lisas contendo um pedaço de verde, a família de Rhiannon optara por não semear seu local de descanso com plantas floríferas que morreriam durante o inverno.
Uma simples cruz celta estava cinzelada na lápide, e as datas e palavras que nunca eram suficientes para expressar a perda que os vivos sofreram.
Filha. Irmã. Luz das nossas vidas.
Tão pungente.
Me perguntei como Rhiannon estava, em seu sono de cura no Alto. Me perguntei quanto tempo ela ficaria lá.
Me ajoelhei, endireitei o vaso e os lírios de Arum frescos...
"O que você está fazendo?"
O tom dela estalou como um chicote.
Eu congelei.
Merda."Eu disse..."
E então me endireitei e lentamente me virei para encará-la, coração martelando.
Ela ficou branca e agarrou o estômago como se tivesse levado um soco.
"Você..." ela arfou.
"Por favor, não surte!" eu implorei, recuando, tentando ser o menos ameaçadora que eu sabia...
Ela deu três passos rápidos para frente e agarrou meu pulso.
"Não se atreva a desaparecer em mim de novo," ela rosnou. "Você! Você tem algumas explicações a dar..."
Eu a encarei impotente; havia pelo menos três maneiras diferentes de me libertar e escapar que eu conseguia pensar de imediato; nenhuma delas me tiraria dessa bagunça incrível que eu mesma criara.
Suspirei e me curvei, encurralada.
"É. Acho que tenho, de fato. Só... por favor, não faça uma cena. É muito importante que... que você não chame atenção para mim. Vamos... vamos caminhar. Por favor?" eu implorei.
Ela me olhou, intensamente desconfiada, e apertou o aperto.
"Ai," protestei. "Por favor. Você está me machucando. Meu pulso. Por favor."
Ela afrouxou o aperto em um ou dois pontos.
"Prometo que sou inofensiva," acrescentei, para garantir.
"Você não é, não é?" ela disse, suavemente. "Quem diabos é você e que porra está fazendo aqui?"
"Eu estive... observando você," eu disse.
Os olhos dela se estreitaram.
"Por quê."
"Eu estava... preocupada."
"Por quê."
"Eu só... estava. Por favor. Por favor, só caminhe comigo e eu... eu farei o meu melhor para explicar. Para... para o bem que isso nos fará agora..."
Ela me encarou, então respirou fundo e soltou o ar.
"Tudo bem. Vou caminhar, e vou ouvir, mas se você der um passo fora do lugar eu vou te dar um soco bem no nariz."
"Você só vai machucar nós duas. Olha. Estamos ficando molhadas," eu disse. Olhei para cima melancolicamente — a névoa estava lentamente se tornando garoa. "Ou melhor, mais molhadas. Venha. É mais abrigado por aqui. Tem um grupo de teixos não muito longe daqui sob os quais podemos ficar. É seco lá, embora um pouco sombrio."
Eu me virei; ela apertou o aperto novamente.
"Não vou fugir, Caitlyn," eu disse. "Juro."
"Você também vai me dizer como sabe meu nome," ela disse, baixa e zangada. "Não gosto que pessoas saibam coisas sobre mim."
"Apenas caminhe comigo e eu te contarei tudo."
Ela me encarou por mais um momento, como se estivesse se decidindo. Então soltou meu braço, e enfiou as mãos profundamente nos bolsos da jaqueta. Esfreguei meu pulso onde ela me agarrara; ela tinha um aperto cruel e eu sabia que ficaria com uma mancha roxa para mostrar.
Me virei e dei um passo, e depois de um momento ela deu três passinhos rápidos para me alcançar.
Caminhamos, lado a lado, através da manhã lenta e pesarosa.
Ela me lançou vários olhares diretos e furiosos, mas eu pude ver algo mais em seus olhos. Perplexidade? Mágoa? Loucura, talvez? Quem sabia.
"Estou esperando," ela disse, depois de um ou dois minutos.
"Quanto você quer saber?"
"Comece com como diabos você sabe quem eu sou. Nunca te vi antes, bem, exceto..."
Ela fez uma pausa, e mordeu o lábio.
Respirei fundo.
Hábito estúpido... parte de mim me lembrou."Eu sou... oh... porra, como colocar isso.... bem. vamos... vamos com Anjo. Quer dizer, você me viu. Asas incluídas. Como vim ao mundo, por assim dizer. Seria meio inútil negar o que sou."
"Ah, fodeu..." ela sussurrou. "Você é... real? Quer dizer, não estou no manicômio, certo, drogada até os olhos com suco da alegria? Certo? Isso está realmente acontecendo? Estou realmente falando com... você?"
"Se você estivesse louca, como saberia?" perguntei. "Pelo que vale... não acho que você esteja louca. E você não está alucinando. Embora para ser justa isso seja o que uma alucinação lhe diria, suponho."
"Isso não ajuda," ela murmurou.
Ela envolveu os braços em si mesma e respirou trêmula.
Eu diminuí o passo até parar e esperei que ela olhasse para mim.
Os olhos dela eram de um verde tão vívido...
Engoli em seco, me concentrei no que queria lhe contar.
"Isso é real. Tudo isso. Realmente, realmente real. Sua amiga está morta. Sinto muito por isso. Realmente, sinto. Você está caminhando pelo cemitério onde o corpo dela jaz, falando com... com o ser que foi incumbido de levar a alma dela embora."
Segurei o olhar amargo dela por um momento, então desviei o olhar.
"Então ela está... no Céu, então?"
As palavras eram de madeira.
Comecei a andar novamente, ela me seguiu.
"Mais ou menos. É... um pouco diferente do que você talvez imagine. Você é religiosa?"
"Não. Não realmente... embora isso pareça um pequeno descuido agora."
"Você conhece a Bíblia, certo? Vida após a morte, esse tipo de coisa?"
"Mais ou menos."
"Ok. Imagine um... um escritório de conselho local cheio de... coisas como eu..."
"Coisas?" ela disse. Ela se virou parcialmente para mim, me olhou de cima a baixo. "Você é uma garota, não uma coisa."
"Eu... isso é... isso é gentileza sua. Mas eu deixei de ser uma garota... há muito tempo."
Algo nela me desequilibrava; eu não conseguia entender por quê.
"Você é uma garota," ela disse. "Bastante óbvio, realmente. É meio difícil de não notar."
Ela ajeitou o casaco, se encolheu mais dentro dele. "Não importa o que mais você faça. Então. Cristo... isso é esquisito. Então... o quê? Você é o Anjo da Morte, então?"
"Não. Ele é muito mais velho e muito mais... profundo. Eu sou..."
"Uma... lacaia?" ela disse, aparentemente divertida.
Eu relaxei, só um pouco.
"Essa não é uma maneira ruim de descrever. Ele sempre me chama de sua Introdutora, o que me irrita um pouco."
"Você pode xingar, então?"
"Como um maldito marinheiro," eu disse, principalmente só para ver se ela sorriria de novo.
Ela bufou, então desviou o olhar.
Lá se vai essa ideia, pensei melancolicamente.
"Pelo menos agora sei como você sabe meu nome. Suponho que seja algo, mesmo que eu esteja ficando maluca. Há... há quanto tempo você está me observando?"
"Desde talvez uma semana... depois."
"Oh," ela disse.
Contornamos um trecho amorosamente podado de espinheiro, viramos à direita em outra trilha de cascalho cinza, e continuamos andando pelas fileiras de lápides vigilantes.
"Você roubou meu caderno de desenho?" ela perguntou, finalmente.
"Sim. Sinto muito por isso. Eu estava... "
"Perseguindo," ela sugeriu.
"... verificando você e você se mexeu enquanto eu bisbilhotava e eu surtei e..."
Dei de ombros.
Supostamente anjos não podem corar, mas isso é bobagem. Meu rosto estava em chamas.
— Nem tanto quanto eu — ela disse, baixinho. — Eu sabia que alguém tinha estado no meu quarto, e... e estava tudo revirado. Achei que tinham me roubado, ou que alguém tinha feito coisas nojentas com minhas calcinhas.
— Juro que não mexi nas suas calcinhas...
— Eu sei. Não seja boba. Mas você espalhou tudo por toda parte. E afinal... roubo não é... tipo... mancha grave no histórico ou algo assim?
— Eles vão arrancar minhas penas, uma por uma — falei, séria.
— Ah, claro.
Dessa vez o sorrisinho realmente apareceu.
Gostei do tom e do timbre da voz dela.
Ela parou num banquinho sob a copa de um carvalho antigo, me olhou de relance e se sentou.
Ergueu a sobrancelha para mim quando hesitei.
— Eu não mordo — ela disse.
— Ah. Hum. Que bom — respondi, estranhamente perturbada pela afirmação.
Sentei ao lado dela, sem encostar, e fiquei olhando para a névoa.
Ela se mexeu ao meu lado, a perna roçou na minha ao mudar de posição.
Tentei muito não perceber.
— Então... quantos anos você tem? — ela me perguntou. — Bilhões de anos, imagino?
— Às vezes parece. Nasci em 1793, aqui, no País de Gales.
— Nasceu? — ela disse, surpresa. — Anjos são...
— Ah. Não. Fui humana como você, um dia.
Ela me encarou.
— Como...
— Sei lá. Eu... morri; algum tempo depois acordei na cidade Celestial com um par de asas e uma... acho que devo chamar de uma vontade poderosa de me intrometer. Ninguém nunca me deu uma explicação satisfatória para a primeira, e quanto à segunda, acho que é simplesmente quem sou.
— E... e você basicamente só vai levando...
— Ajudando os mortos — falei, baixinho, depois de um silêncio breve mas pesado.
— Você ajudou... ela?
Recuei; não estava preparada para uma pergunta tão direta.
— Não — sussurrei, envergonhada.
— Por que não? — ela exigiu. — Ela não merecia...
— Sim! Merda, sim, ela merecia, e sim, eu estraguei tudo, e você não acha que me sinto culpada pra caralho...
— Ei. Para. Tá tudo bem.
De repente percebi que ela tinha segurado minha mão.
Fiquei olhando para o jeito como os dedos dela brincavam nervosamente com os meus.
— Desculpa — ela acrescentou. — É que... tô com dezessete tipos diferentes de amargura. Ela... quer dizer... tava tudo...
Ela suspirou.
— O que quero dizer é... ela ficou bem? Onde quer que esteja agora?
— Não sei — admiti. — Ela está... vai estar em algum lugar onde possa se curar. Dormindo. Todos dormimos por um tempo, até... bem, geralmente até que as pessoas que conhecíamos também se vão. É... mais fácil assim, supostamente.
— Ah — ela disse, baixinho.
— Ela vai ficar... bem, com o tempo.
— Como você sabe?
— Eu fiquei — falei, baixinho. — Na maior parte, suponho. Levou um tempo, várias décadas. Eu tinha dezoito anos quando morri...
— Meu Deus. Tão jovem? Você mal tinha saído da infância!
— Os tempos eram diferentes naquela época. Mas sim. Eu era jovem, e estúpida, e... paguei por isso.
— Pagou por... ah. Ah, não. Você foi...
— Assassinada? Sim. Entre... outras coisas.
A mão dela apertou forte a minha.
— Ai, Deus, sinto muito — ela murmurou.
— São águas passadas há muito tempo — falei, profundamente tocada pela sua compaixão. — Não dá pra mudar; não há para onde ir a não ser em frente.
Ela me encarou por um momento ou dois, depois balançou a cabeça para clarear os pensamentos que a assombravam.
— Então... a Annie está num lugar que é tipo Céu mas não é, e... e tem outras... garotas... como você lá em cima. Isso... quer dizer, soa completamente maluco.
— Anjos de verdade também. Arcanjos, Santos...
— Ah, porra, Santos também?
— É um pouco lotado. Demônios também aparecem pra visitar de vez em quando...
— O quê!
— Ah, sim. Eles vêm à cidade pra dar um tempo e relaxar. Não são tão diferentes de nós, na verdade. Sabe... toda essa história de guerra entre Céu e Inferno é só coisa que as pessoas inventaram. O Chefe e Lúcifer jogam cartas, e o Inferno é basicamente só... um parque temático pra maioria das pessoas. Algo pra visitar enquanto se passa o tempo. Mas não me entenda mal — tem uns verdadeiros desgraçados lá embaixo, obviamente — os que precisam... ser consertados.
