Um Pesadelo Acordado
A Toyota de Linda tremeu quando ela desligou o motor. Ela ficou sentada na entrada da sua modesta casa suburbana, as luzes estavam apagadas, as crianças obviamente não estavam em casa. Era incomum. Desde o ano passado, seu marido, Jim, saía mais cedo do trabalho para buscá-los na escola. Ele estava tentando passar mais tempo com eles. Era doce, mas tingido com um toque sombrio da escuridão que ainda pairava sobre sua pequena família.
Suas mãos tremiam levemente no volante. Já fazia quase um ano desde aquela noite horrível no Morrison's. Um ano desde que ela deixou Marc LaValliere arrebatá-la para uma noite de libertinagem. Um ano desde que ela abandonou seu marido sozinho naquele clube, destruindo seu casamento e sua família.
Os últimos doze meses tinham sido uma tortura. Cada dia uma mistura de culpa usando uma máscara de esperança frágil. Uma batalha silenciosa para provar a Jim que ela o escolhera... pelo menos desde aquela noite. Ela usara sua máscara como uma segunda pele, incrustando-a em sua carne com toda a força de vontade que possuía. Cuidando de seu "novo casamento" com uma devoção que beirava o maníaco. Na verdade, ela estava se desintegrando, incapaz de suportar o fardo de "compensar" seu marido, especialmente quando seus olhos ainda guardavam aquele frio distante. Ele dizia que a perdoara, mas não esquecera. Esta noite, ela tentaria de novo. Ela iria além da dor e convocaria alguma faísca daquela noite que compartilhara com Marc e a redirecionaria para Jim. Era errado, mas era tudo o que ela tinha.
Linda saiu do carro, seus saltos esmagando um pouco da neve de fim de fevereiro. Era estranho que a casa parecesse tão escura. Procurando as chaves, ela finalmente destrancou a porta e entrou, seus instintos gritando que algo estava errado.
"Jim? Emma? Tommy?" ela chamou, sua voz ecoando pelas paredes.
Ela largou a bolsa na mesa de entrada e acendeu uma luz. O silêncio pressionava, denso e pesado.
"Talvez eles estejam na casa de um vizinho? Ou comprando jantar a caminho de casa?"
Ela verificou o celular novamente em busca de mensagens, mas não encontrou nada. Ela enviou uma mensagem - "Amor? Você está com as crianças? Quando vocês voltam para casa?" Aquela coceira na nuca estava ficando mais alta. Ela foi até a casa ao lado, depois atravessou a rua. Ninguém os tinha visto. O relógio passou das seis, depois das sete, depois das oito. O nó apertou em seu estômago.
Ela discou o número de Jim, seus dedos atrapalhados. Deixou uma mensagem em pânico na caixa postal. Tentou o celular pré-pago da Emma, depois a mãe do amigo da escola do Tommy. Nada. Sua respiração acelerou enquanto ela andava pela sala, o zumbido familiar de sua casa agora um vazio zombeteiro. Ela ligou para seus pais, com a voz embargada.
"Mãe, eles sumiram. Jim e as crianças, eles não estão aqui. Eu liguei, mas eles não atendem."
O tom de sua mãe era gentil, mas com algo que Linda não conseguia nomear.
"Ah, querida. Você tem certeza de que eles não saíram? Talvez Jim os tenha levado para tomar sorvete ou algo assim."
"Não, mãe. É tarde demais para isso. Algo está errado, eu sinto." Os olhos de Linda correram para a janela, meio esperando vê-los subindo o caminho. Nada.
"Bem, chame a polícia se estiver tão preocupada", sua mãe disse. "Mas Linda, depois de tudo, talvez ele só precise de um tempo."
Linda desligou. Ela sabia o que sua mãe queria dizer. A noite com Marc. A humilhação pública. A destruição da confiança de Jim nela. Tempo? Depois de tudo? Ela balançou a cabeça, recusando-se a acreditar que as coisas ainda estavam tão ruins. Em vez disso, ligou para Dee, sua última âncora com a sanidade.
"Dee, eles desapareceram. Jim e as crianças, sumiram. Não sei o que fazer."
