A Lista de Tarefas
Blake entrou pela porta da frente com passos pesados, o corpo exausto depois de mais um dia desgastante. Suas mãos estavam calejadas, e sua cabeça doía. Ele era gerente de projetos de construção. O trabalho dele era resolver problemas, mas, uma vez resolvidos, ele frequentemente se via ajudando na carpintaria. O lar era o seu santuário, o seu lugar feliz.
No entanto, no instante em que entrou, soube que algo estava errado. Uma mala estava junto à porta.
Blake ficou paralisado. Então seus olhos pousaram em Susan. Ela estava sentada na beirada do sofá, a postura estranhamente ereta, a expressão mais radiante do que tinha o direito de estar.
"Não se preocupe," Susan chilreou, a voz excessivamente animada. "Não vou deixar você."
Blake piscou, o cérebro tentando acompanhar. Seu silêncio foi reflexivo. Toda a sua experiência o ensinara a ficar de boca fechada e ouvir quando as coisas começavam a ficar complicadas, e seu instinto lhe dizia que esta situação se qualificava. Confuso, e com a sensação crescente de que algo estava terrivelmente errado, ele largou as chaves numa mesinha lateral.
"Eu só queria tirar isso da frente primeiro," Susan continuou, levantando-se, sua energia nervosa transbordando nos movimentos. Ela sorriu, largo, até animado, mas havia algo de estranho nisso. Forçado demais. "Isso vai soar... bem, ruim de início, mas eu preciso contar."
Os olhos de Blake cintilaram para a mala, sua mente começando a ligar pontos que ele não queria reconhecer. "O que está acontecendo?" ele finalmente perguntou, a voz grossa de cansaço e confusão.
Susan respirou fundo, do jeito que alguém faz antes de dar boas notícias. "Vou viajar por uma semana," ela disse, com um entusiasmo exagerado. "Com o Roger."
Por um momento, a sala ficou imóvel. Blake ficou parado, como se seu corpo tivesse esquecido como se mover, como reagir. Roger? O chefe dela? O idiota arrogante que parecia achar que todo mundo estava abaixo dele? Aquele Roger?
"Viajar... com o Roger..." Blake disse, o tom sem emoção. Não era uma pergunta, não era uma afirmação. Mais uma súmula do que ele estava entendendo da conversa.
Susan continuou falando rápido, uma mistura de culpa e excitação. "Eu sei, eu sei! Parece ruim de início, bem, é ruim, eu acho. Eu estou saindo com ele faz um tempo. Mas essa não é a questão." Ela se aproximou, os olhos brilhando com uma alegria quase infantil, como se estivesse confessando algo embaraçoso, mas eletrizante. "A questão é que eu não planejei isso! Quer dizer, é o Roger. Ele é... o Roger. Você sabe como ele é. Ele me queria, e, bem, eu não pude realmente dizer não. Ele é tão... persuasivo, sabe? Quando ele decide que quer algo, ele consegue." Ela soltou uma risadinha quase sem fôlego. "E ele me queria."
Blake a encarou, a mente lutando para acompanhar o que ela dizia. Ela falava de Roger como se ele fosse uma força da natureza, algo inevitável. E o tom dela, o jeito que parecia quase... orgulhosa? Era surreal. As palavras ecoavam na mente de Blake, ocas e estranhas. Parecia também que Blake era completamente irrelevante nesse caso.
"Mas é por isso que estou te contando," ela continuou, a voz baixando para um tom mais sério. "Eu não queria mais esconder de você. Me sinto tão melhor só de... colocar para fora, sabe? Sem mais segredos. É como tirar um peso do peito. E eu não queria mentir sobre a viagem." Ela gesticulou para a mala. "Roger e eu vamos viajar por uma semana. Ele... bem, ele acha que vai ser bom para a gente realmente aproveitar um ao outro sem ter que se esconder, sabe? Só para ficarmos juntos."
A boca de Blake se abriu, mas ele não tinha palavras. Seus pensamentos eram um turbilhão, e suas emoções começavam a fervilhar. Ele não conseguia entender, não conseguia processar como aquilo era real. Como Susan podia estar ali na frente dele, tão... animada, tão casual sobre algo que tinha obliterado o cerne do casamento deles.
