Perdidos e Achados Cap. 02
DEZEMBRO — DEZESSEIS MESES ANTES
"Lila, saia! Saia agora!"
A voz de Miranda soou alta e fina sobre a porta do banheiro. Lila congelou, mexendo no zíper do vestido. Era um vestido curto. E cheio de lantejoulas. Isso o tornava uma coisa que ela nunca pensou que usaria, até sua mãe insistir durante uma ida à Nordstrom.
A ocasião: compras para a festa anual de Natal da Schar and Elmhurst.
"Seu pai e eu não trouxemos você aqui para passar a noite inteira no banheiro! Saia já, mocinha!" gritou a mãe.
Lila puxou o zíper com força. Ele se soltou de uma lantejoula, que se soltou do vestido. Por um momento, ela pairou no ar, um disco carmesim cintilante, antes de cair no chão de azulejo. Lila abriu a porta da cabine.
"Jesus, mãe," ela disse, irritada. "Ele não é meu pai. E olha, estou aqui."
"Ele é seu pai esta noite. Agora vamos."
A mão da mãe apertou seu braço, ameaçando cortar a circulação.
"Espera, mãe, eu nem lavei as mãos!"
"Ah, que se dane," murmurou a mãe. "Você convidou o Jonas Keaton e deixou o pobre garoto se virar sozinho por metade da noite. Como você acha que ele se sente? E me fez correr atrás de você de banheiro em banheiro. Como você acha que eu me sinto? Você pensa em alguém além de si mesma?"
"Não sei, mãe, talvez! Eu disse que não queria vir a essa festa idiota. Eu disse —"
"Está tudo bem, Miranda?"
A voz parou Lila no meio do caminho. Ela congelou onde estava, de boca aberta, porque a razão pela qual ela não queria ir à festa de Natal havia se materializado diante dela e de sua mãe, num terno cinza. Mas ele não estava olhando para ela. Estava focado em Miranda, que tagarelava sem parar sobre como Lila era desrespeitosa e a ousadia da garota e o que diabos tinha dado nela, afinal?
Os olhos tempestuosos de Cameron se desviaram para o rosto de Lila por uma fração de segundo, embora tenha parecido uma eternidade.
"Por que não a deixo comigo por alguns momentos, enquanto você vai pegar uma bebida?" ele perguntou.
"Ah, por favor. Como poderei agradecer?" Miranda se derreteu. Soltou o braço dele com um aperto de despedida e se afastou, deixando Lila sozinha com Cameron a poucos passos de uma árvore de Natal reluzente em vermelho e dourado.
"Um centavo pelos seus pensamentos?" ele perguntou, olhando para ela.
Ela não disse nada. Ele soltou um suspiro. Então sua mão agarrou o braço dela, e ele a puxou pelo corredor em ritmo acelerado, para longe dos sons da festa. Ela resistiu fracamente, sem sucesso. Uma porta se abriu com estrondo. Ela se viu encostada na parede no escuro, a silhueta dele pairando sobre ela.
"Precisamos conversar, Lila," ele disse. Ela não achou que sentia falta do desespero na voz dele. "Você precisa falar comigo. Por que não respondeu a nenhuma das minhas mensagens ou atendeu minhas ligações?"
Ela não disse nada, cruzando os braços sobre o peito. Tinha sido trazida ali contra a vontade. Que ele se danasse se achava que ela diria algo.
Ele andou de um lado para o outro na frente dela, passando a mão pelo cabelo — seu sinal perpétuo de consternação. Parecia desanimado. Por um momento, ela se permitiu deleitar-se na onda de poder que subia de seu estômago. Ela tinha feito isso com esse homem. Ela.
A voz da mãe ecoou na cabeça. Você pensa em alguém além de si mesma?
"Lila." Cameron se virou para ela, a voz suplicante. Soava como na última noite, no fim de tudo, meses antes. Ela não conseguia acreditar que estava ali, e ele estava lá, e estavam de pé um diante do outro. Uma parte dela, uma parte terrível e traiçoeira, ainda queria correr para ele com pés alados e se jogar em seus braços. Mas ela se conteve. Não cederia. Não a esse homem. Não depois de tudo.
"Vou começar a faculdade em algumas semanas," ela disse. A voz saiu surpreendentemente firme, vacilando apenas uma vez. "Suponho que você possa contar para a Claire. Embora ela já tenha ganho a aposta de vocês. Talvez não em espírito, mas você sabe o que quero dizer. Ela não achava que eu era boa o suficiente para você. E estava certa."
"Lila, você está falando bobagem," ele disse com raiva. Bateu no interruptor ao lado da porta, e as luzes se acenderam, cegando ambos com seu brilho. Estavam numa pequena sala de conferências, ela ainda encostada na parede perto da porta, ele andando de um lado para o outro na frente da mesa. "Não houve aposta nenhuma. E quanto à Claire, não estamos mais nos falando com frequência. Ela estragou isso para mim."
"Você estragou isso para si mesmo, Cameron."
"Por favor, me diga exatamente como eu estraguei alguma coisa," ele disse. Soava zangado, e estava se aproximando. "Você acha que eu queria fazer as coisas assim? Praticamente sequestrar você da festa de Natal da empresa? Você não me deu outra escolha! Por meses estive em agonia. Sem conforto, sem desfecho, nada. Você não pode bater a porta assim, Lila!"
"Posso, e bati, e baterei," Lila disse. Ergueu o queixo para ele. "Não somos certos um para o outro. Para começar, você é muito velho para mim."
"E você gosta de garotos da sua idade?" ele zombou. "Como se algum dia pudesse. Eles têm a idade mental de um mosquito comparados a você e a tudo que você passou. Ninguém mais vai entender você tão bem quanto eu."
"Não me diga isso!" ela gritou, de repente descarrilando dos trilhos que antes a mantinham no lugar. "Não me diga isso! Não..."
Ela ficou parada, tremendo, enquanto ele a encarava, os olhos chocados. Depois de um momento, foi ela quem baixou a cabeça. As lágrimas vieram todas de uma vez, seguindo os passos da raiva cega. Ela esfregou os olhos com raiva, mas ainda assim elas vieram, escorrendo pelo rosto, e ela não conseguia detê-las.
"Me deixe com alguma esperança," ela disse, apoiando a cabeça na parede. Sentia-se cansada, tão cansada.
"Aproveite a faculdade," ele disse. Começara a passar por ela em direção à porta. "Sinto muito por ter tentado. Não tentarei de novo."
Ele saiu friamente, toda a agitação anterior desaparecida, e ela se viu acreditando nele. A porta se fechou com um clique atrás dele. Não estava mais entreaberta. Ele a deixara entreaberta antes, metaforicamente, mas não balançava mais. Qualquer desfecho que ele precisasse, ela lhe dera, não deixando nada para si mesma. Ela deslizou até a base da parede e chorou e chorou sozinha no escuro.
