Anseios do Passado
Sr. Evans? Mal Evans?
A jovem na minha soleira me olhou expectante. Ela era familiar, de uma forma ligeiramente perturbadora. Algo nos olhos, na postura, na caixa de sapatos que carregava; ela era como um sonho quase esquecido, daqueles que deixam uma nuvem sobre o resto do dia ao acordar.
Ninguém me chama de Mal há muito tempo.
A mulher — na verdade, pouco mais que uma garota — era bonita demais para ser facilmente esquecida, com certeza. Não era minha aluna. Alguém do campus? Talvez, mas eu não achava. Velha demais para ser amiga dos meus filhos. Jovem demais para ser colega de trabalho da Sue. E nada disso parecia certo. Ela vinha de algum outro lugar do passado.
Me desculpe, senhor. Mas... — A tampa saiu da caixa e uma enxurrada de memórias me invadiu. — Era esse o nome em todas as cartas que você escreveu para minha mãe.
Meu coração disparou. — Julia. Você é... filha da Julia e do Trevor... — Engoli em seco. — Você é filha deles.
Sim, senhor. Luisa White. — Ela estendeu a mão e eu a apertei.
Murmurei distraidamente: — Nome da avó.
O rosto dela se iluminou, um sorriso largo aparecendo. O sorriso da Julia. Os olhos escuros e profundos da Julia. Ela era alta como o pai, só um pouco mais baixa que eu, mas não desengonçada como ele; herdara as curvas da mãe também. A pele era um lindo tom de café com leite, um meio-termo entre Trevor e Julia.
Isso mesmo!
Assenti, tentando ganhar tempo. — Eu sabia que era esse o nome que ela planejava, mas... — Então as perguntas borbulharam à tona, rápidas demais para ela responder. — Espera, por que... Eu não falo com eles há anos. Por que você está aqui? Como me encontrou? Por que está com essas cartas?
A boca da Luisa abriu e fechou algumas vezes, provavelmente tentando decidir qual pergunta responder primeiro. — Eu queria fazer umas perguntas, senhor.
David. — Malcolm era meu nome do meio; eu não atendia por Mal há mais de 20 anos.
David. As cartas são o motivo de eu estar aqui, o... o motivo de eu precisar te encontrar. Não sei como você se encaixa no passado dos meus pais; na verdade, não sei muito sobre o passado deles, mas só percebi isso recentemente. E eu queria descobrir mais. Mais sobre eles, e... e sobre o homem que escreveu essas cartas para minha mãe.
Quanto ao como, isso... Levou um tempo. E foi tanto sorte quanto qualquer outra coisa eu finalmente ter te encontrado. Isso é... — Ela balançou a cabeça. — Eu não sou... juro que não sou uma stalker maluca. Mas quando encontrei isso entre as coisas da minha mãe, fiquei com tantas perguntas, e precisava de respostas.
Por que você não pergunta diretamente a ela?
O rosto dela caiu. — Não posso.
Não pode ou não quer?
Ela suspirou. — Não posso. Meus pais, eles... — Luisa olhou para o horizonte. — Houve um incêndio. E eles, hã...
Fiquei surpreso com uma dor que nunca imaginei que sentiria de novo. Eu os tinha perdido pela segunda vez. Nunca pensei que doeria assim, nunca pensei que conseguiria sentir esse tipo de perda pelos dois como sentira antes. Era uma dor abafada, mas estava lá; isso me deixou, talvez, mais triste do que a notícia de que eles tinham partido.
Ah, Deus. Sinto muito, Luisa.
Ela me deu um sorriso pequeno e grato. — Obrigada. Já faz uns dois anos, mas... — Balançou a cabeça. — Enfim. Não posso perguntar a eles. Não posso perguntar a ninguém. Meus avós já se foram todos, mamãe e papai não tinham irmãos, e... — Deu de ombros. — Acho que você é a única pessoa que pode me contar o que eles não contaram.
Uma parte de mim queria contar tudo, responder todas as perguntas dela. Outra parte queria deixar o passado enterrado. Mais outra sabia que havia um bom motivo para eles esconderem coisas dela, e achava que talvez eu devesse isso a eles; mas então uma outra parte, mais sombria, quase esquecida, rosnou que eu não devia porra nenhuma a eles. Mas mesmo que não devesse, o que eu devia a mim mesmo?
Mas aí o olhar esperançoso, tão parecido com o da Julia, decidiu por mim. — Por que você não entra?
Ela se sentou à mesa da cozinha. — Quer beber alguma coisa? Água? Refri? — Fiz um cálculo rápido. — Cerveja?
Água, por favor.
Se não fosse fim de tarde, eu teria optado pela cerveja, mas em vez disso coloquei um copo de água na frente de nós dois. Sentamos e bebemos por alguns instantes, até que o silêncio passou de desconfortável a sufocante. — Você tem certeza de que quer saber? Ou é só curiosidade ociosa?
Preciso saber a essa altura. Olha, eu... Sei que isso é estranho. E sei que é muita coisa para jogar em você de uma vez. Me desculpa aparecer de surpresa na sua casa, mas não consegui achar seu telefone residencial em lugar nenhum, e imaginei que isso era... bem, o tipo de coisa que deveria ser feita pessoalmente e não no trabalho.
Ela tomou um gole. — Antes de mamãe e papai morrerem, eles me contaram como se conheceram, a vida que tinham antes de nos mudarmos para Miami, tudo. E eu sei... ou pelo menos acho... Depois do incêndio, tentei juntar as peças por dois anos, mas nunca tive sorte, e agora percebo que pelo menos parte do que me contaram era mentira.
Essas cartas foram a primeira pista disso, e fizeram algumas lembranças antigas se encaixarem. Umas fotos de vocês três em caixas que achei no depósito. O fato de meu pai e meu avô terem brigado e ninguém querer me contar o motivo. O jeito como minha avó desconversava toda vez que eu perguntava sobre o tempo de mamãe e papai antes de Miami.
No fim, desisti; era beco sem saída atrás de beco sem saída, e eu precisava parar de me obcecar. Quando o incêndio aconteceu, eu estava no terceiro ano da faculdade, e tirei aquele ano de folga para lidar com tudo, o que me levou a esvaziar o depósito da minha mãe, o que levou a... — Ela fez um gesto para a caixa de sapatos. — E aí mergulhei de cabeça nessa busca pelo resto daquele ano, tentando descobrir qualquer coisa, mas ninguém conseguia me dar respostas. Então voltei para a faculdade, terminei o bacharelado e me inscrevi para um mestrado.
Assenti lentamente. — Como você acabou me encontrando, então?
Luisa deu uma risadinha autodepreciativa. — Pura sorte de principiante. Eu queria saber mais sobre a universidade que tinha me aceitado para o mestrado. Entrei no site, percorri as páginas dos vários professores, e...
... E achou uma foto minha.
Ela apontou um dedo. — Bingo. Eu, hã, não quero ser leviana, mas você envelheceu muito bem. Reconheci quase na hora; quer dizer, o fato de seu nome do meio estar lá também ajudou. — A linda jovem sorriu com tristeza e baixou o olhar. — Antes de achar sua foto no site da faculdade, eu sinceramente... eu sinceramente achei que você pudesse ser meu pai. Isso, pelo menos, faria sentido. O segredo, quero dizer. Essas cartas são... bem, são realmente alguma coisa.