"Mas não se preocupe," Susan acrescentou rápido, o rosto se iluminando de novo. "É só uma semana. Depois disso, a gente volta ao normal. Eu volto para você, Blake. Eu te amo! Não há motivo para deixar isso ficar entre a gente. Isso," ela abanou as mãos, como que para dispensar a situação inteira, "isso é só uma... coisa. Um... deslize. Roger só... me queria. E agora que ele me teve, a gente vai ficar fora só uma semana, e eu volto. Aí a gente pode realmente focar na gente. Em começar nossa família."
O coração de Blake batia pesado no peito. Seus ouvidos zumbiam. Como ela podia estar tão animada, tão radiante e feliz? Ela falava da infidelidade dela como se não fosse nada, como se Blake não importasse nem um pouco. O jeito como ela falava de Roger como se ele fosse uma figura maior que a vida simplesmente não fazia sentido.
Susan estava claramente arrebatada pela órbita de Roger. Ela simplesmente tinha ido na onda porque... o que mais ela podia fazer? Era o Roger.
"Eu sei que isso pode ser um choque, mas você é sempre tão compreensivo, Blake. Essa é uma das razões por que eu te amo. Você é firme. Você nunca faz escândalo, e é por isso que eu sei que vamos superar isso." Ela se aproximou, estendendo uma folha de papel dobrada. "Roger e eu conversamos sobre isso. Só para as coisas correrem bem, sabe? A gente escreveu algumas... orientações."
Blake olhou para o papel na mão dela, a mente entorpecida.
Susan lhe entregou a lista. "Não é nada demais, realmente. Só algumas instruções para garantir que tudo fique bem enquanto eu estiver fora."
Suas mãos tremeram quando ele desdobrou o papel. Certas frases se destacaram, nítidas e claras:
- Nada de discussões antes ou depois da viagem. Todos nós queremos manter a calma.
- Não conte a ninguém o que estamos fazendo.
- Nada de postagens em redes sociais sobre isso.
- Nada de conversa de divórcio ou separação. Isso não passa de uma aventura.
- Não peça detalhes sobre a viagem depois.
- Espere quieto em casa até a viagem acabar, depois foque no futuro; os planos para a família devem continuar como conversado.
Blake sentiu a respiração prender. Nada de discussões. Não contar a ninguém. Nada de divórcio. Ele não conseguia superar a audácia. A suposição de que ele simplesmente obedeceria enquanto sua esposa passava uma semana com outro homem.
A arrogância dos dois traidores era inacreditável, e ingênua.
A voz de Susan cortou o silêncio dele. "Viu? Nada de absurdo. Umas coisinhas simples para garantir que tudo continue bem. Roger tem você em alta conta, sabia? Ele disse que você ficaria bem. Pode ser difícil, mas vai acabar logo, e a gente volta a ser como era. Você não é do tipo ciumento, Blake. Você é prático. Eu sei que é muita coisa, mas vai ficar tudo bem. Você não vai fazer um estardalhaço por causa disso, vai?"
Os olhos dela estavam arregalados, esperançosos, quase suplicantes. Mas por baixo havia uma certeza, uma crença absoluta de que tudo ficaria bem, porque é claro que Blake não causaria problemas. É claro que ele não discutiria. Ele era o porto seguro dela. Divórcio nem estava no reino das possibilidades. Não no mundo dela.
As mãos de Blake se apertaram na lista dela. Seu cérebro gritava por algo, qualquer coisa, para dizer. Mas ele não tinha palavras. O que poderia dizer?
Susan sorriu, tomando o silêncio dele como concordância. "Eu sabia que você entenderia," ela disse suave, o alívio inundando suas feições. "Eu estava tão nervosa, mas você sempre me dá o que eu preciso. Você sempre esteve lá por mim, e sempre estará."
Ela se inclinou e lhe deu um selinho rápido na bochecha.
"Eu volto na sexta-feira que vem de tarde," ela disse, pegando a mala com um saltinho animado. "Aí as coisas voltam ao normal, e a gente pode conversar sobre começar aquela família, tá?"
Blake a viu sair pela porta, fazer uma pausa e se virar para ele com aquele sorriso radiante, como se tudo no mundo estivesse perfeitamente bem. Então ela se foi.
