Sem Bolo
— Olá, Mary — disse Michael, pousando a mão no encosto da cadeira. Ele olhava para a morena de vestido branco, sentada à mesinha no gramado, ao lado de um homem de seus cinquenta e poucos anos, vestindo um terno marrom impecável.
Mary ergueu os olhos e virou o ombro ao ouvir seu nome. Levou meio segundo, mas reconheceu o rosto com o qual passara tanto tempo. Ele envelhecera, claro. Já fazia onze anos. Os olhos ainda eram aquele cinza metálico, e ele tinha um toque de um grisalho diferente nas têmporas. A linha do cabelo recuara um pouco. Ficava elegante no terno preto.
— Olá, Michael — disse Mary, a voz quase sem emoção. Ela começou a empurrar a cadeira branca dobrável para trás, para se levantar, mas Michael pousou a mão suavemente no ombro dela, indicando que não precisava. Mary olhou de volta para ele e percebeu que Michael previra que ela se levantaria e lhe daria um abraço. Ele não estava interessado.
Ficaram assim, olhando um nos olhos do outro por uns cinco segundos. Mary então se virou e percorreu a recepção com o olhar, tentando localizar a filha, no vestido branco incrível. Ela não estava à vista.
— Acho que não nos conhecemos — disse Michael, contornando Mary e estendendo a mão ao acompanhante dela para um aperto. — Sou Mike Nesmith, pai da noiva.
O homem se levantou, pegou a mão oferecida e a sacudiu com três bombadas firmes.
— Eu sei, vi quando você entregou a noiva. Que baita casamento você está dando! — disse o homem. — Sou Kurt Hesselbeck. Vejo que conhece minha esposa?
— Sim, conheço sua esposa — disse Michael, olhando de relance para Mary. O tom era seco.
— Obrigado por nos convidar… — disse Kurt. — O buffet está excelente, a cerimônia foi linda. Quero o nome e o telefone do seu organizador, para quando nossa filha se casar. — Kurt sorriu.
— Você tem uma filha? — perguntou Michael, os olhos se voltando para Kurt. — Onde ela está?
— Não pôde vir, o convite era para a Mary e um acompanhante — explicou Kurt. — Além disso, embora seja muito bem-comportada, a pequena Mary teria ficado muito entediada aqui. Sei que teríamos que tirar o celular dela! — Kurt sorria ao contar a Michael sobre seu orgulho e alegria.
— Quantos anos ela tem? — perguntou Michael, curioso.
— Vai fazer onze, daqui a dois meses — disse Kurt. — Vou ter que inventar algo incrível para o aniversário dela. Demos uma festa de arromba para os dez!
— Outra menina, hein, Mary? — perguntou Michael, sem olhar para a mulher a quem se dirigia.
— Outra? — perguntou Kurt, sem entender.
— O que você faz, Kurt? — perguntou Michael, mudando para o outro lado da mesa e puxando uma cadeira. A esse sinal, ambos os homens se sentaram, e o coração de Mary virou chumbo no peito.
— Sou gerente de compras da corporação Q-Mec. Mantenho o fluxo de metais de terras raras para a produção de celulares — explicou Kurt, feliz em falar de negócios. — Estou no cargo há uns seis anos? Sim, seis anos. Me leva para o exterior bastante, mas o salário e os benefícios são ótimos.
— Isso é fantástico, Kurt — disse Michael. — Você tem um cartão? — Michael vasculhou o bolso do peito do paletó e sacou a carteira.
Kurt tirou a própria carteira do bolso traseiro, puxou um cartão de visitas e o estendeu a Michael, do outro lado da mesa. Michael trocou pelo seu próprio cartão.
— East Alliance Shipping, hein? — disse Kurt, depois de examinar o cartão de Michael. — Já usei vocês. Fazem uma coleta portuária ótima de materiais perigosos e entregam rápido. O que você faz lá?
— Sou chefe do controle financeiro — disse Michael.
— Uau, você é aquele cara? Qual é o tamanho da sua frota? — perguntou Kurt.
— Mais de três mil caminhões agora — disse Michael. — Acabamos de adicionar mais duzentos transportadores blindados de segurança. Estou cuidando do desembolso agora.
— Não consigo imaginar a logística diária do seu trabalho. Eu só lido com extração e transporte do exterior. É principalmente tonelagem bruta — disse Kurt. — Você deve planejar as coisas como os aliados fizeram a invasão do Dia D.
— Sim, temos nossos momentos — admitiu Michael. — Acabamos de ter nossa autorização de segurança aumentada, vamos receber alguns contratos governamentais interessantes em breve, espero.
— Contratos governamentais? — perguntou Kurt. — Legal. Muito dinheiro a se ganhar aí!
Michael concordou com a cabeça.