Fiz uma careta de leve. — Você as leu?
Hã, eu passei os olhos em partes, mas sim. Você claramente, claramente amava a mamãe. Pelo jeito que ela estava com você nas fotos que achei, era recíproco. E as datas... Não batem com as histórias que meus pais contavam sobre o passado deles.
Uma respiração profunda me deu um tempinho para organizar os pensamentos. — Por que você não me conta o que sabe, ou pelo menos o que acredita, e aí continuamos daí? Não preciso de um relato detalhado, mas, por exemplo, eu não sabia que Trevor e Julia tinham se mudado para Miami. Então que tal uma sinopse rápida do seu passado, e do deles, como você entende?
Acho que... — Ela mordeu o lábio. — Vejamos. O que me contaram é que se conheceram no ensino médio numa cidadezinha do Texas. Os dois tinham se mudado para lá com os pais; minha avó ia dar aula de espanhol na escola, e meu avô tinha um emprego de escritório. Nunca ficou muito claro. Ficaram amigos e depois algo mais, acabaram se mudando para Austin para estudar na UT juntos.
Aí me tiveram sem planejar, se casaram e se mudaram para Miami, onde estava o resto da família dela. Mamãe queria que eu crescesse perto dos meus primos. Vovó acabou voltando para lá também. Fui filha única, mas eles pareciam um casal feliz. Eram bons pais. Mamãe era professora, papai era programador. Não parecia haver nenhum segredo obscuro nem nada.
Ela deu de ombros. — Aí fui para a faculdade, estava indo bem, o incêndio aconteceu e descobri que... bem, que no mínimo, mamãe estava apaixonada por outra pessoa durante boa parte do tempo em que supostamente estava com meu pai. Se eu fiz as contas direito, você começou a mandar essas cartas para ela no último ano do ensino médio, e elas não pararam até quase o fim do segundo ano de faculdade dela. Vocês estavam noivos. E aí as cartas terminam.
Luisa coçou a nuca. — Isso não seria tão estranho, mas há fotos de vocês três depois dessa época juntos. Eu tinha pensado que talvez mamãe tivesse terminado as coisas e você foi embora, mas isso não combinaria com as fotos. Você, mamãe e papai pareciam unha e carne em todas elas até o último ano da UT. Então tinha que ser outra coisa, mas não consegui descobrir o quê.
Ela tinha a maior parte das informações, mas não o suficiente para juntar tudo. Luisa claramente amava os pais; talvez fosse melhor para ela não descobrir. Mas eu percebia que ela ia continuar cavando.
Olhei para o relógio na parede, então assenti para mim mesmo. — Certo, posso te contar mais sobre isso depois, mas tenho que ir buscar meus filhos na escola. Por que você não vem jantar com a gente? — Minha vida de estudante não tinha sido exatamente uma sucessão de banquetes; pela expressão no rosto dela, aquela que tentava equilibrar decoro, o desejo de não incomodar a pessoa que tinha a informação que ela queria e a vontade de algo além de miojo e burritos congelados, ela estava no mesmo barco.
Não quero abusar.
Estou oferecendo. Não é abuso. Faça a minha vontade; nos faria bem uma companhia extra, e talvez eles se divirtam com a ideia de que o velho pai deles realmente tem um passado.
Sua esposa não vai se importar?
Ela percebeu, quase imediatamente, que pisara em uma mina terrestre, mas era uma tão antiga que não houve explosão. — A Sue está... Temo que ela não esteja mais entre nós. Ela era médica de emergência. Os protocolos de EPI não eram lá grande coisa no começo da pandemia, e, bem, ela sofria de asma. Não sabiam o quanto isso podia ser perigoso naquela época. — Dei a ela um sorriso tranquilizador. — Tudo bem. Você não tinha como saber.
Mesmo assim, sinto muito.
Obrigado. — Balançando a cabeça, continuei. — Enfim. Você seria bem-vinda para jantar conosco, e depois podemos conversar um pouco mais. A menos que você tenha algum lugar para estar?
Luisa concordou, e nos enfiamos no meu carro. Meus filhos tiveram reações bem diferentes a ela. Dana, minha filha de doze anos, mostrou-se quase desinteressada; ela estava naquela fase de pré-adolescente em que começava a se encontrar, ou pelo menos tentava, e a indiferença fria era seu modo padrão. Lewis, por outro lado, tinha quatorze anos e estava a mil com os hormônios, e Luisa era uma jovem lindíssima. Ele ficou pendurado em cada palavra dela.
Enquanto nos sentávamos no restaurante e comíamos, conversando sobre nada em particular, fiquei impressionado com o quanto Luisa era notável. Não digo pela beleza; ela era uma mulher muito inteligente e culta. A graduação dela era em bioquímica, mas também amava literatura, a minha área.
Ela também era gentil. Meu filho estava caidinho por ela, e em vez de ignorá-lo ou provocá-lo, ela conversava com ele como se fosse quase um colega; não de um jeito que o fizesse pensar que tinha alguma chance com ela, mas ainda assim o suficiente para que ele se sentisse bem consigo mesmo em vez de envergonhado.
Como esperado, os garotos realmente acharam graça na ideia de que o pai tinha um passado; eu nunca tinha conversado com eles sobre isso, por motivos parecidos, embora não exatamente os mesmos, pelos quais os pais da Luisa não tinham discutido o deles com ela. Na janta, fiz alusão à minha amizade com os pais dela, mas nada além disso.
Depois que terminamos e voltamos para casa, despachei as crianças para fazerem o dever de casa e se aprontarem para dormir. Luisa e eu nos sentamos no sofá juntos para conversar com semiprivacidade. — Eles são ótimos garotos.
Obrigado. Tenho muito orgulho deles. Eles... bem, os últimos anos têm sido difíceis, mas eles realmente se recuperaram. Melhor do que eu, provavelmente. — Ela sorriu com simpatia. — Luisa, quero te perguntar uma coisa.
Sim?
Se houvesse um segredo sobre a minha esposa que mudasse a forma como eles a veriam, você acha que eu deveria contar a eles? Não agora, mas talvez quando estivessem na faculdade?
O rosto da Luisa mostrou que ela entendeu imediatamente o que eu estava dizendo, mas entrou no jogo. — Acho que dependeria. Se fosse algo bom, sim, com certeza. Neutro? Talvez. Provavelmente. Mas ruim... — Ela suspirou. — Acho que dependeria muito de quão ruim fosse. Mas a situação deles é diferente da minha.
É?
Se esse segredo hipotético existisse, eles ainda não têm a menor pista dele. Eu tenho. Eu só tenho metade da história, e não consigo acreditar que as coisas que imaginei sejam piores do que a verdade.
Respirei fundo. — Vou dizer o seguinte por enquanto: o que posso te contar vai mudar a forma como você vê os seus pais. Se eu só tivesse te conhecido e soubesse que você era filha deles, se você não tivesse essa caixa de sapatos cheia de cartas, eu nunca, jamais te contaria. Vai significar uma mudança desse tamanho na maneira como você olha para eles. Juro a você.