— Preciso que você saiba que esta é a conversa mais insanamente doida que já tive, e a Rhiannon era mestre do absurdo.
— Parece surreal, né?
— Completamente maluco — ela concordou. Desabou contra o encosto. — Então... a gente vive, morre, vai pra algum outro lugar estranho e depois... o quê?
— Escolhas — respondi, baixinho. — Voltar pra cá de novo, ser como eu pelo tempo que aguentar, ou...
— Ou...
— Oblívio, pra sempre.
— Como isso é justo!
— Não é, muito.
— E você faz isso... por vontade própria?
— Eu quero. Mais importante, eu preciso.
Ela me encarou.
— Você quer ajudar pessoas a morrer? Isso soa... desculpa, não quero parecer insensível, mas não é... mórbido?
— As pessoas morrem quer eu esteja lá ou não. Pra algumas é uma bênção. Pra outras é só mais um passo na estrada. Mas... pra algumas é realmente muito selvagem e brutal e... e... horrível. Você não acha que... só às vezes, só ter uma...
Baixei os olhos, olhei pra minha mão, tão firmemente apertada na dela.
— ... uma mão bondosa pra segurar poderia ser... infinitamente preciosa? Poderia tirar pelo menos um pouco do horror e da dor e... diminuí-los?
Ela olhou para baixo e pareceu perceber o quão forte estava segurando minha mão na sua. Ela se mexeu ligeiramente no banco. Depois se encolheu no casaco, mas, estranhamente, não fez esforço algum para soltar minha mão.
— Foi assim pra você? — ela sussurrou.
— Foi... tão ruim quanto poderia ser.
Ela fez um barulhinho e se inclinou brevemente para encostar o ombro no meu. Fiquei inexprimivelmente grata por sua gentil simpatia silenciosa.
— E... a Annie?
— Ela não estava sentindo dor. Deve ter estado sonhando no final. A morte dela foi uma das mais suaves possíveis, Caitlyn.
— Você... sabe quanto tempo ela...
— Não — falei, baixinho mas definitivo. — Não cabe a mim saber. Acho que nem Azrael saberia...
— Azrael?
— Sim. Meu... chefe. O verdadeiro Anjo da Morte.
— Cristo...
— Ele também está por aí — falei, séria.
Ela fez uma pausa, depois riu descontroladamente, o tom perto da histeria.
Levou um tempo para recuperar o controle. Fiquei sentada ali, com profunda pena dela.
— Desculpa — ela conseguiu dizer por fim. — Ah, porra. Desculpa. Isso é tão estranho. Desculpa.
— Pelo quê?
— Por...
— Por ser humana? E apaixonada? E, com todo respeito, destruída? Você está sentada num banco de cemitério onde enterrou seus sonhos, e está falando comigo. No geral, você está lidando muito bem com as coisas do meu ponto de vista. A última vez que um humano falou com alguém como eu, até onde sei, o cara perdeu a cabeça e começou a pintar o Fim dos Dias.
Ela estremeceu.
— Então tô bem na frente dele — sussurrou.
Apertei a mão dela e, com o coração martelando, me inclinei devagar para encostar suavemente a testa na têmpora dela.
— Você está muito bem, Caitlyn — sussurrei. — Vai sobreviver a isso. Prometo.
Ela soltou um somzinho suave e se virou para mim.
Envolveu-me nos braços e enterrou o rosto no meu cabelo.
E eu, devagar, impotente, esfreguei suas costas e a embalei contra mim enquanto ela começava a chorar baixinho.
Foi breve, e triste, e patético, e solitário, e sem esperança, e senti como ela tremia contra mim.
E foi, naquele momento, a coisa mais pura e preciosa da minha existência.
Mas logo, ela se afastou.
Limpou os olhos, fungou, e conseguiu me olhar.
— Então — sussurrou —, agora que sei que você é real, e que tudo é realmente tão fodido assim... pelo menos posso saber seu nome?
— Sou... Gwenhwyfar. Pode me chamar de Jen, ou Jenny. Jenny seria legal.
— Oi, Jenny. Pode me chamar de Cait — ela fungou.
— Oi, Cait. Desculpa por foder tudo pra você.
— Não é culpa sua, né? Você não deu câncer pra Annie. Você veio dar misericórdia a ela. Obrigada por isso.
Suspirei.
E ficamos sentadas em silêncio por um tempo, ocupadas com nossos pensamentos.
— Posso... te pagar um chá? — perguntei, por fim. — Tem um café pequeno logo ali na rua, e tô vendo que você está ficando com frio.
— Tá, pode ser — ela disse, com outro fungado. — Mas nada de desaparecer de novo, tá? Você me deve pelo menos isso.
— Vou tentar.
— Vou te cobrar isso, Jenny — sussurrou.
Então ela se levantou e me ofereceu a mão.
E assim me levantei, sacudi o cabelo úmido, e saí ao seu lado, intensamente consciente do jeito como ela mais uma vez entrelaçou os dedos nos meus e se recusou a soltar.
Caminhamos até os portões de ferro forjado do cemitério, e os atravessamos.
— Sempre achei que cemitérios eram assombrados — ela comentou sonhadora enquanto cruzávamos o limiar temido.
— Você estava certa, de certa forma — admiti. — Mas somos só nós. E suspeito que não fazemos isso com muita frequência.
— É bom saber que existem garotas como você lá em cima. É bom saber que a Annie não vai ficar sozinha, onde quer que acabe. Ela teria gostado de você, acho.
E me vi corando furiosamente com isso; ela percebeu, mas não disse nada, apenas apertando minha mão um pouquinho mais forte.
E mais tarde, bem mais tarde, ela me abraçou ao se despedir e deixou um beijo inesperado e quase... sagrado... na minha bochecha de despedida.
— Vou te ver de novo? — ela me perguntou.
— Não seria sábio — consegui dizer.
— Mesmo se eu implorar?
E eu olhei para aqueles olhos verdes solitários e cheios de alma e esqueci tudo sobre regras e perigos e a bagunça em que estava metida.
— Vou... te ver quando puder — sussurrei. — Mas pode ser em horas surpreendentes, então por favor não grite se você se virar e eu estiver lá quando menos esperar.
— Acho que aguentaria isso — ela disse.
E ela se aproximou e me abraçou de novo.
Ω— Você está pensativa, Penas.
Senti os dedos dela descerem lentamente sobre a pele nua das minhas costas. Mudei a cabeça sobre os braços cruzados, pressionada levemente contra ela. Ela empurrou de volta e passou uma perna sobre a minha; a pele quente de seus seios morenos moveu-se suave e maravilhosamente contra mim, um mamilo ereto traçando uma curva abreviada sobre minha escápula.
— Só... muita coisa na cabeça — murmurei.
— Quando não é o caso, Gwenhwyfar?
— Touché.
A mão dela desceu mais, sobre minha nádega esquerda, e dali para baixo, cutucando gentilmente a curva fina entre minhas coxas.
Estremeci.
— Isso é gostoso — sussurrei.
— Eu sei. Você sempre me diz isso.
— Gosto quando você me toca aí.
— Isso também sei. Abra as pernas — ela murmurou, e o cheiro de canela me envolveu.
Resmunguei com a exigência de me mexer, mas fiz como ela pedia.
As carícias gentis de Jezebel sempre valiam a pena.
Seu dedo lento e investigador desceu até meus lábios já molhados; ela já tinha me dado um orgasmo, um rápido e frenético quando eu tinha subido no seu colo e começado a beijar seus lábios molhados de conhaque. Ela me levantou com aquela força bruta que possuía e me jogou sobre minha mesa, arrancou meus jeans e me teve ali mesmo, me lambendo e me dedilhando furiosamente, rindo exultante enquanto eu me contorcia e gritava meu prazer.
Depois me levantou e me carregou para minha cama como às vezes adorava fazer, e se enfiou atrás de mim e me abraçou, pele com pele, dedos enrolados possessivamente sobre meu quadril.
Ela adorava não ter pressa comigo. Acho que ela sentia prazer em adiar a própria gratificação o máximo possível.
E eu sabia que ela gostava do meu corpo, mesmo com suas curvas abreviadas.
Também sabia que ela tinha afeto por mim; que ela ansiava por esses momentos comigo, não importando suas piadas camufladas e sagacidade ácida.
E eu gostava do seu calor, do seu fogo, do brilho feroz e rubro que ela lançava em meus lugares escuros.
Gostava de como ela sempre era gentil comigo.
Gemi quando ela me explorou, abrindo meus lábios com a ponta do dedo, provocando lentamente ao longo da minha fenda escorregadia.
— Você fica tão molhada, Anjo. Devia ser pecado — ela riu, com a voz grave.
— Reclama... com o Chefe — gemi. — Eu não me fiz... assim... ah, porra, isso é tão bom...
— Você adora assim por trás, não adora? Tão... Jen... — sussurrou, deslizando o dedo lentamente para fora e depois o enfiando de volta em mim.
— Ahn... ahn...
— Tem uma coisa que nunca fiz com você.
— O que... — gemi, me remexendo um pouco.
— Primeiro... eu sei o que aconteceu com você. Então entendo se você não quiser...
Virei a cabeça sobre os braços, encontrei o olhar dela.
— Só... me conta.
Ela parecia... quase tímida, se é que isso era possível.
— Nós... estamos transando há quase trinta anos... você... pode me contar... — gemi, amando o jeito como ela lenta e perversamente curvava os dedos entrando e saindo e passando sobre mim.
Ela respirou fundo.
— Quero criar um pênis e te foder com ele — ela disse, num despejo sem fôlego.
Os dedos dela pararam enquanto eu a olhava de soslaio, tentando entender.
— Um... cintaralho?
— Não.
— Hum...
Rolei para longe dela e me apoiei no cotovelo. Devo ter parecido muito confusa porque ela começou a rir.
— Sua cara conta uma história — ela disse, alegremente.
— Você está me dizendo que... pode mudar seu... equipamento?
— Sim. Bem... parte dele. Não que eu faça muito, dada minha especialidade em particular... mas... é sempre uma opção para nós.
— Vocês têm toda a diversão — falei, seca. — Como só estou sabendo disso agora?
Ela riu; chamas tremeluziram no fundo de seus olhos.
— Porque eu... não queria te assustar — ela murmurou. Inclinou-se para roçar o rosto no meu ombro. — Gosto do que temos. Não queria... arriscar.
Me ajeitei de volta.
— Então... por que agora? — falei.
Ela encontrou meu mamilo com a ponta dos dedos e espalhou minha umidade escorregadia sobre ele e ao redor; fechei os olhos e estremeci, sabendo que a próxima coisa que ela faria seria lambê-lo.
E ela fez; soltei um gemido suave.
— Adoro esse som. Mas... principalmente... olha, eu realmente gosto de ter meus dedos e língua em você, Gwen. Acho que não conseguiria te dizer o quanto. É só... é algo que gosto. Às vezes. Com... com parceiras específicas. E eu... eu só gostaria muito de estar ainda mais fundo em você uma vez ou outra. De... de ser tão íntima assim com você. Então...
— Eu... nunca realmente. Exceto por...
— Eu sei — ela disse; seus olhos escureceram por apenas um momento. — Foi por isso que perguntei; com qualquer outra eu simplesmente as teria virado de bruços e subido em cima e... não dado muita escolha. Sou má desse jeito. Mas não poderia fazer isso com você. Não poderia — acrescentou, num sussurro.
— Você é... muito gentil comigo — falei, baixinho. Estendi a mão para tocar sua bochecha.
Ela pareceu lutar para encontrar meu olhar. — Só gosto de estar assim com você, só isso — murmurou. — Então... quer dizer... se você não quiser...
Pensei por um momento.
Jezebel nunca me machucaria de propósito; tinha certeza disso.
Na verdade foi uma escolha fácil — eu queria agradá-la.
— Eu... estou... curiosa, acho. Sobre qual é a graça — admiti. — Realmente gosto dos seus dedos e língua no meu corpo. Se... se você tem mais de você para me mostrar, bem... estou disposta a... tentar. Hum. Tipo... de que tamanho estamos falando?
— Quer ver? — ela disse, com um sorrisinho estranho.