— Você tem alguma parte do bolo? — perguntou Kurt.
— Recebo quatro por cento — disse Michael.
— Quatro por cento? De quê?
— Da East Alliance Shipping — disse Michael. — Quando assumi logística e planejamento, tive um grande aumento e meio por cento de tudo a cada ano, com teto em dois anos. O mesmo acordo que os diretores recebem.
Kurt assobiou em apreciação.
— Não é à toa que você pôde fazer isso… — disse Kurt, gesticulando ao redor para a recepção de casamento com quatrocentas pessoas, num ilha no meio de um lago. — … Impressionante!
Michael assentiu educadamente.
— Acho que só banquei a conta — admitiu Michael, enquanto olhava o evento de onde estava sentado. — Kim e a mãe do marido dela fizeram a maior parte do planejamento. Meu trabalho foi jogar dinheiro até acontecer. Admito que meio que empaquei na soltura das borboletas, só aquilo foram quinze mil.
— Nunca vi nada assim — disse Kurt. — Todos no casamento ganharam uma daquelas embalagens de comida chinesa, com uma borboleta viva dentro. Em vez de jogar arroz, houve essa linda chuva ascendente de cores e vida. Foi lindo.
— Foi — concordou Michael. — Só não sabia que seria tão caro. Aparentemente, existe uma profissão chamada “domador de borboletas”, e é só isso que fazem. Cuidar delas por uma semana, chocá-las e manter as borboletas é aparentemente um trabalho que exige muito.
— Foi incrível — disse Kurt. — Quantas foram soltas?
— Não sei exatamente… — confessou Michael. — O domador preparou para quinhentos convidados. Acho que Kim convidou a classe inteira de formandos. Eu a mimerei um pouco, a vida dela teve algumas… — Michael olhou para Mary. — … dificuldades incríveis jogadas nela.
— Ah, é? Em que ela se formou? — perguntou Kurt.
— Ela está se preparando para ser cirurgiã pediátrica — Michael contou ao homem. — Ainda tem um caminho longo, mas é determinada. Se eu tiver sorte, a irmã dela, a pequena Mary, também vai mirar alto.
— Você também tem uma filha chamada Mary? — exclamou Kurt. — Nossa, quais são as chances? Aqui está a Mary, minha esposa, e temos uma filha chamada Mary, em homenagem a ela!
— Sim, minha pequena Mary também recebeu o nome da mãe — Michael tinha um tom estranho na voz, pensou Kurt. — Ela tem dezessete anos agora. Vai se formar como a primeira da turma no ensino médio.
— Isso é incrível! — Kurt abriu um sorriso radiante para Michael. — Você deve estar tão orgulhoso! Ela já escolheu uma faculdade?
— Eu ~estou~ orgulhoso — disse Michael com um leve sorriso, o primeiro que deixou escapar desde que se aproximara da mesa. — Mary passou por um período muito ruim, onze anos atrás. Quase arruinou a vida algumas vezes, até os doze anos. Ela estava muito deprimida.
— Ela está bem? — perguntou Kurt. Mary estava olhando para Michael, uma expressão ilegível no rosto. Sua respiração prendeu-se silenciosamente no peito.
— Acho que ela está bem agora — disse Michael com um aceno de cabeça. — Ela fez muito aconselhamento. Levou um tempo, e tivemos um incidente muito, muito grave, mas ela finalmente conseguiu deixar algumas coisas para trás. Quando fez isso, desabrochou. Ainda está desabrochando.
Michael recostou-se e respirou fundo. Olhou ao redor para tudo, exceto Mary.
— Mary tem uma boa seleção de faculdades fazendo ofertas, ainda temos alguns meses para escolher. Ela quer algo em engenharia — disse Michael.
— Uma mulher engenheira? — maravilhou-se Kurt. — Antigamente, você nunca via mulheres nas ciências exatas! Acha que ela vai ter dificuldade, por causa do viés de gênero?
— Se tiver, vai esmagar qualquer coisa que entrar no caminho dela — disse Michael, orgulhoso. — Ela ainda tem uma certa raiva dentro de si, mas agora a direciona bem. Qualquer coisa que ela não puder resolver, eu estarei lá.
— Isso é excelente! — Kurt sorriu abertamente. Ele admirava e gostava muito de Michael. — Parece que você tem uma família maravilhosa!
— Quase não tive… — confessou Michael. — … mas sabe, realmente tenho.
— Nós conversamos sobre ter outro filho… — disse Kurt, sorrindo para Mary, que estava sentada em silêncio, os olhos fixos no pratinho de comida meio comida à sua frente. — … mas nossa pequena Mary foi um parto difícil, e minha esposa se machucou um pouco.
Michael deu um sorriso educado.