Blake ficou parado, a lista dobrada se amassando enquanto seu punho se fechava sobre ela. Era quase engraçado, orientações. Como se as ações dele fossem algo que eles tivessem controle, algo que pudessem ditar e administrar com algumas regras simples. Como se isso não fosse o casamento dele que estavam cagando por cima.
Por um segundo, ele permaneceu imóvel. Sua mente ainda em choque. Mas então, algo começou a queimar por dentro, um fogo crescia dentro dele que não era confusão ou desgosto, era raiva. E estava crescendo.
Blake sempre fora um solucionador de problemas. Quando a situação exigia, ele podia ser um negociador e conversar para resolver qualquer problema. Se ações duras precisassem ser tomadas, ele as fazia sem hesitar um segundo. Ele podia ser o que a situação exigisse, depois que determinava o que era necessário. O que ele sentia era familiar. Isso era um problema que exigia uma certa abordagem. Só não a que Roger e Susan apreciariam.
Ele olhou mais uma vez para a lista. O desplante de tudo aquilo, a arrogância. Acharem que tinham a mínima esperança de mantê-lo sob seus polegares. Acreditarem de verdade que ele faria o que lhe mandassem e representaria o papel que lhe deram era tolice. Susan achava que tudo voltaria ao normal quando ela voltasse. Ele quase podia ouvir a voz de Roger impondo termos, como se isso fosse algum tipo de jogo.
Blake releu a lista de novo, e começou a sorrir. Para Susan e Roger, isso era uma questão de limites, de fronteiras, de garantir que não houvesse complicações. Era tudo sobre as maneiras como eles o administravam, sobre mantê-lo na linha. Blake tinha uma visão diferente. Esta lista deixava claro as coisas que os preocupavam, as coisas que eles temiam que ele fizesse.
Nas mãos dele, isso não era algum tipo de contrato. Isso era uma fagulha, um começo. Se eles iam lhe dar uma lista, bem, ele podia fazer melhor. Muito melhor.
Seu sorriso, sombrio e maldoso, se espalhou pelo rosto enquanto as peças começavam a se encaixar. Sua mente se aguçou. Blake não era um homem que explodia, que gritava ou jogava coisas. Não, a raiva dele nunca era barulhenta. A raiva de Blake era quieta, metódica. Ele construíra sua carreira resolvendo problemas, e isso, essa traição, era o maior problema dele até agora.
Como se resolvem grandes problemas? Um passo de cada vez.
A lista deles era curta demais, ingênua demais. Nem cobria metade do que precisava ser feito. Ele faria um plano muito mais detalhado.
Ele foi para a cozinha com passos largos, jogando a lista patética deles sobre a mesa enquanto abria uma gaveta com força e pegava um bloco de notas e uma caneta. Ele estava "na zona". Agora sua mente começava a se mover. Ele era um solucionador de problemas. Hora de resolver o problema da sua esposa adúltera e do chefe cafajeste dela. Ele resolveria isso do mesmo jeito que resolvia tudo: estando dez passos à frente.
Sua nova lista não seria boazinha. Não seria curta.
A Nova Lista de Coisas a Fazer de Blake:
- Congelem todas as contas conjuntas. Blake cuidava de todas as contas. Ele sempre tinha cuidado de todas as finanças. Ele não seria cruel, mas também não tornaria as coisas fáceis para ela. Cada pagamento automático, depósito ou conta conjunta seria fechado. O dinheiro dela permaneceria intocado, mas o dele ficaria indisponível para ela.
- Troquem as fechaduras. Quando ela voltasse, a chave dela não funcionaria mais. Esta casa, o lar deles, não era mais dela. Ela fizera sua escolha, e poderia bater na porta do Roger se quisesse um lugar para ficar. Ela não encontraria nada aqui.
- Vendam a casa. Havia simplesmente memórias demais aqui, e não valia mais a pena mantê-la. Ele colocaria o imóvel no mercado enquanto ela estivesse fora, e não pensaria mais nisso. Quando Susan retornasse, a casa já não seria mais problema dele, e ela também não.
- Empacotem as coisas dela. Tudo dela iria para um depósito. Ele encaixotaria tudo de forma organizada, é claro, e deixaria para ela recolher depois. As roupas, as bugigangas, as fotos... todas as coisas que a ligavam a ele seriam encaixotadas e guardadas. Ele até colocaria todos os móveis juntos; ele estaria começando do zero, em outro lugar. Não precisava de lembretes.
