Contos eróticos para ler inteiros.

Sexo a Dois

Ardente

laiana_leitora46 min

— Eu não te conheço de algum lugar?

Ela aparentava ter uns quarenta anos, cerca de meia dúzia a menos que eu. Um rosto que provavelmente já haviam chamado de travesso, mas que se transformara em uma beleza serena que vem com os anos. Cabelos ruivos que caíam soltos sobre os ombros. Olhos castanho-esverdeados atrás de grandes óculos redondos, e pele clara com sardas que cobriam suas bochechas e nariz. Elas também eram visíveis no decote que aparecia através de seu suéter decotado.

Estávamos ambos sentados em uma mesa comprida em uma cafeteria. Eu ia lá quase todo dia para sair do apartamento e fingir que lia o jornal ou uma revista. Ao nosso redor, havia um burburinho baixo de vozes, interrompido pelo gorgolejo alto da Máquina Infernal de Cafeína (TM) e o barista chamando um tal de Luke para vir pegar seu pedido, Luke, seu café gelado está esfriando, haha.

Baixei meu jornal e sorri. — Eu costumava ser conhecido como Daz. — Decidindo que meu café ainda estava quente o bastante para beber, tomei um gole e esperei a ficha cair.

Levou um instante. Percebi exatamente quando ela entendeu. Seus olhos se iluminaram de empolgação. — Daz! — exclamou, soando exatamente como a garota que ela devia ter sido naquela época. — Daz! Eu era tão apaixonada por você naquela época!

Dei a ela meu sorriso caloroso de sempre. — Faz muito tempo, tenho certeza. Mas é sempre um prazer conhecer uma fã. — Deixei o sorriso se transformar na careta irônica padrão. — Ou pelo menos uma ex-fã.

— Daz! — Ela parecia estar em transe. — Sabia que eu te reconhecia. Eu tinha seu pôster em cima da minha cama e tudo. Vi seu show aqui na cidade, lá por... — A frase se perdeu enquanto ela fazia as contas. — Nossa, já faz tanto tempo assim? Estou velha.

Já tinha tido a mesma conversa centenas de vezes. Claro, a constatação da idade do interlocutor era relativamente nova. Por um tempo, era "Nossa, você está tão mais velho agora!" Não, nunca me cansei de ouvir isso.

— Tá brincando? — Esvaziei minha xícara e me levantei. — Você não é velha. Você é uma mulher bonita, e tenho orgulho de ter feito parte da sua vida.

Aquela pele clara ficou vermelha, e ela gaguejou uma resposta enquanto eu me despedia e saía. Era uma frase padrão que eu usava toda vez que encontrava uma fã, mas no caso dela era verdade. Olhei pelo reflexo da porta de vidro ao sair e a vi debruçada sobre o celular, digitando furiosamente. Foi bom, pensei ao pisar na rua e voltar para casa, saber que eu tinha alegrado o dia de alguém.

Caso não tenha ficado claro, eu costumava ser famoso.

No auge da febre das boybands dos anos noventa, eu era "o Perigoso" em um grupo chamado Street5. Pronuncia-se "streets", mas com um "5" porque éramos cinco. O marketing da gravadora não era muito sutil. Nosso logotipo era o nome da banda com cinco silhuetas na frente.

Mas eles fizeram a pesquisa deles. Cada um tinha um papel. O Líder, o Bonito, o Quieto, o Perigoso, o Garoto.

Eu estava escalado para ser "o Garoto", até que tive um estirão de crescimento e minhas sobrancelhas ficaram grossas e escuras, então fui reescalado. Pelo menos isso significava que eu podia ter pelos faciais, ao contrário dos outros quatro. Eles tinham que manter a aparência lisa e limpa — não ameaçadora, apenas masculina o suficiente para as garotas perceberem que os meninos não eram todos fedidos e cheios de espinhas. Alvos seguros para sua primeira paixão adolescente.

Por outro lado, aqueles pelos faciais exigiam uma estilista separada, então não sei quem saiu ganhando. Raspei tudo assim que pude.

Nós não éramos brilhantes. Não precisávamos ser. Éramos comercializados, e vendíamos. Há uma longa névoa na minha memória, dois anos de turnês quase constantes e eventos para fãs, intercalados com sessões no estúdio e aparições em programas de entrevistas.

Lembro-me principalmente da tensão de representar o papel. Street5 era apresentado como um grupo de amigos próximos da parte pobre da cidade. Não sei se alguém realmente acreditava nisso, mas os fãs compravam a ficção e nós desempenhávamos nossos papéis. A verdade é que nunca tínhamos nos encontrado antes de a gravadora nos juntar como uma receita para ganhar dinheiro.