Luisa pareceu surpresa. Ela tinha imaginado algo grande, eu acho, mas não tão grande quanto o que eu estava sugerindo. Antes que pudesse falar, continuei, em voz baixa. — Você ama seus pais; dá para perceber. Tenho certeza de que você tinha suas diferenças com eles, como todo filho. Mas quero que você durma sobre isto: não consigo acreditar que eles mesmos teriam te contado isso. Se você realmente precisa saber, eu conto. Mas você tem que decidir se é uma necessidade de verdade ou só uma curiosidade que você levou longe demais. Porque não dá para desouvir o que eu disser, Luisa.
Ela assentiu solenemente. — Certo. Estou ouvindo. Vou pensar, pensar de verdade. Hã... como devo entrar em contato depois que tomar minha decisão? — Trocamos números de celular antes de ela ir embora; não precisei esperar muito para ela ligar.
Alguns dias depois, estávamos sentados do lado de fora de um café perto do campus. Havia uma vozinha no fundo da minha cabeça fazendo tut-tut; ela era aluna e eu era professor, e certas deduções incorretas poderiam ser tiradas se alguém estivesse inclinado a isso. Mas ela não era minha aluna. Eu nunca tinha dado aula para ela. Eu não teria impacto direto nenhum na carreira acadêmica dela; não havia regras éticas sendo violadas, mesmo que fôssemos algo mais do que um simples par de conhecidos sentados para conversar.
Obrigada por vir, David. Eu... pensei muito sobre o que você disse. E a verdade é que estou preocupada com o que posso descobrir, mas realmente preciso saber. Isso vai me corroer até eu saber.
Assenti. — Certo. Vamos começar do começo, então. Seus pais te contaram algumas meias verdades e algumas falsidades descaradas. Sim, sua mãe e seu pai se conheceram no segundo ano do ensino médio quando se mudaram para uma cidadezinha no Texas. O que eles omitiram foi que eu me mudei para lá no mesmo ano. Nós três nos unimos pelo fato de sermos todos forasteiros; Trev era de Nova York, Julia era de Miami, e eu era de Los Angeles. Minha mãe se mudou para ficar perto de parentes; meu pai tinha nos abandonado, e ela precisava de um lugar para ficar, então fomos parar nessa cidadezinha de fim de mundo.
Não era lá grande coisa para basear uma amizade, mas funcionou. Trevor foi o melhor amigo que eu tive até então no fim do nosso segundo ano. Eu sabia que ele estava interessado na Julia, mas eu também estava. E o Trev, bem... ele era quieto e humilde, enquanto eu era o oposto. — Dei uma risada. — Eu tinha uma pose de 'rebelde sem noção' naquela época, e sua mãe foi atraída por isso.
Ela e eu começamos a namorar no terceiro ano. Trev aceitou numa boa e saía com outras garotas. Nós fizemos um pacto de que íamos sair juntos daquele buraco de cidade, e saímos, indo para a UT em Austin, como seus pais te contaram.
As cartas eram... eu as escrevia para sua mãe porque um dos poucos interesses que tínhamos em comum era escrever. No colégio, a gente trocava cartas toda hora. Na faculdade, a UT tinha uma regra na época de que você precisava morar em casa ou no dormitório nos dois primeiros anos; continuei escrevendo cartas pelo mesmo motivo, para termos algo um do outro enquanto não podíamos estar juntos.
Não há mais cartas depois do segundo ano dela porque então fomos morar juntos. Estávamos noivos, como você disse. E nos casamos no verão entre o terceiro e o quarto ano."
Os olhos de Luisa se arregalaram. "O quê?!"
Assenti solenemente. "Fomos casados por três anos. Seu pai ainda era nosso amigo, claro, mas ele meio que se afastou durante aquele período. Não totalmente, quer dizer; ainda era meu melhor amigo, e provavelmente o de Julia também. Ele foi o padrinho do nosso casamento. Mas éramos recém-casados, e ele ainda tentava encontrar alguém, e sei que se sentia meio como um estranho no ninho.
Quando nos formamos, tínhamos decisões a tomar. O sonho de Julia era ser professora; eu queria terminar o mestrado e depois fazer doutorado, mas isso não parecia estar nos planos. Tinha prometido a mim mesmo que não seria como meu pai, um vagabundo que não cuidava da família. Então peguei meu diploma em Letras e fui trabalhar escrevendo anúncios publicitários. Não gostava do trabalho, mas pagava bem.
Escrevi umas coisas boas, e meus chefes pediram para eu viajar como parte da equipe que fazia propostas para novos clientes. Significava mais dinheiro, o que era ótimo; Julia e eu queríamos filhos, e decidimos que, com ela finalmente conseguindo um emprego estável de professora e eu ganhando mais, estávamos em condições de ela parar com a pílula. E ela parou."
Respirei fundo e soltei o ar devagar. "Quando você disse que achava que podia ser minha filha, bem... para falar a verdade, você deveria ter sido."
Ela levou a mão à boca. "Mamãe e o P-Papai, eles...?"
"Eu estava fora da cidade a trabalho. Não acho... Eles me contaram, e eu acreditei, que aconteceu uma vez e só uma vez. Ele tinha vindo nos visitar, eu não estava lá, e decidiram passar um tempo juntos, só os dois, o que não faziam havia um tempo. Trevor tinha terminado com a namorada, os hormônios de Julia estavam descontrolados por parar com a pílula, ficaram bêbados e chapados e..." Dei de ombros.
Lágrimas começavam a se formar nos olhos de Luisa. Eu sentia por ela, e sabia que só ia piorar. "Quer fazer uma pausa?" Ela balançou a cabeça com veemência, 'Não'.
Tomei um gole do meu café. Não contava a história havia anos. Esperava que doesse mais, como antes, mas eu sentia mais por Luisa. "Eles não tinham planejado me contar. Foi um erro, eles se arrependeram, e decidiram mutuamente que saber só me machucaria. Julia estava... ela tentou compensar quando cheguei em casa. É só o que vou dizer. Trevor me evitava, e quando eu o via, dava para perceber que algo estava errado. Não sei se eles teriam conseguido manter o fingimento, mas então a situação deles foi forçada. Julia estava grávida.
Ela esperou para me contar até poder falar com Trevor, e eles me contaram juntos. Eu nem suspeitava que ela estava grávida antes de descobrir a traição deles. Eu..." Meu olhar caiu para as mãos apoiadas na mesa. "Vou ser honesto, fiquei furioso. Ataquei seu pai. Mas ele não revidou, só manteve os braços erguidos e tentou não se machucar muito. Parei quando ele estava no chão, frustrado por ele não me dar a satisfação de uma briga de verdade. Julia só gritava para eu parar. Saí e fiquei tão bêbado quanto nunca fiquei por... bem, por vários dias."
Lágrimas agora escorriam pelo rosto de Luisa. Eu a via tentando formar perguntas, mas apenas continuei; ela saberia tudo em breve.