***MAIO — PRESENTE
No sábado de manhã, Lila acordou ao raiar do dia depois de uma noite de sonhos meio lembrados, com a boca seca e uma dor de cabeça latejante.
Felizmente, depois de um ano de vida universitária com Tori, que ainda era uma festeira de coração, ela dominara sua rotina para ressaca. Arrastou-se para fora da cama, levantando com os pássaros. Isso era essencial; não adiantava adiar o inevitável. No banheiro, bebeu nada menos que cinco copos d'água em rápida sucessão antes de escovar os dentes, pentear o cabelo e aplicar o protetor solar de sempre. Depois para a cozinha, onde fez barulho com panelas e frigideiras até Tori aparecer na porta em arco, o cabelo desgrenhado e os olhos turvos de sono.
"Alguém acordou cedo," ela disse, com expressão abatida. "Por que você teve que me acordar?"
"Desculpa. Não foi de propósito." Lila quebrou três ovos numa tigela. "Ovos mexidos?"
"Por favor." Tori entrou e se apoiou num balcão. "Você está bem? Depois de ontem, quero dizer."
"Estou bem. Ainda pensando."
Uma sobrancelha se arqueou na direção dela.
"Bem, você tem muito em que pensar," Tori disse. Foi até a geladeira. "Mimosa?"
"Não posso, vou ser voluntária esta manhã. Sopa solidária, lembra? Você pode vir junto se quiser."
"De jeito nenhum, tenho coisas administrativas para resolver. Ou seja, marcar uma reunião de reposição com o Sr. Jacob Finnegan." Tori revirou os olhos azuis para o céu, tirando o suco de laranja da geladeira, seguido da garrafa de champanhe que quase tinham terminado no dia anterior. "Na verdade, ele entrou em contato ontem à noite. Ele parece muito animado para me conhecer. Você deve mesmo ter usado seus encantos com o Cameron."
"Bem, eles são amigos," Lila disse, tensa. Observou Tori despejar champanhe num copo. "Vou querer uma mimosa virgem."
"Uma mimosa virgem, saindo," Tori disse. Ela fez uma pausa, a mão na garrafa de suco de laranja. "Obrigada, Lila. Sério. Sei que você acha que a reunião foi inútil, mas acho que ajudou muito a nos mover na direção certa."
"Ele não deveria fazer isso por mim," Lila disse. Olhou para os ovos que acabara de despejar numa frigideira com manteiga. "Eu disse a ele que não deveria fazer isso por mim. Ele afirmou que não estava. Disse que a ideia era convincente."
"E quem disse que não é?" Tori ergueu o copo, deslizando o de Lila pelo balcão até ela. "Saúde, querida. Estamos progredindo. Jesus, minha cabeça dói!"
"Saúde," Lila disse, mas não se sentia muito alegre por dentro.
Uma garrafa de aspirina seguiu o tilintar dos copos: dois comprimidos para cada uma. Lila engoliu o suco de laranja com mais água. Água, água, água. Esse era o ponto crucial do argumento quando se tratava da rotina para ressaca. Água, e ovos mexidos na torrada com Tabasco e acompanhamento de picles de endro. Era a cura. Quando sua mãe mandou uma mensagem lembrando-a da sessão de voluntariado iminente, sua dor de cabeça tinha melhorado significativamente, embora o humor continuasse baixo.
"Sayonara," Tori disse da mesa da cozinha enquanto Lila vestia um cardigã e pegava o celular e as chaves na porta. "Vou fazer o almoço."
"Para você. Vou comer lá," Lila disse.
"Vai levar o Jeep?" Tori gritou atrás dela.
"Não, minha mãe resolveu arriscar dirigir e me buscar."
No hall de entrada, ela ouviu brevemente o cachorro do vizinho de cima ganir na porta antes de abrir a porta de tela e sair. Era uma manhã linda. Um pouco de chuva caíra na noite anterior, molhando a calçada, mas a fileira de nuvens que a trouxera já se afastara pelo céu para o oeste, onde agora se acumulava num banco púrpura pálido no horizonte distante. Lila se sentou no degrau mais alto da escada. Como fora estúpida no dia anterior ao pensar que Cameron tinha orquestrado um encontro entre eles? Era quase como pensamento desejoso, e ele certamente leria nas entrelinhas e veria isso. Ela deveria ter vergonha de si mesma. Ele lhe dissera que não tentaria de novo, e ele era um homem que costumava cumprir o que dizia.
Ainda assim, ela se viu imaginando se as portas tinham sido deixadas entreabertas mais uma vez, e se ela mesma tivera alguma participação nisso. Sentia que as coisas estavam girando, desequilibradas pelo encontro casual. As balanças do destino estavam pesando o preço. Destino? Ela não acreditava em destino, ou pelo menos não gostava de acreditar.
Foram apenas alguns minutos antes que o Chevrolet Suburban da mãe encostasse na calçada. Miranda se inclinou sobre o banco do passageiro para espiar Lila pela janela aberta.
"Está bonita, mãe," Lila disse, subindo. Não via a mãe há quase um mês, desde alguns acontecimentos notáveis: a descoberta de Miranda de que Robert estava tendo um caso emocional secreto com uma colega mais jovem, seguida de um verdadeiro redobrar de esforços na academia. Ela estivera trabalhando duro com Reese, seu personal trainer, e estava dando resultado. Lila meio que suspeitava que algo físico também tinha começado entre os dois.
"Obrigada, querida." A mãe se inclinou para beijá-la na bochecha, conduzindo o Suburban para longe da calçada. Ela parecia plácida naquela manhã, e isso era um alívio bem-vindo da Miranda habitual. "Olhe para mim, estou ao volante de novo. Levei Reese para tomar café depois do treino na quinta, e ele foi muito encorajador sobre minha direção. Então pensei em vir te buscar esta manhã."
"Que bom, mãe, fico feliz." Lila colocou o cinto e respirou fundo o ar fresco da primavera pela janela antes de se virar para a mãe. "Adivinha quem eu vi ontem."
"Jonas Keaton?" Miranda guinchou.
"Não," Lila disse, ligeiramente irritada. "Tori me mandou para a Schar and Elmhurst para encontrar o chefe de Robert."
"Ah, então você viu Jake."
"Não, ele teve que viajar a negócios, de última hora." O coração dela bateu forte no peito. "Eu vi Cameron. Cameron Winthrop."
"Ah, Cameron!" A mãe riu. "O que aconteceu com ele? Seu padrasto estava cultivando uma verdadeira amizade com aquele homem, depois ele simplesmente sumiu do mapa. Claro, Robert conseguiu o dinheiro que precisava dele, então tudo bem quando acaba bem, mas ainda assim. Era bom tê-lo por perto. Charmoso. Agradável aos olhos. E ele realmente fez um bom trabalho com você, ensinando-a a dirigir como fez."