A pausa de Dee se alongou demais. "Linda, você assistiu ao noticiário hoje?"
"O quê? Não, por que eu assistiria? Minha família desapareceu, Dee!" Linda explodiu, sua voz subindo.
"Marc também está desaparecido. Desde ontem."
O horror que Linda vinha tentando manter à distância finalmente a dominou. Seus joelhos fraquejaram e ela afundou no sofá, o telefone escorregando de sua mão. A coincidência a agarrou, uma reviravolta doentia do destino. A coceira na nuca era um uivo.
"Deus, por favor, não!"
Ela se atrapalhou com o controle remoto, sintonizando no noticiário local. Era uma grande notícia, Marc era uma celebridade, um herói local. Um homem que roubava as esposas dos outros e eles o agradeciam por isso. Ele era um deus entre os homens... e agora ele havia sumido.
"Marc LaValliere, astro tight end do time de futebol da cidade, foi visto pela última vez há dois dias. A polícia investiga possíveis conexões com seus associados conhecidos."
O estômago de Linda se revirou. Ela desligou, incapaz de ouvir mais, e ligou para a polícia.
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O primeiro policial chegou em menos de uma hora, um homem atarracado com um bigode de guidão e uma expressão cansada. Linda o encontrou na porta, com os olhos arregalados e avermelhados.
"Meu marido e meus filhos sumiram. Eu liguei para todo mundo. Por favor, vocês têm que encontrá-los", ela implorou
O policial rabiscou enquanto ela falava. "Quando foi a última vez que a senhora os viu, Sra. Grayson?"
"Esta manhã. Eu dei um beijo de despedida no Jim antes do trabalho, deixei as crianças na escola. Tudo estava normal." Sua voz falhou. "Por favor, eles são meu mundo inteiro."
Ele assentiu, mas sua próxima pergunta mudou o ar. "Precisamos perguntar sobre Marc LaValliere. A senhora o conhece, certo? Ele também foi dado como desaparecido."
Linda congelou, sua garganta apertando. "Sim, eu o conheço. Nós. Quer dizer, eu dancei com ele uma vez, há um ano. Só isso. Por que estão perguntando sobre ele?"
"Apenas verificando todas as possibilidades", ele disse, mas seu olhar permaneceu, afiado e investigador. "Alguma razão para seu marido ter um problema com ele?"
Ela recuou, a implicação pesando no ar. "Não. Quer dizer, sim, houve uma coisa, mas acabou. Jim não faria. Ele não é assim." Suas palavras soaram vazias, até para ela.
O policial fez mais anotações, depois saiu com a promessa de acompanhar o caso. Linda ficou parada na porta, sentindo as cortinas dos vizinhos se mexerem, seus olhos perfurando-a. Julgando-a. Ela bateu a porta e afundou no chão. Jim não machucaria Marc.
Machucaria?
Mas a dúvida supurou. Algo sombrio e distorcido, nascido quase um ano atrás, finalmente criou raízes em seu tronco cerebral - uma semente plantada por aquele olhar nos olhos do policial e nutrida por sua própria culpa incansável
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Os dias se passaram, mais frios que as ondas no Lago Michigan. Linda ligou para os pais de Jim em seguida, sua voz rouca de tanto gritar em caixas postais.
"Mary, é a Linda. Jim e as crianças sumiram. Você soube deles? Por favor, me diga se souber de alguma coisa."
A resposta de Mary foi fria, seca. "Não, Linda, não soubemos. Mas honestamente, você pode culpá-lo se ele foi embora? Depois do que você fez com aquele jogador de futebol, exibindo isso para todos verem?"
O peito de Linda apertou. "Eu tenho tentado consertar, Mary. Todos os dias por um ano. Eu o amo. Amo as crianças. Por favor, me avise se souber deles!"
"Nós avisaremos a polícia", Mary disse, e desligou.
Linda encarou o telefone, as palavras da sogra doeram. Exibindo. Ela não tinha exibido nada, tinha? Mas a cidade sabia. A fofoca se espalhou como fogo após aquela noite, e agora eles estavam olhando, sussurrando pelas suas costas. Ela sentia isso toda vez que saía, os olhos deles acusando-a, marcando-a como a adúltera que afugentou sua família.