"Acho que Julia tinha esperança de que, me contando assim, sem me surpreender no fim da gravidez se o filho fosse de Trevor, eu a perdoaria. Eu... talvez pudesse ter perdoado, se o bebê... se você fosse minha. As pessoas cometem erros. Eu poderia ter aceitado e tentado superar." Ri com amargura. "Ou talvez não pudesse; eu estava tão furioso com ela. E, para ser justo, estávamos casados havia só três anos. Mas, como eu disse, queria ser o bom pai que meu pai não foi, então gosto de pensar que poderia.
No entanto, eu disse a ela que de jeito nenhum criaria o filho de outro homem, que era resultado de infidelidade, especialmente um que... bem, que claramente não era meu. Isso foi antes de poder fazer teste de paternidade com exame de sangue durante a gravidez, e nenhum de nós queria arriscar a vida de uma criança com um teste intrauterino.
Então nós três ficamos no limbo. Julia e eu estávamos casados, mas dormindo em quartos separados. Trevor estava quase totalmente fora de nossas vidas, mas esperando para ver se teria que assumir. E então você veio, e foi isso. Meu casamento acabou, meu melhor amigo tinha me traído, e eu estava num emprego do qual não gostava muito. Me candidatei a um mestrado na Califórnia e, bem, aqui estou."
Luisa engasgou: "Ai, Deus."
"Tome um gole. Espere um momento." Ela assentiu e bebericou o café, tremendo enquanto tentava se recompor. Eu disse suavemente: "Isso não muda nada sobre você, Luisa. Seus pais ainda a amavam. Eles mentiram para você porque a amavam. Você é filha deles, e seu pai fez a coisa certa."
Ela riu, uma risada curta e áspera. "Sim, depois que ele..." Balançou a cabeça com desgosto. "Como você... por que está defendendo eles?"
"Não estou defendendo eles. Estou defendendo você. O que eles fizeram foi errado. Foi a maior traição da minha vida e, até pouco tempo atrás, a pior dor que já senti." Franzi a testa. "Mas a morte de Sue eclipsou totalmente aquela dor. E mesmo ignorando isso, foi..." Ri e gesticulei na direção dela. "Foi uma vida inteira atrás. Não sou casado com sua mãe há algo como sete vezes mais tempo do que fui casado com ela. Que tipo de misantropo eu seria para guardar essa raiva por tanto tempo?
Não me entenda mal, fiquei amargo por bastante tempo. Zangado com o mundo. Furioso com seu pai. Eu o odiava. Ele tinha roubado minha esposa, minha vida e minha chance de ter um filho. Mas vim para cá e construí uma nova vida. Segui meus sonhos e me tornei professor. Conheci Sue, e ela me ajudou a lidar com aquela dor. Ela me deu dois filhos ótimos e um casamento maravilhosamente feliz." Balancei a cabeça. "O que seus pais fizeram comigo foi terrível. Mas como as coisas terminaram? Estou feliz. Se for honesto? Provavelmente estou mais feliz do que estaria se nada disso tivesse acontecido."
Luisa inclinou a cabeça. "Mas você a amava tanto. As cartas..."
"... Foram escritas por um garoto para uma garota. Sim, eu a amava ferozmente. Desesperadamente. Era um amor como um incêndio florestal. Todo mundo deveria ter pelo menos um desses na vida. Mas incêndios florestais se apagam. Se você tiver sorte, talvez se transformem em algo mais estável. Melhor a longo prazo. O que eu tive com Sue..." Sorri com a lembrança da minha amada esposa. "Aquele era o tipo de fogo que aquecia uma casa, em torno do qual podíamos construir uma vida. Talvez o incêndio florestal que tive com sua mãe tivesse se transformado nisso, mas duvido muito. Simplesmente não havia o suficiente em comum entre nós para funcionar a longo prazo."
Luisa e eu ficamos sentados em silêncio por um tempo, então nossa comida chegou. Comemos devagar e em silêncio. Quando a conta veio, eu a paguei apesar dos protestos dela. Ela não protestou com muita força; afinal, ainda era uma estudante universitária sem dinheiro.
Depois, ela empurrou a caixa de sapatos na minha direção, e eu a empurrei de volta. "Não. Agradeço a oferta, mas não. Me livrei das cartas dela para mim há muito, muito tempo. Não preciso nem quero estas. Fique com elas."
"Obrigada. Não só pelas cartas, mas por... bem, por tudo." Ela mordeu o lábio. "Tudo bem se a gente conversar mais depois? Não quero desenterrar lembranças ruins, mas gostaria de saber mais sobre como eles eram quando jovens. Só se estiver tudo bem, claro."
Aquilo tinha sido bom. Contar a história para alguém que precisava ouvi-la, em vez de contá-la porque era obrigado, para um terapeuta ou para que Sue pudesse me ajudar com a raiva. Ao relatar para Luisa, pareceu quase um exorcismo. Ou talvez fosse apenas que, ao examinar minha dor agora, ela estava tão diminuída que, em vez disso, me peguei lembrando principalmente dos amigos da juventude e lembrando deles com muito mais carinho do que jamais achei que pudesse.
Mas acho que, o mais importante, enquanto o que fizeram comigo foi horrível, coisas boas resultaram disso. Meu casamento com Sue. Minha carreira. Meus filhos. E, mais diretamente, a jovem bioquímica inteligente e adorável sentada à minha frente. Não acredito em platitudes como "todas as coisas cooperam para o bem", mas neste caso? Cooperaram.
"Claro. Ficarei feliz em conversar."
Nossa amizade foi hesitante no começo. Achei que tínhamos pouco em comum além do meu passado e nosso amor mútuo pela literatura, mas pouco a pouco fomos nos entrelaçando mais na vida um do outro. Luisa era meio fanática por exercícios, e comecei a acompanhá-la ocasionalmente nas corridas matinais; não conseguia acompanhar muito bem, mas ela era paciente. Eu a guiei pelo novo reino da politicagem do escritório que sempre atrapalha as carreiras acadêmicas de pós-graduação. E, à medida que nos conhecíamos melhor, encontrávamos interesses comuns adicionais: ela adorava cozinhar, e eu era um pouco gourmet; nós dois adorávamos filmes antigos da era de ouro de Hollywood; nossos gostos musicais coincidiam; e o que acabaram sendo muitas, muitas outras pequenas interseções de personalidade e preferência.
Ela lentamente se tornou uma presença constante na minha casa, vindo pelo menos uma vez por semana, às vezes para cozinhar, às vezes para ajudar Lewis com o dever de química, e às vezes só para passar um tempo com minha família. Então uma vez por semana virou duas vezes por semana, que virou três vezes por semana.
No quinto mês que nos conhecíamos, eu já sabia quando algo a estava incomodando. Mas naquele dia, o dia em que todas as nossas vidas mudaram, qualquer um poderia ver que ela estava perturbada. Ela não queria falar sobre o assunto, mas acabei arrancando dela.
"Ele só... quando me mudei, ele parecia um cara legal. Eu disse a ele que só queria um colega de quarto, e ele disse que estava tudo bem, mas agora está me perseguindo, dizendo que deveríamos ser mais, e..." Ela engoliu em seco. "Não me sinto mais segura lá. Mas não sei o que fazer, estou no contrato de aluguel, e teria que achar alguém para assumir minha parte ou pagar a multa para quebrá-lo, e simplesmente não tenho esse dinheiro. E então teria que achar um novo lugar para ficar, e--"
"Luisa."