"Eu aprendi a dirigir sozinha, mãe. Tori ajudou."
"Sim, mas Cameron começou. Sem ele, você talvez nunca tivesse se sentado ao volante. Meu Deus, meu Deus." Miranda suspirou. "Na verdade, acho que ele foi embora por um tempo. Londres, acho. Lembro do Robert mencionar. Deve ter sido por uns meses, pelo menos. Mas suponho que ele esteja de volta agora."
Elas caíram em silêncio. Lila olhou pela janela, parcialmente consternada. Não conseguia tirar esse homem de sua vida, não importava o quanto tentasse. Para onde quer que se virasse, lá estava ele de novo, seguindo-a como uma melodia grudenta com letra ruim.
Oito minutos depois, a mãe estacionou em frente à igreja que abrigava a sopa solidária. Pouco mudara nos dois anos que separavam Lila do dia em que Cameron a acompanhara ali. Ela desceu e estava prestes a seguir a mãe pela porta lateral de sempre quando viu a figura de pé nos degraus da igreja, de costas para ela. Ainda assim, ela parou. Havia algo familiar nela.
Então a mulher se virou, e seus olhos caíram sobre Lila do outro lado do jardim que as separava, e ela acenou. Lila a reconheceu então, e seu coração saltou. Era June, a mulher que uma vez frequentara a sopa solidária com o filho Anthony. Mas Lila não os via há pelo menos um ano.
"Já volto, mãe," ela gritou para a mãe.
Ela atravessou a grama até June, que viera até a borda. Elas se encontraram e se abraçaram. Lila notou as mudanças na mulher mais velha imediatamente. O cabelo estava bem penteado para trás, as unhas feitas, o casaco novo, e seus cotovelos e clavículas não mostravam mais ângulos ossudos e dolorosos. June a segurou à distância de um braço, radiante.
"Você está tão bem, Lila!"
"Você também," Lila disse. Ainda estava se recuperando da surpresa. "Você está incrível! Por onde você andou? Onde está Anthony?"
"Anthony está bem. Deixa eu te mostrar umas fotos, ele cresceu tanto. E agora fala, fala mesmo." Radiante, June mostrou a Lila algumas fotos no celular. "Ele adoraria ter vindo ver você, querida, mas é um pouco longe para dirigir."
"Tudo bem. Meu Deus, ele é um monstrinho crescido agora," Lila murmurou. "Isso é maravilhoso. Onde vocês estão agora? O que aconteceu? Me conta tudo."
"Consegui um emprego, e minha prima está cuidando do Anthony na maioria dos dias. Ela tem um filho pequeno também, então funciona. Mas não é só isso, claro." Lágrimas brotaram nos olhos de June, e ela segurou as mãos de Lila nas suas. "Preciso te agradecer por tudo. Tudo. Quando ele nos instalou naquela pensão, esse foi o verdadeiro ponto de virada. Isso nos salvou. Nos deu uma chance de nos reerguer."
"O quê?" Lila perguntou, chocada. Ela franziu a testa, soltando as mãos das de June. "Desculpa. Eu não fiz nada."
— Ah, você não sabia? — June se afastou, o rosto momentaneamente preocupado. Depois se inclinou de novo, segurando as mãos de Lila mais uma vez. — Foi um pouco antes do Natal, não este último, mas o Natal anterior. Ele apareceu no abrigo de mulheres do nada, perguntando por mim. Estou falando do Cameron, o seu Cameron.
Ela olhou fundo nos olhos de Lila, talvez avaliando a reação. Lila respirou fundo. Cameron, o seu Cameron. Claro. Quem mais?
— Bem, ele estava um arraso de terno e tudo mais, como você pode imaginar — June continuou. — Achei que ele estava lá para me dar mais dinheiro, e eu estava quase recusando, mas em vez disso ele me deu a melhor notícia da minha vida. Estamos morando numa pensão perto de Fall River. Ele conhece a dona porque morou lá quando era mais jovem. Aquele homem pode ter tudo agora, mas teve um passado difícil, Lila. Enfim, ele disse que daria o endereço para você me visitar, mas você nunca apareceu. Imaginei que algo tinha se perdido na comunicação, então aqui estou, de pé. Conseguimos um apartamento para o mês que vem, então pensei em vir passar o endereço, caso você queira manter contato. E queria pedir para você agradecer o Cameron por mim. Ele não deixou número nem nada do tipo comigo. Tentei ligar para o trabalho dele uma ou duas vezes, mas só caía com secretárias que não aceitavam ligações pessoais. Então agradeça por mim. Beije ele por mim. Ele precisa saber o bem que nos fez. E você precisa saber o quanto ele a ama.
— Ah, June, eu não sei. — A respiração de Lila ficou presa na garganta. Lágrimas involuntárias brotaram em seus olhos, e ela se agarrou às mãos da mulher mais velha. — Na verdade, não estamos juntos. Não estamos há quase dois anos. Eu — a gente — simplesmente não deu certo.
— Ah, querida, me desculpe, eu não sabia. — Os olhos de June se encheram de algo como arrependimento. — Não queria causar dor.
— Não, não foi você. — Lila abraçou a amiga de novo. — Estou tão feliz em ver você. Que bom que veio. E que bom que me contou. Eu — eu vou ligar para ele e agradecer por você.
— Não precisa. Mas eu agradeceria.
— Eu vou. — O coração dela batia forte. Os caprichos do destino? A chegada de uma desculpa para ligar para Cameron era a melhor-pior coisa que já tinha acontecido com ela. Hipérbole, mas só um pouco. Ela enganchou o braço no de June. — Quer subir comigo? Tenho certeza de que as outras ficarão felizes em ver você também.
— Vou te acompanhar até a porta, Lila, mas saiba que você foi a única pessoa lá que realmente me notou — June disse, apertando o braço de Lila.
Elas foram devagar pelo gramado, passando pelas flores da primavera brotando nas beiradas. Na porta se despediram, se abraçando mais uma vez antes de se dizerem adeus. Lila entrou e subiu as escadas, mas estava no piloto automático. Seus pensamentos tinham fugido para outro lugar, para um telefonema que ela aguardava com uma mistura de pavor e ansiedade ofegante. Ela só sabia que aquilo não era mais escolha dela; precisava ser resolvido, se o capítulo do passado fosse fechado e um novo se abrisse.
Mais tarde naquela tarde, horas depois de chegar em casa do sopão comunitário, ela se sentou no banco de balanço no quintal, sob o bordo frondoso, o telefone nas mãos.