Você pensaria que nos odiaríamos, jogados numa jaula e esperando que nos déssemos bem. Mas no começo estávamos todos muito empolgados e preocupados demais para balançar o barco. Sabíamos que íamos estourar, e nenhum de nós ia colocar nosso sucesso em risco.

Mais tarde, quando a vida se tornou aquela longa névoa, os outros simplesmente sumiram no fundo. Todos nós fazíamos nossas partes no palco. Dizíamos nossas falas, dançávamos nossos passos, desempenhávamos nosso papel. Fora do palco, não me lembro de termos muito a ver uns com os outros.

Tudo começou a mudar quando eu saí do roteiro. Está tão claro na minha mente agora quanto estava todos aqueles anos atrás, o primeiro momento em que o mundo entrou em foco. Estávamos em turnê, hospedados em um hotel na Argélia, de todos os lugares. Eu tinha acordado cedo, irritado com o tédio, e algo que alguém disse na TV chamou minha atenção. Provavelmente ouvi errado, mas estava lá no meu cérebro, um verso mágico. "Lágrimas como as estrelas no céu à noite."

Meia hora depois eu tinha escrito uma música. E era boa também, e não tão brega quanto você pode pensar. Melhor do que a baboseira anêmica que a gravadora nos dava. Então a coloquei num fax para nosso produtor em casa, e dez minutos depois ele estava no telefone e estávamos discutindo o arranjo.

"Lágrimas Como Estrelas" foi nosso maior sucesso. Sabíamos que seria. Eu entendia o Street5, sabia como nossas vozes funcionavam juntas, conhecia todos os nossos papéis. A música funcionou para nós.

Tínhamos alcançado a maturidade, dizia a mídia. Crescido além da camisa de força do molde de boyband e evoluído para artistas sérios.

Escrevi mais músicas e dei uma polida nas músicas já escritas. Gostava disso, e era bom nisso. Sucesso seguia sucesso, e quase chegamos ao topo no Natal com "Coração na Neve". Ainda acho que teríamos sido o número 1 de Natal se aquela nevasca tivesse vindo apenas uma semana antes.

Mas foi o começo do fim. Ou o meio do fim, ou algo assim. Os outros se ressentiam do meu novo valor para a gravadora, e do dinheiro extra que eu recebia dos créditos de composição. E depois da euforia inicial de apresentar minhas próprias músicas, comecei a não gostar de todo o espetáculo que estávamos montando. Queria passar mais tempo escrevendo, e os shows atrapalhavam.

Não fui o primeiro a sair da banda. Esse foi Gaz (nome verdadeiro Rupert), que fazia o papel do Líder. Eu estava roubando os holofotes dele, ele alegava, e ele estaria melhor sozinho. Ele teve um ou dois sucessos menores, depois caiu na obscuridade. Olhando para trás, sinto pena dele, mas na época tive um enorme prazer nisso.

O Street5 sobreviveu por mais um ano, mas a faísca tinha se apagado. Para a banda, pelo menos, e acho que para a gravadora também. Os fãs ainda eram tão apaixonados quanto sempre, mas tínhamos chegado ao fim da estrada. O Garoto, cujo nome real não lembro mas que atendia por Danny, foi ser ator e se tornou regular em uma das novelas de longa duração. O Bonito Dev e o Quieto Kev (ou Sammy e Peter, como suas mães os chamavam) se tornaram co-apresentadores de um programa de viagens surpreendentemente perspicaz.

E eu me tornei compositor e desapareci no fundo.

Era uma vida tranquila. Na maior parte, só eu e meu teclado, no meu apartamento chique com vista para a cidade. Havia dinheiro suficiente entrando para que eu pudesse fazer o que bem entendesse, e ultimamente isso significava ficar em casa, exceto pelas minhas saídas diárias para a cafeteria.

Eu não encontrava muitas ruivas bonitas da minha idade.

*

No dia seguinte ao encontro na cafeteria, fiz algo que nunca fazia. Voltei. Normalmente, quando encontrava uma fã lá, eu dava um ou dois dias antes de voltar. Dava a eles um tempinho para se acalmar. Tive algumas experiências constrangedoras em que uma velha fã ficou me esperando no dia seguinte, e no outro, e no outro.

