Qual É a Sua, Cara?
— Garoto, entra no carro. — Danny disse, me olhando pela janela do passageiro abaixada. Ele estava dirigindo o SUV preto grande.
Eu olhei pra ele, questionando se era comigo, já que eu estava andando na calçada, voltando do almoço pro trabalho.
— É, você mesmo. — Danny falou, me lançando um olhar irritado. — Jimmy Palmiore! Entra no carro.
Olhei em volta de novo, me perguntando quem mais estava ali. Se o Danny tinha vindo atrás de mim, não era um bom sinal.
— Garoto. Última vez. — Danny disse, quase rosnando, mesmo que o rosto dele só mostrasse a mesma irritação de antes. Danny sempre parecia irritado. Era a cara de descanso dele. — Entra na porra do carro.
Não parecia que o Danny tinha outros carros atrás, enquanto ficava parado no trânsito.
Hesitante, fui até lá, abri a porta e já estava três quartos do caminho pra dentro do banco quando o Danny pisou no acelerador. Consegui puxar a perna bem na hora que a porta grande do SUV bateu com a arrancada.
Danny olhava pra frente, depois dava uma olhada nos retrovisores, enquanto cortava o trânsito. Eu observava ele, conhecendo a fama. Quando o Danny vinha te buscar, nunca era coisa boa.
*bip*bip*bip*bip*
— Põe o cinto. — Danny rosnou pra mim. Que era o jeito normal dele de falar. — É pra sua segurança.
Coloquei o cinto.
Rodamos em silêncio por um tempo, até eu criar coragem.
— Aonde a gente tá indo? — perguntei, olhando fixo pra frente, com medo da resposta.
— No Martinelli's. — Danny disse. — Quero um bife. Você também quer.
Não consegui evitar, soltei um suspiro. Se ele tivesse dito "o meio do mato", eu sabia que já tava morto.
— Heh. — Danny riu baixinho, me vendo relaxar um pouco. — Ainda não acabou, garoto.
++++++
— Me dá a cabine reservada. — Danny disse pro gerente quando entramos no Martinelli's.
Com um aceno educado, fomos levados a uma cabine circular, com um pouco mais de distância pras outras mesas. Era a cabine maior de todo o restaurante, reservada pra certo tipo de clientela. Nada de civis.
Danny tava fazendo a segunda ou terceira varredura de quem mais tava no restaurante enquanto eu deslizava pro banco. Ele fez um gesto pro gerente, que tava do lado dele, e disse algo no ouvido que não consegui entender.
O gerente assentiu e se afastou.
— Passa pro lado, eu sento aí. — Danny disse, me olhando. Eu me mexi.
Danny sentou e, da posição onde ficou e de como varreu o salão uma quarta vez, deu pra ver que ali ele tinha a melhor vista do ambiente. Claro que ele ia querer isso.
— Pede o que quiser, garoto. — Danny falou, pegando o cardápio. — É você que paga.
Eu já tinha comido, então pedi só uma salada. Danny pediu o bife de quarenta dólares, com a cerveja de oito.
— Garoto, não acha que devia avisar seu chefe que você não volta hoje? — Danny disse depois que fizemos o pedido.
— Hã, é. — concordei. — Tá bom.
— Garoto, relaxa. — Danny falou. — Só vamos conversar.
— Sobre o quê? — perguntei.
— Depois de comer. — Danny disse. — Barriga cheia, sabe como é.
++++++
— Certo. — Danny disse, deixando a faca e o garfo descansar no prato quase vazio. O homem sabia comer. E também sabia parecer pronto pra pisar em criancinha enquanto comia. — Tá pronto pra conversar, garoto?
Eu só tava cutucando a salada, sem fome e nervoso demais pra comer. — Claro.
— Tá, é o seguinte. — Danny falou, cruzando os braços e se inclinando um pouco na minha direção. — Você tá fazendo merda.