Na semana seguinte, ela parou de ir ao trabalho. Seu chefe ligou, seu tom solidário, mas firme. "Linda, precisamos de você aqui. Você faltou três dias. O que está acontecendo?"
"Não posso", ela murmurou, sua voz sem expressão. "Minha família se foi. Tenho que esperar por eles."
"Tire um tempo, então", ele disse, "mas você precisa nos avisar quando vai voltar."
Ela não respondeu, apenas desligou, e deixou o telefone cair sobre o balcão da cozinha. O trabalho não importava. Nada importava além de Jim e as crianças entrando por aquela porta.
O caos na casa começou a refletir seu próprio desmoronamento. Pratos se empilhavam na pia, incrustados com comida intocada. Sacos de lixo caíam contra as paredes, derramando embalagens e borra de café. Ela parou de tomar banho, seu cabelo loiro embaraçando em mechas gordurosas, sua pele pinicando de negligência. Erupções cutâneas estranhas surgiram em seus ombros, flocos de pele sempre presentes sob suas unhas que coçavam. Ela ficava sentada em silêncio perto da janela, as cortinas entreabertas o suficiente para ver a entrada, esperando.
Sempre esperando.
Os amigos pararam de ligar. Os vizinhos pararam de bater. Até seu chefe parou de tentar contatá-la. Ela não se importava. Ela os estava evitando de qualquer jeito. Evitando os sussurros. Os olhares julgadores. Ela queria se enfiar dentro da própria pele.
Ela queria que sua família voltasse para casa.
Ela murmurou algo ininteligível para si mesma, arranhando linhas finas em seu braço e continuou sua vigília silenciosa na janela.
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Seus pais voltaram uma semana depois, seus rostos marcados de preocupação. O cheiro os atingiu primeiro. Um cheiro azedo e podre que fez sua mãe engasgar.
"Jesus, Linda, o que é isso?" seu pai perguntou, passando por cima de uma pilha de roupa suja.
"Não sei", Linda disse, seus olhos arregalados, correndo para os cantos. "Está aqui há um tempo. Não consigo encontrar."
Sua mãe se ajoelhou ao seu lado, afastando seu cabelo emaranhado. "Querida, você não está bem. Olhe este lugar. Olhe para você. Você não tomou banho, não está comendo. Deixe-nos levá-la a um médico."
"Não", Linda disparou, se afastando. "E se Jim voltar? E se as crianças precisarem de mim? Não posso sair."
A voz de seu pai endureceu. "Linda, eles não vão voltar. Jim os levou. Você sabe por quê. Todos nós sabemos. Você precisa de ajuda."
"Vocês acham que eu mereço isso", ela sussurrou, lágrimas brotando. "Vocês também estão me julgando. Todo mundo está. Vejo isso em seus rostos, o jeito que vocês me olham como se eu fosse lixo."
O pai de Linda pareceu querer dizer algo, mas se conteve e se virou, esfregando o rosto. Linda conhecia aquele olhar. Ele nunca soube como lidar com ela.
Sua mãe interveio para cobrir.
"Não estamos julgando", sua mãe disse suavemente, "estamos com medo por você. Por favor, venha conosco."
Linda balançou a cabeça, se enrolando no sofá. "Vão. Eu vou ficar bem. Eles vão voltar."
Seus pais trocaram um olhar, depois saíram, murmurando sobre um juiz e uma ordem de proteção. Ela mal os ouviu, seus ouvidos sintonizados com o silêncio, esperando por passos na varanda que nunca vinham.
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A polícia retornou, desta vez com uma detetive mulher. Ela era alta e morena, italiana, ou latina. Seu cabelo era grosso e preto, seu rosto gracioso mas tempestuoso. Linda estava sentada em meio ao caos, seu roupão manchado, suas unhas roídas até a carne.
"Sra. Grayson", a detetive começou, seu nariz se enrugando com o fedor da casa apodrecida de Linda, "confirmamos que seu marido sacou grandes somas de suas contas e do fundo de aposentadoria dele. Ele também estourou o limite da linha de crédito da sua casa e estourou todos os seus cartões de crédito."