— Sim. Quero ver — respondi, baixinho, a voz tremendo levemente.
Ela pôs a mão na virilha, e fez alguma coisa, e debaixo de seus dedos um pênis pareceu... surgir como se um espelho estivesse sendo puxado de lado.
Começou a inchar e enrijecer imediatamente, e a bolsa enrugada abaixo dele apertou e encolheu para cima contra seu corpo.
Fiquei olhando para ela, observando de boca aberta enquanto ficava dura e rígida.
— Porra — sussurrei. — Isso é... é grande. Hum... não é... desconfortável?
— Sim. Mas não pelo motivo que você imagina. Quando estou quente e dura assim quero estar dentro de alguém. Agora mesmo, e pra ser honesta na maioria das vezes que faço isso... esse alguém é você.
Ela estava corada; tinha admitido algo que talvez não pretendesse.
— Está ficando mole por mim? — provoquei, enquanto o rubor quente se espalhava pelo meu rosto e pescoço.
Sua sobrancelha se arqueou. Sorrimos uma para a outra.
— Desculpa — sussurrei. — Tro cadilho horrível.
Ela estendeu a mão, e se deitou de costas, e pôs meus dedos sobre ela, soltando um som baixo de necessidade quando minha pele tocou a sua.
— É... tão quente... — exclamei.
— Sempre fico tão... excitada quando faço isso, é quase insuportável — ela arfou enquanto se arqueava para trás, a barriga tremendo uma vez. — É duplamente... não, triplamente insuportável com você aqui, me olhando desse jeito...
— O que eu devo...
— Só... mexe os dedos assim um pouco... pra cima e pra baixo... ai... ai, porra, isso é tão bom...
Eu podia sentir o... o pênis dela, pensei, sorrindo de repente... estava pulsando. Provavelmente no ritmo dos batimentos cardíacos dela. Sulcos de estrutura sob a pele quente, curvando-se ligeiramente, inclinando-se para cima em direção a ela. Ela estava tão escrupulosamente sem pelos como de costume; Jezebel gostava de não ter nada entre ela e o ar.
Eu podia ver literalmente cada centímetro dela.
— É realmente impressionante. E tão duro... posso... Jezebel, posso... quer dizer, sei que é pra ser gostoso se eu chupar, então posso fazer isso pra você?
— Ah, agora... isso é um pensamento gostoso... — ela disse, sorrindo para mim.
Ela se remexeu e soltou um suspiro ofegante quando toquei a cabeça inchada com meus lábios. Uma minúscula gota de fluido se formara no pequeno orifício da ponta; tinha gosto almiscarado, salgado...
Passei a língua; Jezebel gemeu baixinho, depois soltou um gemido baixo e animalesco quando coloquei sua cabeça quente em minha boca e fechei os lábios ao redor.
Ela se arqueou, erguendo-se sobre os cotovelos enquanto me encarava.
Fiz pose, olhando para ela com uma sobrancelha arqueada enquanto deslizava a língua lentamente sobre o pouquinho dela que eu conseguira abocanhar.
— Você não tem... a menor ideia de como é excitante... ver você fazendo isso comigo — ela gemeu baixinho. Estendeu a mão e acariciou a linha entre meus lábios e seu novo apêndice.
— Ah, sua boca é tão gostosa em mim desse jeito. E eu adoro como seu cabelo está... me escondendo. Gwen... ah, Gwen, isso é sublime...
Sorri, deixei-a deslizar lentamente para fora de mim, e então a tomei de novo, amando a sensação de suas pernas retesando sob mim, o jeito como seus dedos estalavam enquanto ela soltava um pequeno gemido soluçante.
Então a soltei outra vez.
— Eu gosto muito disso — eu disse. — É... gostoso ter você na minha boca. E... também está me deixando muito... excitada. Muito... experimental. Então... quer dizer... hum... você quer que eu me deite e... me abra? Para você me ter? Eu... acho que gostaria disso...
— Que tal você me deixar... te mostrar isso, nesta primeira vez? — ela disse. — O mais gentilmente que eu puder. Mas primeiro... você confia em mim, Gwenhwyfar?
Encarei seu olhar.
— Sim — eu disse, baixinho. — Você nunca me machucou uma vez sequer nos anos em que nos conhecemos. Confio em você completamente.
Ela estendeu a mão e emoldurou minha bochecha. — Eu nunca te machucaria sem permissão, não. E... nunca desse jeito tão íntimo. Deite de bruços. Eu sei o quanto você gosta desse jeito. Vou... ir bem devagar.
Com o coração batendo forte, estranhamente nervosa, fiz o que ela disse. Deitei reta, cabeça apoiada nos braços cruzados.
Gemi quando ela colocou as mãos nas minhas costas.
— Relaxa — ela sussurrou em meu ouvido. — Relaxa, linda. Sei que deve ser um pouco assustador. Vou garantir que você adore.
— Tá bom... — eu gemi baixinho.
— Abra as pernas de novo, amor.
E eu obedeci, e senti primeiro um e depois o outro de seus joelhos deslizarem entre os meus.
Ela se inclinou para frente, e eu gemi baixinho quando seus lindos seios roçaram em meus ombros.
Ela tocou os lábios em meu pescoço, aninhando-se sob meu cabelo para encontrar minha pele.
Eu podia sentir a haste dura dela se encaixando na fenda entre minhas nádegas.
— Jenny — ela sussurrou.
— Hum... sim...
— Me diga para parar se isso doer de alguma forma.
Ela encontrou minha mão esquerda e entrelaçou seus dedos com os meus. Fechei os olhos, ela se ajeitou sobre mim, senti seu membro ereto se movendo enquanto ela se reposicionava. O calor quente de sua cabeça se aninhou entre minhas coxas, depois cutucou meus lábios úmidos e pulsantes.
Eu retesei, respirei fundo, um suspiro trêmulo, me preparando.
— Porra, você está tão molhada — ela gemeu.
Abri os olhos, encarei a parede do meu apartamento enquanto ela se remexia e se ajeitava, se posicionando.
Então ela aplicou pressão lentamente e eu me senti... cedendo...
Meu maxilar se abriu e travou.
Não era nada agonizante. Não como... quando...
Aquilo era algo... diferente.
Era diferente, era... incrível...
Meu corpo inteiro tremeu; soltei um gemido estrangulado enquanto sua cabeça me esticava e distendia.
— Ah... ah, merda... ah, merda... — arfei enquanto minha necessidade aumentava em uma velocidade vertiginosa.
— Você quer... que eu pare... — Jezebel gemeu em meu ouvido.
— Não! — eu gritei; agitei minha mão direita livre para trás, encontrei seu cabelo e enrosquei meus dedos nele enquanto a puxava com força para baixo contra mim. Me arquei instintivamente, erguendo a barriga para cima, me angulando, e Jez gemeu ao aceitar meu convite silencioso.
Senti ela deslizar mais fundo em mim. Ela prendeu a respiração, me beijou, saiu lentamente, depois empurrou devagar mas inexoravelmente para dentro, e eu soltei um gemido e me contorci enquanto a recebia mais.
— Você está... apertada... Penas... — ela arfou. — Ah, ah, porra, você não tem ideia de como é gostoso...
Eu não conseguia responder. A sensação de seu pênis duro e latejante parcialmente enterrado em mim era mais do que eu conseguia processar. Todas as minhas inibições desapareceram em um piscar de olhos; comecei a me contorcer e me mexer e tentava me impulsionar para trás e para cima, tentando desesperadamente receber mais dela em mim.
— Jezebel, me tome, me tome — eu gemi. — ah, por favor, só, só me fode, só me enche com isso... só...
Ela recuou de novo, empurrou, e dessa vez senti a pele quente de sua barriga tocar minha bunda. Gemi, alto e profundo. Mais um recuo, mais uma estocada, e o tapa enlouquecedor de sua barriga e coxas contra mim, seu membro duríssimo enterrado fundo em meu corpo pulsante e despertando.
Ela fez uma pausa, enterrada fundo em mim, e se firmou. Apertei minha mão com força na sua, enrosquei a outra ainda mais firme em suas tranças maravilhosas.
— Por que... por que você parou... — chorei queixosa, o final de minhas palavras se transformando em um gemido baixo de êxtase enquanto ela deslizava lentamente para fora de mim e então se enterrava com força.
— Você ama meu pau, sua coisinha depravada — ela disse. Parecia encantada com a descoberta.
— É... você está... ah... tão gostoso em mim... — eu consegui dizer.
— Eu vou fazer isso com você muitas vezes, vou fazer isso com você o tempo todo — ela sussurrou em meu ouvido, e eu balancei a cabeça freneticamente, sobrecarregada demais até para achar uma única palavra.
Ela encontrou e estabeleceu um ritmo enlouquecedor. Ela recuava até sua cabeça quase sair, provocando e esticando meu corpo ao redor de sua crista protuberante, então se enterrava de volta com aquele mesmo tapa ridículo que arrancava o ar de mim a cada vez com um grunhido pouco feminino. Em três estocadas eu já sabia que tinha encontrado minha nova coisa favorita, em mais cinco eu tinha certeza de que ia gozar.
Levou vinte e nove estocadas completas no total, cada uma mais agonizante que a anterior. As últimas sete quase, quase exigiram que ela me contivesse enquanto eu perdia o controle e começava a me contorcer, gritar e implorar por misericórdia, por libertação.
Soltei um longo gemido trêmulo quando gozei; dois espasmos fortes e uma sequência de menores; acompanhados por arqueios frenéticos e incontroláveis contra ela enquanto minhas necessidades básicas tomavam conta de minhas funções superiores. Ela riu, depois mordeu com força a nuca do meu pescoço como um grande felino e pressionou todo o seu peso sobre mim, me esmagando contra a cama. Seus mamilos estavam duros contra a pele ardente das minhas costas; os meus estavam eretos e latejando. Forcei uma mão para baixo e me encontrei e comecei a me acariciar do jeito que ela me ensinara com tanto prazer; ela soltou um gemido quando eu espasmei e me apertei em volta dela repetidas vezes.
— Eu vou te foder de verdade agora, docinho — ela rosnou.
Eu gemi um sim baixinho e exausto, e meus olhos reviraram na cabeça quando ela começou a se enterrar fundo em mim.
Minha garganta estava em carne viva dos constantes gemidos frenéticos que ela me forçava a soltar.
Ela também estava arfando, seu suor e cheiro almiscarado preenchendo o ar ao nosso redor.
Um nó de fogo ardia na minha barriga; meus quadris tremiam, coxas contraindo aleatória e espasmodicamente contra ela enquanto ela estocava, empurrava e trabalhava entre minhas pernas.
Eu podia sentir o quão molhada eu estava, o quão úmida ela estava, as cristas de seu membro duríssimo deslizando e escorregando sobre meus dedos e entre os lábios finos e os pelos macios que emolduravam aquela minha parte mais íntima.
Eu nunca tinha sentido nada tão bom quanto tê-la em mim, me possuindo assim com seu poder, sua beleza, sua luxúria, me fazendo sentir parte de algo... especial... mesmo que apenas por este momento único e perfeito...
— Eu... amo... — gemi, depois chorei quando um espasmo me impediu de terminar o pensamento impensado.
Ela apertou sua mão na minha.
— Minha — ela gemeu. — Você é minha.
Ela se ajeitou, começou a se enfiar com força em mim, encostando seu rosto contra meu ouvido, língua e dentes encontrando meu lóbulo. Eu me debatia sob ela, transfixada por ela e pelo prazer que me dava, cada estocada distendente me cutucando adiante, para cima...
Ela começou a tremer, a gemer baixinho.
— Jen, Jen — ela ofegou, de repente. — Jen, você é tão incrível, ah, ah, porra, você é tão incrível... Jen... eu... eu vou...
E então ela gritou, empurrou forte contra mim, se enterrando fundo em mim repetidamente, ofegante, latejando no fundo de mim enquanto tentava se enterrar o mais fundo possível, arranhando meus ombros, sua barriga trêmula rasgando contra minha bunda encharcada de suor.
E então meu próprio orgasmo final avassalador, pulsos longos e fortes se contraindo nela que a fizeram gritar e se contorcer enquanto meu corpo se deleitava com a sensação dela me enchendo de uma forma tão maravilhosa.