Eu só encarei o homenzarrão de volta. Tinha que ter mais coisa nisso.
— Você não sabe do que eu tô falando, né? — Danny observou.
— Uma dica ajudava. — eu disse.
— Tá, então vou te dar uma dica. — Ele falou, uma sobrancelha se arqueando enquanto se inclinava mais um pouco. A sobrancelha parecia que ia pular da testa e me esfaquear se o Danny quisesse. — Para de falar com a loira dos peitão na hora do almoço.
Pisquei algumas vezes. — Tá falando da Melissa?
— É, ela mesma. — Ele assentiu. — Com a sacada que vai até aqui. — Danny fez um gesto de agarrar na frente do peito.
AGORA eu tive uma ideia do que se tratava.
— Danny, eu não fiz nada. — expliquei, parecendo meio suplicante. — Ela só tá na lanchonete de vez em quando, a gente trabalha no mesmo lugar, então sentamos e conversamos.
— E você precisa parar com isso. — Danny disse, assentindo sem tirar os olhos de mim. — Hoje foi o último dia.
— Não tô fazendo nada! — protestei baixinho. — Não vou trair a Gina!
— Ei, ei, não tô dizendo que você faria ou não, garoto. — Danny abriu bem as mãos e fez uma cara vagamente zombeteira e benevolente, o que é uma mistura estranha. — Mas cá entre nós, se fizer e eu descobrir? Você tá encrencado, mesmo que o pai dela não dê o aval.
Esse era o problema principal como eu via. O pai da minha esposa, um homem muito bem colocado em certos círculos, que "empregava" o Danny, podia me fazer simplesmente... desaparecer. Danny, no entanto, não era o cara que o pai da Gina mandava pra sumir com as pessoas. Danny era mandado pra garantir que uma mensagem fosse recebida.
— Não tô fazendo nada! — repeti, balançando a cabeça.
— Garoto, se serve de consolo, eu acredito em você. — Danny me disse. — Mas também acredito que você tá enfrentando uma tentação grande, com a senhorita peituda ali.
— Não fiz nada e não vou fazer nada. — me defendi. — Sou casado com a Gina, amo ela e tô torcendo pra ter filhos com ela logo.
— Ei, filho é ótimo! Tomara que você tenha uma ninhada. — Danny concordou, com uma cara alegre e irritada. — Mas isso não resolve o problema atual, se é que você me entende.
Tive que pensar sobre aquilo.
— Não entendi. — lancei pro Danny um olhar questionador. — Você disse que acreditava em mim...
— Mmph... não, não foi isso que eu disse. — Danny falou, quase engasgando com um gole da cerveja. — Eu disse que não fiz questão de saber se você fez ou não. Esse não é seu problema.
Esperei ele me explicar qual era meu problema de verdade.
— Tá, deixa eu pensar um minuto em como vou explicar isso. — Danny disse, pegando a cerveja de novo. — Me traz mais uma dessa.
Fiz um sinal pro gerente, que tava do outro lado do salão, mas focado na gente. Gesticulei pra cerveja vazia do Danny e dei um aceno. O gerente correu.
— Tá, tenta assim... — Danny falou enquanto colocava o copo vazio na mesa. — Esse aqui é o quadro geral. Você sabe quem é o pai da Gina. Bom, ele tem um monte de olho nele. O tempo todo. Não tô falando dos tira, não.
Só sentei e escutei. Você não interrompe o Danny. Ele te morde.
— Bom, tem outras equipes na nossa organização, e às vezes a gente não é muito amigo um do outro. Claro, no geral a gente se dá bem por cima e tal, mas sempre tá de olho em qualquer fraqueza nos outros caras, sabe?
Danny olhou pra sua cerveja vazia, parecendo irritado por ela estar vazia. Provavelmente tava.
— Não digo tipo no hospital, ou doente, ou coisa assim... bom, a gente fica de olho nisso também. Mas não é só isso. A gente fica de olho se eles tão em posição ruim, se esticaram demais, tomando decisão errada, qualquer coisa que a gente achar.