Sua certeza de que precisava tratar do assunto permanecia, embora ela tivesse se convencido de outras coisas também. A saber, que era um estratagema. Que tinha sido um estratagema. Ela não acreditava nem por um segundo que Cameron tinha ajudado June por bondade. Não tinha certeza se o homem tinha alguma bondade no coração. A visita dele a June tinha acontecido antes do malfadado encontro na festa de Natal, disso ela tinha certeza, o que significava que ele pretendia jogar isso na cara dela naquela noite. Mas o plano nunca se concretizou. Ele nunca exibiu a boa ação na cara dela. Será que ele percebeu que ela veria através dele?
Ela ficou sentada, a sombra manchada caindo sobre o rosto, remoendo. Por fim, ergueu o telefone. O contato dele estava exatamente como ela tinha deixado. E ela não mentiria para si mesma — tinha passado noites em claro suficientes olhando para aquilo, tentando criar coragem para ligar para ele. Ou bloqueá-lo, se era isso que realmente queria. Passou tempo demais tentando entender o que queria. Ficou paralisada, incapaz de fazer qualquer coisa. O mais estúpido era que ainda não sabia, nem agora.
Ela apertou o ícone do telefone com o coração na boca e levou o aparelho ao ouvido, sem se dar tempo de reconsiderar. Imaginou-o vendo a ligação entrar, imaginou-o calculando. Um toque, seria cedo demais. Dois, ainda cedo demais. Três, na medida certa.
A voz dele inundou seus ouvidos. Ele soou, para sua satisfação, satisfatoriamente chocado.
— Lila?
— Sim, sou eu — ela disse. Sentiu-se ofegante. — Gostaria que isso fosse o mais breve possível, se não se importar. Precisamos conversar.
— Conversar? Podemos conversar. — Ela o imaginou se acomodando na escrivaninha. Talvez estivesse em Boston, no escritório apertado daquele lindo apartamento, ou em outro lugar. Imaginou o gatinho que ele dera a ela, que agora já seria adulto. Será que ele o devolvera ao abrigo? Gostava de pensar que ele estava enrolado ao lado dele. — Sobre o que você quer conversar? Devo dizer que foi uma surpresa ver você ontem.
Ele não disse o resto, que era uma surpresa ela ligar agora. Ela o interrompeu rapidamente. Não podia confiar em si mesma para não contar tudo ao telefone.
— Eu queria dizer pessoalmente — ela disse de forma direta. — Quero conversar pessoalmente. Posso dar meu endereço? Temos uma festa de inauguração amanhã, acho que mencionei durante nosso encontro. Você pode vir. Se estiver disponível, claro.
— Pessoalmente. Certo, pessoalmente. — De novo ela sentiu a satisfação de tê-lo pego desprevenido, uma sensação rara. — Tudo bem, qual é o seu endereço? Vou anotar.
— Rua Sagamore, 36. É em Medford. Ficamos no primeiro andar... a porta à direita quando você passar pelo alpendre. A Tori adora decoração de festa, então provavelmente vai ter uma faixa. Duas da tarde. Não se atrase.
— E as senhoritas gostariam que eu trouxesse um presente? Álcool, talvez? — ele perguntou.
Ele soou como se estivesse brincando. Isso era ruim. Piadas eram pessoais demais, muito capazes de cortá-la por dentro e expor tudo. E ela não podia permitir isso.
— Sim, pode trazer um presente se quiser — ela disse friamente.
— Lila, está acontecendo alguma coisa?
— Não está acontecendo nada. Só quero conversar. Então conversaremos amanhã.
— Certo — ele disse. Houve uma longa pausa. — Então... adeus. Até amanhã, no caso.
— Até amanhã — ela disse, e desligou. Levantou-se, mas rapidamente voltou a se sentar, sentindo-se tonta. O sol parecia ter ficado mais brilhante no curto espaço de tempo que a ligação ocupou. Sua boca estava seca. Sentiu-se enjoada. Efeitos colaterais da ressaca? Levou cinco minutos inteiros para se recuperar o suficiente para mancar até os degraus e voltar para dentro. Tori estava na mesa, arrumando um buquê no centro.
— Você pode convidar o Jonas — Lila disse, de improviso.
— Sério? — Os olhos azuis de Tori se fixaram nela. — Eu não ia. Você pareceu um pouco desanimada com ele ultimamente. Mas se você quiser...
— Sim. Eu quero. Quantas pessoas vêm, afinal?
— Bee-em, posso ter convidado metade da minha turma de economia, e isso já são vinte pessoas. O Greg está trazendo bastante cerveja, e o Adam disse que vai contribuir com a caixa de som potente dele, então estamos prontas nesse quesito. Eu sei, eu sei, era para eu parar de enrolar eles, mas é tão conveniente. Enfim, coloquei um bilhete debaixo da porta da Maureen esta manhã para ela ser avisada. Uma festa não vai matá-la, tenho certeza.
— Ei, vamos manter o volume baixo. Queremos ser boas vizinhas. — Lila se inclinou sobre a mesa, alongando as costas doloridas. — Nossa, estou acabada.
— Sim, depois daquela beberagem ontem, aposto, sua fraca. — Tori se inclinou e deu um soco leve no ombro de Lila. — Vá descansar. Eu termino os grandes detalhes da decoração. Ah, e eu te contei que as camas chegaram enquanto você estava fora? Os caras que montaram foram muito educados. Um deles me deu o número. O único problema é... esqueci que precisamos de colchões!
Lila revirou os olhos, espiando pela porta do quarto. Havia, de fato, uma armação de cama no quarto antes vazio. E estava, de fato, sem colchão.
— Então encomendei uns de uma daquelas grandes lojas online. Mais alguns dias, e poderemos voltar ao nosso sono de beleza. — Tori empurrou Lila para dentro do quarto. — Vá. Você parece que vai desmaiar.
Lila não disse nada, mas entrou no quarto, fechando a porta até a metade com o pé. Ela desabou no catre, os ombros doloridos protestando em frustração. Quando rolou de costas e olhou para o teto, o coração martelava, recusando-se a diminuir o ritmo acelerado e constante. Sua cabeça zumbia. O que ela tinha feito? O que ela acabara de fazer? Convidou Cameron para a festa de inauguração, e agora não conseguia nem suportar a ideia de contar a Tori o que fez.
Um pequeno gemido escapou de sua boca. A cabeça da amiga apareceu na fresta da porta.
— Tudo bem aí?
— Tudo bem — Lila murmurou, rolando de lado. Puxou o cobertor sobre a cabeça. No casulo escuro, o coração continuava a bater forte e mais forte. Por trás dele, a convicção permanecia.
Ela precisava conversar com Cameron.
***À uma e quarenta e cinco, quinze minutos seguros antes da possível chegada dos convidados, Lila desceu com Tori para pendurar uma faixa de boas-vindas sobre a porta da frente. Ela arrumou um pequeno arranjo de balões junto ao alpendre e observou Tori subir em uma cadeira e lutar com a faixa, o que não fez nada para acalmar seus nervos. Só lhe trouxe flashbacks de uma certa festa de aniversário do Robert, no início da qual ela e Cameron se beijaram em um armário.