- Juntem evidências. Susan levou o celular dela, mas Blake cuidava de todas as necessidades tecnológicas dela. Ele compraria um novo celular para o número dela e o restauraria usando a conta na nuvem de Susan. Todos os textos, e-mails e fotos dela estariam nas mãos dele. O celular que estava com ela pararia de funcionar, mas ela poderia resolver isso quando voltasse.
- Falem com um advogado. Divórcio não estava fora de questão; era o objetivo final. Blake encontraria o melhor advogado da cidade e colocaria a papelada em andamento. 'Nada de separação ou divórcio'? Cai na real!
- Tenham uma conversa com a esposa do Roger. Eles contavam que Blake permanecesse em silêncio e mantivesse a paz. Mas por que ele deveria? Talvez Roger estivesse acostumado a dar as cartas, mas Blake não tinha incentivo nenhum para cooperar. Ele faria questão de compartilhar todas as evidências que esperava encontrar, agora que sabia começar a procurar.
- Foquem no futuro. Porque esse não era o fim da vida de Blake. Era meramente o fim do lugar de Susan nela. Ele sairia da cidade e começaria do zero, em outro lugar. Não desperdiçaria seu tempo com amargura. Por enquanto, essa lista seria seu foco.
Blake recostou-se, tamborilando a caneta contra o papel. Era uma sensação boa, planejar. Ele não imploraria. Não ia lutar por algo já arruinado. Não, ele ia assumir o controle de um jeito que nem Susan nem Roger poderiam ter previsto. Ele estava retomando sua vida de pessoas que achavam que podiam pisar nele à vontade.
Ele tinha seu plano. Quando Susan voltasse, o mundo que ela achava que tinha já teria desaparecido há muito tempo.
Blake ficou parado no meio da sala de estar vazia. A casa agora estava vazia e oca. Tudo tinha sido removido. Não só as coisas de Susan, tudo tinha sumido. As roupas dela, sapatos, até as pequenas bugigangas, estavam todas empacotadas e guardadas ordenadamente em um dos dois PODS de armazenamento do lado de fora. Seus próprios pertences estavam no outro POD, prontos para o que viesse a seguir. Seus amigos o ajudaram a mudar tudo, sem fazer perguntas. Todos já sabiam a história àquela altura, mas não se intrometeram. Só fizeram o que precisava ser feito, em troca de pizza e cerveja.
Essa foi a parte fácil. Trabalho físico sempre foi fácil para Blake. Suor, músculo, determinação — isso eram coisas que ele conseguia manejar. A parte mais difícil era manter a cabeça clara. Ele passara por um turbilhão de emoções nos últimos dias. Traição, raiva e incredulidade fervilhavam abaixo da superfície. Ele estava tenso, esperando para explodir. Mas não podia. Ainda não.
Blake deu uma última olhada pela casa. Não era mais um lar, só uma casca. As paredes pareciam mais finas, o ar mais frio. O lugar tinha sido limpo de alto a baixo, eliminado de cada vestígio da vida que tiveram juntos. Ele nunca mais poria os pés ali, e esse pensamento pareceu certo. Agora estava maculado.
E depois havia a escritura. Aquela doce ironia, a casa dele. Aquela em que nunca se preocuparam em colocar o nome dela. Susan morara ali, brincara de casinha ali, mas nunca fora dela. Ele sorriu com amargura. Ela provavelmente nunca tinha pensado nisso. Só achou que aquilo, e Blake, estariam lá para sempre.
Ela estava errada.
Seu advogado foi eficiente, preciso na execução dos papéis do divórcio. Sem conversas longas, sem drama. Blake não ia prolongar aquilo. Os papéis estavam preparados e prontos para serem protocolados no minuto em que ela voltasse. Se ela voltasse. Ele não ligava mais. Se ela voltasse para uma casa vendida e um terreno vazio, ou ficasse com Roger para sempre, não importava.
A parte que exigira mais esforço tinha sido o celular de Susan. Ela o levara consigo, é claro, quando ela e Roger tinham saído juntos. Mas Susan sempre fora descuidada com suas senhas, confiando em Blake para tudo. E por que não confiaria? Ele não tinha sido nada além de dedicado, nada além do porto seguro que ela tomara como certo.