Ela desabou sobre mim, tremendo como se tivesse febre, o limite infinitesimal entre nós escorregadio com nosso suor. Lentamente, em deliciosos graus, ela amoleceu; gemi de decepção quando ela gemeu baixinho e escorregou para fora de mim. Um fluxo de fluido quente a seguiu e escorreu sobre meu pequeno broto hipersensível e dedos; o cheiro quente e inebriante de sexo coroado pelo mais leve toque de enxofre nos cercou.
Ela deslizou lentamente para fora de mim e envolveu seu braço em volta de mim; seu pênis semi-flácido e bastante pegajoso tremendo e deixando um rastro de umidade na parte de trás da minha coxa.
Ela se aninhou e encostou seu rosto contra mim novamente, eu virei o meu e encontrei seus lábios e a beijei lenta e languidamente para agradecê-la pelo belo presente que ela nos dera.
Então estendi meu próprio braço e a envolvi e a segurei contra mim, nariz com nariz, testa com testa, bochecha com bochecha, um pequeno triângulo de intimidade absoluta.
— Minha — ela sussurrou, mais uma vez, e eu encarei sem fôlego as brasas abafadas de seus olhos gloriosos.
Havia uma dor estranha em meu peito.
E eu tive que lutar contra o impulso súbito de chorar.
ΩDias se tornaram semanas, semanas se tornaram meses. O meio do inverno e o Natal e o ano novo Lá Embaixo vieram e se foram, e eu guiava e pastoreava minhas almas dia após dia.
Mas agora, havia complicações adicionais.
Porque Caitlyn e eu tínhamos iniciado um tipo estranho de amizade.
E a culpa de esconder isso de Jezebel estava me corroendo lentamente.
Toda vez que eu pensava em contar para minha... bem, o que quer que ela fosse para mim, eu me acovardava.
Era difícil demais.
Então, como uma covarde, eu me escondia.
Me escondia entre suas coxas, ou debaixo dela, úmida e ofegante sobre ela enquanto ela me cavalgava.
Ou me escondia em cafés e bibliotecas ou sob os galhos copados de árvores em minhas frequentes caminhadas com Caitlyn lá embaixo.
Caitlyn.
Preciosa, inocente e viva Caitlyn.
Legal, de muitas formas. Danificada, estranhamente distante às vezes, quase maniacamente presente em outras.
Eu sentava e ficava observando-a, observando o jeito como a emoção passava por seu rosto, observando o jeito como ela rabiscava em seu bloco de desenho, observando o jeito como ela timidamente colocava o cabelo atrás da orelha quando percebia o quão atentamente eu a observava.
Nunca fui boa com nuances, então não sabia o que estava fazendo.
Nem mesmo quando ela me perguntou se podia me desenhar.
Levou um certo convencimento; algum medo profundo me alertava contra isso.
Mas... eu descobrira que não era forte o suficiente para dizer não a ela. Uma dor compartilhada, algum eco daquele primeiro breve abraço havia me prendido como areia movediça, e toda vez que eu tentava escapar eu simplesmente me afundava mais.
Então eu sentei lá, presa como uma borboleta a uma página, e então balancei a cabeça com um sim tenso e nervoso.
E observei enquanto ela capturava meu rosto com traços rápidos e angulares.
— Eu não sou tão bonita assim — arrisquei, uma vez.
— Não me diga o que você é — ela respondeu, suave e calma, enquanto sombreava as olheiras ao redor dos meus olhos.
E então eu segurei minha língua, e sentei, e observei, hipnotizada, enquanto eu ganhava vida sob seus cuidados gentis.
E a partir dali, minha queda na tolice foi rápida e irreversível.
Caitlyn me pedia para posar para ela talvez uma vez a cada duas semanas; e logo se tornou algo que fazíamos.
E enquanto ela me desenhava nós conversávamos — ou melhor, no começo ela falava, e eu escutava. Eu escutava os pequenos contos solitários de sua vida; crescendo como filha única, uma longa sequência de escolas provocada pelo hábito de seu pai de beber e discutir com a equipe por ofensas reais (ou percebidas).
Como ela conhecera Rhiannon no nono ano, e manteve contato apesar de mudar de escola mais uma vez. Como elas conspiraram juntas e de alguma forma acabaram como calouras juntas em Cardiff.
Onde Rhiannon descobrira o quanto os garotos eram divertidos.
E Caitlyn percebera que estava apaixonada por sua melhor amiga.
(Ela fizera uma pausa naquilo, seu lápis parando lentamente. Eu percebi que ela estava lutando contra as lágrimas.)
E assim o tempo passou.
E eu me tornei confortável perto dela.
Confortável o suficiente para começar a falar sobre meu passado, e algumas das... coisas mais difíceis que eu tivera que fazer.
Passamos a nos abraçar — tanto no cumprimento quanto na despedida.
Eu ansiava pelo meu tempo com ela.
Era privado. Só meu, não dizia respeito a mais ninguém.
Comecei a visitar à noite; eu sentava na cama de Caitlyn e ela sentava em seu banquinho, e nós conversávamos e bebíamos chá e ela me desenhava.
E de alguma forma, em algum lugar, eu me tornei ousada o suficiente para pedir que ela fizesse um retrato de corpo inteiro meu.
Ela estava insegura no começo.
Mas conversamos sobre.
E na próxima vez que fui visitar, eu me vestira apropriadamente — com o vestido de linho antiquado que eu ainda gostava de usar às vezes.
ΩEla fez um barulho, e colocou o lápis de lado.
— Você está bem? — perguntei do meu poleiro em sua cama.
— Não. Minha mão está doendo. As dobras desse vestido estão me irritando.
— Ah. Desculpe. Eu deveria ter...
— Você está perfeita nele — ela acrescentou. — É um ótimo visual para você. Só é um saco completo de desenhar. É por isso que muitas vezes desenhamos ou pintamos nus. Menos trabalho. Tecido é difícil.
— Suspeito que você está revelando segredos do ofício.
Ela me olhou, divertida. — Talvez eu esteja.
Eu a observei, notando o quão forte ela estava pressionando as mãos.
— Cait?
— Sim — ela murmurou, distraída.
— Eu sempre poderia... sabe.
— O quê?
— Eu sempre poderia ficar nua, sabe.
Ela fez uma pausa por um bom tempo, então tossiu.
— Não vou negar que seria muito mais fácil. Mas... Jenny... tem certeza de que está confortável com isso?
— Sim — respondi, suavemente. — Estou... razoavelmente confortável com meu corpo, hoje em dia.
Eu me sentei, e comecei a desabotoar a fileira de botões que iam dos meus seios até mais ou menos o meio do umbigo. Tirei um ombro de fora, depois o segundo, e deslizei meus braços para fora das mangas. Fiquei de pé, e deixei o vestido cair no chão.
Caitlyn ficou sentada, me encarando, de boca aberta. Então ela pareceu perceber o que estava fazendo.
— Desculpe — ela gaguejou. — Você... você é tão elegante...
Eu corei.
— Há muitos anjos mais bonitos lá em cima — sussurrei, subitamente tímida. — Demônios também — acrescentei, pensando com culpa em Jezebel e suas curvas encantadoras.
Abaixei a cabeça e encarei o chão enquanto alcançava atrás de mim para abrir o fecho do meu sutiã simples de algodão branco.
Deixei-o cair no chão.
— Merda — ela sussurrou.
— O quê?
Eu olhei para ela.
Seu rosto estava vermelho fogo.
— Desculpe, desculpe — ela disse, claramente abalada. — Eu estou... estou sendo muito pouco profissional. É só... uau. Uau, Jenny, você é tão... ah, Deus, você é tão linda.
Sorri com aquilo, aquecida por inteiro, e lentamente deslizei minha calcinha rosa suave pelas pernas.
— Pronto — eu disse, timidamente. — Tudo feito. Hum... como você quer que eu... pose?
— Hum... — ela disse, parecendo igualmente tímida. Ela estava olhando para todo lugar menos para mim. — Como... como você quer que eu te desenhe?
— Eu... acho que eu poderia... recostar um pouco, ou algo assim?
— Nos travesseiros? — ela perguntou, ainda sem me olhar exceto por um rápido lampejo de seus olhos.
— Sim. Hum... posso empilhar o cobertor, e me apoiar nele. E então, quando você quiser fazer minhas asas, a gente pode... fazer um plano, eu acho?
— Certo... — ela disse.
— Caitlyn?
— Sim — ela trêmula.
— Você está... olha, se isso for te deixar desconfortável...
— Não... não... vou ficar bem. É só que... eu nunca tive uma garota nua no meu quarto antes e... e minha mente está sendo estúpida e... me desculpe. Você deve achar que sou uma bagunça completa...
— Tudo bem — eu disse, gentilmente. — Como posso ajudar?
— Vamos só começar — ela sussurrou, ainda corada como a aurora. — Eu vou... me superar. De um jeito ou de outro.
Sentei-me em sua cama, e então me aninhei contra a pilha de travesseiros e cobertores. Levantei um joelho levemente e me virei em direção a ela. Descansei minha cabeça em meu braço dobrado, então balancei o segundo para ela. — Não sei o que fazer com este aqui — anunciei.
— Só... deixa ele descansar sobre sua barriga, eu acho — ela conseguiu dizer. — Não... não tão baixo — ela disse, com uma risada engasgada, enquanto eu o curvava sobre meu monte de vênus. — É... perturbador. Merda.
Eu a observei, simpatia e diversão brigando.
— Cait?
— Desculpe. Só estou... só estou pirando. Isso vai passar.
— Você não fica com ninguém há um tempo, não é? — perguntei.
Ela começou a traçar linhas longas e curvas na folha nova que prendera no cavalete.
Demorou um pouco para responder.
— Eu... nunca fiquei com ninguém — disse ela. Suas orelhas estavam em chamas.
— Oh.
— Eu estava, estupidamente, me guardando na esperança de que... porra, sei lá, que um raio caísse do céu e a Annie... caísse em si. Eu teria... teria deixado ela me ter. Teria gostado de deixar ela ser minha primeira vez.
— Era um lugar difícil de estar — solidarizei-me. — Mas... já faz seis meses. Eu sei que provavelmente ainda é uma ferida aberta, mas... realmente não houve ninguém?
— Você é a única garota com quem eu passo tempo hoje em dia — murmurou ela.
— Oh.
Refleti sobre aquilo por um tempo enquanto ela prendia mais de mim no papel.
— Isso soa muito solitário — eu disse, suavemente.
— É. Eu tenho... amigos homens. Mas...
— Você é gay — respondi, sem julgamento.
— Sim — sussurrou ela. — Que clichê. A artista gay e assombrada. Que irônico.
— De forma alguma.
Observei-a enquanto ela dava forma aos meus quadris.
— Jenny?
— Sim?
— Anjos... hum... você sabe...
— Fazem sexo?
— É — ela respirou.
— Não muito eles, não. Mas... demônios e Revenants como eu transam como coelhos — eu disse. — Demônios porque, bem... é a natureza deles. E acho que é a nossa também, já que somos... quase humanos.
— Oh. A Igreja teria um ataque.
— Os Santos enfiam os dedos nos ouvidos e fingem que não acontece, mas... todo mundo precisa ser tocado, e... o trabalho é duro. Destrói a alma em alguns casos. Às vezes você só precisa de alguém para te abraçar.
— E... você faz?
— Às vezes — eu disse suavemente.
— Com... meninos?
— Não — eu disse, com firmeza.
— Oh — ela sussurrou. Seu lápis pausou, depois retomou.
— Então você é... como eu? — perguntou ela, suavemente.
— Muito parecida, em muitos aspectos, eu acho — respondi. — Mas... gênero não importa muito lá em cima. É só que para mim... é... ainda é difícil, às vezes.
Ela ergueu o olhar para mim; ainda corada, mas também muito séria.
— Eu... acho que entendo — disse ela. — Pelo que vale... hum...
— O que é? — perguntei, curiosa.
— É só que... eu queria...
— Queria o quê? — respirei.
— Queria poder conhecer alguém como você — disse ela.
Ela ergueu seu olhar assombrado para mim, depois desviou o olhar novamente. Ela girou os ombros e começou a sombrear as sombras ao redor das minhas costelas e seios.