"-- Juntar o primeiro e o último mês e então precisaria achar outro colega de quarto e--"
Coloquei a mão sobre a dela. "Luisa." Ela ergueu os olhos para mim. "Por que você não vem ficar com a gente?"
"O quê?"
"Tenho o quarto de hóspedes. As crianças a adoram. E eu tenho tido um ótimo tempo com você, podendo ser seu amigo."
Sua expressão era cautelosa, mas esperançosa. "Eu... David, não posso fazer isso. É a sua casa, e você mal me conhece. Agradeço, mas..."
Eu ri. "Está brincando? Eu a conheço a sua vida inteira!" Ela corou com isso, sua pele escurecendo só um pouco. "Estou falando sério. Venha ficar com a gente."
"Quanto você quer de aluguel?"
Dei um tapinha no braço dela. "Cozinhe o jantar algumas noites, dê reforço para as crianças, aguente minhas escolhas de filme. Vamos considerar isso quitado."
"David, não! Isso é generoso demais! Eu preciso--"
Minha mão se ergueu num gesto para que se calasse. "Você precisa dizer sim. Agora, quando pode se mudar?"
Ela sorriu e olhou para as mãos. "Obrigada, David. Muito obrigada mesmo."
Fui com ela buscar as coisas dela. Havia apenas algumas caixas, e ela se mudou mais tarde naquela noite; o colega de quarto dela ficou furioso, tanto por ela estar se mudando quanto por ela ter aparecido com outro homem. Nós discutimos; eu não era mais o jovem cabeça-quente de antes, mas ainda podia intimidar quando precisava, só que agora usava palavras em vez de punhos, palavras como "expulsão" e "perseguição" e "polícia". Ele se calou, eu paguei para quebrar o contrato dela—o que gerou outra rodada de protestos dela—e fomos embora.
As crianças ficaram, como esperado, radiantes. Não ficariam mais presos à comida do pai, para começar. Além disso, eu não tinha percebido o quanto a casa tinha sentido falta de ter uma mulher nela. Sim, ela não era a mãe deles e nunca poderia ser. Em vez disso, ocupava o papel de uma irmã muito mais velha ou de uma tia jovem e descolada, dando conselhos para Dana sobre assuntos que iam do corpo em transformação até garotos e valentões na escola (o que foi a primeira vez que soube disso). Para Lewis, ela o orientava não só nos estudos, mas em como se vestir e falar com garotas.
Luisa cozinhava, e eu lavava a louça; às vezes ela se juntava a mim, rindo e brincando. A gente se sentava depois que as crianças iam dormir, bebericando vinho e conversando sobre política universitária ou novos filmes que iam estrear. Era confortável, e ficava mais confortável quanto mais tempo ela morava com a gente. Tornou-se tão confortável que, como o sapo na panela de água fervente, não percebi quando as coisas entre nós mudaram.
Nossas corridas matinais ocasionais se tornaram diárias. Ela me provocava enquanto corria à frente, e eu fazia o meu melhor para acompanhar. E foi nessas corridas que reconheci pela primeira vez um problema em ela morar com a gente que não tinha reconhecido antes: ela era absolutamente linda, e já fazia um tempo desde que eu estivera com uma mulher.
Há algumas jovens que não sabem o efeito que sua beleza tem sobre os homens ao redor; há outras que sabem exatamente o efeito e o usam em seu favor a cada passo. Como professor, já tinha convivido com ambas, e tive encontros infelizes com alunas de baixo desempenho da segunda variedade antes. Luisa, porém, era do tipo que sabia o quanto era bonita, e escolhia não se valer disso em nada, mais do que o mundo exigia que ela fizesse.
Mas quando ela estava em casa com a gente, e especialmente quando eu corria com ela, nada disso importava. Ela estava com shorts de lycra colados e um top esportivo, às vezes complementados com uma camiseta. Enquanto corria na minha frente, suas belas curvas me tentavam, me provocando tanto quanto suas palavras, mas para fins diferentes.
A voz de Luisa me implorava para melhorar minha saúde, mas seu corpo despertava uma fome que estava em grande parte adormecida desde a morte de Sue. Quando eu tinha tempo depois das nossas corridas, cuidava das minhas necessidades como um adolescente no chuveiro; eu tinha que fazer isso, ou ficaria pensando nela o dia todo. Quando não havia tempo, tomava um banho frio em vez disso, mas não era nem de longe o suficiente.
Pareço um velho sujo, eu sei. Mas nenhuma das minhas alunas jamais teve esse efeito em mim. Sue e eu até tentamos um pouco de encenação algumas vezes, em que ela era uma aluna que precisava desesperadamente que sua nota fosse mudada, e ela faria qualquer coisa para que isso acontecesse. Para mim, parecia mais bobo do que sexy. Nas minhas aulas, mesmo as alunas mais bonitas não acionavam os alarmes de "olhe, mas não toque" na minha cabeça, e não acionavam desde que eu era assistente de ensino na casa dos vinte.
Mas com Luisa, eu tinha uma conexão emocional. Ela já estava na minha vida, e nos aproximávamos mais a cada dia. Havia momentos em que estávamos lavando a louça, e ela me dava uma ombrada ou deslizava atrás ou na minha frente, e eu precisava me concentrar na minha tarefa para evitar a ereção que começava a surgir. Ela saía com amigos, e eu ficava bem. Quando saía em encontros, eu me pegava ficando um pouco enciumado. Depois, tentando fazer algo a respeito desse ressurgimento da minha libido, eu saía em meus primeiros encontros desde que Sue partiu. Cada vez que saía, achava que via um leve traço de tristeza nos olhos de Luisa.
Nos olhos da Luisa. Quando nos conhecemos, eu via tanta Julia naqueles olhos e naquele sorriso. Ao olhar para ela, com o passar do tempo, virou aquela ilusão de ótica, a velha ou a moça. Às vezes, eu a olhava e via uma sombra do meu primeiro amor. Depois, olhava de novo e via apenas a linda jovem que tantas vezes ocupava minha mente no presente.
Era injusto com ela. Com nós dois. Eu sabia que era irracional, mas meu desejo por ela parecia quase incestuoso. Nos primeiros 22 anos da vida dela, eu poderia defini-la quase inteiramente pelo que ela não era: minha filha. Esse único fato mudou todo o rumo da minha vida. E, mesmo que ela não fosse minha filha, era filha de alguém que eu amei, com quem fui casado. E, embora aquela desilusão já tivesse cicatrizado há muito tempo, embora eu já tivesse encontrado e perdido o amor de novo, ainda me sentia desconfortável quando, às vezes, olhava nos olhos dela e via a mulher do meu passado em vez dela.
Ela era jovem. Era filha da minha ex-mulher. Tinha uma vida inteira pela frente, uma vida que deveria ser passada com alguém que pudesse envelhecer ao lado dela. Ela nunca demonstrou um interesse explícito em mim além de amigo e mentor, talvez até uma figura paterna substituta para a que foi arrancada da vida dela. E, para completar, enquanto eu dizia a mim mesmo que meu carinho era pela Luisa, sempre me preocupava estar projetando meus sentimentos pela Julia nessa mulher que se parecia tanto com ela.