Ele se sentou na bancada da cozinha, os olhos frios e focados, encarando o celular restaurado em sua mão. Parecia exatamente com o dela, porque era. Ele cortara o serviço dela remotamente, trocara o celular e restaurara tudo do backup na nuvem dela. Fora quase fácil demais. E encontrara tudo o que precisava.
As mensagens dela com Roger tinham sido... nojentas. Não só o caso em si — Blake já tinha se preparado para isso —, mas o jeito como eles falavam dele. Roger, convencido como sempre, descartando Blake como uma não ameaça. "Ele é bonzinho demais. Vai abaixar a cabeça." Blake quase podia ouvir a arrogância nas palavras digitadas.
As respostas de Susan doíam mais: "Vai ficar tudo bem. Ele não vai fazer escândalo. Ele nunca faz."
Ele sentiu a bile subir na garganta, mas a engoliu. "Ele não vai fazer escândalo." Era assim que ela o via. Não como um parceiro, não como alguém que ela respeitasse, mas como um capacho. Um homem fraco demais para se impor.
Havia fotos também. É claro que havia fotos. Aparentemente Roger gostava de tirar fotos de Susan o satisfazendo, e depois as enviava para ela. Blake se perguntou que tipo de pessoa faria isso.
Roger até lhe enviara e-mails de confirmação sobre a viagem, se gabando de como era inteligente. Os lábios de Blake se curvaram em desdém. Eles eram desleixados. Arrogantes. E achavam que eram invencíveis.
Tudo junto tinha formado uma apresentação e tanto, as mensagens, as fotos, todas as provas do caso. Tudo fora documentado, organizado de forma impecável e compartilhado. Não apenas com o advogado de divórcio dele, mas com a esposa de Roger. Também com o conselho de administração para o qual Roger trabalhava, e uma versão levemente censurada foi compartilhada nas redes sociais. Ele queria que fosse compartilhado em vez de bloqueado por nudez. Ele havia feito um esforço considerável para compartilhar a notícia com absolutamente qualquer um que conhecesse Susan ou Roger.
Blake lidou com a questão da esposa de Roger com cuidado. Não era sobre vingança, não exatamente, mas a mulher merecia saber. Ela tinha o direito à verdade, assim como ele. E, surpreendentemente, ela foi... graciosa. Graciosa demais, na verdade. A calma do outro lado da linha o desconcertou, mas ele afastou isso. Ele tinha feito a sua parte. Compartilhou tudo o que havia coletado com ela por e-mail. O que viesse a seguir para ela era entre ela e seu marido desprezível.
Blake queria deixá-los sem nada. Susan achava que poderia voltar para sua vida, para Blake, para os planos de terem uma família. Roger achava que poderia sair ileso, como se nada disso o atingisse. Blake não ia permitir que isso acontecesse.
Susan estava nervosa, mas exultante quando a viagem começou. Roger havia planejado tudo, voos de primeira classe para a Itália, uma suíte de hotel de luxo e jantares nos melhores restaurantes. Ele a envolveu na grandiosidade de tudo. Por um tempo, foi inebriante. Ser desejada por um homem como Roger, um homem que dominava qualquer ambiente em que estivesse, a fez se sentir especial, parte de algo muito maior. Roger a queria, e isso significava algo, não significava?
Na primeira noite, eles fizeram o check-in no hotel, e tudo parecia perfeito. Roger havia pedido champanhe esperando no quarto, e eles riram e brindaram e passaram a noite na cama. A vista das luzes da cidade pelas enormes janelas era de tirar o fôlego. Susan se deixou levar pelo glamour, pelo romance daquilo.
No segundo dia, as coisas começaram a mudar. No início, foi algo pequeno. Roger ainda era atencioso, mas parecia de alguma forma distante. Seus olhos traíam que, para ele, a novidade da escapada já estava começando a se desgastar. Susan riu de algo que ele disse durante os coquetéis, mas Roger não retribuiu a risada. Ele simplesmente sorriu um sorriso fino e desdenhoso que ela já o vira usar com funcionários que ele considerava inferiores. Ela deixou pra lá. Talvez ele estivesse cansado ou distraído.