Mudei levemente os quadris, intensamente consciente de duas coisas. Primeiro, tínhamos entrado em areia movediça. E segundo, meus mamilos estavam duros e havia um calor crescente no meu ventre.
Eu estava muito consciente do olhar dela; ela tentava desesperadamente não encarar meus seios ou o triângulo emoldurado da minha virilha com poucos pelos. Havia uma cor alta em suas bochechas e garganta; suspeitei que ela também não estava tão indiferente quanto gostaria de estar.
— Você tem um... parceiro? — perguntou ela, gaguejando levemente.
— Às vezes. Mas... o trabalho dela é duro, então não nos vemos muito.
— Deve ser solitário.
— É muito solitário lá em cima. É parte do motivo pelo qual eu aproveito esses momentos com você.
— Eu também aproveito — sussurrou ela. — Eles... você me dá algo pelo que esperar.
— Desculpe ser tão complicado.
— Sim. É... estranho, não é? Isso me faz desejar que você fosse humana para eu poder te ver com mais frequência.
Ela suspirou e tentou rolar um pouco da tensão para fora do pescoço.
Observei-a, notando a forma como ela estremeceu.
— Cait? Você está dolorida?
— Muito — ela respirou.
— Aguenta aí — eu disse. — Deixa eu ajudar.
Sentei-me e balancei as pernas para fora da cama, então caminhei suavemente até ficar atrás dela. Coloquei minhas mãos em seus ombros e a puxei para trás até que sua cabeça descansasse contra minha barriga. Comecei a esfregar seus ombros, a massageá-la, hiperconsciente da intensidade da sensação de seu cabelo contra minha pele, da iluminação suave e quase romântica do quarto, e de como meu coração estava acelerado.
Caitlyn soltou um pequeno gemido patético.
— Isso é tão bom — ela lamuriou. — Oh, isso é tão bom. Oh, suas mãos são tão macias, tão quentes...
Olhei para ela, para o espaço entre seus pequenos seios. Ela estava tremendo contra mim e arrepios haviam surgido em seus braços. Sua cabeça pendeu para o lado, expondo a curva de sua orelha e a linha de seu pescoço pálido sob seu cabelo negro como sombra.
Encarei seu lóbulo, sua garganta, a pequena fileira de botões azuis que eram tudo o que mantinha sua blusa no lugar e o resto dela escondido de mim.
Enfiei os dedos sob sua gola, ela gemeu suavemente, virou ainda mais a cabeça para que sua bochecha estivesse quente contra minha pele.
E fui diretamente levada à tentação.
As alças do sutiã estavam no caminho; eu as empurrei lentamente para fora sobre seus ombros, apreciando a forma como sua blusa pendia um pouco mais aberta, expondo um pouco mais para minha visão por cima do ombro.
— Você é... tão legal — ela sussurrou.
Ela ergueu a mão, segurou as minhas, manteve-as por um batimento cardíaco.
Então, sem se mexer de outra forma, ela atrapalhou-se com os botões e os abriu um após o outro.
O tecido de sua camisa caiu em dobras para longe dela; eu podia ver seus mamilos espiando pelo espaço entre seus pequenos bojos de renda e o alabastro pálido de seus seios.
Ela pegou minhas mãos novamente e lentamente, infinitesimalmente, as guiou para baixo e para dentro da renda com um suspiro trêmulo.
Soltei um gemido baixo de necessidade quando senti seus mamilos entre meus dedos. Ela estremeceu, joelhos se apertando com força, um som sem palavras escapando dela. Dobrebei seu top para trás, encontrei o fecho do sutiã e o desprendi. Deixei o sutiã e a blusa deslizarem por suas costas enquanto me inclinava e começava a beijar o arco gracioso de seu pescoço. Seus seios primorosos eram pequenos e firmes sob minhas mãos, e seu coração batia ainda mais rápido do que o meu.
— Diga para eu parar — sussurrei para ela.
— Não — ela gemeu.
— Diga para eu parar ou eu não vou.
— Nunca — ela choramingou. — Eu... eu quero que você me toque assim. Eu... estou pronta para isso...
Inclinei-me ainda mais para frente, comecei a puxar o tecido de sua saia, levantando-a ao longo de suas coxas. Ela choramingou, contorcendo-se contra mim.
— Caitlyn — eu respirei.
— Uh... huh...
— Você... se toca?
— Às vezes... — ela arfou.
— Ok. Então... você sabe o que estou prestes a fazer, então.
E deslizei minha mão entre suas coxas e encontrei sua calcinha e a afastei; ela gritou em choque, então cedeu a um gemido baixo e gutural quando encontrei sua fenda encharcada e tateei seu clitóris pequeno e firme.
— Oh... oh Deus — ela choramingou enquanto suas coxas se espasmavam fechadas sobre mim.
Ela estava encharcada, quente e pronta.
Eu a queria.
Mas o ângulo era muito desconfortável.
Então me afastei e pisei ao redor dela.
Ela tinha acabado de tomar fôlego para começar a reclamar quando coloquei meus braços sob suas coxas e a levantei diretamente para cima.
Ela gritou, agarrando seus braços instintivamente ao meu redor e me encarando com uma expressão quase assustada.
— Oh, porra, você é forte — ela disse, trêmula.
— Não. Você é apenas muito esbelta. Cait?
— Sim?
— Sua cama seria... melhor... para isso — sussurrei.
Ela acenou hesitantemente.
E eu a carreguei e a coloquei gentilmente no chão. Desfiz os botões na cintura de sua saia, e abri o pequeno zíper. Eu a puxei gentilmente para fora; ela engoliu em seco e então empurrou sua calcinha lavanda (com sua mancha úmida pronunciada) por suas pernas para que eu pudesse terminar o trabalho para ela. Ela lutou para sair do sutiã e da camisa, então recuou, me encarando.
Ela estava corada, tremendo levemente. Seus mamilos estavam rosados e eretos; eu quase podia ouvir seu pulso acelerado. Os espessos cachos negros de seus pelos pubianos — tão estranhos para mim — eram um marcador enormemente erótico. Ela me viu olhando, apertou as pernas como se tímida antes de perceber o que estava fazendo e lentamente, hesitantemente, se abrir para mim.
Seus lábios brilhavam sob a iluminação suave, molhados e prontos; senti um pulso quente de necessidade.
— Cait — eu disse, suavemente. — Eu não vou fazer isso se você não quiser que eu...
— Eu quero, eu quero — ela gaguejou. — Eu... estou só tão...
— Nervosa? — sussurrei. — Não fique.
Sentei-me na cama e enrolei minhas pernas. — Nós não precisamos...
— Não! — ela arfou. — Estou... estou cansada de não saber. Como é. Eu quero fazer isso. Por favor, só... você pode me pegar?
— Eu não vou pegar nada — eu disse. — Não é assim de jeito nenhum. Não quando é... consensual. Gentil. Eu quero que você fique confortável. Ajudaria se... se eu deixasse você me tocar?
Ela engoliu em seco, acenou.
— Ok. Eu vou... montar em você, ok?
— Ok — ela disse.
Mudei-me para mais perto, joguei minha perna sobre ela. Ela encarou minha virilha exposta e aberta, e senti um pequeno arrepio de prazer quando ela engoliu em seco.
— Você é... tão limpinha — ela sussurrou. — Você... você se depila?
Eu sorri. — Não. Eu só... nunca parece ter crescido muito lá embaixo, mesmo quando eu estava... viva. Apenas a mais leve das penugens.
— É muito sexy — ela disse. — Posso... posso...
E encontrei sua mão e coloquei seus dedos em mim e fechei os olhos, estremecendo com força enquanto ela tateava minha abertura escorregadia e molhada.
— Oh — ela respirou.
Abri os olhos, olhei para ela, para seus pequenos mamilos duros e sua barriga lisa e flexível.
Inclinei-me para frente e lambi seu seio esquerdo; ela estremeceu. Seu dedo se moveu e serpenteou lentamente contra mim; sua inexperiência era clara.
— Assim — eu respirei, mostrando a ela o que eu gostava — como deslizar a ponta do dedo para frente e para trás sobre mim, da pequena dobra do meu nódulo até a abertura da minha entrada. Estremeci novamente.
— Oh meu Deus — ela sussurrou, e percebi que minhas asas haviam se juntado à festa.
— Malditas coisas — eu gemi. — Têm mente própria.
— Elas são... lindas... — ela conseguiu. — Oh, oh uau, você é tão quente por dentro...
Eu ri, capturei seu mamilo gentilmente entre lábio e dentes.
— Nunca... colocou o dedo... em você? — provoquei, palavras abafadas.
— Não — ela choramingou. — Não... gosto da ideia de... ser penetrada...
— Eu adoro, quando são... dedos. Coloque seus dedos em mim de novo.
E então comecei a rebolar lentamente ao longo dela, conduzindo seus dedos curvados para dentro e para fora de mim.
Era bom. Ela era agradável, e quente, e viva.
Aproveitei observando as expressões em seu rosto, a forma como ela encarava meus seios ou se erguia para ver meus lábios se moverem ao redor de seus dedinhos exploradores.
Algo não estava certo, no entanto; algo estava faltando, minha frustração estava aumentando, mas não... prenúncio... de liberação.
Não.
Algo.
Nada.
Nada parecia certo.
Nada era como deveria ser.
Sem calor, sem especiarias, sem hálito profundo e sensual desta filha do Homem...
Isto era sexo, não fazer amor.
— Preciso de ajuda — arfei. — Nervos ou algo assim.
Tateei para baixo, encontrei meu clitóris, comecei a me masturbar enquanto ela sondava para dentro e para fora de mim. Ela estava ofegante agora, boca aberta, olhos arregalados e pupilas dilatadas.
Luxúria, pensei comigo mesma. Ela tem luxúria por você, por isso. Luxúria, mas nada mais. Nada mais profundo para nós.
Necessidade básica. Mas nada além disso.
Um estremecimento de algo próximo ao desespero percorreu-me; arfei, caí para frente.
— Mais forte — implorei, desesperada para afastar a percepção do meu erro catastrófico.
Ela fez o seu melhor, ofegando pequenas respirações doces enquanto eu cavalgava e rebolava e a usava, e entre ela e meus dedos eu finalmente encontrei liberação de um tipo — um anticlímax breve, quase apologético, nem perto da minha perda de si habitual e prolongada e espasmódica com...
Jezebel, eu quase pronunciei. E mordi forte minha língua para entorpecer a dor com outra dor.Caitlyn não percebeu. Ela estava consumida demais pela sensação de mim sobre ela, pelo toque do mamilo que passava perto o suficiente para que ela o alcançasse, pelas sensações do suor formando contas em nossas coxas internas.
Olhei para ela.
Ela era linda.
Verdadeiramente linda.
Mas... não era o meu tipo de beleza.
Não era o que eu precisava, no fundo do meu coração.
Abaixei-me e me aninhei contra ela, e lutei para afastar minha escuridão por um batimento cardíaco.
Ainda estava excitada.
E podia sentir que ela também estava.
E... tinha sido bom tê-la dentro de mim.
Mesmo dessa forma profundamente insatisfatória.
Ergui-me de cima dela e recuei.
— Minha vez — respirei, fazendo o meu melhor para esconder minha mudança de humor. — Posso?
Ela gemeu consentimento.
Gentilmente levantei suas pernas, abri-a, passei um momento admirando-a. Seus lábios eram minúsculos, finos como ela, mas corando quase vermelho-cravo com sua excitação.
Uma obra de arte; acariciei-os brevemente, divertida pela forma como ela esperneava e gemia novamente.
Abaixei-me na cama e me aconcheguei ao lado dela, conseguindo de alguma forma tornar minhas asas um pouco menos presentes, se não totalmente desaparecidas. Enganchei sua perna sobre mim, e enfiei meu rosto de volta em seu pescoço, apreciando seu pulso acelerado, sua vitalidade interior brilhante, e usando isso para me camuflar.
Eu podia pelo menos fazê-la se sentir bem.
Eu podia dar isso a ela.
Tateei por ela, encontrei-a.
Ela estava encharcada agora; o cabelo escuro que revestia seus lábios emaranhado e colado à sua pele. Passei meu dedo ao longo dela, apreciando mesmo em meu estado perturbado a forma como ela gemia e arqueava para cima da cama.
Ela estava tão pronta.