Os olhos do Danny focaram em algo fora da cabine, e uns segundos depois, o gerente apareceu com uma cerveja. Danny deu um sorriso rosnado feliz e pegou sem deixar pôr na mesa.
— Uma dessas coisas é problema na família. Agora, toda família tem problema de vez em quando, é assim que funciona. E a gente não mexe com isso. Mas alguns tipos de problema chamam a atenção da gente, porque geralmente tem coisa pior vindo depois.
Danny tomou um bom gole do copo.
— Um desses tipos de problema é com os filhos. — Danny disse, baixando a cerveja, cruzando os braços, cotovelos na mesa e me olhando. — Se os filhos de um cara tão deixando ele nervoso, provavelmente ele vai começar a cometer erros. O tipo de erro que a gente gosta.
— Coisas como a filha de um cara achar que o marido dela tá aprontando. — Danny mencionou, quase de passagem. — Um cara pode ficar bem distraído, lidando com a filha chorando porque o marido tá dando em cima de outra vagabunda.
Danny fixou o olhar em mim. Minha alma murchou um pouco.
— Agora, como isso se relaciona com você? — Danny perguntou, rompendo o olhar e abrindo as mãos, palmas pra cima. — É fácil. A Gina vai ouvir falar que a senhorita balão anda passando tempo com você, e vai começar a pensar. Se continuar ouvindo, vai continuar pensando e aí vai começar a investigar. Primeiro, vai te olhar, pra ver se você tá agindo estranho, aí vai começar a prestar atenção em quem ela acha que você tá passando tempo.
Danny se inclinou na mesa de novo, com os braços cruzados.
— E, amigo, deixa eu te contar, uma vez que a mulher começa a te vigiar? Se você não tiver limpinho, ela vai inventar alguma coisa na cabeça dela e vai acreditar e agir como se fosse verdade.
Danny me deu o que eu assumo ter sido um aceno de quem sabe das coisas. Mais provavelmente, ele tava se perguntando se valia a pena continuar falando comigo.
— Já vi isso umas cem vezes. — Ele disse, de olhos fechados. — O marido não fez nada, mas a esposa acredita tanto que não importa. Ela não vai acreditar nele. O cara tá ferrado.
— Daqui a pouco, de um jeito ou de outro, o casamento começa a desandar. — Ele suspirou. — Param de conversar, de fazer coisa juntos, começam as discussões, alguém faz uma acusação, às vezes ajeita as coisas.... Às vezes não.
— Agora, o que você tem aqui, é a Gina e você. — Danny disse, focando em mim de novo. — A Gina é o que os ignorantes chamam de "princesa" do nosso círculo social. Ela não tá dentro do círculo, mas o papai dela tá no topo da área dele. Ela tem olhos nela. Se o tipo errado de pessoa vê que ela tá com problema, começa a esperar pra ver se isso significa que o papai dela logo vai ter problema.
— Não importa se tem algo rolando... é sobre o que essas outras pessoas em particular podem pensar. Que é por causa do que a Gina pensa. Neste caso aqui. — Danny explicou, as mãos gesticulando expansivamente enquanto falava.
— Tá, tô entendendo... — falei devagar, esperando ter uma visão mais clara. Danny tinha descoberto isso de algum jeito.
— Bom. — Danny disse, ainda parecendo irritado, mas agora um irritado satisfeito. — Sabia que você era esperto.
Danny não entende indiretas, pelo jeito.
— O quê? — Danny perguntou, vendo que eu tava meio confuso e frustrado.
— O que fez você ter essa conversa comigo? — perguntei, me sentindo desconfiado.
— Ah, isso. Isso é fácil. — Danny disse, parecendo presunçoso. — Fiquei sabendo pela minha mãe, que descobriu pela senhora do outro lado da rua, que foi avisada pela amiga, cuja filha vai no mesmo salão de beleza que a senhorita Tetêias usa.