Eu me importava com o bem-estar dela. Eu era o homem mais velho e responsável. Por isso, coloquei meus sentimentos de lado e deixei minhas fantasias com ela como apenas isso, disfarçando meu afeto romântico como nada mais do que um afeto platônico por uma amiga mais jovem.
Mas então os acontecimentos conspiraram para remover esse disfarce.
As crianças estavam na escola, e Luisa e eu corremos, como fazíamos todas as manhãs. Às vezes, eu corria lado a lado com ela, quando ela estava pegando leve comigo, mas, na maioria das vezes, eu ficava alguns passos atrás. Aprendi a manter os olhos nos ombros e na cabeça dela enquanto corria; deixá-los descer mais foi o motivo de eu começar a usar shorts de basquete nos nossos exercícios matinais.
Paramos na calçada da minha casa; nossa casa agora, a que ela dividia com minha família. Ela era da família agora, de verdade, do jeito que tinha se integrado conosco ao longo dos meses em que estávamos juntos. Dez meses depois de conhecê-la, cinco depois dela se mudar, e ela era o quarto membro mal definido, mas insubstituível, da nossa casa.
Ela arfava: "Quase me alcançou dessa vez, velho."
Não respondi, em vez disso, bufei e ofeguei tentando recuperar o fôlego. Eu não tinha chegado nem perto de alcançá-la, exceto quando ela deixava. Mas eu sabia que, depois do nosso tempo correndo, eu ainda estava na melhor forma desde que tinha a idade dela.
Uma vez lá dentro, ela me jogou uma garrafa d'água da geladeira, depois deu um longo gole na dela. Eu desviei ligeiramente os olhos; vê-la levar a garrafa longa e fina aos lábios, o jeito como a pele brilhava de suor, o fio de líquido escapando pelo queixo, o suspiro alto depois de beber fundo demais por tempo demais, tudo trazia à mente um ato muito mais íntimo.
Nosso ritual pós-corrida nas quartas-feiras era tão estabelecido que não precisávamos conversar sobre o que vinha a seguir. Eu tomava banho enquanto ela fazia uma limpeza leve no quarto dela, depois eu saía para minha aula das 10 horas; ela iria um pouco mais tarde e, se tivéssemos tempo, nos encontraríamos para almoçar.
Dando um tapinha afetuoso no ombro dela enquanto passava, subi para o meu quarto. Era um daqueles dias em que eu não tinha tempo para mais do que um banho frio. Não ajudava nem de perto o suficiente, como de costume. Mas consegui terminar, me vestir e sair no horário de sempre; eu lidaria com meus impulsos biológicos mais tarde.
Gritei meu adeus, mas não ouvi resposta. Luisa costumava trabalhar com fones de ouvido, então não foi surpresa. No entanto, uma surpresa veio quando eu dirigia para o campus, na forma de uma ligação de um colega. Uma das equipes de construção trabalhando nas reformas intermináveis do prédio de Inglês tinha atingido um cano de gás; metade do campus tinha sido evacuada, e não havia motivo para eu ir.
Eu estava a apenas dez minutos de estrada, então dei meia-volta e pensei em levar Luisa para um café da manhã tardio. Mas, quando entrei pela porta, ouvi-a chamando meu nome em voz alta, como se estivesse em perigo. Minha mochila de laptop caiu no chão enquanto eu corria para o quarto dela; a porta estava entreaberta, e eu irrompi.
Luisa estava deitada no colchão de casal, quase completamente nua, os fones de ouvido mascarando qualquer ruído externo. A única peça de roupa em seu corpo era uma calcinha confortável; a mão direita estava dentro do cós, movendo-se freneticamente enquanto ela gemia e chamava meu nome de novo. Apertado na mão esquerda estava um papel familiar, um dos muitos que geralmente ficavam na caixa de sapatos que ela trouxe no primeiro dia em que nos conhecemos.
Seus olhos estavam bem fechados enquanto ela suspirava e gemia. "David! Ai, Deus, David, ai... ai, Deus, ai, Deus!" Aquele corpo adorável se retesou, um novo brilho de suor fazendo sua pele escura reluzir. Sua voz se transformou em uma série baixa de grunhidos antes de ela uivar: "Eu te amo!" Luisa tremeu enquanto o orgasmo a tomava, tremendo como uma folha, a mão direita se movendo ainda mais rápido enquanto tentava prolongar o clímax.
Ela estava tão linda, superando facilmente as fantasias com que eu me contentava no chuveiro ou na cama tarde da noite. Fiquei paralisado, incapaz de me mover, incapaz até de desviar o olhar. Mesmo que pudesse, não acho que teria vontade. Era errado vê-la assim, eu sabia. Mas ela tinha chamado meu nome. Disse que me amava! Como eu poderia simplesmente ir embora?
Então Luisa me viu, e o encanto se quebrou. "Luisa, eu--" Ela rapidamente se mexeu para cobrir a nudez, pegando o sutiã esportivo que estava perto da cabeça.
Mas então ela viu minha excitação, a dureza armando minha calça. Com a boca ligeiramente aberta, ela lambeu os lábios. "Eu-- achei que você tivesse ido embora." Sua respiração estava superficial, fosse da sessão de amor próprio ou de uma nova excitação, eu não sabia dizer.
Foi difícil formar uma frase coerente. "Eu, hum, a, hum, a escola... houve um vazamento de gás. Fechou."
"Ah." Ela colocou o sutiã esportivo de volta pela cabeça. "Você..." O constrangimento estampado no rosto. "Não era para você ver isso. Me desculpe."
Só consegui rir. "Você sente muito? Eu--" Suspirei. "Eu ouvi você chamando meu nome. Achei que estivesse... machucada, ou, ou sei lá. Que precisava de mim."
Luisa saiu da cama e andou em minha direção, um sorriso tímido e esperançoso nos lábios. "Bem, eu preciso, na verdade." O rosto dela estava tão perto que eu podia me inclinar e beijá-la. "Eu só não sabia como te contar. Talvez seja melhor assim." Ela fechou a distância, ficando na ponta dos pés e roçando delicadamente os lábios nos meus. "Eu preciso de você, David. Eu te amo."
"Luisa, eu--"
"Shh, David. Só me deixa explicar?" Eu assenti, e ela me levou para sentar na beira da cama, não perto o suficiente para nos tocarmos. "O que eu te contei, tudo, era verdade. A morte dos meus pais, como encontrei a caixa de cartas, tudo. Mas o que eu não te contei..."
Ela baixou o olhar e sorriu. "Quando comecei a lê-las, achei que eram lindas. Tão doces. As que você escreveu quando era mais novo eram... bem, eram bem toscas. Mas tão apaixonadas. E conforme você escrevia mais, conforme ficava mais velho e seu amor pela minha mãe se aprofundava..." Ela riu baixinho. "Eu fiquei encantada. Com ciúmes, até. Nunca ninguém tinha sentido algo assim por mim. Ou talvez tivesse, mas eu nunca tinha sentido algo assim por ninguém.