As mãos de Linda se torciam em seu colo. "Você está errada. Ele não faria isso. Ele me ama."
Os olhos da detetive suavizaram, mas seu tom permaneceu firme.
"Linda..." ela disse, sua voz pingando compaixão. "Jim não vai voltar."
Linda silenciosamente balançou a cabeça e desfiou o lenço de papel esfarelado em sua mão. Era óbvio que ela ainda não estava pronta para ouvir isso. A detetive suspirou e continuou.
"Também precisamos conversar sobre Marc LaValliere. O carro dele foi encontrado abandonado a dezesseis quilômetros daqui. Sabemos que vocês dois tiveram um relacionamento. Há algo que você possa nos contar?"
A respiração de Linda falhou. "Nós não tivemos um relacionamento! Foi só uma noite!"
A detetive Annabelle Gomez suspirou internamente. Não era um segredo muito bem guardado que Marc LaValliere tinha o hábito de seduzir mulheres casadas e, secretamente, ela achava que se alguém fez algo com ele... ele provavelmente mereceu, mas ela tinha um trabalho a fazer e, no momento, esse trabalho era tentar fazer essa mulher delirante lhe dar algo, qualquer coisa, que pudesse ajudá-la a resolver esse caso.
"Claro, só uma noite - eu entendo. Mas você teve algum contato com ele depois? Algo que seu marido não gostaria?"
Linda esfregou os olhos.
"Ele me mandava coisas. Eu disse para ele parar. Eu não o queria. Eu escolhi o Jim. Pergunte à Dee, ela sabe."
"Nós conversamos com a Dee", a detetive disse. "Ela mencionou um incidente no Morrison's, no Dia de São Patrício. Marc perguntou por você. Seu marido não ficou nada contente com ele, não é?"
"Jim o odiava", Linda admitiu, sua voz pequena. "Mas ele não o machucaria. Ele não é violento. Ele não é esse tipo de homem."
A detetive Gomez se inclinou para frente. "Linda, não estamos dizendo que ele é violento. Estamos dizendo que ele desapareceu, e Marc desapareceu, e há uma conexão. As pessoas viram você com Marc. Elas falam. Jim mencionou alguma coisa, algum plano?"
"Não", Linda mentiu, sua mente acelerada. Ela sentiu o olhar da detetive, pesado de suspeita, juntando-se ao coro de olhos que ela imaginava em toda parte--vizinhos, colegas de trabalho, estranhos na rua. "Você acha que eu fiz algo para o Marc, não é? Vocês estão todos me encarando, me culpando."
"Estamos apenas fazendo perguntas", a detetive disse, levantando-se. "Ligue se lembrar de algo." Ela deixou um cartão sobre a mesa, mas Linda não o tocou, seus olhos fixos na janela.
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Dee veio no dia seguinte, sua batida hesitante. Linda a deixou entrar, o fedor fazendo Dee torcer o nariz. "Linda, Deus, o que aconteceu aqui? Você está horrível."
"Eles se foram, Dee", Linda disse, sua voz um monótono. "Jim levou as crianças. Marc está desaparecido. Todo mundo acha que a culpa é minha."
Dee sentou ao seu lado, hesitante. "Eu não acho isso. Mas as pessoas estão falando. Aquela noite com Marc, está tudo vindo à tona de novo. Estão dizendo que talvez Jim tenha enlouquecido."
Os olhos de Linda flamejaram. "Você também está me julgando. Eu vejo. Você acha que eu o empurrei para isso."
"Não", Dee disse rapidamente, "eu sou sua amiga. Estou preocupada. Você está desmoronando. Deixe-me ajudá-la a limpar, dar um banho em você."
"Não posso", Linda murmurou. "Preciso esperar. Eles vão voltar." Ela se virou, olhando para a entrada, e Dee suspirou, saindo com a promessa de verificar mais tarde. Linda não acreditou nela. Ela finalmente entendeu que tipo de pessoa sua "amiga" Dee era. Ela tinha ficado mais do que feliz em ajudar Linda a ferir mortalmente seu casamento e então, como os outros, a julgava pelas consequências. Ela podia ver isso em seus olhos, era igual a todos os outros. Ela tinha certeza disso.