Eu tava refazendo o que Danny tinha dito, quando ele explicou mais.
— A senhorita Terras Férteis tem falado de você, e parece que acha que pode te pegar. — Ele disse, pegando a cerveja.
Sentei pra trás, digerindo aquilo. Claro, a mulher em questão tinha dado umas flertadas leves comigo, e eu olhei pro decote dela um dia, quando ela se inclinou sobre a mesa pra pegar um guardanapo, mas foi só isso. Bom, não, teve mais um pouco, mas eu não me via como dando em cima dela.
— Não tô fazendo nada com ela. — me defendi.
— Garoto, isso é ótimo. — Danny disse, depois de um gole da cerveja. — O perigo tá no que a Gina pode ouvir, e acreditar.
Parei um segundo pra pensar nisso.
— Com a senhorita Peituda falando, você tem um problema, no entanto. — Danny disse, me olhando. — Digamos, a Gina ouve alguma coisa. Não me pergunta o quê. Mas ela ouve alguma coisa. Ela começa a te olhar, reparar como você se comporta e tal. Digamos que você chega em casa depois de um dia ruim ou algo assim, e a Gina tem a impressão errada.
Eu conseguia ver aquilo.
— Gina entende errado e começa a investigar mais. — Danny continuou. — Ela pode achar alguma coisa, pode não achar. Pode achar que achou, e isso já basta.
Eu conseguia ver a Gina fazendo uma suposição errada.
— Ela te confronta, você nega. — Danny prosseguiu. — Ela não acredita, você continua negando. Vocês dois esquentam, coisas são ditas... e ela então corre pra mãe.
Eu conseguia ver aquilo também.
— A mãe consola ela um pouco, acalma a raiva e manda a Gina de volta pra você. — Danny disse, pegando a cerveja de novo. — Só que agora você tem a mãe de olho em você. Logo depois, o pai da Gina tá de olho em você.
Isso não soava bem.
— E ao longo do caminho, todo mundo que ouviu qualquer conversa já foi fofocar, e agora olhos inimigos tão observando, esperando pra ver o que tá rolando, sabe?
A fofoca era algo forte nos bairros.
— Então agora, o pai da Gina precisa prestar atenção em quem também tá prestando atenção, além da filhinha dele estar infeliz. — Danny disse antes de dar um gole.
— Aí, se a Gina não ficar satisfeita depois disso, dependendo de quanta pressão o pai dela tá sentindo, ele pode ter que... como é que chama?... — Danny disse, colocando a cerveja de volta na mesa. — ... "Intervir".
Isso podia ser ruim.
— Como ele intervém, eu não sei. — Danny disse, dando de ombros. — Ele é um cara razoável. Mas como todo mundo, ele sente a pressão. Pode ser simples, pode ser complexo. Pode ser fácil, pode ser difícil. Não sei, garoto.
Isso não parecia algo que eu queria.
— O que eu tô te dizendo é o seguinte... — Danny se inclinou um pouco sobre a mesa entre nós, e seu olhar penetrante mirou em mim. — ... não dê motivo pra Gina duvidar de você.
Eu conseguia ver facilmente a cadeia de dominó de eventos que podia levar a algo assim acontecer. Parecia absurdo, mas... eu conseguia ver.
++++++
Gina é uma mulher passional. Muito passional. É algo que eu amo nela. Mas no nosso casamento, ela também conta tudo pra mãe. Tudo.
Minha sogra sabe que tipo de sexo a gente fez na lua de mel, em ordem, assim como onde e o que comemos. O número do quarto do hotel. A cor do carpete do quarto. Quantas toalhas tinha no banheiro. O nome do taxista do primeiro dia. Cada detalhe, a maioria que eu nem me preocupei em guardar, ela sabia. Com uma memória de aço. Ela vigiava a filha de forma muito protetora e sabia de tudo.