— Cait? — sussurrei.
— Uh... huh... — ela gemeu.
— Me diga se... eu fizer algo que você não goste...
E eu a abri, e encontrei seu clitóris, e comecei a circulá-lo gentilmente com a ponta do meu dedo.
Ela espasmou, agarrou minha mão.
— Gentilmente — ela arfou. — Gentilmente, eu... sou muito sensível...
E ela lentamente guiou a ponta do meu dedo — tentativa, cautelosa, quase como pinceladas sobre seu sexo escorregadio e pegajoso.
De forma alguma como minha amante adorava, veio o pensamento traiçoeiro, e eu arfei uma respiração dolorosa e mordi o lábio.
— Oh, oh uau — ela choramingou. — Oh, oh, isso é tão incrível, oh você é tão legal, oh...
E como a mentirosa que eu era, fiquei ali deitada, e fiz todos os sons certos e disse todas as coisas certas e a segurei enquanto a levávamos para cima e para além, em um orgasmo massivo que sacudiu suas costelas e a deixou sem fôlego e choramingando, enrolada contra mim.
Ela se arqueou com força contra mim; eu fui quase rápida o suficiente para me virar.
Quase.
Mas não rápida o suficiente, pois mesmo em meu estado confuso e frio eu não queria machucá-la.
Então... eu a deixei me beijar. E fingi beijá-la de volta.
E menti com meu corpo mesmo que tenha contado alguma verdade com minhas palavras; dizendo a ela o quanto ela era especial, o quanto era linda, o quanto era bom senti-la, o quanto tinha sido maravilhoso fazê-la gozar...
E então eu a segurei contra mim e encarei muito além de seu teto e tentei, com muita força, não pensar em Jezebel.
Não nos movemos por um bom tempo; ambas respirando suavemente, pensando, o cheiro de nós pungente no quarto sufocante.
O humor de Caitlyn também parecia ter mudado; talvez ela sentisse que tinha apressado aquilo, que não estava pronta. Talvez a clareza do depois tivesse caído sobre ela e a loucura do que tínhamos feito tivesse se registrado.
Seja o que fosse, o constrangimento floresceu entre nós onde antes havia entendimento.
Tentamos conversar, continuar.
Pequenas investidas corajosas, alguns toques leves, um pouco de flerte abortivo.
Mas o momento havia passado.
E nenhum de nossos corações estava mais nisso.
Tínhamos perguntado o grande "E se", e eu tinha achado a resposta nem um pouco do meu agrado.
E assim, no final, eu me levantei e vesti meu vestido de volta sobre o corpo, abandonando meu sutiã como esforço demais e deixando-o desaparecer.
Ela sentou na cama, me observando, olhos escuros e ilegíveis.
— Pelo menos ganho um abraço? — perguntei, sentindo-me abatida e suja e totalmente para baixo.
E ela veio até mim e me abraçou e se apertou contra mim.
— Isso foi legal. Talvez de novo, algum dia. Até mais — ela sussurrou, de uma forma tão estranha e afetada como eu jamais a ouvira usar.
— Sim — eu consegui. — Algum dia.
— Voo seguro — ela disse. Ela deu um sorriso falso.
Beijei sua testa.
Ela recuou, e eu abri minhas asas, e me desloquei para longe.
ΩFazia uma semana, e minha culpa tinha se tornado insuportável.
Eu estava miserável, esfarrapada e dilacerada, caindo.
Estava me escondendo de Jezebel, e suspeitava que ela estava bem ciente de que eu estava longe de estar bem.
Também estava fingindo muito para Lucius, mas sabia que nem ele nem Azrael estavam sendo enganados.
Estava ficando sem tempo emprestado, e o pagamento dos juros estava chegando.
Eu sabia que Lucius estava me seguindo; desesperadamente preocupado de que eu fizesse algo... impetuoso.
Em vez disso, eu só... afundei em melancolia.
(É um risco do trabalho para nós.)
E assim eu havia me retirado para Arcádia.
E a paisagem captou e amplificou minha depressão.
Eu me sentei, asas parcialmente enroladas ao meu redor como uma tela — tão dramático e temperamental, a parte recém-revigorada e autodepreciativa de mim foi rápida em apontar sarcasticamente.
Olhei ao redor para a charneca sombria e desolada que era a versão de hoje do meu mundo.
Espelhava meu humor perfeitamente.
Eu... falhei. Falhei comigo mesma e falhei com Caitlyn. Eu nunca deveria ter deixado que ela começasse a me desenhar; nunca deveria ter cedido ao impulso tentador de... me misturar.
Eu nunca deveria tê-la tocado.
Certamente nunca deveria tê-la fodido.
Eu destruí absolutamente tudo o que eu valorizava.
Olhei do alto do pequeno túmulo, o olhar fixo no horizonte distante.
Cortinas de chuva moviam-se sobre as colinas longínquas, e o vento sussurrava através dos longos caules de grama, chacoalhando as vagens secas e as folhas como ossos velhos e há muito mortos.
Musgo e líquen cobriam pedras antigas, nem mesmo um pássaro se movia pelo céu amargo.
Minha percepção de Caitlyn ainda estava lá; ela passara parte do dia seguinte ao nosso... caso... no túmulo da amiga.
Provavelmente se confessando.
E agora parecia ter escolhido vagar ao acaso.
Eu tentara, desesperadamente, me afundar em trabalho e álcool. Rechaçara o contato de Jezebel e de Lucius.
Rosnara para Azrael e ganhara a manifestação aterrorizante de seu Aspecto pela minha temeridade.
Eu estava afundando.
Então hoje eu (metaforicamente) me prostrara diante de meu mestre — implorando por seu perdão, pedindo tempo. Ele me encarou duramente, mas nada disse, apenas acenou com a cabeça de forma brusca em resposta ao meu pedido desesperado.
E eu deixara sua presença e fugira para cá.
Para ficar de mau humor, a princípio.
Mas, logo em seguida, para chafurdar.
Para lamentar.
Envolvi-me em braços e asas, miserável.
Rajadas de vento desgrenharam minhas penas, desordenando-as — Arcádia mais uma vez espelhando meus arrependimentos e angústia interna.
Uma tarefa horrível me aguardava.
Eu tinha que contar a Jezebel.
Tinha que contar o que eu fizera.
Tinha que encontrar coragem para... me confessar a ela.
Isso estava... me matando, por mais errada que essa palavra fosse, mas... tudo era um desastre e eu precisava que ela soubesse.
De todos no Céu e no Inferno, ela era a única de quem eu mais precisava.
E eu a traíra.
Engoli o soluço.
Aquela noite. Aquela noite em que ela estivera comigo.
Eu quase dissera a palavra. Ah, eu já a lançara antes, como piada, ou como um simples dizer afetuoso quando estávamos juntas.
Mas naquela noite eu quase deixara escapar que a amava.
A palavra que me ligaria a ela e a ela a mim, mesmo que ela nunca a dissesse de volta.
Às vezes eu quase pensava ver algo em seus olhos quando ela me observava.
E ela... dissera aquela outra palavra para mim.
Minha.Daquele jeito quente, possessivo, mas acima de tudo afetuoso.
Como havíamos passado daquilo para... tudo isso?
Simples.
Minha estupidez.
Meu egoísmo.
Meu desejo de ser especial, de ter algo especial.
Teria tudo isso sido uma reação às palavras dela para mim? Eu tinha medo de ser... querida? Necessária?
Isso era simples autodestruição?
Jezebel...
Eu era... importante para ela?
Será que ela... pensava em mim daquele jeito? Do jeito que eu pensava nela?
Desabei ainda mais.
Ah, foda-se, que bagunça horrível eu fizera de tudo.
E agora... agora eu enredara Caitlyn na minha bagunça também.
Dormira com ela, estivera com ela daquele jeito supremamente injusto, tirando dela o que poderia ter sido uma lembrança brilhante e tornando algo... barato, cafona e, acima de tudo, sórdido.
Eu pegara uma inocente e a arruinara.
Eles me mandariam de volta ao Limbo. Nunca mais confiariam em mim com responsabilidade alguma.
Bem que eu poderia me arrastar para aquele último e longo salto rumo ao além...
"Gwenhwyfar?"
Eu pulei, funguei, esfreguei furiosamente os olhos.
"Oi," anunciei, incapaz de manter a emoção fora da voz, suja demais para ousar pronunciar o nome dela.
"Onde você está?"
"Estou... aqui," sussurrei.
"Posso me juntar a você?"
O fatalismo me tomou.
"Sim," respondi, enquanto a esperança me abandonava.
Um cheiro de enxofre no ar, rapidamente varrido.
E lá estava ela, alta, exótica e linda em seu top vermelho colado e calças pretas justíssimas e botas de cano alto, olhando para mim, a preocupação franzindo sua testa.
"Ah, Penas," ela disse, caindo de joelhos diante de mim. "Ah, não. O que foi? Me conta, querida..."
E o calor e o afeto em sua voz me despedaçaram.
Caí para a frente como se tivesse levado um chute no estômago, e me enrolei, soluçando.
Ela colocou os braços sob mim; eu me agarrei a ela.
"Jenny, Jenny, minha querida, fala comigo, vamos," ela sussurrou. "O que foi?"
Eu não tinha escolha senão confessar meus pecados.
Lutei para respirar.
"Jen," ela sussurrou. Ela se inclinou para a frente, como se fosse me beijar; eu tinha que impedir aquilo... eu não merecia...
"Eu... eu... eu dormi com ela..." eu arquejei.
Ela congelou, e meu coração morreu dentro de mim.
"Com... quem."
Suas palavras foram lentas, suaves e sem emoção, como se lesse um roteiro.
"Ela. Ela. A garota. Aquela garota..."
Senti-a estremecer, respirar fundo.
"A... garota humana? Jen? Que porra é essa?"
"Me desculpa," eu lamentei. "Me desculpa, eu... eu fui fraca, e não devia...isso..."
"Você... você dormiu com ela. Porra... eu só... porra..."
A dor crua e sem filtro em sua voz foi como uma faca em meu cérebro, torcendo e girando, fatiando e embaralhando os últimos pedaços intactos de mim.
Ela me soltou e recuou sobre os calcanhares.
Eu estendi a mão para ela, ela afastou minha mão súplice, e de novo.
"Por favor," eu soluçava.
"Não," ela disse, fria como gelo, dura como pederneira. "Não. Eu... não posso acreditar. Você não faria isso comigo. Você não ousaria fazer isso comigo. Isso é... é alguma piada de mau gosto? Algum teste idiota de merda?"
Eu a encarei, de coração partido.
Arruinada.
Destruída.
Tudo em cinzas agora.
"Não," consegui, com uma voz minúscula. "Eu fiz."
Ela fechou os olhos, pareceu cambalear e se encolher em si mesma.
"Ah... vai se foder," ela sussurrou, por fim, a voz estranha com harmônicos esquisitos.
E ela começou a chorar, e virou as costas para mim.
"Espera!" eu implorei, desesperada por qualquer migalha, "Ah, por favor, espera..."
"Não mais," ela rosnou em meio às lágrimas. "Nunca mais, sua... sua monstruosa, repugnante, desmedida, monumental vadia."
Ela me encarou, e então apertou os braços contra si mesma.
Calor floresceu dela, chamas branco-azuladas dançaram em seus olhos.
"Nunca mais escureça minha existência," ela disse, num tom suave e sem emoção, ainda mais terrível pelos dois rastros de sal seco e incrustado que serpenteavam por suas faces altivas.
Uma ondulação, e ela desapareceu.
E eu caí para a frente na lama insensível e vomitei bile até não sobrar mais nada em mim.
Foi Lucius quem veio me encontrar por fim; foi Lucius quem me carregou para casa, e foi Lucius quem me segurou e me guardou enquanto eu despencava numa escuridão negra e impensante da qual eu desesperadamente desejava nunca acordar.
Ω"Gwen?"
Sua voz era gentil.
Eu olhava para as colinas distantes além da planície de pedras eretas.
Os Portões do Crepúsculo se arqueavam atrás de mim.
"O que foi."
As palavras eram difíceis de formar. Fazia um tempo que eu não falava. Quanto tempo, eu não sabia. Séculos, talvez. Séculos de ódio a mim mesma, ininterrupto, negro.