Ela afastou o pensamento da mente. Muitas coisas poderiam acontecer hoje, mas aquilo certamente não era uma delas. Estava fora de questão.
— Você está bem? — Tori perguntou, batendo o lado direito da faixa no lugar. — Você parece meio pálida. Está se hidratando?
Lila olhou feio para a amiga e rapidamente contou nos dedos.
— Já bebi oito copos, e só estamos na metade do dia — ela disse. — Tenho certeza de que estou hidratada. Só está... quente.
— Está dezoito graus, Lila — Tori disse, olhando o termômetro na parede perto da porta da vizinha. — É um clima perfeito de primavera.
— Não se preocupe comigo — Lila disse. Ela se jogou no sofá de vime junto à porta. — Precisa de ajuda com mais alguma coisa, ou posso ficar aqui um pouco?
— Pode ficar. Receba os convidados quando chegarem. — Tori olhou o relógio. — Mas eu não esperaria ninguém por pelo menos mais meia hora. Você conhece nossa turma. Eles não são exatamente pontuais.
Lila conhecia a turma delas, e concordava, exceto que conhecia alguém que era pontual, e também sabia que tinha dito a ele para não se atrasar. Ela ficou sentada no banco de vime com a cabeça encostada na parede da ante-sala, as ranhuras das tábuas finas cravando no couro cabeludo. Um minuto se arrastou, e depois cinco. A porta da vizinha se abriu, e Maureen saiu com seu cachorro na coleira.
— Ei, Patch — Lila disse, se inclinando para deixar o beagle dar lambidas nela. Ficou feliz por ter algo para distraí-la do dilema do presente. — Ei, Maureen.
— Como vai, Lila? Se preparando para a festinha? A Tori disse que podia ser animada. — Maureen sorriu para ela. — Tudo bem, só tenho vinte e cinco anos, estava na faculdade não faz muito tempo. Ah, aqui, isso é para vocês duas. Uma coisinha bordada que peguei na loja. Achei que seria uma boa decoração para a primavera.
— Obrigada! — Lila respirou, aceitando o presente. — É lindo. Vamos colocar no corredor. Muito obrigada.
— De nada. Vocês duas já são vizinhas muito melhores que os antigos, aqueles porcos. — Maureen revirou os olhos para o céu e estalou a língua. — Tudo bem, Patch, vamos indo. Até mais, Lila.
— Até mais — Lila disse.
Ela observou Maureen e seu cachorro descerem a rua, em direção ao caminho de cascalho arborizado que levava ao parque. Depois se recostou de novo, o coração acelerando mais uma vez. O que ela ia fazer? Poderia dizer a ele que cometeu um erro e mandá-lo embora imediatamente? Seria capaz de fazer isso, uma vez que os olhos dele se fixassem nela? Ela tinha acabado de fechar os olhos, franzindo a testa em concentração, quando ouviu a porta de um carro abrir e fechar na rua e depois passos no batente. Seus olhos se abriram de repente, uma mão voando para a garganta.
Mas não era Cameron. Era Jonas Keaton, e ele estava sorrindo para ela através do alpendre.
— Te acordei? — ele perguntou, entrando na ante-sala. — Desculpe. Você parece cansada.
— Nossa, obrigada, Jonas — Lila disse com secura.
— Se importa se eu sentar? — ele perguntou.
Ela na verdade se importava, mas se afastou mesmo assim para dar espaço para ele no sofá. Ele se jogou. O vime gemeu sob o peso combinado deles. Ela olhou para ele. Cada vez que se viam, parecia, ela precisava decidir de novo sobre ele, e a resposta era sempre a mesma: ele era inegavelmente bonito, talvez até seu tipo, mas não o rapaz para ela.
— Então, terminou as provas finais? — ele perguntou, passando um braço em volta dos ombros dela.
Ela olhou de um lado para o outro. Não havia fuga óbvia. Claro que poderia se desculpar para ajudar Tori lá em cima, mas ele a seguiria, e ela queria interceptar Cameron na porta para minimizar as chances de Tori arrancar a cabeça dele quando entrasse em casa, presumivelmente, pelo menos até onde ela sabia, sem ser convidado.
— Terminei. Há uns dias. E você? — ela perguntou.
Os dedos de Jonas dançavam ociosos contra o ombro dela através da manga bufante da blusa.
— Sim, terminei semana passada — ele disse. Ele se endireitou um pouco, erguendo-se mais. — Tenho um estágio encaminhado para o verão, na verdade. Conectar com o seu pai realmente me fez bem, ao que parece. Schar e Elmhurst, lá vamos nós, baby.
— Que empolgante — Lila disse com desânimo, sabendo que aquilo era apenas mais uma oportunidade para sua mãe e Robert tagarelarem sobre como aquele Jonas Keaton era um bom partido.
— Então o que nós vamos fazer neste verão? — ele perguntou, dando um apertão nela. — Quero levar você para uma viagenzinha.
— Jonas, mal saímos em um encontro — Lila disse, se encolhendo. — Acho que não é hora de fazermos uma viagem juntos.
— Bem, eu acho que é. Acho que se eu conseguir você sozinha por um fim de semana, as coisas têm que acontecer entre nós. — Ele a apertou com mais força. A mão dele deslizou pela lateral dela até repousar na curva do quadril. — Eu sei que você quer, baby. Não adianta mais se fazer de difícil. Somos perfeitos um para o outro. Minha família conhece e respeita a sua, seu pai vai me ajudar a conseguir um ótimo emprego assim que eu sair da faculdade, eu vou cuidar de você. Isso não parece bom?
— Ele não é meu pai — Lila disse, fazendo uma tentativa fútil de se soltar. — Me solta, Jonas! Eu nem queria sentar com você para começo de conversa. E não estou procurando alguém para cuidar de mim.
Foi então que ambos ouviram passos no batente, seguidos pelo rangido das dobradiças do alpendre. Lila se enrijeceu, todo o calor drenando do corpo. O braço de Jonas, de volta aos ombros dela, tensionou onde estava.
Cameron passou pelo alpendre e entrou na ante-sala que, Lila notou, parecia pequena demais para ele. Ele estava de calça social e camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos, e segurava um buquê: rosas amarelas.
— Cameron — Lila guinchou.
Os dedos de Jonas cravaram no ombro dela.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou. Levantou-se e se colocou entre Cameron e Lila. — Ela não quer ver você. Não é, baby?
— Na verdade, fui eu quem o convidou — Lila disse com raiva. Ela passou por Jonas e o fulminou com o olhar. — Vá lá dentro e incomode a Tori para variar.
— Tá bom, então — ele disse, erguendo as mãos enquanto recuava pela porta da frente aberta, mas sua expressão tinha escurecido. Lila estremeceu, a marca dos dedos dele ainda palpável na pele.