Elas ficavam no telefone uma com a outra por horas todo dia. Pelo menos, parecia assim.
Ela sabia da nossa vida sexual intimamente. Fiquei muito envergonhado quando ela tocou no assunto um dia no jantar.
Foi aí que todas as mulheres olharam pra minha cara chocada e em coro disseram: "O quê? A gente fala. E daí?"
Nada era privado.
Eu não conseguia nem fazer a Gina concordar em manter as coisas privadas.
— O quê? Você quer que eu minta pra minha mãe? — ela me perguntou, horrorizada que eu tivesse sequer começado a conversa.
— Amor, ela realmente precisa saber da minha marca de nascença? — perguntei, me referindo a uma certa área da minha anatomia que o sol normalmente não encontra.
— Ah, pfft. — Ela descartou com um gesto de mão. — É fofo. O quê? Você tá com vergonha? É fofo, eu te digo.
Todas as conversas sobre privacidade eram assim.
++++++
— Tô vendo que você tá pensando no assunto, garoto. — Danny disse, recostando e me observando enquanto levantava a cerveja pra boca.
Eu lancei pro Danny um olhar de impotência.
— Garoto, eu entendo. — Danny se ofereceu, baixando o copo depois de um gole. — As mulher, elas não calam a boca.
Invoquei o nome da nossa divindade.
— Isso mesmo. Gina ouve alguma coisa, e conta pra mãe. — Danny começou a marcar pontos nas pontas dos dedos, olhando pra mim por cima da mão. — A mãe ouve algumas vezes, ela leva pro pai da Gina. O pai da Gina ouve algumas vezes, ele começa a se perguntar. No final, ele começa a investigar. O que ele achar pode não importar... se a Gina não tiver feliz, uma hora ele não vai ficar feliz.
Fazia sentido.
— E quando ele tá infeliz, começa a procurar jeitos de voltar a ficar feliz. — Danny baixou as mãos na mesa agora e se inclinou sobre um cotovelo. Era como encarar uma avalanche...
— Você tem que ser limpinho, garoto. — Danny disse. — Essas histórias que você vê de caras como a gente, tendo mulher por fora? Não tô dizendo que não acontece, mas a maioria de nós? Não se arrisca. Todo mundo já ouviu história do que acontece quando um cara molha o biscoito no lugar errado, e um "ajuste" precisa ser feito, ordenado pelos Superiores.
Danny assentiu sabiamente. Era uma visão estranha. Sabedoria não era o que você dava crédito pra esse homem.
— Na maioria das vezes, é sobre algum cara do nosso círculo falando demais, dizendo algo que não devia pra uma biscate bocuda, depois de fazer a tal visita conjugal. Não podemos permitir isso. Às vezes, se não for muito grave, e ele for um cara querido, se resolve com uma conversa. Às vezes, é um "acerto".
Danny me olhou de novo. Ele podia dar um olhar muito pontudo. Pontudo o bastante pra fazer um texugo-do-mel hesitar.
— Às vezes, o vazamento é simplesmente tampado.
Eu sabia que ele ia dizer aquilo.
— Você? — Danny disse, quase parecendo relaxado de repente. — Você não tá no ramo. Não sabe de nada, e é melhor continuar assim, garoto. Eu gosto de você, você parece um cara legal. Mas você tem laços. Você casou pra dentro. E embora a Gina seja toda maravilhosa, ela tem um certo perigo perto dela. Você precisa tomar cuidado.
Danny se endireitou no banco e entrelaçou os dedos sobre a mesa à sua frente.
— Não quero ter que fazer uma visita de "ajuste" em você, sob ordens, tá? — Danny parecia preocupado e irritado ao mesmo tempo ao dizer aquilo. — Eu sou o cara que eles mandam. Mas, se mandarem o Mario... você não vai ver mais nada. Nunca.
Aquilo não era algo que inspirasse confiança. Era um choque de realidade, mas também era uma situação que você não quer ouvir que está.