"Quando cheguei ao fim e as cartas pararam de repente, admito que fiquei um pouco obcecada. Por que tinham parado? Como algo tão intenso tinha fracassado? Minha mãe fez alguma coisa para afastá-lo? Ou eram apenas palavras bonitas de um canalha que a abandonou? E então, quando pensei mais sobre as possibilidades, especialmente sobre a ideia de que você pudesse ser meu pai..." Uma risadinha pesarosa e um olhar de lado. "Bem, admito, isso deu uma esfriada na paixonite. Mas não na obsessão de saber o que aconteceu. Como eu disse, porém, acabei desistindo e decidi viver com a ideia de que nunca saberia."
Ela colocou a mão na minha. "E então o destino interveio. Ou sorte, ou como você quiser chamar. Eu me deparei com aquela sua foto. Descobri a verdade por você. E partiu meu coração, só um pouquinho. Que minha mãe recompensaria aquele tipo de amor com tanto desrespeito. Que meu pai seria tão... desonrado, eu acho. Finalmente entendi de onde veio o rompimento com o vovô, acho. Ele era tão apegado à lealdade entre amigos que o filho fazendo aquilo..." Luisa balançou a cabeça.
"Mas quando conheci você, e descobri a história, me fez sentir... Eu percebi que minha paixonite nunca tinha ido embora completamente, o afeto por aquele garoto, depois aquele jovem, pelo jeito como ele derramava seu amor nessas cartas tão lindamente escritas. E então... e então eu passei a conhecer você, conhecer de verdade. O homem que você se tornou desde que escreveu as primeiras. Gentil e doce. Generoso com seu tempo para alguém que você não conhecia de lugar nenhum. Um ótimo pai. Um esposo dedicado. Tão inteligente. Tão engraçado."
Ela apertou minha mão e olhou diretamente para mim. "Eu me apaixonei por você. Não só uma paixonite, mas amor. Mas eu sabia que você era... seu comportamento sempre foi irrepreensível. Não só comigo, mas com suas alunas. As outras garotas no campus. Eu perguntei um pouco sobre você, e sabia que você era um dos que absolutamente, positivamente não tolerariam nem um pingo desse tipo de escândalo. Não só por causa da sua carreira, mas porque... porque você é simplesmente um cara incrível. Um homem bom."
Luisa se arrastou só um pouquinho mais para perto de mim, e eu me virei levemente para ela. "Mas Deus, David. Deus, como eu quero que você deixe isso de lado por mim. Eu sei que sou mais nova que você, e você não quer se aproveitar. Eu amo isso. Mas não é se aproveitar. Eu-- eu sei como você olha para mim. Como isso te deixa envergonhado. Mas o que você não sabia é que eu amo isso.
"Mais cedo, depois da nossa corrida... depois de todas as nossas corridas, eu queria que você simplesmente me agarrasse e me beijasse. Eu venho para o quarto depois que você sai toda quarta-feira e leio essas cartas e finjo que são para mim, porque é o que eu quero tanto. Eu me toco, desejando que o homem que as escreveu me ame tanto quanto eu o amo."
Ela colocou a mão no meu rosto, e eu pude sentir, de leve, o cheiro dela ainda nela. "Você me disse que todo mundo deveria ter um amor como um incêndio florestal pelo menos uma vez na vida. É você, David. Você é meu incêndio."
Os olhos da Luisa estavam tão lindos naquele momento. Brilhando com lágrimas não derramadas, temerosa de que eu a rejeitasse. Uma parte de mim dizia que eu deveria, que ela tinha me construído como algo que eu não era. Mas eu a queria tanto. A amava. Ansiava por ser consumido naquele incêndio com ela. Todas as minhas dúvidas vieram à mente, enquanto eu lutava para ser o adulto, o maduro, e cada uma delas foi rebatida pelo que ela revelou, até que só sobraram os olhos da Luisa.
Olhos da Luisa. Não da Julia. Eu não tinha percebido até aquele exato momento que não via Julia ali há muito tempo; meses, talvez. Ela não era a filha da Julia. Era a Luisa, sua própria pessoa linda e maravilhosa. Isso não era uma saudade do passado. Eu amava a Luisa, e a amava como achei que nunca mais poderia amar.
Minha mão enxugou a lágrima da bochecha dela enquanto eu me inclinava. A boca dela se abriu ligeiramente, em parte surpresa, em parte desejo, mas então o corpo dela avançou para fechar o espaço entre nós. O primeiro beijo que ela me deu tinha sido doce e hesitante. Esse beijo não era nenhum dos dois. Era a faísca que incendiou nosso mundo.
Enquanto nossas línguas dançavam juntas, as mãos da Luisa puxavam minha camisa. Foi descartada rapidamente, logo antes da calcinha dela, ainda úmida da sessão solo anterior. Eu a empurrei gentilmente para trás na cama, finalmente olhando sem culpa para aquela linda jovem. Seu monte de pelos bem aparado me provocava, e minha boca se encheu d'água na expectativa de prová-la pela primeira vez. Mas ela tinha outras ideias.
Um dedo pressionou para cima sob meu queixo, atraindo meu olhar para os olhos dela enquanto ela implorava: "Depois. Por favor. Preciso de você dentro de mim."
Suas mãos foram para o meu cinto, mas eu as afastei, abrindo a fivela eu mesmo. "Quero te ver. Toda você." Luisa sorriu enquanto fazia um show tirando o sutiã lentamente, revelando aqueles lindos seios para mim mais uma vez, com seus mamilos fofos cor de chocolate. Aproveitei um momento para provar um deles enquanto desabotoava e abria o zíper, arrancando um gemido mal contido da garganta dela.
Um breve intervalo foi necessário, infelizmente. Levantei para tirar as calças enquanto ela olhava aprovadoramente. Quando fiquei totalmente nu diante dela, aqueles olhos escuros e adoradores pousaram no meu pau duro como aço. Me senti um adolescente de novo, meu corpo infundido de energia enquanto a deslumbrante jovem de pele morena olhava para minha ereção com um sorriso lascivo. "Nnnf, se eu soubesse, teríamos acabado aqui muito antes."
Eu ri e me ajoelhei na cama. Luisa abriu lentamente as pernas, me convidando com um sorriso. Seria rude recusar. Enquanto me posicionava entre elas, ela alcançou meu pau, o polegar espalhando o pré-gozo pela cabeça. "Deus, David, está tão duro." Um sorrisinho. "Vamos ver o que podemos fazer quanto a isso." Ela o colocou nos lábios, deslizando para cima e para baixo pelos lábios molhados.
Eu empurrei, só um pouco. Um gemido baixo escapou dos lábios dela, os olhos fechados, e a testa franzida quase como se a doesse não me ter dentro. "Pooooor favoooor--" E então eu empurrei de novo, insistentemente, mais e mais fundo nela, e a voz da Luisa se transformou em um gemido alto e prolongado. A boceta dela me envolveu, uma suavidade aveludada apertando minha dureza, molhada e quente. Exquisita. "Tão grande pra caralho-- ai, Deus, David, tão bom pra caralho!"