Mas havia algo nessa mulher que me fez pensar que talvez não fosse tão ruim encontrá-la de novo. Para começar, conforme os anos voavam, meus dias de galã digno de stalker tinham ficado para trás. E as fãs também estavam bem mais velhas, e com sorte menos deslumbradas.

Então pedi o de sempre e sentei no meu lugar de sempre. Tinha trazido meu leitor digital, porque tinha acabado de comprar um livro novo, e em instantes minha mente estava viajando numa combinação da história e uma ideia que ela desencadeou para uma música.

— Oi. — Era a mesma mulher, sentando na minha frente, no mesmo lugar.

Quase tinha esquecido por que estava lá. Sim, era um livro muito bom. Pisquei enquanto meu cérebro fazia a longa viagem de volta da terra da fantasia. — Oi.

— Olha — ela começou, quase num ímpeto —, odeio ser essa pessoa, mas... você se importaria de tirar uma selfie comigo? Depois que você foi embora ontem, fiquei me martirizando por não ter pedido, e... Bem, quase não voltei hoje porque não queria te assustar.

Ela deve ter interpretado mal o olhar vazio que eu sabia estar no meu rosto, porque acrescentou: — Não sou uma perseguidora. Você provavelmente é incomodado por fãs o tempo todo.

A essa altura, eu já estava de volta ao mundo real. Consegui meu sorriso mais caloroso. — Não é problema, de verdade.

Ela soltou um gritinho de menina e se levantou, celular na mão. Seus peitos balançaram em seu suéter verde macio enquanto ela quase saltitava para o meu lado da mesa, tirando os óculos no caminho. Nos arrumamos com as cabeças juntas — fiquei feliz por ainda não ter tomado meu café, e meu hálito ainda estar fresco — e ela segurou o telefone diante de nós.

Eu podia ver nós dois na tela dela. Ela estava se inclinando para frente de modo que seu rosto estava colado ao meu, a boca aberta num enorme sorriso. Seu suéter caiu para frente, e o meu próprio sorriso provavelmente estava mais natural do que qualquer um que eu já tivesse feito para uma selfie.

Ela clicou, depois se endireitou e mexeu no celular. Uma ruga apareceu na sua testa, e ela balançou a cabeça. — Está fora de foco. Você se importa...?

Claro que eu não me importava, mesmo tendo certeza de que a imagem na tela dela estava nítida. Mas havia um calor delicioso em seu corpo, e ela cheirava a bergamota e baunilha. E quando ela se inclinou para frente de novo, aproveitei a visão dos seus peitos na telinha.

Então meu sorriso ainda era feliz, e era isso que teria aparecido na selfie, só que, instantes antes de ela tirar a foto, ela virou a cabeça e chupou o lóbulo da minha orelha.

— Muito melhor!

Olhei para ela, boca aberta de choque, e a vi sorrindo de volta para mim. Ela estendeu o celular para eu ver.

Era engraçado, tive que admitir. A expressão no meu rosto era de completo espanto: olhos arregalados, boca aberta. Era quase comicamente exagerada.

Então ri enquanto ela voltava para o seu lugar e colocava os óculos no nariz. Seus peitos se moveram levemente em seu suéter de novo. — Boa. Gostaria de ter uma cópia.

— Me dá seu número que eu encaminho.

Dei, aproveitando a oportunidade para admirar como seus seios descansavam sobre a mesa enquanto ela se inclinava nos cotovelos. Um momento depois ouvi um plim, e vi a mensagem dela. A foto, com a legenda "Myrna e Daz".

— Myrna, esse é seu nome? — Claro que era, e me senti idiota assim que perguntei. — É bonito.

— Obrigada! E desculpa por isso agora. — Ela abaixou o celular e tomou um gole do seu café. Percebi que não tinha tocado no meu e também bebi.

— É uma mudança das selfies de sempre com fãs. — Para ser justo, sabia que teria ficado chateado se Myrna não fosse tão linda.

— Aposto que você tem um monte de mulheres da minha idade se jogando em cima de você. — Havia um certo brilho nos olhos dela enquanto falava.

— Não tantas quanto costumava ter. Não estou na vida pública há muito tempo.

— Você sente falta?

A pergunta dela me pegou de surpresa. Eu nunca tinha realmente pensado no assunto. Considerei por um momento, então dei de ombros. — Não, nem um pouco. Foi divertido enquanto durou, mas--

— Aposto que você pegava um monte de buceta.

— O quê? — Fiquei boquiaberto, certo de que devia ter ouvido mal.

— Todas as fãs, se jogando em você. Você devia estar se afogando nelas.