Ou talvez queira?
Danny estava saindo do seu modo normal de operação. Ele estava me dando um aviso sobre a chance de algo acontecer... aparentemente uma chance crescente.
Danny ainda me encarava. Parecia pronto para morder um buldogue, o que significava que estava pensativo.
O que significava que havia tempo para corrigir algo que eu nem sabia que estava acontecendo.
— Entendi. — eu disse, me endireitando. Nem tinha percebido que estava curvado.
— Bom. — Danny assentiu. — Fico feliz por termos tido essa conversinha.
— Eu também. — respondi, olhando de volta para o gerente e apontando para a cerveja do Danny, que estava pela metade.
— Ei, valeu, garoto. — Danny disse, sorrindo, o que era suficiente para assustar a maioria dos soldados endurecidos.
— Quer mais alguma coisa? — perguntei. — De repente, quero mais do que essa salada.
— Só vou querer mais uma cerveja e um uísque duplo. Sem gelo. — O gerente, que estava deixando outra cerveja, assentiu. Então olhou para mim, esperando meu pedido. Eu pedi um bife.
— Coma rápido, garoto. Te dou uma carona de volta pro seu carro.
++++++
Quando cheguei em casa naquele dia, encontrei Gina no quarto, sentada na penteadeira. Ela estava com um creme branco no rosto e ao telefone.
— ... ele acabou de chegar, Mãe — ela disse ao telefone, me acenando por cima do ombro. — Não, ele é muito certinho nisso. Mãe, é uma coisa boa. Não preciso me preocupar. Não, ele chega em casa mais ou menos nessa hora todo dia. Por quê?
— Ah, tá, vou perguntar. — Gina afastou o telefone do ouvido e olhou para mim, o cabelo preso numa toalha, o roupão rosa descendo até os joelhos. — Querido, você quer jantar com meus pais na sexta?
— Claro — respondi, depois de pendurar a camisa. Atravessei o quarto até Gina e a abracei por trás, enquanto ela se virava para frente e colocava o telefone de volta no ouvido.
— Ótimo, Mãe. A gente vai. Não, você tava falando de um restaurantezinho legal na... ah... mmm...
Eu estava acariciando os seios da Gina por cima do roupão e mordiscando a nuca dela.
— ... é, ... hmm, ... é, acho que é esse lugar? Você disse que eles têm aqueles pepinos... uhmmm...
Eu estava desfazendo o cinto do roupão, enquanto agora mordia de boca aberta a lateral do pescoço dela.
— ... Mãe, preciso desligar... não, não tá acontecendo nada... Mãe, só preciso desligar, tá?
Eu conseguia ouvir protestos do telefone da Gina enquanto mordiscava o lóbulo da orelha dela.
— ... te ligo depois, Mãe. Manda um 'oi' pro Papai por mim. — Então ela desligou.
Gina girou na cadeira e esfregou o rosto no meu antes de me beijar.
Nos beijamos com força.
Depois me levantei e ela começou a desfazer meu cinto, com um sorriso no rosto.
No espelho atrás dela, eu via a mancha de creme facial nas minhas bochechas e nariz.
Valeu a pena.
++++++
Naquela noite, dediquei um tempo para pensar em como resolver o problema. Bolei um plano. Não sei se era um bom plano, mas parecia que só ia doer um pouquinho, sem ofender ninguém.
Veríamos.
++++++
Foi um acidente horrível.
A Melissa estava de branco naquele dia.
Eu tinha tentado esguichar mostarda no meu sanduíche na lanchonete do almoço. Só apertei o frasco com força demais, acertei meu sanduíche de muito longe e acabei acertando a Melissa também.
Na blusa inteira dela.
— Ah, não! — Melissa protestou quando interrompi o ataque de condimentos, uns segundos tarde demais, e eu parecia horrorizado, junto com as outras quatro pessoas do escritório.
— Mil desculpas! — exclamei.