"Faz uma semana, minha amiga."
Apenas uma semana?
Impossível.
"Você não pode chafurdar assim. Os mortos precisam de você. Nós precisamos de você."
Ninguém precisava de mim.
"Gwenhwyfar."
Suas mãos estavam quentes e firmes em meus ombros.
Eu mexi o maxilar, mas nenhum som saiu.
"Ela vai voltar," ele disse, suavemente. "Ela é... tempestuosa. A raiva dela incendeia, depois se apaga."
"Não... desta vez," consegui, a voz rangendo de desuso. "Ela nunca mais vai voltar. Acabou. Eu estraguei. Estraguei tudo. Estou acabada. Acabada, Lucius. Eu quero..."
"O que você quer, minha cara amiga?"
Sua voz estava calma, mas eu podia ouvir o medo que ele se esforçava tanto para esconder.
De alguma forma consegui me virar para encará-lo.
"Quero que você vá até Azrael por mim. Quero... quero um fim. Ômega. Pergunte a ele. Por favor."
"Não," ele sussurrou, horrorizado. "Essa não pode ser sua escolha depois de tudo isso, depois de tudo que você sobreviveu. Não. Não posso."
"Não posso voltar, e não posso ficar. O que mais há."
"Por que você não pode voltar?"
"Para quê?" eu exigi, amarga. "Outra vida de dor, outro ciclo, outros no máximo oitenta anos de perda e sofrimento e... e, provavelmente, morte violenta? Você gostaria que eu fosse estuprada de novo, Lucius? Gostaria que o sangue da minha vida escorresse pelo barro enquanto mais barro é empilhado sobre mim, bloqueando minha boca, me sufocando, abafando meus gritos por misericórdia? Você pediria isso de mim?"
"O mundo mudou, Gwenhwyfar."
Sua voz estava áspera. Eu nunca lhe contara todos os detalhes, e acho que ele nunca olhara para a pequena ficha no grande Relicário que registrava minha triste, pequena vida.
Lucius era honrado. E totalmente desperdiçado em mim.
"Não tanto assim," eu sussurrei em resposta. "Eu provei isso."
"Você cometeu um erro, Gwenhwy..."
"Eu arruinei três vidas!" eu gritei, agarrando-me a ele. "O que mais você precisa para entender que eu não valho o seu amor! Eu não sou sua filha! Ela está morta! E eu também! Então me deixe ir!"
Ele abriu a boca para responder, mas pareceu incapaz de encontrar palavras.
Eu o encarei, horrorizada comigo mesma... e de alguma forma, de alguma forma eu estava chorando de novo.
"Me desculpa, ah, ah, me desculpa tanto," eu soluçava. "Não queria... não queria... machucar você também..."
"Você não é Adelia. Eu a amei com todo meu coração, mas você também me é cara," ele disse, a voz embargada. "Por favor, Jenny. Andei ao seu lado por mais de um século e meio. Você é minha família. Por favor! Ainda há algo a ser salvo disso tudo..."
Uma solidão estranha e pesada se instalou em mim; senti uma imensidão além se avizinhando na ponta de meus dedos.
"Não," eu disse, suavemente. "Não, eu... estou acabada com isso. Não aguento mais."
Ele fechou os olhos, encontrou algum reservatório de força interior.
"Você vai precisar falar com Azrael você mesma," ele disse. "Eu não vou levar essa mensagem a ele. Eu me recuso."
"Então eu mesma farei isso," respondi, não menos suavemente.
Nós olhamos para as pedras.
Os dentes roedores da Criação, veio o pensamento repentino e amargo. Nos mastigando até não sobrar nada..."Jenny?"
"Sim," respondi, algum tempo depois.
"Você me promete uma coisa?"
"Minhas promessas não valem nada."
"Não para mim. Eu sei que você vai cumprir uma promessa que fizer a mim."
Eu não conseguia encarar seu olhar. A confiança dele era totalmente mal depositada em mim.
Gwenhwyfar Carew. Arcanjo das Cagadas, essa era eu. Fodida de plantão extraordinária. Artista da Catástrofe. Sedutora. Quebradora de juramentos.
Rainha das Mentiras...
"Eu devia ter sido um demônio," eu sussurrei.
"Não. Você é exatamente quem deveria ser."
Eu engoli as lágrimas; não ia mais chorar.
Logo eu estaria livre desta vida após a morte venenosa. Logo eu teria ido embora.
"Qual é a promessa que você quer de mim," eu soprei, por fim.
"Não faça nada por enquanto. Espere um dia. Afinal, o que é mais um dia para nós?"
"Dor," eu sussurrei.
"Então eu lhe peço que, por favor, por favor, me dê um dia de dor," ele disse. Ele ergueu meu queixo, me encarou. "Não faça nada definitivo. Eu lhe imploro. Espere por mim antes de decidir por este caminho."
Eu pisquei, engoli.
"Vou esperar," eu sussurrei por fim. "Um dia. Posso aguentar um dia. Vou aguentar mais um dia de dor, porque amo você. Um dia, Lucius. Depois Gwenhwyfar está acabada."
Ele roçou os lábios em minha testa e se transladou; poeira e pedrinhas dançaram em seu rastro.
E eu fiquei ali sentada na poeira e esperei enquanto o sol descia e a lua cruzava o céu e o rosa do novo amanhecer tingia o horizonte.
As pedras estavam arranhando o céu quando eu lentamente me levantei mais uma vez.
Eu mantivera minha palavra.
Eu esperara.
Mas ele não tinha retornado.
Então voei lentamente para casa, e pousei em minha varanda. Reguei minha alfazema, e escrevi minha carta para ele.
Agradeci-lhe por sua bondade ingrata ao longo dos anos longos e amargos.
Pedi-lhe que entendesse, e que se lembrasse de mim como eu fora, não como eu estava.
Dobrei a folha de papel rosa fino, rabisquei um coração e beijos do lado de fora que foram rapidamente borrados pelas lágrimas.
Deixei-a no meio da minha mesa.
E fechei a porta da minha casa pela última vez.
Fui até o grande Relicário. Esperei Azrael me notar. E eu disse as palavras.
Ele me observou enquanto os ecos finais de meu pedido se extinguiam.
"Por favor," eu sussurrei, quando ele nada disse e o silêncio se tornara terrível.
"Você sabe que não há retorno disto," ele respondeu, gentilmente. "Você será desenrolada, e os pequenos fios que fazem você ser você irão para outras coisas vivas. Você sabe que não há como desfazer isso, certo?"
"Eu não quero retornar. Já... fiz o suficiente."
"Ah, Jenny," ele suspirou. "Você não fez nada, no esquema maior das coisas."
"Seu ponto de vista é necessariamente mais amplo que o meu," eu sussurrei. "Você vê a floresta. Eu sou a árvore podre que sufoca a vida nova."
"Pequena Gwenhwyfar. Tão certa em sua vergonha. É quase orgulho, de certa forma. Uma vaidade, acreditar que o que você fez é terrível demais para ser perdoado. Nada é imperdoável."
Senti a sombra de suas grandes e terríveis asas se espalhar sobre mim.
Um frio horrível perfurou meu corpo e caí de joelhos.
Olhei para cima, para ele, elevando-se sobre mim.
"Você entende o que é o oblívio?" ele disse, suas palavras vindo como que de eras de distância.
"Liberdade," eu sussurrei.
"Não. É desfazer. Pensa, criança, no que você desfaria. Todos aqueles momentos brilhantes e polidos que você compartilhou comigo, com seus amigos. Até mesmo com aquela garota humana notavelmente desafortunada com quem você teve o azar de cruzar o caminho... tão frequentemente," ele terminou, com uma ironia suave e gentil em seu tom.
"Você sabia."
Minhas palavras foram uma afirmação de fato.
"Eu vejo os sinais," ele respondeu. "Eu vejo muitas coisas, Jenny. Tudo isso já foi antes. Tudo isso será de novo. Você não é a primeira de nós a... se entreter onde não devíamos."
Suas asas se fecharam, ele encolheu, eu respirei com dificuldade.
"Você desfaria tudo o que você é? Tudo o que você será?"
Sua voz era gentil, paternal. Ele se inclinou para erguer meu queixo para que eu fosse forçada a olhar para ele.
"Tudo o que eu sou é dor," eu disse, baixa e resignada. "Eu nasci em solidão e renasci aqui em sangue. A dor me segue. A destruição de tudo o que amo persegue minha sombra. Eu... por favor. Me liberte. Por favor, Azrael. Por favor. Me deixe ir."
"E quanto a Jezebel? Você arrancaria o coração da mulher que ama? Amaldiçoá-la-ia a uma eternidade de arrependimentos também?"
"Ela... não me ama," eu sussurrei. Agarrei-me a mim mesma, incapaz de suprimir a agonia daquele pensamento. "Talvez ela tenha amado. Não sei. Mas... mas ela não vai agora, e nunca mais vai."
Seus olhos pareceram preencher o mundo.
Velhos.
Eternos.
Profundamente tristes.
"Jenny. Volte lá para baixo," ele insistiu. "Vá viver de novo. Faça parte desta grande obra."
"Não. Não há nada para mim lá embaixo."
Olhei para ele, e as lágrimas caíram.
"Por favor," eu sussurrei. "Seja misericordioso. Por favor. Me deixe ir."
Ele suspirou.
E sombras se reuniram ao redor das bordas das coisas.
"Gwenhwyfar Sian Carew," ele sussurrou em palavras tão altas quanto toda a Criação. "Você se levantará."
Eu não podia desobedecer.
Mas eu olhei para baixo em choque quando primeiro uma, e depois outras de minhas penas cinzentas começaram a cair, a luz em cada uma se apagando ao tocar o mármore negro sob meus pés.
"Ah," eu sussurrei.
Então era assim que acontecia.
Que curioso...
"Você está numa encruzilhada, Gwenhwyfar Sian Carew. Desvie-se aqui... ou caminhe só mais um pouco e encontrará aquele fim último que você acredita buscar tão desesperadamente. Outras estiveram onde você está. A maioria se desviou. Eu lhe imploro, criança. Siga o exemplo delas. Não dê fim a si mesma. Você ainda tem tanto a ser."
Eu o encarei.
"Mas... por quê?" consegui. "Por que continuar, quando cada passo traz dor e toda alegria está morta? Eu destruí tudo o que me era precioso através do meu próprio orgulho. Nunca vou recuperar. Por que eu deveria continuar?"
"Esperança, menina!" ele respondeu. "Eu sou Azrael. Você acha que eu, dentre todas as Suas criações, não conheceria a futilidade? E ainda assim... nós esperamos. Nós sentimos. Nós nos abraçamos."
Ele sorriu um sorriso estranho.
"E o maior e mais importante, nós amamos. Ame, Jenny. Ame-a como ela a ama — com tudo o que você é."
Uma rajada de vento.
Um único e aterrorizado "Não!"
E alguém colidiu comigo e me agarrou e me derrubou no chão, deslizando sobre a pedra polida, enroscada comigo até pararmos dolorosamente contra as escadas.
A dor me percorreu; alguém estava batendo e socando, esbravejando inutilmente contra mim, gritando.
Jezebel, meu coração sussurrou."Sua egoísta maldita vadia", ela se enfureceu comigo enquanto lutava para se livrar de mim. Ela agarrou meus ombros e começou a me sacudir como um jaguar dilacerando sua presa. "Sua maldita... cabecinha de merda... desgraçada! Mas que porra você está pensando, sua criança estúpida três vezes maldita! Eu não significo nada para você? Meu coração não merece nenhuma consideração, sua desgrenhada, rancorosa maldita... porra!"
"Jezebel," eu finalmente consegui, atordoada demais, transtornada demais para dizer mais.
"Não, é a Madre Teresa de Calcutá, sua ignorante, infantil, estúpida... Ah, foda-me, eu vou... eu vou..."
E então ela me arrastou para o colo dela e me envolveu em seus braços, lamentando-se enquanto nos balançava para frente e para trás.
Suas asas perfeitas de Pega se enrolaram ao meu redor para me proteger de tudo.
Eu estendi a mão para traçar meus dedos por seus cabelos emaranhados e desgrenhados.