— N-não — consegui. Me senti dois passos atrás da conversa. — Não, nada disso. Muitas meninas novas demais. O risco de um escândalo... A gravadora nos mantinha na rédea curta.

As sobrancelhas dela se ergueram sugestivamente. — Isso também pode ser divertido. — Ela riu enquanto eu me atrapalhava, então se levantou e pegou a bolsa. — Preciso ir ao banheiro. Você ainda vai estar aqui quando eu voltar? — Sem esperar resposta, ela foi em direção ao fundo do local, a bunda balançando em seus jeans.

Dei um gole no meu café, esvaziando a xícara, e respirei fundo. Minhas mãos estavam tremendo levemente, percebi. A situação parecia ter fugido do controle.

Por um momento considerei dar uma fugida para a porta antes de fazer ainda mais papel de idiota. Myrna devia estar achando que eu era lento de raciocínio ou algo assim. Mas decidi que seria rude ir embora sem me despedir.

Além disso, ela era muito atraente, e havia algo erótico na sua franqueza. Ela parecia muito confortável com quem era e com o que queria.

Então decidi esperar ela voltar, e então oferecer outro café. Para matar o tempo, chequei o celular, mesmo sabendo que ele só me lembraria que eu tinha músicas para escrever.

Mal o peguei e ele tocou com a chegada de uma nova mensagem. Vinha do número de Myrna, com um anexo. Sem pensar — supondo que era a primeira selfie que ela tinha tirado — abri o arquivo.

Imediatamente, antes mesmo de meu cérebro processar o que meus olhos estavam enviando, soube que não era a selfie. Pele clara demais. O ângulo errado. Nenhum cara de meia-idade apertando os olhos para a câmera esperando uma visão melhor do decote.

Em vez disso, era o reflexo de Myrna no espelho do que presumivelmente era o banheiro feminino. Seu suéter estava puxado para cobrir seu rosto e revelar seu torso nu e um sutiã verde rendado cobrindo dois montes firmes. Caso eu tenha te assustado, dizia a legenda.

Ainda estava olhando para aquilo quando ela surgiu pela porta ao fundo. A expressão em seu rosto era recatada, como se nada tivesse acontecido, mas seus mamilos estavam furando o suéter. Ela se sentou e apoiou o queixo nas mãos. — Você ainda está aqui. Tinha certeza de que já teria ido.

— Pensei nisso. — Não sabia por que admiti aquilo. — Mas já tinha decidido ficar antes mesmo de você enviar a foto.

— Espero que tenha gostado. Você parecia fascinado pelos meus peitos, então pareceu uma boa forma de me desculpar por ter te deixado desconfortável.

Estava acontecendo de novo. Meu cérebro estava se movendo na metade da velocidade do lado dela da conversa. Meu corpo, no entanto, não estava. Pude sentir o sangue subir para minhas bochechas, e me dei conta de que já tinha começado a fluir para o meu pau também.

— Talvez você possa pegar café para nós enquanto tenta pensar em algo para dizer? — Ela sorriu docemente.

Me levantei, murmurando algo incoerente antes de conseguir perguntar: — Preto?

— Sim, por favor. Se eu quiser creme, eu mesma pego. — E o olhar dela desceu para abaixo da minha cintura, onde eu sabia que havia um volume visível nas minhas calças.

Segurando o celular estrategicamente na minha frente, consegui chegar ao balcão sem atrair olhares do barista ou dos outros clientes. Fiz o pedido e comprei um grande muffin de chocolate também. Queria ver o que Myrna faria com aquilo.

Voltei para a mesa me sentindo um pouco mais no controle e coloquei o prato com o muffin entre nós. — Aqui, caso queira algo para mordiscar. — Vi sua boca se abrir e acrescentei: — Algo além do meu lóbulo.

Ela sorriu. — Vou me contentar com um pedacinho de muffin por enquanto. — Sua mão se estendeu, e com dedos finos arrancou um pedaço e o colocou na boca. Ela o saboreou por um instante, depois engoliu. — É bom. Bem úmido. E você, Daz? Gosta de mordiscar um muffin úmido?

Mas eu já estava esperando por isso. "Eu? Adoro um muffin docinho." Peguei um pedaço, mas antes de conseguir levar a mão à boca, os dedos de Myrna o seguraram. Seus olhos encontraram os meus, seus lábios se entreabriram e ela guiou meus dedos em direção à sua boca aberta.

Senti seu hálito quente, depois seus lábios se fecharam em volta do bolo. Sua língua lambeu meus dedos repetidamente antes de afastá-los. O tempo todo seus olhos não deixaram os meus.