Susan havia deixado o telefone na mesa de cabeceira, funcionando como um pequeno relógio no carregador. Ela não tentara ligar ou mandar mensagem para Blake. Sentia falta dele, mas achava que ele não iria querer falar com ela naquele momento, enquanto ela estava com Roger. Ela estava ligeiramente irritada com Blake por não ter enviado sequer uma mensagem para saber como ela estava. Não era importante. Roger precisava de toda a atenção dela enquanto ela estivesse lá.
No dia seguinte, Roger a levou para fazer compras em várias boutiques de grife, lojas exclusivas que ela sempre sonhara em visitar, mas nunca tivera coragem, mas Roger se encaixava perfeitamente. Ele comprou um vestido para ela para o jantar daquela noite. Por um momento, ela se sentiu como se estivesse em algum tipo de fantasia, que eles estavam vivendo uma vida secreta glamourosa. Mas, conforme a noite avançava, Roger se tornou mais distante. Ele passou a maior parte do jantar checando o telefone, acenando de vez em quando quando ela falava, mas nunca realmente se envolvendo. Os garçons estavam bajulando-o, e Susan se viu encolhendo em sua sombra, mais um acessório do que uma parceira.
Naquela noite, deitados na cama, Roger adormeceu quase imediatamente, de costas para ela. Susan pegou o telefone, sentindo uma estranha pontada de culpa misturada com saudade. Blake não ligara, não mandara mensagem. Ela não tinha certeza se aquilo era um alívio ou uma decepção.
No quarto dia, ele já quase perdera o interesse por ela fora do quarto. Ele ainda a exibia em jantares, apresentando-a a colegas ou algum conhecido como se ela fosse uma espécie de troféu. Ela percebeu de repente que nunca houvera calor algum. Ela nunca passara de um brinquedo para ele, apenas mais um rosto bonito para ser ostentado, mais um entalhe na cabeceira da cama. Ele mal falava com ela fora das refeições e, quando estavam na suíte, ou a usava, ou simplesmente a ignorava.
Em um dado momento, ele trouxe duas outras mulheres para a suíte. Ele mal olhou para Susan quando elas entraram. Susan ficou chocada, mas Roger mal reconheceu seu desconforto. Ele a informou que, se ela não fosse se juntar aos três na cama, poderia dormir no sofá. Foi então que o peso total da situação finalmente caiu sobre ela.
Ela passou aquela noite encolhida, encarando o teto, tentando descobrir quando tudo começara a dar tão errado. Não era isso que ela imaginara. Roger a quisera. Ele a escolhera. Mas agora? Agora ela se sentia como se fosse apenas parte da mobília. Descartável.
Na manhã seguinte, Susan tentou falar com ele, mencionando como se sentia, perguntando se estava tudo bem, se havia algo que ela pudesse fazer. Mas ele a dispensou, com um tom frio. "Não seja dramática, Susan. Esta viagem é só diversão."
Ela sorriu fracamente e assentiu, mas por dentro, algo quebrou. Não era divertido. Não era mais emocionante. Ela sentia falta de Blake e da estabilidade de sua vida real. Blake a olhava como se ela fosse o centro do mundo dele. Roger a fazia se sentir nada mais que uma reflexão tardia.
No sexto dia, a realidade realmente se instalou. Ele não se importava com ela, nunca se importara de verdade. Ele se importava com a aparência dela em seu braço, a excitação do sexo, o controle sobre ela. Mas a própria Susan era apenas mais uma coisa para ele usar. Naquele momento, ela percebeu o quanto fora tola em pensar que esta semana seria algo mágico, algo significativo. Ela fora apenas uma distração para aquele homem.
Na última noite, Susan pegou o telefone; ia ligar para Blake para saber como ele estava. Mas quando olhou para o telefone, algo estava errado. A hora a encarava, mas não havia serviço, nem notificações. Ela não recebera uma única mensagem de Blake. Nenhuma chamada perdida, nenhum SMS. Ela presumira que Blake a esperaria, que ele entenderia, que tudo ficaria bem quando ela voltasse para casa. Agora ela não tinha mais tanta certeza. Por que ele não ligara? Nem uma vez sequer?
Ela tentou ligar para ele do telefone do hotel, mas, por algum motivo, a ligação não completava para o número de Blake.