"Mas... você me deixou..." eu consegui, estranhamente calma até para os meus próprios ouvidos, convencida de que aquilo era alguma alucinação estranha, algum momento delirante da minha morte final.
"Você... eu... eu estava com raiva!" ela rugiu, a voz novamente estranha com as harmônicas de uma raiva e um medo profundos. "É a minha... maldita natureza, você, você... ah, caramba, eu nem consigo encontrar as palavras, e agora te encontro aqui, fazendo essa merda? Acabando consigo mesma! É sério? Eu deveria acabar com você por isso! Porra!"
Seus dedos se agarravam espasmodicamente ao tecido da minha blusa.
Ela se afastou e me encarou furiosamente através de suas lágrimas. Uma fúria incandescente brilhou brevemente em seus olhos.
Então ela estremeceu, engolindo em seco.
"Nunca mais, e eu quero dizer nunca mais, tente fazer isso de novo" ela sussurrou. "Ah... ah, caramba, eu não consigo... não consigo acreditar que você... eu quase perdi você..."
E ela começou a soluçar — arquejos indefesos, capazes de rachar costelas, que eu lentamente, do meu jeito cego habitual, vim a perceber que eram uma reação a um pavor existencial.
Lentamente, a irrealidade foi desaparecendo.
Lentamente, entendi que ela era real, e eu estava em seus braços novamente, seu perfume e calor me envolvendo como tantas vezes haviam feito.
Como eu jamais esperei que voltassem a fazer.
E que ela temera ter me perdido.
"Como você soube...?" eu sussurrei, enquanto ela recuperava um mínimo de controle.
"Lucius" ela ofegou. "Me encontrou. E eu... encontrei sua... maldita carta. Porra! Porra, eu estava tão... apavorada de chegar tarde... demais. Maldita seja, Gwen, por... por fazer isso comigo, sua... sua egoísta... pequena..."
E ela pressionou o rosto contra o meu e gemeu sem palavras.
"Ah" eu sussurrei.
A culpa me incendiou. Eu tinha chegado tão perto de destruí-la.
"Nunca mais... faça isso de novo..." ela gemeu. "Me prometa."
"Eu..."
"Prometa pela sua alma!" ela gritou, cravando os dedos dolorosamente na minha carne.
"...prometo" eu sussurrei.
Um peso se foi.
Encolhi as pernas contra mim e lentamente desmoronei contra ela.
Enrosquei meus dedos em seus cabelos e comecei a tremer enquanto todos os medos e dúvidas se dissipavam como fumaça.
"Eu te amo" eu soprei, sem querer mais deixar as palavras não ditas, fechando os olhos com força enquanto me entregava a ela.
"Minha" ela gemeu, engasgada, concordando ferozmente contra mim, me apertando contra si enquanto novas lágrimas escorriam por suas bochechas.
"Sua" eu arfei contra seu peito, sem me importar com mais nada além daquilo, de que, mesmo depois de tudo, ela ainda me queria.
"Crianças" suspirou Azrael, velando por nós com o mais tênue dos sorrisos.
Ele dobrou as asas, virou-se e nos deixou ali.
Até a Morte tem algum senso de modéstia, afinal.
E nós tínhamos coisas que precisávamos fazer.
ΩA ruiva alta e curvilínea falava apaixonadamente. Mesmo do canto distante eu podia ver a animação, o interesse em seus olhos. Ela se estendeu, tocou o braço de Caitlyn. Caitlyn riu, sorriu para sua interlocutora. Estava corada. Interessada. Intrigada.
Feliz.
"Ela é bonita" Jezebel sussurrou.
"A ruiva? Sim, ela é linda, não é? Me lembra você, na verdade..."
"Não, idiota" ela disse, divertida. "Sua humana."
"Ela não é minha humana."
"Eu consigo ver o que você viu nela."
"Ela estava solitária, eu estava fodida..."
Os dedos de Jezebel se enroscaram nos meus. "Só estou te provocando, Penas. Mas ela é mesmo linda. Eu sempre gostei de garotas mais baixas. Torna mais fácil... pegar e violentar" ela disse, com uma risada rouca.
Eu suspirei, relaxada contra o corpo da minha amante enquanto ela se movia atrás de mim, apreciando a forma como seu braço se curvava sobre minha barriga.
"Me desculpa..."
"Pare" ela soprou. "Já te disse antes. Está feito. Nós superamos isso."
Ela plantou o mais gentil dos beijos em meu pescoço; eu gemi, virei-me para me aninhar contra ela por um momento.
Desenhos e pinturas estavam pendurados intercalados em paredes de acrílico — abstratos, paisagens, retratos de pessoas que Caitlyn vira, conhecera ou encontrara.
Sua primeira exposição aos vinte e cinco anos — uma conquista massiva para uma garota de sua origem.
Jezebel me dissera que iríamos.
"Encerramento" ela dissera, quando eu perguntei o hesitante "Por quê?".
E eu acenara, entendendo a mensagem dentro da mensagem.
Nós nos movemos lentamente, ignoradas por todos os frequentadores da galeria.
"Ela é muito boa. Olho fantástico para detalhes e proporção" Jezebel disse.
"Sim. Ela é incrivelmente talentosa."
Dobramos uma esquina e olhamos para as duas obras que ocupavam o lugar de honra.
Na tela à esquerda, Rhiannon, dando um passo no ar, a mão se estendendo até a borda da tela, sorrindo...
Na tela à direita...
Estendendo-se para baixo como a visão de algum mestre renascentista, suspensa por fantásticas e perfeitas asas de gaivota...
Eu.
Eu olhei fixamente para a minha imagem.
"É lindo" Jezebel sussurrou. "Como se chama?"
Inclinei-me para a frente para semicerrar os olhos para o pequeno cartão com o nome.
Então congelei.
"Jezebel. Tire essa mão de entre as minhas coxas agora mesmo."
"Não pode me culpar por tentar" ela disse, inocentemente.
Eu suspirei, semicerrar os olhos para a plaquinha...
"Ah, não."
"O quê?"
"Está intitulado 'A Morte e a Donzela.' Quero dizer, francamente..." acrescentei, endireitando-me.
Jezebel bufou; olhei para ela e vi o sorriso divertido.
"Humanos. Tão dramáticos" ela soprou. Sua mão deslizou lentamente pelas minhas costas e se curvou em volta do meu quadril. "Adoro que ela tenha captado suas asas e maçãs do rosto, no entanto. Talvez eu até a perdoe."
"Ah, você."
"Transa com ela de novo e eu vou comer o coração dela na sua frente."
Eu girei, encarei-a, chocada.
Ela sorriu, docemente.
"Você... você não faria isso" eu disse, sem fôlego, quase convencida de que estava certa.
Ela riu.
"Te peguei. Você está certa, claro. Coração? Eca. Muito borrachudo. Mas foi divertido dizer. E valeu totalmente a pena pela sua expressão" ela terminou, diabólica.
"Ah, sua vadia."
"Absolutamente" ela sorriu. "Então, Penas... já viu o suficiente?"
Respirei fundo e ponderei aquilo.
"Sim. Ela está bem. Fico feliz. Jezebel?"
"Sim, querida?"
"Obrigada por me trazer aqui. Tenho certeza de que não foi fácil para você."
Ela sorriu para mim, então beijou minhas bochechas.
"Todas as coisas se curam com tempo suficiente, Penas. E eu te amo. Isso foi parte de você. Mas o capítulo terminou agora e podemos baixar o livro. Venha. Vamos para casa. Vou cozinhar algo para você, massagear suas costas. Depois vou te foder até você ver estrelas."
Estremeci, subitamente consciente de quanto eu queria aquilo.
"Mal posso esperar" confessei. "Ah... como diabos... vou precisar de calcinha nova agora."
Jezebel riu, e me beijou, e tomou minha mão.
Nós nos viramos como uma só, mas ao nos virarmos, de repente a vi.
Caitlyn.
Olhando para mim.
Para nós.
Jezebel a notou, e fez uma pausa. Então ela se moveu possessivamente contra mim e apertou minha mão.
Olhei para a minha amante, vi a sobrancelha arqueada, o silencioso "Sim, e daí?" que ela estava irradiando.
E Caitlyn... sorriu, e acenou para nós, e deu um pequeno aceno.
A ruiva retornou, carregando duas taças de champanhe, claramente ansiosa para retomar a conversa.
Caitlyn me lançou mais um olhar caloroso e pensativo, mais um sorriso.
Então se afastou de nós e colocou a mão no braço da ruiva, aproximando-se dela, bem a uma distância de beijo.
"Boa garota" Jezebel sussurrou. "Suave. Xeque-mate em dois. Elas combinam. Vão durar, Cait. Você pode deixá-la ir agora. Ela não é mais problema seu."
E assim, de repente, meu lampejo de consciência sobre a garota acendeu e se apagou.
Eu suspirei, fiquei um pouco mais ereta, surpresa com o quanto tudo parecia mais leve agora.
"Como você... sabe?" perguntei à minha amante. "Sobre elas, quero dizer?"
Ela voltou seu olhar divertido para mim. "É a minha natureza" ela respondeu, suavemente. Ela se inclinou, me beijou com o mais leve dos beijos, o menor toque de língua contra meus lábios. "Elas vão durar. Há sinais. Foi assim que eu soube que você e eu também duraríamos."
"Ah" sussurrei, corando. "Você poderia ter... me dito."
"Acabei de dizer" ela respondeu, presunçosa.
Ela se inclinou novamente, virou o rosto para o meu ouvido.
"Venha para casa comigo, Gwenhwyfar" ela soprou, e o calor de seu amor me preencheu até transbordar.
Eu entrelacei meus dedos nos dela com um pequeno gemido; ela sempre soubera exatamente como me derreter.
Ela riu, e me puxou atrás de si para o corredor, e de lá para um elevador de serviço.
Ela já estava tirando minha blusa e sutiã quando nos deslocamos e deixamos aquele lugar pela última vez.
Ela já tinha minha calcinha nos tornozelos quando chegamos à sua cama.
E ela estava dura e pronta e já dentro de mim antes que eu pudesse tomar fôlego para gemer.
E eu me agarrei a ela enquanto ela me satisfazia.
E gritei seu nome enquanto ela gemia o meu.
E vi cada estrela que ela me prometera enquanto eu gozava.
-∘❀ Epílogo ❀∘-"Quem eram aquelas... mulheres que você estava olhando?" a adorável ruiva alta me perguntou.
"Só... alguém que eu conheci, era uma vez, e sua nova parceira, eu acho."
"Ah. Ela parecia... bonita. Embora agora eu não consiga realmente pensar por que achei isso..."
Eu a encarei, notei a preocupação de que ela tivesse se exposto apenas para ser rejeitada ou recusada.
"Você é muito mais bonita, e mais linda" eu respondi, dando um passo à frente, tocando seu braço e me deliciando com a forma como os arrepios se espalhavam por sua pele.
Ela me olhou de cima. Seus olhos eram de um azul muito especial. Completamente cativantes, de fato...
Meu coração palpitou.
Respirei trêmula.
Uau, pensei. Ah, uau...
"Você está bem?" ela perguntou, preocupada.
Eu já gostava dela, e mal haviam se passado cinco minutos.
"Estou... maravilhosa. Qual é o seu nome?" perguntei.
"Ah! Sou tão rude, desculpe! Sou Amanda. Mas todo mundo me chama só de Amy."
"Oi, Amy. Sou a Caitlyn, você provavelmente sabia. Mas as pessoas de quem eu gosto muito podem me chamar de Cait. Então... você também deve me chamar de Cait."
"Ah" ela sussurrou, corando. Ela tinha sardas tênues nas bochechas e eu já as adorava.
Esvaziei minha taça de champanhe e fiquei na ponta dos pés, sabendo que a queria.
Beijei sua bochecha; adorando o pequeno suspiro trêmulo que ela soltou.
"Quer outra bebida?" perguntei. "Ou prefere algo... melhor?"
E ela encontrou meus olhos, e pareceu pensar por um momento, e então sorriu.
"Acho que vou gostar de você, Cait" ela disse, suavemente.
"Que estranho. Sabe, eu estava pensando exatamente a mesma coisa."
E eu a beijei de novo, mas nos lábios desta vez.
E tomei sua mão.
E nunca mais a soltei.
.:. Nenhum Santo foi ferido durante a escrita desta história.