Cameron olhou para ela.
— Vocês dois estão juntos? — ele perguntou, a voz sem inflexão.
— Não! Não estamos juntos — Lila disse.
— Vocês estavam sentados como se estivessem.
— Bem, eu não queria estar sentada assim. — Ela afastou o cabelo dos olhos. — Você pode vir comigo para o quintal? A Tori não sabe que você está aqui.
— Você não contou pra ela? E se não queria ficar sentada assim, devia ter falado pra ele — disse ele.
Mas ele a seguiu pela porta de tela. Atravessaram a entrada de carros até o portão do quintal e depois saíram sob o bordo florido. Cameron ergueu os olhos, traçando uma linha entre a árvore e a casa e depois de volta, antes de baixar o olhar até Lila, que tinha se jogado, sem fôlego, no banco de balanço.
— Lugar legal — disse ele. — A árvore precisa ser podada.
— Como diabos você saberia uma coisa dessas? — perguntou ela, num tom tempestuoso.
— Senso comum — disse ele. — Mas também, meu velho era empreiteiro geral. Nem sei quantas vezes ele me recrutou pra entrar em paredes pra colocar armadilha de esquilo.
— Eu gosto de esquilos — disse Lila.
— Você não vai gostar quando eles morrerem nas suas paredes e não conseguirem sair. Ou quando arrancarem todo o isolamento e roerem as telhas. Enfim... — Ele se virou para ela e estendeu as flores. — São para você.
— E não o cartão na sua mão? — perguntou ela, pegando as rosas. Afundou o nariz nas flores e aspirou longamente. O cheiro era lindo. Ninguém lhe trazia rosas havia dois anos. Não desde que ele trouxera as mesmas rosas para a formatura do colégio.
Ele guardou o envelope no bolso do peito com um sorrisinho enigmático.
— Esse é pra Tori — disse ele.
— Ah, tá. — Ela encarou o bolso dele, imaginando o que poderia conter. Seus pés arrastavam pela grama debaixo do banco de balanço. — Mais algum serviço que você acha que precisa ser feito na casa? A Tori pode encher o saco do senhorio.
— Daqui não dá pra ver exatamente, mas se a árvore não foi podada, e pelo estado do telhado, as calhas provavelmente precisam de uma boa limpeza. A pintura está descascada, mas tudo bem... — Ele olhou de novo para ela. — Posso dar uma avaliação bem melhor se você me deixar entrar.
— Não sei se vou deixar você entrar — disse ela, as mãos se apertando no colo. — Talvez a gente resolva aqui fora mesmo.
— Como você quiser, Lila — disse ele. Gesticulou para o espaço vazio ao lado dela no banco. — Posso?
— Tudo bem — disse ela, de lábios apertados.
Ele se sentou ao lado dela. O galho acima balançou um pouco para acomodar o peso deles. Ela esperou um instante, com a respiração suspensa, mas quando nenhum braço sorrateiro passou por seus ombros ou cintura, relaxou.
Ele se inclinou, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ela sentiu um ímpeto súbito de jogar os braços em volta do pescoço dele e abraçá-lo, ou de passar os dedos por seu cabelo. Dois anos deveriam tê-los separado. Mas no coração, ela sentia que nem dois dias tinham passado.
E isso era perigoso, muito perigoso. Ela piscou para se concentrar.
— Estive no sopão ontem — disse ela. Sua voz soou estranha aos próprios ouvidos, não parecia a sua. — Estava quase entrando quando vi a June parada na escadaria da igreja. Lembra da June? Ela tinha o menininho, o Anthony.
Olhando de lado, viu que Cameron tinha entrelaçado as mãos à frente, os nós dos dedos brancos.
— Lembro dela — disse ele.
— Ela foi lá para me agradecer. Imagine só, me agradecer. — Lila riu. — Fiquei confusa. Não sabia o que eu tinha feito. Aí ela explicou tudo. Algo sobre uma pensão perto de Fall River e você ter ficado lá uma vez e conhecer a dona, então você conseguiu um quarto para eles. Isso é verdade?
Ele se endireitou, expirando todo o ar.
— Isso foi há mais de um ano, Lila — disse ele com uma risada curta. — Eu queria fazer uma boa ação para ela.
— Bem, ela queria que eu agradecesse você por isso. — Um rubor quente se espalhou pelas bochechas de Lila. — Ela queria que eu fizesse mais do que isso, mas não importa. Você não queria fazer uma boa ação para ela. Você queria me atingir! Ia me contar o que tinha feito naquela festa de Natal, só que nunca contou. Por que não?
— Sabe, o mundo não gira sempre em torno de você, Lila — disse ele, passando a mão pelo cabelo.
— Você não está negando — disse ela, teimosa. — Foi uma artimanha. Foi combustível pra me trazer de volta pra você. Então por que não me contou?
— Porque você deixou claro que não queria nada comigo! — disse ele, irritado.
As correntes do banco de balanço chacoalharam acima de suas cabeças, sacudidas pela força da raiva dele. Lila não disse nada, se espremendo no cantinho do assento compartilhado. Seus pés arrastavam pela grama. Ela ansiava por chão firme.
— Por que você precisa me provocar? — perguntou ele, virando-se para ela, a voz baixa e controlada. — Eu não sou assim. Não sou descontrolado como quando era mais novo. Mas você me leva a esse ponto. Por que faz isso? Por que não podemos ter uma conversa de adultos? Dá pra ver que você não é mais criança. Então não aja como uma. Não me transforme em um, caramba. Porque você não quer ver o tipo de homem que posso ser.
— Você esquece que eu já vi — disse Lila, a voz baixa. Ergueu os olhos para encontrar os dele. — Tá bem, vamos conversar como adultos. O que você quer dizer?
— Você não está com o Jonas Keaton? — perguntou ele.
— Não, eu não estou com o Jonas Keaton.
— E por que o Jonas Keaton está aqui?
Ela se remexeu onde estava sentada, subitamente desconfortável.
— Porque... Porque eu não queria parecer ridícula e não ter ninguém aqui — admitiu por fim.
— Viu, isso é infantil — disse Cameron. Ele soou satisfeito. — É esse tipo de coisa que você deveria jogar fora. Você não é ridícula, Lila. Eu nunca pensaria isso, e ninguém mais deveria. Está claro que...
Aí ele parou.
— Claro o quê? — perguntou Lila. Ela apertou as rosas contra o peito, ficando ligeiramente irritada. — Achei que tivesse dito pra conversar como adultos! Adultos não interrompem no meio das frases e se recusam a terminar.
— Tá bem — disse ele. Virou-se para encará-la bem nos olhos. — Está claro que você está presa a alguém de um jeito que te torna inacessível para qualquer outro. Acredite. Eu sei bem.