— Olha só isso! — Melissa disse alto, enquanto pegava um punhado de guardanapos de papel e começava a esfregar.
A mostarda que tinha entrado no decote mais-que-generoso dela, porém, não foi tocada.
— Sinto muito mesmo! — continuei me desculpando, torcendo para que aquilo funcionasse. — Eu pago a lavanderia!
Dois dos nossos colegas estavam preocupados com ela e tentando ajudar. Os outros dois tentavam não rir.
— Não, tudo bem! — Melissa disse, dando batidinhas depois de molhar o maço de guardanapos na água e se limpar. — Acho que pode sair na lavagem.
Eu só fiquei sentado, parecendo horrorizado, e torcendo para que aquilo bastasse.
— Se não sair, eu pago. — repeti.
— Olha só isso! — Melissa protestou. Ela estava realmente uma bagunça. Eu tinha feito um bom... quer dizer, um péssimo trabalho. — Não posso voltar pro trabalho com isso!
— Aqui — eu disse, me levantando e tirando meu blazer. Ofereci a ela. — Veste isso. Você pode trocar de volta no escritório.
Melissa parou e me olhou. Ainda tinha mostarda no decote.
— Jimmy, você quer... me ajudar com isso? — Melissa perguntou, hesitante, sondando. Ela também inspirou um pouco. O decote ficou mais fundo com a inspirada.
— Não posso, Melissa. — respondi rápido. Isso não fazia parte do plano. Eu queria parecer um desastrado. Imaginava que uns dois 'acidentes' me tornariam inadequado aos olhos dela, e o problema da fofoca mudaria.
Eu estava improvisando agora, mas também era o certo. — Acho que você deveria ir ao banheiro e se limpar. Leva isso.
— Tem certeza? — ela perguntou de novo, tentando avaliar minha reação.
— Tenho certeza. — confirmei. — Sinto muito mesmo por isso, mas... eu amo a Gina. Não posso ajudar você a se limpar. Mas toma, leva meu blazer. Me devolve amanhã, tá?
— Eu não perguntei sobre a Gina. — Melissa disse, as sobrancelhas bonitas se juntando num leve aborrecimento.
— Não, não perguntou — confirmei, sorrindo com simpatia. — Mas simplesmente não seria certo ir ao banheiro com você, Melissa, mesmo que a culpa seja minha. Nunca vou dar motivo para a Gina pensar que estou fazendo algo. Amo demais ela para pensar em machucá-la, por ação ou pensamento.
Estendi o blazer para Melissa de novo, insistindo para que ela o pegasse.
Melissa olhou para ele pendurado na minha mão, depois para mim.
— Tá bom. — Melissa disse, arrancando-o da minha mão, girando e saindo furiosa em direção ao banheiro, os saltos estalando enquanto ia. As duas colegas mulheres a seguiram, uma delas olhando para trás para mim e sorrindo de leve.
— Você é um idiota — disse um dos outros dois homens na nossa mesa.
++++++
A fofoca correu solta com o resto.
Aparentemente, eu era um pouco desajeitado, os frascos de condimento da lanchonete estavam cheios demais, e eu amava de verdade minha esposa Gina.
Não sei se Gina ouviu alguma coisa, mas a mãe dela mencionou a explosão de mostarda em que eu tinha lambuzado a pobre garota e todo mundo na lanchonete. Parece que duas pessoas tiveram que ir pro hospital. Uma tinha alergia a mostarda e ficou com urticárias do tamanho de bolas de chiclete. Eu não lembrava nada disso, mas fiquei de boca fechada e só sorri enquanto mastigava o jantar.
O sogrão só revirou os olhos.
++++++
Duas semanas depois, vi Danny quando ele diminuiu a velocidade, buzinou e passou por mim na rua.
Ele só apontou para mim, deu um sorriso que assustaria uma árvore a ponto de sair correndo, e então foi embora.
Foi um bom dia.