Uma pontada no peito me lembrou de respirar. "Hmm..."

"Desculpa." Ela não soou nem um pouco arrependida. Nem pareceu, enquanto pegava um guardanapo e o usava para limpar meus dedos. "Pronto. Como se isso nunca tivesse acontecido."

"Hmm..."

Nesse momento, o barista chegou com nossos cafés. Outra surpresa. Normalmente os clientes tinham que pegá-los no balcão, até mesmo celebridades locais menores como eu. Mas fiquei grato, porque não tinha como esconder o volume ao longo da perna da calça agora.

Eu estava fora de prática com as pessoas, percebi. Tempo demais trancado em casa, compondo músicas. Não interagia o suficiente com gente fora da minha zona de conforto.

A questão é que minha zona de conforto era bem confortável pra caramba. Eu não precisava fazer nada que não quisesse. Não precisava ver ninguém que não quisesse. Não esbarrava em ruivas predadoras com frequência.

Por isso meus reflexos mentais não estavam tão afiados quanto poderiam estar. Houve um tempo em que eu teria uma resposta espirituosa para cada investida da Myrna, com um flerte sutil meu para ver como ela reagia.

Agora eu estava ali, atrapalhado, com a aparição do barista cujo nome me escapava enquanto eu gaguejava meus agradecimentos.

Myrna estava ciente disso. Dava para perceber pelo jeito como ela me olhava que sabia o quanto eu estava fora do meu elemento. Poderia pensar que ela estava se divertindo às minhas custas. Mas não parecia haver maldade ou crueldade em suas provocações, e mesmo me sentindo um idiota completo, eu estava gostando o suficiente para aproveitar.

Então tomei um gole do meu café novo e imaginei o que ela faria a seguir. Bem, o que ela fez foi sorrir e depois perguntar sobre a vida em turnê, como as coisas como café e comida se comparavam à vida normal. Parecia que ela tinha ficado com pena de mim.

Conversamos por mais uma meia hora antes de eu me desculpar. Por mais que eu gostasse da companhia de Myrna, a acústica ruim da cafeteria estava me cansando. Além disso, eu tinha tido inspiração para três músicas novas e queria começar a trabalhar nelas.

Saímos juntos. Estava um dia lindo, quente e ensolarado. Fiquei parado, sem jeito, sem saber exatamente qual era a proximidade do nosso relacionamento. Depois de um instante, apontei o polegar por cima do ombro. "Esse é o meu prédio, ali."

Ela olhou por trás de mim e ergueu as sobrancelhas. "Parece chique!"

"É, pois é." Todo Natal chegava um cheque gordo de royalties por "Heart In The Snow", e isso por si só bastava para pagar o apartamento luxuoso no topo da torre. De repente me perguntei se ela esperava que eu a convidasse para subir, e percebi, em pânico, que não queria. Mesmo que ela me provocasse mais, e mesmo que essa provocação levasse ao sexo, naquele momento eu precisava ficar sozinho.

Por sorte, ela pareceu sentir isso. Inclinou-se para a frente e encostou o rosto no meu. "Tchau, Daz. Te vejo amanhã?"

Tentando não soltar um suspiro de alívio, beijei-a na bochecha. "Amanhã parece ótimo."

Foi com uma sensação de dupla felicidade que voltei para o apartamento. Felicidade por estar de volta e felicidade por Myrna querer me ver de novo. Peguei meu celular para dar uma boa olhada na foto que ela tinha enviado.

Eu estava justamente dando zoom, com uma mão me tocando distraidamente, quando uma nova mensagem apareceu. Reconheci o número como sendo de Myrna, mesmo ainda não tendo adicionado à minha lista de contatos.

Você está olhando a foto que eu mandei? Estou, para falar a verdade, respondi. Eu me sentia mais confortável trocando mensagens do que lidando com pessoas pessoalmente. Então vou te deixar sozinho por uns minutos. Divirta-se!

Bem, com esse tipo de incentivo, o que mais eu podia fazer? Fui para o quarto e bati uma.

*

Passei o resto do dia compondo. Era como se meu cérebro estivesse pegando fogo. Linhas fluíam da minha mente para o papel e dali para o teclado e para o ar. Era como se eu nunca tivesse acessado a musa antes, e agora ela estava explodindo de ansiedade para escapar.

Era o começo da noite, e eu estava relaxando na sacada com uma taça de vinho quando meu celular tocou de novo. Myrna.

Você se divertiu com a foto?

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