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Semanas se passaram, e as vozes começaram. No início, eram sussurros fracos na noite, acordando-a de um sono agitado. "Linda", elas chamavam, suaves e insistentes. Ela se sentava, coração acelerado, vasculhando o escuro. "Jim? Crianças?" Nenhuma resposta. O cheiro piorou, uma podridão espessa que cobria sua garganta, mas ela se tornara insensível a ele, seus sentidos entorpecidos pela exaustão e desespero.
Ela vagava pela casa, notando lacunas onde memórias antes residiam. Algumas fotos de família, alguns desenhos de Emma - sumiram. Ela procurou seu álbum de casamento, mas não conseguiu encontrá-lo. Em desespero, ela revirou armários, debaixo das camas, mas só encontrou poeira. As vozes ficaram mais altas, um coro agora, chamando seu nome, zombando dela.
Ela ficava na cozinha, olhando para o chão cheio de lixo, sussurrando de volta. "Estou aqui. Estou esperando. Voltem para casa."
Uma noite, ela acordou com um grito. Não era o dela, era? Ela cambaleou até a janela, espiando para fora. Sombras se moviam do outro lado da rua, vizinhos olhando em sua direção. Eles sabiam, ela pensou. Eles estavam rindo dela, apontando, seus olhos queimando através do vidro. Ela fechou as cortinas bruscamente, sua respiração irregular, e afundou no chão, balançando-se.
"Eu não quis dizer isso", ela divagava. "Eu escolhi você, Jim. Eu escolhi você."
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Seus pais retornaram, seus rostos sombrios. O cheiro estava insuportável agora, uma parede de decomposição que fez seu pai ter ânsia de vômito. "Linda, isso é insano", ele disse, sua voz cortante. "Você está vivendo na imundície. O que é esse cheiro?"
"Não sei", ela disparou, seus olhos correndo. "Não é minha culpa. Você também está me culpando, não está? Todo mundo está."
Sua mãe se ajoelhou, lágrimas nos olhos. "Não estamos culpando você. Nós te amamos. Mas você está doente, querida. Você precisa de ajuda."
"Não", Linda gritou, recuando. "Não posso sair. Eles vão voltar. Vocês não entendem."
"Nós entendemos", seu pai disse, mais suave agora. "Mas você não pode ficar assim. Vamos a um juiz amanhã. Vamos conseguir ajuda para você, quer você queira ou não."
Eles foram embora, e Linda se enrolou como uma bola, as vozes aumentando ao seu redor. "Linda, Linda", elas cantavam, uma maré implacável. Ela pressionou as mãos nos ouvidos, soluçando, mas elas não paravam. Ela não tomava banho há semanas, sua pele grudenta de sujeira, suas roupas duras de suor, mas ela não se importava. Ela esperaria para sempre se fosse preciso.
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Na noite final, as vozes rugiram, uma cacofonia puxando-a do sono. "Linda!" elas gritaram, claro como sinos. Ela se levantou cambaleante, suas pernas fracas, o ar pesado de ruína. Algo a puxou para o porão, um puxão que ela não pôde resistir. Ela não descia lá há meses, não pensara em procurar. Seus pés descalços batiam nos degraus frios, o cheiro a sufocando, mas ela continuou, acendendo a luz do teto.
Ela quis gritar, mas nada saiu. Os olhos podres e esbugalhados de seu adônis, sua boca coberta com camada após camada de fita adesiva, estava amarrado a uma viga de suporte. Ele estava nu - sua forma não mais perfeita, não mais exalando nada além de putrefação e decadência. Linda viu a poça de sangue aos seus pés, seguiu-a pelas pernas e viu que tinha sumido - a ferramenta de maestro que tocara seu corpo tão habilmente apenas um ano antes.
O quarto começou a girar enquanto o horror e a verdade desabavam sobre ela. Jim tinha feito aquilo. Ele levara tudo — a família dela, sua sanidade — e em troca lhe deixara aquilo. A mensagem era clara.