— Papai, aqui está você! — disse a voz de uma jovem. De uma pequena multidão, surgiu a filha de Michael, a noiva, em seu vestido de noiva esvoaçante. — Estava procurando você. Por que não está na mesa principal?
Michael virou-se na cadeira para olhar para a filha mais velha. Ele esperava resolver esse assunto antes que Kim e Mary vissem as coisas.
— Oh, desculpe! Olá, sou… — a voz de Kim foi sumindo ao ver com quem o pai conversava, sentada à mesa. Levou apenas alguns segundos para reconhecer o rosto.
Mary olhou para a noiva, uma mistura de emoções percorrendo seu rosto. Ela começou a respirar de forma curta e superficial, e a umidade começou a se acumular no canto dos olhos.
Michael levantou-se rapidamente e se colocou entre Kim e Mary, bloqueando a visão de Kim. Kim mudou de posição, olhando para a mulher mais velha como podia, ao redor do pai.
— Kim, não — Michael meio sussurrou para a filha. — Não. Agora não. Aqui não.
Kim cravou os olhos nos de Michael, seus olhos cinza metálico encarando os dele, tentando entender o que estava fervendo dentro de si.
Kurt levantou-se e começou a contornar a mesa, estendendo a mão para a noiva. — Olá, mocinha, sou Kurt Hesselbeck, e esta é minha esposa Mary, como você sabe. Nós realmente gostamos de estar aqui no seu dia especial.
Kim ficou de pé, a tensão emanando dela. Ela olhou de Kurt, que percebia que algo não estava certo, de volta para o rosto do pai.
— … o quê? — Kim sussurrou.
— Kim. Vá — disse Michael, o coração se partindo pela filha. Ele se esforçava para manter as coisas, a si mesmo e a filha, sob controle. Mais um pouco, e perderia esse controle. — Eu cuido disso. Explico depois.
Kim olhou de volta para Kurt, cuja confusão aumentava, e então deu um passo para o lado para olhar para Mary.
Mary tinha lágrimas caindo pelo rosto, enquanto parecia se encolher na cadeira.
— Vá, Kimmy — reforçou Michael, o tom suave. — Você tem que ir. Vá para seus amigos. Vá para sua irmã. Agora.
Kim ouviu os comandos silenciosos que o pai lhe dava, e eles se registraram através da cascata de dor que ela sentia.
— Tá…
— Kimmy… — Michael disse baixinho, enquanto sua linda filha começava a se virar. — … não conte para a Mary, e mantenha ela longe.
Kim parou e considerou por meio segundo, e viu a sabedoria no que o pai dizia. Ela assentiu, e passou o dedo por um olho, depois pelo outro, tentando controlar as lágrimas antes que a maquiagem estragasse. Então se virou e foi embora, para a multidão que se abriu para ela.
— O que aconteceu? — Kurt perguntou a Michael, enquanto Michael se afastava, na direção da filha que se retirava, e lutava para se recompor internamente. Ele respirou fundo, purificador.
— Desculpe por isso — disse Michael ao se virar de volta para Kurt. — Receio que preciso voltar aos deveres de pai da noiva.
— Mas o que aconteceu? — Kurt olhava de Michael para Mary, perdido no que acabara de acontecer. Ele se moveu para se ajoelhar ao lado da esposa chorosa, envolvendo-a com os braços. Ela se inclinou para ele e começou a soluçar baixinho no ombro de Kurt.
Michael ficou do outro lado da mesa e olhou para Mary com serenidade. — Acho que Mary lembrou Kim de alguém que ela conhecia.
— Mas elas se conhecem, Kim mandou o convite para a Mary — disse Kurt. — Como Mary poderia lembrar Kim de alguém assim?
Mary soltou um pequeno gemido no peito de Kurt.
— Kurt, sinto muito perguntar, mas… — Michael tentara não perguntar, mas pelo pouco que sabia sobre o momento das coisas… sua curiosidade e raiva exigiam que ele perguntasse. — … sua filha tem olhos cinza metálico?
— O quê? — perguntou Kurt, um pouco irritado com a pergunta. — O que isso tem a ver?
— … não… — Mary sussurrou, encolhendo-se ainda mais nos braços protetores do marido.
— Querida? — perguntou Kurt, a confusão aumentando.
— Olhos cinzas? — perguntou Michael, a voz firme. — Com um anel escuro ao redor?
— Sim, ela tem! — respondeu Kurt com raiva. — Agora o que está acontecendo?!
A multidão agora dava espaço à cena que se desenrolava.
— Kurt, gosto de você — admitiu Michael. — Acho que você é um bom homem. Preciso do seu número de celular, há algumas coisas para compartilhar. Explicações. — Ele tirou o celular do bolso do peito.
— O quê? — disse Kurt, apertando Mary mais forte enquanto ela chorava abertamente.