O caminho de volta foi um alívio. Susan mal podia esperar para ir embora. O luxo, o brilho, tudo parecia tão falso, tão vazio. O encanto se desgastara, e ela queria ir para casa. Sentia falta de Blake. Sentia falta do calor dele, da bondade, da estabilidade. Sentia falta do jeito como ele sempre a fizera se sentir ancorada, segura.
Com o coração pesado, Susan olhou pela janela enquanto o avião descia. Ela estava envergonhada, constrangida com o quanto se permitira envolver pelo mundo de Roger. A fantasia estava quebrada agora, tudo o que restava era uma sensação oca e vazia. Roger era apenas um homem egoísta e frio que a usara. Susan percebeu que entendia o que era se sentir como uma vagabunda. Ela se tornara uma para Roger.
Ela começou a chorar em silêncio. Tudo o que queria era estar de volta nos braços de Blake, de volta onde as coisas faziam sentido.
Ela queria contar a Blake o quanto sentira falta dele. Imaginou voltando para casa, caindo de joelhos e pedindo desculpas. Ele a perdoaria. Ele sempre perdoava. Ele tinha que perdoar.
Susan parou na calçada em frente à sua casa, o coração acelerado com uma mistura de excitação e pavor. A viagem fora um erro, ela finalmente conseguia ver isso. Roger não era o homem que ela pensara, e tudo sobre a última semana parecia um sonho ruim. Mas tudo tinha ficado para trás. Tudo em que ela conseguia pensar era em ver Blake, cair em seus braços e dizer que sentia muito. Ela explicaria tudo, eles conversariam, e então seguiriam em frente. Começariam de novo.
Mas, quando ela saiu do carro, lá no jardim da frente estava uma placa brilhante e chamativa de "Vende-se".
Seu estômago se revirou. Vende-se? Isso não podia estar certo. Blake não dissera uma palavra sobre vender a casa, por que ele faria isso? Eles tinham planos. Claro, havia problemas a resolver, mas eles podiam consertar as coisas. Isso tinha que ser algum tipo de engano.
Já abalada pela placa, ela procurou as chaves atrapalhadamente. A chave entrou na fechadura, mas não girou. Confusa, ela tentou de novo. Não mexia. Tentou sacudi-la, tirou-a e colocou de novo, mas ainda assim, nada. Por que não funcionava?
"Blake?" ela chamou, batendo na porta com urgência crescente. "Blake, você está aí? Sou eu!"
Nenhuma resposta. Sua voz ecoou do outro lado da porta.
O coração de Susan dava cambalhotas enquanto ela se dirigia à janela e espiou para dentro. A casa estava vazia. Não havia absolutamente nada lá. Sem móveis. Sem quadros. Nenhum indício de que alguém já tivesse morado ali.
"Blake?" ela sussurrou. Isso não era um grande mal-entendido. Algo estava muito errado.
Ela pegou o telefone e tentou o número de Blake. A tela se acendeu, mas não estava certo. O telefone não estava conectando. Havia apenas uma mensagem de erro piscando na tela: Sem Serviço.
Susan ficou estupefata. Ela rolou pelas configurações para verificar o sinal. Nada. Era como se o telefone tivesse sido cortado. Então, ela tentou ligar para os pais, mas o mesmo erro apareceu. Ela estava completamente incapaz de falar com alguém.
Mas que diabos?
Ela voltou para o carro, as mãos tremendo enquanto ligava o motor. Blake explicaria, ela pensou. Ele não simplesmente iria embora.
O trajeto até a casa dos pais foi um borrão enquanto ela lutava para encontrar uma explicação, uma em que Blake faria tudo ficar bem. Talvez houvesse algum engano com a casa. Talvez Blake estivesse viajando a trabalho e tivesse esquecido de avisá-la. Talvez. Talvez.
Quando ela entrou na garagem dos pais, mal se deu tempo de desligar o motor antes de correr para a porta da frente. Sua mãe abriu antes que ela pudesse bater, o rosto tenso de preocupação.
"Susan," a mãe disse, a voz tensa, "Onde você esteve? Estamos tentando falar com você."
Susan engoliu em seco. "Meu telefone, tem algo errado com ele. Não consegui ligar para ninguém. O que está acontecendo, mãe? Blake, ele trocou as fechaduras. A casa está vazia. O que está acontecendo?"
A mãe soltou um suspiro pesado e se afastou para deixar Susan entrar. "É melhor você se sentar."