— Mas eu escolhi você! EU ESCOLHI VOCÊ! EU JURO QUE ESCOLHI! — ela uivou.
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Fitas policiais esvoaçavam ao redor da casa, uma auréola sinistra sob a luz do amanhecer. As equipes forenses estavam terminando o trabalho, e dois policiais permaneciam do lado de fora, as vozes baixas sobre xícaras de café.
— Cristinho, você soube como encontraram ele? — disse o mais velho, acendendo um cigarro.
O mais jovem, um novato e nem um pouco fã de esportes, deu uma risadinha.
— Pois é, o pau cortado e enfiado até a metade da goela. Não podia ter acontecido com um cara melhor.
O policial mais velho deu de ombros e tomou um gole de café, o vapor da bebida se misturando à fumaça que exalava da respiração.
— Não entendo. Um cara daqueles — famoso, cheio da grana. Podia ter qualquer uma! Um suprimento infinito de modelos ou atrizes. Qualquer bimbinha que quisesse, e ele faz isso? Come metade das mulheres casadas de Chicago?
— Sei como é — disse o mais jovem —, você viu a esposa? Meia-idade, loira de farmácia, cara de ratazana fervida. O cara tinha que ser louco, ou tinha uma tara sinistra por mamães. Tipo, Mas. Que. Porra.
Eles balançaram a cabeça e terminaram o café. A situação toda era bizarra. Alguém quase imediatamente vazou para a imprensa, e os tabloides estavam fazendo a festa. Provavelmente levaria um tempo, mas uma hora alguém começaria a se perguntar sobre o marido e as crianças desaparecidas. Estariam desaparecidas ou encontrariam mais corpos naquela casa se vasculhassem direito? Ou talvez as achassem num carro abandonado numa estrada rural, ou num prédio incendiado, ou levadas à praia do Lago Michigan. Coisas mais horríveis já tinham acontecido, e aquela parecia ser o tipo de tragédia sem final feliz.
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Linda jazia numa cama de hospital, os olhos vazios, fixos na porta. Tinham tentado usar drogas e terapia para juntá-la de novo, mas ela esperava, sempre esperava, por Jim e pelas crianças. A descoberta do corpo de Marc jogara os holofotes sobre a tragédia da sua família, e logo a nação inteira sabia da história. A noite no Morrison's, os amigos sem tato que a acobertaram e incentivaram, a longa lista de outras mulheres casadas que acabaram como pasto para o que a internet apelidou de "a tara doentia de Marc LaValliere por velhinhas".
Ela sabia que era verdade. Claro, ela fora bonita — para uma mãe de dois à beira da meia-idade —, mas Marc era jovem, lindo, absurdamente em forma, famoso e rico. Ele não a escolhera por ela ser irresistivelmente bonita; ele a escolhera porque a odiava e queria arruiná-la — e ela, feliz da vida, deixou. Linda agarrara a chance de se tornar cúmplice mais do que voluntária da própria destruição. Tudo porque queria acreditar que seus peitos caídos, achatados depois de amamentar dois filhos, ou sua bunda cheia de celulite e a barriga estriada a tornavam desejável para um homem que ela sabia que nunca deveria querê-la.
A vingança de Jim tinha se espalhado por telas e jornais do mundo todo, e Linda se tornara uma história de advertência, uma mulher execrada. As pessoas tinham pena de Jim, diziam coisas como: "Não concordo com o que ele fez, mas entendo por que fez." Muitas vezes com um olhar cúmplice ou um sorriso sem jeito. Linda, no entanto, não passava de uma puta, uma esposa vadia, uma vadia narcisista, uma vagabunda malvada. O desprezo público era palpável e grudava nela como merda rançosa, em contraste gritante com o incentivo entusiasmado e as desculpas das amigas.
"É só uma noite", ela dissera a todos, mas aquela única noite se estendera num pesadelo sem fim.
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Bem longe, sob um sol tropical quente, Jim observava os filhos brincarem com o novo cachorrinho no seu grande jardim murado. Ouviu a porta do pátio se abrir e a namorada, Maria, anunciar às crianças que o almoço estava pronto. Ele tomou um gole do seu Belikin Sprite e seguiu preguiçosamente as crianças para dentro da casa bem grande.