Ela soltou uma risadinha.
— Então você acha que estou presa a você — disse ela.
As palavras pairaram por um instante no espaço entre eles.
— Sim, é exatamente o que eu acho — disse ele. Expirou de novo, um longo suspiro, e se inclinou para mais perto. Ela podia sentir o cheiro de sua colônia, misturado ao perfume das rosas em seus braços. — Lila, você me deixou louco. Por um tempo, não conseguia pensar direito. Você se recusou a me dar um desfecho. Aí, na festa de Natal, tudo que planejei saiu ao contrário. Depois disso, fiz tudo que conseguia pensar pra te tirar da cabeça. Fui pra Londres, fiquei lá meses. Fui pra Singapura. Comi Deus sabe quantas outras garotas. Bebi demais, experimentei drogas pesadas pela primeira vez na vida, mas no outro lado do túnel você ainda estava lá. Você ainda está lá.
Sua voz era baixa, inabalável. Ela ficou assustada, embora não soubesse por quê. A mão dele se estendeu para a sua. Sem pensar, os dedos dela saltaram e roçaram de leve nos dele.
— O que quero dizer para você como adulto — disse ele, a voz ainda baixa — é que quero ver você de novo. Já faz tempo suficiente. Nós dois tentamos evitar. Mas há negócios inacabados entre nós. Ainda somos atraídos um pelo outro, inegavelmente.
Ele fez uma pausa, inspirando. Parecia que um grande peso tinha sido tirado de seus ombros.
— Pelo menos eu sou por você — concluiu, e olhou para ela, o olhar desamparado. Ele tinha dito o que tinha a dizer.
Ela ficou imóvel, as pontas dos dedos a centímetros de distância.
— Eu preciso te beijar — deixou escapar, e de repente segurou o rosto dele nas mãos e pressionou um beijo sem fôlego em sua boca.
Eles se afastaram. Ela viu que as mãos dele tremiam.
— Pra que foi isso? — perguntou ele.
— Foi pela June — disse ela num sussurro, limpando as mãos na saia. Não sabia o que pensar de si mesma. Ele era todo eloquência, e ela não era nada em comparação. — Ela me pediu pra te beijar, pelo que fez por ela.
Os olhos dele enxergaram através dela.
— Pode ter sido pela June, mas acho que foi por você também — disse ele baixinho. — Se você não admitir, então já perdemos. Mas se admitir...
— Foi por mim também — sussurrou ela.
Seus dedos se entrelaçaram. Ponte feita, rosas no meio. Ele se inclinou para ela, seu perfume inebriante a envolvendo como já fizera muitas vezes antes. Seus narizes se tocaram. Ele beijou sua bochecha, os polegares percorrendo a linha do maxilar e o arco das maçãs do rosto.
— Me diz o que você sente — sussurrou ele, as cabeças curvadas, testas pressionadas.
— Senti sua falta — sussurrou ela de volta. — Soube na mesma hora. Levei muito tempo pra admitir pra mim mesma. Mas... — Ela inspirou trêmula. — Não sei o que é certo. Não sei como podemos ficar juntos. Não sei como seria um relacionamento com você.
— Talvez comece com você me levando pra dentro e me deixando ver a Tori — disse ele. Apertou a mão dela. — E deixando ela me dar uma bronca, se precisar. Estou ouvindo a música. Parece que a festa está começando lá em cima.
— Tá — disse Lila, baixinho.
— Tá? — Ele deu um pequeno sorriso e a ajudou a se levantar. Ela achou as pernas fracas e bambas, e se apoiou nele enquanto subiam os degraus até as portas dos fundos.
— Cameron — disse ela, quietinha, quando chegaram à porta.
— Sim? — perguntou ele.
— Obrigada pelo que fez pela June. — Ela passou os braços em volta do pescoço dele e o abraçou, e não se surpreendeu quando ele a ergueu do chão. — Muito obrigada. Sei que fez por mim. Não sei se isso importa. Mas obrigada.
— Foi por você — disse ele, a voz baixa. — Ainda me sinto culpado por isso às vezes. Mas acho que não importa. — Ele estendeu a mão para a porta, e sua mão pausou na maçaneta. — Vamos?
Lila inspirou fundo e acenou com a cabeça. Ele abriu a porta, e eles entraram na varanda dos fundos. Vozes pressionavam da cozinha. Cameron se virou para Lila, e o que antes estava fora de questão de repente estava no quadro, e de forma grandiosa. Ele a beijou com força na boca, seus lábios machucando os dela. Era o momento deles no armário, tudo de novo.
— Só precisava fazer isso mais uma vez — disse ele, a voz rouca. Gesticulou para que ela seguisse. — Depois de você.
Ela emergiu, dolorosamente ciente dele atrás de si. Os amigos agrupados em volta da mesa preparando um jogo de bebida mal notaram a porta dos fundos sendo aberta. Mas Tori, que estava decorando um prato de ovos recheados no balcão da cozinha, se virou, e seus olhos azuis se fixaram em Lila e Cameron.
— Jesus, é verdade — disse ela devagar. — Achei que o Jonas estava me zoando. Ele me deu o presente dele e disse que tinha que correr, aliás. Parecia chateado.
Lila mudou o peso de um pé para o outro.
— Desculpa não ter te contado — disse ela. — Acho que não estava pronta.
— Então vocês dois estão juntos agora? — perguntou Tori. Ela entregou o prato de ovos recheados e se virou para encará-los. — Desde sexta, ou...
— Não estamos juntos, não exatamente — veio a voz de Cameron atrás de Lila. Ela se surpreendeu e virou ligeiramente a cabeça para olhá-lo. Ele estava sorrindo. — Estamos descobrindo. E desde hoje. Desde agora.
— Bem, é melhor não estragar. — Tori apontou um dedo para ele, seus olhos azuis o encarando. — Se você partir o coração dessa garota, vai ter que lidar comigo. Ah, e obrigada pelo que quer que tenha dito ao Jake Finnegan sobre meu produto, aliás.
Ela saiu lépida. Atrás de Lila, Cameron riu.
— Ela está brava comigo? — perguntou ele, as mãos caindo sobre os ombros dela. — Ela aprova?
— Ela só quer que eu seja feliz — disse Lila, baixinho.
— Bem, ótimo. Porque pretendo te fazer feliz — disse ele.
Suas mãos deixaram os ombros dela, e ela o observou tirar o envelope do bolso do peito. Ele o entregou a ela.
— Achei que fosse para a Tori — disse ela, abrindo-o com cuidado.
— É para as duas, mas está no nome da Tori, porque imaginei que você tentaria recusar — disse ele, os olhos observando a expressão dela atentamente.
Ela desdobrou um cheque, de fato feito para Tori, de mil dólares.
— Cameron, não — disse ela. — É demais.