"Não quero me sentar, quero saber o que está acontecendo!" A voz de Susan falhou enquanto o pânico transbordava. "Por que não consigo falar com Blake? Por que nossa casa está à venda?"
O pai entrou na sala, o rosto marcado por uma tristeza silenciosa. "Blake se foi, Susan. Ele saiu da cidade. A casa está sendo vendida. Suas coisas estão em um depósito."
As palavras a atingiram no peito como uma marreta, e ela de repente teve dificuldade para respirar. Se foi? Sua mente lutava para acompanhar o que eles estavam lhe dizendo. Blake foi embora? Colocou a casa à venda? Por que ele não a avisara? Por que não ligara?
"Como assim, ele se foi?" A voz de Susan tremeu, o coração pulsando nos ouvidos. "Ele não simplesmente me deixaria! Ele não faria isso, ele me ama."
Os pais trocaram um olhar que só alimentou ainda mais seu alarme. A mãe sentou-se ao seu lado, colocando uma mão tranquilizadora em seu braço. "Susan, ele não vai voltar. Blake nos ligou há alguns dias, disse que você tinha viajado com outra pessoa, e que ele tinha terminado. Ele colocou suas coisas em um depósito, e a casa está no mercado. Ele entrou com o divórcio."
Susan piscou, tentando dar sentido às palavras. Não podia ser real. Divórcio? Não. Blake não faria isso. Não podia. Ele a amava. Eles deveriam consertar as coisas. Ela cometera um erro, mas eles podiam consertar. Ele não podia simplesmente... ir embora.
"Ele disse que acabou?" ela perguntou, a voz quase um sussurro. "Simples assim?"
O pai assentiu solenemente. "Ele disse que você sabia o que estava fazendo quando partiu com aquele homem. Que esta foi sua escolha. E agora, esta é a dele."
Susan o encarou. Ela presumira, daquele jeito silenciosamente arrogante que tinha, que Blake a esperaria, como sempre fazia. Que não importava o que ela fizesse, ele estaria lá, firme e paciente, pronto para aceitá-la de volta. Mas agora. Agora ele se fora. E era culpa dela.
Ela escondeu o rosto nas mãos, as lágrimas quentes. "Eu não queria que isso acontecesse," ela balbuciou. "Eu não... Ele não deveria ter ido embora. Eu pensei..."
"Você pensou que Blake simplesmente a perdoaria," a mãe disse calmamente, não sem gentileza. "Mas Susan, você o machucou. Como você pôde fazer isso?"
Os soluços vieram mais fortes então, e Susan balançou a cabeça. Incredulidade e arrependimento a dilaceravam. Blake havia sido sua rocha, sua fundação. Mas ela o tomara como garantido, pensando que ele a amaria não importasse o quê. Ela pensara que poderia brincar com fogo e não se queimar.
Agora, ela estava de pé nas cinzas da vida que destruíra.
"Você tentou ligar para ele?" o pai perguntou baixinho.
Susan assentiu, o rosto ainda enterrado nas mãos. "Não completa. Acho que ele deve ter trocado de número. Não consigo. Não consigo falar com ele."
A mãe assentiu. "Ele terminou. Não queria mais contato."
Susan pôs-se de pé de um salto, andando pela sala descontroladamente. "Não, não, não, não! Isso não está acontecendo! Eu preciso falar com ele! Ele vai entender, ele precisa entender!" Mas mesmo enquanto dizia as palavras, a realidade finalmente começava a se instalar. Blake se fora. Realmente se fora. E não havia nada que ela pudesse dizer ou fazer para desfazer isso.
Ela afundou de volta na cadeira, as mãos tremendo. "Eu... Eu nunca pensei que terminaria assim," ela sussurrou, mais para si mesma do que para os pais. "Eu nunca pensei."
Mas ela sabia, lá no fundo. Ela permitira que Roger a levasse, permitira a si mesma acreditar que era perdoável, que Blake estaria lá, esperando que ela recobrasse o juízo. Ela apostara tudo, pensando que não podia perder.
E agora estava começando a cair a ficha: ela perdeu.
Seu telefone jazia na mesa de centro, morto e desconectado, muito parecido com o que ela sentia que sua vida era agora. Fora-se a casa, fora-se o marido, e fora-se o futuro com Blake com o qual ela sonhara.