Maria estava sentada na ilha da cozinha, em frente às crianças, e ria. Era reconfortante de um jeito tranquilo e familiar.
— Vou subir para o escritório um instante — disse ele, colocando o copo vazio no balcão —, só preciso terminar uma papelada e depois podemos ir todos à praia.
Tommy, ou Jake, como agora era conhecido, animou-se:
— A gente pode levar o barco, pai? Por favor?
Jim sorriu e disse:
— Claro, campeão. Agora se comporte com a Maria, já volto.
Tinha havido muitos passeios de barco, idas ao zoológico, presentes, brinquedos novos e, recentemente, um cachorrinho, nos últimos meses. Ele sabia que estava fazendo o papel do pai estilo Disneylândia com as crianças, e uma hora aquilo teria que acabar, mas só depois que eles estivessem completamente ambientados na nova vida.
No andar de cima, atrás da porta trancada da biblioteca, ele acessou uma conta de e-mail secreta, por um proxy criptografado, e leu o último relatório do detetive particular que ainda pagava. A polícia obviamente continuava atrás dele, sabiam que ele fugira do país, mas não tinham certeza para onde. Era uma boa notícia, e ele esperava que a sorte continuasse. Linda ainda estava no hospital — parecia que o colapso mental dela podia ser mais sério do que se pensava a princípio. Isso lhe dava uma satisfação sombria que, mesmo depois de tudo que fizera, ainda o surpreendia por quão eufórico o deixava.
"Aquela filha da puta."
Jim fizera muitas coisas que jamais imaginou que faria. Coisas que tinham sido quase incompreensíveis para ele antes daquela noite de fevereiro do ano bissexto. Coisas que ainda lhe faziam a pele arrepiar nas horas mais escuras da noite.
"O que foi que Churchill disse? Até um rato encurralado é perigoso?"
Era o que ele fora — um rato encurralado. Um otário indefeso, dividido entre o amor pelos filhos e uma vida inteira de abuso emocional e gaslighting. Linda, ele concluíra, devia ser algum tipo de sociopata para ter feito o que fez com ele, de modo tão descarado e público. Para piorar, ela estava completamente sem remorso, dizendo bobagens do tipo que ELE a amava tanto que tornava OK, ou compreensível, ela eviscerar e emascular ele. Aí, quando leu a confissão dela, entendeu a profundidade do desprezo absoluto que ela sentia. Ela não tivera nem a porra da decência de mentir sobre o amante fantástico que o jogador de futebol tinha sido. Aquilo o fez pensar se parte da estratégia dela, além do gaslighting constante, era fazer com que ele se sentisse tão pequeno, insignificante e inferior que ficasse com ela por gratidão por ter ao menos uma migalha daquela boceta de meia-idade.
Como se ela fosse algum tipo de prêmio.
Jim aprendera muito com Linda e os amigos deles. Aprendeu sobre insensibilidade, sobre despistamento e mentiras. Sobre como era sangrentamente eficiente transformar confiança em arma para destruir pessoas. Ele aprendeu bem. Alimentou o ressentimento e engoliu a vergonha enquanto "a perdoava", como parte da encenação emasculante de L.W. com a garota de programa Ellen.
E então planejou.
O dinheiro foi fácil — Linda nunca fizera a contabilidade, nem antes nem depois da traição. Ele simplesmente liquidou investimentos e transferiu fundos para uma conta no exterior. Enganou Linda para que assinasse uma segunda hipoteca para reformas, explorando o desejo dela de "compensá-lo". Conseguiu passaportes e documentos para as crianças e os alterou. Sacou o 401K e vendeu tudo que podia, deixando Linda sem um tostão e a si mesmo com capital inicial suficiente para começar uma nova vida, com um novo nome, num novo país.
Começou a ser mais romântico e paquerador com Linda, até a levou de volta para a cama deles. Fazia parte do seu próprio despistamento. Conseguiu com que ela lhe mandasse nudes enquanto estava no trabalho, e ela atendeu com demasiado entusiasmo. Havia muito copiara o número do celular de Marc do telefone dela e, com um descartável e algumas fotos, atraiu Marc ao seu destino.