— Qual é o seu número? — Michael perguntou de novo.
— Tá — Kurt quase cuspiu. — É 555 555-5555!
Michael digitou o número no novo perfil que estava criando no celular.
— Querida, o que é? — Kurt perguntou a Mary baixinho. — O que está acontecendo? Quer ir embora?
— Kurt, estou lhe enviando algumas fotos, das minhas filhas quando eram crianças. Por volta dos dez e onze anos. Algumas outras também — disse Michael, enquanto terminava de criar um registro para Kurt Hesselbeck no celular.
— Oh, Deus… — Mary murmurou, levando os punhos às têmporas e pressionando-se contra o marido.
— Vai haver algumas fotos que também têm a mãe delas e eu — disse Michael, abrindo uma pasta nos arquivos de fotos e começando a selecionar imagens. — Você deve vê-las depois.
— Que porcaria é essa? — acusou Kurt. — O que você está fazendo com a minha esposa?!
Michael parou o dedo que se movia e olhou para Kurt. — … O que estou fazendo com a sua…?
— Sim! — Kurt rosnou.
Michael olhou para Mary, tão pequena, tão vulnerável, encolhida contra esse homem que Michael suspeitava que ela enganava há tanto, tanto tempo.
— Kurt, Mary não foi convidada para o casamento — declarou Michael.
— O quê? — O rosto de Kurt mostrou incredulidade. — Claro que foi. Como você acha que entramos aqui?
— Não sei bem, mas você viu o convite? Eles eram brancos, em relevo, e mais ou menos quinze por vinte e três centímetros. Não pequenos.
A expressão de Kurt mudou ligeiramente, ao perceber que nunca tinha visto o convite.
— … para com isso… — sussurrou Mary.
— Há uns onze anos, a coisa que mais magoou minhas filhas foi que a mãe delas saiu de suas vidas — afirmou Michael, narrando realmente. O tom era plano, controlado. — Ela deixou um bilhete, dizendo que estava cansada das nossas vidas, cansada da situação de viver de salário em salário em que estávamos havia anos.
Kurt apenas olhava com raiva diminuindo para Michael, ajoelhado ali.
— Ela reclamava das coisas. Era difícil para ela — disse Michael. — Morávamos num apartamento pequeno, Kim tinha doze anos, Mary, seis. Era demais para ela. Eu não ganhava dinheiro suficiente, ainda não tinha entrado na trajetória gerencial regional…
Michael parou, respirou fundo e se recompôs.
— Então descobrimos que ela estava grávida de quase dois meses, do nosso terceiro — disse Michael, olhando para o horizonte.
— Então, acho que ela simplesmente já tinha aguentado o suficiente — Michael continuou, e enquanto fazia isso, voltou a selecionar imagens no celular. — Não sei bem. Tenho um bilhete de uma página dela, deixado na mesa, quando ela saiu pela porta naquela última vez.
Michael tomou decisões sobre mais algumas imagens e as adicionou à lista.
— Eu a procurei. Liguei e mandei e-mails — disse Michael, enquanto terminava suas escolhas. — Nada.
Kurt sentia a esposa tremer e estremecer enquanto a segurava, mas ele observava Michael. Mesmo que o tom de Michael fosse tão uniforme, a dor na voz do homem era palpável.
— As meninas não lidaram bem — confessou Michael. — Eu não lidei bem.
Michael enviou as fotos para o celular de Kurt.
— Com o tempo, tive uma sorte incrível. Comecei a ganhar dinheiro que podíamos usar. Tínhamos muitos amigos, inclusive uma assistente social, que colocou Mary em aconselhamento. As coisas melhoraram, financeiramente, mas as meninas… não conseguem entender por que a mãe as abandonou.
O celular de Kurt emitiu um sinal, avisando que recebera uma mensagem.
— Preciso ir, mas vou dizer duas coisas ao me despedir… — disse Michael, olhando para a mesa principal. — Uma é, sinto muito. Nunca imaginei que isso aconteceria. Não sei como lidar com isso, e provavelmente fiz errado. Por favor, lembre-se, sinto muito.
Kurt franziu a testa, sem entender.
— A segunda é… todo mundo na minha linhagem genética tem olhos cinzas. É uma característica dominante, aparentemente.
A tensão do rosto de Kurt se desfez, e seus olhos se arregalaram ligeiramente.
Michael olhou para Kurt, com simpatia no rosto.
— Sinto muito — disse Michael novamente, então virou-se e caminhou com determinação para a mesa principal.
Kurt afastou a esposa ligeiramente de si, para fitar a mulher com quem se casara onze anos atrás.
Mary olhou de volta através dos olhos cheios de lágrimas e soluçou — Sinto tanto… — repetidamente.