Beijei minha jovem amante enquanto meu pau se enfiava até o fundo naquela xoxotinha doce. Luisa soltou um suspiro feliz que se transformou em um gemido dolorido quando me retirei, depois mudou de novo para balbucios alegres conforme encontrávamos nosso ritmo juntos. "É tão bom, David, por favor, por favor, eu amo, por favor, eu te amo, sou sua, isso é seu, me mostra, me mostra, amor, me mostra que sou sua, eu amo ah--!" O primeiro dos orgasmos dela a tomou, estrangulando qualquer palavra por um tempo enquanto ela enterrava o rosto no meu pescoço e me abraçava forte.
Já fazia bastante tempo para mim, mas eu estava determinado a aguentar o máximo possível. Luisa era incrível; não só sua boceta maravilhosamente apertada, mas o jeito como ela se movia sob mim e arranhava minhas costas. Ela era entusiasmada e vocal, apaixonada e atlética. Ela me incentivava enquanto eu metia nela, me elogiando, me implorando, me fodendo. Eu queria ser o melhor amante possível para ela, o melhor homem que ela pudesse desejar. "Eu te amo, Luisa." Seus olhos se encheram de lágrimas com isso, e ela se agarrou forte enquanto eu corria para meu próprio clímax.
"Por favor, David. Me mostra. Me mostra o quanto você me ama. Me mostra que sou sua. Sou sua, amor, sou sua. Goza, David. Goza dentro de mim, por favor, por favor, por favooooooor!" Ela gozou de novo, e eu gozei com ela, grunhindo e batendo uma, duas, três vezes nela antes de parar, enchendo a boceta apertada dela com minha semente. "Isso! Isso, caralho, David! Mmmm, amor, é tanto, é muito!" Ela beijou meu pescoço, se aconchegando nele enquanto nossos batimentos cardíacos diminuíam.
Depois, enquanto estávamos deitados juntos, ela se aninhou de conchinha ao meu lado no ninho do meu braço. "Isso foi.... Mmm, David. Eu quero mais."
Eu ri. "Pode demorar um pouquinho, querida. As desvantagens de se apaixonar por um velho."
A mão dela subia e descia pelo meu peito. "Para com isso. Você não é velho. Você é experiente."
Eu bufei: "Ancião."
Um beijo na minha lateral: "Habilidoso."
"Decrépito."
"Veterano."
Não resisti. "Veterano, hein? Quer provar?" Com um sorriso largo, ela deslizou pelo meu corpo e me levou à boca, e eu descobri com que facilidade ela conseguia me fazer sentir jovem de novo.
A manhã e o início da tarde continuaram mais ou menos assim, com breves pausas para um almoço leve e depois um banho. Nenhum dos dois acabou sendo muito uma pausa, para falar a verdade; tivemos que limpar a cozinha depois muito mais do que se simplesmente tivéssemos comido, e provavelmente saímos do banho mais sujos do que quando entramos. Mas então, depois, sentamos no sofá e conversamos.
Ela deitou a cabeça no meu colo; uma hora antes e provavelmente não teríamos conseguido evitar transitar para outra atividade, mas finalmente havíamos atingido meus limites. Pelo menos por enquanto.
"Eu te amo, Luisa. Você tem certeza..." Suspirei enquanto acariciava seus cabelos. "Você tem certeza de que é isso que você quer? Eu quero que você tenha um bom futuro. Uma vida feliz. E eu sou tão mais velho que—"
Ela pressionou um dedo nos meus lábios. "Você não é tão mais velho assim. Isso não é o século 19, David. Você vai viver até uma idade avançada, e eu vou arrastar sua bunda para corridas todo dia para garantir isso. E já comecei a cozinhar mais saudável para você também."
"Mulher insidiosa."
Luisa riu. "O que for preciso, amor. Tenho que garantir que você viva muito tempo. Agora eu sou sua. Sem devoluções."
"E quanto a filhos?"
"Dana e Lewis?" Ela mordeu o lábio. "Espero que eles fiquem bem com... Deus, eu nem... merda."
Eu ri. "Não, não eles. Eles amam você."
"Eles amam a 'Luisa, a irmã mais velha legal.' Não tenho certeza de como vão se sentir com 'Luisa, a...'" Ela parou, incerta sobre como terminar a frase.
"'A madrasta legal?' Ou pelo menos eventualmente, com sorte?"
Ela corou, mesmo enquanto um sorriso enorme se espalhava pelo rosto. "Sério? Eu não espero... Eu sei que isso é novo e não quero—"
Agora era minha vez de silenciá-la. "Eu quero. Se é o que você quer. Não precisa ser oficial, mas não estou procurando algo casual. Eu quero— estou apaixonado por você. E quero que seja algo sério, com intenções sérias. Não agora, nem ano que vem. Mas não quero ser só seu caso juvenil e apaixonado, ok?"
Luisa engasgou, incapaz de falar, então me abraçou forte. Senti ela assentindo fervorosamente contra meu estômago, então um pequeno "Sim. Deus, sim." Ficamos sentados assim por um tempinho.
Então suspirei. "Mas sobre filhos, você quer tê-los? Se você engravidasse hoje, eu—" Ah, merda. "Espera, você toma pílula?"
Ela riu longa e alto. "Sim, claro que tomo. Sou tarada e apaixonada, não burra." Ela relaxou o aperto em mim, virando a cabeça de volta no meu colo e me olhando. "Espero que eles tenham seus olhos, no entanto. Sim, eu quero ter seus filhos. Se você está preocupado em acompanhar eles, não fique. Eu vou te manter em forma, lembra?" Um sorriso diabólico passou pelo seu rosto. "Tenho que manter sua stamina em dia, afinal."
Lewis e Dana aceitaram melhor do que eu esperava. Dana apenas deu de ombros e disse "Já era hora", e saiu para jogar Roblox. Lewis estava um pouco abatido; acho que ele nunca desistiu completamente da ideia de talvez, eventualmente, de algum jeito conquistar a Luisa. Mas então, mais tarde, quando era só eu e ele assistindo TV, ele disse: "Luisa, hein?" Eu assenti. "Legal." E ele assentiu de volta, um pequeno gesto de respeito. De um garoto adolescente. Essa foi talvez a maior surpresa do dia.
Houve um pouco de consternação no campus, mas não muita; não havia limites éticos violados, e eu tinha uma boa reputação para começar. A família da Luisa acabou sendo o maior obstáculo; vários deles sabiam do meu passado com a mãe dela, e me trataram como uma espécie de velho pervertido e assustador, mas ela acabou dando uma bronca neles em um espanhol muito rápido e alto que eu mal consegui acompanhar. Ninguém realmente disse 'ai' depois disso.
Nós nos casamos uns dois anos depois; ela estava radiante em seu vestido de noiva, grávida de cinco meses do nosso primeiro filho. Lewis foi meu padrinho, um dever que ele levou muito, muito a sério. Nosso casamento foi feliz, e cheio de amor. Quando já estávamos velhos, Luisa tinha um baú cheio de cartas minhas, todas contando do meu amor por ela, às vezes com palavras doces e castas, às vezes... nem tanto. De jeito nenhum a gente deixaria nossos filhos lerem aquilo.