"Use este número, não quero que meu marido saiba que você está comendo minha boceta de casada."
A violência fora libertadora de formas que Jim jamais imaginara. A expressão no rosto presunçoso de LaValliere, ao se aproximar do corpo nu e amarrado com a tesoura de jardim quase comicamente grande, não tinha preço.
Ele era um monstro por matar Marc? Por arruinar Linda? Por roubar os filhos deles?
Com certeza ele era.
Ele sabia que fizera o mal, pior até do que Linda fizera com ele e as crianças. Mas que escolha ele tinha? O peso das expectativas dos amigos, da família e da sociedade desabara sobre ele — ou aceitava e se perdia, ou lutava e perdia todo o resto. Não havia meio aceitável de vencer ou mesmo de ir embora com a dignidade e a vida intactas. Ele era o rato encurralado.
Então, ele mordeu de volta.
Um dia, talvez até em breve, ele seria responsabilizado pelos seus crimes, seja num tribunal de justiça, seja no além-túmulo. Ainda assim, não mudaria nada. Não podia. Jim Grayson, o trouxa afável e confiante que devotara a vida a uma mulher infiel, caíra num pesadelo que não era obra sua, e o que acordou do sonho foi O Monstro — um terror desperto que odiava com uma paixão que espelhava o amor que Linda tão cruelmente extinguira.
Jim desligou o computador e afastou a cadeira da escrivaninha. Mesmo ali, sob o sol tropical intenso, O Monstro projetava uma longa sombra. Ele se agarraria a ele enquanto caminhasse sobre a terra, mas ele tinha certeza de que dali em diante o controlaria e o domaria. Enquanto tivesse as crianças, O Monstro ficaria onde devia ficar.
Ele continuaria aquele sonho enquanto pudesse. Curtiria cada momento. Saborearia cada nova experiência. Seu pesadelo já não tinha poder sobre ele, e Deus ajudasse quem tentasse acordá-lo do seu sonho.
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FIM
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Não é segredo que eu realmente não gosto do February Sucks original e que, na minha opinião, uma das razões de ele ser reescrito com tanta frequência é porque, na verdade, é incrivelmente ruim. Toda a premissa opera com o que chamo de lógica de pesadelo — o tipo de percepção distorcida da realidade que imita aqueles sonhos em que você foge de um homem desconhecido e nunca parece sair do lugar onde está. Como se você pudesse estar em pânico e se debatendo, e nada do que faz importasse. Você está emperrado.
É assim que vejo o Jim na história original. O autor nunca permite que ele tenha agência. Ele nunca pode lutar contra o conflito da história — em vez disso, deve aceitá-lo humildemente. Está tudo lá na história — desde o primeiro encontro no Morrison's, onde é frustrado por todos ao redor, até a reconciliação forçada, que na verdade é uma armadilha de L.W., que, como um péssimo mágico, revela o truque depois do fato apenas para humilhar e emascular ainda mais ele — Jim é um protagonista que não tem energia de protagonista. Ele é mole. Fraco. Ineficaz e completamente subserviente ao fato de que George Anderson queria reconciliar um relacionamento irreconciliável.
Enfim, o ímpeto para esta história veio da conclusão acima. Se, afinal, Feb Sucks é só uma história de pesadelo com lógica ruim e um falso protagonista, por que não abraçar essa energia de pesadelo e ir com tudo para uma conclusão apropriada? Quer dizer, se já estamos operando na lógica de pesadelo — certamente este final é lógico dentro desse contexto, não é?
Provavelmente esta será a única porcariada de Feb Sucks que escreverei, porque todo o resto seria entediante. Não para jogar sombra nos outros autores, porque de fato gostei de algumas releituras que li, mas a razão por eu ter feito uma continuação em vez de uma reescrita é porque acho que reescrever uma história para torná-la menos ruim não é algo muito divertido de se fazer, e não consigo imaginar nenhum tipo de continuação que achasse interessante escrever. Mas ei, nunca diga nunca, certo?
P.S. — Levantem a mão — quem deduziu o que era o fedor na casa antes da revelação final?