— Ei, eu sei quanto custa mobília decente. Não comprem nada muito vagabundo. Olhem vendas de espólio. — Ele sorriu para ela. — E não é seu para recusar. Sei que a Tori não vai deixar passar. Ela tem mentalidade de empresária. Quanto mais, melhor.
Ele olhou no relógio. O coração de Lila despencou.
— Você tem que ir — disse ela.
— É, provavelmente devo. Na verdade, eu não estava livre assim em cima da hora, mas também queria conversar. Que bom que conversamos. — Ele ficou de frente para ela, as mãos nos bolsos. — Bem, Lila. Que tal um encontro no próximo fim de semana? Tenho ingressos para o balé. Ia levar uma outra garota, mas já que esclarecemos algumas coisas...
— Nada de outras garotas — disparou ela. — Não sei o que somos um para o outro, mas nada de outras garotas. Tá bem?
— Se essa é sua única exigência, princesa — provocou ele. — Claro. Você já é muito pra mim sozinha. Então, o balé. Te busco no sábado à tarde, umas cinco, para jantar antes. Tenho cadeiras de camarote.
— Claro que tem. — As palavras escaparam de sua boca. — Tá bem, sábado às cinco. Código de vestimenta?
— Pergunta pra Tori — disse ele com uma piscadela. — Ela é estilosa. Vai saber exatamente o que uma garota deve usar no balé. Tchau, baby.
Ele se inclinou e roçou os lábios nos dela, o beijo leve como pluma dessa vez. Mesmo assim, ela ficou tonta e se agarrou ao balcão para se firmar.
— Tchau — disse ela, baixinho.
— Se divirta na sua festa. Não beba demais.
— Não vou. Se divirta... aonde quer que você vá.
— Jantar de trabalho. — Ele exibiu um sorriso rápido. — Te ligo mais tarde hoje à noite.
Ela o viu partir. Alguns instantes depois, Tori voltou ao seu lado, agarrou suas mãos e guinchou, puxando-a para um abraço apertado. Então ela soube que a amiga mais que aprovava, e que Tori não só queria que ela fosse feliz, como também achava que isso a faria feliz. Quanto a Lila, ela não tinha certeza, mas sabia que se sentia mais leve do que se sentira em meses — não, em anos. Tomou algumas doses e jogou algumas partidas de damas com convidados da festa que estavam ficando rapidamente bêbados, antes de se retirar para o quarto e começar a pintar, com pinceladas largas e ousadas, nas telas que havia esboçado. Sentia-se destemida, muito mais destemida do que jamais se sentira antes.
— Ele é sua musa, baby — disse Tori baixinho da soleira da porta, bem mais tarde, quando a maioria das pessoas da festa já tinha ido embora há muito.
— Hã? — perguntou Lila, erguendo a cabeça do trabalho.
— Cameron. Ele é sua musa. Não vejo você pintar assim há séculos.
— Ele não é minha musa — zombou Lila. — Ele não é do tipo musa. Ele é muito demais pra ser musa.
Mas então ela ficou em silêncio, Tori saindo da soleira com um dar de ombros. Uma sensação fria de repente a preencheu, e ela largou o pincel no pote de óleo sobre o carrinho de pintura e sentou na beirada de sua cama. Quem podia dizer que não tinha sido tudo um sonho, ou que ele já não estava escapando dela de novo? Sua cabeça girou, até que o giro foi interrompido pelo toque do telefone.
Quando atendeu e ouviu a voz dele do outro lado da linha, soube que era real. Aquilo era real. Ela firmou os pés no chão e caminhou até a janela e olhou para o sol se pondo atrás dos ramos do bordo.
— Vamos falar pro senhorio podar a árvore — disse ela.
Do outro lado da linha, Cameron riu.
— É assim que começa a conversa comigo? Sem alô?
— Alô. — Lila corou, as bochechas ficando quentes. — Alô, é legal da sua parte ligar. Como foi o jantar de trabalho?
— Tedioso. Como foi a festa?
— Não sei, fiquei trabalhando numa coisa sozinha durante a maior parte.
— Pintando?
— Sim. — Ela mordeu o lábio inferior. — A Tori disse que você é minha musa.
— Nunca pensei que seria musa de alguém — disse ele. — Mas fico feliz em ser sua, se quiser.
— Quero te pintar — ela deixou escapar. — Não agora. Mas algum dia.
— Tá. Como você quiser.
Ela sorriu, aninhando o telefone entre a orelha e o ombro enquanto arrumava sua estação de trabalho.
— Eu poderia me acostumar a ouvir isso.
— Com certeza poderia. — O tom dele ficara sério. — Você sabe que tudo que sempre quis foi te mimar até não poder mais, né?
— Sei, sei.
— Você merece.
Ela respirou fundo, voltando-se para o pôr do sol, o céu riscado de listras alaranjadas e rosadas, o disco dourado do sol desaparecendo atrás de um telhado na rua seguinte.
— Desta vez vai ser diferente — disse ela de repente. — Vai ter que ser. Não quero queimar tão rápido. Não quero... — Mordeu o lábio de novo. — Não quero me consumir. Quero te conhecer, tudo sobre você. Você precisa me contar as coisas. Precisa me deixar entrar.
— Não vou prometer — veio a resposta dele. — Mas vou tentar o meu melhor. Você tem que prometer ser paciente com este velho.
— Você não é velho, Cameron! — ela disse, rindo.
— Estou chegando lá. Você promete?
Ela ficou quieta, ficando séria mais uma vez.
— Prometo — disse ela. — Estou mais paciente agora do que era dois anos atrás.
— Tenho certeza que está. Aliás, já dá para perceber. — Ele soou orgulhoso. — Você cresceu bem, Lila. Por dentro e por fora. Você não está mais só pele e osso. Gosto disso.
— Isso é bom, porque eu pensei... — Ela fez uma pausa, inspirando fundo. — Estava preocupada que você pudesse não gostar.
— Não, não sou esse tipo de cara — disse ele. — Deus, parecia que eu era esse tipo de cara?
— Não. Não parecia — ela disse baixinho.
— Menos mal. Porque eu não quero ser. — A voz dele pressionou pelo telefone até ela quase como uma carícia. — Tá certo, menina, está tarde. Você precisa dormir e eu também. Me manda mensagem sempre que estiver entediada. Não posso garantir as respostas mais rápidas, mas vou ligar sempre que puder. Toda noite, se der. Parece bom?
— Parece bom.
— Bons sonhos, princesa.
— Boa noite — ela disse.
Ele desligou. Ela deixou a mão, ainda segurando o celular, cair ao lado do corpo. Ela se sentia gloriosa. Estava voando. Como poderia dormir quando estava voando? Mas ela sentou no catre e assistiu o pôr do sol sumir, e conforme escurecia ela foi ficando cansada, até que por fim se enrolou debaixo do cobertor e caiu em sonhos.
***